SOLIDÃO
POEMA de João de Almeida Santos Ilustração: “A Montanha Encantada” - JAS 2022 (119x94, papel de algodão, 310gr, e verniz Hahnemühle, Artglass AR70, em moldura de madeira). Original de minha autoria - Julho de 2026
“Os poetas são impudentes em relação às suas vivências: exploram-nas” (Die Dichter sind gegen ihre Erlebnisse schamlos: sie beuten sie aus)
"O que se faz por amor acontece sempre para além do bem e do mal" (Was aus Liebe gethan wird, geschieht immer jenseits von Gut und Böse).
F. Nietzsche, Jenseits von Gut und Böse (Para além do bem e do mal), 1886. Sprüche und Zwischenspiele: 161. 153.
POEMA – “SOLIDÃO”
PERGUNTEI Ao poeta Sobre a minha Solidão E sabes O que me disse? Que ela veste Os sete véus Que a divindade Enviou Pra que ninguém Atravesse O sagrado Do seu halo. “Um oásis no deserto”, Confessou. PERGUNTEI-LHE Pela dor Que me resta E sabes O que me disse? Se já não tens Alegria Pra encantar Quem tu amas Resta-te a dor Em solidão, Quente Como lava De vulcão, Energia Comprimida Em busca De evasão. MAS DISSE MAIS: Não a procures, Não lhe fales Nem a vejas A não ser como Poeta, Nesse intervalo Entre ti E o mundo Que te torna Intangível Como pura Silhueta. FINGE Que não a sentes, Mas põe asas No seu nome E sobe Ao azul Do céu Pelas linhas Do seu rosto E finge Que não o fazes Pra que não Te reconheça Nesse desejo Bem teu: Desenhá-la A teu gosto. E SE UM DIA Teus olhos Pousarem nela, Finge outra vez, Finge que Não a vês, Que estás ali Por acaso, Como se fosse À janela. PERGUNTEI, De novo, Ao poeta Sobre esta Solidão Que cresce Dentro de mim E sabes O que me disse? Que também ele Ia nu, Viajando Nas estrelas, Com asas De sete véus, Transparentes Como ar, Mergulhando No azul A tocar O infinito Como se a fosse Encontrar. QUERO SER Como falou Zarathustra, Sussurrou, Que da paixão Saia virtude, Dos demónios Nasçam anjos, Da solidão Liberdade, Que na dor Cresça alegria Cada ano, Cada dia, Enquanto o poeta Viver, Enquanto a possa Cantar Como crente Que porfia. ENCONTREI UM DIA O poeta A caminho Das estrelas, Perguntei-lhe Sobre a minha Solidão, Bateu as asas E disse: voa Pra junto de mim Com asas De sete véus Que o azul deste Meu céu É a tua salvação.

