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Sobre joaodealmeidasantos1

Professor universitário, escritor, poeta, pintor. Publicou várias dezenas de livros, seus e em co-autoria, de filosofia, política, comunicação, romance, poesia, estética. Foi professor nas universidades de Coimbra, Roma "La Sapienza", Complutense de Madrid e Lusófona (Lisboa e Porto). Publica semanalmente, neste site, ensaios, artigos, poesia e pintura.

Poesia-Pintura

LUZ

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Paraíso”, JAS 2022
Original de minha autoria
Novembro de 2024
Paraíso

“Paraíso”. JAS 2022 – 68×84, papel de algodão (3210gr) e verniz Hahnemuehle, Artglass AR 70, em mold. de madeira

POEMA – “LUZ”

TANTA LUZ
Neste meu céu,
Esse imenso
E cintilante
Mar
Que um dia
Foi todo meu
E deu asas
Ao olhar,
Espelho
Dos sonhos
De amante
Onde a fantasia
Nasceu
Pra lá poder
Navegar.

ESPELHO
 Branco
Que te ilumina
Na noite escura
E fria
Onde brilham
Os teus olhos,
Luar
Prateado
Desta minha
 Fantasia.

E QUANDO
Nos sonhos
Te vejo
Iluminada,
Entro na porta
Branca
Que me leva
Ao paraíso...
.......
Levado
Por uma fada.

E VOO, VOO,
Deixando
Para trás
 O meu jardim
Encantado,
Os bailéus
Da casa-mãe
Desenhados
A rigor,
A quelha da minha
Infância,
Manhãs brancas
De surpresa
Em puríssimo
Alvor.

NOS SONHOS,
(Em todos eles)
Caio das nuvens
Brancas
Como Ícaro,
Quase cego
Da sua luz
Até te encontrar
No jardim
Vestida de todas
As cores
Que povoam
As cidades
Dos poetas
E pintores
Com aromas
De jasmim.

É ESSA
Cintilante
Luz
Que ilumina
O que me sobra
De ti,
O que ainda
Me seduz
Nos sonhos
Em que te pinto
E que sempre
Me sorri.

É SONHO,
É tudo quanto
Me basta
E nada mais,
É tudo
O que eu preciso
Pra te sonhar
Comovido
À beira
Do nosso cais.

ParaísoRec

Notícia

“SYMPOSION” NA QUINTA DOS TERMOS

Por João de Almeida Santos

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Imagem da minha intervenção sobre o “Symposion”, de Platão

ONTEM, 8 de Novembro, tive o gosto de participar numa interessante iniciativa da QUINTA DOS TERMOS (QT), em Carvalhal Formoso (Belmonte): um Jantar-Debate sobre O VINHO e sobre o “SYMPOSION”, de Platão.

1.

Numa interessante, e muito ilustrada, conferência sobre “Vinho é Civilização”, o Prof. Doutor Virgílio Loureiro, consultor da QT desde a sua fundação, propôs-nos uma viagem no tempo centrada sobretudo nos primórdios da cultura e da arte de fazer vinho, muitos séculos antes de Cristo, mas também sobre a cultura do vinho até aos nossos dias. Uma intervenção que ajudou a criar um belo enquadramento para a conferência que se seguiria, a meu cargo: O “SYMPOSION”, de Platão. Tive, então, oportunidade de discorrer sobre o “Symposion” (do séc. IV a.C), de certo modo o modelo destes jantares culturais que a QT passará a organizar no âmbito daquela que virá a ser a sua futura Academia, uma organização que passará a promover eventos que associarão a cultura ao vinho. De resto, a própria palavra Symposion, que nós traduzimos por Banquete, refere-se mais ao momento da bedida do que ao da comida: symposion é composto pela preposição syn (com) e pelo substantivo pósis, -eôs, que significa precisamente bebida (aqui, o vinho). Beber acompanhado era, pois, o significado da palavra que nós traduzimos por banquete. Houve também música, no início e no fim do jantar:  piano e flauta, respectivamente por Inês Andrade e por Marina Camponês. Foi também apresentado um excelente novo vinho da QT, o “Lúcifer”.

2.

Sou um regular consumidor dos produtos da QT e amigo de longa data dos seus proprietários, Engenheiros João Carvalho e Lurdes Carvalho, e foi com muito gosto que, por ocasião do Banquete da QT, regressei à filosofia antiga e a esta belíssima obra de Platão, tão celebrada ao longo dos tempos, podendo partilhar algumas ideias sobre a filosofia, a arte e o amor aos longo dos séculos com os cerca de 60 convivas presentes, inspirado em Platão.

3.

O pretexto para a realização do famoso SYMPOSION, de Platão, foi a vitória do poeta grego Ágaton numa exigente competição entre tragédias, o género literário mais celebrado na Grécia antiga e que Nietzsche considera o modelo perfeito de arte, devido à perfeita harmonia entre o “espírito dionisíaco” e o “espírito apolíneo”, tendo-se reunido neste jantar-homenagem importantes personagens da cultura grega, como Sócrates, Aristófanes, Alcibíades, Fedro, Erixímaco, Pausânias e, naturalmente, o homenageado Ágaton. Todos eles falaram sobre o tema proposto. E o tema do debate foi, não o vinho, que, todavia, sempre acompanhava estes banquetes, mas o ELOGIO DO AMOR. Na minha intervenção, tive ocasião de evidenciar a influência que esta obra teve na cultura ocidental, em especial na arte, até aos nossos dias e a centralidade do tema AMOR na expressão artística, muito em particular na poesia e na pintura.

4.

Tratou-se, pois, de um excelente jantar, acompanhado de demonstrações de vinhos da QT  – brancos e tintos das três quintas de onde provêm as uvas, Carvalhal Formoso, Castelo Branco e Pocinho. Por isso, os meus parabéns ao director-geral, o meu querido Amigo Pedro Carvalho. Serei, naturalmente, membro da futura Academia e terei ocasião de propor um Symposion sobre vinho e poesia. Afinal, Platão também era poeta.

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Artigo

NOVOS FRAGMENTOS (IV)

Para um Discurso sobre a Poesia

Por João de Almeida Santos

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“Campainhas do Paraíso”. JAS 2022 – 94×119, papel de algodão, 310gr, e verniz Hahnemuehle, Artglass AR70, mold. de madeira

I.

A PINTURA, em registo sinestésico com a poesia, acrescenta beleza à beleza do canto poético. É projecção sensorial e ajuda a colocar o canto poético na esfera da visibilidade sem perder a sua autonomia, a sua identidade estética, propondo-se para além do poema com o qual coopera. É a missão da arte: tornar a vida mais bela do que ela já é, com todas as suas inevitáveis imperfeições e cicatrizes, acrescentando-lhe sentido e valor estético. As imperfeições e as cicatrizes que a vida deixa como marca no ser humano são na poesia reconvertidas, transfiguradas com palavras e melodia – a tristeza torna-se doce melancolia, a dor leve e elegante suspiro. Não há bagas no azevinho do Jardim? Criam-se, ainda mais belas e fartas, mais quentes e da cor do nosso sangue. Mas o real ajuda. Ver e sentir a beleza das bagas vermelhinhas ajuda a recriá-las, estimula e inspira o poeta e o pintor. Quero-as porque um dia as vi e me fascinaram. Quem nunca amou talvez não consiga cantar o amor. Não o viu, não saberá que forma tem, não o reconhecerá. Permanece como algo externo, não interior. A palavra poética tem de trazer consigo, agarrada a si, a pulsão que a motivou.  Pulsão de vida, eros. E não a pode expulsar do perímetro da sua significação.  Mas também é verdade que quem amou, se não for favorecido pelo sopro de Apolo, não pode eternizar o amor. Não vou tão longe como Ágaton (o festejado poeta do Symposion de Platão) dizendo que basta ser atingido pelo Eros para se tornar poeta, mesmo que antes não fosse sensível ao olhar fatal das musas. Isso não acontece, seguramente, aos que se mantiverem confinados na circularidade do prazer físico, desconhecendo as exigências de Apolo.  De qualquer modo, quem o sofreu quer voltar a tê-lo, cantando-o, se for ajudado pelos deuses.  Por Dionísio, por Afrodite (celeste, não popular), por Athena, por Apolo. A poesia alimenta-se da perda, da ausência, da dor, do silêncio. E recria um mundo onde estes sentimentos surgem transfigurados. Do silêncio sai o eco que se pode ouvir e sentir na poesia. Da ausência, por perda, resulta uma recriação ainda mais bela porque o poeta conservou o melhor do ausente, aquilo que outros nunca conseguirão ver nele. São estes os caminhos que a poesia percorre e é daqui que o seu poder terapêutico nasce.

II.

Bagas foi mesmo o que, um dia, senti que fazia falta no jardim da minha inspiração. Acontece-me frequentemente sentir que ali me falta ainda alguma coisa. Neste caso, bem fui tentando que os azevinhos mas oferecessem, mas a vida (e a natureza) tem destas coisas. Muitas coisas nos recusa. Mesmo quando se tenta alcançá-las com todos os recursos de que dispomos. Mas felizmente que há a poesia e a pintura. A arte. Com ela, se a inspiração não nos faltar, podemos completar e tornar mais belo o real. Ser menos infelizes. Não se trata, todavia, de construir um mundo idílico, uma utopia onde tudo seja perfeito e indolor. Não, o poeta leva a dor consigo, acarinha-a, faz dela sua companheira íntima, numa tal cumplicidade que chega a parecer impossível ou, pelo menos, contraditória. Depois verbaliza-a amigavelmente, tradu-la em palavras melodicamente compostas, dotando-a de novas qualidades ancoradas na exigência estética. Qualidades emergentes. A arte não substitui o real, não o nega nem o reproduz. Projecta-o para uma sua nova dimensão com características muito especiais – as que falam directamente à sensibilidade. A arte sofistica a realidade e atinge dimensões que não são imediatamente visíveis, a olho nu. É ela que, com a sua linguagem, as torna acessíveis à sensibilidade. De almas sensíveis, naturalmente.

III.

A virtude da poesia: eleva o que, às vezes, pode parecer somente negativo. Por defeito ou por excesso. Claro, a realidade tem todas aquelas impurezas e cicatrizes que a tornam, sim, realidade. A pureza é do foro do irreal. Vêm os pássaros e criam desordem naquilo que nós, seres humanos, queremos ordenado. Ainda bem que vêm. Mas, afinal, acabamos por construir espantalhos para que eles não roubem e desordenem aquilo que levou tempo e trabalho a criar e a ordenar. Mas é a vida, a impura vida, sempre sujeita a fenómenos disruptivos, a dinâmicas que escapam à nossa vontade de ordem, de harmonia, de paz. É essa vida que transpomos para a poesia como se se tratasse de uma logoterapia com perfil estético. Mas claro que é mais do que isso. É imperativo existencial. Resposta sentida a uma vida que parece estar a ser negada, neste caso na forma de um azevinho que não nos dá as desejadas bagas vermelhas ou, então, de um amor não correspondido. Ou de um jardim sem pássaros. Entre uma coisa e a outra, eu prefiro a desordem, o caos, os pássaros no jardim, com a desordem que possam provocar. Por exemplo, comendo as uvas da latada ou picando os pêssegos do pessegueiro.  Ou fazendo ninhos no loureiro e no telheiro. O que eu prefiro, realmente, são os “espantalhos” poéticos, feitos de palavras, com carinho. Os que não afastam os pássaros, mas, antes, os atraem. Os que até atraem amores improváveis. Os outros são injustos: os pássaros só “roubam” aquilo de que precisam. Nem roubo se pode considerar porque está inscrito na ordem natural. Eles vão ao jardim, fazem ninhos no telheiro e no imenso loureiro, pois fazem. Quando o podo, o loureiro, tenho sempre muito cuidado em preservar os ninhos. E gosto de ver e ouvir as crias que já crescem nos ninhos do telheiro até partirem rumo ao céu azul. A vida, portanto. Se tivesse bagas vermelhinhas teriam vindo mais pássaros ao jardim, certamente, e isso significaria trazer-lhe mais vida. E, se calhar, satisfeito, nem teria cantado as maravilhas das bagas que o azevinho não tinha. Foi a falta delas que me levou a cantá-las e a pintá-las. Como sempre e com tudo. Mas se não houvesse pássaros (coisa impossível) haveria de os cantar  O centro da questão é este: a dialéctica entre o belo e o feio, o puro e o impuro, o mortal e o eterno, o desordenado e o ordenado, a ausência e a presença, o silêncio e o som. A Diotima (o Sócrates e o Platão) dizia que o EROS estava entre uma coisa e a outra, por ser filho da Pobreza (Penía) e do Engenho (Poros). Uma dupla identidade que o torna divindidade, mas também mortal.  Daimon. Também a poesia é um compromisso entre uma coisa e a outra, sendo, em parte, cada uma delas. Irmanam-se, o amor e a poesia, e é por isso que um induz o outro. Mas é verdade: o amor é um poderoso propulsor de poesia. Ele liga os elementos, o mortal e o imortal. Nisso concordo com o poeta e dramaturgo Ágaton. Até porque, a crer nas palavras de Nietzsche, nas suas (dos gregos) tragédias existe sempre uma harmonia entre o “espírito dionisíaco” e o espírito apolíneo”, entre a alma e o espírito.

IV.

Excursus ou uma introspecção literária. Nesta escrita dos fragmentos combino sempre duas coisas: o sentido dos comentários dos leitores ao poema em causa e as minhas respostas, logo no momento em que os leio. Depois, passado algum tempo, vem a livre reelaboração das respostas, autonomizando-as dos comentários e da referência directa ao poema. É nesta fase que posso avançar para a dimensão mais teórica e reflexiva, libertando-me completamente, a ponto de, por vezes, acabar, inadvertidamente, por regressar à poesia, mas em prosa, apercebendo-me disso só após a leitura do próprio fragmento. Momentos de especial inspiração. Para reflectir acerca da génese ou da matriz da poesia parto sempre da minha própria experiência, enquanto poeta (se é que já tenho esse estatuto). O que não significa que, depois, não me confronte com o que os grandes poetas disseram da sua própria arte. Com o que cada um pensa (analiticamente) do que faz. Fi-lo em “A Dor e o Sublime”. Lembro-me sempre do Edgar Allan Poe e da sua bela exposição acerca de “O Corvo” no seu texto sobre a Filosofia da Composição. Depois, regresso ao meu próprio mundo, certamente mais rico com o que aprendi. É uma dialéctica progressiva. Mas o que é decisivo é sempre o exercício poético e a causa do poetar. Escrever sobre o que faço não é certamente tão importante como o próprio poetar. É nesse acto que verdadeiramente me liberto e me realizo. E é assim porque a poesia é verdadeiramente uma arte extraordinária, sobretudo pela sua dimensão altamente performativa.

V.

“É exactamente a isso que o poema-arietta alude”, respondia assim a um comentário que falava em tornar os sonhos palpáveis e as ilusões esperança. Eu sempre sonhei ter no meu jardim azevinhos com muitas bagas vermelhinhas. E a musa está sempre lá, onde o poeta caminha com a sua fantasia. Faltam, no jardim, as tão desejadas bagas vermelhinhas da cor do seu sangue? Pede-as à musa e ela dá-lhas, sob forma de estímulo inspirador. E o pintor, também ele seduzido, ajuda. Num quadro alusivo a uma poesia há uma folha de azevinho e muitas, mesmo muitas, bagas. Um excesso, quase uma compensação pela recusa dos azevinhos, que não dão bagas. Na fantasia, a abundância cresce, tem de crescer, porque quem não é rico em fantasia fica ainda mais pobre na realidade. Ora aqui está algo que muitos não sabem, acabando por transportar para a fantasia a pobreza com que lidam no real e com que vão sobrevivendo. Acabam por não chegar lá, ao Monte Parnaso. Mas também há os que querem lá chegar com retórica em excesso, transcurando o que deve sempre estar com eles, essa alma ferida. Mas, assim, também esses não chegam lá porque tudo aquilo que transportam é simples virtuosismo, exibicionismo, puro contorcionismo verbal. Na viagem o poeta vai sempre carregado e pesado sendo necessário uma forte propulsão. Não era assim que Sísifo ia? E o poeta tem muito de Sísifo…

VI.

As bagas, afinal, são a ponte entre o real e o fantástico. Como, aliás, a poesia. A história tem um referente na realidade: procurei um novo azevinho para o meu jardim porque o outro não as tinha, as bagas. Só que o novo também as não tem. Pois bem, se as bagas não nascem faço-as eu nascer. Poeticamente. E muitas mais do que as que o novo azevinho daria, mas não deu. Assim pode ser também no amor: “Gherardo, maintenant tu es plus beau que toi-même”. A poesia pode dar-nos o que não temos, em beleza e em dimensão ainda superiores. A abundância poética recobre a escassez do real. Entre uma e outra está a fantasia. E ela pode produzir um efeito de arrastamento, levando consigo o que perdeu, o ausente e o seu silêncio, como eco, e repor a esperança onde só parece existir pobre ilusão. É este o seu poder. E é ainda maior quando se trata das coisas da alma. Ela pode curar essa “maladie de l’âme” que é o amor, elevando-o e preservando-o da erosão do tempo. Imortalizando-o, pela arte. Como dizia o Honoré de Balzac: o amor é a poesia dos sentidos. Que mais não seja do que por isso, é legítimo o que Ágaton disse da relação entre o amor e a poesia.

VII.

Se o ser humano fosse perfeito não seria humano nem haveria necessidade de arte para tornar o imperfeito suportável e até belo. A arte é resultado da imperfeição humana. Uma elegante prótese humana. Mas nem todos podem criar, sendo, todavia, certo que a fruição estética é também ela parte integrante e indissociável da arte. A arte também nasce para ser partilhada, comunicada e só quando é objecto de partilha se realiza plenamente. A partilha, de resto, é como que a sua própria certificação. Afinal, através do que outros escrevem, sempre é possível contemplar esteticamente o que nós próprios sentimos. É essa a beleza da arte. Um espelho mágico.

VIII.

Atrever-me-ia a dizer que às vezes certos comentários, muito breves, mas certeiros, são também eles “sinestéticos” porque em poucas palavras conseguem sintetizar o encontro entre a pintura e a poesia. Perfeitos. Por exemplo: A lua que desce sobre o poeta, lhe ilumina a fantasia e recria (ao luar) o que não aconteceu, mas podia ter acontecido. Doce melancolia, a que a poesia e a pintura oferecem ao poeta.

IX.

Sim, fazer da vida jardim e do jardim lugar de poesia – é essa a meta do poeta. De resto, segundo Ágaton, em “O Banquete”, de Platão, o amor (Eros) “não toma por morada o que não floresce ou já está murcho, trate-se de corpos, almas ou seja o que for… Só quando encontra um sítio adornado de flores e perfumes, então pousa e se instala” (Platão, O Banquete, Lisboa, Relógio d’Água, 2018: 90). Século IV, a.C. Tudo converge para aí. Até porque é lá que se encontram os estímulos que levam o poeta a cantar. Entre eles, o loureiro, de Apolo, e o jasmim de que Dionísio gosta. O aroma deste é tão potente que o poeta fica embriagado (as libações, neste caso de intensos aromas) e voa com palavras tão alto, tão alto que acaba por lhe acontecer o mesmo que a Ícaro. Mas sem consequências fatais. E felizmente que o jasmim volta a dar-lhe energia para voar no céu de um poema. E é assim que o poeta vai vivendo e é feliz. E note-se o que Ágaton ainda diz do poder do Amor: “e para que também eu preste as honras à minha arte (a poesia, a tragédia), tal como Erixímaco (médico) prestou à sua, começo por falar na sabedoria do deus como poeta: um poeta tão hábil que sabe, inclusive, transmitir a outros a sua arte! Certo é que todo o homem bafejado pelo Amor, ‘mesmo antes avesso às musas’, adquire o dom da poesia… E eis o testemunho ideal para mostrar a excelência do Amor em todo o género de criação ligado às artes” (2018: 92). Mas eu acho que EROS precisa da ajuda de Apolo para levar a bom porto a sua missão. Que pode terminar com uma coroa de louros concedida por Apolo, lá no Parnaso, quando a obra for merecedora. JAS@11-2024

Campainhasdo ParnasoRec

Poesia-Pintura

POEMA PARA UM ROSTO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Rosto para um Poema”
Original de minha autoria
Novembro de 2024
S:Título2024Pub

“S/Título”. JAS 2024

POEMA  – “POEMA PARA UM ROSTO”

EU CANTO
Esses teus olhos,
Ah, eu canto
A sua luz,
A sua cor
Transparente
Como mel.
Este pintor
Que é poeta
Desenhou-os
Com um secreto
Pincel
Que era, sim,
Uma caneta.

PALAVRAS
Leva-as
O vento
(Eu bem sei),
Mas coladas
À cor
Desses teus olhos
(Como eu os
Desenhei)
São asas
Que me livram
Do tormento.

AGUARELA
De palavras,
Quero dizer,
Galeria
De um rosto
Só,
O pintor que é
Poeta
Assim desata
Seu nó
E deixa
Mensagem
Discreta.

TUA BOCA
É de púrpura
(É, sim)
Como eu
Sempre a vi,
Ao rubro
De uma intensa
Paixão,
Energia
Para voar
Por aí
Em acesa
Combustão.

HÁ VIDRO
Que a separa?
Pois há,
Mas se murmurar
O teu nome
Essa tela
Que é poema
Será sempre
A minha ara
No fogo
Que me consome.

CRESCEM FLORES
A teus pés,
Pintei-as
De todas as cores
Colhidas
No meu Jardim,
Anunciam
Novos aromas
E outros tantos
Sabores
Pintados todos
Pra mim.

S:Título2024PubRec

Artigo

TRUMP É MESMO FASCISTA?

Por João de Almeida Santos

TrumpFinalAss

“S/Título”, JAS 2024

NA PRÓXIMA TERÇA-FEIRA vota-se nos Estados Unidos para eleger o Presidente do mais poderoso país do planeta, numa época em que se vive uma extrema instabilidade internacional e uma forte ascensão política da direita radical em todo o mundo, incluída a Europa. E também ali parece estar a jogar-se algo decisivo. Algo que até pode ser considerado como um processo onde se joga o futuro da democracia americana, tendo o candidato republicano evoluído, desde que perdeu as eleições em 2020, para uma visão cada vez mais radical, a ponto de se poder temer pela sobrevivência da própria democracia americana ou, pelo menos, para uma sua forte descaracterização. Muitos se têm interrogado sobre quais são as reais intenções de Trump e como poderá ser definida a sua visão da política e da democracia. Talvez a sua visão reduza a política ao exercício do poder, à sua conquista e preservação. E a nada mais, para além das proclamações eleitorais para obtenção do consenso. De resto, seguindo uma tendência que, infelizmente, me parece ser hoje dominante. Na verdade, do que se trata é de um autêntico plutocapitalismo. Se dúvidas houvesse, e não há, bastaria tomar em consideração a presença activa na campanha de Trump daquele que dizem ser o homem mais rico do mundo, Elon Musk.

1.

É frequente a identificação da extrema-direita ou direita radical, em que Trump se filia, e cada vez mais, com o fascismo. Ou seja, atribuir-lhe as características que tinha o velho fascismo italiano personalizado em Mussolini, “Il Duce”, também conhecido  como “Er Puzzone”, alguém não recomendável. De resto, a Itália dos nossos dias até já é governada por um partido cujo antepassado é o partido fascista de Mussolini, estando também na ordem do dia saber se o partido “Fratelli d’Italia”, de Giorgia Meloni, se identifica, ou não, com esse passado. Julgo ter respondido a esta questão no meu livro Política e Ideologia na Era do Algoritmo (S. João do Estoril, ACA Edições, 2024, pp. 101-118), que será lançado nos finais de Novembro, na Covilhã. Não é, pois, muito estranho que a pergunta formulada no título deste artigo se aplique também ao candidato presidencial republicano. Sobretudo depois de o general Mark Milley e o seu ex-chefe de gabinete, John Kelly, assim o terem qualificado, depois de Joe Biden e Kamala Harris terem retomado essa qualificação e de vários historiadores a terem também, finalmente, considerado adequada. Sobretudo se referida aos últimos tempos.

2.

E começo por reconhecer que, sem dúvida, comparações históricas é sempre possível fazê-las. Sim, mas salvaguardando as diferenças temporais, pois parece ser verdade que, não obstante os “corsi e ricorsi” de que falava, e bem, Giambattista Vico, a história não se repete, sendo cada acontecimento histórico único, na sua singularidade temporal. Neste caso, bastaria referir dois aspectos para concluir pela inadequação desta caracterização: por um lado, estávamos no período entre guerras, com os efeitos desastrosos da primeira Guerra Mundial e a experiência da Revolução soviética a influenciar a política europeia; por outro, o fascismo aconteceu no período florescente das grandes narrativas políticas e ideológicas, hoje em claro declínio, tendo ele próprio contribuído para dar consistência ideológica, e até artística (veja-se, por exemplo, o futurismo de Marinetti), a esta orientação política. Estes dois aspectos bastariam para limitar as tentativas de classificar a política actual da extrema direita com o termo “fascista”. Mas é claro que há no discurso de Trump elementos que remetem para o fascismo: o regresso aos velhos, gloriosos e heróicos tempos do império; o inimigo externo já infiltrado internamente que ameaça a pureza étnica da nação e a necessidade de o combater com a lógica e as armas da guerra (com as forças armadas); e, finalmente, a extrema personalização da política e do partido em Trump, identificado cada vez mais como um líder carismático que tende a apresentar-se como o intérprete único dos americanos: “I am your voice” e quero tornar “America Great Again”. Fazer renascer de novo a América humilhada, que lembra uma frase que surge no início do filme de Leni Riefenstahl, “Triumph des Willens”, sobre o regresso de Hitler a Nuremberg, “dezanove meses depois do início do renascimento da Alemanha” (em 1933), humilhada em Versailles. O que não parece ser muito estranho se nos lembrarmos do que seus colaboradores próximos disseram acerca da sua opinião sobre Hitler e sobre os seus generais e, ainda, do que disse, em “Madison Square Garden”, no dia 27.10, sobre os Estados Unidos como um país “ocupado” que ele irá “libertar logo no primeiro dia”. Uma espécie de “deus ex machina” a aterrar no palco americano, no dia 5 de Novembro. Poderá ser exagero, mas que os ingredientes e o simbolismo estão lá, isso é verdade. Uma pergunta legítima: e se perder as eleições, o que acontecerá? Novo e mais violento assalto ao Capitólio?

3.

Podemos dizer que é o regresso de uma grande narrativa política e ideológica, de uma doutrina, de uma visão do mundo estruturada com força normativa, ou seja, com o poder de ritualizar a vida dos americanos? Não creio. O que estamos a ver é a exploração de um discurso sobretudo instrumental dirigido às pulsões mais básicas dos cidadãos com vista a obter consenso para uma vitória eleitoral e o acesso ao poder. Não é tecnicamente inocente a linguagem disruptiva e até chocante de Trump – ela visa no essencial polarizar a atenção social sobre si, o que é considerado determinante no discurso político (veja-se a teoria do “agenda-setting” ou a teoria da “espiral do silêncio”).  Estamos a assistir a uma lenta caminhada para um regime de partido único? Também não creio. Aquilo a que estamos a assistir é à personalização extrema do partido republicano na figura carismática de Donald Trump e à evolução para o modelo populista de acção política e de governo. Nem grande narrativa nem partido único, portanto. Estamos a assistir ao triunfo da força sobre o consenso? Não creio, apesar dos passados distúrbios do Capitolio e da ameaça de deportações em massa. Sobretudo do que se trata é, por um lado, de uma linguagem truculenta centrada em temas fracturantes (como é o da imigração) e que apela aos instintos mais básicos dos eleitores e, por outro lado, a uma profunda viragem institucional própria da direita radical e que consiste na atrofia da separação dos poderes em benefício exclusivo do poder presidencial. Veja-se, a este propósito, o dossier publicado pelo New York Times (de 26.10.2024, na primeira página e nas páginas A10-A13) acerca do que aconterá se Trump ganhar as eleições. Cito um pequeno extracto “If Trump wins” – “Donald J. Trump and his associates have a broad goal to alter the balance of power by increasing the president’s authority over every part of the federal government that currently operates independently of the White House”. O NYT retoma um estudo feito por The Times. No meu livro Política e Ideologia na era do Algoritmo, já referido, explico em que consiste este modelo de concentração do poder no executivo já assumido de forma generalizada pela direita radical.

4.

Mas, mesmo assim, isto justifica que liquidemos o fenómeno Trump com a palavra fascismo? A verdade é que, fazendo isto, o que acontece é que se está a cobrir a realidade com um véu translúcido que não deixa ver com nitidez o que se está a passar na política americana. Li no “Público (de 28.10.2024) um artigo (“Sanewashing e a longa entronização de Trump”) de uma professora da Universidade de Boston, Daniela Melo, que discorre sobre uma fórmula, “sanewashing”, que exprime a lavagem linguística, pelo jornalismo, da linguagem disruptiva e desconexa de Donald Trump como inadvertido contributo para uma bonificação da imagem do famoso plutopopulista. O pudor jornalístico da melhor imprensa a impedir-se de transcrever a linguagem rude e truculenta de Trump como contributo não intencional para a sua entronização. Coisa antiga, diz a articulista. Pelo menos, desde os tempos de “The Apprentice”. Mas li também um pequeno ensaio, publicado no “Libération” (28.10.2024: 20-21), da autoria de Sylvie Laurent, professora em Sciences-Po, Paris, intitulado precisamente “Trump est-il fasciste?”, que acaba por dar uma resposta de certo modo positiva à pergunta formulada pelo título. Com efeito, ela termina o artigo da seguinte maneira: “Da primeira vez (2016), não se tratava senão daquilo a que se chamou um ‘fascismo inacabado, experimental e especulativo’. Mas, amanhã?”. Conclusão que se segue à descrição dos elementos considerados fascizantes no discurso e no projecto político de Trump: “medo eugenista de declínio moral e étnico do país, uso da violência política, racismo matricial, ódio aos movimentos sociais e à esquerda cultural e ressentimento em relação ao Estado e às instituições públicas consideradas corruptas e fracas”. Um horizonte contra-revolucionário que, de acordo com a autora, não visa somente a revolução igualitária dos direitos e liberdades dos anos ’60, mas a própria revolução liberal de 1776, que procedeu à separação dos poderes e que reconhecia o direito de voto e a soberania a cada um. A autora podia ter acrescentado a tudo isto, reforçando esta argumentação, o não reconhecimento da vitória de Joe Biden, em 2020, e o assalto violento ao Capitólio, que mais pareceu uma tentativa de golpe de Estado, ao estilo da farsa mussoliniana da “Marcha sobre Roma”.

5.

Estas características podem muito bem ser enquadradas pela ideia de um plutopopulismo centrado no carisma e na figura de Trump e, já agora, pelos compagnons de route plutocráticos de que Elon Musk é o símbolo mais visível. Mas uma coisa há que perguntar: trata-se verdadeiramente de uma doutrina, de uma ideologia, de uma mundividência sólida ou simplesmente de um processo instrumental de pura conquista do poder no quadro de uma visão de tipo absolutista, perfeitamente alinhada com a que já é hoje claramente assumida pela direita radical-populista e que, noutros países com enquadramento constitucional diferente, podemos classificar como presidencialismo do primeiro-ministro e que, em Itália, já é conhecido como “Premierato”?

6.

A clarificação desta questão não é de somenos, pois o uso e abuso de certas fórmulas (por exemplo, esta de classificar como fascista ou como comunista tudo o que esteja fora do perímetro político do catalogador) para reconhecer e explicar a realidade política e para fazer combate político parece-me dever ter duas leituras: a) este exercício discursivo não só é cognitivamente ineficaz e incorrecto, b) mas ele também esconde uma técnica que é mais própria das autocracias do que das democracias, ou seja, a identificação de um inimigo interno e/ou externo não só para tocar a rebate e unir forças para o combate, mas também para esconder a pobreza doutrinária e cognitiva das forças que usam e abusam destas fórmulas. Em suma, uma lógica de guerra que não está alinhada com a natureza da democracia. A tendência para ver tudo a preto e branco não anuncia grandes resultados intelectuais nem políticos.

7.

Sylvie Laurent, para fundamentar a sua posição, lembra, e bem, o uso de determinadas expressões de Trump: o inimigo do interior; dia da libertação para uma América ocupada (o cinco de Novembro);  nós defenderemos o nosso território, as nossas famílias, as nossas comunidades, a nossa civilização; nós não seremos conquistados; não seremos invadidos; vamos recuperar a nossa soberania; recuperaremos a nossa nação – e eu devolver-vos-ei a vossa liberdade e a vossa vida; e, finalmente, algo que soaria bem em Mussolini: “nós temos entre nós pessoas nocivas, doentes, loucos radicais de esquerda… será necessário ocupar-se deles, se necessário, pela Guarda nacional e, porque não?, pelas forças armadas”. Poder-se-ia, para finalizar, acrescentar: “I am your voice!”

O que resulta de tudo isto é a ideia de que a América precisa de uma guerra de libertação porque se trata de um país ocupado (mas só nos últimos 4 anos, entendamo-nos). Trata-se de uma linguagem bélica e de uso daquela categoria que Carl Schmitt considerava ser a dicotomia central da política: a relação amigo-inimigo. Só que esta relação pertence mais à lógica da guerra do que à lógica da política democrática, onde não há inimigos, mas adversários em competição regulada por normas por todos aceites. O que, a considerar-se o que aconteceu com as últimas eleições e com o episódio do assalto ao Capitólio, parece não ser o caso de Trump. A verdade é que ele “evoluiu” muito (mas de forma regressiva) desde a sua Presidência, designadamente em relação ao próprio partido, que hoje controla totalmente. Controlo que, pelos vistos, aspira a projectar para dentro do Estado, intensificando o que já fizera na sua presidência. Ou seja, controlando as instâncias que em democracia funcionam como contra-poderes (os famosos pesos e contrapesos) e tratando como inimigos todos os que estejam fora do seu perímetro político, se preciso usando as forças armadas. Um discurso que radicaliza ainda mais aquela que foi a sua gestão entre 2017 e 2021. Por isso, também eu, tal como Sylvie Laurent, me interrogo: e amanhã? JAS@10.2024

Trump2Rec

Poesia-Pintura

TENTAÇÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Cristais”, JAS 2021
(67x89, papel de algodão, 310gr,
e verniz Hahnemuehle, Artglass AR70,
 mold. de madeira). Colecção privada.
Outubro de 2024.

Jas16Cristais2022

“Cristais”. JAS 2021

“¡Quién fuera como tú,
fruta, / todo pasión
sobre el campo!”

Final do poema de
Federico García Lorca
“Canción Oriental” (1920),
dedicado à Romã.

POEMA – “TENTAÇÃO”

INQUIETO,
Como sempre,
Vi-te por dentro
Depois de te ter
Cantado
Por fora,
Feliz,
Mas um pouco
Triste,
Assim...
Como quem chora!

CONTEMPLEI
Teus cristais,
Vi cintilar
Tua alma
E logo te pintei
Por dentro,
Sem mais,
Numa tarde
Leda e calma.

E CEDI À TENTAÇÃO
De te oferecer
Aos lábios
Da minha amada,
Ao compromisso
Fatal,
Pra que ficasse
Enleada
E, como Deusa
Do Olimpo,
Se tornasse
Imortal.

MAS ELA É
Concha fechada,
Seus cristais
São ouro negro,
É mistério
Bem guardado,
Silêncio
É o seu lema
Porque, dizem,
É dourado.

MAS PARA MIM
É romã...
.............
Quando a chamo
Ao meu canto
E a pinto
Com afã,
Alma cheia,
Cresce
No meu Jardim
Como em ilha
Encantada
Nasce o canto
Da sereia.

NUNCA TOCOU
Teus cristais
Nem os comeu
Como eu queria
Para, qual Hades
Do poema,
A ter
Eternamente
Cada noite
E cada dia.

POR ISSO TE PROCUREI,
Fruto
De tentação,
Alimento
Dos deuses,
De Kore
A eterna
Perdição.

TALVEZ ME ACENDAS
O estro
E a vontade
De rimar
Pois silêncio
Não é ouro
Se me falta
A sua voz
E não a posso
Cantar.

Jas16Cristais2022Rec

Artigo

NOVOS FRAGMENTOS (III)

Para um Discurso sobre a Poesia

Por João de Almeida Santos

EvocaçãodeumaMagnólia

JAS 2021

I.

Pergunto: não é o sonho que comanda a vida, como dizia o poeta? Que seria de nós se não pudéssemos sonhar? “La vida es sueño” e o sonho vida é, dizia, e bem, o Calderón de la Barca. E o poeta não é o grande intérprete, como se fosse o seu pianista, dos sonhos, bem mais eficaz do que o psicanalista? Ele interpreta e “toca” habilmente os sonhos, dando-lhes harmonia e beleza. A sua música seduz e faz vibrar a sensibilidade dos que a escutam, dando vida ao que sente. Se o segundo azevinho que tenho lá no meu jardim também não quiser, como o outro, dar bagas, recrio um novo com bagas ainda mais vermelhinhas. Sonho com bagas? Dou-lhes vida, com palavras, riscos e cores e partilho-as nos meus rituais. Assim pode ser com o amor.

II.

Na poesia o movimento é, primeiro, de fora para dentro e, depois, de dentro para fora. Começa sempre por ser sensorial, mesmo quando o estímulo já está localizado na zona quente da memória afectiva. Deste duplo movimento resulta o poema. Lá mais profundamente fervilham pulsões que só podem ser controladas e revividas através da sua conversão poética. Da sua verbalização poética, que é também musical. Elas, na origem, são accionadas por estímulos sensoriais. É assim que nasce a poesia. Arte que, pela sua performatividade, tem um elevadíssimo poder terapêutico. Em particular, sobre essa particular “maladie de l’âme” que tanto inspira e excita os poetas. Remédio da alma.

III.

Os poemas que parecem mais fáceis muitas vezes são os mais difíceis de compor. É verdade. A chegada auspiciosa da inspiração ajuda o poeta a não mais tropeçar. Ajuda, mas não resolve. Ou então a tropeçar com tal elegância que mais parece dança coreografada.

IV.

Às vezes parece mesmo que temos mais saudades do que não aconteceu do que do que aconteceu. Às vezes… ou sempre? Eu penso que, pelo menos, são mais intensas e até mais desafiadoras. Não houve? Não aconteceu e eu ainda sofro por não ter acontecido? Ah, sim? Então vou-me servir do poder performativo da poesia e vou fazer acontecer o que não aconteceu. Mãos à obra e, no fim, a obra nasce. “Às vezes” (título de um poema meu). E o poeta fica feliz e (quase) realizado. Não beijou? Envia beijos escritos à musa, na esperança de que os fantasmas não os bebam. Sim, porque há sempre fantasmas por aí. Não a vê? Canta-a. É isso: vê-a em palavras e impressa em pauta musical et plus belle qu’elle-même. Milagres da arte e da sensibilidade. De que pode, pois, queixar-se o poeta? Só se for de insuficiência da fantasia e da intensidade da pulsão… Ah, mas se fosse disso talvez não houvesse pressão suficiente para poetar. Porque não haveria dor que doesse. Poetou e pintou? Houve inspiração e tensão pulsional. Pelo menos, o suficiente para lhe baixar a tensão emocional para níveis suportáveis, pelo menos, que não provoquem danos, enfartes ou colapsos sentimentais.

V.

Fazer da fraqueza força. Pode-se dizer isso do poeta: reconhece as suas limitações na lide com o real. Tem saudades dos seus irrealizados sonhos, mas não baixa os braços. Pelo contrário. Com as palavras de que dispõe, levanta-os bem alto a ponto de poder convocar outros para o ritual de celebração da “vitória” da fantasia sobre o real, mobilizando a comunidade poética. Vitória? Não, propriamente. Porque a arte não é desforra, mas enaltecimento da realidade falhada, humana e desejada. Recriação com maior peso estético e até densidade existencial. Milagre? Quem se pode queixar deste milagre? Só quem não o compreende. Só quem não consegue aceder-lhe. De certo modo, estamos num território de “iniciados”. A identidade do poeta é a de um ser imperfeito e, por isso, muito humano, demasiado humano. Alguém que teve necessidade de se iniciar no processo de acesso ao mistério da vida, tantos foram os seus fracassos, as suas derrotas, as suas perdas e os silêncios que se lhes seguiram. A iniciação poética… que não é menos do que as outras. Ou talvez seja mesmo uma iniciação maior, superior. Sem arte, morre-se de realidade, sem dúvida, como dizia um Amigo meu. Sem arte a vida seria um aborrecimento insuportável. Viveríamos de alma perdida ou nunca encontrada. Numa vertigem de fugas para a frente, mas sem saber para onde. Uma correria sem sentido. E circular, porque nunca se sairia do mesmo sítio. Ou talvez a realidade morresse de si própria, por depressão, por incapacidade de se superar e de se dizer. Talvez seja isso. Não sei, instalado, como estou, na poesia. Mas talvez a resposta só possa ser dada num poema. E seria resposta cifrada e incompleta.

VI.

Depois das Bagas de um Azevinho, o acre aroma de um jasmim. Resultado da permanente transumância poética. Parte do azevinho e vai até ao jasmim. Tão perto e tão longe. Tão longe e tão perto. O perfume – que se desloca com grande velocidade – embriaga os sentidos e funciona como propulsor da fantasia poética para descolar do jardim rumo ao cume da montanha. O necessário para que o poema nasça… já em voo. A simplicidade, meta difícil, somente atingida em velocidade de cruzeiro, não está ali ao nosso alcance, logo no começo da viagem. É preciso viajar muito para a alcançar. O jasmim, se o tivermos, ajuda, mas também é necessário ir lá ao fundo da memória para resgatar o que por lá foi ficando, inacabado, e que, afinal, merece ser trazido à consciência e cantado. É o perfume do jasmim o combustível necessário para a viagem. Mas também é preciso olhar para a vida como um jardim (e não tanto como um inferno) onde há jasmins e loureiros, beleza a rodos, onde há cores e aromas com os quais nos podemos alimentar. Mundo estranho aos que sempre estão sempre zangados com a vida. Mas, mesmo para estes, há um remédio eficaz: a arte. Se forem seduzidos. Sobretudo com a beleza da simplicidade de um discurso poético.

 VII.

A poesia é intensamente metafórica, move-se entre o dito e o não dito, é linguagem cifrada, mas fala da intimidade com a linguagem velada de quem tem que dizer, mas também de quem tem de calar, de ocultar, de silenciar. Alude, mas não cartografa, deixando a quem a visita a tarefa de interpretar e de se orientar no caminho a percorrer. Ela é mais do que um espelho, do que tradução do que vai na alma do poeta. Porque a alma poética aspira a ser universal, na intimidade, no desejo que a mobiliza. É ambiciosa, a alma poética. Só com a ambição se cura. Ela é estimulada sensorialmente, sim, mas depois eleva-se sobre a contingência do sensível. A poesia também está lá para devolver, como espelho, sentimentos do outro, que não somente os do poeta. Nos seus, ele também encontra os dos outros e só por isso consegue que eles lhe prestem atenção, como se fossem seus. A poesia é um espelho com duas faces.

VIII.

Há na poesia um certo hermetismo e uma vocação alquímica, com o poeta a ir ao centro da alma naquilo que ela tem de mais precioso e comum, daquilo que lhe permite a partilha, o intercâmbio. Processo aurífero. A poesia como o equivalente geral dos sentimentos. Por isso vai ao essencial, libertando-se do acessório. Inclusivamente do que é só seu. É claro que o jasmim, o perfume, o loureiro são metáforas de algo que é mais humano e a subida às alturas, depois de uma profunda embriaguez de perfume, só pode ser figurada com a centralidade do amor. Até do amor físico. Libações inspiradas em Dionísio. No jardim há arbustos que são musas, distantes fisicamente, mas íntimas espiritualmente. Poderosas. São elas a propulsão que permite o voo poético porque no processo de transfiguração disfarçam-se sob forma de perfume. No jasmim, há sempre musas por entre a sua densa folhagem verde. Pois há. E é por isso que o jardim representa a múltipla dimensão sensorial que estimula e anima o poeta, tornando viva a poesia. Se depois for possível, num gesto sinestésico, dar cor e perfume ao poema, através da pintura, a sensibilidade agitar-se-á mais intensamente e, então, entrarão em cena todos os sentidos, provocando uma girândola de sentimentos. Uma autêntica festa com palavras estrepitando no céu da fantasia. JAS@10-2024

EvocaçãodeumaMagnóliaRec

Poesia-Pintura

O JASMIM

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Rapsódia”
Original de minha autoria
Outubro de 2024

JAS_Rapsódia2024

“Rapsódia”. JAS. 10-2024

POEMA  –  “O JASMIM”

FLORESCEU
O meu jasmim,
Dele jorra
Poesia,
O seu aroma
Embriaga
E liberta
A fantasia.

DOU COR
Às minhas
Palavras,
O seu perfume
Ilumina,
Bate-lhe o sol
Na folhagem
E o poema
Germina...

JÁ NÃO É SÓ
O loureiro,
Agora canto
O jasmim,
É tão vivo
O seu perfume
Que o estro
Já cresce
Em mim.

INUNDO-ME,
Pois,
De palavras,
De aromas
E de cor,
Subo ao céu
De um poema
Com desejo
De o compor.

SOU ÍCARO
Lá no alto
E quando o sol
Bate forte
Caio em mim
Do poema
E no chão
Da minha alma
Fico perdido,
Sem norte.

LOGO INVOCO
O jasmim,
Para ganhar
Energia,
Volto a subir
Às alturas,
Renascer
Em poesia.

VEJO DE NOVO
O jasmim
Mesmo ao lado do
Loureiro,
Respiro fundo
O perfume
E torno-me
Seu jardineiro.

E ASSIM EU VOU
Vivendo
No jardim da
Minha vida
Onde as palavras
São cores
E os aromas
Melodia,
Os poemas
São canções,
Milagres
Da fantasia.

JAS_Rapsódia2024-Rec

 

 

 

 

 

Artigo

NOTAS SOBRE A CONJUNTURA POLÍTICA

Por João de Almeida Santos

UE

“S/Título”. JAS. 10-2024

1.

O RECENTE EPISÓDIO no Parlamento Europeu, com alguns deputados da esquerda a cantarem a “Bella Ciao” depois da intervenção de Viktor Orbán, suscitou-me algumas perplexidades quando a Presidente do Parlamento interveio, durante o canto, para dizer que o PE não era a Eurovisão e que o gesto mais parecia “La Casa de Papel”, a série televisiva adquirida pela Netflix, que integra, como fundo musical, a “Bella Ciao”.  Esta intervenção de Roberta Metsola suscitou-me uma dúvida que, a confirmar-se, representaria uma falha grave de quem ocupa tão alto cargo institucional na União Europeia. Saberá Metsola que a belíssima canção “Bella Ciao” era um canto da resistência italiana contra o fascismo de Mussolini? E, sabendo, faz algum sentido comparar o gesto dos deputados a “La Casa de Papel”, ultrajando dessa forma a resistência italiana e até a própria beleza da canção, designadamente a da própria letra? “La Casa de Papel” trata de assaltos a bancos, enquanto “Bella Ciao” representa a luta contra o fascismo e o invasor, a luta de um povo pela liberdade. A senhora poderia muito bem ter ouvido, ter dito que um canto tão belo, na música e no conteúdo, no PE seria sempre sinónimo de alegria e de liberdade, vista a função do Parlamento e a diversidade de valores e visões do mundo nele presente. Expressá-la através da música, ainda por cima bela, não deveria constituir motivo de desagrado presidencial.  Mas não, a senhora Presidente preferiu ignorar o hino da resistência italiana, degradando-o a uma qualquer casa de papel ou a um medíocre festival da canção. Intencionalmente ou por ignorância. Não acreditando, todavia, que tenha sido intencional, resta-me ficar convencido que a senhora Roberta Metsola Tedesco Triccas julga mesmo que “Bella Ciao” é somente uma das músicas originais de “La Casa de Papel”. O que, confesso, é espantoso para uma senhora natural de Malta e que tem no seu nome as palavras italianas “Roberta” e “Tedesco”. O que é curioso é que, sem saber o que estaria para acontecer nessa quarta-feira, eu publiquei aqui, nesse mesmo dia, um artigo sobre António Gramsci na prisão fascista de Mussolini. Curiosas coincidências.  Mas para que se entenda melhor a minha perplexidade, que é também estética, além de moral,  aqui deixo a letra de “Bella Ciao”:

«Una mattina mi son svegliato,
oh bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Una mattina mi son svegliato
e ho trovato l’invasor.

O partigiano, portami via,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano, portami via,
ché mi sento di morir.

E se io muoio da partigiano,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E se io muoio da partigiano,
tu mi devi seppellir.

E seppellire lassù in montagna,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire lassù in montagna
sotto l’ombra di un bel fior.

E le genti che passeranno
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che passeranno
Ti diranno «Che bel fior!»

«È questo il fiore del partigiano»,
o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«È questo il fiore del partigiano
morto per la libertà!»

Uma letra destas, o contexto histórico em que era cantada e o próprio gesto – cantar – deveriam ter motivado a senhora Metsola, caso soubesse do que se tratava, a ter cuidado com os comentários que fizesse a propósito do gesto dos eurodeputados. Mas não. Infelizmente.

2.

As presidenciais americanas de Novembro assumem um relevo excepcional não só por se tratar da maior potência mundial, mas também, por um lado, pelo estado actual da política internacional, com duas situações altamente explosivas, na Ucrânia e no Médio Oriente, e, por outro, por um dos contendores, Donald Trump, representar o que há de mais regressivo na política, representando o que já aqui designei por “plutopopulismo”. Um desbragado “plutopopulismo” sem limites na linguagem e nas referências caluniosas à sua adversária. Basta pensar que não aceitou a derrota, oficialmente reconhecida, nas eleições de 2020 e que, ao que parece, patrocinou o assalto ao Capitólio. Kamala Harris mantém uma dianteira de cerca de três pontos, mas nos swing states verifica-se um empate. Além disso, o radicalismo da campanha de Trump tem agora um novo intérprete, o senhor Elon Musk, que considera Kamala Harris, candidata e actual Vice-Presidente dos Estados Unidos, comunista e extremista, utilizando a sua rede social X/Twitter para alimentar a campanha de Trump. Uma conta, a de Musk, no X,  com 200,8  milhões de seguidores (Le Monde, 11.10.2024, p. 19). Não sei se alguém já se tinha apercebido de que os Estados Unidos têm sido governados, desde 2021, por uma Vice-Presidente comunista. Nada menos. Sinceramente, vem-me vontade de perguntar aos comunistas o que pensam da declaração de Musk sobre Kamala Harris. Mais palavras para quê?

3.

A ditadura do senhor Maduro prossegue com uma estratégia semelhante à que utilizou com Juan Guaidó: a de uso do tempo a seu favor e da saída do caso Venezuela da agenda política internacional quer por “cansaço” e esgotamento noticioso quer pela emergência de outros temas, que passem a dominar a agenda política internacional. E os temas não faltam. Com as costas guardadas pelos generais das forças armadas, que fazem parte orgânica e interessada do poder de Maduro, acabará por ver firmar-se um silêncio que favorecerá a sua permanência no poder, ainda por cima com o vencedor das eleições (parece não haver dúvidas disso, uma vez que o regime, ao contrário da oposição, não consegue demonstrar que ganhou) exilado em Espanha, país que parece ter-se agora convertido no seu inimigo externo, com a Assembleia Nacional a propor a Maduro um corte total de relações com Espanha. Só falta mesmo inventar umas Malvinas venezuelanas para completar a estratégia. As ditaduras sempre precisaram de um inimigo (não adversário) externo, além do interno, que aparece sempre como uma projecção, por infiltração, do inimigo externo. Na Venezuela, o partido bolivariano parece estar destinado a identificar-se eternamente com o Volksgeist venezuelano… para sempre ou até quando os generais acharem que Maduro já não consegue exibir legitimidade suficiente para defender os seus (deles) interesses.

4.

Em França continua o processo de afirmação da direita através de um pacto de estabilidade do governo Barnier com o Rassemblement National (RN), que já se traduziu em nomeações na Assembleia Nacional de membros deste partido e do bloco de governo com os seus votos e os daquele bloco. Aquilo a que se está a assistir é a uma real erosão do chamado “cordão sanitário” em torno do RN. A dinâmica em curso parece ter sido bem resumida por um deputado do RN, Jean-Philippe Tanguy: “D’un côté, il faut se normaliser. D’un autre côté, il ne faut pas s’embourgeoiser non plus…” (Le Monde, 11.10, pág. 13). Interessante, esta frase, “il ne faut pas s’embourgeoiser non plus”, vinda de onde vem. O que apetece, pois, dizer à esquerda do senhor Mélenchon (e, já agora, ao senhor Olivier Faure), depois do processo a que assistimos (e sobre o qual tenho vindo aqui a escrever), é que quem tudo quer tudo perde, embora não se possa ainda prever as consequências, provavelmente politicamente fatais, dos seus actos. Mas creio que uma coisa é certa: o RN tem vindo progressivamente a ganhar influência e a normalizar-se perante a sociedade francesa. Acresce, agora, aos significativos resultados eleitorais obtidos nas europeias e na primeira e na segunda volta das legislativas, a partilha de cargos institucionais e de políticas que lhe são caras. A verdade é que o RN se tornou indispensável para a sobrevivência do governo e para a constituição dos poderes intermédios que governam o sistema institucional. E é muito provável que o processo de normalização da direita radical prossiga e que em 2027 possa mesmo vir a ganhar as eleições presidenciais, com a chamada frente republicana já completamente esfacelada. Não me parece que com esta situação Mélenchon tenha a vida facilitada para as presidenciais, mesmo numa segunda volta. Entretanto, aconteceu, como se sabe, mais uma nova vitória da direita radical na União Europeia: o Partido da Liberdade ganhou as eleições na Áustria, com 28,85%, dos sufrágios, depois de uma consistente participação de austríacos nas eleições, 77,68%. A normalização parece estar a impor-se na União, e agora também na França. Era esta a manchete do “Le Monde” de 11 de Outubro: “Assemblée: le cordon sanitaire autour do RN abîmé”. Este processo em França foi claramente favorecido pela posição maximalista da NFP, inspirada pelo subjectivismo político do senhor Mélenchon. Concordo, pois, com a posição do socialista e ex-ministro do PS, Vieira da Silva, no seu recente artigo no jornal Público, “Marcelo&Mélenchon” (14.10,2024, pág. 10), bem diferente da que defendeu a líder do GP/PS, Alexandra Leitão sobre o mesmo assunto, tendo eu próprio tido ocasião, em vários artigos aqui publicados, de fundamentar detalhadamente a minha crítica (veja sobretudo o artigo “A Democracia Roubada?”, de 11 de Setembro: https://wordpress.com/post/joaodealmeidasantos.com/15819).

5.

Por cá, alguns processos que estão a ocorrer merecem considerações de natureza crítica. Em primeiro lugar, todo o processo de discussão do orçamento de Estado, em particular o carácter público das negociações entre o PSD e o PS. Não parece ser próprio de negociações sérias elas serem feitas na praça pública, por uma simples razão: transformam-se em peças teatrais para a plateia dos eleitores. Depois, não me parece muito normal que o orçamento seja construído em parceria entre os dois partidos da alternância (a não ser em situações excepcionais ou, coisa absurda, pouco ou nada distinguindo os dois partidos) porque, a ser assim, ele também deveria ser executado em parceria, tendo como consequência a formação de um bloco central (como já aconteceu), com efeitos governativos. O que já não parece ser muito lógico é que a executá-lo seja somente um dos partidos. Estranhas parece serem, pois, certas posições que, ao contrário do que já disse, no passado fim-de-semana, o próprio SG do PS, consideram que o Orçamento do PSD tem uma indelével “marca socialista” (Zorrinho) ou que ele deva ser aprovado por ambos os partidos do sistema para, assim, impedirem que o CHEGA se torne imprescindível na política nacional (Sousa Pinto), incorrendo, deste modo, numa clara petição de princípio – o PS e o PSD conduzirem-se politicamente tendo como objectivo essencial impedir a centralidade do CHEGA (uma espécie de bloco central contra este partido) significa, ipso facto, elevá-lo a pilar central da política nacional, exactamente o contrário do que pretendem. Ou seja, fazer entrar pela janela o que se quis afastar pela porta. Este equívoco de determinar a política nacional pelo imperativo de combater o CHEGA tem sido fonte de graves erros do PS. Mas há quem continue a lutar por eles. Ou, então, a posição radical e frontal de José António Vieira da Silva acerca do orçamento ou das próprias palavras de Pedro Nuno Santos, mais parecendo um anúncio de próximo combate à liderança do actual SG do que uma proposta de solução para a difícil situação em que se encontra, neste momento, o PS.  Terão sido cometidos erros até agora, mas esta posição de Vieira da Silva não ajuda o PS a encontrar o caminho certo para o seu essencial desempenho político.  Tudo isto, para não falar das famosas reuniões secretas do PM (o autor do “não é não”) com André Ventura, ainda por esclarecer cabalmente. A situação parece estar a tornar-se politicamente muito nebulosa e, por isso, uma clarificação eleitoral poderia vir a tornar-se útil para que tudo pudesse ficar mais claro e menos nebuloso.

6.

A recente questão levantada pelo SG do PS acerca do dever de reserva dos dirigentes e deputados comentadores do PS acerca do Orçamento, que está a provocar uma onda de declarações contra e a favor, merece clarificação. Sempre achei estranho que o espaço mediático de comentário político fosse ocupado por agentes concretos da política nacional que ocupam posições políticas institucionais quer no partido quer no Estado. A fórmula que sempre me pareceu boa era a do debate entre eles, não a do comentário, por uma razão: os ditos comentadores tenderão sempre a não procurar a objectividade devido às suas directas responsabilidades políticas. Ora o comentário, destinando-se a esclarecer a cidadania deve, na medida do possível, ser objectivo, imparcial e neutro (categorias dos códigos éticos), e não de parte. É para isso que servem os media, para ajudar o cidadão a tomar boas decisões através de boa informação e boa opinião (de factos, descodificadora e reflexiva). Se assim fosse, uma parte do problema ficaria resolvida. Por outro lado, é compreensível que quem ocupa posições de responsabilidade nos partidos (ou no Estado) deva temperar as suas convicções com o sentido de responsabilidade, remetendo as suas convicções para as instâncias próprias do partido e respeitando funcionalmente os que estão vocacionados para gerir o discurso público, logo a começar no mais alto dirigente, no caso do PS, no Secretário-Geral. Esta lógica, no meu entendimento, não se aplica a mais nenhum membro/militante partidário desde que não desempenhe altas funções de responsabilidade política, designadamente executivas. Utilizar o espaço público para condicionar a gestão política do próprio partido, quando tem direito a expressar a sua posição e a decidir nos principais órgãos de decisão nacionais, ou, em certos casos, para se promover e sobreviver pública e politicamente, não me parece ser politicamente muito saudável.

7.

Depois, a questão das eleições presidenciais. O líder do PS, Pedro Nuno Santos, a uma pergunta sobre eventuais candidatos da área socialista, respondeu referindo alguns nomes, incluído, agora, também o de António José Seguro, além dos que já circulavam. Não me parece que o devesse ter feito, não só porque se trata de uma candidatura pessoal, mas também para não interferir publicamente no processo de eventual candidatura de figuras afectas ao PS, abrindo o leque de possíveis candidatos em condições de obterem o seu apoio. Também aqui, a haver algum activismo do partido, ele deveria ocorrer de forma não pública. Publicamente, a resposta do Secretário-Geral deveria anotar que a candidatura não é de partido, mas pessoal, pelo que só perante o facto o PS se iria pronunciar. Apoiar um candidato, sim; apontar publicamente nomes de possíveis candidatos, seguramente não.

8.

No passado dia 12 tomou posse o novo Procurador Geral da República. Uma escolha de Luís Montenegro, acolhida imediatamente por Marcelo Rebelo de Sousa, mas, ao que se sabe, uma escolha que não foi precedida de consultas aos principais parceiros institucionais e, em primeiro lugar, ao Partido Socialista. Depois, uma escolha alinhada plenamente com as expectativas do Ministério Público, sendo certo que o PGR pode ser escolhido livremente pelo governo mesmo fora do poder judicial. Este alinhamento foi confirmado pelo novo PGR no seu discurso de posse ao dizer, nas barbas do poder político, que recusará alterações à natureza do Ministério Público, sem que tenha legitimidade para isso (falou, designadamente, se não erro, de independência, quando do que constitucionalmente se trata é de autonomia, estando a independência, nos termos constitucionais, reservada aos tribunais, ou seja, à magistratura judicial). Uma posição em tudo idêntica à que, se não erro, já tinha sido tomada publicamente pelo presidente do sindicato dos magistrados do Ministério Público, Paulo Lona. Duas opções, estas (não preceder a escolha do PGR de consultas aos parceiros institucionais e entregar a PGR ao MP), que dizem tudo sobre o que o PM pensa da justiça, em particular depois de o Ministério Público, incluída a própria Procuradora Geral, ter sido posto publicamente em causa por vários sectores da sociedade. É de recordar a demissão do Primeiro-Ministro, seguida de eleições, a seguir a um estranho comunicado da PGR, sem que até hoje esse processo tenha sido clarificado e concluído, e apesar de o autodemitido PM, António Costa, já ter sido declarado Presidente do Conselho Europeu, sem que o famoso inquérito que o levou à demissão tenha sido concluído ou sequer clarificado. Algo muito estranho, pelo menos tão estranho como o silêncio público e mediático que existe sobre este assunto.  Isto para não referir a tão criticada ida de meios militares à Madeira no âmbito de um processo judicial, a prisão excessiva de indiciados ou a escuta telefónica de um agente político durante quatro anos ou, ainda, o uso e abuso de prisões preventivas e de escutas telefónicas. Esta nomeação mais parece ser uma confirmação do governo de que, mesmo assim, está tudo bem, devendo, por isso, o Ministério Público ser premiado com a nomeação de um dos seus como PGR, apesar de jubilado e de fazer 70 anos em Janeiro (o que levanta sérias dúvidas sobre a possibilidade de se manter como PGR depois dessa data, se a lei não for alterada). E causa ainda estranheza que o principal partido da oposição, o PS, se tenha limitado a desejar bom trabalho ao indigitado, sem nada acrescentar.

9.

A política nacional (e internacional) não conhece os seus melhores dias, sendo, pois, pela sua importância e pelos seus efeitos sobre as nossas vidas, dever dos que a estudam e analisam reflectirem, livremente e de forma o mais possível objectiva e imparcial, sobre o que nela está a correr bem e sobre o que está a correr mal. É o que eu aqui tenho procurado fazer, evitando observar a realidade com as minhas próprias idiossincrasias pessoais ou interesses de parte. As idiossincrasias existem, claro, mas procuro que fiquem fora das minhas análises. Só assim se pode dar um contributo positivo a essa política que a todos condiciona, quer no presente quer no futuro. JAS@10-2024UERec

Poesia-Pintura

ÀS VEZES

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “A Lua Desceu sobre Mim”
JAS 2024
Original de minha autoria
Outubro de 2024

JAS1AluaDesceuSobreMim

“A Lua Desceu sobre Mim”. JAS. 10- 2024

POEMA - "ÀS VEZES"
ÀS VEZES 
Tenho saudades
Do tempo
Que não vivi,
Dos encontros
Que falhei,
Das coisas
Que já não fiz
Ou que, fazendo,
Errei.

CONSTRUÍ-ME
Como quis,
À medida
Do desejo
E em cada passo
Que dava
Fazia nascer
Um passado
Que neste poema
Não vejo.

MAS TENHO MESMO
Saudades,
Que mais posso
Eu fazer?
Quem vive
Daquilo que faz
E dá uma voz
Ao que sente,
Vai construindo
O futuro
Pra libertar
O presente.

NÃO ME QUEIXO
Do passado,
Do que nele
Construí
E da vida
Que levei...
.............
Contra ventos
E marés
Muitas vezes
Eu falhei...

HUMANA
Imperfeição,
Quero dizer,
Porque se fosse
Perfeito
Não estaria
O poema
Pronto
Para nascer
Com palavras
Que resgatam
Do que não soube
Fazer.

É VERDADE,
Eu bem sei
Que um dia
Tropecei
E me perdi
No caminho,
Procurava,
Procurei,
Fazendo o percurso
Sozinho...
...........
Mas voltava
A tropeçar,
Até que um dia
Parei
Para não
Recomeçar...

MESMO ASSIM,
Recomecei
E voltei
A caminhar,
Mas não mais
Eu tropecei
Porque em palavras
Peguei
Pra me poder
Resgatar...
..........
Foi assim
Que me salvei.

SALVARAM-ME
Essas palavras
Compostas
Em poesia
Porque fiz
Do tropeçar
Matéria
De fantasia.

JAS1AluaDesceuSobreMimRec