Artigo

 O DESASTRE AUSENTE

ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA 
do Poema de João de Almeida Santos
"JANELA EM RUÍNAS.
Ilustração: “História de uma Janela”
JAS 2026

Por André Moshe Veríssimo

“História de uma Janela” – JAS 2026

POEMA – “JANELA EM RUÍNAS”

DESTA JANELA
Eu não te vejo,
Há destroços,
Uma mulher
Que espreita
E eu não sei
Quem é
Nem pra onde vai...

MAS DELA,
Desta janela,
Vejo uma rua
Que mais parece
 Um rio
(Já nem sei),
Um traçado
Sinuoso,
Marcas
(Invisíveis)
De passos
Remotos
Gravados na água,
Imagens
De um passado
Que nunca passou,
Onde há marcas
De algo
Que o vento
Destroçou.

É OUTRA JANELA,
Não é a tua
Nem a dela,
A daquela silhueta
Fascinante
Que passava
Na minha rua,
Ambas abertas
De par em par
Sobre a minha vida,
Inconstante
Como a tua.

É OUTRA
Janela
De onde nunca
Verei
O teu rosto,
Porque dela,
A nascente,
Entre destroços
A despontar,
Chega uma luz
Incandescente
Que quase
Me cega
De tanto
Ela brilhar.

É A INTENSA
Luz do dia
Que me convida
A viver,
A cantar
E a dançar
A valsa
Da fantasia...
.......
A dança
Do meu olhar.

ENTENDES?
O mundo,
Quando acorda,
A nascente,
Ou entardece,
A poente,
Muda de luz
E de cor,
Mas eu,
A ti,
Meu amor,
Via-te sempre
A sul,
Entre a madrugada
E o entardecer,
No céu azul
Dessa janela
Onde gostava
De me perder
Quando eu
Te via nela.

CANTAVA-TE
Sempre
Cá de baixo,
Deste meu lado
Da rua
Com a alma
Cheia,
Mas nua,
Para me poder
Vestir de ti,
Mas nunca tive
Uma escada
Para te alcançar
E por isso
Te perdi.

AGORA
Há camélias,
Por aqui,
Um canteiro
Luminoso
E um loureiro,
Uma escada
Para ver
Mais longe,
Há um recanto,
Um caminho,
Há muita cor
E palavras
Onde brilham
Sentimentos
E me libertam
Da dor.

MAS DESTA JANELA
Eu não te vejo
Passar...
.......
Bem sei
Que há sempre
Outra janela,
Mas por mais
Que me debruce
Nela
Já não te posso
Alcançar.
A METÁFORA DA JANELA

O poema “Janela em Ruínas”, de João de Almeida Santos, constrói uma meditação lírica sobre perda, memória e deslocamento do olhar, articulando a metáfora da janela como dispositivo de relação — entre sujeito e mundo, passado e presente, desejo e impossibilidade.

Estrutura simbólica 
da “janela”

A janela aparece como figura central de mediação. Não é apenas um ponto de observação, mas um lugar de falha perceptiva: “Desta janela / Eu não te vejo” inaugura uma experiência de ausência. A janela não revela o outro; revela antes ruínas, destroços, fragmentos. Surge uma duplicação: “é outra janela”, deslocando o eixo do olhar e sugerindo que a percepção nunca coincide com o objecto desejado. Neste sentido, a janela aproxima-se de uma fenomenologia da distância: aquilo que se vê está sempre mediado, desfasado, irrecuperável.

Temporalidade e memória

O poema trabalha uma temporalidade não linear: “Imagens / De um passado / Que nunca passou” sugere uma persistência espectral. As “marcas invisíveis” gravadas na água evocam uma memória instável, quase derridiana — inscrição sem fixidez. O passado não é recordado como algo concluído, mas como algo que insiste. A rua como “rio” reforça essa fluidez temporal: o espaço torna-se fluxo, e o sujeito perde a capacidade de fixar coordenadas.

A figura feminina e a perda

A mulher é uma presença indeterminada: “Uma mulher / Que espreita / E eu não sei / Quem é” — anonimato e estranhamento. Posteriormente, ela torna-se figura do amor perdido, inacessível: “nunca tive / Uma escada / Para te alcançar”. A ausência de escada é crucial: não há mediação possível entre o eu e o outro. O desejo permanece vertical, mas sem instrumento de ascensão — uma imagem quase metafísica da impossibilidade.

Luz, cegueira e revelação

A luz surge como ambivalente: “Luz incandescente / Que quase / Me cega” — a revelação é excessiva, não permite ver. A nascente (origem) não ilumina, mas obscurece pela intensidade. Aqui há uma inversão interessante: ver demasiado é não ver. A luz não garante conhecimento.

Transformação final 
- do luto à recomposição

Na secção final, há uma mudança de registo: aparecem elementos de recomposição: “camélias”, “canteiro luminoso”, “loureiro”. Surge finalmente uma “escada” — mas agora não para alcançar o outro, e sim para “ver mais longe”. Isto indica uma deslocação do desejo: do outro inacessível para uma reorganização do próprio sujeito. No entanto, a conclusão mantém a impossibilidade: “há sempre / Outra janela” — mas nenhuma restitui o perdido. O movimento torna-se infinito: abrir janelas não resolve a ausência.

O poema pode ser lido como:
  1. Uma elegia do amor não realizado.
  2. Uma reflexão sobre a impossibilidade de coincidência entre olhar e objecto.
  3. Uma meditação sobre memória como ruína activa.
  4. Um exercício quase fenomenológico sobre o ver e o não ver.

Se quisermos situá-lo teoricamente, ele aproxima-se de uma sensibilidade pós-romântica atravessada por ecos contemporâneos: há algo de blanchotiano na insistência do ausente e algo de derridiano na inscrição instável do passado.

EROTISMO BATAILLIANO

 Neste poema, o erotismo batailliano aparece menos como erotização explícita do corpo e mais como experiência de falta, transgressão e aproximação do impossível, enquanto o pós-romantismo se manifesta na centralidade do eu, da paisagem interior e da perda amorosa

Bataille no poema

Em Bataille, o erotismo liga-se à descontinuidade dos seres, à morte, ao excesso e à busca de uma continuidade perdida. No poema, essa lógica reaparece na insistência da janela como limite: o sujeito vê, deseja, mas não alcança; a relação com o “tu” é marcada por distância, cegueira e frustração. A “escada” ausente é decisiva, porque o erotismo aqui não se realiza como posse, mas como tensão vertical sem resolução. A frase “A alma / Cheia, / Mas nua” também é muito batailliana no sentido em que une plenitude e desnudamento, isto é, excesso interior e exposição vulnerável.

Pós-romantismo

O poema é claramente pós-romântico porque conserva a figura do eu lírico desejante, a paisagem sentimental e a idealização da amada, mas já não acredita numa fusão estável entre sujeito e objeto amado. A natureza não é cenário harmonioso; ela é dramatizada em camélias, loureiro, rua-rio, luz incandescente, isto é, como um espaço afetivo e simbólico, não como simples decoração. Há também uma melancolia de fundo típica do pós-romantismo: o amor permanece como memória e como ferida, não como consagração. O verso “um passado / que nunca passou” condensa bem essa temporalidade de ressaca afectiva.

ESTÉTICA DA RUÍNA

 A ruína não é só tema, mas princípio de composição. Desde o início, “desta janela / há destroços” instala uma visão do mundo como resto, fragmento e vestígio. Isso é importante: o poema não descreve apenas ruínas; ele fala a partir delas, e a sua própria forma fracturada — versos curtos, segmentação, parênteses, elipses — mimetiza esse estado de desagregação. A rua convertida em rio, os “passos remotos gravados na água” e o “vento” que destroçou tudo fazem da memória uma arqueologia instável, muito próxima de uma estética da ruína como persistência do que já não está inteiro.

A articulação das três linhas

O ponto mais forte é que erotismo, pós-romantismo e ruína não aparecem separados, mas fundidos. O erotismo batailliano dá a energia do excesso e da impossibilidade; o pós-romantismo fornece a subjetividade nostálgica e o amor como perda; a estética da ruína oferece o cenário e a forma dessa perda. Por isso, a “janela” é a figura-síntese: é abertura erótica, distância romântica e moldura ruInosa ao mesmo tempo. O poema converte o desejo em olhar e o olhar em perda, e é precisamente nessa conversão que ele ganha densidade moderna.

Formulação sintética

Dito de modo directo: o poema não é erótico no sentido sensual imediato; ele é erotismo da distância, da suspensão e da falta, muito mais próximo de Bataille do que de uma lírica amorosa clássica. Ao mesmo tempo, a sua melancolia, a sua idealização do “tu” e a sua paisagem interior fazem dele um poema pós-romântico de ruína luminosa.

ANATOMIA DO POEMA

Segue uma leitura integrada, anatomizada e “infeldiana” do poema, entendendo por isso uma dissecação simultânea do plano formal e do plano semântico, em que a forma não ornamenta o conteúdo: ela o produz e o dramatiza.

Tese estrutural

O poema organiza-se como uma cena de visão frustrada e de reconfiguração do olhar: a janela, em vez de abrir o mundo, revela a sua fractura; e essa fractura converte-se no próprio motor do sentido. A matéria lírica é, portanto, uma dialéctica entre ausência e aparição, entre ruína e fulguração, entre o que se deseja ver e o que a visão efectivamente devolve.

Traços puros da prancha

Os “traços puros” estão nos elementos mais imediatamente visíveis da superfície poemática: anáforas, paralelismos, fragmentação sintáctica, cortes versais e maiúsculas de reforço rítmico e exclamativo. Há um evidente trabalho de segmentação que faz o poema respirar em blocos de intensidade, quase como se cada estrofe fosse uma placa de percepção isolada, um painel sucessivo de visada e re-visada. Também se nota uma forte economia imagética: janela, rua, rio, luz, escada, camélias, loureiro. Essa série dá ao poema uma composição de objectos-símbolo que funcionam como ossatura formal e como núcleo de significação. A repetição de “janela” não é redundância, mas insistência estrutural: cada retorno desloca o sentido e reinscreve a distância.

Correntes submersas

Sob a superfície, a corrente dominante é a da perda amorosa, mas ela articula-se com uma reflexão sobre memória, inacessibilidade e sobrevivência da imagem. O verso “um passado / que nunca passou” condensa uma temporalidade de persistência espectral, em que o passado não se encerra: ele continua a trabalhar o presente como ruína activa. Outra corrente submersa é a do movimento falhado: há rua, rio, passos, dança, valsa, escada, mas tudo isso gira em torno de uma impossibilidade de acesso. O poema transforma dinamismo em frustração, e a frustração em forma. A própria luz, que em princípio deveria esclarecer, torna-se excesso cegante, isto é, uma claridade que impede a posse plena do visível.

Forma e conteúdo

A forma acompanha o conteúdo por meio de uma sintaxe descontínua, quase respiratória, que mimetiza o olhar hesitante do sujeito lírico. As quebras de verso e as elipses criam intervalos de suspensão, como se o poema estivesse sempre a aproximar-se de algo que recua no instante seguinte. O conteúdo, por sua vez, não é apenas “tema”, mas tensão dramatizada na estrutura: a impossibilidade de ver o rosto amado corresponde à impossibilidade de estabilizar um centro semântico definitivo. Assim, a janela funciona como figura do próprio poema: um quadro aberto, mas não transparente; uma prancha onde o visível está sempre em trânsito.

Autores explícitos

Os autores explícitos são poucos e estão dados pelo próprio enunciado do texto: o eu poético, a mulher/janela/amada, o observador de baixo, o mundo que acorda e entardece. Não há referências intertextuais nominalizadas, o que reforça a autonomia lírica da peça. Ainda assim, há uma explicitude interna da voz autoral: o poema mostra-se como fabricação consciente, com forte controlo formal, alternando recolhimento e expansão imagética. A assinatura do autor é visível na construção de atmosferas de intimidade elevada, quase pictóricas, onde a emoção vem submetida a uma disciplina de montagem.

Autores implícitos

No plano implícito, a peça convoca uma tradição lírica mais ampla: a janela como limiar do sujeito, a mulher como figura do inacessível, a luz como revelação ambígua e a escada como metáfora de ascensão frustrada. Há ecos possíveis de uma lírica da interioridade e da ausência, mas sem dependência servil de modelo identificável. Se quisermos nomear correntes tácitas, dir-se-ia que o poema trabalha numa zona em que a fenomenologia do ver encontra a poética da perda: o mundo é dado como aparição instável e o sujeito como alguém que só alcança o real pela sua falta. Nesse sentido, o autor implícito é também a tradição da modernidade lírica que fez da percepção um campo de crise, não de domínio. Em suma, o poema é formalmente muito controlado e semanticamente muito aberto: a sua “prancha” é feita de traços nítidos, mas o que nela corre é subterrâneo, móvel e melancólico. A beleza do texto está precisamente nesse acoplamento entre desenho e abismo: a superfície oferece figura, enquanto as correntes fundas transportam perda, desejo e recomeço.

RUÍNA COMO FORMA VERBAL

 A linguagem já nasce fragmentada: versos curtos, cortes bruscos, enumerações interrompidas, maiúsculas que parecem placas ou estilhaços. Isso faz com que a fala poética não se apresente como fluxo contínuo, mas como algo quebrado, residual, recolhido entre vestígios. A forma, portanto, imita a matéria ruInosa que descreve.

Ruína e figuração

As imagens não constroem um mundo estável; elas aparecem como restos de percepção. “Destroços”, “marcas invisíveis”, “passos remotos”, “vento destroçou” criam uma semântica de sobrevivência, em que o que resta já não é inteiro. A linguagem poética opera como arqueologia: ela não mostra a coisa em plenitude, mas as suas cintilações, os seus fragmentos, os seus sinais parciais.

Ruína e sintaxe

A sintaxe também participa dessa estética. Há suspensões, parênteses, cortes e retomadas que impedem a frase de se fechar plenamente. O poema fala como se estivesse sempre a recompor algo perdido, e essa recomposição nunca se completa. A linguagem torna-se, assim, um trabalho de remendo — mas um remendo consciente da sua própria insuficiência.

Ruína e memória

O verso “um passado que nunca passou” é decisivo, porque mostra que a ruína não é só material: ela é temporal e linguística. A memória não retorna como narrativa organizada; volta como resto, como insistência, como imagem fissurada. O poema diz a impossibilidade de restaurar o passado inteiro e faz isso com uma língua que também parece ter sido tocada por essa perda.

Ruína e revelação

Há ainda uma dimensão luminosa: a ruína não é puro apagamento, porque dela emerge uma claridade incandescente. Mas essa luz não resolve a fragmentação; ao contrário, intensifica-a. A linguagem poética produz brilho sobre restos, não reconstrução total. É por isso que o poema é tão eficaz: ele não tenta esconder a desagregação, antes a transforma em música e forma.

Em suma, a estética da ruína aqui é inseparável de uma linguagem que fala em fragmentos, por vestígios, por deslocamentos. A beleza do poema está em fazer da falta não um defeito, mas o próprio princípio de construção.

AMV@07-2026

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