Poesia-Pintura

A TUA VOZ

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “La Cortigiana”
JAS 2026
Original de minha autoria
 Março de 2026

“La Cortigiana” – JAS 2026

“En las cristaleras de nuestro salón 
de actos hay dos conceptos: 
poesía y elocuencia”
 
Santiago Muñoz Machado (1949)

POEMA – “A TUA VOZ”

OUVI-TE, HOJE
Ao longe,
Na memória,
Sons antigos,
Quentes,
Iluminados
Dentro de mim
À medida
Da fantasia,
Como se o desejo
Fosse tudo,
Mesmo aquilo
Que ter
Já não podia.

NÃO SABIA
Que me aquecia
Tanto a alma
Ouvir tão nítida
A tua voz,
Tão serena
E tão calma,
Como quando
Estávamos sós.

DEPOIS CHEGARAM
As palavras
E essa voz
Soou
Cá muito dentro
De mim,
Como harpa
Afinada
Por melodia
Sem fim.

E QUANTO MAIS
Bailávamos
A valsa lenta
Das palavras,
Mais eu te sentia
Como perfume
Sonoro
Na pauta
Do nosso canto,
Som e eco
De um coro,
A razão do meu
Encanto.

QUASE SENTIA
O calor
Desse teu corpo
Que tantas vezes
Desejei
Como abraço
Escondido
Que para nós
Inventei.

SEMPRE HOUVE
 A barreira
Do tempo
E um muro
No espaço,
Eu bem sei,
Mas ensaiámos
Muitos passos
No palco
Íntimo
Onde sempre
Contigo dancei.

OUVI-TE, HOJE,
Eu ouvi,
Ao longe,
Quando já te
Julgava
Perdida,
Mas depois
O que senti
Foi que não era,
Uma vez mais,
A derradeira
Despedida...

Artigo

ITÁLIA – O REFERENDO SOBRE A JUSTIÇA

Ou sobre Giorgia Meloni?

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

NOS DIAS 22 E 23 DE MARÇO ocorrerá em Itália um referendo sobre a justiça, depois da aprovação, na Câmara dos Deputados e no Senado, mas não por maioria de dois terços, da lei constitucional 253, de 30.10.2025, sobre a reforma da justiça. Qualquer que seja a participação dos eleitores o referendo, porque é constitucional e “confirmativo”, será válido. Do que se trata, no essencial? Da separação das carreiras dos magistrados judiciais e dos magistrados do ministério público, que em Itália não se verifica, existindo uma só carreira para ambas as magistraturas (“giudicante” e “requirente”).

1.

Na verdade, o que está em causa é a clara separação das carreiras dos procuradores e dos juízes, onde aqueles passam a ser simplesmente acusadores públicos, num estatuto equivalente ao dos advogados de defesa, ficando o juiz numa terceira e superior posição relativamente à acusação e à defesa. O vice-ministro da Justiça italiano formulou claramente o que está em causa deste modo: “o objectivo é pôr o juiz no vértice de um triângulo isósceles em cuja base, à mesma distância, estão o ministério público e o advogado” (Travaglio, M., 2026, Perché NO – Guida al Referendum su magistratura e politica in poche e semplici parole (Roma: PaperFirst, pág.  77). A esta posição equivalerá, de acordo com a “legge costituzionale”, a criação de dois conselhos superiores da magistratura, um para a magistratura judicial e o outro para a magistratura do ministério público, mas também de um Alto Tribunal (“Alta Corte”) para a matéria disciplinar, os três com composição determinada por sorteio. Tudo aqui.

2.

A discussão em Itália está a ser muito intensa e parece estar a ser altamente contaminada mais pelo confronto político geral do que pela matéria em causa propriamente dita, apesar de encontrarmos em ambas as posições, na do “sim” e na do “não”, personalidades de diferentes inspirações políticas, de direita e de esquerda. Mas é certo que em alguns (muitos) a posição assumida é mais determinada pela identidade do proponente (o governo Meloni) do que pela matéria concreta do referendo. No essencial, os defensores do “não” dizem que com a unificação das carreiras e a possibilidade de transição da posição de procurador para a de juiz e vice-versa, de resto muito comum em inúmeros países, fica mais garantida a legalidade e a imparcialidadedo ministério público, sendo a sua acção considerada mais como a de um “órgão de justiça” (Travaglio, 2026: 11,12, 59, 180,187), que age em nome da sociedade, do que como “órgão acusatório”, não se verificando efectivamente uma simetria com a posição de defesa. Como exemplo concreto, apontam os defensores do “não” o dispositivo legal que obriga o ministério público a entregar ao juiz provas a favor do réu, sob pena de sanção, quando, pelo contrário, a sanção recai sobre a defesa se esta entregar provas que incriminem o réu que defende (2026: 78). Isto representa uma efectiva assimetria entre acusação pública e defesa, colocando o ministério público num plano superior, ao lado da magistratura judicial – “órgão de justiça”, defensor da legalidade e imparcialidade na acção. Por outro lado, dizem, o facto de juízes e procuradores (pm) ganharem experiência no desempenho de ambas as funções isso dá-lhes maiores competências para o exercício de qualquer uma das funções (Travaglio, 2026: 62). De resto, como disse, esta mobilidade já se verifica na maior parte dos países.  Na verdade, diz Gustavo Zagrebelsky, “a ‘separação das carreiras’, (…) segundo os autores da Reforma, tem como objectivo tornar iguais as posições das partes perante o juiz ‘terceiro’ e imparcial” (2026: 12), enquanto, para ele, o ministério público é mais um “órgão de justiça” do que um “órgão de acusação”, em que, com esta reforma, ele se transformará, e até com maior poder acusatório (Travaglio, 2026, 12), com claro prejuízo para o cidadão, perdendo-se, assim, em justiça o que se ganha em poder acusatório. Diz, por sua vez, o procurador de Nápoles, Nicola Gratteri, em entrevista (na parte final do livro):  todos os países têm inveja “da independência não só do juiz, mas também do ministério público, o que é uma raridade. Devemos mantê-la firme, porque porque ela tem sentido só se o ministério público e o juiz tiverem a mesma cultura da jurisdição, isto é, se forem ambos imparciais” (2026: 187). Independência e imparcialidade, duas qualidades reconhecidas quer ao ministério público quer ao juiz. Em Portugal, como se sabe, a constituição só reconhece independência ao juiz, atribuindo ao ministério público apenas autonomia, ainda que o procurador-geral seja nomeado pelo PR sob proposta do primeiro-ministro. Já a imparcialidade parece ser uma contradição em termos, tratando-se, em qualquer caso, de um acusador público.  Também esta só poderá ser garantida pelo juiz “terceiro”, qualidade que lhe permite ser imparcial. Esta posição de Zagrebelsky e da generalidade dos defensores do “não” só é compreensível no quadro de uma concepção de tipo republicano, que eleva o ministério público a “órgão de justiça”, juntamente com o juiz, fazendo ambos parte orgânica de um bloco institucional do Estado (o tribunal) com o qual a defesa terá de se confrontar. Trata-se de uma concepção onde o Estado se agiganta perante os cidadãos e os seus direitos fundamentais. Uma assimetria que parece ferir gravemente o princípio da igualdade. Note-se que, em Portugal, mesmo com carreiras separadas, o ministério público se senta à direita do juiz e no mesmo plano elevado, ficando a defesa em posição de inferioridade. É disto que se trata.

3.

Os defensores do “sim”, onde se inclui, e de forma militante, o famoso juiz de “tangentopoli” e, depois, fundador e líder do partido “Italia dei Valori”, Antonio di Pietro, não só se colocam na mesma posição enunciada pelo vice-ministro da Justiça, sublinhando que o juiz deve ser uma figura terceira e superior às partes (acusação e defesa), como também criticam a influência da Associação Nacional de Magistrados (ANM)  e das diversas correntes que a integram na composição e na gestão do actual Conselho Superior de Magistratura (CSM). Vem a propósito lembrar o livro Il Sistema. Potere, politica, affari. Storia secreta della magistratura italiana (Torino, Rizzoli, 2021), de Alessandro Sallusti e Luca Palamara, uma entrevista daquele jornalista a este ex-magistrado, que foi durante quatro anos presidente da Associação Nacional dos Magistrados. Neste livro-entrevista Palamara conta como funcionava o que ficou conhecido como o “método Palamara”, ou seja, o modo como eram tomadas as decisões sobre o Conselho Superior da Magistratura e as próprias nomeações para cargos (designadamente para a vice-presidência do próprio CSM) numa promíscua rede de relações entre as correntes da ANM e a política ao seu mais alto nível. Palamara esteve no centro do sistema até que acabou por ser expulso da própria magistratura, vítima dos próprios jogos de poder internos e externos. Ou seja, o argumento de que, com a separação das carreiras, se irá verificar uma politização do ministério público cai por terra ao verificar-se que no actual sistema é já isso que acontece e de forma muito intensa, onde funciona uma rede que vai dos interesses pessoais dos magistrados aos das correntes internas da ANM e aos do poder político que estiver instalado no momento (por exemplo, Palamara relata episódios do tempo de Matteo Renzi PM e do M5S).

4.

A introdução do sorteio como regra que passará a impedir a contaminação do CSM ao nível da sua composição, da sua gestão e do processo de gestão das carreiras pelas inúmeras correntes que existem na ANM, ao mesmo tempo que o “Alto Tribunal” (“Alta Corte”) disciplinar, eleito também por sorteio, completa o fim do controlo disciplinar desta Associação, através do CSM, sobre os magistrados – é um dos pontos importantes do debate em curso. E um dos argumentos usados por Zagrebelsky para criticar o método do sorteio é o seguinte: “o sorteio pressupõe, precisamente, que todos e cada um valham um. Mas nem sequer na Atenas clássica – exemplo muito citado e muito superficial, retirado do século V a.C – as coisas se verificavam assim”. (…) “Quem deve o cargo a uma eleição tem consigo a força derivada de ter sido escolhido; quem é sorteado não tem mais do que a sorte, que seguramente não é uma força. O efeito da Reforma será a deslegitimação do órgão no seu conjunto” (2026: 16 e 15; itálico meu). A resposta que alguns dão é a seguinte: todos os que estão sorteados entraram na carreira por concurso e estão em condições de julgar e de condenar qualquer réu até a uma pena de prisão perpétua – por que razão, pois, não teriam legitimidade para argumentar perante os seus colegas? Mas outra resposta poderia ser a de pedir a Zagrebelsky que fosse reler com atenção o livro de Palamara e o relato sobre os métodos “idóneos” de escolha promovidos pela ANM (ou seja, a “eleição” pilotada pela ANM). Outro dos argumentos contra o sorteio é o de que quase todos os magistrados estão inscritos na ANM e que, por isso, nada acabará por mudar dentro do CSM (Travaglio, 2026: 79). Trata-se, todavia, de um argumento falacioso porque, na verdade, o que acontece é que acaba o seu poder de escolha porque se introduz o factor aleatório (o sorteio) na composição, criando um poderoso obstáculo a um funcionamento de tipo oligárquico, precisamente no sentido grego da palavra, da ANM.

5.

Todas estas questões são objecto de análise minuciosa no livro, citado no ponto 2. (Perché NO), de Marco Travaglio, director do influente jornal italiano  “Il Fatto Quotidiano”, com uma introdução de 15 páginas de Gustavo Zagrebelsky e, no fim, com uma entrevista ao procurador de Nápoles Nicola Gratteri. Na verdade, não se trata de “poucas e simples palavras”, como se lê no subtítulo, porque o livro é muito e minuciosamente argumentado a favor do “não”. De leitura obrigatória para quem se interesse pelo tema da justiça e pelo modo como ela está organizada e funciona (ou não funciona) em Itália. De qualquer modo, um belo livro que, aqui, cito abundantemente.

6.

Quando li a introdução de Zagrebelsky, a favor do “não”, escrevi no livro: “não estou de acordo com nada do que ele diz”. E tinha uma razão para o dizer: o facto de não ser tomada na devida consideração a diferença substancial entre a posição e as funções do juiz e as do ministério público, sendo certo que a) as carreiras unitárias; b) a definição funcional relativa ao ministério público, certamente inspirada no modelo republicano (“órgão de justiça” mais do que “órgão de acusação”, defensor da legalidade e da imparcialidade); e c) a assimetria da relação entre acusação pública e defesa – tudo  serve para colocar os magistrados do ministério público (magistrati requirenti) num plano superior, equivalente ao dos magistrados judiciais (magistrati giudicanti). No modelo liberal esta posição não caberia justamente porque nele os direitos individuais têm maior força e pregnância do que no modelo republicano. Direitos que podem mesmo ser anteriores (“naturais e imprescritíveis”) ao próprio Estado (veja-se o n.º 2 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789). Por outro lado, o que se nota recorrentemente na argumentação contra o referendo é a eterna suspeição de subordinação do ministério público ao poder político, designadamente ao poder executivo, sendo certo que na maior parte dos países de democracia representativa o ministério público depende, embora em graus diferentes, precisamente do governo (Áustria, Alemanha, França, Holanda, Espanha, Reino Unido e USA, por exemplo – 2026: 122-127). Nota-se também, no meu entendimento, uma excessiva desconfiança ou até mesmo uma desqualificação generalizada do poder político democrático e de origem electiva, apesar de legitimamente sufragado. Sobre o sorteio, julgo, como já disse, que, ao contrário do que defende Zagrebelsky e pelo que se sabe dos jogos de poder entre a ANM, os interesses individuais e corporativos e a política, ele reforça mais do que diminui a legitimidade dos órgãos, devido à introdução da aleatoriedade no modelo de escolha de legítimos membros das magistraturas. Em relação aos milhares de magistrados que entrarão no sorteio (cerca de 7200 juízes e de 2200 procuradores/pm – Travaglio, 2026: 52), o mecanismo certamente deverá vir a ser regulamentado por lei ordinária.

António di Pietro, ao referir-se ao ministério público, fala da emergência de um quarto poder,  o da Associação Nacional dos Magistrados, uma associação privada, e da necessidade de se recorrer a um “medicamento” que o limite. Este medicamento chama-se precisamente sorteio.

7.

O livro de Palamara sai em Janeiro de 2021, mas há muito que se sabia da existência activíssima das correntes no seio da magistratura. De qualquer modo, não é de excluir que Giorgia Meloni, que chega ao poder em Outubro de 2022 e que tem como estratégia de longo alcance o reforço do poder do executivo (através do chamado “premierato”), ou seja, um decisionismo executivo de base electiva, queira romper com o poder do ministério público tal como ele vem sendo exercido, ou seja, sob influência das correntes presente na ANM. A separação das carreiras e a recolocação do ministério público naquela que deve ser a sua colocação no modelo liberal, e não no modelo republicano que subjaz à construção de um compacto bloco judicial estatal; a introdução do método do sorteio para composição dos dois órgãos superiores; e, finalmente, a criação de um órgão superior distinto (Alta Corte), também ele composto por sorteio, que chama a si a esfera disciplinar – tudo isto tem como objectivo, no meu entendimento, uma reconfiguração do poder judicial naquela que é a área do seu poder interno, da sua composição à sua gestão. Não sei até que ponto Giorgia Meloni tenha tido em conta, ao avançar com esta lei constitucional, os novos tempos de “lawfare” que estamos a viver, lá onde o poder político está sujeito a um poder que tem visto crescer a sua capacidade intrusiva em todas as esferas da vida colectiva, incluída a de derrubar governos, como aconteceu recentemente em Portugal. Não sei. Mas a verdade é que parece não ser possível levar por diante um qualquer projecto decisionista enquanto se mantiver a seu lado um poder como aquele que acabou com a primeira república italiana, num processo que ficou conhecido como “tangentopoli” e que viu precisamente Antonio di Pietro como protagonista. E que, curiosamente, também teve como vítima ilustre Bettino Craxi, o primeiro decisionista democrático italiano, morto no exílio, na Tunísia (escrevi sobre o decisionismo de Craxi quando nos anos oitenta comecei a escrever como articulista regular do DN). Não sei se o pano de fundo da reforma será  também este, para além das fundadas razões internas da reforma, mas as variáveis estão todas lá. De qualquer modo, e depois de uma ponderada e argumentada avaliação dos argumentos dos defensores do “não” e do “sim”, se votasse em Itália, eu votaria “sim” neste referendo. Sem ser a panaceia que tudo resolve, como se vê pelo caso português e as suas graves derivas, a separação das carreiras parece-me ser a mais conforme à geometria organizacional da justiça e à natureza das funções dos seus agentes na relação com a cidadania e os seus direitos. JAS02-2026

 

Poesia-Pintura

A MUSA (QUE NÃO É) DE SIRACUSA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: "S/Título"
JAS 2026
Original de minha autoria
Fevereiro de 2026

“S/Título” – JAS 2026

A MINHA MUSA
Não veio
De Singapura
Nem  sequer
De Siracusa,
Não é branca
Nem traz paz,
Quando a vejo
Estremeço,
Mas é de presença
Fugaz.

E É DOURADA
Porque voa
Lá no alto
Junto ao sol
Que a ilumina
Levada
Pelo poeta,
É rápida,
Fugidia,
Quase divina,
Mas mais parece
Um cometa.

NÃO CANTA,
Não dança,
Nem pinta,
Ela deixa
A vida correr
Levada
Pelo destino...
.........
E é assim
Que tem de ser
Como eu
A imagino.

E EU TAMBÉM,
Sempre atraído
Por ela,
Já nem sei
Se a vou ver
A não ser
Na fantasia,
Pintada
Numa aguarela,
Desenhada
Em poesia.

POUCO SE SABE
Da musa
E nem o poeta
O diz,
Ela não vai
À janela
Pra da rua
Não se ver,
Foi sempre
O que ela quis
Mesmo sem nunca
O dizer.

A MINHA MUSA
Não vem
Lá de Siracusa
Nem sequer
De Singapura,
Não sei bem
De onde vem,
É musa,
É mesmo pura
Como em poesia
Convém.

O POETA
Perguntou
Coisas
À musa
E nem sequer
A conhecia?
Talvez,
Mas que importa,
Mais uma vez?
É assim
 A poesia...

Artigo

DE VENTOTENE A MUNIQUE

OU O FUTURO DA DEMOCRACIA

A propósito do livro 
"La roccia di Ventotene"
(Torino, Einaudi, 2025)

João de Almeida Santos

NA SEMANA PASSADA, entre 13 e 15 de fevereiro, ocorreu a 62.ª Conferência de Segurança de Munique, sendo de destacar a intervenção de Friedrich Merz, chanceler alemão. Poder-se-ia dizer, sem grande margem de erro, que Merz retomou o discurso de Mark Carney em Davos, ou seja, assumiu também ele que a ordem internacional tal como a conhecíamos terminou, ao mesmo tempo que reemergiu a lógica das zonas de influência, a afirmação prepotente e singular das grandes potências (USA, China, Rússia) e a necessidade de a Europa fazer um recentramento das suas relações (designadamente com os BRICS, com o Brasil ou com a Índia, por exemplo), ainda que procurando, na medida do possível, preservar as históricas relações com os USA. Merecem destaque as palavras de Merz:

“You´ve chosen a grim moto for this conference, “under destruction”. And it probably means that the international order based on rights and rules is currently being destroyed. But I’m afraid we have to put it in even harsher terms. This order, as flawed as it has been even in its hey day, no longer exists. And we, Europe, well, Peter Sloterdijk wrote a few weeks ago that Europe had just returned from a vacation from world history”.

A ordem internacional baseada em direitos e regras comummente aceites desapareceu. “Power and big power politics” são palavras recorrentes no discurso de Merz e que traduzem bem o que está a acontecer já fora do que era a tradição no chamado mundo ocidental – a afirmação incondicionada das grandes potências. Esse mundo tinha, pelo menos, a pretensão de ver normativamente reguladas as relações internacionais. Com Trump isso acabou. A política ficou reduzida à gestão do poder, da força e da ameaça. Acabou o breve “momento unipolar” na história e a época em que se reconhecia a prevalência de uma ordem internacional em que se reconhecia, pelo menos em palavras, o direito internacional e se procurava justificar acções que pudessem parecer estar a pô-lo em causa. A verdade é que, hoje como nunca, como diz Merz, “big power polítics has its own rules”. Esferas de influência e luta pelo domínio tecnológico, pelas cadeias de abastecimento e pelos recursos naturais entre os “big powers”, em detrimento dos Estados mais fracos, que se devem submeter à política da força e da ameaça. Ou seja, está a emergir uma tendência que não só visa repor o poder dos Estados nacionais, mas sobretudo o dos mais fortes, em condições de gerirem vastas zonas de influência ao arrepio da direito internacional, da primazia da diplomacia e do reconhecimento à autodeterminação dos povos. Manda quem pode, quem tem a força, o poder, obedece quem deve, porque é fraco – parece ser a nova palavra de ordem da política internacional dos Estados Unidos de Trump. Se Vance criticou a Alemanha e defendeu Alternative fuer Deutschland, agora Rubio, em tempos de eleições vai apoiar Orbán, elogiando-o como seu lealíssimo aliado. Está claro de que lado estão os Estados Unidos da era Trump.

1.

Esta situação fez-me recuar ao período que se seguiu à primeira guerra mundial e à criação da “Sociedade das Nações” e à criação da ONU e da União Europeia, ainda sob a forma de “Comunidade Europeia do Carvão e do Aço”, logo a seguir à segunda guerra, ao mesmo tempo que revisitava os projectos de construção de instituições supranacionais que pudessem servir de travão aos gravíssimos conflitos entre Estados nacionais na Europa. O movimento paneuropeu de Coudenhove-Kalergi, Aristide Briand, Winston Churchil, cada um procurando encontrar soluções para que os confrontos violentos entre as nações europeias, excessivamente frequentes, não ocorressem mais. Os milhões de mortos da primeira grande guerra não deveriam voltar a acontecer. E, ainda em plena segunda guerra mundial, em 1941, Altiero Spinelli e Ernesto Rossi, ambos desterrados políticos do fascismo italiano na pequena ilha de Ventotene, haveriam de elaborar o documento que viria a ser conhecido como “Manifesto de Ventotene” onde eram traçadas as linhas gerais que haveriam de contribuir para a superação dos egoísmos nacionais que sempre conduziram à guerra. Trata-se de um documento hoje reconhecido pela União Europeia com um seu texto seminal e que já apontava de forma muito concreta para a criação de uma federação europeia que pudesse evitar aquilo que em cerca de 30 anos dera lugar a muitas dezenas de milhões de mortos. A paz era a inspiração de fundo do documento

2.

É a este manifesto que Gianluca Passarelli dedica um pequeno, mas interessante e belo, livro intitulado “La Roccia di Ventotene”, publicado pela Einaudi, em 2025. Neste livro é dado um ênfase especial à razão do Manifesto: “o problema que em primeiro lugar deve ser resolvido, e que, se falhar, qualquer outro progresso não passará de aparência, é a abolição definitiva da divisão da Europa em Estados nacionais soberanos” (Spinelli, 1985: 28, onde o Manifesto está reproduzido). Passarelli considera que nesta passagem reside “il punto focale” do Manifesto: superar o Estado nacional que dera lugar a duas brutais tragédias colectivas  (Passarelli, 2025: 59). Compreende-se a analogia com os tempos que estamos a viver, quando, por um lado, a direita radical volta a glorificar a excelência do Estado-Nação, sob a forma ideológica de “soberanismo”, e, em particular, alinhando com a política das grandes potências mundiais e, por outro, reemerge a necessidade de cooperar de forma reforçada e em sectores até hoje insuficientes (como na diplomacia e na defesa, na inovação e na tecnologia) no interior dessa unidade política que é a União Europeia, hoje objecto de crescentes e demolidores ataques quer dos conservadores americanos quer do putinismo filosófico de inspiração duginiana, que gritam à decadência daquele que é o território civilizacionalmente mais avançado do mundo, uma das maiores economias mundiais e que possui a mais bela organização política até hoje conhecida. Uma União política que foi construída lentamente por forças do centro-direita e do centro-esquerda e que se inspirou na visão de Altiero Spinelli e Ernesto Rossi, mas que teve como protagonistas e executores iniciais Jean Monnet e Robert Schuman, logo após, pasme-se, o Plano Marshall, promovido precisamente pelos Estados Unidos e que se cifrou numa ajuda de cerca de 14 mil milhões de dólares. Hoje é este país que quer desmantelar a União Europeia, considerada em decadência ou extinção (designadamente no documento sobre a “National Security Strategy”, de 2025).

3.

As palavras de Spinelli, que agora transcrevo, escritas nos princípios dos anos quarenta (penso que foi em 1942), incluídas no livro de Spinelli Il Progetto Europeo (Bologna, Il Mulino, 1985, pág. 65) e que justificariam uma Europa pós-nacional, são incrivelmente actuais: “Crer que o mal que resulta da anarquia internacional se curará por si, e que devamos continuar a ocupar-nos das coisas segundo a velha ordem, é fazer a política da avestruz. Entregue a si própria, a anarquia internacional desemboca na destruição da própria civilização moderna e na constituição de um império militarista baseado no princípio da ‘signoria’ dos vencedores e na servidão dos vencidos. (…) Esta ordem internacional pode ser criada através de um império que reduza os outros Estados a seus vassalos. Então, a lei será a que for imposta pelo Estado dominante; a força necessária para impor a lei será a do Estado titular do império” (1985: 65 e 66). Parecem palavras de hoje e aplicadas aos Estados Unidos, não ao mesmo país que ajudou a derrotar Hitler, mas ao país amigo de Putin e adversário da União Europeia. Tempos de escuridão, estes que estamos a viver.

4.

Para o movimento “MAGA” os Estados Unidos só se devem preocupar com os seus interesses puros e duros, que devem  sobrepor-se aos valores, aos princípios, ao direito internacional; a doutrina “Donroe” confere-lhe o direito de tutelar todas as Américas; os aliados europeus de outrora passaram a ser adversários que devem ser controlados por dentro, através das várias direitas radicais que crescem na Europa e que a Casa Branca apoia explicitamente; as relações internacionais são hoje governadas pela política da ameaça e da força, o que realmente conta na relação com os outros Estados; a política resume-se ao controlo do poder por quem pode exibir mais poder e mais força; à ONU contrapõe um “Board of Peace” criado e controlado por Trump, qual prótese da sua própria vontade. Perante isto, a pergunta que se deve seguir é esta: e a democracia, ainda está inscrita no “caderno de encargos” desta administração americana?

5.

É muito forte o trio que aspira a governar as futuras esferas de influência à escala mundial. A China é uma ditadura; a Rússia é governada por um ditador, embora ainda queira simular ser um regime democrático; os Estados Unidos ainda são uma democracia, mas em fortíssima contracção virada para o decisionismo crescente de um só homem, Donald Trump. E por isso é mesmo necessário voltar a fazer a pergunta: e a democracia não se encontra ameaçada com um tal leque de “big powers”, com inúmeros aliados no interior de tantos países, incluída a Europa? Parece ser evidente que estamos a caminhar para uma fase altamente regressiva do ponto de vista democrático e, por isso, torna-se absolutamente vital que as potências médias, como o Canadá, a França, o Reino Unido ou a Alemanha e, em geral, os países da União Europeias, se unam, criem mecanismos eficazes de decisão política para o enrobustecimento das suas potencialidades e para uma estratégia internacional em geometria variável, não mais dependente de uma férrea aliança com um país que a despreza.

6.

A situação é deveras preocupante vista a dimensão e o poderia dos países apostados em administrar o mundo a partir de esferas de influência controladas por eles e de forma imperial. E o sucesso deste bloco do “big power” tornará apelativa a imitação interna dos modelos de governo destes países, o que provocará uma ulterior e generalizada regressão, um efeito em cadeia no mapa democrático mundial. 

7.

Foi por isso que apreciei as intervenções de Mark Carney e de Friedrich Merz. E que me lembrei de regressar ao projecto do famoso “Manifesto di Ventotene” e às palavras de Altiero Spinelli sobre a necessidade de construir, na Europa, sobre os seus Estados nacionais, uma robusta estrutura política pós-nacional que pudesse fazer dela um novo poder modelar para o mundo e que não se esgotasse no seu incomensurável património cultural e civilizacional, de tão difícil conquista, perante tragédias que nunca deveremos esquecer, mas fosse ele próprio não só “soft power”, mas também “hard power”. Este livrinho de Gianluca Passarelli, La Roccia di Ventotene, vem lembrar-nos, através de uma bela escrita que enaltece justamente o legado de Rossi e Spinelli, como a tantos anos de distância haja sempre alguém capaz de antecipar os tempos naquilo que eles podem vir a ter de melhor. Não estando todo o desenho constitucional para a Europa conseguido, como queria o Manifesto e os seus autores, por exemplo, em matéria de defesa e de diplomacia, uma boa parte do que eles anteciparam já está realizado, ainda que por duas vezes o projecto constitucional tenha sofrido sérios reveses, ao não se concretizar o “Projecto Spinelli” de 1984 e ao ser recusada, em 2005, por dois referendos, em França e na Holanda, a Constituição de 2004 para a União. Agora, que o nacionalismo dos fortes está a regressar em força, toca-nos tudo fazer para que todas as conquistas civilizacionais conseguidas não sejam definitivamente destruídas por mais que queiram os Trumps deste mundo. As palavras de Carney e de Merz é para aí que apontam – um caminho alternativo capaz de salvaguardar o que tem de ser preservado. JAS@02-2026

 

Poesia-Pintura

PERGUNTA O POETA À MUSA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Perfil de Musa”
JAS 2023
(63x78, em papel de algodão, 310gr,
e verniz Hahnemuehle, Artglass AR70,
em mold. de madeira)
Original de minha autoria
Fevereiro de 1026

“Perfil de Musa” – JAS 2023

POEMA – “PERGUNTA O POETA À MUSA”

PERGUNTA O POETA
À musa:
“O que sabes tu
Fazer?”
E a musa
Lhe responde:
 “Nada,
Foi meu destino,
Ao nascer”.

“ENTÃO, COMO É
O teu viver?”
E ela, serena,
Responde:
“Eu deixo a vida
Correr...”

“E NÃO CORRES,
Com a vida?”
Pergunta, de novo,
O poeta.
“Não, porque é sempre
Em subida...”

O POETA
Lembrou-se,
Então,
Da cantora
De voz
Suave, 
Da pintora
De cores
Quentes
E da bela
Bailarina
Que gostava
De levitar,
Lembrou-se
Da emoção
Que sentia
Quando em surdina
Ouvia
A suave harmonia
Que o fazia
Vibrar
Ou do palco
Onde via,
Como riscos
Numa tela,
Aqueles corpos
Voar.

INCONFORMADO,
Logo o poeta
Insiste:
“Porque vibro eu
Com elas,
Mas só a ti
Eu posso amar?”
E ela logo
Responde:
“Porque o amor
Não se aprende
Nem se pode
Programar,
É simplesmente
Mistério,
Acontece
Sem critério,
É incerto navegar
Entre vagas
Altaneiras
Em pleno alto mar
Onde há sempre
Tempestades
E é grande
E muito sério
O risco de
Naufragar.

Artigo

AS PRESIDENCIAIS DE 2026

Um Balanço

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

NO PASSADO DOMINGO terminou o longo processo de eleição do Presidente da República, apesar de o voto de umas dezenas de milhar de eleitores ter sido diferido para o próximo domingo, por impossibilidade física de concretizarem o direito de voto. Mas a diferença entre os dois candidatos foi de tal ordem que o voto desses eleitores até poderia ser dispensado. E, todavia, por exigência legal e democrática e, sobretudo, pelo devido respeito pelos direitos desses cidadãos afectados pelos temporais, os seus votos serão contabilizados e considerados no resultado final.

1.

Qual foi o resultado? Para uma avaliação clara do resultado basta pensar no que significa o Presidente eleito ter tido o maior número de votos de sempre numa eleição presidencial e uma confortável maioria qualificada. Quando se pensava que o resultado eleitoral mais desafiante, dada como certa a eleição de António José Seguro, seria o que André Ventura (AV) iria conseguir e, consequentemente, os efeitos disruptivos que esse resultado acabaria por provocar sobre a política nacional, tal não aconteceu. Por várias razões: a) o bom nível de participação (superior a 50%, sem contar as votações adiadas), atendendo, por um lado, às condições meteorológicas e à devastação a que o país tem estado submetido e, por outro lado, o previsível desfecho das eleições em termos de vitória do candidato AJS; b) a dimensão da vitória de AJS (66,82% e 3.482.481 de votos); e c) o expressivo, mas moderado, resultado de André Ventura (33,18% e 1.729.371 de votos ), não tendo conseguido superar o número de votos da AD obtido em 2025, mas apenas uma percentual mais elevada em cerca de dois pontos. Explico-me melhor: tivesse AV conseguido aproximar-se dos 40% e superado em votos o resultado da AD em 2025, a eleição presidencial teria outro significado político em termos implicações na dinâmica interpartidária. Mesmo assim, é claro que AV e o CHEGA vieram para ficar, tendo sido ultrapassado, em termos eleitorais, o isolamento a que o chamado sistema sempre (e desta vez também) quis votá-los. É já tão grande o número de portugueses que os votam que não será possível anulá-los administrativamente, como pretendem os subscritores da “Petição Pública para Avaliação da Inconstitucionalidade do Partido Chega”, lançada pela sempre intrépida Isabel Moreira, nem recintá-los numa sanitária zona vermelha. Seguro no discurso de vitória foi claro, e bem, ao dizer que AV deixou de ser adversário para passar a ser parceiro na resolução dos problemas do país. O próprio AV na noite eleitoral foi mais moderado e sensato do que o habitual. Nunca me esqueci da atitude de François Mitterrand, em 1981, de incluir quatro ministros do PCF no seu governo, em tempo de guerra fria e de “conventio ad excludendum” dos partidos comunistas, designadamente em Itália. E também julgo que é necessário olhar com atenção para o que, hoje, se está a passar em Itália, com Giorgia Meloni e o seu partido “Fratelli d’Italia” no poder.  Outro aspecto que merece ser assinalado é a dimensão atingida pelos votos em branco e nulos: 271.520, equivalentes a quase 5% (4,95%). Uma dimensão que merece reflexão.

2.

Na verdade, o essencial do que se passou no passado domingo pode ser traduzido numa simples frase: António José Seguro venceu as presidenciais com maioria qualificada. O que tem um significado especial para quem no início da sua campanha tinha sondagens que lhe davam apenas cerca de 5 ou 6 por cento. E é por isso que é de sublinhar e de elogiar o modo como levou por diante a sua candidatura, não obstante as baixas expectativas de início e os indecorosos ataques que sofreu por parte de muitos e importantes expoentes do seu próprio partido (por exemplo, por Augusto Santos Silva) e o atraso no apoio do partido de que fora, durante três anos, secretário-geral. Todo o processo evidencia a competência política com que conduziu a sua candidatura. Uma candidatura totalmente independente de uma relação partidária, apesar de ter sido o então secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, que, para espanto de alguns, o incluiu publicamente nos nomes de presidenciáveis referíveis ao PS. De todos os presidentes talvez tenha sido o que maior distância manteve em relação a uma qualquer base partidária. Também Jorge Sampaio se apresentou autonomamente, mas ele, ao contrário de Seguro, mantinha uma forte e qualificada base de apoio no PS de António Guterres.  Mas também é certo que o resultado de Seguro se deve, em parte, ao alto índice de rejeição do seu opositor e das ideias que ele defende. Sem dúvida, mas isso não deve ofuscar a sua prestação, bem ilustrada pelo resultado que obteve na primeira volta, quando a disputa ocorria entre vários candidatos, e muito valorizados pelas sondagens. A primeira volta é muito importante para compreender o significado do desfecho das presidenciais.

3.

O caso de André Ventura merece uma redobrada atenção não só porque se trata do líder do segundo maior partido parlamentar, mas também porque ele tem vindo a consolidar uma crescente e consistente base eleitoral. Também não se deve esquecer que na primeira volta ele derrotou, e de forma consistente, com cerca de 7,5 pontos de avanço em relação ao candidato em terceira posição, os seus mais directos concorrentes (Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo, Marques Mendes). Um aspecto que não deve ser menorizado. Tal como não deve ser menorizado o seu crescimento em votos relativamente às legislativas de 2025 e à primeira volta. De facto, em termos de votos, AV obteve em relação à primeira volta mais 402 429 votos e em relação às legislativas de 2025 mais 291 490 votos. O que é que isto significa? Em primeiro lugar, que vem consolidando e aumentando o seu score eleitoral; em segundo lugar, que se trata de uma base eleitoral muito consistente e que lhe permitirá disputar a liderança em eleições legislativas, onde a fragmentação partidária implica uma forte diversificação de votos; em terceiro lugar, não tendo a diabolização de AV funcionado de forma impressiva na primeira volta, na segunda volta funcionou e isso deveu-se a estarem em jogo somente dois candidatos e ao risco, para a direita moderada, de ele ter uma expressiva votação que o pusesse muito à frente do PSD. A verdade é que a leitura política (para efeitos de legislativas) do resultado da segunda volta das presidenciais não poderá ser feita prescindindo dos resultados da primeira, onde, sendo diversificadas as candidaturas, AV ficou comodamente em segundo lugar, eliminando três candidatos fortes (incluído o que era apoiado pela AD) por uma margem muito significativa (7,5 pontos em relação a Cotrim de Figueiredo e, respectivamente, mais de 11 e de 12 pontos  relativamente a Gouveia e Melo e a Marques Mendes). Ora, em legislativas temos muitas e muito diversas candidaturas e, neste território eleitoral, a base de Ventura está a revelar-se muito forte e sólida. Quer isto dizer que não me parece muito sensata a transposição para legislativas do resultado da segunda volta das presidenciais, sendo os resultados da primeira volta muito mais indicativos e significativos devido, naturalmente, à maior dimensão do espectro partidário e concorrencial. Não deixa de ser curioso que o “Politico”, de ontem (10.02.2026), em artigo de Aitor Hernández-Morales, “António Costa’s Legacy: The far right in Portugal” comece precisamente por dizer: “The ultranationalist Chega party is thriving by campaigning on issues the president of the European Council failed to address while prime minister”, para concluir que “The biggest loser of this weekend’s presidential election in Portugal was European Council President António Costa”. Mais precisamente: o alimento eleitoral do CHEGA são as políticas falhadas de António Costa. E, por isso, e por ser António José Seguro o grande vencedor das presidenciais, Costa é considerado o “maior perdedor” das eleições presidenciais.

4.

Também não me parece muito sensato transpor, mesmo de forma relativa, o resultado de António José Seguro para o campo eleitoral do PS, e não só pelas razões acima aduzidas, mas também porque as campanhas de AJS foram exclusivamente pilotadas por ele ao mesmo tempo que se distanciava claramente de uma identificação com este partido quer na génese quer durante o percurso da candidatura. O enquadramento político e ideológico de AJS foi de tal modo amplo que levou a que o centro-direita votasse nele, permitindo-lhe uma vitória que todos reconhecem ser excepcional. A génese da candidatura, a abrangência que conseguiu, devido ao minimalismo discursivo que evidenciou, e a dimensão da vitória talvez possam servir de ponto de partida para uma reflexão acerca do método de eleição do PR, ou seja, a formulação da hipótese (que eu defendo) de esta eleição passar a ser feita através de um colégio eleitoral alargado em vez de uma eleição directa e universal. A Presidência de AJS poderia mesmo constituir uma suave fase de transição para o novo modelo de eleição. A Itália tem este modelo e não tem conhecido críticas, mesmo quando o Presidente era interventivo, como no caso de Sandro Pertini, ou quando é mais reservado, como no caso do actual Presidente Sergio Mattarella.

5.

O novo Presidente, visto o resultado, tem uma legitimidade política reforçada, mas tem ao mesmo tempo também uma maior responsabilidade por representar um larguíssimo espectro político. O que é importante é que o titular da função presidencial converta este resultado em força política e simbólica da figura do Presidente, densificando a sua acção e o seu discurso de modo a que as suas posições sejam devidamente tomadas em consideração pelo parlamento e pelo executivo. Ao dizer, no discurso de vitória, que só falará quando isso justificar uma intervenção do Presidente, estava a distanciar-se do actual Presidente e da banalização do seu discurso, que acabou por retirar gravitas à figura do Presidente. Nem rigidez presidencial (como a de Cavaco Silva) nem populismo discursivo e visual (como o de Marcelo Rebelo de Sousa).

6.

É claro que estas eleições terão implicações no processo político em curso, onde a nova figura do Presidente terá de ser tomada na devida consideração por todos os partidos, inclusive pelo partido socialista. É um Presidente que se inscreve no centro-esquerda, mas nem por isso deixará de agir de forma isenta com todos os partidos, tal como teve ocasião de dizer no seu discurso de vitória. A política partidária prosseguirá segundo a sua própria lógica e não creio que seja expectável o alinhamento explícito do novo Presidente nesta onda voluntariosa de rejeição do CHEGA, que o tem posto permanentemente no topo da agenda, com as consequências que todos conhecemos (e que estão previstas e teorizadas na famosa teoria do “Agenda-Setting).  Provavelmente a sua será uma posição formalmente equidistante, quer em relação ao CHEGA quer em relação ao PS, enquanto legítimas e consistentes forças parlamentares. Se o fizer, cumprindo rigorosamente os seus deveres constitucionais, ganhará certamente o reconhecimento e o respeito dos portugueses e poderá, então, vir a ser um forte garante da estabilidade política do nosso país, no quadro dos valores constitucionais, que respeitará e fará respeitar. JAS@02-2026.

 

Poesia-Pintura

CAMÉLIA EM SOLIDÃO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Ponte de Cores”
JAS 2026
Original de minha autoria
Fevereiro de 2026

“Ponte de Cores” – JAS 2026

POEMA – “CAMÉLIA EM SOLIDÃO”

CAMINHAS
Tão docemente,
Tão irreal,
Sobre as cores
Que eu te dei
Que já nem sei
Se és flor
Ou és vestal
Do oráculo
Que criei.

ÉS PLANTA DE JARDIM
(Bem sei),
Na alma
Tens as flores
Que eu sempre
Cultivei,
Alimento
Dos meus olhos,
Aroma
Dos poemas
Que te dei.

CAMÉLIA
É o teu nome,
Encontrei-te,
Desta vez,
Em profunda
Solidão,
A alvura luminosa
Era tão densa
Que até podia
Guardá-la
Na palma
Da minha mão.

QUIS TRAZER-TE
Para dentro do poema,
Disseste
Logo que sim.
Ficarias
Mais feliz,
Estando junto
De mim.

CAMINHÁMOS
Numa ponte
Prà outra margem
Da vida,
Eram passos
De liberdade,
Não eram
De despedida.

VI EM TI
Uma mulher,
Recriei-te
Com afeição,
Pintei-te
Em movimento,
Quis-te livre
No meu chão.

É ESTRANHO
O movimento
Que não te afasta
De mim,
Tu vives
Em quietude
Porque te ofereces
Assim.

ESSA PONTE
De papel
Que parece um
Arco-íris
Saído do meu
Pincel
Vai devolver-te
Ao jardim
Onde a cor
É alimento,
É como favo
De mel
Que da alma
É sustento.

VÊS
Como a solidão
Em flor
Pode ser libertação
Se lhe dermos
Muita cor
Com a força da
Paixão?

A imagem original, de 21.03.2016

Artigo

NOVOS FRAGMENTOS (XXV)

Para um Discurso sobre a Poesia

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

A SEDUÇÃO DO COLIBRI

O encontro de um colibri, ou beija-flor, com uma magnólia branca aumenta sempre, na imaginação do poeta, a sua capacidade polinizadora (a referência é ao poema “O Poeta, a Pintora e o Colibri”). Os ingredientes estão lá.  É magia pura que o poeta metaboliza para, depois, a expandir em palavras coloridas cenografadas e coreografadas. Como um bailado. E, claro, a presença de uma pintora é fundamental para o cromatismo do poema, para a cenografia. Com ela vêm as cores, os riscos e a luz, que se acrescentam à cenografia e à coreografia construídas pelas palavras.  O colibri é mensageiro e tem uma enorme capacidade de polinização das almas, a começar logo pela do poeta. E é por isso que ele anda sempre por ali, pelo jardim encantado. Que precisa de constante polinização. Mas talvez também consiga polinizar a alma da pintora. Tem de conseguir. A um ponto tal que ela tenha de o pintar com as cores que lhe enchem a alma. Pintar também o colibri. Com as razões do coração, como diz o poeta? Não sei, até porque não sei se o coração tem razões. Na verdade, ele é mais pulsão do que razão. A razão aqui confunde-se com pulsão. A pulsão é a única “razão” que se pode conhecer no amor. Anda por aqui este colibri e eu não consigo ficar-lhe indiferente, dirá a pintora, depois do que dele disse o poeta.  Por sua vez, na mitologia poética (deste poeta) a magnólia branca ocupa um lugar central, o melhor para atrair o sedutor colibri. Trata-se de um arbusto de transição entre a neve e a primavera. E é com o colibri que praças, rios, vales, montanhas convergem para o jardim e para a magnólia. Como se o mundo voasse com ele para o lugar onde irá nascer um poema que há-de interpelar directamente a pintora e, através dela, todas as almas sensíveis. É verdade, os poetas tendem sempre a concentrar o mundo num só poema. É uma tentação mais forte do que eles. E como não têm limites nem podem ser responsabilizados deixam-se ir. E quanto mais se deixarem ir mais probabilidades têm de oferecer belos poemas à comunidade dos amantes do canto.

POLINIZAR

Quem nos dera que o mundo voasse com o colibri para que as almas sensíveis fossem polinizadas com a beleza da arte. Isso, sim, seria cantar a vida e a beleza e voar para um mundo melhor.

A NEVE

“A neve está-nos na alma”, dizia eu a um companheiro de viagem poética, a propósito do poema “Neve”. Faz parte de nós. Quando algo nos faz falta lembramo-nos logo desse algo. É o caso da neve – faz sempre falta. Há muito que não cai lá do alto, mas gostaríamos que caísse. Às vezes parece anunciar-se, mas depois nada acontece. E, assim, mais intensa se torna a saudade. Branca e fria, e que saudades, Deus meu! O frio da alma é como o frio da neve. Quente e frio. Como o quente das memórias que já só são memórias. E, por isso, também frias, como a neve. O sujeito poético diz que ela, a musa, é como a neve… mas quando não está a nevar. É desejada, como a neve, mas, como ela, nunca mais chega. Encanto e desilusão. Flocos de nostalgia caem lá do alto da fantasia. E se um dia nevasse a sério, com a neve a bater na vidraça? Vã esperança. Só a podemos ver ao longe lá no alto da montanha ou lá no alto da fantasia. Nevar no alto da fantasia, para glosar o Dante. Assim é com a musa. Assim é com a neve.

FANTASIA

A ausência e o silêncio são alimentos dos poetas. Como a neve, a musa não chega e então só lhe resta cantá-la. Bem olha para o alto da serra, mas nada. Então olha para o alto da fantasia e vê o que deseja ver, seja a neve seja a musa. A poesia é a ponte que nos leva ao inacessível. Não há impossíveis para um poeta.

AMOR

O fenómeno do amor é estranho porque, dele, nunca se conhece a causa. Não é verdade que quando pensas que já sabes por que razão amas alguém isso quer dizer que já não amas? Descobrir a causa do amor é anulá-lo. O amor é misterioso e é disso que fala o poema “Mistério”. Nada importa quando se ama, que o mesmo é dizer: tudo importa, quando se ama. Ela ou ele parece nada saberem fazer, mas mesmo assim são amados. O amor é pulsão. Dizer “eu amo-a porque ela é culta, porque ela canta bem, porque ela dança maravilhosamente”… não faz sentido. O amor não conhece razões e é por isso que a poesia é a arte que melhor o canta, que melhor fala dele, que melhor o pinta. A exactidão poética do vago, do indefinido, do inexplicável. O amor é vulcânico mesmo quando se exprime com delicadeza. É poderoso e genuíno.

Na verdade, o que pretendi fazer com o poema “Mistério” foi uma reflexão sobre o amor em discurso poético, não analítico, como é, por exemplo, o livro do Stendhal sobre o amor. O sujeito poético teme que a amada nada tenha para oferecer, mas, mesmo assim, ela atinge-o pulsionalmente, sem razão visível nem resistência possível. Mulheres há que deslumbram o poeta pelo que fazem, pela beleza, pela excelência nas suas performances. Pelo encanto que transmitem e oferecem. Mas ele mantém-se prudentemente distante. Na musa que o inspira, que o seduz, que o cativa, nada encontra a não ser uma atracção fatal, irresistível, que ele reconhece ser amor. “Maladie d’amour”, poder-se-ia dizer. Invenção imaginária de qualidades que não têm real correspondência na amada. Aquilo a que o Stendhal chamou “cristalizações”. Não importa, elas existem na imaginação do amante e são poderosas.

O poema “O Poeta, a Pintora e o Colibri” é um hino à vida e ao amor. A algo que não precisa de argumentos para se mostrar forte e genuíno. Algo que vale por si, que não é instrumental e que se impõe sobre todos os cálculos. Amar é isso: estar lá sem pedir nada em troca. Muitos dos amados não se dão conta disso.

SOFÁ POÉTICO

Os poetas navegam sempre entre anjos e musas, mesmo quando inspirados em referências concretas. Eles colocam-se sempre um nível acima da realidade empírica. Imperativo estético, mas também existencial. É esse o terreno da fantasia. Há sempre estímulos sensíveis que podem desencadear a pulsão poética, mas depois o processo envolve muitas variáveis, a começar pela fantasia e pelas categorias da arte. As aparições desencadeiam sempre leituras oraculares que tentam decifrar o mistério de certas e poderosas pulsões. A poesia é sempre também leitura oracular. Eu não sei se neste poema (“Aparição”) o poeta não estará a partilhar a sua própria génese como poeta. Como tudo começou. A luz que o encandeou e o levou ao “sofá poético”. Um lugar de livres associações, onde está inscrito algo muito profundo, não directamente visível. Talvez. Só que aqui o faz de forma diferente. Fala do mesmo como se estivesse a falar disso pela primeira vez. Nisto tem razão a Szymborska. A aparição como epifania – assim se concretiza o recorrente processo da sinestesia que o poeta/pintor persegue com delicada teimosia.

APARIÇÃO

As aparições nunca são nítidas (trata-se do poema “Aparição”). É por isso que suscitam interpretações de natureza oracular. Porque, é verdade, nas aparições nunca se vê tudo. Há sempre uma certa neblina que cobre aquilo que queremos ver. O mistério instala-se. Neste caso, o anjo revelou-se mulher na imaginação do poeta e isso terá sido a causa da sua conversão poética. A aparição inaugurou uma caminhada à procura de sentido. Sim, o melhor é aquilo que não se vê, aquilo que escapa à apreensão imediata, aquilo que temos de procurar para além das aparências porque não se dá a uma visão directa, imediata. Aquilo que exige a utilização de um espelho para lá chegar sem o perigo da petrificação. É por isso que a deusa Athena é tão importante para os poetas. JAS@02-2026