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Sobre joaodealmeidasantos1

Professor universitário, escritor, poeta, pintor. Publicou várias dezenas de livros, seus e em co-autoria, de filosofia, política, comunicação, romance, poesia, estética. Foi professor nas universidades de Coimbra, Roma "La Sapienza", Complutense de Madrid e Lusófona (Lisboa e Porto). Publica semanalmente, neste site, ensaios, artigos, poesia e pintura.

Artigo

DE VENTOTENE A MUNIQUE

OU O FUTURO DA DEMOCRACIA

A propósito do livro 
"La roccia di Ventotene"
(Torino, Einaudi, 2025)

João de Almeida Santos

NA SEMANA PASSADA, entre 13 e 15 de fevereiro, ocorreu a 62.ª Conferência de Segurança de Munique, sendo de destacar a intervenção de Friedrich Merz, chanceler alemão. Poder-se-ia dizer, sem grande margem de erro, que Merz retomou o discurso de Mark Carney em Davos, ou seja, assumiu também ele que a ordem internacional tal como a conhecíamos terminou, ao mesmo tempo que reemergiu a lógica das zonas de influência, a afirmação prepotente e singular das grandes potências (USA, China, Rússia) e a necessidade de a Europa fazer um recentramento das suas relações (designadamente com os BRICS, com o Brasil ou com a Índia, por exemplo), ainda que procurando, na medida do possível, preservar as históricas relações com os USA. Merecem destaque as palavras de Merz:

“You´ve chosen a grim moto for this conference, “under destruction”. And it probably means that the international order based on rights and rules is currently being destroyed. But I’m afraid we have to put it in even harsher terms. This order, as flawed as it has been even in its hey day, no longer exists. And we, Europe, well, Peter Sloterdijk wrote a few weeks ago that Europe had just returned from a vacation from world history”.

A ordem internacional baseada em direitos e regras comummente aceites desapareceu. “Power and big power politics” são palavras recorrentes no discurso de Merz e que traduzem bem o que está a acontecer já fora do que era a tradição no chamado mundo ocidental – a afirmação incondicionada das grandes potências. Esse mundo tinha, pelo menos, a pretensão de ver normativamente reguladas as relações internacionais. Com Trump isso acabou. A política ficou reduzida à gestão do poder, da força e da ameaça. Acabou o breve “momento unipolar” na história e a época em que se reconhecia a prevalência de uma ordem internacional em que se reconhecia, pelo menos em palavras, o direito internacional e se procurava justificar acções que pudessem parecer estar a pô-lo em causa. A verdade é que, hoje como nunca, como diz Merz, “big power polítics has its own rules”. Esferas de influência e luta pelo domínio tecnológico, pelas cadeias de abastecimento e pelos recursos naturais entre os “big powers”, em detrimento dos Estados mais fracos, que se devem submeter à política da força e da ameaça. Ou seja, está a emergir uma tendência que não só visa repor o poder dos Estados nacionais, mas sobretudo o dos mais fortes, em condições de gerirem vastas zonas de influência ao arrepio da direito internacional, da primazia da diplomacia e do reconhecimento à autodeterminação dos povos. Manda quem pode, quem tem a força, o poder, obedece quem deve, porque é fraco – parece ser a nova palavra de ordem da política internacional dos Estados Unidos de Trump. Se Vance criticou a Alemanha e defendeu Alternative fuer Deutschland, agora Rubio, em tempos de eleições vai apoiar Orbán, elogiando-o como seu lealíssimo aliado. Está claro de que lado estão os Estados Unidos da era Trump.

1.

Esta situação fez-me recuar ao período que se seguiu à primeira guerra mundial e à criação da “Sociedade das Nações” e à criação da ONU e da União Europeia, ainda sob a forma de “Comunidade Europeia do Carvão e do Aço”, logo a seguir à segunda guerra, ao mesmo tempo que revisitava os projectos de construção de instituições supranacionais que pudessem servir de travão aos gravíssimos conflitos entre Estados nacionais na Europa. O movimento paneuropeu de Coudenhove-Kalergi, Aristide Briand, Winston Churchil, cada um procurando encontrar soluções para que os confrontos violentos entre as nações europeias, excessivamente frequentes, não ocorressem mais. Os milhões de mortos da primeira grande guerra não deveriam voltar a acontecer. E, ainda em plena segunda guerra mundial, em 1941, Altiero Spinelli e Ernesto Rossi, ambos desterrados políticos do fascismo italiano na pequena ilha de Ventotene, haveriam de elaborar o documento que viria a ser conhecido como “Manifesto de Ventotene” onde eram traçadas as linhas gerais que haveriam de contribuir para a superação dos egoísmos nacionais que sempre conduziram à guerra. Trata-se de um documento hoje reconhecido pela União Europeia com um seu texto seminal e que já apontava de forma muito concreta para a criação de uma federação europeia que pudesse evitar aquilo que em cerca de 30 anos dera lugar a muitas dezenas de milhões de mortos. A paz era a inspiração de fundo do documento

2.

É a este manifesto que Gianluca Passarelli dedica um pequeno, mas interessante e belo, livro intitulado “La Roccia di Ventotene”, publicado pela Einaudi, em 2025. Neste livro é dado um ênfase especial à razão do Manifesto: “o problema que em primeiro lugar deve ser resolvido, e que, se falhar, qualquer outro progresso não passará de aparência, é a abolição definitiva da divisão da Europa em Estados nacionais soberanos” (Spinelli, 1985: 28, onde o Manifesto está reproduzido). Passarelli considera que nesta passagem reside “il punto focale” do Manifesto: superar o Estado nacional que dera lugar a duas brutais tragédias colectivas  (Passarelli, 2025: 59). Compreende-se a analogia com os tempos que estamos a viver, quando, por um lado, a direita radical volta a glorificar a excelência do Estado-Nação, sob a forma ideológica de “soberanismo”, e, em particular, alinhando com a política das grandes potências mundiais e, por outro, reemerge a necessidade de cooperar de forma reforçada e em sectores até hoje insuficientes (como na diplomacia e na defesa, na inovação e na tecnologia) no interior dessa unidade política que é a União Europeia, hoje objecto de crescentes e demolidores ataques quer dos conservadores americanos quer do putinismo filosófico de inspiração duginiana, que gritam à decadência daquele que é o território civilizacionalmente mais avançado do mundo, uma das maiores economias mundiais e que possui a mais bela organização política até hoje conhecida. Uma União política que foi construída lentamente por forças do centro-direita e do centro-esquerda e que se inspirou na visão de Altiero Spinelli e Ernesto Rossi, mas que teve como protagonistas e executores iniciais Jean Monnet e Robert Schuman, logo após, pasme-se, o Plano Marshall, promovido precisamente pelos Estados Unidos e que se cifrou numa ajuda de cerca de 14 mil milhões de dólares. Hoje é este país que quer desmantelar a União Europeia, considerada em decadência ou extinção (designadamente no documento sobre a “National Security Strategy”, de 2025).

3.

As palavras de Spinelli, que agora transcrevo, escritas nos princípios dos anos quarenta (penso que foi em 1942), incluídas no livro de Spinelli Il Progetto Europeo (Bologna, Il Mulino, 1985, pág. 65) e que justificariam uma Europa pós-nacional, são incrivelmente actuais: “Crer que o mal que resulta da anarquia internacional se curará por si, e que devamos continuar a ocupar-nos das coisas segundo a velha ordem, é fazer a política da avestruz. Entregue a si própria, a anarquia internacional desemboca na destruição da própria civilização moderna e na constituição de um império militarista baseado no princípio da ‘signoria’ dos vencedores e na servidão dos vencidos. (…) Esta ordem internacional pode ser criada através de um império que reduza os outros Estados a seus vassalos. Então, a lei será a que for imposta pelo Estado dominante; a força necessária para impor a lei será a do Estado titular do império” (1985: 65 e 66). Parecem palavras de hoje e aplicadas aos Estados Unidos, não ao mesmo país que ajudou a derrotar Hitler, mas ao país amigo de Putin e adversário da União Europeia. Tempos de escuridão, estes que estamos a viver.

4.

Para o movimento “MAGA” os Estados Unidos só se devem preocupar com os seus interesses puros e duros, que devem  sobrepor-se aos valores, aos princípios, ao direito internacional; a doutrina “Donroe” confere-lhe o direito de tutelar todas as Américas; os aliados europeus de outrora passaram a ser adversários que devem ser controlados por dentro, através das várias direitas radicais que crescem na Europa e que a Casa Branca apoia explicitamente; as relações internacionais são hoje governadas pela política da ameaça e da força, o que realmente conta na relação com os outros Estados; a política resume-se ao controlo do poder por quem pode exibir mais poder e mais força; à ONU contrapõe um “Board of Peace” criado e controlado por Trump, qual prótese da sua própria vontade. Perante isto, a pergunta que se deve seguir é esta: e a democracia, ainda está inscrita no “caderno de encargos” desta administração americana?

5.

É muito forte o trio que aspira a governar as futuras esferas de influência à escala mundial. A China é uma ditadura; a Rússia é governada por um ditador, embora ainda queira simular ser um regime democrático; os Estados Unidos ainda são uma democracia, mas em fortíssima contracção virada para o decisionismo crescente de um só homem, Donald Trump. E por isso é mesmo necessário voltar a fazer a pergunta: e a democracia não se encontra ameaçada com um tal leque de “big powers”, com inúmeros aliados no interior de tantos países, incluída a Europa? Parece ser evidente que estamos a caminhar para uma fase altamente regressiva do ponto de vista democrático e, por isso, torna-se absolutamente vital que as potências médias, como o Canadá, a França, o Reino Unido ou a Alemanha e, em geral, os países da União Europeias, se unam, criem mecanismos eficazes de decisão política para o enrobustecimento das suas potencialidades e para uma estratégia internacional em geometria variável, não mais dependente de uma férrea aliança com um país que a despreza.

6.

A situação é deveras preocupante vista a dimensão e o poderia dos países apostados em administrar o mundo a partir de esferas de influência controladas por eles e de forma imperial. E o sucesso deste bloco do “big power” tornará apelativa a imitação interna dos modelos de governo destes países, o que provocará uma ulterior e generalizada regressão, um efeito em cadeia no mapa democrático mundial. 

7.

Foi por isso que apreciei as intervenções de Mark Carney e de Friedrich Merz. E que me lembrei de regressar ao projecto do famoso “Manifesto di Ventotene” e às palavras de Altiero Spinelli sobre a necessidade de construir, na Europa, sobre os seus Estados nacionais, uma robusta estrutura política pós-nacional que pudesse fazer dela um novo poder modelar para o mundo e que não se esgotasse no seu incomensurável património cultural e civilizacional, de tão difícil conquista, perante tragédias que nunca deveremos esquecer, mas fosse ele próprio não só “soft power”, mas também “hard power”. Este livrinho de Gianluca Passarelli, La Roccia di Ventotene, vem lembrar-nos, através de uma bela escrita que enaltece justamente o legado de Rossi e Spinelli, como a tantos anos de distância haja sempre alguém capaz de antecipar os tempos naquilo que eles podem vir a ter de melhor. Não estando todo o desenho constitucional para a Europa conseguido, como queria o Manifesto e os seus autores, por exemplo, em matéria de defesa e de diplomacia, uma boa parte do que eles anteciparam já está realizado, ainda que por duas vezes o projecto constitucional tenha sofrido sérios reveses, ao não se concretizar o “Projecto Spinelli” de 1984 e ao ser recusada, em 2005, por dois referendos, em França e na Holanda, a Constituição de 2004 para a União. Agora, que o nacionalismo dos fortes está a regressar em força, toca-nos tudo fazer para que todas as conquistas civilizacionais conseguidas não sejam definitivamente destruídas por mais que queiram os Trumps deste mundo. As palavras de Carney e de Merz é para aí que apontam – um caminho alternativo capaz de salvaguardar o que tem de ser preservado. JAS@02-2026

 

Poesia-Pintura

PERGUNTA O POETA À MUSA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Perfil de Musa”
JAS 2023
(63x78, em papel de algodão, 310gr,
e verniz Hahnemuehle, Artglass AR70,
em mold. de madeira)
Original de minha autoria
Fevereiro de 1026

“Perfil de Musa” – JAS 2023

POEMA – “PERGUNTA O POETA À MUSA”

PERGUNTA O POETA
À musa:
“O que sabes tu
Fazer?”
E a musa
Lhe responde:
 “Nada,
Foi meu destino,
Ao nascer”.

“ENTÃO, COMO É
O teu viver?”
E ela, serena,
Responde:
“Eu deixo a vida
Correr...”

“E NÃO CORRES,
Com a vida?”
Pergunta, de novo,
O poeta.
“Não, porque é sempre
Em subida...”

O POETA
Lembrou-se,
Então,
Da cantora
De voz
Suave, 
Da pintora
De cores
Quentes
E da bela
Bailarina
Que gostava
De levitar,
Lembrou-se
Da emoção
Que sentia
Quando em surdina
Ouvia
A suave harmonia
Que o fazia
Vibrar
Ou do palco
Onde via,
Como riscos
Numa tela,
Aqueles corpos
Voar.

INCONFORMADO,
Logo o poeta
Insiste:
“Porque vibro eu
Com elas,
Mas só a ti
Eu posso amar?”
E ela logo
Responde:
“Porque o amor
Não se aprende
Nem se pode
Programar,
É simplesmente
Mistério,
Acontece
Sem critério,
É incerto navegar
Entre vagas
Altaneiras
Em pleno alto mar
Onde há sempre
Tempestades
E é grande
E muito sério
O risco de
Naufragar.

Artigo

AS PRESIDENCIAIS DE 2026

Um Balanço

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

NO PASSADO DOMINGO terminou o longo processo de eleição do Presidente da República, apesar de o voto de umas dezenas de milhar de eleitores ter sido diferido para o próximo domingo, por impossibilidade física de concretizarem o direito de voto. Mas a diferença entre os dois candidatos foi de tal ordem que o voto desses eleitores até poderia ser dispensado. E, todavia, por exigência legal e democrática e, sobretudo, pelo devido respeito pelos direitos desses cidadãos afectados pelos temporais, os seus votos serão contabilizados e considerados no resultado final.

1.

Qual foi o resultado? Para uma avaliação clara do resultado basta pensar no que significa o Presidente eleito ter tido o maior número de votos de sempre numa eleição presidencial e uma confortável maioria qualificada. Quando se pensava que o resultado eleitoral mais desafiante, dada como certa a eleição de António José Seguro, seria o que André Ventura (AV) iria conseguir e, consequentemente, os efeitos disruptivos que esse resultado acabaria por provocar sobre a política nacional, tal não aconteceu. Por várias razões: a) o bom nível de participação (superior a 50%, sem contar as votações adiadas), atendendo, por um lado, às condições meteorológicas e à devastação a que o país tem estado submetido e, por outro lado, o previsível desfecho das eleições em termos de vitória do candidato AJS; b) a dimensão da vitória de AJS (66,82% e 3.482.481 de votos); e c) o expressivo, mas moderado, resultado de André Ventura (33,18% e 1.729.371 de votos ), não tendo conseguido superar o número de votos da AD obtido em 2025, mas apenas uma percentual mais elevada em cerca de dois pontos. Explico-me melhor: tivesse AV conseguido aproximar-se dos 40% e superado em votos o resultado da AD em 2025, a eleição presidencial teria outro significado político em termos implicações na dinâmica interpartidária. Mesmo assim, é claro que AV e o CHEGA vieram para ficar, tendo sido ultrapassado, em termos eleitorais, o isolamento a que o chamado sistema sempre (e desta vez também) quis votá-los. É já tão grande o número de portugueses que os votam que não será possível anulá-los administrativamente, como pretendem os subscritores da “Petição Pública para Avaliação da Inconstitucionalidade do Partido Chega”, lançada pela sempre intrépida Isabel Moreira, nem recintá-los numa sanitária zona vermelha. Seguro no discurso de vitória foi claro, e bem, ao dizer que AV deixou de ser adversário para passar a ser parceiro na resolução dos problemas do país. O próprio AV na noite eleitoral foi mais moderado e sensato do que o habitual. Nunca me esqueci da atitude de François Mitterrand, em 1981, de incluir quatro ministros do PCF no seu governo, em tempo de guerra fria e de “conventio ad excludendum” dos partidos comunistas, designadamente em Itália. E também julgo que é necessário olhar com atenção para o que, hoje, se está a passar em Itália, com Giorgia Meloni e o seu partido “Fratelli d’Italia” no poder.  Outro aspecto que merece ser assinalado é a dimensão atingida pelos votos em branco e nulos: 271.520, equivalentes a quase 5% (4,95%). Uma dimensão que merece reflexão.

2.

Na verdade, o essencial do que se passou no passado domingo pode ser traduzido numa simples frase: António José Seguro venceu as presidenciais com maioria qualificada. O que tem um significado especial para quem no início da sua campanha tinha sondagens que lhe davam apenas cerca de 5 ou 6 por cento. E é por isso que é de sublinhar e de elogiar o modo como levou por diante a sua candidatura, não obstante as baixas expectativas de início e os indecorosos ataques que sofreu por parte de muitos e importantes expoentes do seu próprio partido (por exemplo, por Augusto Santos Silva) e o atraso no apoio do partido de que fora, durante três anos, secretário-geral. Todo o processo evidencia a competência política com que conduziu a sua candidatura. Uma candidatura totalmente independente de uma relação partidária, apesar de ter sido o então secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, que, para espanto de alguns, o incluiu publicamente nos nomes de presidenciáveis referíveis ao PS. De todos os presidentes talvez tenha sido o que maior distância manteve em relação a uma qualquer base partidária. Também Jorge Sampaio se apresentou autonomamente, mas ele, ao contrário de Seguro, mantinha uma forte e qualificada base de apoio no PS de António Guterres.  Mas também é certo que o resultado de Seguro se deve, em parte, ao alto índice de rejeição do seu opositor e das ideias que ele defende. Sem dúvida, mas isso não deve ofuscar a sua prestação, bem ilustrada pelo resultado que obteve na primeira volta, quando a disputa ocorria entre vários candidatos, e muito valorizados pelas sondagens. A primeira volta é muito importante para compreender o significado do desfecho das presidenciais.

3.

O caso de André Ventura merece uma redobrada atenção não só porque se trata do líder do segundo maior partido parlamentar, mas também porque ele tem vindo a consolidar uma crescente e consistente base eleitoral. Também não se deve esquecer que na primeira volta ele derrotou, e de forma consistente, com cerca de 7,5 pontos de avanço em relação ao candidato em terceira posição, os seus mais directos concorrentes (Cotrim de Figueiredo, Gouveia e Melo, Marques Mendes). Um aspecto que não deve ser menorizado. Tal como não deve ser menorizado o seu crescimento em votos relativamente às legislativas de 2025 e à primeira volta. De facto, em termos de votos, AV obteve em relação à primeira volta mais 402 429 votos e em relação às legislativas de 2025 mais 291 490 votos. O que é que isto significa? Em primeiro lugar, que vem consolidando e aumentando o seu score eleitoral; em segundo lugar, que se trata de uma base eleitoral muito consistente e que lhe permitirá disputar a liderança em eleições legislativas, onde a fragmentação partidária implica uma forte diversificação de votos; em terceiro lugar, não tendo a diabolização de AV funcionado de forma impressiva na primeira volta, na segunda volta funcionou e isso deveu-se a estarem em jogo somente dois candidatos e ao risco, para a direita moderada, de ele ter uma expressiva votação que o pusesse muito à frente do PSD. A verdade é que a leitura política (para efeitos de legislativas) do resultado da segunda volta das presidenciais não poderá ser feita prescindindo dos resultados da primeira, onde, sendo diversificadas as candidaturas, AV ficou comodamente em segundo lugar, eliminando três candidatos fortes (incluído o que era apoiado pela AD) por uma margem muito significativa (7,5 pontos em relação a Cotrim de Figueiredo e, respectivamente, mais de 11 e de 12 pontos  relativamente a Gouveia e Melo e a Marques Mendes). Ora, em legislativas temos muitas e muito diversas candidaturas e, neste território eleitoral, a base de Ventura está a revelar-se muito forte e sólida. Quer isto dizer que não me parece muito sensata a transposição para legislativas do resultado da segunda volta das presidenciais, sendo os resultados da primeira volta muito mais indicativos e significativos devido, naturalmente, à maior dimensão do espectro partidário e concorrencial. Não deixa de ser curioso que o “Politico”, de ontem (10.02.2026), em artigo de Aitor Hernández-Morales, “António Costa’s Legacy: The far right in Portugal” comece precisamente por dizer: “The ultranationalist Chega party is thriving by campaigning on issues the president of the European Council failed to address while prime minister”, para concluir que “The biggest loser of this weekend’s presidential election in Portugal was European Council President António Costa”. Mais precisamente: o alimento eleitoral do CHEGA são as políticas falhadas de António Costa. E, por isso, e por ser António José Seguro o grande vencedor das presidenciais, Costa é considerado o “maior perdedor” das eleições presidenciais.

4.

Também não me parece muito sensato transpor, mesmo de forma relativa, o resultado de António José Seguro para o campo eleitoral do PS, e não só pelas razões acima aduzidas, mas também porque as campanhas de AJS foram exclusivamente pilotadas por ele ao mesmo tempo que se distanciava claramente de uma identificação com este partido quer na génese quer durante o percurso da candidatura. O enquadramento político e ideológico de AJS foi de tal modo amplo que levou a que o centro-direita votasse nele, permitindo-lhe uma vitória que todos reconhecem ser excepcional. A génese da candidatura, a abrangência que conseguiu, devido ao minimalismo discursivo que evidenciou, e a dimensão da vitória talvez possam servir de ponto de partida para uma reflexão acerca do método de eleição do PR, ou seja, a formulação da hipótese (que eu defendo) de esta eleição passar a ser feita através de um colégio eleitoral alargado em vez de uma eleição directa e universal. A Presidência de AJS poderia mesmo constituir uma suave fase de transição para o novo modelo de eleição. A Itália tem este modelo e não tem conhecido críticas, mesmo quando o Presidente era interventivo, como no caso de Sandro Pertini, ou quando é mais reservado, como no caso do actual Presidente Sergio Mattarella.

5.

O novo Presidente, visto o resultado, tem uma legitimidade política reforçada, mas tem ao mesmo tempo também uma maior responsabilidade por representar um larguíssimo espectro político. O que é importante é que o titular da função presidencial converta este resultado em força política e simbólica da figura do Presidente, densificando a sua acção e o seu discurso de modo a que as suas posições sejam devidamente tomadas em consideração pelo parlamento e pelo executivo. Ao dizer, no discurso de vitória, que só falará quando isso justificar uma intervenção do Presidente, estava a distanciar-se do actual Presidente e da banalização do seu discurso, que acabou por retirar gravitas à figura do Presidente. Nem rigidez presidencial (como a de Cavaco Silva) nem populismo discursivo e visual (como o de Marcelo Rebelo de Sousa).

6.

É claro que estas eleições terão implicações no processo político em curso, onde a nova figura do Presidente terá de ser tomada na devida consideração por todos os partidos, inclusive pelo partido socialista. É um Presidente que se inscreve no centro-esquerda, mas nem por isso deixará de agir de forma isenta com todos os partidos, tal como teve ocasião de dizer no seu discurso de vitória. A política partidária prosseguirá segundo a sua própria lógica e não creio que seja expectável o alinhamento explícito do novo Presidente nesta onda voluntariosa de rejeição do CHEGA, que o tem posto permanentemente no topo da agenda, com as consequências que todos conhecemos (e que estão previstas e teorizadas na famosa teoria do “Agenda-Setting).  Provavelmente a sua será uma posição formalmente equidistante, quer em relação ao CHEGA quer em relação ao PS, enquanto legítimas e consistentes forças parlamentares. Se o fizer, cumprindo rigorosamente os seus deveres constitucionais, ganhará certamente o reconhecimento e o respeito dos portugueses e poderá, então, vir a ser um forte garante da estabilidade política do nosso país, no quadro dos valores constitucionais, que respeitará e fará respeitar. JAS@02-2026.

 

Poesia-Pintura

CAMÉLIA EM SOLIDÃO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Ponte de Cores”
JAS 2026
Original de minha autoria
Fevereiro de 2026

“Ponte de Cores” – JAS 2026

POEMA – “CAMÉLIA EM SOLIDÃO”

CAMINHAS
Tão docemente,
Tão irreal,
Sobre as cores
Que eu te dei
Que já nem sei
Se és flor
Ou és vestal
Do oráculo
Que criei.

ÉS PLANTA DE JARDIM
(Bem sei),
Na alma
Tens as flores
Que eu sempre
Cultivei,
Alimento
Dos meus olhos,
Aroma
Dos poemas
Que te dei.

CAMÉLIA
É o teu nome,
Encontrei-te,
Desta vez,
Em profunda
Solidão,
A alvura luminosa
Era tão densa
Que até podia
Guardá-la
Na palma
Da minha mão.

QUIS TRAZER-TE
Para dentro do poema,
Disseste
Logo que sim.
Ficarias
Mais feliz,
Estando junto
De mim.

CAMINHÁMOS
Numa ponte
Prà outra margem
Da vida,
Eram passos
De liberdade,
Não eram
De despedida.

VI EM TI
Uma mulher,
Recriei-te
Com afeição,
Pintei-te
Em movimento,
Quis-te livre
No meu chão.

É ESTRANHO
O movimento
Que não te afasta
De mim,
Tu vives
Em quietude
Porque te ofereces
Assim.

ESSA PONTE
De papel
Que parece um
Arco-íris
Saído do meu
Pincel
Vai devolver-te
Ao jardim
Onde a cor
É alimento,
É como favo
De mel
Que da alma
É sustento.

VÊS
Como a solidão
Em flor
Pode ser libertação
Se lhe dermos
Muita cor
Com a força da
Paixão?

A imagem original, de 21.03.2016

Artigo

NOVOS FRAGMENTOS (XXV)

Para um Discurso sobre a Poesia

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

A SEDUÇÃO DO COLIBRI

O encontro de um colibri, ou beija-flor, com uma magnólia branca aumenta sempre, na imaginação do poeta, a sua capacidade polinizadora (a referência é ao poema “O Poeta, a Pintora e o Colibri”). Os ingredientes estão lá.  É magia pura que o poeta metaboliza para, depois, a expandir em palavras coloridas cenografadas e coreografadas. Como um bailado. E, claro, a presença de uma pintora é fundamental para o cromatismo do poema, para a cenografia. Com ela vêm as cores, os riscos e a luz, que se acrescentam à cenografia e à coreografia construídas pelas palavras.  O colibri é mensageiro e tem uma enorme capacidade de polinização das almas, a começar logo pela do poeta. E é por isso que ele anda sempre por ali, pelo jardim encantado. Que precisa de constante polinização. Mas talvez também consiga polinizar a alma da pintora. Tem de conseguir. A um ponto tal que ela tenha de o pintar com as cores que lhe enchem a alma. Pintar também o colibri. Com as razões do coração, como diz o poeta? Não sei, até porque não sei se o coração tem razões. Na verdade, ele é mais pulsão do que razão. A razão aqui confunde-se com pulsão. A pulsão é a única “razão” que se pode conhecer no amor. Anda por aqui este colibri e eu não consigo ficar-lhe indiferente, dirá a pintora, depois do que dele disse o poeta.  Por sua vez, na mitologia poética (deste poeta) a magnólia branca ocupa um lugar central, o melhor para atrair o sedutor colibri. Trata-se de um arbusto de transição entre a neve e a primavera. E é com o colibri que praças, rios, vales, montanhas convergem para o jardim e para a magnólia. Como se o mundo voasse com ele para o lugar onde irá nascer um poema que há-de interpelar directamente a pintora e, através dela, todas as almas sensíveis. É verdade, os poetas tendem sempre a concentrar o mundo num só poema. É uma tentação mais forte do que eles. E como não têm limites nem podem ser responsabilizados deixam-se ir. E quanto mais se deixarem ir mais probabilidades têm de oferecer belos poemas à comunidade dos amantes do canto.

POLINIZAR

Quem nos dera que o mundo voasse com o colibri para que as almas sensíveis fossem polinizadas com a beleza da arte. Isso, sim, seria cantar a vida e a beleza e voar para um mundo melhor.

A NEVE

“A neve está-nos na alma”, dizia eu a um companheiro de viagem poética, a propósito do poema “Neve”. Faz parte de nós. Quando algo nos faz falta lembramo-nos logo desse algo. É o caso da neve – faz sempre falta. Há muito que não cai lá do alto, mas gostaríamos que caísse. Às vezes parece anunciar-se, mas depois nada acontece. E, assim, mais intensa se torna a saudade. Branca e fria, e que saudades, Deus meu! O frio da alma é como o frio da neve. Quente e frio. Como o quente das memórias que já só são memórias. E, por isso, também frias, como a neve. O sujeito poético diz que ela, a musa, é como a neve… mas quando não está a nevar. É desejada, como a neve, mas, como ela, nunca mais chega. Encanto e desilusão. Flocos de nostalgia caem lá do alto da fantasia. E se um dia nevasse a sério, com a neve a bater na vidraça? Vã esperança. Só a podemos ver ao longe lá no alto da montanha ou lá no alto da fantasia. Nevar no alto da fantasia, para glosar o Dante. Assim é com a musa. Assim é com a neve.

FANTASIA

A ausência e o silêncio são alimentos dos poetas. Como a neve, a musa não chega e então só lhe resta cantá-la. Bem olha para o alto da serra, mas nada. Então olha para o alto da fantasia e vê o que deseja ver, seja a neve seja a musa. A poesia é a ponte que nos leva ao inacessível. Não há impossíveis para um poeta.

AMOR

O fenómeno do amor é estranho porque, dele, nunca se conhece a causa. Não é verdade que quando pensas que já sabes por que razão amas alguém isso quer dizer que já não amas? Descobrir a causa do amor é anulá-lo. O amor é misterioso e é disso que fala o poema “Mistério”. Nada importa quando se ama, que o mesmo é dizer: tudo importa, quando se ama. Ela ou ele parece nada saberem fazer, mas mesmo assim são amados. O amor é pulsão. Dizer “eu amo-a porque ela é culta, porque ela canta bem, porque ela dança maravilhosamente”… não faz sentido. O amor não conhece razões e é por isso que a poesia é a arte que melhor o canta, que melhor fala dele, que melhor o pinta. A exactidão poética do vago, do indefinido, do inexplicável. O amor é vulcânico mesmo quando se exprime com delicadeza. É poderoso e genuíno.

Na verdade, o que pretendi fazer com o poema “Mistério” foi uma reflexão sobre o amor em discurso poético, não analítico, como é, por exemplo, o livro do Stendhal sobre o amor. O sujeito poético teme que a amada nada tenha para oferecer, mas, mesmo assim, ela atinge-o pulsionalmente, sem razão visível nem resistência possível. Mulheres há que deslumbram o poeta pelo que fazem, pela beleza, pela excelência nas suas performances. Pelo encanto que transmitem e oferecem. Mas ele mantém-se prudentemente distante. Na musa que o inspira, que o seduz, que o cativa, nada encontra a não ser uma atracção fatal, irresistível, que ele reconhece ser amor. “Maladie d’amour”, poder-se-ia dizer. Invenção imaginária de qualidades que não têm real correspondência na amada. Aquilo a que o Stendhal chamou “cristalizações”. Não importa, elas existem na imaginação do amante e são poderosas.

O poema “O Poeta, a Pintora e o Colibri” é um hino à vida e ao amor. A algo que não precisa de argumentos para se mostrar forte e genuíno. Algo que vale por si, que não é instrumental e que se impõe sobre todos os cálculos. Amar é isso: estar lá sem pedir nada em troca. Muitos dos amados não se dão conta disso.

SOFÁ POÉTICO

Os poetas navegam sempre entre anjos e musas, mesmo quando inspirados em referências concretas. Eles colocam-se sempre um nível acima da realidade empírica. Imperativo estético, mas também existencial. É esse o terreno da fantasia. Há sempre estímulos sensíveis que podem desencadear a pulsão poética, mas depois o processo envolve muitas variáveis, a começar pela fantasia e pelas categorias da arte. As aparições desencadeiam sempre leituras oraculares que tentam decifrar o mistério de certas e poderosas pulsões. A poesia é sempre também leitura oracular. Eu não sei se neste poema (“Aparição”) o poeta não estará a partilhar a sua própria génese como poeta. Como tudo começou. A luz que o encandeou e o levou ao “sofá poético”. Um lugar de livres associações, onde está inscrito algo muito profundo, não directamente visível. Talvez. Só que aqui o faz de forma diferente. Fala do mesmo como se estivesse a falar disso pela primeira vez. Nisto tem razão a Szymborska. A aparição como epifania – assim se concretiza o recorrente processo da sinestesia que o poeta/pintor persegue com delicada teimosia.

APARIÇÃO

As aparições nunca são nítidas (trata-se do poema “Aparição”). É por isso que suscitam interpretações de natureza oracular. Porque, é verdade, nas aparições nunca se vê tudo. Há sempre uma certa neblina que cobre aquilo que queremos ver. O mistério instala-se. Neste caso, o anjo revelou-se mulher na imaginação do poeta e isso terá sido a causa da sua conversão poética. A aparição inaugurou uma caminhada à procura de sentido. Sim, o melhor é aquilo que não se vê, aquilo que escapa à apreensão imediata, aquilo que temos de procurar para além das aparências porque não se dá a uma visão directa, imediata. Aquilo que exige a utilização de um espelho para lá chegar sem o perigo da petrificação. É por isso que a deusa Athena é tão importante para os poetas. JAS@02-2026

 

Poesia-Pintura

NOSTALGIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Nostalgia”
JAS 2023
(76x88, em papel de algodão, 310gr,
e verniz Hahnemuehle, Artglass
AR70 em moldura de madeira)
Original de minha autoria
Fevereiro de 2026

“Nostalgia” – JAS 2023

POEMA – “NOSTALGIA”

RÁPIDA
Como o vento,
Passou por mim
Essa palavra
Saudade
Com a forma
De mulher
Sob o céu
De uma cidade
E numa rua
Qualquer.

HÁ SEMPRE
Esta saudade
A que chamo
Nostalgia,
Sentimento
Que perdura...
.........
Como doce
Melancolia.

GRAVEI-A
Na alma,
Evoquei-a
Ao crepúsculo
Como incerta
Nostalgia...
...............
Não queima tanto,
A palavra,
Que é um pouco
Mais fria.

MAS DEI-LHE COR,
Cantei-a
Como pintura,
Dei-lhe vida
Num romance,
Porque ela
Me perdura.

DA SUA COR
Vejo o mundo,
Com palavras
A recrio,
Procuro nela
Um rosto
Pra não me sentir
Vazio.

A DOR DESTA
Saudade
Sempre em forma
De mulher
Alimenta-me
A alma,
Interroga a minha
Vida
E por isso
Vou vivendo
Em constante
Despedida,
Neste cais
Que não tem fim,
Em partida
Que não há,
Um adeus
Que não lhe digo,
Porque ela
Está sempre,
Mas mesmo
Sempre comigo.

NÃO A TENHO,
Está longe,
Mas também
Está aqui,
Não a encontro
Nem a vejo,
Mas sei que não
A perdi.

INSPIRA-ME,
A nostalgia
Com a forma
De mulher,
Recrio-a em cada
Instante,
Sou poeta,
Sou pintor
Mas também
Sou amante
Da mulher
Que eu quiser.

VEJO O MUNDO
Com alegria
Mesmo que sofra
De dor...
...........
Mas de dor
Em catarsia.

ESCULPO
O seu rosto
Com palavras,
Pinto-lhe a alma,
Escolhendo bem
A cor,
Voo com ela
Em sonho
Onde já não sinto
Dor.

LEVO COMIGO
Pincéis,
Levo asas
De poeta,
Pinto-a
Num quadro
Ideal
Com as cores
Com que a vejo
Neste lugar
Do desejo,
Nesta esfera
De cristal.

SAUDADE
Ou nostalgia
Sempre em forma
De mulher
Invocada
Cada dia
Quando a dor
Se converteu
Em doce
Melancolia.

Artigo

UMA VISÃO ESCLARECIDA E CORAJOSA

O Lúcido Discurso 
de Mark Carney em Davos

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

FINALMENTE, ouvimos um lúcido discurso sobre a ruptura civilizacional que está em curso desde que Donald Trump voltou ao poder. Trata-se do discurso de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, em Davos. Ruptura da ordem mundial – é disso que se trata. Em primeiro lugar, reconhecê-la sem criar ilusões de que tudo está bem, de que isto vai passar, de que é necessário acomodar-se porque o bom senso entre os velhos aliados regressará. Sempre houve transgressões dos ideais proclamados e alguma hipocrisia ou falsa boa consciência, mas, ao menos, havia um quadro formal como moldura da política internacional, das relações internacionais e como moldura das relações entre os aliados. A ONU era um deles, o mais universal, mas a instituição presidida por António Guterres está em decomposição acelerada. A NATO era outro quadro militar que definia as relações entre os aliados, mas agora já é o próprio aliado que ameaça outro aliado de ocupar militarmente um seu território, além de insultar todos os outros, dizendo que ficaram sempre na retaguarda do teatro de operações, que participaram com inúmeras vítimas em acções militares da NATO. Ao que parece, Trump quer criar outra ONU à medida do seu umbigo, a “Aliança de Paz”, e reduz a pó o famoso Art. 5.º da NATO. O invasor potencial vem de dentro da própria organização. Ou seja, reduz a pó a própria NATO. A (nova) ONU e a NATO identificam-se com ele próprio. Neste caso, desde que instale um sistema de defesa na “sua” Gronelândia. Se alguém lhe diz não, ameaça com novas e pesadas tarifas e mais não se sabe o quê. A ameaça é o seu método. E a política é isso. Tudo à medida do seu umbigo, que tem a dimensão do mais poderoso país do mundo.

1.

A ordem instalada no segundo pós-guerra não está em crise – acabou. E, por isso, é necessário encontrar novas vias e novas alianças. É disto que fala Carney com vigor analítico e argumentativo, mas também enquanto político e PM de uma potência média. Regressa, diz, a política das esferas de influência centrada nas grandes potências mundiais: USA, China e Rússia. E usou uma eficaz metáfora para se referir à necessidade de redefinir alianças que escapem à lógica das esferas de influência: “se não estamos à mesa, estamos no menu”. Ou nos aliamos ou tornamo-nos pasto das grandes potências. Talvez Carney pense numa relação reforçada entre o Canadá e a União Europeia, no Reino Unido que ele conhece como ninguém (foi governador do Banco de Inglaterra), na Austrália, na Nova Zelândia e nalguns países democráticos dos BRICS, por exemplo, no Brasil ou na Índia, que acaba de alcançar importantes acordos com a União Europeia. Alianças em geometria variável, mas alianças em condições de proteger importantes países da devastação geoestratégica que está a ser provocada por Donald Trump.

2.

Não se trata de uma espiral do confronto, mas de uma resposta em geometria variável ao que parece estar a ser desenhado. Se antes se podia falar de bipolarismo estratégico (ocidente/sistema dos países do socialismo de Estado), hoje pode-se falar de tripolarismo (USA, China, Rússia). Trata-se de algo diferente dos chamados BRICS, um conglomerado de países que estabeleceram uma aliança que pretendia responder à chamada hegemonia ocidental guiada pelos USA, promovendo o multipolarismo e o reforço das instituições internacionais. Sim, mas a verdade é que as três potências mundiais (duas das quais até integram, nessa mesma lógica, os BRICS) seguem a sua própria estratégia, indiferentes a todos os outros países, incluída a União Europeia. Mas algo mudou e a chamada frente ocidental desapareceu, dando lugar à hegemonia de um só país, os Estados Unidos. O passo em frente está, pois, a ser dado por Donald Trump, o mais disruptivo de todos porque deslaça uma grande frente ocidental, sem dúvida fortemente assimétrica (e polarizada essencialmente pelos USA), que se impunha na cena internacional de forma muito vigorosa, com poder militar, económico, comercial e também com um apreciável “soft power”. Foi, aliás, esta frente que deu origem à criação alternativa da frente política dos BRICS. Mas, como disse, tudo mudou. Agora é Trump que ameaça os BRICS com tarifas de 100% se estes ousarem criar uma moeda alternativa (ou apoiarem outra moeda alternativa) ao dólar. Ameaças, sempre ameaças.

3.

Note-se que Trump, a seu tempo, falou do Canadá como de um novo estado federado americano (o 51.º), o que mereceu uma dura réplica dos canadianos. Com o alargamento à Gronelândia e à Venezuela (para não falar de Cuba ou da Colômbia) da sua pretensão de controlo directo ou indirecto, no interior daquela que já é conhecida como a nova “Doutrina Donroe” (novo nome para a velha doutrina de 1823, conhecida como “Doutrina Monroe”), ou o controlo total do continente americano, o primeiro-ministro canadiano enfrentou directamente o problema, reconheceu a ruptura e convidou as “potências médias” a deixarem de “fazer de conta” e a iniciarem uma política diferenciada de alianças, em geometria variável, sentando-se à mesa para que não venham a tornar-se alimento das grandes potências. Carney falava claramente para os países que hoje integram a União Europeia, mas certamente também para os outros que referi, incluindo os que, sendo democracias, integram os BRICS e que desejam escapar à lógica das esferas de influência, dando nova orientação à razão da sua integração originária nos BRICS.

4.

Trata-se de uma agenda que contempla os valores que hoje parece estarem esquecidos por aqueles que antes os defendiam: “construir uma nova ordem que integre os nossos valores, como o respeito pelos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados”. Tudo aquilo que já está fora da agenda americana, porque subentrou uma nova agenda do poder como puro exercício da vontade e da força de um Estado sobre outros. Ou pior: puro exercício da vontade de um homem só.

5.

Os Estados Unidos, a seguir à segunda guerra mundial, apoiaram a Europa com cerca de 14 mil milhões de dólares, favorecendo a reconstrução do continente europeu e a criação de um forte bloco-tampão que impedisse a evolução a ocidente do sistema do socialismo de Estado, com centro em Moscovo. E na verdade viria a criar-se, em 1952, uma União Europeia, ainda sob forma de Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, tendo. depois, evoluído para a configuração actual, por variadas razões (mas sobretudo depois da queda do muro de Berlim e depois da criação do Euro) bem pouco acarinhada pelos Estados Unidos, mas hoje considerada explicitamente por eles, na sua Estratégia de Segurança Nacional, como realidade em estado de degenerescência civilizacional.

6.

Não sei até que ponto o discurso de Carney possa ter influenciado a reunião do dia 22 do Conselho Europeu, mas a verdade é que pela boca do seu Presidente, António Costa, finalmente, e depois de um explícito apoio à Dinamarca e à Gronelândia, se ouviram palavras claras acerca da União Europeia: “Ao mesmo tempo, a União Europeia continuará a fazer valer os seus interesses e defender-se-á a si, aos seus Estados-Membros, aos seus cidadãos e às suas empresas, contra qualquer forma de coerção. Tem o poder e os instrumentos para o fazer e utilizá-los-á se e quando necessário”. Se esta declaração corresponderá, ou não, ao accionamento de concretas medidas de combate a essa autêntica “guerra de movimento” que está a ser levada a cabo pelo Presidente americano é coisa que não se sabe, sobretudo atendendo ao mais recente histórico das tomadas de posição da União Europeia e ao próprio perfil dos seus três dirigentes de topo. Mas suspeito que não será de esperar grandes iniciativas. De resto, a dependência da Europa dos Estados Unidos em múltiplas e nevrálgicas frentes (defesa, presença espacial, energia, serviços digitais, telecomunicações, redes de pagamento) é enorme pelo que qualquer reacção deve ser muito bem ponderada, sendo certo, todavia, que medidas radicais e punitivas dos USA também lhes criariam enormes problemas, designadamente económicos (sobre este assunto veja o “Le Monde” de 25-26.01.2026, na Manchete e nas pág.s 12-13 o artigo “L’Europe souffre de multiples dépendances aux États-Unis”).

7.

É claro que o senhor Donald Trump é o Presidente legítimo do mais poderoso país do mundo, mas o seu discurso e a sua prática nem por isso deixam de ter a marca de uma fanfarronice incompreensível, inaceitável e condenável, até por ela não se ver exercida em relação a países poderosos como a China ou a Rússia ou mesmo em relação à Coreia do Norte. Dá mesmo a sensação de que Trump se inscreve naquele ditado popular que diz que um certo indivíduo é forte com os fracos e fraco com os fortes. Talvez seja mesmo isso, neste caso. agravado pelo facto de o indivíduo ser presidente do mais poderoso país do mundo. O que é certo é que, no meio de tudo isto, a sua fortuna pessoal vai crescendo exponencialmente à medida que cresce o conflito de interesses entre si, a sua família e o Estado americano e que os Estados Unidos se vão transformando cada vez mais numa plutocracia governada por plutopopulistas agressivos.

8.

A resposta de Trump em relação ao discurso de Carney já aconteceu na sua rede social, Truth, em jeito de ameaça: o Canadá existe graças aos Estados Unidos e Carney deve tomar isso em consideração quando voltar a fazer declarações públicas. E, não contente com esta advertência ou ameaça, notificou o PM canadiano de que acaba de retirar o convite ao Canadá para participar no já famoso “Conselho de Paz”, por si presidido vitaliciamente, ou mesmo eternamente. Só falta mesmo uma resposta de Carney a dizer-lhe que até lhe agradece a decisão porque a posição do Canadá em relação a essa ficção se limitara a ser uma atitude de gentileza, mesmo concordando com as enormes dúvidas que a União Europeia tem sobre uma iniciativa que deveria, isso sim, ter lugar no quadro da ONU. Merz e a própria Meloni já pediram esclarecimentos a Washington sobre a iniciativa. Mas Trump não se ficou por aqui. Acaba de ameaçar (sempre as ameaças) o Canadá com tarifas de 100% se este país assinar um acordo comercial com a China: “Se o Canadá fizer um acordo com a China, será imediatamente atingido com uma tarifa de 100% sobre todos os bens e produtos canadianos que entrarem nos Estados Unidos”. Ameaça estendida também aos BRICS. Nada escapa à sua política de ameaças, o novo método de gestão das relações internacionais.

9.

Parece não haver dúvidas de que Trump é um líder insistente e recorrente nas suas posições, não conhece limites à afirmação da sua vontade, da sua mente, da sua moralidade, o que leva a que só uma forte oposição (e não só em palavras) à sua determinação o poderá levar a retroceder nos seus propósitos disruptivos. Já se percebeu que a democracia americana, e em particular o partido democrata, está refém da vontade de Trump, não sendo expectável que o seu expansionismo venha a ser internamente travado. Sendo verdade que o modelo presidencial americano é muito inspirado na monarquia constitucional, nunca como hoje o presidente se sentiu e exibiu como um autêntico monarca que até aspira a tornar-se monarca absoluto, já não de um só país, mas de todo o mundo. Uma espécie de Commonwealth universal imposta por um novo imperador mais sensível ao uso da força do que ao “soft power”. Uma espécie de Roma do século XXI, mas sem a sua inteligência estratégica, bem patente, por exemplo, no Édito de Caracalla, de 212 d.C, que alargou o direito de cidadania a todo o Império. Certamente por razões fiscais, mas também por uma lógica integrativa e de consolidação da hegemonia romana. Lógica ausente das preocupações de Trump.

10.

Havendo eleições intercalares em Novembro, o que, entretanto, acontecerá será cada vez mais grave e provavelmente irreversível. Lembro-me que, nos anos noventa do século passado, foi tentado o impeachment de Bill Clinton devido a um “affaire” com uma estagiária (maior de idade) na Casa Branca, mas parece nada justificar a gigantesca promiscuidade (conflito de interesses) entre os negócios da família Trump e o Estado americano (veja-se o artigo de Gonçalo Almeida, “Trump duplica fortuna após voltar ao Poder”, sobre o assunto, no “Expresso”, Economia, pp. 10-11, 23.01.2026). O impeachment não se concretizou por ocasião do assalto ao Capitólio e certamente não acontecerá em relação ao brutal enriquecimento de si próprio e da sua família devido ao activismo e à influência da sua própria presidência. É de recordar que Clinton foi sujeito ao processo de impeachment por alegadamente ter mentido ao Congresso sobre o affaire com a senhora Lewinsky. Se o mesmo critério sobre a verdade fosse aplicado a Trump já teríamos tido dezenas de impeachments, embora de desfecho imprevisível. JAS@01-2026

 

 

Poesia-Pintura

A PALAVRA PROIBIDA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Desencontro”
JAS 2026
Original de minha autoria
Janeiro de 2026
"Desencontro" - JAS 2026

POEMA – “A PALAVRA PROIBIDA”

L’amour est la poésie des sens
Honoré de Balzac
NAQUELE DIA,
Os guardiões
Do sagrado templo
Emitiram edital:
“O amor em poesia
Fica assim proibido
Porque pode ser
Fatal,
Os versos
E as estrofes
Pintados
A luz e cor
Ficam pra sempre
Banidos
Da Arte
Sobre o Amor”.
“Assim manda
A moral”,
Diz, impante,
O provedor.

MAS PARA O AMIGO
Honoré,
Certeiro
Como poeta,
O amor
É poesia,
É a arte
Dos sentidos,
É perfume
Que inebria
E nos faz sentir
Perdidos
Se não houver
Guardião
Que decrete:
“São proibidos”.

PROIBIDOS?
Ah, esses, não,
Poesia
É emoção,
É enlevo
Dos sentidos
E resiste
Ao edital
Lançado
Aos quatro ventos
Por impenitente
Jogral.

TENTA, POIS,
O bom poeta
Levá-los
Aos píncaros
Da fantasia,
Sobem lá alto
Os sentidos
Com asas
De poesia.

OLHA O MAR,
Sente
As ondas
Dentro de si
A cantar
Como versos
Que o vento
Sopra
Quando se põe
A voar.

MAS É DIFÍCIL
Senti-los,
Ouvi-los
Com alegria
Quando há
Um guardião
Que até proíbe
Essa brisa
Que nos traz
A maresia.

POESIA
Dos sentidos?
O amor também
É isso,
Tem a força
De pulsão,
Tem o poder
De feitiço.

DECRETARAM
Edital?
Que importa isso
Ao poeta?
Seu canto
É liberdade,
É enlevo
Dos sentidos
E não há
Guardião
Que o pare
Mesmo que ele,
Impante,
Declare
Que os versos
São proibidos.

Artigo

PRESIDENCIAIS 2026

A Segunda Volta

João de Almeida Santos

"S/Título" - JAS 2026

ANTES DE DAR INÍCIO a uma reflexão mais ampla sobre as presidenciais, agora que estão escolhidos os dois candidatos presidenciais, António José Seguro e André Ventura, será de grande utilidade fazer uma breve análise dos resultados eleitorais da primeira volta.

1.

 O vencedor claro da primeira volta é António José Seguro (31,11%), tendo André Ventura conseguido também uma consistente vantagem sobre João Cotrim de Figueiredo (23,52% contra 16%, equivalente a mais cerca de 424 mil votos), sendo Marques Mendes e Gouveia e Melo os claros derrotados desta competição eleitoral, para não referir a progressiva irrelevância do LIVRE, do PCP e do BLOCO, ao obterem, juntos, a ridícula expressão eleitoral de 4,38%, menos de 250 mil votos. Dirão, como disse António Filipe, que se verificou a dinâmica do voto útil. Sim, mas isso já era claro que iria acontecer. Preferiram, então, exibir a sua progressiva irrelevância em vez de reforçar as possibilidades de António José Seguro ir à segunda volta. Esta posição talvez tenha beneficiado Seguro, reforçando o seu crescimento no eleitorado da direita moderada. E se é verdade que o PS, ao apoiar Seguro, pode colocar-se (modestamente, diria) ao lado do vencedor, também é verdade que o PSD  averbou uma estrondosa ou mesmo humilhante derrota ao ver o seu candidato ficar na quinta posição, com uns miseráveis 11, 3%, equivalentes a quase menos  700 mil votos do que André Ventura. Uma geometria política verdadeiramente disruptiva, mas com uma garantia de estabilidade trazida pelo sólido trajecto político de António José Seguro, construído autónoma e livremente para além do partido de que fora líder e da sua própria classe dirigente. 

2.

Mas é preciso dizer também que há outro grande derrotado nestas eleições, a SIC, o espaço onde durante anos e anos, e aos domingos, pontificou o candidato Marques Mendes, quase em regime de “permanent campaigning”. Mas também as sondagens o foram, pois, na generalidade, sempre estiveram muito longe dos resultados que se viriam a verificar. Na verdade, as sondagens mais pareceram peças de campanha do que radiografias da realidade. De resto, sabe-se que muitas vezes elas são mesmo usadas com aquele fim. 

3.

Como se vê pelos resultados, estas eleições não representam um recorte preciso da geometria partidária, mas antes uma tendência geral em função do que os candidatos pessoalmente representavam. Até pela natureza unipessoal do cargo. Mas há diferenças substantivas entre o que os partidos de referência representavam e o que os respectivos candidatos obtiveram, à excepção de André Ventura, que replicou o resultado que obtivera nas legislativas de Maio. Seguro teve uma votação muito superior à que o PS obteve; Marques Mendes ficou mais de 20 pontos abaixo do valor que a AD conseguira em Maio; Cotrim de Figueiredo elevou-se muito acima do score eleitoral da Iniciativa liberal, sendo que o Almirante Gouveia e Melo não tinha um claro recorte partidário. A esquerda radical ou manteve o score eleitoral (no caso do Bloco) ou caiu drasticamente. O PCP viu reduzido para cerca de metade o seu eleitorado e o resultado do LIVRE foi simplesmente residual (inferior ao do cómico Manuel João Vieira).

4.

No essencial, estas eleições vieram confirmar a profunda mudança que está a acontecer no eleitorado e no sistema político. Confirma-a o resultado de André Ventura (consolidando o seu eleitorado) e confirmam-na os resultados dos outros candidatos. É para mim claro que a possibilidade de António José Seguro vir a ser eleito Presidente é altíssima, não só pela diferença que já exibe em relação a André Ventura (quase oito pontos percentuais e cerca de 428 mil votos), mas também pelo alto índice de rejeição que afecta este último e que contrasta com a enorme abertura política que já se está a verificar em relação à candidatura “suave” de Seguro. Mesmo assim, se fizermos um exercício algébrico simples sobre os resultados da primeira volta, constataremos que Seguro poderá obter efectivamente mais de 50% dos votos. E o exercício algébrico consiste em dividir pelos dois, de forma igual, o total dos votos dos três candidatos afastados (Cotrim, Gouveia e Melo e Marques Mendes), juntando, todavia, a Seguro o total dos votos da esquerda radical (BLOCO, PCP e LIVRE). O resultado daria cerca de 54% para Seguro, isto é, uma vitória folgada. 

5.

Mas há outra conclusão a tirar desta operação, ou seja, o facto de, assim, Ventura superar em muito a quota de 40%, alargando a sua base eleitoral partidária em cerca de 20 pontos, sendo certo que a sua figura política se tornaria central no sistema político, por duas razões: por um lado, ocorreria uma densificação e valorização política da sua personalidade e, por outro, sendo líder partidário esse reforço qualitativo transpor-se-ia para o seu próprio partido, abrindo caminho a um crescimento eleitoral muito significativo, a ponto de se poder razoavelmente pôr a hipótese de uma sua vitória em próximas eleições legislativas.

6.

Este, e sem diminuir a provável e merecida vitória eleitoral de António José Seguro, talvez seja o mais relevante significado político destas eleições porque irá mexer com a geometria partidária e eleitoral e, naturalmente, com efeitos fortemente disruptivos sobre a relação de forças parlamentar e, naturalmente, sobre um futuro governo. Estas eleições poderão, pois, abrir caminho a uma crise de governo desencadeada pelo CHEGA ou, então, a um efeito-concha do sistema, envolvendo um pacto defensivo, implícito ou explícito, entre aqueles que foram até hoje os pilares do sistema, PSD, PS e Presidência da República (com a excepção da disruptiva presidência de Marcelo Rebelo de Sousa).  Conhecendo-se os protagonistas que hoje temos e, provavelmente, iremos ter no terreno, António José Seguro, na Presidência, José Luís Carneiro, líder do PS e um PSD liderado por alguém que tem como único objectivo a sobrevivência durante o mandato, é provável que venhamos a assistir a um efeito de fechamento em concha dos representantes do sistema, transformando o CHEGA, agora reforçado nas presidenciais, em verdadeira alternativa aos partidos do sistema.

7.

Sabemos o que está a acontecer por essa Europa fora com os partidos que se estão a apresentar como alternativos a um sistema que, no essencial, tem sido governado pelo centro-esquerda ou pelo centro-direita. Giorgia Meloni está a ensaiar uma nova geometria constitucional alinhada com as suas posições ideológicas. Partidos estes que agora estão muito reforçados pelo exemplo do radicalismo trumpiano e do seu ultramontanismo ideológico e político. Ou seja, o que se está a verificar é um crescimento, em mancha de óleo e por todo o lado, deste tipo de política, o que poderá influenciar decisivamente a evolução da política no nosso país, no mesmo sentido, não já directamente nestas presidenciais, mas num futuro próximo e nas legislativas.

8.

Eu creio que o fechamento em concha não será, em caso algum, a melhor solução para combater este fenómeno em crescimento, tal como penso que a diabolização de um protagonista que pode vir a recolher à volta de 40% dos consensos no dia 8 de fevereiro não será também a melhor resposta. De resto, esta atitude nunca será, para mim, a melhor resposta. Poderá sê-lo conjunturalmente, mas não o será estrategicamente. E, todavia, a tomar em consideração as idiossincrasias pessoais dos protagonistas do sistema, é provavelmente isso que irá acontecer. Do chumbo do próximo orçamento não resultará (e ainda bem) a dissolução do parlamento e perante uma moção de confiança o PS de Carneiro abster-se-á. E così via.  

9.

Há muito que tenho vindo a dizer que esta crise se deve em grande parte ao exercício político das forças que têm governado o sistema, a uma política sem alma, à sua redução à dança dos números da macroeconomia, ao nepotismo e à endogamia dos partidos do sistema, à falta de gravitas dos protagonistas desta política e ao medo do risco na gestão dos grandes temas da política nacional e internacional. E é por isso que urge dar vida a uma nova política que seja capaz de mobilizar a cidadania, não somente nos períodos eleitorais, mas para a construção de uma sociedade mais eficaz, mais justa e mais empenhada no futuro colectivo. Infelizmente, não vejo como é que isso possa vir a acontecer com os grandes partidos transformados em meros comités eleitorais e cada vez mais vazios por dentro, em partidos que se transformaram em enormes federações de interesses pessoais e sem alma, em partidos que já nem sequer possuem “forces propres”, recorrendo sistematicamente ao “outsourcing” (agências de comunicação que organizam as campanhas e constroem os programas e os discursos) e desmobilizando a própria militância, a partidos que nem sequer activam a dinâmica interna porque estão ocupados pela própria oligarquia que navega segundo os ditames da velha “lei de ferro” (ou mesmo de cimento) que os impermeabiliza socialmente, por dentro e por fora.

10.

Eu creio que estas eleições, da primeira volta e da segunda volta, anunciam profundas mudanças que talvez não sejam mesmo as melhores. E é sintomático que hoje a política de esquerda já só pareça estar reduzida à defesa da trincheira constitucional ou mesmo da trincheira democrática, sem que se vislumbrem (e há muito) outros horizontes mobilizadores. É neste contexto e ambiente que avança a direita radical a grandes passos. Vimos o que aconteceu e o que está a acontecer em França, onde a direita radical só não venceu ainda tudo porque há sempre uma segunda volta que trava as vitórias da primeira, mas onde a política fica confinada à defesa do regime. O que, naturalmente, é muito pouco e que tem levado a uma situação de crise permanente que, finalmente, poderá vir a terminar, em 2027, com a vitória da direita radical de Marine le Pen e de Jordan Bardella. O panorama europeu é muito esclarecedor, da França ao Reino Unido, da Itália à Alemanha, onde segundo as sondagens Alternative fuer Deutschland já é o maior partido, sendo o segundo no Bundestag, com 152 deputados (sondagem publicada pelo “Politico”, de 16.01.2026: AfD, 26%; CDU/CSU, 25%; SPD, 14%). Em Portugal tudo chega sempre tarde. Mas acaba sempre por chegar. JAS@01-2026

Poesia-Pintura

O POETA E O SILÊNCIO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Palavras Deslaçadas”
JAS 2026
Original de minha autoria
Janeiro de 2026
"Palavras Deslaçadas" - JAS 2026

POEMA – “O POETA E O SILÊNCIO”

O SILÊNCIO DO POETA
Compõe-se
Em poesia
Como canto
Em surdina
Do que não
Pode calar,
Do que sente
Mas só diz
Quando se põe
A cantar.

SUA FALA
É o eco
Do silêncio,
A fala da poesia,
Diz tudo
O que nela cabe
Em suave melodia,
Diz o que só
A alma ouve
Da poética
Sinfonia.

SEU SILÊNCIO
Ressoa
Nas palavras
Que ele diz,
É eco
Em forma
De poesia,
É no canto
Que ele sente
O que dizer
Não podia
E o fazia
Infeliz.

DIZ, POIS,
Sem o dizer,
É outra coisa
Que diz,
Sofre em silêncio
O poeta
Uma dor
Que lhe vem
Lá da raiz
E que o verso
Tempera
Sem que o faça
Feliz.

OUTRO SILÊNCIO
É o dela
Que nem lhe manda
Sinais,
“Não importa”,
Diz-lhe ele,
“Dentro de mim
Vives mais”.

O CANTO
Deste poeta
Do silêncio
É o selo,
Sua vida é
Sempre em verso,
Não é fria
Como gelo,
Seu canto
É em surdina,
Só o ouve
Quem o lê,
Mas com luz
Que ilumina
Aquilo que
Não se vê.

ASSIM O VATE
Persiste
Nesse sol
Que irradia
E se o silêncio
É gelo
Derrete-o
Com fantasia,
Pois se a vida
É de dor
Conjuga-se
Com o amor,
Mas diz-se
Em poesia.