APRENDIZES DE FEITICEIRO
O que eles ainda não entenderam
Por João de Almeida Santos

“S/Título”. JAS. 08-2023
SINTO, CADA VEZ COM MAIS INTENSIDADE, que os protagonistas, no activo, da política de centro-esquerda e de centro-direita, lá fora e entre nós, parece não terem ainda entendido que ela, a política da era do algoritmo e dos “engenheiros do caos”, está cada vez mais capturada por duas perigosas tendências que ameaçam promover um desvio que pouco ou nada tem a ver com o que de melhor a democracia representativa nos deu até hoje. Chamo-lhes “aprendizes de feiticeiro” (que me perdoem, pois o que digo não é por puro gosto de malhar neles) pela auto-satisfação que se lhes nota no rosto quando fazem pungentes declarações públicas ou sentidas profissões de fé, enfeitiçados por um poder que, no fundo, não controlam realmente. Chegaram lá montados no veículo partidário, cada vez mais ultraligeiro (uma boa parte proveniente das juventudes partidárias), que, infelizmente, já pouco mais transporta do que simples kits de sobrevivência política e pessoal e o sonho de uma rápida carreira de sucesso no aparelho de Estado. Muitos sem vida fora da bolha partidária, mas com o feitiço do poder ao alcance das suas mãos. Chegados lá, os aprendizes de feiticeiro podem, então, exibir toda a sua frescura, coadjuvados pelos jornalistas de serviço. Que me desculpem, mas a política, no seu sentido mais nobre, está a milhas disto.
TRAJECTOS
Mas quais são essas duas tendências? São a da direita radical populista e a da esquerda identitária dos novos direitos. Estas duas tendências atraem-se mortalmente e arrastam consigo a franciscana pobreza ideológica do centro-esquerda e do centro-direita. Pobreza em afinidades electivas: uns, por amor à tradição e à defesa do statu quo, outros, atraídos pelo desejo irreprimível de mascarar a indigência ideológica com os insinuantes derivados da ideologia dos novos direitos. Ouvem, ambos, deliciados, as novas sereias, sem que ninguém lhes tape os ouvidos para que não sejam seduzidos e arrastados para a ilha promissora do novo apostolado civilizacional ou para o insidioso e perigoso alto mar dos interesses e da regressão civilizacional. E, assim, na prática, acabam por ocupar a vida numa longa correria, a gerir interesses, orçamentos de Estado e expectativas, mas, sobretudo, as próprias carreiras, num afã que não deixa espaço para a compreensão do que está em curso de mudança e em grande velocidade perante os seus distraídos e venais olhos. Pensar demais atrapalha e nem há tempo para isso. Ocupam-se, pois, da carreira e fazem política por inércia. Os mais maldosos dizem que vai para a política quem não sabe fazer mais nada. Talvez seja exagerado, reconheço, mas colhe uma parte da verdade. Depois, como na trajectória partidária até há sempre algum património ideal que vem do passado (do tempo em que os animais falavam), isso basta-lhes, desde que, digo à esquerda, o apostolado civilizacional dos novos direitos lhes permita completar, sem grande dispêndio de energia intelectual, esse património ideal, dando-lhes, deste modo, ares de progressismo e de modernidade ou mesmo de pós-modernidade. E também aparente gravitas, derivada da nova moralidade. Assim, podem instalar-se despreocupadamente na tecnogestão do poder, na governance, no management, para os quais, muitas vezes, e devido aos manhosos processos de selecção da classe dirigente, muitos nem sequer podem exibir competência técnica ou até mesmo evidenciar alguma preocupação com as normas básicas da ética pública. Os casos de promiscuidade financeira que vão acontecendo dão conta disso. A competência que poderiam exibir esgota-se, como se sabe, na gestão interna das próprias carreiras e nos alinhamentos com os ventos que sopram na direcção do poder interno, ou seja, daquele que os pode levar à administração pública, às grandes empresas públicas ou até a cargos governativos. E é isto, para não falar dos que, chegados ao Parlamento, o único fito das suas vidas passa a ser o de nunca mais de lá saírem, garantindo a sobrevivência através de umas escapatórias até ao espaço mediático em busca de notoriedade, seguro de permanência nos cargos. E se for preciso dizer umas “verdades” disruptivas até dizem. Assim, terão mais audiência e mais peso na opinião pública. Logo, também na política. Que me desculpem os que não se enquadram nesta moldura, e são muitos, mas ela é realista. E se o digo é porque o sinto, não porque o tenha lido num qualquer livro certificado por um qualquer referee. Mas, adiante, que se faz tarde e que o desabafo está consignado, pelo menos para memória futura.
O PANORAMA POLÍTICO
De certo modo, o panorama político global não é complexo e pode muito bem ser, de facto, descrito de forma simples, dizendo que, enquanto estamos perante duas tendências que se confrontam abertamente, à (extrema-)direita e à (extrema-)esquerda, em claro antagonismo, as forças que aspiram a governar democraticamente a actual complexidade encontram-se em graves dificuldades não só doutrinárias e de competência (note-se que até os processos de conquista do consenso passaram a ser entregues a agências especializadas de comunicação, de marketing e de estudos de opinião, substituindo as competências partidárias), mas também em relação à própria ideia de política, sobre o que ela é e para que serve. E já nem sequer é suficiente dizer que, apesar de tudo, elas ainda se mantêm no poder, somando, em conjunto, valores que se encontram claramente acima dos 50% do eleitorado, bastando, para tal, dar o exemplo de Portugal, da Espanha ou do Reino Unido. Na verdade, são cada vez menos, pois o que se vê são as forças dos extremos do leque ideológico, em particular a direita radical e populista (mas, à esquerda, o Syrisa, que foi de Tsypras, já governou e, em França, é, na oposição, o partido de Mélenchon que conta, e não o partido socialista), a governarem alguns países (por exemplo, a Polónia, a Hungria e a Itália) e a crescerem significativamente noutros tantos – na Alemanha, o Alternative fuer Deutschland já é o segundo partido com mais de 20% em duas sondagens recentes (YouGov e Insa, com cerca de 20% e 21%, respectivamente, contra 19% do SPD, em ambas) e, na Suécia, os “Democratas Suecos” já exibem cerca de 20% do eleitorado (nas últimas eleições de 2022). Isto para não falar da França, de Espanha ou de Portugal, onde a direita radical apresenta resultados muito significativos, temendo-se que, nas próximas eleições presidenciais, o Rassemblement National de Jordan Bardella veja eleita Marine Le Pen, hoje à frente nas sondagens para as presidenciais. O efeito Giorgia Meloni poderá vir a sentir-se rapidamente também em França. A mesma Meloni que, ao contrário do que acontece em Portugal em relação à banca, acaba de impor uma taxa de 40% sobre os lucros extraordinários da banca, quando eles tenham ultrapassado em 2022 mais do que 5% em relação a 2021 e do que 10 % em 2023 em relação a 2021 (em causa, se bem entendi, os lucros extraordinários, nestes termos, são calculados com base na diferença entre o que os bancos cobram em juros e os que pagam aos depositantes).
Sendo a linha de combate da direita radical e populista no essencial representada, por um lado, pela imigração(com abundantes e seguros resultados eleitorais) e, por outro, por esta esquerda identitária dos novos direitos, a dialéctica política parece estar a deslocar-se para aqui, com resultados verdadeiramente preocupantes. Sem dúvida, mas eles não são apenas explicáveis pela competência política e pelo poder de atracção destas forças. Além destas duas razões, existe uma terceira e essa está centrada na desorientação e na incapacidade de os clássicos partidos da alternância alterarem profundamente o seu modelo de acção e a sua própria identidade política, mostrando estar à altura dos tempos e dos desafios. Em Portugal, o centro-esquerda e o centro-direita ainda representará cerca de 60% (baseio-me nas sondagens actuais), mas outros partidos, em particular o CHEGA, estão em tendência de subida e ameaçam cada vez mais a lógica da alternância bipartidária. E creio que o fenómeno não é tão passageiro como alguns apregoam.
A MUDANÇA NECESSÁRIA
A verdade é que a política hoje não está a ser entendida pelas forças do centro-esquerda e do centro-direita como uma realidade dinâmica que já escapa ao modelo tradicional e que deve ser assumida como realidade que se situa entre a necessária autonomia soberana e funcional dos Estados-Nação, com especial valorização da constituency originária dos cidadãos/contribuintes/consumidores, e o mais vasto horizonte dos poderes executivos transnacionais ou multinacionais, ou seja, as grandes plataformas financeiras e as grandes plataformas digitais. Elas também deveriam ajustar o seu discurso e a sua organização às profundas mudanças que vêm acontecendo na sociedade civil, e em especial na identidade e nas expectativas da cidadania, confrontando-se produtivamente com outras grandes organizações da sociedade civil que funcionam por causas, ou seja, com os movimentos-plataforma digitais (ou mesmo não digitais), e, em geral, com as novas dinâmicas que estão a emergir no plano da sociedade civil. Na verdade, as sociedades contemporâneas já são designadas como “sociedades digitais e em rede” ou mesmo “sociedades algorítmicas”, tal o poder das novas tecnologias digitais, mas também, por um lado, pela nova centralidade que o indivíduo singular nelas ocupa e, por outro, pelo poder que as grandes plataformas podem exercer directa e individualmente sobre ele. Positiva e negativamente. Depois, não é possível continuar a iludir a relação entre o velho conceito de “sentimento de pertença” e a realidade da informação que hoje chega aos cidadãos através de uma enorme variedade de plataformas de comunicação, alterando profundamente a natureza do vínculo com os próprios militantes, simpatizantes e eleitores e reduzindo drasticamente o papel da pertença ideológica e/ou organizacional na decisão político-eleitoral e na própria militância. Mas, por isso mesmo, eles não podem continuar a adoptar critérios de selecção da “classe dirigente” através de fórmulas organicistas que só servem para alimentar a lógica endogâmica que tem alimentado a crise da representação e o seu afastamento da sociedade civil. Este é um aspecto importante porquanto ele exprime a tendência (que já referi) da militância activa a preservar a sua esfera de influência interna, obstaculizando a entrada de “estranhos”, com vista à futura ocupação de cargos no aparelho de Estado. Sendo partidos que sobrevivem cada vez mais da sua regular relação com o Estado (através do financiamento e de cargos para os dirigentes), eles deveriam integrar no seu ideário uma clara concepção do funcionamento, da natureza e das funções do Estado moderno, até tendo em atenção que aqueles que o irão dirigir terão a responsabilidade de gerir orçamentos de Estado que provêm dos impostos cobrados à cidadania. Assunto, pois, de uma enorme delicadeza e responsabilidade. Uma responsabilidade que nunca poderá prescindir da competência técnica e política, de uma robusta ética pública e de uma claríssima ideia acerca do que é o Estado. Não é possível manter a actual indefinição acerca do papel do Estado na sociedade, funcionando simplesmente por inércia, eventualmente pondo leis sobre leis, de forma aleatória e ao sabor de agendas que muitas vezes nem sequer controlam, e descurando a eficácia da máquina pública (que não seja na cobrança de impostos) na implementação das políticas, mas sobretudo sem definir com rigor as suas próprias fronteiras de intervenção. Tal como, com Bismarck, o Estado (as funções do Estado) mudou em relação ao clássico Estado liberal, hoje o Estado tem de ser repensado globalmente à luz da nova configuração da sociedade civil, da nova identidade da cidadania e dos efeitos internos da globalização (financeira, comunicacional e migratória).
TRÊS EXEMPLOS
Três exemplos, em Portugal, de uma visão que, na minha opinião, revela uma certa imprecisão acerca das funções do Estado:
1) O da questão da habitação em Portugal é bastante significativo: não se vê uma clara definição do pilar central de onde deva decorrer o essencial da resolução do problema, continuando a esquerda a insistir fortemente na sua (impossível) resolução através da oferta de habitação pelo Estado (que, reconheço, também é parte da solução) em vez de promover políticas que promovam uma robusta expansão do mercado privado de habitação, o único que pode mesmo resolver o problema, quer em relação aos preços do arrendamento quer em relação ao preço da habitação para venda. Aos dois travões que, na minha opinião, impedem esta solução, ou seja, por um lado, a incapacidade de abdicar de uma parte considerável de impostos para favorecer a colocação em mercado das habitações em condições de atractividade financeira e, por outro, um resistente preconceito sobre a própria ideia de mercado, junta-se ainda uma indefinição grosseira sobre as próprias funções do Estado, muitas vezes subordinadas a uma retórica puramente demagógica, mas irresponsável. Isso vê-se bem na confusão instalada entre o direito à propriedade privada e o direito à habitação, vinda até, pasme-se, de doutorados em direito e anteriores governantes. É um mero exemplo de sobredeterminação da nebulosa ideológica num sector social extremamente relevante e delicado.
2) Mas também poderia aqui acrescentar algo que já referi mais detalhadamente noutro artigo, “Confissões de um Aforrador”, e que, no meu entendimento, ilustra (https://joaodealmeidasantos.com/2023/06/06/artigo-105/ ) muito bem toda uma concepção de política, pela importância que nela têm as finanças públicas: a composição da dívida pública e a promoção da poupança nacional. Não sei mesmo se este tema está bem presente na cabeça de alguns governantes e dirigentes partidários do centro-esquerda, mas esta é uma questão-chave que identifica muito bem e de forma cabal uma orientação política de fundo – prioridade aos investidores internacionais e à banca em detrimento daqueles que, sendo aforradores, são, afinal, os efectivos contribuintes (em impostos directos), a classe média, com um incompreensível desincentivo à própria poupança. Prioridade, portanto, à nova constituency dos credores financeiros internacionais em detrimento da constituency originária dos cidadão/contribuintes. A recente decisão do ministro das finanças em relação aos Certificados de Aforro é, pois, no meu entendimento, uma clara demonstração de uma opção política errada por parte de um governo de inspiração socialista. Uma decisão que, sendo contrária à doutrina, até é esteticamente feia. Que pode ser lida quase como um castigo aos cidadãos aforradores/contribuintes. Peço desculpa, mas é assim que a vejo.
3) Mas poderia ainda acrescentar um outro tema extremamente relevante e delicado para a cidadania: a da relação dos cidadãos/consumidores com os oligopólios que dominam o essencial da economia do país (telecomunicações, cadeias de distribuição de bens alimentares, banca, o sector da energia, da electricidade aos combustíveis, sistema mediático). Ou seja, está aqui em causa a atenção muito especial que o Estado deve dar a esta relação, sendo certo que, singularmente, os cidadãos têm um poder muito reduzido de impedir o funcionamento incorrecto desta relação. Exemplo: o cartel das gasolineiras; o cartel dos bancos em relação aos juros praticados; o domínio total, a montante, das cadeias de distribuição (três ou quatro) sobre os fornecedores e os consumidores, etc., etc., a “circulação circular” (Bourdieu) da informação, com doses pornográficas de tabloidismo em todos os seus géneros, pelo cartel televisivo, sem que se veja intervenção dessa inutilidade chamada ERC. Isto e muito mais.
O que vejo nestes três casos? No primeiro, uma evidente confusão relativamente à solução por preconceito ideológico (em largo espectro, relativamente ao mercado, ao direito à habitação e ao conceito de propriedade), mas também por comodidade fiscal. No segundo, uma clara inversão daquele que deveria ser o valor fundamental do partido socialista: o cidadão/contribuinte/consumidor, em especial o que paga impostos (directos) e alimenta o Estado, sobre os credores internacionais. No terceiro, alheamento relativamente a uma interacção que é decisiva na sociedade contemporânea: a protecção do cidadão consumidor (e dos fornecedores, a montante) perante os oligopólios que dominam, em cartel, a economia do país.
FINALMENTE
São aspectos extremamente relevantes que não podem deixar de merecer a atenção constante das formações políticas que aspiram à suprema responsabilidade de gerir o Estado. Em particular das que se reivindicam de esquerda. Mas, como disse, isso implica um diagóstico de fundo sobre a política, sobre o papel dos partidos políticos, sobre as funções e as fronteiras do Estado, sobre a gestão das finanças públicas e dos impostos, sobre os direitos e os deveres da cidadania, sobre a dinâmica da sociedade civil no plano político. Mas implica também um claro reconhecimento das forças políticas em movimento no terreno, o que elas representam e a respectiva dialéctica política. E implica ainda que estas formações estejam em condições de se apresentar como alternativas a essas forças radicais e a si próprias, ao modelo que vêm seguindo, invertendo o declive político que se está a verificar no sentido dos extremos, fazendo o que devem, depois de uma séria reflexão sobre o seu papel na sociedade moderna. Mas não é isso que se vê. E ao ler o Manifesto do novo think tank que aí vem, também nesta área, confirmo o que tenho vindo a dizer, pois o que nele encontramos são banalidades de esquerda que pouco ou nada significam. Aliás, muitos dos que têm contribuído para a confusão ideológica instalada já lá estão, firmes, para continuar a barafunda. Fica-se com a sensação de que o que temos perante nós é, dentro e fora da bolha, uma vasta fileira de “aprendizes de feiticeiro” com os quais não iremos muito longe. Nem sequer a Madrid, incapazes que são de programarem um simples TGV que nos ligue à Europa (pelo menos através da capital espanhola). Não se trata propriamente de inovar ou de criar algo de novo, de inventar um mundo novo e mais justo, mas sim de se adaptar e responder a um mundo que já mudou. JAS@08-2023
