NOVOS FRAGMENTOS (XXVIII)
Para um Discurso sobre a Poesia
João de Almeida Santos

“TRAVESSIA” – JAS 2022 – 93×118, papel de algodão, 310gr, e verniz Hahnemühle, Artglass AR70, em mold. de madeira
PÊNDULO
É o eterno retorno, Diz à musa O poeta, É sempre ir E voltar, Tic, tac, Mas tenho sempre Uma meta Antes de Ao meu chão Regressar.
NÃO, EU NÃO PARTI DE VEZ, respondi a um Amigo que me perguntava – glosando o meu poema – se, nele, eu já partira de vez. E mais lhe disse, para acentuar a diferença: Não vês? Os poetas nunca partem de vez. Vão partindo, vão ficando. Ficam, partindo. E partem, ficando. É um autêntico vai-e-vem, sem saírem do lugar. O lugar dos poetas é mais condição do que lugar, não é lugar propriamente dito. No sense of place. Partem para ver se encontram o que anteviram (na memória) antes de partir. É viagem no tempo. E é o desejo, o que os move. A força propulsora do desejo. O que procuram, afinal, já está neles. Partem para um lugar que não é bem um lugar. É o intervalo entre a presença e a ausência. Entre o presente e o passado. Colocam-se ali, nesse ponto axial. E é de estarem ali que lhes vem a intermitência matricial, mas também criativa. Estão sempre a partir, permanecendo onde estão, mas, ao regressarem, o lugar, afinal, já não é o mesmo. É um oásis num deserto. Numa terra de ninguém. A sua existência é uma dinâmica, não uma fixidez. Há sempre como que um refresh. O chão do poeta é mesmo movediço. O movimento acontece em espiral ascendente e progressiva. E no retorno já tudo mudou. É como a mobilidade estática ou como a permanência dinâmica.
O poeta vive num mar de ondas revoltas, mas nunca naufraga. Porquê? Porque está em permanente naufrágio. Naufragar é preciso… para sobreviver como poeta. O naufrágio é o seu ambiente natural. Mas quando a alma se está a afundar (o afundamento recomeça sempre) chega o espírito, animado pela fantasia, para a resgatar, e levanta voo, às vezes para uma ilha perdida, antes de se fazer de novo ao mar onde sempre está a naufragar. Mas, para que isso aconteça, é preciso “ter espírito”. Se não o tiver, ele não chega, como é natural. É o espírito que o leva para a fronteira entre o mar e a terra, entre a presença e a ausência, entre o passado e o futuro. E é ali que começa o voo. E é por isso que ele também sobrevive aos desencontros, que são como os naufrágios. Dá-lhes a volta montado em palavras, que as leva o vento. Às vezes para longe. A vida de um poeta é como um pêndulo (entre a presença e a ausência, entre o presente e o passado, entre a terra e o mar), tic, tac, tic, tac…
Está e não está, Não está E volta a estar, É sempre Um vai-e-vem, Tic, tac, Nunca consegue Parar.
Um poeta parado é poeta morto. Ser poeta é uma condição. “Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens”, já dizia a nossa Florbela Espanca. “É ter sede de infinito”. Quem tem sede de infinito nunca pode parar. Se pára, não alcança. E esquece e recalca. E fica sujeito às ondulações imperceptíveis da alma, como uma moinha persistente que não pára e se enrola em si mesma, sem sair de si. E há risco de compressão insustentável. Por isso, mesmo que nunca alcance (o infinito nunca se alcança, a não ser no olhar, quando duas linhas paralelas se encontram ou no olhar interior onde, todavia, há sempre a neblina cintilante própria do infinito), tem sempre de caminhar. Hacer camino al andar. E deixar pegadas, sus huellas, como marcas de quem passou por ali em busca do tempo perdido ao sabor das ondas do mar. Tempo que nunca recupera nem alcança. Se alcançasse, morria como poeta. As pegadas são as palavras. Os que vivem em ambiente poético viajam e constroem caminho “al andar”. Por isso, ficando, o poeta viaja e bate à porta dos que também gostam de assim viajar: aqui estou, pronto para a liturgia dos amantes da palavra. Não dos turistas da palavra, mas dos amantes, como queria o Lorca. E, no fim, dirá, sorrindo: Amen.
ONTOLOGIA DO ESPAÇO INTERMÉDIO
Numa primeira aproximação literal, diria que, naturalmente, podemos estar (fisicamente) num lugar e (mentalmente) noutro. Depois, a dúvida: mas se já lá estou (mentalmente) ainda tenho de partir (fisicamente) para completar essa presença? Claro, afinal, são duas coisas diferentes. Dissociação? Ou gosto mais de estar onde não estou? Onde é que estou mais? Onde estou ou onde não estou? O que é mais importante: estar espiritualmente ou fisicamente? É legítimo desdobrar-se? Talvez. Manter-se num lugar sem de lá sair é como estar confinado. Ou, então, estou em igual medida em ambos os lugares, dissociado, onde estou e onde não estou… Desdobramento perfeito, que não existe. Pende-se sempre mais para um lado. E o poeta pende sempre mais para o lugar onde não está. Ser movido pela utopia não é, afinal, estar sempre a sair de onde se está? Constrói-se um lugar melhor do que aquele onde se está. Mas a utopia é a ausência de lugar (u-topos). É, pois, um movimento no tempo mental. O que é interessante notar é que quando a alma se desloca (por exemplo, por afecto ou para a utopia) para um lugar diferente (onde está o ser amado ou o lugar ideal) essa deslocação pode ser considerada também física (amo também com o corpo). A alma tem uma certa fisicidade. Verdadeiramente, ela é o corpo do espírito. Só o corpo, o outro, fica. A alma e o espírito partem e resta o corpo existencialmente inerte e mudo, porque a alma migrou para outro lugar. Corpo sem alma (e há muitos por aí). Muitos dizem que a arte só surge em modo de ausência e de silêncio. Quando o objecto de atenção está noutro lugar ou noutro tempo. Sim, e é por isso que ela nasce num intervalo. Só assim ela pode observar para os dois lados, para trás e para a frente, para o presente e para o passado, para a terra e para o mar. É uma poderosa ontologia do espaço intermédio entre o presente (físico e temporal) e a ausência e o silêncio. A arte é, assim, movimento em busca do que se perdeu e da palavra acerca do que se perdeu. Em livres associações (Novalis). Como diz o desassossegado Soares, ainda mais radicalmente: saudades do que não aconteceu. Não há, pois, lugar, espaço para visitar. Só desejo. Revisitar o desejo. Reconstrução do desejo sob outra forma. Neste processo não sabemos onde estamos, não há lugar. Ou melhor, é mesmo um intervalo. Porque não houve lugar num não-acontecimento. Houve tempo, não houve espaço. Que é feito, então, da unidade de um sujeito sem lugar, sem âncora física? O que é feito do corpo? O lugar cede ao tempo. E o corpo também. Na verdade, a alma é mais do tempo do que do espaço. E estamos ao mesmo tempo no presente e no passado, que é como habitar um intervalo. Na terra de ninguém. Estar numa fronteira sem território. Não se faz poesia com o sol a bater-nos no rosto, quando há excesso de realidade e o espaço domina. Ela acontece sempre na penumbra e numa atmosfera de vazio espacial. Esbate-se o presente, o sentido de lugar e aviva-se o tempo, o passado. O intervalo pende para o passado. A poesia é filha do tempo, não do espaço. A redenção é, pois, a arte, que é já uma opção pelo tempo que a nossa alma habita (e é sempre o futuro, para onde passa a pender a alma artisticamente configurada). Estar e não estar no presente, conseguindo fazê-lo com autenticidade? Só com reserva absoluta. Mas para isso é preciso deslocarmo-nos para um intervalo, um “entre”. Pode viver-se, assim, uma certa paz inquieta. É como estar inclinado. O que nos endireita, mas só por momentos, é a poesia. A vida é uma rampa inclinada e a poesia é como um skate espiritual que nos permite percorrê-la, sem as limitações corporais, mas em condições sempre um pouco periclitantes. Por exemplo, deslizar sobre muros existenciais descontínuos, tendo por isso de fazer saltos com o skate poético. É perigosa, a poesia. Produz vertigens. E até quedas aparatosas. Mas é um permanente desafio de liberdade.
JAS@06-2026