Poesia-Pintura

COLISÃO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Inspiração”.
Original de minha autoria.
Outubro de 2023.
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“Inspiração”. JAS. 10-2023

POEMA – “COLISÃO”

NAQUELE DIA
Caíste em mim
Como meteorito,
Embate espectral
Neste meu chão,
Abriste
Sulco profundo
Na minha alma,
Mas não doeu,
Essa abrupta
Colisão.
Foi simplesmente
Fatal.

A VELOCIDADE
Cegou-me,
Um clarão,
Ondas e
Vibrações
Abanaram-me
As raízes
(É sempre assim),
Estremeci
E começou
Um bailado
Que nunca mais
Terá fim.

PROCUREI-TE
Nessa cratera
Cavada na minha
Alma
E, passada
A tempestade,
Vi fragmentos
De ti,
Minerais
Por lapidar...
............
Como dunas
Abandonadas
Ao vento
Aqui bem perto
Do mar.

NESSA CRATERA
Profunda
Encontrei
Um brilho
Estranho
Que me pôs
A levitar,
Luz intensa
E cintilante
Na linha
Do meu olhar.

NUNCA MAIS
De lá saí
E com mãos
De alma pura
Peguei
Subitamente
Em ti...

ESCALDAVAS
De brilho
Em profusão,
Mistério
De uma beleza
Diferente
Que nascia
Desta estranha
Colisão.

FIZ DE TI
A minha bola
De cristal,
Li nela
A história de um
Encanto
Que trespassou
Como raio
A minha fronteira
Vital.

LEIO-ME A ALMA
Na superfície
Dourada
Do teu corpo
Incandescente,
Em tímida
Exibição,
Que me ilumina
O olhar
E me domina
Por dentro
Em permanente
Tensão.

RASTO CÓSMICO,
Atracção fatal
Que me suspende
A vida
E me põe
A levitar,
Subindo sempre
Mais alto
Sobre paisagem
Lunar.

AH, SIM,
És razão de culto,
De arte,
Encantamento,
Deusa
Celebrada
Neste canto
Que criei,
Advento,
O meu chão,
Palavras
Cifradas
Que falam
Por mim
Com paixão,
Via mestra,
Via quente
Da mais bela
E, de todas,
A mais sofrida
Evasão.

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Artigo

NOTAS DE LEITURA

Lídia Jorge
"A Costa dos Murmúrios" e "Misericórdia"
(Impressões)

Por João de Almeida Santos

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“S/Título”. JAS. 10-2023

NOTA PRÉVIA. Habitualmente faço notas de leitura sobre os romances e poesias que leio. O objectivo não é a publicação. É um simples registo para ulteriores reflexões. Foi o que aconteceu com “A Costa dos Murmúrios”. Mas, quando li “Misaericórdia”, acabei por decidir publicar este artigo sobre as duas obras. São impressões subjectivas de um leitor, livres e sem pretensão de se apresentarem como recensão dos dois livros.

1.

Li o romance “A Costa dos Murmúrios” (2002), de Lídia Jorge. Sentimentos contraditórios: uma escrita de alto nível, mas com valor cognitivo de menor intensidade, em parte devido à colocação e à opção da escritora, não questionáveis, mas também, ou sobretudo, devido à própria natureza da composição, à construção literária da narrativa, à composição frásica – dança frenética e algo libertária das palavras. Um estilo que mantém em “Misericórdia” (2022), ainda que num registo não tão rico e num contexto mais definido, um lar da terceira idade, a que chamou “Hotel Paraíso”, título que já indicia um objecto literário lúgubre, porque alude àquilo que em italiano se indica com a palavra “trapasso”. “Il trapasso”, a passagem para o além.

2.

Para mim, a arte tem um alto valor cognitivo, embora não de natureza analítica. É uma relação diferente com o real, onde a forma tem elevada autonomia, valor próprio, expressividade estética autónoma. A arte é autopoiética, expande-se por dentro, como nos sistemas, mas nela há sempre (disso não tenho dúvidas), e aqui também há, um referente com dimensão ontológica, com valor existencial (claramente identificável). Até porque ela responde a um apelo interior, a uma exigência ou mesmo a um imperativo existencial, àquilo que os gregos designavam por pathos. No caso dos dois livros de Lídia Jorge isso acontece, porquanto representam duas realidades presentes intensamente na sua própria história pessoal, África (Moçambique) e sua Mãe, que lhe terá pedido que contasse esta história (a sua, a da Mãe, ficcionada). Se não houver pathos, na origem da obra de arte, o mais provável é que se fique no domínio do puro virtuosismo, da pura retórica estética. Que pode ser bela, mas não deixa de ser retórica. Da forma pela forma. Pecado mortal. O excesso de virtuosismo, exibido obsessivamente, estraga a obra. É aqui que bate o ponto. Talvez o pecado da escritora, que vence muitos prémios, seja precisamente este. Não sei.

3.

Foi uma leitura quase sem interrupção, esta, a de “A Costa dos Murmúrios”, mas com algum esforço, pela curiosidade em conhecer aquela que alguns consideram ser a sua melhor obra, e não tanto porque a força sedutora da narrativa me impedisse de parar. Pelo contrário, a leitura exigiu empenho, esforço e vontade. Como, de resto, acontece com as obras culturalmente exigentes. Neste caso, de linguisticamente exigentes. A escritora tem um domínio da língua notável e, neste livro, esforça-se por demonstrá-lo à exaustão, tratando-a com um imaginário linguístico exuberante, a ponto de frequentemente as proposições ficarem viradas para si próprias e sem densidade semântica, quase em registo de deslumbramento narcísico ou especular, auto-referenciais, não tendo, aparentemente, sentido ou significado visíveis. Poderia dar inúmeros exemplos, mas não vem ao caso.  Nem sinto que valha a pena. Talvez seja limitação minha. Além disso, o livro parece-me mais uma sequência ininterrupta de luminosos flashes, em linguagem intensiva e obsessivamente desenhada, inspirada no ambiente colonial da Beira no período em que a luta pela independência já começara em Mueda, no norte de Moçambique. O ambiente descrito, de retaguarda familiar da frente militar, tendo certamente referências reais, é descrito num plano elevado de evidente fantasia onde a linguagem usada para o efeito não conhece limites de ordem semântica ou, diria, de retórica estética, para não dizer de exibicionismo linguístico. É a história de um hotel destinado a futura ruína pós-colonial e de dois personagens, o jornalista e Evita/Eva, cuja história se dissolve nos intermináveis flashes e personagens (como Helena de Tróia) com que a autora tece e entretece a narrativa. Brava a desencantar nomes sugestivos. Até neste ambiente triste e de fim de ciclo do “Hotel Paraíso” – Dona Luísa de Lyon…

4.

Linguagem riquíssima, sem dúvida, mas ao serviço de uma neblina semântica excessiva e de uma história fragmentária e algo impressionista. Sim, impressionismo parece-me ser o termo certo para qualificar a textura de toda a narrativa. Trata-se, sim, de um ambiente colonial de retaguarda da guerra que a autora conheceu e viveu em primeira pessoa, com descrições paroxísticas que pintam de cores intensamente carregadas, e com traçado no limiar do fantástico, o real vivido e experienciado em primeira pessoa. É uma espécie de texto-aguarela, as palavras fluem e escorrem livremente quase libertas de uma qualquer semântica até encontrarem um traço-fronteira que as sustenha, para fixar a forma. Neste sentido, é uma bela obra. Escrita com a lógica mais do pincel do que da caneta. Há certamente muito de autobiográfico, metaforizado e filtrado pela neblina ou as cores carregadas de uma memória em fuga onírica. Ou mesmo de um deslumbramento linguístico auto-referencial. Daqui talvez a aparente nebulosidade do texto. O problema é que a linguagem intencionalmente rebuscada, combinada com um intenso impressionismo semântico nos deixa um pouco insatisfeitos quanto ao valor quer cognitivo, e até estético, da obra, por excesso de peso e de excessivo emaranhado linguístico. É uma obra que acrescenta peso (o gongorismo linguístico) ao já insustentável peso do viver, em vez de leveza.  A textura linguística pesa demasiado sobre uma trama um pouco incerta (é a palavra) e de incerto destino. Talvez a culpa seja do desejo de criar uma obra intensamente trabalhada do ponto de vista da linguagem como estratégia estética dominante, descurando a dimensão cognitiva, semântica, referencial.

5.

Estamos no domínio da arte, sim, e estamos numa arte onde o seu meio expressivo é a palavra, também, mas não é seguro que uma boa obra literária tenha que ficar encerrada em exercícios linguísticos rebuscados, em fuga do real e em direcção ao onírico, num certo gongorismo descolado do real, que descurem, por exemplo, a densidade existencial das personagens, a clareza da trama ou a evolução progressiva para um “gran finale”, que aqui não acontece, ou um regresso ao ponto de partida, que também não acontece. É um romance-aguarela, sim, mas sem a suavidade da tinta matizada pela água que flui numa folha branca de papel à procura de um risco que a trave.

6.

Um “gran finale” é o que em “Misericórdia” também não se encontra. Bem pelo contrário, o que se encontra é um final mal resolvido. Sim, é o que me parece, que me perdoe a autora. Não diria um “finalaccio”, como se diz em italiano, mas talvez um final apressado, apesar das (ou, então, não obstante as) 463 páginas. Mas aqui com regresso ao ponto de partida, sim, pois dá-se um reencontro com a noite, essa habitual frequentadora, saída das paredes do seu quarto, das noites da narradora, Alberti, e, ao que parece, fatal. Não se sabe bem. A noite parece simbolizar a morte, a ameaça permanente da morte que a visita e à qual ela vai resistindo como pode. E um dia quase ia cedendo. Mas sobreviveu.

O livro chama-se, sim, “Misericórdia”, mas nele tudo se encontra menos misericórdia, a não ser a filial compaixão (pelo menos, pelo destaque dado a sua Mãe na narrativa). Misericórdia disse eu quando acabei de ler este livro um tanto deprimente, que só não é totalmente triste porque as divagações da narradora em torno das personagens são literariamente ricas, a ponto de sermos tentados a ver na narradora uma identificação com a própria autora, sem distanciação, pois aquela, não se sabendo bem quem é e o que fazia na vida, tinha reflexões e fantasias de uma riqueza que só a autora, a filha, escritora, poderia ter. A Mãe é aqui uma clara projecção da filha, da imaginação da filha, ou seja, da autora. Não há diferença assinalável. Os seus diálogos sobre a literatura são um modo de a autora expor o que pensa da literatura: fazer amor com o universo. O problema: a Mãe é mais a filha do que a Mãe propriamente dita.  Falta a construção da diferença, sobretudo no exercício da imaginação. A Mãe não podia escrever e parte durante a acção, logo, é a filha/autora que, entrando-lhe literariamente na identidade, se converte nela e se transforma ela própria em narradora. Falta, na minha opinião, uma identidade claramente traçada da personagem principal que possa suportar a narrativa. Só por dedução, a partir do que diz, se pode lá chegar, ainda que insuficientemente. O imperador Adriano todos sabemos quem era (não digo por acaso). A sua Mãe, não. E Alberti ainda menos.

7.

“Hotel Paraíso”, um nome pouco misericordioso porque indicia que quem lá vive está já a caminho do além e com consciência disso mesmo. Trágico. O fim, sem retorno. E esse é o território onde tudo acontece. Com pessoas, demasiadas pessoas, sempre a partir e rapidamente, uns a seguir aos outros. Com a narradora, que tentou, sem o conseguir, antecipar, numa dura luta entre o seu corpo e a sua alma, a própria partida, a ver, impotente, os desenlaces. Acamados ou semi-acamados e muitos imigrantes a tratarem deles. Um rodopio entre os corredores e os quartos do Hotel. Passos que se ouvem nos corredores, figuras que entram e saem dos quartos como se tudo se passasse quase na clandestinidade. Um jogo de sombras. A acção a decorrer numa permanente penumbra.  Uns que se vão e outros que chegam. E episódios infantis e quase grotescos como animação. De velho se volta a menino, já se sabe. A sessão de fotografias que Alberti recusou perante um cruel fotógrafo que só registava o negativo, como já antes acontecera. Uma violência que Alberti, e bem, recusou. Um retrato impiedoso do que se passa nos lares. Isso é verdade. Em período de pré-Covid, que, chegado, haveria de acelerar as partidas, de acabar com o Hotel e… com o romance. O final dá-se em forma um tanto apressada e sem contexto que o prepare, a não ser a chegada do Covid. É um livro tristonho, próprio de uma narrativa sobre um lar de terceira idade, que procura pintar e ilustrar. Mais pintar do que descrever, a não ser pelo ambiente deprimente e deformado de um lar que mais parece um corredor da morte – Hotel Paraíso. Pelo meio, a autora vai exercitando a sua imaginação literária, com abundante riqueza de vocabulário, isso é verdade, confirmando o que já se vira, de forma muito mais intensa, em “A Costa dos Murmúrios”, mas sem grandes e profundas reflexões sobre a vida. Claro, pintar a vida num lar de terceira idade (que expressão estranha, esta; melhor em espanhol: los mayores) é já reflectir sobre a vida na sua etapa final. A vida é pintada na sua fase de decadência, a caminho do além, sobre personagens cujo perfil no essencial é pouco ou nada determinado. Identificam-se vagamente pelos episódios que acontecem e pelo modo como participam neles. A própria narradora tem esse perfil e mais parece identificar-se e esgotar-se nos exercícios criativos da autora, nos 78 fragmentos (o livro é uma composição de fragmentos referidos à vida no interior do lar). Não se apresenta ao leitor, a narradora.  Surge-nos num posto de observação privilegiado, que condiciona toda a narrativa sem exibir substantivamente uma distanciação relativamente à autora, a não ser nalgumas diferenças que exibe relativamente a ela. Toda a narrativa evolui em nebulosa, sem grande clareza analítica ou aprofundamentos – são episódios, quase flashes, que se sucedem uns aos outros, mas não numa lógica progressiva. Procede por fragmentos, por episódios. O livro até poderia ter o título de “Memórias de Alberti” (imaginadas pela filha), recordando-nos o Imperador Adriano pela pena de Marguerite Yourcenar (ver pág.s 41 e 110). Mas a Yourcenar é diferente – lidos os seus livros aumenta a dimensão do nosso conhecimento. A sua é matéria que não se identifica com as migalhas que caem da mesa da história ou de um lar. É só ler a “Obra ao Negro”, o ambiente em que florescem o hermetismo, a alquimia, os rosacruzes. O que não se encontra aqui é um desenho rigoroso do perfil das personagens. Nem sequer do da narradora, a senhora Alberti. É um livro um pouco deprimente, onde tudo está sujeito a decadência, a desilusão, a queda anímica e física, a desistência, a morte, aos episódios menores de vidas em clausura que tudo, o mais trivial, agigantam. Mas essa foi a opção da escritora, pelos vistos a pedido de sua Mãe, que terá vivido num lar, digo eu. As personagens vão desaparecendo abruptamente, levadas pela noite que tanto atormenta Alberti, desde o início do livro até ao fim, mesmo ao fim. Algumas personagens internas ficam suspensas na narrativa, mas pode-se imaginar que a Covid as tenha levado, a todas, sem excepção (excepto os colaboradores).

8.

Creio que a autora tenha querido desenvolver exercícios de imaginação a partir de um lar com dezenas de internos, mais do que entrar a fundo na psicologia e nas angústias existenciais das personagens, densificando-as. Pelo contrário, permanece no natural agigantamento de questões supérfluas devido à clausura e sobre as quais viajou a sua imaginação literária. As questões revelam-se à medida da identidade das personagens, bem como à da sua própria circunstância – a vida num Lar com o lúgubre nome de “Hotel Paraíso”.  Claro, há acenos a isso, através de exercícios de fantasia, mas para logo passar à frente.

Numa palavra, entra-se no livro e sai-se de lá tal como se entrou, somente um pouco mais deprimido e sem se ter retido em particular um personagem que nos atenha atraído. Mesmo a narradora, pois tudo é muito nebuloso, ficando até a sensação de que a autora se preocupa mais em divertir-se com as palavras do que em viajar com elas até ao fundo da alma humana. As palavras batem asas e voam para paragens oníricas. Compreendo. Estas personagens são menores, são migalhas do banquete da vida. Partindo de um ambiente fortemente realístico e existencialmente denso, o que, depois, acontece é uma dança de palavras (“a tristeza, com sua anca larga”, pág. 151) que obedece mais à música interior da autora do que à valsa da vida em circunstâncias de fronteira, ainda por cima em situação de perigo e de risco. Até me parece que a autora é vítima da sua própria fantasia – a sua força é também a sua fraqueza. Aqui, como já o fora em “A Costa dos Murmúrios”.

9.

Não sei se a narradora é a Mãe e a autora a filha e se o Hotel Paraíso é o lar em que a Mãe esteve a viver nos últimos anos de vida. Mas é plausível uma resposta afirmativa, até pelo que a autora diz na nota final (exterior à trama). Claro, o meu horizonte só pode, deve, ser o do livro.

Confesso que, mais uma vez, e isso já acontecera com “A Costa dos Murmúrios” (mas esse livro é muito melhor), terminei o romance (onde não há uma história de amor, mas tão-só uns aludidos fogachos sexuais da Dona Joaninha) com dificuldade, não só pela sua dimensão (463 páginas; para se lembrar que Baku é a capital do Azerbaijão, Dona Alberti leva 79 páginas, um excesso), como pela sua textura fragmentária, que, no essencial, evolui por episódios que valem por si e que não empurram o leitor para a frente. Claro, sempre no mesmo ambiente, com a mesma narradora e alguns outros personagens que povoam desde o início a narrativa (Lilimunde, Dona Joaninha, a Administradora Ana Noronha, por exemplo). Não digo que não haja matérias sérias em discussão: crítica violenta à televisão, uma conversa interessante sobre saber se se deve escrever sobre os que fazem História ou sobre os que vivem das migalhas daqueles (“eu não me sento à mesa dos que fazem a História”; “eu sou um cão da História” – pág.s. 113-117), o Brexit, até a Covid do Boris Johnson, uma alusão a Einstein. Ah, sim, mas, afinal, a filha autora também diz que faz amor com o universo (pág. 162), num estatuto que só pode ser  bem superior ao de um cão que vive das migalhas da história ou que se põe à escuta por baixo da mesa dos que a fazem. Mas a verdade é que só fazem amor com o universo os grandes, os que são capazes de o emprenhar, ou os que se dissolvem nele, como os ascetas.

10.

Sabe-se que o Hotel Paraíso é perto do mar. E fica em Portugal. Nada mais se sabe. O edifício não é descrito e a paisagem em que se inscreve também não. O Centro é a narradora, embora não se saiba o que fazia na vida (sobre o seu mundo ver, por exemplo, a pág. 170), mas mesmo essa mais parece a voz da autora projectada na Mãe do que uma concreta personagem. Sim, acho que sim, embora a senhora Alberti se materialize no gosto pelas flores e cheiros, sobretudo ao da recorrente bergamota (pág.s 121-122; 132), o perfume da Lilimunde. Coisa concreta, portanto. A bergamota como projecção do olfacto e do gosto de Dona Alberti. A maior parte dos episódios é, no seu conteúdo, banal. Por exemplo, o das formigas. Os comportamentos das personagens são expostos sem grande preocupação de ir ao fundo com uma caracterização que não seja superficial – o que foram na vida (mas nem sequer a da personagem principal) ou umas características físicas, por exemplo, a cor dos lábios do senhor Sargento João Almeida ou o que haveria de ficar na eterna memória de Dona Alberti por este lhe ter escrito um banal bilhete a dizer que tinha tudo o que lhe servia no telemóvel e que mandasse sempre. Uma extraordinária história de amor (pág. 156) que atormentou a senhora, mas na qual é difícil entender a fixação da Dona Alberti e o pavor de perder o bilhete do sargento. Não sei, porque em situações de clausura forçada tudo se agiganta. Até um banal bilhete de cortesia. Mas, aqui, parece-me que são agigantamentos em demasia.

11.

Tudo isto são impressões. Não académicas. Muito centradas no que eu entendo ser a arte. No que são as minhas expectativas quando leio um romance, uma poesia, ouço uma peça. musical ou vejo um bailado. Por exemplo, não gosto de bailados em que os bailarinos se arrojam pelo chão. A dança é levitação, leveza, rapidez, exactidão. Na literatura valorizo o conteúdo, a informação e não somente a beleza formal, o virtuosismo linguístico. É claro que a arte é beleza formal, talvez mesmo antes de ser comunicação sobre o essencial da natureza humana, mas o que distingue a grande literatura, o romance ou a poesia, é a viagem ao mais profundo e universal do ser humano, a densidade das personagens e a riqueza dos contextos em que se movem, em que ocorre a acção. Aqui, em “Misericórdia”, a densidade da narrativa é induzida pelo ambiente em que decorre a acção: “Hotel Paraíso” – hotel, aqui, paraíso, no além. Lugar de passagem e fronteira. Precisamente: “trapasso”.

12.

É minha convicção profunda que quando acabamos de ler um romance devemos sentir que ficámos mais ricos do quando entrámos nele, sendo também certo que isso ganha em intensidade com a beleza da forma, a precisão da linguagem e a sua leveza. E nisto revejo-me na proposta do Italo Calvino das “Lições Americanas”: visibilidade, rapidez, leveza, multiplicidade, exactidão e consistência. São estas as categorias que gosto de reconhecer num romance ou numa poesia. Não falou, no livro a que me refiro, do valor da categoria consistência, que, todavia, estava prevista. Eu vejo neste valor precisamente a centralidade do valor cognitivo da narrativa e a densidade das personagens. Beleza formal, sim, imprescindível numa obra de arte, mas também relação densa com o real: consistência.

13.

Nas duas obras esta última característica está claramente subordinada à primeira, mas não sei se essa é uma característica idiossincrática da autora, porque só conheço estas suas duas obras.

14.

Esta reflexão é simplesmente uma consideração pessoal que não aspira a ser demonstrada numa tese de doutoramento ou perante referees encartados. É simplesmente uma expressão de liberdade na dialéctica e no intercâmbio culturais de quem também se arriscou a entrar, como produtor, em vários campos da arte (romance, poesia, pintura; esta última também aqui a exerci, propondo um perfil da autora) para além da sua própria área intelectual de conforto e profissional. Essa, naturalmente, muito mais vasta. JAS@10-2023

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Poesia-Pintura

POR UM SORRISO…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Sorriso”. 
Original de minha autoria.
Outubro de 2023.
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“Sorriso”. JAS. 10-2023

POEMA – “POR UM SORRISO…”

SE O TIVESSE
Comigo,
O mundo,
Trocava-o
Por um sorriso,
Pela ternura
Do teu olhar,
Esses teus olhos
Negros
Onde me perco...
...........
A navegar.

MAS É CERTO
Que os não terei,
Foi promessa
Para a vida,
Promessa
De despedida...
............
Eu bem sei.

NÃO IMPORTA,
Também o mundo
Não é meu
Para to oferecer,
É grande demais
Para mim,
Pra tão fugaz
Acontecer
Na travessia
Do tempo que flui
E não tem fim.

AH, MAS POSSO
Dar-te o mundo
Do meu olhar,
A incandescer,
E os frutos
Da minha arte,
A renascer,
Recriar-te
Em ausência,
Como diz
A Yourcenar...
................
E então ficarás
Mais bela
Do que tu mesma,
A olhar...
............
E a sorrir,
Num desenho
De palavras
Onde te posso
Esculpir.

MAS ESSE SORRISO
E esse olhar
Fugidio
Que exibes
Numa rua deserta
Da minha vida
Não os terei
Pra te poder
Contemplar
E te ter
Como só eu sei...
...........
E por isso
Te pinto
E te canto
Pra comigo 
Te levar
Como sempre
Desejei.

GANHO-TE
Em fantasia,
Este modo
De te ter
Cada noite em
Cada dia,
À medida
Do desejo,
Em festa,
Epifania...
.............
É, assim,
Que te revejo.

ALorga10CorRec

Artigo

CAUSA PÚBLICA

Desafios à Esquerda

Por João de Almeida Santos

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“S/Título”. JAS. 10-2023. Frase de Cícero no “De Re Publica”

FOI CRIADA UMA ASSOCIAÇÃO de reflexão política, de esquerda, designada como “Causa Pública”, presidida por Paulo Pedroso e que integra muitos protagonistas da política nacional, designadamente deputados, ex-deputados e ex-governantes. Há uns meses fora aprovado o seu Manifesto, onde se identificava: “A Causa Pública é uma associação de cidadãs e cidadãos empenhados na construção de novos caminhos para Portugal”, sendo os seus valores fundamentais “a defesa do bem-comum, a democracia, a igualdade e a sustentabilidade”. Noto, de imediato, um significativo esquecimento: o do valor liberdade. Mas, em duas páginas, também noto que não se esqueceram de se referir diferenciadamente, seis vezes, aos dois géneros. Por exemplo, assim: “As e os associados da Causa Pública”. Matéria de reflexão, logo para começar. Mas, na verdade, considero interessante e útil que se constitua uma associação de pensamento político estratégico e de esquerda, visto que o pensamento político anda, por aqui, muito a reboque (quase exclusivamente) do politicamente correcto e seus derivados. O que se espera, pois, é que esta associação não seja mais do mesmo. Disso já temos que chegue, até demais. Entretanto, estão lá alguns deputados do PS, como Pedro Delgado Alves e Isabel Moreira, e até seus ex-governantes, como Alexandra Leitão, o próprio Paulo Pedroso e o meu amigo José Reis, ou mesmo ex-deputados como Miguel Vale de Almeida ou Ana Drago, ex-deputada do BE. O Manifesto pouco ou nada diz, mas também não seria possível dizer muito em duas páginas. De qualquer modo, gostaria de fazer alguns comentários ao pouco que é dito, ou melhor, sobretudo acerca do que não é dito, até porque, lido criticamente nessa óptica, é possível avaliar de forma mais certeira esta iniciativa. 

1.

Antes de mais, parece-me que entre os seus valores fundamentais deveria constar a liberdade. Mas não consta. Será lapso? Esquerda sem liberdade é o quê? Esquerda com liberdade é liberal? A verdade é que a liberdade e a igualdade são os dois valores essenciais da esquerda e o equilíbrio e harmonia entre eles sempre foi o que diferenciou a esquerda democrática do neoliberalismo e da ortodoxia marxista, do igualitarismo e da liberdade selvagem. Esta falha parece-me, pois, grave. Por isso, espero que seja simplesmente um lapso (mas não um lapsus calami, no sentido psicanalítico). Depois, essa insistência em contrariar a vetusta e sexista gramática, diferenciando repetidamente, ou mesmo obsessivamente, os dois géneros, parece-me ser um sinal pouco animador. No mínimo, parece-me ridícula a frase já referida: “As e os associados da Causa Pública” (“os associados” já inclui o masculino e o feminino, porque está lá por todos). E todos é todos, todos, todos, como se diz agora, depois da visita do Papa. Seis vezes, sim… mas falta lá o neutro.

2.

Depois, a ideia de que “o foco excessivo dos partidos nas suas dinâmicas internas” limita a produção de pensamento não me parece muito certeira, pela seguinte razão: tendo os partidos o monopólio da representação política nacional e, por consequência, sendo eles que fornecem os principais quadros para a gestão política do país, o foco sobre a sua vida interna deveria ser, não reduzido, mas  intensificado, sobretudo em relação aos seus processos internos de selecção da classe dirigente, que são absolutamente decisivos para a boa gestão política de um país, precisamente da Causa (e da Coisa) Pública. Não é difícil perceber isto. O que não compreendo é que Paulo Pedroso venha, entretanto, anunciar que a associação não quer “interferir no xadrez político”. Mas, então, para que serve a associação se o que determina a Causa (e a Coisa) Pública é precisamente o “xadrez político”?   

3.

Também constato que não há uma palavra sobre o mundo digital, que hoje se tornou decisivo em todas as frentes da vida na sociedade actual. E certamente que os subscritores do Manifesto leram o livro da Shoshana Zuboff sobre o chamado “Capitalismo da Vigilância”… Este tema deveria, pois, merecer uma atenção muito especial devido aos efeitos que o digital e a rede vieram produzir sobre a identidade do cidadão na “digital and network society” ou na “algorithmic society”, por exemplo, na sua relação com os processos eleitorais, atendendo às capacidades tecnológicas de determinação preditiva do comportamento eleitoral e ao novo Marketing 4.0, do senhor Philip Kotler. A relevância desta questão é enorme, pois trata-se do processo de acesso democrático ao poder e da sua própria legitimidade. Basta pensar no Brexit e na eleição do Senhor Trump. E no eficaz uso das TIC pela extrema-direita.

4.

E parece-me até um pouco perturbadora essa vontade “de ir além dos caminhos já conhecidos”. Não será necessário tanto, digo eu, pois a humanidade há séculos ou milénios que procura as melhores formas de autogoverno. Bastaria, mais prosaicamente, centrar-se num bem conhecido caminho, o da democracia representativa, e melhorá-lo, dando resposta à famosa crise da representação no quadro da democracia. Na verdade, e ao contrário do que vulgarmente se diz, a democracia representativa ainda é muito jovem, por duas razões: a) só depois da segunda guerra mundial ela ficou garantida na sua plenitude (com a expansão do sufrágio universal, embora ainda com a limitação do bipolarismo ideológico, político e económico que se instalou com a formação dos dois blocos; por exemplo, o bloqueamento da democracia italiana durante mais de quarenta anos a isso se deve – a famosa conventio ad excludendum); b) a democracia representativa é um sistema muito exigente e difícil de alcançar porque pressupõe a plena consciência dos indivíduos em todos os planos da vida social como condição para a assunção de uma plena responsabilidade logo no acto do voto (sobre isto veja o artigo de ontem de Pedro Norton, “Asfixia Democrática?”, no “Público”, p. 7). O princípio equivale ao do imperativo categórico kantiano: “age como se a máxima da tua vontade pudesse valer sempre e ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal”. Neste aspecto, não é preciso inventar, mas somente desenvolver o princípio no sentido de uma autêntica democracia deliberativa, investindo na qualificação e na intervenção de uma cidadania activa no processo político.

5.

Também não vi no manifesto uma menção relativa a uma questão absolutamente decisiva, mas hoje muito esquecida pela esquerda: quais as fronteiras da acção do Estado perante uma cidadania de múltiplas pertenças e com poderosos e quase ilimitados instrumentos de informação e de intervenção no espaço público? Um exemplo: é inaceitável a ideia, que se tem vindo a impor sobretudo em períodos de crise, de um Estado-Caritas substitutivo do Estado Social. A eficácia do Estado Social é hoje um problema a resolver politicamente, mas não através da prática esmoler. Depois, ligada precisamente à definição das fronteiras do Estado, está a política fiscal: quanto maiores forem as competências e a responsabilidade do Estado maior será a carga fiscal. A clarificação desta questão tem, pois, implicações directas na política fiscal, como se compreende. E ainda: quem deverá pagar impostos? Todos (ainda que alguns só simbolicamente) ou somente uma parte (em Portugal em 5 milhões e 400 mil agregados só 3 milhões pagam IRS)? Trata-se de questões centrais da política nacional que merecem uma reflexão analítica muito clara, em vez dos habituais fumos ideológicos e da retórica caritativa.

6.

Mas, e a propósito, também se torna necessário acabar com os discursos nebulosos da esquerda acerca da função do mercado e da regulação? E a ser feita, esta clarificação, ela deve ter consequências. Não se reduzir a um faz-de-conta, para boa consciência do progressismo regulador, como se vê em Portugal. Por exemplo, com o preço dos combustíveis, com os juros ou com os preços das telecomunicações, onde se verifica um descarado cartel. O problema do mercado cruza-se directamente com a determinação das fronteiras do Estado, sendo certo que o comando administrativo da sociedade ou o Estado mínimo sempre foram combatidos pela esquerda democrática. Pois bem, compete-lhe então esclarecer onde ficam as fronteiras da intervenção do Estado e as da intervenção do mercado, acabando de vez com a política-catavento. Em palavras simples, cumpre definir com rigor onde começa a responsabilidade individual e onde termina a responsabilidade da comunidade. E eu, a este propósito, pergunto sobre o que pensam os associados da “Causa Pública” da frase de John Kennedy, no “Inaugural Address”, em 20.01.1961: “Ask not what your country can do for you – ask what you can do for your country”.

7.

Na mesma linha está a questão da gestão da dívida pública. É aceitável que o Estado se ponha alegremente nas mãos dos credores internacionais (e dos bancos), a que se junta o domínio total das três famosas agências de rating (que detêm a quase totalidade do mercado de rating, e que são controladas pelos especuladores), “borrifando-se” literalmente para os recursos financeiros derivados da poupança nacional, como aconteceu recentemente com os Certificados de Aforro, ainda por cima por um governo do Partido Socialista? Percebe-se bem o problema pensando, por exemplo, nas imposições da Troika. E nas consequências da avaliação das agências. Mas percebe-se ainda melhor se pensarmos que 28% dos juros da poupança nacional revertem sempre a favor do Estado (imposto sobre capitais) e que eles são reintroduzidos na economia nacional, ao contrário do que acontece no caso dos credores internacionais (nem uma coisa nem a outra, designadamente porque estão isentos de imposto). E este é, a meu ver, um ponto muito elucidativo sobre a orientação política global de um governo e de um partido. Ser amigo do contribuinte que é, ao mesmo tempo, aforrador.

8.

Outra, ainda, é a da eficácia da máquina do Estado (que não seja só para cobrar impostos e taxas) sobre a qual os governos se têm mostrado completamente ausentes, desde que não seja para punir o cidadão. É só perguntar ao MAI quanto recebe por mês do seu Banco “privado”, a ANSR (no mês de Setembro do corrente ano, esta encaixou cerca de 7 milhões de euros de multas… para garantir a segurança rodoviária, sim, mas sobretudo a dos cofres do Estado). A eficiência do Estado é um pilar essencial da democracia representativa e dos direitos e responsabilidades da cidadania. Não pode é ser uma espécie de Estado sniper financeiro.

9.

Depois, a questão da mobilização da cidadania para além do quadro partidário, à semelhança do que acontece com as grandes plataformas digitais, como a MoveOn.Org ou a Meetup, por exemplo. Nos Estados Unidos, aquela primeira plataforma foi muito importante para a eleição de Barack Obama, para a defesa do Obamacare ou para os resultados apreciáveis de Bernie Sanders nas primárias democratas. Em Itália a plataforma Meetup deu origem ao MoVimento5Stelle. As insuficiências da democracia representativa e do sistemas de partido não só se resolvem “por dentro” como também se resolvem “por fora”, ou seja, promovendo canais de intervenção da cidadania fora do quadro tradicional da intermediação política e comunicacional. Esta associação bem poderia ter tido a pretensão de se constituir como uma plataforma de pensamento e acção política complementar ao sistema de partidos. Mas para isso não deveria inibir-se de “interferir no xadrez político”, tornando-se politicamente inconsequente. Pelo contrário, uma intervenção competente poderia ajudar os partidos a ultrapassar essas formas morbosas de endogamia e de fractura em relação à sociedade civil.

10.

E, já agora, também não teria sido descabido deixar uma palavra sobre a União Europeia e o seu futuro – por exemplo, acerca da manutenção da linha intergovernamental ou a sua constitucionalização -, hoje componente decisiva das próprias políticas nacionais dos Estado-Membros e tão importante como desejável reguladora da política internacional, cada vez mais influenciada por potências autoritárias e belicosas. 

11.

Poderia continuar, mas não é o caso, para me ater a uma dimensão equivalente à do Manifesto. Na verdade, o Manifesto pouco ou nada acrescenta, a não ser a confirmação de genéricos e estereotípicos temas e da habitual linguagem politicamente correcta. Na verdade, vejo ali sinais de uma orientação que parece estar subordinada excessivamente a esse ambiente tóxico do politicamente correcto e seus derivados. A presença de certos personagens não dá lugar a dúvidas. Com todo o respeito, claro. Mas o que diz o PS? Já não digo António Costa, mas, por exemplo, Pedro Nuno Santos? Manter um prudente silêncio será a melhor política para fazer política? Não será tarefa inútil, e nem sequer difícil, ver com muita atenção o perfil dos personagens que subscrevem o Manifesto e que integram a associação “Causa Pública”. Essa verificação já a fiz, mas não quero pronunciar-me sobre eles. Fico-me pelas ideias e pelo não dito do Manifesto. Mas, adiante, que se faz tarde: venham daí boas propostas, que até pode ser que aqui se inicie o processo de um autêntico despertar da esquerda… JAS@10-2023

Euro3Rec

Poesia-Pintura

RAPSÓDIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Teus Olhos”.
Original de minha autoria.
Outubro de 2023.

TeusOlhos2023_01_10

“Teus Olhos”. JAS. 10-2023

POEMA – “RAPSÓDIA”

SIM, EU CANTO
Esses teus olhos,
A luz,
O brilho,
A cor,
Translúcida
Como mel.
O pintor,
Que é poeta,
Desenhou-os
Com um secreto
Pincel
Que era, sim...
...........
Uma caneta.

É VERDADE,
Palavras
Leva-as
O vento,
Mas, banhadas
Pela cor
Desses teus olhos
Tão belos,
São sedutor
Chamamento.

AGUARELA
De palavras,
Quero dizer,
Galeria
De um rosto só.
Este pintor 
Que é poeta
Deixa mensagem
Discreta
Pra desatar
O seu nó...

TUA BOCA
Não é púrpura,
Ao rubro,
Como eu
Sempre a quis,
Da cor
Dessa paixão
Em intensa
Combustão
Que do amor
É motriz.

HÁ VIDRO FRIO
Que da minha
A separa...
Mas se murmurar
O teu nome
Essa tela
Que é poema
Transforma-se
Logo em ara
Onde a chama
Se consome.

E CRESCEM
Flores
A teus pés...
Pintei-as
De todas as cores
Que encontrei
No Jardim,
Anunciam
Novos aromas
E outros tantos
Sabores
Pintados todos
Por mim.

EU CANTO A LUZ
Dos teus olhos
Com palavras
E com cor,
Porque é esta
A melodia
Que tu conheces
Melhor...

TeusOlhos2023_10Rec

Ensaio

AFINAL, O QUE É O SOCIALISMO LIBERAL?

Por João de Almeida Santos

PSE_05_2021Final

A RECENTE DECLARAÇÃO do Presidente da SEDES, Álvaro Beleza, na CNN-P, de que se filia no socialismo liberal, parece ter suscitado algumas perplexidades acerca desta doutrina, considerada até contraditória nos seus próprios termos – socialismo não rimaria com liberalismo; ou mesmo revelado desconhecimento relativamente à existência de uma tal doutrina ou orientação política.  Decidi, por isso, publicar um pequeno ensaio sobre o Socialismo Liberal, de resto, retomando um capítulo do meu livro Paradoxos da Democracia (Santos, 1998: 65-68).

I.

“Não obstante a boa vontade e o talento que nela têm sido largamente investidos, a síntese de liberalismo e socialismo não conseguiu até agora realizar-se”, diz Perry Anderson, no seu ensaio sobre Norberto Bobbio (Anderson, Bobbio, Bosetti e Cerroni, 1989: 60). O socialismo liberal parece ser, pois, interessante para uma reflexão construtiva sobre a esquerda e a democracia, especialmente se considerarmos que esta última foi jogando sempre o seu destino entre liberalismo e socialismo, entre liberdade e igualdade, sobretudo nas suas versões mais radicais. Ouso até dizer que esta reflexão urge dada a clara crise que a social-democracia (ou o socialismo democrático) está a viver.

As razões para tal são abundantes e profundas. E notórias. A começar pela crise política e ideal que investiu o socialismo com a crise ou, pelo menos, as dificuldades do Estado Social e, sobretudo, a do socialismo de Estado. Ou, ainda, pela crise do modelo social e político fundado no industrialismo clássico sobre o qual se construiu essencialmente o pensamento socialista. Modelo inadequado funcionalmente às profundas mutações do sistema produtivo e das relações sociais provocadas pela emergência do pós-industrial e pela revolução da microelectrónica, a que se seguiu a actual revolução tecnológica que estamos a viver. Mas não só por estas razões faz sentido questionar o espaço ideal do socialismo liberal. Também o próprio neoliberalismo começou há muito a perder o seu fascínio  e a sua tão apregoada eficácia económico-social, sendo evidentes os perniciosos efeitos económicos e sociais, por exemplo, da reaganomics ou do thatcherismo (veja-se Perry Anderson, 1995). De resto, um liberal como Ralf Dahrendorf sublinhara, há muito, a importância da questão social na perspectiva liberal. Outro liberal, Robert Dahl, escreveu mesmo um livro intitulado A Preface to Economic Democracy (1985). O livro A Theory of Justice, de Rawls, chegou mesmo a ser, por alguns, considerado como a “versão anglo-saxónica do liberal-socialismo”. Tudo isto não é pouco para justificar uma incursão pelo património ideal deste híbrido, ou “ircocervo”, de que se ocupa a polémica de Guido Calogero com Benedetto Croce, nos anos quarenta, em Itália. Liberal-socialismo ou socialismo liberal – a opção depende da orientação de origem, liberal o socialista.

II.

O conceito não é nem recente. De liberal-socialismo já falava Leonard Hobhouse, em 1911, no livro Liberalism, e de modo articulado e propositivo. O próprio liberal Croce, em Etica e Politica, chegou a afirmar que “bem se poderá, com a mais sincera e viva consciência liberal defender providências e ordenamentos que os teóricos da abstracta economia classificam como socialistas e, com paradoxo de expressão, falar mesmo (como recordo que se faz numa bela eulógia e apologia inglesa do liberalismo, a de Hobhouse) de um socialismo liberal” (Croce, 1973: 266). E, bem mais recentemente, Perry Anderson, num belo ensaio, The Affinities of Norberto Bobbio, de 1988, chega mesmo a encontrar a presença, no próprio filão clássico e no interior da obra de cada um dos seus expoentes, de uma passagem progressiva que conduziria do liberalismo estrito ao socialismo liberal: John Stuart Mill, Bertrand Russell (originariamente autodefinido “liberal ortodoxo”), J. A. Hobson e John Dewey (a “mente filosófica mais eminente” dos USA, como o define Anderson). O caso de Bobbio é complexo e de difícil definição. Certo, é que ele se assume como liberal, entendendo como liberalismo “a teoria que defende que os direitos de liberdade são a condição necessária (mesmo se não suficiente) de cada possível democracia, mesmo da socialista (se por acaso for possível”); e como liberal-socialista, e não só pelas razões históricas que o levaram a ligar-se com profundidade ao movimento liberal-socialista italiano liderado por Aldo Capitini e Guido Calogero e ao Partito d’Azione. Talvez também porque, como ele próprio afirmou, “pessoalmente considero o ideal socialista superior ao liberal”: “enquanto não se pode definir a igualdade através da liberdade, há pelo menos um caso em que se pode definir a liberdade através da igualdade”, isto é, “aquela condição em que todos os membros da sociedade se consideram livres porque têm poder igual”. Ou a igualdade perante a lei, que nos torna livres; ou, ainda, diria eu, seguindo a máxima de Cícero: “si aequa non est, ne libertas quidem est”.

III.

O liberal-socialismo pretendeu superar criativamente quer a tradição liberal quer a tradição socialista.  Calogero dizia-o claramente, e com rigor morfolófico, na sua obra de 1945, Difesa del liberal-socialismo: “nem o liberalismo era substantivo, nem o socialismo era adjectivo, nem vice-versa, não havia díade de substantivo e adjectivo, mas um substantivo único… um só e novo conceito”. O primeiro Manifesto Liberal-Socialista, de 1940, declarava a indissociabilidade dos dois elementos: “não é possível ser seriamente liberal sem ser socialista, nem ser seriamente socialista sem ser liberal. Quem chegou a esta convicção e se persuadiu que a civilização procede tanto melhor quanto mais a consciência e as instituições do liberalismo trabalharem para inventar e para instaurar ordens sociais cada vez mais justas, e a consciência e as instituições do socialismo tornarem cada vez mais possível, intensa e difusa tal obra de liberdade, atingiu o plano do liberal-socialismo”. Durante o vinténio fascista italiano desenvolveu-se teoricamente uma área político-ideal bastante original quer em relação à tradição marxista e comunista quer em relação ao socialismo clássico. Intelectuais como Piero Gobetti ou Carlo Rosselli produziram obra original neste campo. O democratismo radical de Gobetti, tão em sintonia com as posições de Gramsci, viria a influenciar a criação de uma tendência bem mais curiosa do que o próprio liberal-socialismo: o liberal-comunismo, de Silvio Trentin e Augusto Monti, que aliava a ideia de Estado federativo anti-autoritário com a de uma forte socialização da propriedade. Rosselli, que, em 1928, escreveu um livro intitulado Socialismo Liberal, tentava, como diz Anderson, “expurgar o socialismo da sua herança marxista e da sua versão soviética e recuperava no seu interior as tradições da democracia liberal que ele considerava serem a síntese das conquistas fundamentais da civilização moderna” (1989: 29). Se o socialismo liberal de Rosselli estava mais perto da elaboração política de Calogero, de Gobetti aproximava-se talvez mais Capitini. No essencial, o liberal-socialismo traduzia precisamente esta oscilação de sensibilidades político-ideais, mas exprimia certamente uma inequívoca matriz liberal. Como disse lapidarmente Mario delle Piane: “o socialismo liberal de Rosselli (o qual, no fundo, entronca no revisionismo de Bernstein) é uma das heresias do liberalismo”. Heresia ou não, esta posição encontra-se claramente assumida no famoso livro de Eduard Bernstein, talvez o mais relevante e pioneiro intelectual e político que se situa nas origens do socialismo democrático. Falo da sua obra Os Pressupostos do Socialismo e as Tarefas da Social-Democracia, publicado pelo Editor Dietz, em 1899, em Stuttgart. Os partidos socialistas podem encontrar nele a sua grande inspiração, muito em particular depois do corte com o domínio do património marxista sobre a sua orientação ideal e política. E o que diz Bernstein? Vejamos algumas passagens deste livro a propósito do liberalismo, que é o que neste artigo me move: “Enfim, seria aconselhável uma certa moderação nas declarações de guerra ao ‘liberalismo’. De acordo: o grande movimento liberal da história moderna desenvolveu-se, antes de mais, a favor da burguesia capitalista; e os partidos que se definiam com o termo ‘liberal’ eram ou tornaram-se paulatinamente puros e simples guarda-costas do capitalismo. Entre estes partidos e a social-democracia não pode existir, naturalmente, senão antagonismo. Mas no que diz respeito ao liberalismo como movimento histórico universal, o socialismo é o seu herdeiro legítimo não só do ponto de vista cronológico, mas também do ponto de vista do seu conteúdo ideal”; ou “a democracia é somente a forma política do liberalismo” (“die Democratie ist nur die politische Form des Liberalismus”); ou ainda “na realidade, não existe ideia liberal que não pertença também ao conteúdo ideal do socialismo”  (Bernstein, 1974: 191-192). Se dúvidas houvesse, bastaria o que diz Bernstein para que elas desaparecessem. Mas se não desaparecessem, conviria ir ler o Grundsatzprogramm do Congresso de Bad Godesberg, de 1959, ou o de Berlim, de 1989, para ficar clara a adopção do princípio da liberdade como centro da orientação ideal do SPD e do iluminismo como uma das raízes históricas deste influente partido no universo da social-democracia europeia. O Iluminismo é, como se sabe, a expressão filosófica do liberalismo político. Mas convém também lembrar que o socialismo democrático e a social-democracia têm, de facto, mais afinidades com o liberalismo do que com o marxismo (na génese, a afinidade ou mesmo a identidade com este último era total, ou dominante) ou, naturalmente, com o romantismo.

IV.

Este movimento político-ideal (a que se juntava “Giustizia e Libertà”, fundado pelos irmãos Rosselli) viria a exprimir-se politicamente como Partito D’Azione, de curtíssima vida, esmagado pelos partidos políticos tradicionais. Bobbio participou na fundação de tal partido, precisamente enquanto elemento ligado ao liberal-socialismo. O rápido fim do Partito D’Azione não o levou, contudo, a pôr em causa as suas convicções liberal-progressistas; tão progressistas que acabariam por o tornar o grande e polémico interlocutor da mundividência teórica do comunismo italiano, talvez a mundividência hegemónica na Itália daqueles tempos (na filosofia, na teoria política e nas artes). E sempre e cada vez mais, apesar de o seu progressismo ser talvez mais de matriz liberal do que de matriz socialista ou, então, por o seu progressismo ser liberal-democrático, onde a democracia surge, e em Bobbio talvez seja mesmo assim, como a força polarizadora que relativiza e torna complexa a relação entre os elementos de extracção liberal e os de extracção socialista. Ou seja, para Bobbio a solução talvez esteja na convergência da tradição liberal e da tradição socialista na democracia representativa, bem mais subversiva do que a própria tradição socialista. A democracia representativa como síntese destas duas tradições.

V.

Poder-se-ia, então dizer que o socialismo liberal é aquele que melhor exprime e traduz a própria democracia, que integra ambas as tradições, ou seja, que combina de forma harmoniosa os princípios da liberdade e da igualdade. E se Bernstein tiver razão ao dizer que é indissolúvel a relação entre socialismo e democracia tudo fica dito, sobretudo quando ele também considera que a democracia é a forma política do liberalismo. Fica assim demonstrada a lógica do socialismo liberal ou até mesmo a ideia de que esta é a fórmula que melhor distingue o socialismo democrático do socialismo de Estado. Na verdade, não se compreende que socialistas considerem estranho este filão do socialismo liberal quando é ele que procura promover o que de melhor têm a tradição liberal e a tradição socialista, o que constitui a sua verdadeira marca distintiva. É verdade que os partidos liberais sempre se colocaram à direita e que há uma sua tendência, designada por neoliberalismo, que exprime de forma clara uma visão de direita. O que não se pode esquecer é que a carta que funda as nossa modernidade e o sistema representativo é a liberal “Declaração dos Direitos e do Homem e do Cidadão”, de 1789. E que foram os liberais que inauguraram a nossa modernidade política, derrubando o Antigo Regime. E, finalmente, que os partidos socialistas e sociais-democratas sempre procuraram harmonizar em igual medida os princípios da liberdade e da igualdade, como aspiração máxima da democracia representativa.

Não há, pois, razão alguma para considerar estranha esta “fórmula” do socialismo liberal, porque, como diz Norberto Bobbio, “O liberal-socialismo”, sendo somente uma fórmula(…), ela, todavia, “indica uma direcção” (1989: 82 – na resposta a Anderson). Nem mais.

REFERÊNCIAS

ANDERSON, Perry (1989). “Norberto Bobbio e il Socialismo Liberale”. In Anderson, Bobbio, Bosetti e Cerroni, Socialismo Liberale, Roma: L’Unità.

ANDERSON, Perry (1995): “Balanço do Neoliberalismo”. In Sader, Emir & Gentili, Pablo (orgs.) Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, pp. 9-23.

BERNSTEIN, Eduard (1899; 1974). I Pressuposti del Socialismo e i Compiti della Socialdemocrazia. Bari: Laterza.

CROCE, Benedetto (1973). Etica e Politica. Roma/Bari: Laterza.

SANTOS, João de Almeida (1988). Paradoxos da Democracia. Lisboa: Fenda.

JAS@09-2023

PSE_05_2021FinalRec

Poesia-Pintura

LAMENTO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Palácio das Artes
no Monte Parnaso”.
Original de minha autoria.
Setembro de 2023.

PalacioArtes2023_09jpg

“Palácio das Artes no Monte Parnaso”. JAS. 09-2023

POEMA – “LAMENTO”

SINTO-ME SÍSIFO,
Cansado
De carregar
Palavras
De evasão
Lá para o cimo
Do Monte,
O lugar
Da redenção.

PALAVRAS
Com gravitas, 
O meu abrigo,
Palavras com
Com peso,
Sofridas,
O meu castigo.

SINTO-ME CONDENADO
A transportar
Sentimentos
Lá para o alto,
Agarrados
Às palavras
E agarrados a mim,
E logo trazidos
De volta
Neste processo
Sem fim.

REGRESSO
Com menos peso,
É verdade,
Alguns ficam
Por lá
(Talvez metade),
Disfarçados
De palavras,
Outros levados
Pelo vento.

LÁ NO ALTO
(E no meu peito),
O silêncio
Ouve-se mais
Porque o ar é
Rarefeito
E não há outros
Sinais
Nem há som
Que o sustenha...
..............
Procuro, então,
Libertar-me
E canto,
Canto
Com o ar puro
Da Montanha.

CANSA-ME
Este ir e voltar,
Mas nunca
Desespero
Porque nada mais
Eu espero
Ou sequer
Posso fazer...
................
Estou condenado
À viagem
Para nunca
A perder.

CAMINHO
Numa estrada
De luz,
É verdade,
E os meus pés
São asas
De fantasia
Que voam
Ao seu encontro
Por um golpe
De magia...

EU SINTO, SIM,
O cansaço
De tanto assim
Caminhar,
Mas sei muito bem
O que faço
Simplesmente
Por amar.

QUEM ME MARCOU 
Tal destino,
Quem o marcou
Afinal?
Foram os deuses
Do Olimpo
Ou foi 
A visita da musa
Naquele dia 
Fatal?

PalacioArtes2023_09jpgRec

Artigo

FRAGMENTOS PARA UM DISCURSO SOBRE A POESIA (III)

Confissões de um Poeta

Por João de Almeida Santos

RUBOR2023

“Rubor”. JAS. 09-2023

OLHOS DE ÁGUIA

ELAS, AS MUSAS, fazem parte da identidade dos poetas? Talvez nem haja poetas sem musas, digo eu. Uma ligação indissolúvel. Estro, inspiração. Condenados a viver no mesmo lar. Que é imenso, tão vasto como o universo da fantasia. Estas musas, as que também a mim inspiram e com as quais vou convivendo no ondear da minha vida de poeta já têm fundas raízes no meu Jardim Encantado, lá na Montanha, no meu Parnaso. No meu lar. Aí o poeta tem olhos de águia, porque voa alto sobre o vale da vida. E quando atravessa um arco-íris, apoiado nos flancos montanhosos do vale, bem precisa deles, desses olhos, porque a sua sensibilidade se fragmenta em mil gotículas de água luminosas e em coloridas refracções, vendo o vale da vida a sete cores, lá do alto. São olhos de águia e de água. Da montanha e do mar. Ah, sim, quando atravessa os arcos-íris ele nunca resiste a sentar-se num deles para observar o que se passa lá em baixo, nesse vale. Vê tudo a cores em mil refracções. E ao pormenor, com esse olhos. Os olhos de águia.

REFRACÇÃO

Não há perigo de, um dia, as musas partirem de vez, cortando as raízes, porque elas regressam sempre com a chuva. No céu da fantasia há nuvens e chove lá, dizia o Dante Alighieri. Há azul, mas há também chuva. Na fantasia também há sempre muitos arcos-íris. Se não chove, pelo menos há milhões de gotículas no ar. E o poeta gosta de andar à chuva, de se molhar e de refrescar a alma, de a pôr em refracção com raios de sol, iluminando as palavras. Aquele lugar lá no alto, no topo de um arco-íris, é o melhor ponto de observação do vale da vida – a visão é caleidoscópica. E melhora a vida cá em baixo.

A POESIA É EXCESSO

Salvo-me porque me excedo, respondi um dia a quem me dizia que a poesia é excesso. O que me falta no real abunda-me na fantasia. Levito para me conceder o que me faltou. “Privação sofrida”. A fantasia puxa pela forma e obriga-me a formatar essas pulsões profundas que ameaçam fundir, liquefazer, a minha identidade. Porque ficaram lá nas profundezas da alma, não resolvidas, em ebulição. Mas eu preservo-a, a identidade e as suas deambulações pela vida vivida, criando. E a criação é excesso. Duas horas em poesia podem parecer uma eternidade ou um instante absoluto na dialéctica dos excessos de presença/ausência. Os fragmentos de memória afectiva são para mim como um rio que flui, com rápidos perigosos e aluviões que transbordam para as margens, e onde me atrevo a mergulhar para chegar à foz. Que é perigosa, por causa do choque ondulatório e do encontro de águas diferentes (doce e salgada). Felizmente, acabo por nunca lá chegar e por me ficar pelas margens do rio, levado pelos aluviões. É nas margens que eu crio. Aliás, o problema reside precisamente em nunca lá chegar… a essa desejada foz. Criar é transbordar para as margens da vida vivida.

MUSAS

Quando há perfumes no ar e há música, eu gosto de coreografar, não com o corpo, mas com a alma. Convoco o poeta e o pintor, vou com eles até ao jardim (tenho lá o tal imenso jasmim que me embriaga com aquele aroma acre e intenso) e dali partimos para uma coreografia de palavras e cores. Olhando para a montanha e invocando as musas. E elas vêm até mim, desafiando o estro. Às vezes, o pintor retrata-as, mas o poeta não se cansa de as cantar. São três (ou talvez quatro, não sei), como as Graças do Botticelli. E pousam na vasta ramagem do loureiro e do jasmim. Talvez por causa dos aromas e do significado destas plantas. Uma vez o loureiro “deu” uvas, imensas uvas, e tive de o cantar. Onde é que já se viu um loureiro dar uvas? Só mesmo o meu. Mas eu acho que foi obra de uma das musas. Talvez da Erato. Mas não tenho a certeza. O que sei é que por ali anda feitiço. Com essas uvas fiz vinho. E com ele oficio nos rituais de Domingo. Às vezes, quando pinto o jardim, parece-me ver umas misteriosas sombras, mas cativantes, que se assemelham às musas, mas, quando tento fixá-las, elas desaparecem. Sobra-me a poesia para as evocar e invocar. E, depois, inspirado num poema, dou-lhes forma. Reinvento-as. As musas são rápidas como o vento (são como as fadas) e é por isso que o poeta se queixa de tantas saudades sentir. Já estão a partir quase antes de chegarem.  Neste caso, a rapidez delas cega-o a ele. E não as vê… mas pressente-as. E são silenciosas até doer, o que o leva a provar o “gosto amargo… de acerbo espinho” e a dar-lhes forma poética para resolver a sua saudade de “vago amante” (Almeida Garrett). Vinga-se delas, pintando-as, e não só com palavras.

BAILADO

Eu procuro sempre um bailado de palavras com ritmo próprio. Faz parte da minha poética esta coreografia musical. Com palavras. É sempre a última parte do meu processo criativo. E até sacrifico a semântica, se tiver de escolher. A sonoridade é intensamente sensorial e decisiva para a performatividade da poesia. Para a sua vitalidade. E para a sedução, a que o poeta sempre aspira. Mas é difícil. É um bailado a solo numa coreografia interior que se inspira em fragmentos da memória afectiva. Inatingível, a musa? Sim, como todas as musas. Só a ausência permite a recriação artística. “Maintenant tu es plus beau que toi-même, Gherardo” – dizia a Yourcenar/Michelangelo a um Gherardo ausente, em “O Tempo, Esse Grande Escultor”. E será mais intensa e bela se for sofrida. Levitação desejada, privação sofrida, dizia o Calvino, nas fabulosas “Lições Americanas”. Nas musas ganha intensidade a dialéctica entre a ausência e a presença. É neste intervalo que o poeta se situa.

A POESIA, A PERFEIÇÃO E O IMPOSSÍVEL

A resposta ao “até quando” te encontrarás, poeta, neste estado de privação é: sempre! Na temporalidade poética, digo, uma temporalidade superior não compatível com a circularidade efémera da rotina e do fungível quotidiano. Renúncia, dizia o Bernardo Soares. Mas é uma renúncia sofisticada, criativa, alimentada por fragmentos de memória, acarinhada por uma delicadeza extrema, como se fosse para seduzir a musa e trazê-la de volta. O que, sendo impossível, obriga o poeta a superar-se para transpor essa barreira da impossibilidade, procurando a perfeição. O poder arrebatador da perfeição. Só a perfeição pode resolver a impossibilidade. Porque nada é exterior à perfeição. Nela o impossível torna-se possível. A verdade é que em cada poema o poeta atinge a musa com a delicadeza e a subtileza das palavras que compõem a sua pauta poética. O Kant chamou a isto o “transcendental”: agir poeticamente como se a musa estivesse em frente e o poeta fosse um “diseur” em carne e osso para a seduzir fisicamente. Com o poder da palavra e a força da sonoridade poética, da música, da melodia, da toada. Até às lágrimas. Atinge-a assim. Só assim. O real pouco importa se ele já existir sob forma de registo em fragmentos de intensa memória afectiva. Os sentidos, depois, estão “representados” pela pintura que prolonga o poema e que é uma linguagem complementar do processo de sedução pela arte. A pintura como prótese da poesia, o que não acontece com a música, que lhe pertence, faz parte de si, lhe é interior. Verdadeiramente, não há impossíveis para o poeta que ouse atingir a perfeição. Tudo o que é poético é real, mas nem tudo o que é real é poético.

VIDA DE POETA CANSA

Eu creio que as paixões dos poetas são sempre labirínticas e jogadas entre a luz mais intensa e a sombra mais sombria. As musas são leves e rápidas como o vento, mas o poeta traz consigo o insustentável peso do viver agarrado às suas palavras e à sua melodia. Tem  leveza e tem “gravitas”. O seu discurso tem densidade e não é isento de consequências, apesar de valer por si. E por isso talvez ele sofra de fadiga. E, também por isso, procure vitaminas poéticas para repor energia. Não é fácil descer constantemente às profundezas da memória e do tempo perdido para depois se elevar até ao azul celeste, voando sobre a linha do horizonte e espreitando o mundo da vida lá de cima com as lentes riscadas de uma vida vivida (nem sempre há arcos-íris de onde observar a vida em refracção de cores). É um esforço tremendo, este. E cansa, sim, mas também anima e liberta. Cansado, sim, mas ele tem sempre de levitar. E, sempre que pode, descansa sentado num arco-íris.

O POETA E O PECADO

Para o poeta nunca as suas aventuras são inúteis. E nunca padece de pudor. Ele explora-as, com fins poéticos, claro. Isto era o que o Nietzsche dizia, no aforismo 161 da obra “Para Além do Bem e do Mal”. E eu concordo. Talvez ele seja mesmo de paixão fácil, sim, mas nunca é leviano no sentir. Procura estar sempre no limbo, na fronteira, quase a cair nesse poço fundo da paixão… Sim, mas quando está a cair agarra-se às palavras e levita sobre o perigo, sobre o abismo. Nunca cai no poço. O poeta é um aventureiro interior, deixa-se logo ir ao primeiro jogo de sedução… Mas, depois, recua, resiste e renuncia. Não por pudor, mas para permanecer livre da circularidade efémera e redundante da circunstância. Como se o seu destino fosse viver em celibato num mundo de tentações e pleno de pecado. Sempre atraído pelo pecado. O poeta vive, sim, permanentemente em pecado… para depois se poder confessar (poeticamente) e se sentir absolvido. Paga o preço em poemas e redime-se. Sem pecado não há poesia. É preciso alguma coragem para viver assim. Em permanente pecado. Mas se não viver assim perde-se e cai na rotina, no supérfluo, no circunstancial. Nega-se. É assim, em geral, na arte, que não se entrega aos burocratas da vida, aos rotineiros, aos ritualistas da vida, que se perdem nas celebrações sociais. Aos que se deslumbram perante os espelhos que lhes põem diante. O poeta e o seu reverso, diz-me um amigo. Pois é. E isso vê-se nas contradições do seu próprio discurso. Estas contradições só podem subsistir porque acontecem no interior do discurso poético, mas espelhando as que, lá fora, devoram a alma dos amantes incondicionais.

ESCULPIR

Esse tempo, o da poesia, o dos seus fragmentos de memória, é, sim, o maior escultor. O tempo só conserva os fragmentos com densidade e intensidade existencial. Tinha razão a Yourcenar. Esculpir esses fragmentos é o destino do poeta, sempre em linha com o tempo, o seu tempo interior. O poeta é um aliado do tempo, esse escultor. Lamenta-se, esculpindo. É a sua fala. Cada golpe é dado em delicado sofrimento, palavra a palavra, como se estivesse a caminho de um êxtase redentor. Há mais fases? Não sei. Vai chovendo na fantasia e bem sei que não tenho o poder de produzir nuvens. Umas são mais carregadas do que as outras. Outras vezes desaparecem e nasce o azul inspirador. O poeta é súbdito da fantasia e esta move-se com o vento… como as nuvens.

O TEMPO DA POESIA

Fechar um processo com arte é como não o fechar. Cantar a despedida é como não se despedir. A arte abre, não fecha. Cada poema talvez seja apenas um lamento. Pronto a repetir-se. Lamenta-se, mas fica sempre por ali, à espera de nova oportunidade interior para se lamentar de novo. Um profissional do lamento. O revolucionário utópico lamenta-se do mundo que não consegue transformar e desenha utopias. O poeta lamenta-se da privação sofrida, levita e reconstrói o sentimento com palavras e sonoridade melódica e rítmica. A musa está ali para lhe lembrar que ele está em permanente dívida para com a vida, a quem deve um tributo. Não tivesse ele fracassado! Como poderia, pois, o poeta abandonar a musa que o inspira e o ajuda a pagar essa dívida? Seria como despedir-se de si próprio. O poeta bem sabe que o lamento não romperá o silêncio, mas também sabe que esse silêncio é o seu próprio alimento. No silêncio cresce o estro, no silêncio cresce o sentir, no silêncio cresce a vontade de comunicar poeticamente. O tempo resolve, dir-se-á. Mas a resolução poética é de outra índole. É outro tempo. Resolver poeticamente é sublimar, elevar. E a sublimação só acontece em estado de ausência, de perda, de silêncio. De despedida. Sim, por isso há sempre um recomeçar em cada despedida. Haverá sempre um novo sonho, mas não sabemos como será composto. Até porque as musas são imprevisíveis.

RUBOR

A figura branca (do quadro “Rubor”, aqui reproduzido) alude à neve que ainda subsiste quando Março já se anuncia sob a forma de flor, por exemplo, através das magnólias. Este rosto de flor/mulher, “a querer saltar da tela para se oferecer”, cromaticamente intenso e luminoso alude a uma musa que convoca o poeta-pintor a sair da gruta das sombras para a luz do céu, onde ficará encandeado e fascinado pelo seu olhar cintilante até que ela, rápida como o vento, regresse, num instante, ao Parnaso. Lembra a alegoria da caverna de Platão (há, no quadro, a entrada de uma gruta). É fugaz, como todos, este encontro e no regresso à gruta “sombria” da vida, carregando o peso da nostalgia e o insustentável peso do efémero, o poeta refugia-se na poesia para poder resolver esta perda, por levitação poética. A poesia, pela levitação, liberta-o dos grilhões que o prendem ao mundo sombrio da caverna e condu-lo de novo ao lugar do encontro, evocando e invocando a musa inspiradora. Um reencontro reparador, em ausência. O quadro representa o chamamento sedutor e a poesia, a que alude, o reencontro criativo, em ausência. Assim se completam, a pintura e o poema. No fim, quem fica feliz sou eu próprio, fiel guardião da casa onde habitam o poeta e o pintor.

ENCANTAMENTO

É encantamento, o que anima o poeta. Tem três musas (talvez quatro, sim). Mas elas são rápidas como o vento e o poeta vive o encantamento como raio que o fulmina e logo desaparece no ar. É a moira, o destino, o fado, o seu lado trágico. Vive em permanente contingência  sujeito ao encantamento arrebatador, seu alimento. O que acontece presencialmente ou em diferido.  É verdade que ele o experimentou directamente, o encantamento, que ficou aninhado lá no fundo da sua alma. Mas agora falta-lhe aquele olhar castigador, misterioso e físico que o submetia, o fazia estremecer. O estremecimento originário, que fez nascer o poeta. Um acontecimento que agora se manifesta através do silêncio e de uma ausência expressiva e sublinhada por um concreto gesto de vontade. Por isso, ele está sempre em perda (ou em dor), mesmo quando em maré-cheia, mais perto das musas. Das outras. É por isso que só lhe resta cantar. A sua vida é, sim, como as marés: maré-cheia, baixa-mar. Altas vagas a alternarem com mar calmo. Vive ao sabor das musas e dos ventos. Sem rotinas, mesmo quando o mar está calmo, porque as musas são exigentes, implacáveis e imprevisíveis. Quando o mar está calmo o poeta sente-se inquieto e fica em alerta. Ele sabe que está condenado a cantar… para ser feliz. Relativamente feliz, até porque sabe que tem de estar continuamente a conquistar a felicidade. A felicidade dá-lhe trabalho. Mas está condenado a ser (assim) feliz. A esperança convive nele paredes-meias com a desilusão e a dor. Entre uma e as outras só há o canto. E o canto repara a dor e anuncia uma nova esperança… Eterno retorno.

TRANSFIGURAÇÃO

Um dia escrevi um poema onde procurei aludir às interpretações demasiado literais da poesia levando o sujeito poético a reagir, voando sempre lá mais para cima, para o azul do céu. Há sempre quem esteja pronto a identificar o referente dos poemas, a identificar o sujeito poético (o actante) com o próprio poeta, a musa com alguém concreto e o estímulo real com o próprio poema. Já aconteceu e com consequências para o poeta ou, se quisermos, para o autor. É claro que o poeta engravida para dar à luz um poema, mas a gestação é solitária e segue o seu próprio percurso com os recursos de que dispõe. É o parteiro de si próprio. É por isso que estou sempre a citar o Pessoa e o poeta fingidor. Porque diz tudo acerca da poesia. Ainda por cima, como acontece neste caso, muitas vezes a musa é retratada também em pintura pelo poeta-pintor. Mas mesmo que nela haja traços de uma pessoa concreta o referente é a obra de arte e não essa pessoa. Ou seja, a arte descola do real e a ele regressa somente como transfiguração. Entre um momento e o outro há séculos de história da arte, de poesia ou de pintura. Séculos mediados pela sensibilidade e pela técnica do artista. A sua é uma leitura empenhada por dentro do sujeito poético e pelas suas motivações, tal como há muito se vem expondo nas suas narrativas poéticas. Sim, é verdade, a arte é devolução do real transfigurado. O virtuosismo é dança a solo, sem partner. No mínimo, requer-se um pas de deux e música para o executar. Mesmo quando convocado para um solo, a partner (a musa) também dança. Só que não se vê.

FANTASMAS NA CATEDRAL

Também creio que andam por aí fantasmas à solta, não tivesse o poeta sido visitado por uma musa (Eliot). Aliás, foi assim que ele nasceu. Fantasmas nas catedrais de palavras, onde o murmúrio é a linguagem. Sim, a poesia é murmúrio. Há fantasmas na catedral, pois há. Os poetas vão para lá suspirar de tão melancólica vida viverem. Protegem-se assim do ruído do mundo e inventam um tempo que é só seu. E criam cânticos com ecos de catedral. Os poetas vivem em catedrais porque nelas tudo se conjuga para a perfeita levitação, o som, a luz filtrada, a penumbra, o pleno e o vazio, o silêncio, a grandiosidade das colunas e das abóbadas. Poética religiosidade onde a invocação é à musa. Musa e fantasmas são por isso os habitantes da poética catedral. E ali está o poeta a cantar o seu trágico destino como oficiante do ritual em que se transformou a sua vida. É lá que ele constrói as suas pontes entre o desejo e o impossível.

A CASA DA INQUIETUDE

Apetece-me dizer que o poeta habita a Casa da Inquietude. Também lá vive o gémeo pintor. E ambos pintam a mesma inquietação, um, com palavras, o outro, com riscos e cores. Normalmente quem dá o primeiro passo é o poeta, o que tem a sensibilidade sempre à flor da pele porque a vida o castigou. Nasceu assim como poeta. Sísifo alado que carrega consigo um imenso fardo de palavras. Fardo? Talvez não porque elas são leves como as nuvens do céu. O que talvez não seja o caso do pintor – ser como Sísifo. Mas não sei, não quero ser injusto com ele, libertando-o do tormento criativo. O que sei é que, depois, o pintor alivia-o da dor com a pintura. Se com as palavras o poeta levita sobre o vale da vida, com riscos e cores o pintor ainda se eleva mais, criando um ambiente de luz e cor que aquece as palavras com que o poeta se “confessa”, se liberta, se redime. É um autêntico bailado. No fim, creio que a sinestesia dá origem à feliz melancolia ou à alegre nostalgia. O poeta fica pronto a recomeçar. Uma espécie de eterno retorno, já que vive irremediavelmente na Casa da Inquietude e de lá não pode sair, não pode mandar o passarinho embora porque seja feliz (e não é). Seria eutanásia poética. Quase um oxímoro. Porque sem dor não há poesia. A felicidade não consta dos anais da poesia. Bom, se constar será como que uma felicidade dorida. JAS@09-2023

RUBOR2023Rec

Poesia-Pintura

REMINISCÊNCIAS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Epifania”.
Original de minha autoria.
Setembro de 2023.

JAS_Epifania2023_1

“Epifania”. JAS. 09-2023

POEMA – “REMINISCÊNCIAS”

OLHANDO-TE,
O teu rosto
Lembra-me
A Primavera
De Botticelli.
Reminiscências
Da Galleria,
Em tempos
De alegre 
E toscana
Epifania.

MAS AGORA
Sinto-me
Como vela
Que te alumia
O caminho,
Com candor,
Que arde
Por dentro
Em palavras,
Sozinho,
Pra preservar
O efémero
Desse teu olhar
Sedutor.

ALUMIO-TE
Enquanto esvaeço
Até mais não ser
Que resíduo
De palavras
Do poema
Que te ofereço:
Luminoso 
Renascer.

MAS NÃO SEI
Se vês esta luz
Ou se apenas
A imagino,
Se tens caminho
Ou sendeiro
Pra trilhar
Ou se é meu 
Desejo
Derradeiro
De, assim,
Te preservar.

EFÉMERO
Sou eu
Porque vou ardendo
Por dentro
E te atraio
De mansinho,
Qual borboleta
Perdida,
Porque não quero
Que ardas
Na chama
Da minha vida
Pra que não
Fique sozinho.

É PERIGOSA
A luz da vela
Quando na noite
Escura
O seu clarão
Sobressai,
Liberta calor
Em chama ardente,
Brilho intenso
E fulgente,
Esse brilho
Que atrai.

MAS A MINHA
Canção
Preserva
O efémero
Do teu sedutor
Olhar,
Enquanto ardo
Por dentro
Animado
Pelo desejo
De teu rosto
Iluminar.

POETA, 
Sou como fénix
Renascida,
Regresso sempre
À vida
Em cada verso
Que crio
E com ele
E com palavras
Retomo 
O meu caminho. 
E é, então, 
Que sorrio...

O POETA
Faz versos
Como quem morre,
Mas renasce
Em cada dia
Nas vidas
Que, em palavras
Sofridas,
Ele com arte
Recria...

REMINISCÊNCIAS...
...............
Se perguntasses
Por que razão
Eu te canto
E te ilumino
Era o que eu
Te diria,
Quentes 
Recordações 
Dos tempos 
De vibrante 
Epifania.

JAS_Musa2023_09_1.jpgSepiaRec

Artigo

FRAGMENTOS PARA UM DISCURSO SOBRE A POESIA (II)

Por João de Almeida Santos

Jas13ANeveEaPrimavera2022

“A Neve e a Primavera”. JAS. 2022 (Impressão Giclée em papel de algodão – 100%; 310gr – e verniz Hahnemuehle, 68×93, Artglass AR70 em mold. de madeira)

1.

PALAVRAS BORDADAS… Alguém se referiu a um poema meu com estas palavras. Sim, a poesia é tarefa meticulosa parecida com os bordados. Os fios são palavras. O poeta, o bordador.  E um bordado é sempre uma dádiva executada com carinho. Não é somente virtuosismo técnico. Não, é mais. É como a poesia, também ela uma dádiva, a nós próprios e aos outros. Uma acção verbal perante outrem. Como exigência interior. E como partilha. Palavras bordadas, cantadas para que os outros sentidos possam ouvi-las e quase tacteá-las nas vibrações… Sim, e para isso há “diseurs” e cantores que as fazem chegar aos nossos outros sentidos. Música, comunicação sensorial delicada e intensa. A Natália Correia dizia que a poesia também se oferecia ao paladar (e, por isso, também ao olfacto): a poesia é para comer. Um dia, alguém me disse que só gostava de poesia se outros a dissessem para si. Que precisava sempre de um “diseur” ou de uma “diseuse”. Som, sonoridade, mas sobretudo oferta, alguém que interpela através da poesia, que fala poesia em modo musical. Oferta, sim. Gostei do que ouvi. Arte total se, depois, for acompanhada pela pintura e pelo movimento. Dançar poesia talvez seja possível (ela tem música dentro, tem melodia e ritmo) e valha a pena.  Dançar com a alma em palavras. “Ballon”, visto o processo de levitação que anima a poesia. Tal como a dança ela retira peso ao real.  E até se poderia criar uma notação especial para a dança poética – definir com rigor determinados passos e movimentos para cada verso e cada estrofe, como acontece na dança clássica ou na moderna. Tal como se pode “ilustrar” (projectar ou pôr em diálogo) com pintura um poema (é o que faço todos os Domingos), também se pode dançar um poema, mesmo sem música ou, melhor, somente com um poema dito por quem sabe dizer poesia, dando forma musical à que ele já tem dentro de si. Ou dançá-lo com a alma, que é o que frequentemente acontece a quem sintoniza com um poema. Levitar. “Ballon”. Mas eu digo: dançá-lo mesmo, com passos de dança. Num pas de deux, por exemplo.  Com a musa. Ah, como gostaria de ver um poema meu musicado, cantado e… dançado. Nem exigiria que fosse com a musa. O palco poderia ser o Jardim Encantado e a época aquela em que Perséfone regressa. Renascer com um poema. Talvez um dia isso venha a acontecer.

2.

Gosto, como o poeta, de Março. Anuncia beleza, cor, aromas, sol, vida que desponta e renasce, o regresso de Kore, sim. Março é uma fronteira aberta entre a neve e a primavera. Acontecem coisas em Março. Acontece aquela magnólia com farrapos brancos que parece testemunhar em diferido a neve que já se foi. O poeta fala delas e canta-as. Ouçamos a extraordinária Milva que, interpretando o poeta napolitano Salvatore di Giacomo (“Marzo”), canta aquele passarinho friorento que aguarda que o sol desponte e as violetas suspirem. Março é Catarina e todos os nomes que neste nome estão inscritos. Nomes de musas. Que, afinal, são mais do que nove, embora Erato esteja sempre à espreita. E é rico em contrastes, mas sobretudo na ternura do poeta-passarinho que os canta, dando-lhes um nome de mulher. Um nome por todos os nomes. A mulher e a natureza, tão parecidas em Março. Março é vida que regressa nesse eterno retorno da natureza e nos interpela, convidando-nos a renascer com ele, com ela. Proserpina, Perséfone ou Kore lá estão a insuflar de vida a natureza, incluída a humana, logo, a vida e a alma do poeta. Não há Hades que resista. Esse há-de voltar… lá para o Outono.

3.

Com Março também chega a cor que se acrescenta à palavra. Um diálogo, interpretado pelo poeta-pintor, entre a poesia e a pintura. O que ele pensa de ambas como expressões vividas do que lhe vai na alma, já em modo de levitação. Um poeta-pintor que se realiza mais na poesia (vai mais a fundo no “páthos”) do que na pintura e que vê a (sua) pintura como visualização, intensificação e extensão da (sua) poesia. Mesmo quando parte da pintura, ele vai à procura do poema que lhe ferve na alma. A matriz está na poesia, apesar da autonomia das linguagens. Ou, pelo menos, o seu é um processo de associação íntima e intensa de ambas. É claro que a cor que está inscrita num poema tem de ser visualizada com a mente e não com os olhos, estando as tonalidades associadas ao sentido profundo e global do poema. O pintor ajuda, ao propor uma tradução plástica do poema. Num poema melancólico a melancolia invade e coloniza as tonalidades. Numa pintura, o poeta-pintor procura dar vida à cor que o poema pede, como súplica, procurando libertá-la das amarras dessa súplica e levá-la ao azul do céu até à linha do horizonte, a perder de vista. Procura estilhaçar a dor através de um poderoso caleidoscópio. Um cromatismo que se desprende do poema e se autonomiza, a caminho, sim, das duas primaveras: a que esteja a chegar, em Março, e a que chegará quando, pela arte, ficar livre da prisão que o amarra à rugosidade e aspereza da vida quotidiana. À dor primordial, física, sofrida corporalmente. Estas duas artes completam-se e ajudam a transformar a dor em festa, com girândolas de cor.

4.

Na poesia e na pintura acontece uma dialéctica entre as duas faces expressivas da sensibilidade: uma, interior, a dos olhos da alma; a outra, exterior, solar, sensorial, luminosa. Uma, que sai de uma intensa pulsão interior e que se exprime através de um código linguístico estético-expressivo; outra, como ilustração luminosa e animada desse desejo irreprimível de cor revelado pelo poeta… num poema. Sim, o fundo é um desejo profundo de primavera e de luz. O poeta e a musa – como poderia ser de outro modo? O poeta fala sempre a alguém, interpela, dando, assim, sentido à sua voz. Mas, depois, é o exercício poético que universaliza esse discurso dirigido. E esse exercício ganha asas e liberta-se do referente, sem nunca o abandonar, o esquecer, o recalcar. Leva-o consigo no voo e espiritualiza-o, retirando-lhe peso: privação sofrida, levitação desejada. Uma inspiração remota que o poema renova, faz renascer, como se se tratasse de um ritual existencialmente imperativo, obrigatório. O poeta tem vida própria e também tem de se alimentar para que a poesia se renove. Os poetas são como os pássaros. Têm asas e o seu ambiente é o da leveza. E como é bom vê-los voar no céu luminoso e azul, vibrante… pintado pelo pintor nas suas fugas para o infinito através do olhar. Palavras coloridas.

5.

Concerto. Gosto da palavra porque alude a uma melodia interpretada por dois solistas: um poeta e um pintor, em consonância musical, semântica e cromática. Arrogo-me o direito de ser eu o compositor e o director de orquestra. Espero sempre que os acordes sejam conseguidos, em harmonia. Sim, são como fúchsias do meu jardim, brincos oferecidos à princesa, que é também musa dos cânticos poéticos. Oferecidos pelo pintor que nasceu do poeta “à la recherche de la couleur perdue”… encontrando-a assim, tão exuberante, luminosa e animada no regresso de Proserpina. Uma oferta generosa ao poeta que a suplicava, receoso que as primaveras não chegassem em toda a sua plenitude. Mas uma chegou e ele ficou, feliz, à espera das outras. Sim, do renascer luminoso da natureza e também de outras cores mais auspiciosas do que as cores tão cinzentas da rotina. Concerto: quando os dois solistas, poeta e pintor, se afinam sob a batuta do director de orquestra soa a liberdade e a azul infinito do céu. Pas de deux, no palco da vida. Com arte. Não há tristeza que resista.

6.

Precisamos de primaveras e de cor. Precisamos sempre. Cor por fora, mas sobretudo cor por dentro. E é verdade que o amor ilumina, tem uma força de tracção inacreditável. Mas não só. Também inspira e ajuda à descoberta de dimensões que julgamos não ter. É magia e encanto. E está para além do ser amado, transcendendo-o. O poder por ele desencadeado deixa de pertencer ao ser amado e, de certo modo, ao amante. Como uma força que nos possui e nos engravida, dando origem a novos seres. É por isso que eu acho que o amor é um privilégio, sobretudo para quem ama. Como na doutrina da predestinação: tocados pela graça. Mas muitos nascem e morrem sem saber o que é isso. Ficam em pecado, porque pecado é não amar. Outros mal se apercebem do que isso é – pelos livros é apenas uma compreensão mutilada do pathos. Logo, de certo modo inconsequente. “Primum vivere deinde philosophari”. Pronto, acho que é isto. Mas também acho que só a poesia o pode dizer em plenitude. E por um poeta atingido irremediavelmente por esta irresistível pulsão. A excepção virtuosa. Uma linguagem altamente performativa.

7.

A arte ajuda a superar as fases tristonhas e delicadas da vida. Para quem a faz e para quem dela usufrui. Não a sinto como missão, porque me liberta e me dá prazer, mas sei que, partilhando-a, de algum modo também partilho alguma (in)felicidade interior, em forma de beleza construída. A arte também é comunicação, partilha e encontro. E, por isso, sim, faz ricochete, tanto maior quanto mais profunda for a sua autenticidade. É como partilhar a “aura” de uma obra de arte. E há também conversão da dor, a tal que segundo o poeta, enobrece. Mas essa é dor de poeta. Uma dor especial. Entre a pulsão e o fingimento. Do “espírito dionisíaco” ao “espírito apolíneo”.  Do conteúdo à forma.  Também se pode chamar impossibilidade, algo que se tem à mão, mas que na realidade fica tão longe que nunca lá se há-de chegar e que, por isso, gera melancolia e saudades de um futuro que nunca chegará. Está ali, mas não lhe podes tocar. E, se chegar até ti, será somente sob forma poética. Por isso, o poeta se lança na sua aventura impossível e vai por aí adiante sem nunca parar, sabendo que é no caminhar (poético) que vai tocando ao de leve o que nunca atingirá completamente… Eu acho que amar também é dizer (que se ama). Os poemas são beijos. Que podem não chegar ao destino, porque dependem do vento e dos fantasmas. Mas, de certa forma, eles chegam sempre. Nem que seja como eco, como ressonância ou como reflexo de luz. Quando digo que a poesia é altamente performativa é isto mesmo que quero dizer.

8.

Fantasia. Que bom é sentir a chuva, fria, na fantasia. Fria, mas que aquece a alma. Nunca me resguardo, desde que, um dia, “ouvi” o Dante Alighieri dizer, no Purgatório, “poi piovve dentro a l’alta fantasia”. Só me “resguardo” com o chapéu poético. Mas isso não é resguardar-se. É expor-se ainda mais à chuva. Numa pintura que fiz para um poema, desenhei uma cascata a jorrar cor sobre um poema, entre a dor e a (vã) utopia. Chove abundantemente no poema, até ficar encharcado. Chove na alta fantasia. Dar vida e forma à voz de Dante inspirado nos versos sanguíneos do poeta nordestino Manuel Bandeira é desafio estimulante – a dor que cai gota a gota do coração (“Desencanto”):

“Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
Eu faço versos como quem morre."

“Como quem morre”, sim, mas para renascer através da transmigração poética. É a fantasia que torna sublime a dor, quando chovem lá dentro lágrimas em forma de palavras. Gota a gota, vindas do coração. Volúpia ardente. Sim, na cascata que pintei também há palavras que jorram sob a forma de gotas compactas como rios de cor sob um fundo vermelho, a cor da paixão. E do sangue. Por isso, “dói-me nas veias”.

Sim, há sempre marcas existenciais, recentes ou remotas, na poesia ou na pintura. “Dói-me”, sempre, “nas veias”. A conversão estética dessas marcas profundas dissimula-as, umas vezes mais, outras menos. Mas a dor permanece, como se vê no poeta Bandeira. É próprio da poesia, o tal fingimento, mas também procuro que esteja na minha pintura numa medida equivalente à da poesia: finge que é dor “a dor que deveras sentes”. Só que a cor absorve quase integralmente a dor. Pelo menos, parece. Esta, aqui, é como que uma dor residual. Não é como a do poeta, que sofre mais, muito mais. Mas a verdade é que em ambas as artes há levitação. E, por isso, libertação. Liberdade. Tenho navegado muito pelos rostos, que é arte muito difícil, porque durante muito tempo me habituei a escrever sobre eles, olhando para eles. É no rosto que se lê a alma. E, se houver dor (e há sempre), ela estará lá espelhada, como sinal. Mas nele, no rosto, há também mistério, além da dor (se houver). E este, o rosto, é uma poderosa fonte de amor. Porque é ele que atrai. O mistério. O rosto talvez seja a chave que abre as portas do amor. E da poesia. “E nestes versos de angústia rouca, /Assim dos lábios a vida corre, /Deixando um acre sabor na boca. /Eu faço versos como quem morre.”

9.

“Le malheur et la mélancolie sont des interprètes les plus éloquents de l’amour”.  Esta frase do Balzac, se não erro, cito-a no meu romance “Via dei Portoghesi”. É do livro “La Femme de Trente Ans” (1842; Paris, Ed. Nilsson, 1930, pág. 44). E até poderia complementá-la com uma referência constante do “Sottisier” do Gustave Flaubert, atribuída aqui a Stendhal, nas suas “Promenades dans Rome”: “Para as artes são precisas pessoas um pouco melancólicas e infelizes”. Tudo bate certo. As categorias do amor plasmadas também na arte. A melancolia e a infelicidade (“le malheur intérieur”) como molas propulsoras de arte, de superação pelo belo, de cristalização, expiação, resgate… Por exemplo, infelicidade por amor falhado, como no caso do Stendhal com a Matilde Viscontini. Não pintei um rosto melancólico por acaso num quadro que se chama “Melancolia”. “Infelicidade interior”. Os sentimentos presentes na personagem feminina daquele meu romance: Paola Valenzi. A dialéctica entre encanto e desencanto. Também ao personagem masculino do romance, Gianni della Rovere, lhe doía nas veias. Amargo e quente – era assim que se sentia. Mas é este também o destino do poeta: vive entre o amargo da dor e o quente das palavras que o fazem levitar.

10.

A exaltação nasce do impossível. Como um contraponto. A poesia como partitura onde a palavra é a outra face do silêncio e da ausência. Do impossível. Num diálogo implícito e teatral. Com autor e encenador. Onde os personagens sobem ao palco por exclusiva vontade do encenador. À procura de autor e de enredo. De um novo enredo. Mais belo. E onde a plateia é universal. É uma peça com evocação e invocação do ausente silencioso. Chamamento. A arte alimenta-se disso. Interpela. Torna-se ela mesma superação do impossível. Torna acessível e universal a impossibilidade. Torna verosímil, plausível e possível o impossível, na medida em que faz dele o tema central da narrativa. Melhor: não há impossíveis quando visitamos ou vivemos o real com a arte. Porque na arte há vida e também há partilha. A arte é intensamente inclusiva. E, sim, a “sorte” acontece quando somos escolhidos como inspiração para o voo da fantasia. E é possível escolher o impossível como matéria da arte. É tarefa hercúlea subir essa montanha abissal da impossibilidade e, no fim, sentir-se como se a tivéssemos atingido em cheio. Há sempre uma razão. Um contacto, ainda que tangencial, mas interiormente sentido, que dá vida à fantasia. A estimula. Ou a arte como contraponto do impossível numa sinfonia de palavras. A poesia é como uma rua onde há encontros e desencontros, sol e sombra, luz e escuridão, frio e calor, onde corro ou simplesmente passeio, onde compro coisas ou simplesmente olho para as montras…

11.

“O tempo corre sempre contra nós (…)” – disse alguém. A vida é uma luta contra o tempo, que é implacável, inexorável. Num certo poema, a alusão do poeta era à eternidade desejada num encontro de afectos e também aí o poeta respondia ao tempo que escasseava construindo futuro… num poema. Procurava subtrair-se à tenaz do tempo. Agarrava com palavras o tempo que lhe fugia por entre os dedos das mãos. Mas é verdade, em geral, o que alguém dizia: responde-se ao tempo que escasseia e foge, construindo futuros intemporais. Era também o que dizia o filósofo: “impotente e encerrado na melancolia sento-me ao estirador e desenho futuro e utopias. Faço a revolução quando me sinto impotente perante um real que se mostra indisponível e indiferente à minha vontade e ao meu desejo”. Há quem procure o tempo perdido revolvendo o passado (e não o encontrará, esse tempo esvaído) e há quem acrescente futuro ao tempo passado que construiu com as suas mãos. Constrói-se passado no presente a olhar para o futuro e, assim, no futuro pode-se recomeçar a partir do passado que já é património. Sem isto não haverá capacidade de construir futuros porque o futuro não se constrói sobre o vazio, tal como as utopias… a não ser como ponte entre as margens do vazio. Não há excesso de tempo, diz o poeta. E é verdade. O tempo é mais rápido do que nós e, às vezes, até nos atropela. Às vezes? Eu acho que nos atropela sempre. É a velocidade do tempo que o torna escasso. Mas a poesia consegue agarrá-lo, fixá-lo e projectá-lo para um plano liberto dos riscos da velocidade e da cegueira que ele produz. De facto, o tempo da poesia é outro. É o tempo da fantasia como exercício da vontade animada de desejo, de beleza e de eternidade. E de partilha universal. É a festa das palavras quando o poeta sente o “desencanto”… então, desprende-se, levita e dá asas ao desejo – chove-lhe na fantasia. JAS@09-2023

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