Ensaio

ERRÂNCIA POÉTICA E O PESO INFINITO DAS PALAVRAS

Uma Análise do Poema "ERRÂNCIA" 
de João de Almeida Santos

André Moshe Veríssimo, PhD

“Encruzilhada” – JAS 2026

RESUMO

Este ensaio apresenta uma análise multidimensional e integradora do poema ERRÂNCIA, de João de Almeida Santos (publicado em 18 de julho de 2026 no blogue Poesia-Pintura). O texto é reproduzido ipsis litteris, nihil varietur. A leitura articula quatro eixos: (1) sistémico-constitucional, focado na autopoiesis do sujeito poético e nos loops de feedback entre volta, caminho, palavra e musa; (2) kabbalístico, onde a errância ecoa as veredas do Árbol da Vida, o poder criador das letras e a aproximação à Shekhinah; (3) psicanalítica clássica e FPX (fenomenológico-existencial), explorando a repetição compulsiva, o objet petit a, a interpelação da musa, o desassossego e a constituição do sujeito no desejo do Outro; (4) filosófica, com atenção às antinomias, à différance, ao Dasein errante de Heidegger, à sedução e ao peso infinito das palavras. O poema revela-se como acto de magia verbal que, ao desenhar a musa amada, transforma o poeta e aceita o caminho sem chegada como destino e como graça.

Palavras-chave: errância, poesia, musa, palavras, psicanálise, Kabbalah, filosofia da linguagem, João de Almeida Santos.

O POEMA: "ERRÂNCIA", JAS 2026
Poesia-Pintura
Ilustração “Encruzilhada” JAS 2025
INTRODUÇÃO

O POEMA ERRÂNCIA, de João de Almeida Santos, publicado em 18 de julho de 2026 no espaço Poesia-Pintura, inscreve-se numa tradição lírica portuguesa que, desde Pessoa e o seu desassossego, explora a identidade do poeta como sujeito em devir, habitado por vozes outras e em permanente errância. O texto que aqui se oferece não é uma simples exegese; é uma leitura sistémica, kabbalística, psicanalítica e filosófica, articulada em torno de eixos que o próprio poema convoca: as voltas infinitas, o poder das palavras, a musa amada que nunca sabe onde está, o caminho que se faz caminhando e o regresso sempre ao ponto de partida. A análise segue o princípio. A partir da base textual do Poema, propõe-se uma hermenêutica multidimensional que honra a complexidade do acto poético como magia — não ilusão, mas operação real sobre o real do desejo e da linguagem. O “peso infinito das palavras” é o conceito nuclear que atravessa todas as secções: as palavras pesam porque criam, seduzem, transformam e, simultaneamente, revelam a impossibilidade de posse plena da musa e de si. A estrutura do ensaio articula quatro grandes eixos, entrecruzados por antinomias (chegada vs. não-chegada; saber vs. não-saber; fusão emocional vs. autarcia anímica) e por uma dialéctica que não se resolve em síntese fácil, mas se mantém aberta, aporética e, por isso, fiel ao espírito do poema.

ANÁLISE SISTÉMICA CONSTITUCIONAL

Do ponto de vista sistémico-constitucional, o poema configura um sistema dinâmico, autopoiético e não-linear. Os elementos constituintes — voltas, caminhos, palavras, musa, ponto de partida, encruzilhadas — não são estáticos; relacionam-se em loops de feedback recursivo. O poeta “tem de dar” voltas infinitas para descobrir caminhos que o levem “aonde tem de chegar”; todavia, “seja novo ou seja velho, é sempre o mesmo lugar”. A circularidade não é paralisia, mas condição de invenção: o sistema só se mantém vivo enquanto não se fecha. A constituição do sujeito poético dá-se precisamente nessa tensão. O poeta não preexiste à errância; ele torna-se poeta ao inventar “outras vias com as palavras que tem” e ao regressar, sempre, ao ponto de partida. A autopoiesis é evidente: o sistema produz os seus próprios elementos (as palavras geram novos caminhos; os caminhos geram novas palavras). O “lugar habitado por ninguém” funciona como attractor estranho — um ponto de fuga que, por ser inabitável, mantém o sistema em movimento perpétuo. A complexidade manifesta-se na dialéctica entre fusão emocional e autarcia anímica. O poeta deseja fundir-se com a musa amada (“pra tê-la à minha beira, sempre bem perto de mim”), mas a própria estrutura do poema afirma a autarcia: “o fim desta missão é apenas caminhar”. A aceitação da não-chegada não é resignação passiva; é a condição de possibilidade da liberdade criadora. O sistema é, assim, simultaneamente aberto (à musa, ao outro, ao acaso das encruzilhadas) e fechado sobre si (o poeta decide, inventa, desenha com palavras). O peso infinito das palavras reside exactamente aqui: cada palavra é um acto que altera o estado do sistema inteiro.

ANÁLISE KABBALÍSTICA

A leitura kabbalística do poema revela afinidades profundas com a tradição mística judaica, particularmente com o Sefer Yetzirah e a simbólica do Árbol da Vida. As “voltas infinitas” que o poeta tem de dar ecoam as vinte e duas veredas que ligam as dez sefirot. O poeta caminha como o Matat (o Louco) do Tarot — carta zero, ligada à letra aleph e ao caminho do Ein Sof (o Infinito sem fim). Não se trata de progressão linear, mas de errância iniciática que, quanto mais se afasta, mais se aproxima do centro inefável. As palavras possuem, na Kabbalah, poder criador: “Dez sefirot e vinte e duas letras — com elas foram criados todos os mundos”. No poema, o poeta “inventa sempre outras vias com as palavras que tem” e, com elas, “desenha” a musa. O acto poético é, portanto, um tikkun (reparação) linguístico: ao desenhar a musa com palavras, o poeta tenta reparar a cisão entre sujeito e objecto, entre o eu e a Shekhinah — a presença divina feminina exilada, que “nunca sabe onde está”. A musa amada é figura da Shekhinah: amada, procurada, mas sempre um pouco além, no exílio da linguagem. O “lugar habitado por ninguém” corresponde ao Ayin (o Nada) ou ao Keter (a Coroa), o mais alto e inefável das sefirot. Chegar lá seria dissolver-se; por isso, o fim da missão “é apenas caminhar”. O regresso constante ao ponto de partida evoca a teshuvah, o retorno espiritual que, na tradição hassídica, é movimento circular de aproximação e afastamento. O “peso infinito das palavras” adquire aqui ressonância gemátrica: cada letra carrega valor numérico e, portanto, peso ontológico. O poeta, ao interpelar a musa, realiza um acto de hitbodedut (oração solitária) que é, simultaneamente, sedução mística e auto-transformação.

ANÁLISE PSICANALÍTICA 
(CLÁSSICA E FPX)

A dimensão psicanalítica articula a tradição freudiana clássica com a extensão fenomenológico-existencial que designamos FPX (Freud–Fenomenologia–Existencial). Do ponto de vista freudiano, o poema é uma dramatização da repetição compulsiva (Wiederholungszwang). As “voltas” que o poeta “tem de dar”, o regresso sempre ao “ponto de partida”, a dor que “vai crescer” se os caminhos não forem descobertos — tudo aponta para a pulsão de repetição que, em Beyond the Pleasure Principle (1920), Freud liga à pulsão de morte. O amor exige as voltas; a não-descoberta dos caminhos faz crescer a dor. O circuito é masoquista e, simultaneamente, vital: a dor alimenta a criação. Lacan permite uma leitura mais precisa da musa como objet petit a — o objecto causa do desejo, resto irredutível que o sujeito (barrado) procura sem jamais possuir. A musa “nunca sabe onde está” porque pertence ao Real, não ao Simbólico. O poeta, com as suas palavras (cadeia de significantes), tenta “desenhá-la” para tê-la “à minha beira”. Este desenho é o que Lacan chama de fantasia fundamental: o sujeito tenta enquadrar o objet a no quadro da fantasia para suportar a castração. A frase “queira ela ou não queira” é crucial: o desejo do poeta não depende do consentimento da musa; a pulsão goza na própria actividade de interpelar e desenhar. A “magia” da poesia é a jouissance do significante. A vertente fenomenológico-existencial (FPX) aprofunda o vivido da errância. O desassossego que atravessa o poema — perdido, iludido, já fui outro — é Stimmung heideggeriana, o humor fundamental que revela o Dasein ao mundo. A “partida” e o “caminho em frente” são a estrutura ek-stática do tempo: o poeta projeta-se para diante (futuro) a partir de marcas do passado que encontrou “quando ele a procurava”. O “rever” essas marcas é Wiederholung fenomenológico, re-apropriação existencial do já-sido. A austeridade, a frieza e a distância que o poema encena não são frieza afectiva, mas a necessária epoché do poeta: só quem se distancia da ilusão pode desenhar com palavras a musa que nunca chega. O sorriso implícito no final (“parece mesmo magia, mas poesia é assim”) é o sorriso autêntico de quem aceita a aporia sem deixar de caminhar — o que Camus chamaria de “revolta feliz”. A transformação do sujeito (“já fui outro, já fui aquele que agora já não sou”) é o processo de devir-poeta. O eu não é substância; é efeito da linguagem e do desejo. Ao interpelar a musa, o poeta é, ele próprio, interpelado pela linguagem (Althusser via Lacan). O “resto” que fica — o que não se sabe, o que a musa não sabe, o lugar habitado por ninguém — é o núcleo real do poema e o motor da sua repetição infinita.

ANÁLISE FILOSÓFICA 
Aporias, Sedução
e o Peso Infinito das Palavras

A análise filosófica aprofunda as antinomias que estruturam o poema e que nenhuma das perspectivas anteriores esgota. A antinomia central é chegar vs. nunca chegar. O poeta inventa caminhos “à procura do lugar onde nunca chegará”. Esta não é uma teleologia frustrada, é a afirmação de que o telos é o próprio caminhar. Heidegger, em Holzwege (1950), descreve os caminhos da floresta que não conduzem a lugar nenhum determinado, mas que, precisamente por isso, deixam ser o ser. O poema de Santos é um Holzweg lírico: os caminhos inventados não levam à musa; eles são o modo de a musa se dar como ausência presente.

A différance derridiana está em acção em cada verso. O sentido difere (adia) e difere (posterga): o poeta difere o encontro com a musa para continuar a escrever; a musa difere-se a si mesma (“nunca sabe onde está”). As palavras são o diferir infinito. O “peso infinito das palavras” é, simultaneamente, o peso da responsabilidade ética (cada palavra altera o outro) e o peso ontológico (a linguagem é a casa do ser, mas uma casa que nunca se fecha). A sedução é dupla. O poeta seduz a musa com palavras (“é com elas que a desenho”); mas é a linguagem que o seduz a ele. A musa, ao não saber onde está, seduz pela sua própria ausência. O “chamamento” que o poeta dirige à musa é também o chamamento que a linguagem lhe dirige. A “partida” é condição de todo o chamamento autêntico: só quem parte pode ser chamado de volta. O sorriso final é o sorriso socrático-irónico que reconhece a aporia sem se deter nela. A austeridade, a frieza e a distância são, na perspectiva existencial, a condição ética do poeta. Não se trata de indiferença, mas de amor fati nietzschiano: aceitar que a musa “por certo o não amou” e, mesmo assim, continuar a desenhá-la com palavras. A fusão emocional desejada (“tê-la à minha beira”) é temperada pela autarcia anímica do caminhante que sabe que “o fim desta missão é apenas caminhar”. O poema não resolve a tensão; habita-a. E, ao habitá-la, transforma-a em beleza e em verdade poética. O que não se sabe — o inconsciente do poema, o real da musa, o lugar habitado por ninguém — é o que, em última instância, dá peso infinito às palavras. Se tudo fosse sabido, se a musa tivesse um lugar fixo, o poema seria desnecessário. A ignorância da musa e a auto-ignorância do poeta (“já fui outro”) são a condição de possibilidade da poesia como magia verdadeira: não prestidigitação, mas operação real sobre o real do desejo e da falta.

CONCLUSÃO

O poema ERRÂNCIA de João de Almeida Santos é uma meditação densa sobre a condição do poeta no século XXI: sujeito errante, constituído pela linguagem, em busca de uma musa que é ao mesmo tempo Shekhinah exilada, objet petit a lacaniano e figura do Real heideggeriano. As quatro perspectivas aqui articuladas — sistémica-constitucional, kabbalística, psicanalítica (FPX) e filosófica — não se justapõem; entrecruzam-se e iluminam-se mutuamente. O sistema autopoiético do poema é o mesmo que a árvore kabbalística das veredas; a repetição compulsiva freudiana é a mesma que a teshuvah mística; a jouissance lacaniana é a mesma que o Holzweg heideggeriano; a aporia derridiana é a mesma que a aceitação existencial do caminho sem chegada. O que permanece, no final, é o peso infinito das palavras. Cada palavra do poema pesa porque carrega a história de todas as voltas já dadas, todas as musas já desenhadas, todos os “já fui outro” já pronunciados. E, no entanto, o poema afirma, com serenidade quase mágica, que “parece mesmo magia, mas poesia é assim”. A magia não anula a aporia; habita-a. O poeta não chega, caminha. E, ao caminhar, inventa encruzilhadas, decide caminhos e, com as palavras que tem, desenha a musa que nunca sabe onde está — mantendo-a, paradoxalmente, sempre bem perto de si.

Este ensaio procurou ser fiel a esse espírito: não resolver o poema, mas acompanhá-lo nas suas voltas; não fixar a musa num único lugar teórico, mas deixá-la errar entre sistemas, sefirot, significantes e caminhos de floresta. Se o leitor, ao terminar, sentir o mesmo desassossego fecundo que o poema desperta, então a análise terá cumprido a sua missão: não explicar a poesia, mas devolver-lhe o seu peso infinito e a sua leveza mágica.

REFERÊNCIAS

Freud, S. (1953). Beyond the pleasure principle. In J. Strachey (Ed. & Trans.), The standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud (Vol. 18, pp. 7–64). London: Hogarth Press. (Original work published 1920)

Freud, S. (1953). The interpretation of dreams. In J. Strachey (Ed. & Trans.), The standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud (Vols. 4–5). London: Hogarth Press. (Original work published 1900)

Heidegger, M. (1962). Being and time (J. Macquarrie & E. Robinson, Trans.). New York, NY: Harper & Row. (Original work published 1927)

Heidegger, M. (1977). Holzwege [Off the beaten track] (J. Young & K. Haynes, Trans.). Frankfurt am Main: Vittorio Klostermann. (Original work published 1950)

Lacan, J. (1977). Écrits: A selection (A. Sheridan, Trans.). New York, NY: W. W. Norton. (Original work published 1966)

Lacan, J. (1998). The seminar of Jacques Lacan, Book XI: The four fundamental concepts of psychoanalysis (J.-A. Miller, Ed.; A. Sheridan, Trans.). New York, NY: W. W. Norton. (Original work published 1973)

Santos, J. de A. (2026, 18 de julho). ERRÂNCIA. Poesia-Pintura. https://joaodealmeidasantos.wordpress.com/ (Acedido em 19 de julho de 2026).

Scholem, G. (1946). Major trends in Jewish mysticism. New York, NY: Schocken Books.

Derrida, J. (1976). Of grammatology (G. C. Spivak, Trans.). Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press. (Original work published 1967)

Nietzsche, F. (1968). The will to power (W. Kaufmann & R. J. Hollingdale, Trans.). New York, NY: Vintage Books. (Original work published 1901)

Pessoa, F. (1998). Livro do desassossego (R. Zenith, Ed.). Lisboa: Assírio & Alvim.

Camus, A. (1956). The rebel (A. Bower, Trans.). New York, NY: Vintage Books. (Original work published 1951)

AMV@07-2026

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