Poesia-Pintura

CATEDRAL

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “A Fonte dos Quatro Rios”
na Praça Navona, em Roma
JAS 2026
Original de minha autoria
Março de 2026

“A Fonte dos Quatro Rios” – JAS 2026

POEMA – “CATEDRAL”

VIAJÁMOS NO TEMPO
Até à cidade
Eterna,
Onde eu te conheci,
Nada mudara
Nesse rosto
Tão sereno
E inocente
De quem
Sempre
Me sorri.

DEPOIS FOMOS
À rua
Da minha vida,
À cúpula
Da catedral,
Mas não te abracei
Nessa noite,
Era sagrado
O lugar,
Seria abraço
Fatal.

MAS FICOU-ME
Impresso
O prazer
De te ter ali
 A meu lado,
A sonhar,
Nesse meu leito,
O beijo
Que não trocámos
Numa noite
De luar
Quando o amor
É mais quente
E o corpo
Se desnuda
Por tanto a alma
Brilhar.

FOMOS À PRAÇA
Navona
Logo pela manhã,
Fruímos
O murmúrio
Da fonte
Dos quatro rios,
A inspiração
Do Bernini,
Íntimos,
Em sintonia,
Antevendo um futuro
Que já nunca
Chegaria…

ATÉ QUE ME
Procuraste
Nessa fita
Da memória,
A noite vivida
Na cúpula
Da catedral,
Corpos tensos,
Sem palavras,
Na fronteira
De um afecto
Que não seria
Fatal.

TORNOU-SE
Mais vivo ainda
O que não aconteceu
Como se fosse
Um futuro
Que desse tempo
Passado
Afinal não se
Perdeu.

E CÁ ESTOU EU
De novo
À procura
Dessa noite,
Do beijo
Que não te dei,
Quando o passado
Ressurge
E do tempo
Da catedral
Já nem sei
O que farei.

TALVEZ FAÇA
Um poema
Pra de novo
Te encontrar,
Cantar esse
Sorriso belo
De que sempre
Eu gostei,
Voar no tempo
Em espaço sideral
E em noite de luar
Pousar de novo
Contigo
Na cúpula
Da catedral...

 

Poesia-Pintura

O POETA E A MUSA

Poema de João de Almeida Santos
no Dia Mundial da Poesia
Ilustração: “Musa”
JAS 2025
Original de minha autoria
21 de Março de 2026

“MUSA” – JAS 2025

POEMA – “O POETA E A MUSA”

O POETA PERGUNTOU
À musa:
- Mas se o amor
É mistério
(Como dizes),
É viagem
Em alto mar,
Se há sempre
Tempestades
E risco de naufragar,
Por onde andas tu,
Ó musa,
Que o poeta,
Vagando
Nas “imperiosas
Ondas”
Do teu mar,
Te procura
Pra uma vez mais
Te cantar?

- NO MEU LONGO
Vaguear
Por roteiros
De poeta
(É essa a minha
Missão)
Sempre ouço
O seu cantar
Nesse inútil afã
(Qual piedosa
Ilusão)
De me querer
Encontrar.

- MAS QUE DESTINO
É o teu,
Ó musa
Do alto mar?
Não proteges
O meu barco
Neste infindo
Navegar?

- EU DEIXO A VIDA
Correr
(Já uma vez
Eu to disse),
Mas sou fonte
D’inspiração,
Assim cumpro
O meu destino,
O que os deuses
Me marcaram
Em decreto
Que é divino
E regra da tua
Canção.

- PALAVRAS
Leva-as o vento,
Ó musa
Dos meus pecados,
E o vento
Sopra no barco
Que me leva
Ao alto mar
Onde componho
O meu canto
E me sinto
A naufragar.

- INSPIRA-TE
No meu silêncio,
No sussurro
Inaudível
Da minha velada
Voz
Se te encontrares
À deriva
Nas águas revoltas
Do mar
Sem bússola
Nem inventiva
Na arte
De navegar.

- E É ESSA
A salvação?
Em teu silêncio
Renasce
A minha verdade,
A que ouves
Nas palavras
Que devolvem
O teu eco
Com sabor
A eternidade?

MAS “EU,
Uma reminiscência
Da terra”,
Naufrago
Sempre em ti,
Nesse mar do teu
Silêncio
Onde navego à deriva
No meu “barco
Solitário”
Que de palavras
É feito,
As tábuas
Do meu calvário...

AH, SIM,
Mas o barco
É movido
Com os remos
Da fantasia
Que me resgatam
Lá do fundo
Do teu mar
Quando me ponho
A cantar
E encho todo
O meu peito
Com a tua maresia
Para assim
Me salvar
Dos perigos
Da entropia.

 

Artigo

JÜRGEN HABERMAS

Um Filósofo do Nosso Tempo

Por João de Almeida Santos e José Lamego

“J. Habermas” – JAS 2026

QUANDO, no passado sábado, soube que Jürgen  Habermas nos tinha deixado senti essa perda quase como uma perda de família, tantos foram os anos em que convivi com o seu pensamento. Uma obra monumental e uma vida cheia e intensamente interveniente. E não porque resistiu até aos 96 anos, mas porque não foi indiferente aos problemas do seu tempo. Foi um intelectual empenhado, diria mesmo militante da causa civilizacional e da democracia deliberativa.

1.

Debateu muito com os seus pares, em livros, revistas e jornais de grande circulação. Sobretudo com eles:

1) com Karl Popper ou Hans Albert, na famosa Der Positivismusstreit in der deutschen Soziologie, nos anos ’60, sobre a dialéctica e a sociologia positivista;

2) com Niklas Luhmann, no início dos anos ’70, a propósito, e em registo crítico, do funcionalismo “como única via aceitável para a racionalização das decisões” (Habermas) sociais (a obra, de ambos, Teoria da Sociedade ou Tecnologia Social, da Suhrkamp, é de 1971);

3) com o historiador conservador Ernst Nolte, na também famosa Historikerstreit, a propósito desse passado alemão que não quer passar, que parece pesar sobre a Alemanha como uma espada de Dâmocles e do paralelismo ou da relação de causa-efeito (reactiva) entre bolchevismo e nacional-socialismo, proposto por Nolte (o debate ocorreu, designadamente, nas páginas de “Die Zeit” e do “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, em 1986, e  está publicado, num dossier mais amplo, na Revista “Nuovi Argomenti”, 21/1987, pp. 70-129, esp. 107-129; mas a questão é tratada amplamente no livro de Nolte A guerra civil europeia, 1917-1945 – Nacional-Socialismo e Bolchevismo, de 1987);

4) com Wolfgang Streeck sobre o regresso aos mecanismos próprios do Estado-Nação como solução para a crise, defendido por este, em tempos de globalização e de emergência de duas novas constituencies (a financeira e a digital), para além da “constituency” originária do cidadão contribuinte, mas que Habermas critica, defendendo, pelo contrário, o aprofundamento político integrativo da União Europeia e a promoção de uma robusta cidadania europeia como a verdadeira solução para a crise;

5) debateu a questão europeia em vários escritos e deu um interessante contributo sobre a democracia europeia, que tarda, sobretudo num excepcional ensaio sobre “Cidadania e Identidade Nacional”, de 1991; aqui formulou o interessante conceito de “Verfassungspatriotismus” e propôs a superação da ideia de cidadania baseada no sangue ou no território para a ancorar nos grandes princípios universais que constituem a matriz das constituições democráticas – Habermas pensa a cidadania europeia nestes termos e como modo de compatibilizar uma democracia europeia com as identidades nacionais (e, em geral, com as identidades comunitárias, no respeito pela ordem constitucional);

6) mas debateu também a questão da relação entre razão e religião em contexto democrático com o então Cardeal Ratzinger, na Katholische Akademie Bayern, em Janeiro de 2024, defendendo ambos a necessidade de um encontro produtivo entre razão e religião e de uma consciente autolimitação de ambas as esferas. Ratzinger defendia uma espécie de geocentrismo moral, fazendo lembrar a teoria da suposição do Cardeal Bellarmino perante a emergência dos postulados heliocêntricos da ciência moderna, com Copérnico e Galileu, enquanto Habermas se mostrava sensível à necessidade de “tradução de materiais significativos da língua religiosa para uma língua acessível a todos” e ao reconhecimento político do mundo da vida (Lebenswelt), de algum modo subalternizado pelo triunfo esmagador da razão técnica e instrumental;

7) na obra O Futuro da Natureza Humana – A caminho de uma eugenia liberal?  (Coimbra, Almedina, 2006), de 2001, sobre bioética e eugenia, onde se inspira nas teses de Kierkegaard e de Hannah Arendt sobre a unicidade e a originalidade do ser humano singular para criticar o eugenismo e a manipulação genética.

2.

Foi o último dos homens da famosa Escola de Frankfurt, fundada por Adorno e por Horkheimer e a que pertenceram nomes ilustres como Walter Benjamin ou Herbert Marcuse. Um filão hegeliano-marxista de que viria a afastar-se gradualmente. A sua obra seminal Strukturwandel der Öffentlichkeit, de 1962, é um marco decisivo nos estudos sobre a comunicação, designadamente, sobre a comunicação política. Outras são igualmente importantes, como Sobre a lógica das ciências sociais, de 1970, O problema da legitimação no capitalismo tardio, de 1973, ou O discurso filosófico da modernidade, de 1985. E tantas outras obras.

3.

Mas há duas obras que, no meu entendimento, merecem um destaque especial. Uma é a Teoria do Agir Comunicativo (Theorie des kommunicativen Handelns, Frankfurt-am-Main, Suhrkamp, 1981; 2.ª edição, 1982); a outra é Facticidade e Validade (Faktizitaet und Geltung, Frankfurt-am-Main, Suhrkamp, 1992). Afastando-se do marxismo, Habermas evoluiu para uma teoria da acção comunicativa, já presente no debate que teve com Luhmann, e que, na Theorie, viria a ganhar substância em diálogo crítico com a obra de Max Weber e de Talcott Parsons. A Theorie confronta-se sobretudo com a tradição de reflexão sobre o moderno processo de racionalização histórico-social que se desenvolveu fortemente sob o império da razão formal, da burocratização e da tecnicização da vida social e que provocou um refluxo nas próprias concepções teóricas, incluindo as de Max Weber e de Talcott Parsons. A essa crítica se dedica na Theorie, propondo a superação quer da centralidade do tipo ideal zweckrational como categoria fundamental que traduziria, explicaria e até esgotaria a racionalidade substancial societária contemporânea quer da teoria da acção social de Parsons, exposta na sua obra de 1937, A Estrutura da Acção Social, e que viria a constituir uma generalização analítica da teoria da acção social weberiana, ou seja, da relação meios-fins expressa precisamente no tipo ideal zweckrational. Na verdade, segundo Habermas, a “hierarquia dos conceitos de acção está centrada no tipo do agir racional em relação ao fim (zweckrationalen Handelns) de tal modo que todas as outras acções são classificáveis como desvios específicos deste tipo” (1982: I, 22). A sua crítica, que constitui também já uma superação da filosofia do sujeito que, segundo ele, ainda subjaz à crítica da racionalidade subjectiva de Weber e de Parsons feita por Max Horkheimer, centra-se sobretudo na redução da racionalidade à sua dimensão técnica, à ideia de verdade como adaequatio, na relação entre meios e fins, deduzida sobretudo do fenómeno económico e expressa precisamente pelo tipo ideal zweckrational, explicativo da sociedade racional moderna. Este tipo de racionalidade explicaria, em parte, o fenómeno social, em especial os media dinheiro e poder, mas não daria conta do mundo da vida (Lebenswelt) e dos seus fenómenos conexos. Ou seja, Habermas faz uma crítica da racionalidade técnico-instrumental propondo, como alternativa, no plano da teoria social, uma racionalidade comunicativa intersubjectiva que teria como medium a linguagem e como fim a acção orientada para o acordo, em contexto argumentativo, onde cada agente exibiria pretensões de validade universal na sua argumentação. Orientação válida sobretudo para uma nova teoria discursiva da democracia e para a teoria da política e da democracia deliberativa. E é também neste sentido que ele se debruça, em Facticidade e Validade, sobre a política deliberativa e  a democracia deliberativa, dedicando-lhes dois amplos capítulos.

4.

Mais recentemente, numa obra de 2022, Ein neuer Strukturwandel der Öffentlichkeit und die deliberative Politik, que analiso no meu Política e Ideologia na Era do Algoritmo (S. João do Estoril, ACA Edições, 2024: 139-145), e em nome de uma teoria discursiva da democracia, vem tomar uma posição crítica em relação aos “social media”, responsáveis, segundo ele, pela desestruturação dessa esfera pública que ele tão bem caracterizara na sua Strukturwandel der Öffentlichkeit, em 1962. O que parece ser evidente neste livro é uma clara responsabilização da comunicação digital dos social media por esta desestruturação da esfera pública política, pois é esta que garante e legitima os vínculos de comunidade imprescindíveis para que uma democracia funcione, na “sociedade dos media”, de forma racional e intersubjectiva (2023: 57), garantindo ao mesmo tempo os direitos subjectivos àquele que Habermas chama Gesellschaftsbuerger, cidadão da sociedade, mas garantindo também a sua condição de Staatsbuerger, de cidadão do Estado. A tendência centrífuga inaugurada pela rede prejudica, segundo Habermas, a função integrativa e legitimadora da esfera pública e abre caminho ao deslaçamento político da democracia e à emergência de um plebiscitarismo digital pouco compatível com a matriz liberal da democracia representativa. Tendência que favorece e alimenta as visões populistas, que navegam à vontade nessa zona cinzenta e sem fronteiras entre o público e o privado e onde cada um pode colonizar livre e perigosamente o outro.

A posição de Habermas é clara e tem sentido, sobretudo se a entendermos no quadro da sua concepção discursiva da democracia e do racionalismo crítico que a inspira. O que, no meu entendimento, ele não valoriza suficientemente é o potencial de libertação da cidadania em relação ao monopólio de controlo do acesso à esfera pública das tradicionais plataformas de comunicação (mass media), muito em particular quando elas se comportam como a outra face do poder, mesmo que seja o legítimo poder democrático. Mas, referindo a emergência de uma dimensão autoral do cidadão, enquanto produtor de informação e de opinião, autêntico prosumer, Habermas não a valoriza suficientemente porque, no seu entendimento, não é garantida por reconhecidas competências institucionais e expressos códigos éticos partilhados, como, pelo contrário, acontece com o jornalismo e com os media tradicionais. Na verdade, o que acontece, a par de fake news e de exibicionismo de massas e de mau gosto, é que outros protagonistas com créditos firmados na sociedade civil se podem afirmar na esfera pública digital, independentemente da autorização dos famosos gatekeepers, mantendo, entretanto, padrões de garantia ética e de competência intelectual que até podem ser superiores aos dos encartados jornalistas e dos consagrados meios de comunicação. O que ele não toma em suficiente consideração, pois, é o potencial de libertação que a expansão digital da esfera pública pode trazer consigo, ainda que ele possa contaminar a linearidade e a aparente racionalidade discursiva e argumentativa da esfera pública mediática e tendo bem consciência dos mais recentes desvios das grandes plataformas digitais ao transformarem os seus clientes primários em pura matéria-prima para a determinação preditiva dos comportamentos, designadamente político-eleitorais, desfigurando os processos de conquista pública e transparente de consenso para o poder e desfigurando, consequentemente, o próprio processo democrático. Shoshana Zuboff desmontou este processo na sua obra sobre o capitalismo da vigilância. Mas, mesmo assim, é claro que sobra uma vasta área de afirmação da soberania digital dos cidadãos-utilizadores e um amplo espaço de intervenção cidadã para além dos “certificados” agentes do sistema mediático, agora já não detentores da exclusividade de “gatekeeping” no acesso ao espaço público deliberativo. A sua última posição relativamente à democracia e aos “social media” pode, pois, muito bem ser compreendida e identificada no quadro de uma teoria  discursiva da democracia para a qual avançara mais consistentemente na Theorie, de 1981, e que, mais tarde, em Facticidade e Validade, viria a desenvolver mais directa e explicitamente, em dois longos capítulos.

5.

Mais recentemente ainda, Habermas publicou uma enorme obra, Uma Outra História da Filosofia (Auch eine Geschichte der Philosophie, I e II, Frankfurt-am-Main, 2019), traduzida para português, para a Fundação Calouste Gulbenkian, por José Lamego, que aqui faz, e não só na qualidade de qualificado tradutor, uma recensão crítica da obra, que se segue (JAS).

Carta de J. Habermas a José Lamego – 2024

5.1

Junto ao perfil que o meu amigo de décadas João de Almeida Santos traçou de Jürgen Habermas, como filósofo e como o mais influente intelectual público da Alemanha das últimas cinco décadas, um curto apontamento sobre a sua última obra, Uma Outra História da Filosofia, cuja tradução propus, como homenagem ao autor, à Fundação Calouste Gulbenkian, proposta que foi, de imediato, aceite.

5.2.

Esta obra, pensada ao longo de pelo menos três décadas e publicada quando Habermas tinha já completado 90 anos, é surpreendente pela extensão (2 vols., perfazendo mais de 1700 páginas) e pela densidade do seu conteúdo. Não temos perante nós, de todo em todo, uma mera exposição de doutrinas filosóficas cronologicamente ordenadas, mas um trabalho de “reconstrução” genealógica da imagem da razão ocidental, que ele faz culminar no estabelecimento de um paradigma comunicacional e linguístico de racionalidade como expressão do que chama de pensamento “pós-metafísico”.

5.3.

Esta reconstituição histórica acaba, de forma não explícita, por entroncar no programa filosófico do próprio Habermas, desenvolvido, sobretudo, em Teoria do Agir Comunicativo (1981): não é por acaso que a exposição termina com a análise do programa filosófico de Charles Sanders Peirce de uma filosofia da práxis humana apoiada numa pragmática linguística – desde Conhecimento e Interesse (1968) até Verdade e Justificação (1999), passando pela monumental Teoria do Agir Comunicativo – que o pragmatismo norte-americano (sobretudo as filosofias de Charles Sanders Peirce e de George Herbert Mead) representou um dos veios inspiradores fundamentais da versão habermasiana da Teoria Crítica, assente na ideia de necessidade de um entrelaçamento do conhecimento com o discurso e a acção. A longa genealogia do que chama de “pensamento pós-metafísico ocidental” conclui-se, segundo Habermas, na filosofia pós-idealista do século XIX, sublinhando ele os contributos de Feuerbach, Marx, Kierkegaard e Peirce para o estabelecimento da ideia de um sujeito finito, historicamente situado e comunicacionalmente socializado, operando, deste modo, a destranscendentalização do pensamento filosófico.

5.4.

Este gigantesco trabalho de reconstituição histórica começa com o aparecimento das imagens cosmoéticas do “período axial” ( 800-200 a.C.), analisa a associação do monoteísmo bíblico com a imagem do mundo da metafísica grega, a osmose semântica entre as doutrinas bíblicas e a filosofia grega no Império Romano, com a subsequente simbiose entre a fé e o saber no platonismo cristão. A importância do protestantismo para a dissociação entre a fé e o saber retoma muitos pontos de vista já avançados por Max Weber e Ernst Troeltsch sobre a importância da Reforma protestante para a criação da visão do mundo individualista moderna; do mesmo modo, é analisada a contribuição de Lutero para a viragem antropocêntrica da filosofia moderna, viragem que conduz a Hume e a Kant, como representantes, por excelência, da filosofia do sujeito, respectivamente na modalidade empirista e na modalidade transcendental. A obra conclui-se (Capítulo X) com a análise do processo de destranscendentalização do conceito idealista de sujeito, baseado na ideia de auto-referência de um sujeito legislador transcendental, mediante a inserção dos sujeitos socializados no contexto do mundo da vida, o que constitui o passo decisivo para a configuração pós-metafísica do pensamento filosófico.

5.5

Para concluir esta singela homenagem proporcionada pelo João Almeida Santos, junto, como mera curiosidade, cópia de duas cartas de Habermas em que este agradece o empenho posto na tradução dos dois volumes de Uma Outra História da Filosofia (JL).

Carta de J. Habermas a José Lamego – 2025

JAS/JL, 18.03.2026

Poesia-Pintura

MARÇO

Poema de João de Almeida Santos
Pintura: “Evocação de uma Magnólia”
JAS 2021
(98x126, em papel de algodão,
310gr, e verniz Hahnemuehle, Artglass
AR70, em mold. de madeira)
Original de minha autoria
Março de 2026

“Evocação de uma Magnólia” – JAS 2021

"MARÇO: um pouco chove
e logo deixa de chover:
volta a chover, pára,
ri o sol com a água.
Ora um céu celeste,
ora um ar escuro e negro:
ora tempestades d’inverno,
ora um ar de primavera.
Um pássaro com frio
espera que o sol espreite:
na terra ensopada suspiram
as violetas...
Catarina! Que queres mais?
Entende-me, meu amor!
Março, sabes, és tu,
e este pássaro sou eu"

“Arietta” (1898) do poeta
napolitano Salvatore di Giacomo,
(1860-1934).

POEMA – “MARÇO”

EU GOSTO DO MÊS
De Março
(A Primavera a chegar),
Gosto do frio
Que sobra
(O Inverno
A declinar)
E da neve
Que me chama
Quando a vejo
Lá no alto,
Lá no topo
Da montanha.

EU GOSTO MUITO
De Março
Porque traz
A Primavera
E a magnólia
Que é branca,
Que acena
Ao passado
E ao tempo
Que aí vem,
Auspicioso
Futuro,
Sempre muito
Desejado,
Saído
Da Terra-Mãe.

E ASSOMAM
As flores
E os cheiros
No jardim
E renasce
A natureza
Quando volta
Proserpina
E fico
Sempre feliz
De ver
O loureiro
Crescer,
Apontando
Para o céu
Como quem
O ilumina.

TAMBÉM VOLTA
A cameleira,
Anúncio
Do tempo novo
Com o branco
Cintilante
Que me fascina
O olhar
E anuncia
A magnólia
Que chega
Sempre
Despida
E me convida
A cantar.

AH, COMO EU GOSTO
De Março,
Mês híbrido,
Mês meu,
Intervalo
Auspicioso
Do veloz
Tempo
Que passa,
Ponte
Que atravesso
Quando espero,
Confiante,
Que a natureza
Renasça.

AH, SIM,
Mas eu sou
Pássaro
Friorento,
Sempre, sempre
A suspirar,
Quando o sol
À minha alma
Sempre insiste
Em tardar...

MAS MARÇO
É ponte,
É transição,
É esperança,
É passado
E futuro
E há sempre
Uma mulher
(Sentimento
Do mais puro)
Por quem o poeta
Espera
Às portas
Do seu desejo,
Às portas
Da Primavera.

 

Artigo

O PRESIDENTE

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

NA PASSADA SEGUNDA-FEIRA tomou posse o novo Presidente da República, António José Seguro. Saiu Marcelo Rebelo de Sousa (MRS), que desempenhou as funções durante dois mandatos, em dez anos. Um estilo oposto ao da rigidez formal de Cavaco Silva, mas exagerado, a ponto de ter diminuído não só o valor facial da figura presidencial, mas também o seu valor substantivo. O que parece ter acontecido foi uma sobreposição excessiva da pessoa MRS, das suas idiossincrasias e da sua exuberante personalidade, à própria função presidencial, gerando, por essa razão, disrupções quer políticas quer funcionais.  Por um lado, as suas constantes intervenções como comentador da política nacional a propósito de tudo e de nada, intervindo excessivamente em matérias que eram da competência exclusiva dos executivos; por outro lado, usando excessivamente o poder de dissolução do parlamento a ponto de o ter feito por três vezes durante um só mandato, com as consequências que se conhece. Não está em causa a sua pessoa, no plano privado, a sua simpatia, mas sim o seu desempenho presidencial, que, no meu entendimento, e pelas razões expostas, não deixa saudades, ainda que na despedida as demonstrações de afecto tenham sido, como é natural e humano, muito expressivas. Particularmente grave foi o seu papel no processo que levou à penúltima dissolução,  anunciada em Novembro de 2023 e concretizada em Janeiro de 2024, por razões de todos conhecidas, mas que aqui não cabe analisar.

1.

Quanto ao novo presidente, julgo que só terá que adoptar um comportamento presidencial que não seja excessivamente rígido e crispado, como foi o de Cavaco Silva, mas também que não desvalorize a figura presidencial, nem por actos nem por palavras, por excesso ou por exuberância comportamental, como foi o de Marcelo Rebelo de Sousa, exercendo, pelo contrário, o seu poder de dissolução com peso e medida, de modo a preservar estabilidade ao sistema, como, de resto, teve ocasião de afirmar explicitamente no seu discurso de tomada de posse, sem considerar a estabilidade como uma meta a atingir, mas sim como condição para obter resultados positivos e sólidos. Se tiver de ser, que seja, mas não por dá cá aquela palha, como parece ter acontecido no caso do inoportuno e injustificado comunicado da PGR que levou à demissão do PM e à dissolução do parlamento ou até no caso da não aprovação do orçamento de Estado, como aconteceu em 2021. Neste aspecto, o discurso do presidente foi muito claro.

2.

De resto, julgo que as características pessoais do novo presidente apontam para aí, para uma moderação responsável no exercício da função presidencial. Na génese da sua candidatura não esteve qualquer partido, sequer aquele de que foi secretário-geral, e isso também explica a dimensão da sua vitória nas eleições presidenciais, o que, todavia, não o deverá levar a insistir em consensos lá onde eles nunca poderão existir, subordinando a sua acção efectiva à ideia de preservação da sua vastíssima base eleitoral (e à estratégia de reeleição para um novo mandato). Disso também falou no discurso ao referir-se aos “unanimismos artificiais” e à necessidade de reconhecer diferenças até na sua própria acção, ao sublinhar que muitas das suas próprias intervenções terão apoios diferentes, consoante as matérias em causa.  Na verdade, a interpretação correcta do sentido de uma tão vasta base eleitoral deverá cingir-se ao reconhecimento de uma sua robusta legitimidade para o exercício da função presidencial. Esta legitimidade, reconhecida e assumida, permitir-lhe-á ser um interlocutor respeitado pelos outros poderes constitucionais, mas também fazer um uso combativo da palavra perante a cidadania quando e se a sua acção não for devidamente tomada em consideração e ponderada por parte dos seus interlocutores institucionais. A sua é uma legitimidade directa, mas não executiva, não diminuindo isso o valor da sua palavra mesmo em relação a concretos e exclusivos poderes do executivo. Palavra preferivelmente usada no silêncio das instâncias do poder ou, então, em comunicações abertas e dirigidas ao Parlamento.

3.

A verdade é que o Presidente pode dissolver o parlamento, pode enviar mensagens políticas ao parlamento, pode vetar diplomas, pode enviar diplomas para o tribunal constitucional, tem diálogos semanais regulares com o primeiro-ministro, é chefe supremo das forças armadas e tem o poder de nomear, sob proposta do primeiro-ministro, importantes figuras do sistema político-institucional. Não são, pois, poucos os seus poderes, sobretudo porque eles estão fundados numa legitimidade directa e universal, sendo certo que o seu exercício deverá partir sobretudo do peso pessoal e institucional da figura do presidente. No que ele representa. Ou seja, o presidente deverá também trabalhar para infundir “gravitas”, peso, densidade à sua própria figura e à sua palavra institucional. Ou seja, traduzir, exprimir, dar corpo àquilo que as eleições presidenciais lhe deram como resultado de um longo processo de conquista do consenso. Foi o que não aconteceu com Marcelo Rebelo de Sousa, provocando uma vertigem inflacionária à palavra presidencial, por via de um seu uso excessivo, na frequência e na amplitude. Vejamos, então, o que disse o novo presidente no seu discurso de tomada de posse.

4.

Tratou-se de um discurso que encaixa bem naquela que é a figura institucional do Presidente da República, tal como está desenhada na nossa constituição, mas que encaixa também na figura pessoal de António José Seguro. Um órgão, o Presidente da República, que é unipessoal e que exprime, antes de mais, expressivamente a unidade nacional. Foi essa, como seria normal, a colocação do discurso, a par da revisitação dos principais pontos críticos que afectam quer a política internacional quer a política nacional. Refiro os que me pareceram mais significativos:

a) a crise da ordem internacional e o desmoronamento dos pilares da ordem internacional tal como a conhecíamos; a redução da política internacional à política impositiva da força dando corpo à teoria de Thomas Hobbes de que “o homem é o lobo do homem” e à desvalorização da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional, pondo em dificuldade a capacidade de os países, por mais fortes que sejam, garantirem por si sós a sua própria segurança; reforço das organizações internacionais de que Portugal faz parte, ONU, NATO, CPLP, Organização dos Estados Iberoamericanos, União Europeia; aprofundamento da construção europeia, da sua integração política e dos seus valores.

b) Já no plano nacional, é de sublinhar o reconhecimento dos principais problemas com que nos confrontamos na economia e  no emprego, na saúde, na habitação, na justiça, na segurança e em relação às instituições e à política; desejo de pôr fim ao frenesim eleitoral, garantindo que o chumbo de um orçamento não representará necessariamente eleições; promoção da estabilidade democrática como condição para a mudança e para a previsibilidade nas políticas públicas; promoção da eficácia governativa nas reformas estruturais e nas respostas urgentes; promoção da maturidade democrática, que garanta a clara expressão das diferenças e o afastamento de inúteis “unanimismos artificiais”; abertura interpartidária para consensos em matérias onde eles são vitais para a sociedade; promoção do diálogo saudável entre os agentes políticos e reconhecimento da igual dignidade de todos os partidos; compromisso interpartidário para garantir o acesso à saúde e a continuidade do SNS; cuidar da democracia como tarefa urgente e prioritária.

5.

Não se trata de assuntos de pouca monta porque deles depende a saúde da nossa democracia. Estes temas merecerão a atenção do novo presidente, certamente não numa óptica executiva, pois essa não é competência do PR, mas enquanto focos prioritários de atenção dos partidos, do parlamento e do executivo. A enunciação dos temas e problemas pelo Presidente não representa intrusão executiva, mas a promoção de uma forte polarização da atenção dos agentes executivos para eles, a sua colocação no topo da agenda pública, ao mesmo tempo que representa também disponibilidade para, dentro das suas competências e da sua influência pessoal e institucional, ajudar a encontrar soluções em diálogo interpartidário e inter-institucional. É aqui que certamente se centrará o essencial da sua acção.

6.

Tarefa importante do Presidente é a da densificação da sua figura pessoal e institucional como condição para que os agentes políticos no terreno o reconheçam como parceiro de peso nas soluções e como sincero promotor de consensos, no silêncio das instâncias do poder. E não creio que, com António José Seguro, haja sobreposição das suas idiossincrasias e exuberância comportamental em relação à função presidencial. Bem pelo contrário, julgo que a sua personalidade se ajusta perfeitamente àquelas que são as características da função presidencial tal como resulta do desenho constitucional.  Não sendo tarefa fácil perante o activismo competitivo da política partidária e a autonomia estratégica da instância governativa, sempre em busca de legitimidade de exercício em tempos em que ela é mais flutuante do que de mandato, um bom exercício presidencial pode ajudar muito à definição de metas programáticas essenciais para a vida dos portugueses, no interior de fronteiras que deverão ser desenhadas pelas mais importantes forças políticas, sem desvirtuar as saudáveis diferenças ideológicas. Uma das primeiras tarefas do Presidente poderia ser a de descrispação do combate partidário, levando-o para planos de civismo e de respeito político e institucional que têm estado arredados do confronto político. Mas não se revelará fácil a tarefa do Presidente, perante as actuais clivagens que se verificam no interior do sistema de partidos. Desejo-lhe, todavia, os maiores sucessos, que serão também sucessos da nossa democracia. JAS@03-2026

 

Poesia-Pintura

A POESIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Luz”
JAS 2025
(67,5x84, em papel de algodão, 
310gr, e verniz Hahnemuehle,
Artglass AR70, em mold. de madeira)
Original de minha autoria
Março de 2026

“Luz”. JAS – 2025

POEMA – “A POESIA”

QUEM AMA
A poesia
Vê nela
Um espelho
Do seu ser,
Ela diz tudo
Com nada,
É doce
Melancolia,
É um
Suave prazer,
A musa
Que nos inspira
É melodia
De fada
Mesmo quando
Faz doer.

ELA É
Como a vida,
Posso ouvir
A alma
Da minha musa
Adorada,
Figurá-la,
Com palavras
Desenhada,
Como modo
De a ter,
É remédio
Que me salva
De em solidão
Eu arder.

NO POEMA,
O poeta finge,
E é ele
Quem o diz,
Mas mesmo
Que sinta
O que finge
Deixa de ser
Infeliz.

A POESIA
Não salva
O poeta
De sofrer
Mas ela
Leva à alma
A luz fresca
De um suave
 Amanhecer.

Artigo

O PS NA ENCRUZILHADA

As eleições internas no PS

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS – 2025

1.

COMO SE PREVIA, e dado o carácter inesperado da sua marcação, logo a seguir às presidenciais e com apenas o intervalo de cerca de um mês para a eleição do secretário-geral, estas eleições vêem como candidato único, pela segunda vez, José Luís Carneiro. Dir-se-á que dada a urgência da eleição do secretário-geral, em 2025, a seguir à abrupta saída de Pedro Nuno Santos na sequência da grave derrota eleitoral, o processo eleitoral não obedeceu a todos os requisitos estatutários e que, por isso, haveria que o completar com uma nova eleição logo após o ciclo eleitoral que terminaria com as eleições presidenciais de 2026. Certo. Era, portanto, uma situação prevista há muito e, afinal, havia tempo, neste caso, para preparar candidaturas alternativas. O que não aconteceu, continuando os putativos candidatos alternativos sentados nos cargos institucionais que ocupam, à espera de melhores tempos. Mas é evidente que, para além disso, o que estas eleições verdadeiramente indiciam é que o PS está a viver uma fase de pouca vitalidade. É o que se pode concluir do facto de não gerar candidaturas alternativas para um cargo da importância da secretaria-geral, da liderança, deixando as decisões nas mãos da oligarquia partidária, como já fora o caso da eleição que ocorreu em 2025, a candidatura única do candidato que fora derrotado, e por muito, 37,7% contra 61,3% de Pedro Nuno Santos, nas eleições internas de 2023. Mas se é verdade que já se sabia que o partido, pelas razões expostas, iria para eleições internas em 2026, por que razão não surgiram candidaturas alternativas? Só há uma explicação plausível, para além do curto tempo expresso na convocatória: a desvitalização do partido e a cristalização de oligarquias internas. Situação há muito visível pela escassez de alternativas que se tem vindo a verificar em todos os níveis eleitorais, concelhias, distritais e secretaria-geral. Seria interessante conhecer a sociologia eleitoral das últimas eleições das concelhias e das distritais para se verificar a percentagem de candidaturas alternativas que o partido foi gerando ao longo tempo. Considero isso mesmo vital pois permite conhecer o ritmo cardíaco do partido e a sua oxigenação interna. Estas alternativas parece serem cada vez mais escassas. Dizem-me que nas últimas eleições federativas, que são 21, somente duas foram as eleições disputadas entre candidatos, indiciando realmente, por um lado, uma grave falta de vitalidade interna e, por outro, um cómodo funcionamento oligárquico interno que não augura nada de bom. Esta situação deveria dar lugar a um forte repensamento da identidade organizacional, doutrinária e programática do partido de modo a que, de imediato, e não se prevendo eleições nacionais a breve trecho, se pudessem concretizar mudanças profundas no partido para o relançar, mobilizando os militantes e simpatizantes para um projecto de e com futuro. Mas o que nos diz, entretanto, a nova moção do actual secretário-geral e candidato único à liderança, depois do que já vimos nas moções apresentadas em 2023 (https://joaodealmeidasantos.com/2023/12/06/artigo-132/ ) e 2025 (aqui)? Vejamos.

2.

Foi no passado sábado (28.02.2026) que o actual secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, e candidato único, pela segunda vez, a novo mandato, apresentou a sua “Moção Global de Estratégia”. Documento com 106 páginas, sendo mais de cinquenta (52, se contei bem) dedicadas a 543 propostas/medidas para o país, mas somente quatro páginas e meia dedicadas ao partido, além de cerca de duas páginas e meia de introdução e uma de índice. O horizonte parece ser quase exclusivamente o país e não o partido, mesmo que se trate de eleições internas para a liderança de uma grande organização como é o PS. De certo modo, esta desvalorização da atenção sobre o próprio partido indicia uma concepção minimalista de partido, assumido como partido-veículo ou partido-eleitoral, com os efeitos conhecidos – anemia organizacional e doutrinária. No documento não se encontra um capítulo sobre a doutrina e o património político-ideal em que se inscreve o PS de modo a situá-lo na linha evolutiva da social-democracia (nem que fosse somente para os mais novos), as etapas historicamente  percorridas e o novo caminho a percorrer com uma identidade político-ideal alinhada com as profundas mudanças que estão a ocorrer na sociedade contemporânea e no interior da própria social-democracia. É a terceira moção que José Luís Carneiro propõe aos militantes em pouco mais de dois anos e pouco (quase nada) nelas foi dito sobre o que se pretende que seja o PS do futuro, atendendo até à crise que a social-democracia está a viver um pouco por todo o lado. Crise dos partidos sociais-democratas, entenda-se. As outras moções já aqui as analisei. Esta, a maior, analisá-la-ei agora, nos aspectos que interessa. Na verdade, trata-se mais de uma espécie de programa eleitoral ou de governo (mesmo assim de dimensão excessiva) do que de uma moção partidária que tenha em vista a conquista da confiança dos militantes e a sua mobilização, a doutrina e a “cartografia cognitiva” com a qual o partido se move na sua relação com a sociedade, as formas organizativas que deve assumir, a identidade do partido e a definição do seu referente social enquanto partido social-democrata, mesmo tendo em consideração que se trata de um “catch-all-party” de menor densidade ideológica, mas, mesmo assim, com necessidade de definir uma “classe gardée”. Talvez por isso, o PS devesse ter como referente social dominante o cidadão/consumidor/contribuinte/aforrador, ou seja, a “middle class”, na sua relação com os oligopólios – banca, telecomunicações, energia, grupos que administram as autoestradas ou que controlam a grande distribuição, seguradoras, etc. –, por este cidadão não ter possibilidade de controlo nem poder negocial sobre eles; mas também, naturalmente, a cidadania mais desfavorecida que necessita de uma maior atenção por parte do Estado.  Na verdade, o discurso está mais virado para o Estado do que para a militância, sobretudo para aqueles que gostariam de ver revitalizado o seu partido, depois das derrotas que sofreu nas duas últimas eleições legislativas e nas autárquicas e constatado o ambiente de crise que afecta gravemente a social-democracia europeia; mesmo assim, não se vislumbra um qualquer critério selectivo e de prioridade relativo aos sectores mais críticos da nossa sociedade e nem sequer um referente social dominante correcto. Trata-se de um documento mais extensivo do que intensivo, mais global do que partidário e simplesmente descritivo das intenções executivas na gestão do poder de Estado, talvez mais inspiradas pela experiência governativa de quem inspirou e elaborou o documento do que pela nova posição de força política de oposição em que actualmente se encontra. Uma posição que requer um novo fôlego e capacidade de mobilização da cidadania para uma nova alternativa. 543 medidas/propostas que ocupam metade da moção e que num contexto de discurso partidário interno não fazem grande sentido.

3.

Nele não se fala praticamente do partido (são 4 páginas e meia num capítulo com o título “Afirmar e modernizar o Partido Socialista”) nem da doutrina, limitando-se a exprimir genericamente da necessidade de conhecer os militantes, de promover novas adesões, de propor um “código de ética dos militantes e eleitos socialistas”, com a correspondente “comissão de ética”, e um (incompreensível) “canal de denúncias interno”.  Em suma, um PS eticamente muito vigilante sobre os seus militantes e eleitos. O documento fala de tudo o que não interessa e não fala do que verdadeiramente interessa, ou seja, daquilo que explica a ausência generalizada, na dinâmica interna, de visões alternativas quer ao nível da secretaria-geral quer ao nível das federações e das concelhias, onde quase desapareceram as propostas alternativas. Um plano de observação extremamente sensível e importante porque dá ideia do estado de saúde do partido. Ou seja, não se encontra um horizonte doutrinário que possa mobilizar os militantes, situando o partido na história e propondo uma nova identidade alinhada com os complexos e difíceis tempos que vivemos. A não ser que se reconheça, como fez Luís Montenegro, na campanha interna do PSD, que também o PS não tem problemas existenciais. Este documento, que fala da necessidade de atrair militantes e simpatizantes, não me parece, por isso, que seja suficientemente atractivo quer para mobilizar os seus militantes quer para chamar a atenção dos que possam interessar-se pela política e pela militância no interior das fileiras do PS. Bem pelo contrário, é necessária uma forte e militante motivação para o conseguir ler até ao fim e para suportar um elenco interminável de medidas, que mais parece uma longa lista telefónica, sem que sejam propostas prioridades para a acção política a ser desenvolvida pelo partido nos sectores críticos da nossa vida colectiva, sobretudo naqueles o PS identifique, em linha com a sua visão da sociedade, como os sectores efectivamente mais críticos. O documento desenvolve-se ao longo de 106 páginas em três partes e vinte temas, além do índice, da introdução, do capítulo sobre o partido e da conclusão: desenvolvimento económico (território, agricultura, ambiente, indústria, formação profissional e finanças públicas e fiscalidade) progresso social (combate à pobreza, segurança social, habitação, SNS, educação, ciência e cultura, juventude e desporto)  e soberania e instituições eficazes (política externa e defesa, Europa, comunidades da diáspora, autonomia regional, segurança e liberdade, justiça, administração pública e qualidade da democracia). Metade da moção é ocupada com uma imensa lista de medidas, mais de quinhentas, em cerca de 52 pouco motivadoras e esclarecedoras páginas.

4.

Mas vejamos mais de perto o que é dito e proposto sobre o partido, nas escassas páginas que, de novo, lhe são dedicadas, cerca de 4% do total da moção e 23 medidas/propostas.

a) Não se fala de primárias e muito menos de primárias abertas (as que deram a vitória a António Costa na disputa com António José Seguro, em 2014) e como quase já não há disputa alternativa nas eleições internas (é só ver em quantas federações, das 21, houve, nas últimas eleições internas disputa entre candidaturas alternativas, para não falar das duas eleições do secretário-geral) fica gravemente prejudicada a democracia interna e beneficiada, como consequência, a oligarquia interna. A “democracia interna no PS é única no plano nacional”, como se lê no documento? A ser assim, e seria necessário conhecer os dados das mais recentes eleições, não parece ser objectiva esta afirmação.

b) O PS está organizacionalmente velho, é reconhecido no documento. E é verdade. Talvez seja mesmo correcto dizer que sendo a grande organização que é, o PS não dispõe de estruturas organizativas nem de dinâmica orgânica interna em condições de garantir um eficaz funcionamento, sendo obrigado a recorrer regularmente a outsourcing (a militância intervém cada vez menos), não promovendo uma dinâmica interna capaz de seduzir a militância e a cidadania, não vendo as suas estruturas internas, por exemplo o chamado “Gabinete de Estudos”, produzir resultados (a Fundação Res Publica e o “Jornal” Acção Socialista não são sequer mencionados na moção), não se conhece a promoção de dinâmica organizativa própria junto das principais instituições nacionais, por exemplo nas universidades (se excluirmos o ISCTE, onde se concentra uma boa e influente parte da classe dirigente do PS).

c) Na verdade, o documento nada propõe para alterar o estado de coisas. O PS não conhece os seus militantes? Estranho, uma vez que houve procedimentos de adesão, inclusão nas estruturas do partido, sabendo as concelhias e as distritais muito bem quem são os seus militantes. O que se verifica, isso sim, é um fechamento interno por parte de quem controla as estruturas que, em parte, explica o marasmo eleitoral interno e que pode levar a que o PS seja considerado como uma imensa federação de interesses pessoais ou de grupo. Que significado tem o envio de um Kit com documentos a cada militante, como os que estão referidos na moção, se eles estão (mas só a 11 dias da eleição do SG do PS a respectiva moção foi publicada no site) ao alcance de um clique no Google ou no site do partido?

d) O que falta realmente é doutrina e informação interna capazes de mobilizar a militância. O chamado jornal do PS, o “Acção Socialista”, que dirigi durante cerca de três anos e que informatizei, acabou, com a direcção de Edite Estrela, ao ser transformado numa mera secção informativa do site do partido, hoje dirigida por Pedro Cegonho, em vez de ser um órgão de comunicação rico, robusto doutrinariamente e mobilizador de informação selectiva, de conhecimento e de pensamento, contribuindo para a formação da militância. Em vez disso, nada, a não ser pura hagiografia partidária.

e) Já sobre a revisão dos estatutos e dos regulamentos eleitorais, o que se lê é uma alusão à possibilidade do voto antecipado e em mobilidade. Que propostas substantivas? Não há.

f) Lê-se também algo sobre os símbolos do partido e o desejo de utilizar os símbolos da IS, uma organização que praticamente já não existe e da qual nada se sabe, para além do nome do seu Presidente Pedro Sánchez e da secretária-geral Benedicta Lasi.

g) Lêem-se ainda referências à inscrição e adesão de militantes, ao pagamento de quotas ou à promoção de visitas à sede nacional do PS – coisas que me parece serem pouco relevantes na economia de texto de uma moção de candidato a secretário-geral.

h) Depois, constata-se a intenção de criar um provedor do militante que possa mediar os conflitos internos; a criação de estruturas interfederativas; a assinatura de protocolos com escolas, universidades e centros de investigação para “que, em cada momento, o PS esteja a par do desenvolvimento científico nacional”; o reforço do inexistente “Gabinete de Estudos”, agora com o nome de “Instituto Jorge Sampaio”; a criação de um código de ética e de um “canal de denúncias interno” que bem se pode converter em “bufaria” interna ao serviço da luta política e da conquista de lugares no partido e no aparelho de Estado. Um partido socialista com uma robusta identidade político-ideal e ideológica e uma eficiente circulação de informação, ideias e cultura política não terá necessidade de um departamento moral para vigiar o comportamento dos seus militantes. Sobretudo um partido que tem na liberdade o seu principal valor. Depois, existe no país um ordenamento jurídico que já prevê sanções para comportamentos desviantes relativamente às normas legais.

E é tudo, sendo tudo isto pouco mobilizador e decisivo para o futuro do PS. Como disse, não se fala de doutrina, do histórico da social-democracia, da necessidade de adaptar a organização às profundas mudanças sociais que estão a ocorrer, da nova identidade da cidadania, de primárias que limitem o poder das oligarquias, da necessidade de reconstruir o jornal do partido, do papel da Fundação Res Publica (que nem sequer é mencionada), da presença orgânica do PS (mas não se trata de cargos) através dos seus militantes nas diversas organizações da sociedade civil e nas instituições, designadamente da criação de estruturas dedicadas nas universidades e nos centros de investigação (não da mera assinatura de protocolos), através dos seus próprios militantes. Se o partido está com dificuldades organizacionais isso também é devido à falta de atenção da classe dirigente, mais interessada em garantir cargos e sobrevivência do que conquistar o futuro. Esta moção, e mais uma vez, fala pouco do partido e não diz o essencial: identidade, doutrina, organização e referente social dominante.

5.

Na enunciação das quinhentas e quarenta e três medidas há sempre uma “contextualização” e uma chamada “análise”, um total de texto equivalente ao que as medidas ocupam. Poder-se-ia dizer que, antes de serem enunciadas, elas são explicadas, justificadas, fundamentadas no que é essencial. Não é, todavia, o que acontece, não só porque os dois textos prévios não as explicam, não há uma priorização e justificação de medidas consideradas fundamentais, e então elas seriam muito menos, mas também porque não se sinaliza a “causa causans” e o “princípio activo” que permite resolver o problema ou problemas que as justificam. Não se explica o que se enuncia como medidas/propostas até porque a sua dimensão é tal que nem isso seria possível. O militante/eleitor/leitor fica afogado ou perdido em tantas medidas/propostas, não contribuindo esta informação para uma boa decisão acerca do voto a colocar na urna.

6.

Mas vejamos agora alguns casos que escolhi, a mero título de exemplo: justiça, habitação, finanças públicas, fiscalidade, universidade e investigação científica. Apenas algumas observações, já que seria impossível comentar as mais de quinhentas medidas/propostas avançadas. E começo pela justiça, até atendendo ao inusitado e grave comunicado da PGR que haveria de provocar o fim do governo do PS e da maioria parlamentar que o sustentava. Três quartos de página para a contextualização e análise e uma página e meia de medidas, que são 25. Todas elas medidas que não mereceriam ser evidenciadas porque de senso comum: acesso, proximidade, celeridade, aperfeiçoamento, simplificação, descentralização e autonomia na gestão, modernização tecnológica, eficiência, etc., etc. As questões fundamentais que têm ocupado a agenda pública, e algumas delas muito graves, não são tomadas em consideração. Por exemplo, das relações entre o poder político e o poder judicial, sobretudo o ministério público, não se fala; da assimetria da relação entre a acusação pública e a defesa privada também não (um debate nacional que hoje está a ocorrer em Itália). A moção dedica menos de duas páginas e meia à justiça, nada explica nem prioriza, limitando-se a atirar simplesmente palavras para o papel. Mas a justiça é hoje um pilar decisivo para o funcionamento do sistema social. Tão decisivo que pode derrubar governos, havendo mesmo já um conceito que se aplica à judicialização da política: lawfare.

7.

Vejamos a questão da habitação. Menos de duas páginas para a contextualização e a análise e quase duas páginas e meia para 34 medidas. Esta frase diz o essencial: “O objetivo estratégico deve consistir na construção de um parque público robusto, territorialmente equilibrado e financeiramente sustentável, apto a funcionar como elemento estruturante do sistema habitacional” (pág. 61; itálico meu). “Elemento estruturante”: o Estado-senhorio é o que ocupa o essencial desta parte da moção como alavanca para resolver o problema de um mercado considerado desfasado da economia, complementado, depois, por isenções de IRC e IRS para arrendamento inferior em 20% à mediana do concelho. Uma sobreposição ideológica (estatismo) ao real problema e ao “princípio activo” que pode resolver, no essencial, o problema: a expansão do mercado do arrendamento (baixa os preços de arrendamento e de compra de casa) usando para tal todas as medidas necessárias e possíveis, por exemplo, e entre outras, com drástica redução de impostos. É este, e não o parque público de habitação, o “elemento estruturante”, numa democracia de matriz liberal. Aqui reside a “causa causans” e o parque público só pode ser um complemento. De resto, nem o Estado tem vocação para senhorio, atendendo ao histórico da gestão do seu enorme património habitacional. Ao “elemento estruturante” ainda se deve juntar o subsídio a rendas em valores muito significativos para se chegar a uma assunção do Estado como Estado-Senhorio (e aqui inclui-se o Estado como fiador de empréstimos) e Estado-Caritas pouco ajustado a uma democracia de matriz liberal, como, aliás, aqui também é definida: “PS, partido fundador da democracia liberal e plural em Portugal” (pág. 5). Há aqui uma clara sobreposição ideológica na análise do problema, no quadro de uma economia de mercado, que o PS defende.

8.

Equidade nas finanças públicas e na fiscalidade e saúde. Apesar de numa frase se falar em “redução fiscal” nada é dito sobre o saque fiscal que o contribuinte está a sofrer (incluindo multas, taxas municipais e outras, estacionamento, portagens, IRS, IRC e impostos indirectos, sobretudo IVA), fixando, este capítulo, o compromisso do PS não aumentar a carga fiscal e de não aumentar a receita fiscal e contributiva sobre as famílias e as empresas, garantindo que ela será sempre inferior à taxa de crescimento do PIB nominal. Mas nada sobre o principal imposto, o IVA, nomeadamente sobre essa iniquidade de o manter a 23% no gasóleo para aquecimento das casas e nada também sobre o financiamento da dívida pública, depois de termos assistido a uma decisão de um ministro socialista (Fernando Medina) sobre os certificados de aforro altamente restritiva, contabilisticamente desfavorável e penalizadora da poupança nacional como financiadora da dívida pública, desvalorizada a favor dos credores internacionais e da banca nacional. É de sublinhar que neste capítulo é assumida a ideologia das “contas certas”, o grande legado ideológico de António Costa, como pilar da política do PS, como se algum outro partido defendesse o contrário. Este pilar das “contas certas” levou a que o investimento público tivesse sido entre 2016 e 2023 inferior ao do tempo da troika. A este propósito, transcrevo o que aqui escrevi, em Junho de 2025, a propósito da moção de JLC: “Contas certas? Sim, desde que sejam respeitadas duas condições: a) que não se transforme os contabilistas de serviço em ideólogos do PS; b) que não impliquem um investimento público inferior ao do tempo em que a troika esteve por cá, como, de facto, aconteceu (segundo o Pordata: 2011-2015= 2,50% do PIB; 2016-2023=2,12%; mas se compararmos com os valores de 2016-2019 a diferença é muito maior: 1,77% para 2,50%). Portugal, em 2015, estava, em investimento público em percentagem do PIB, em 25.º lugar na UE, passando, em 2023, para 26.º lugar (em 2001 era o 2.º da UE, com 5% do PIB, e em 2009 o 17.º, com 4,1% do PIB). É nisto que penso quando ouço falar de contas certas e de investimento público”.

Entre as “contas certas” e um Estados social eficaz e justo muito haveria a dizer se for verdade o que é dito num estudo da NOVA, ou seja, que entre 2015 e 2024 a produtividade média do SNS caiu em cerca de 25% (e não é somente por o tempo de trabalho ter sido reduzido para 35 horas), tendo o investimento sempre aumentado (de cerca de 9 mil milhões, em 2015, para cerca de 15,5 mil milhões em 2024) a ponto de hoje o orçamento já ser superior a 17.000 milhões de euros (veja-se Barros, P.P. e Santos, C., 2025, “Orçamento de Estado para a Saúde. Ambição ou Ficção?”, em Observatório da Despesa em Saúde/10, Nova HE&M, Fundação “la Caixa” e BPI, Outubro de 2025). Uma contradição que deveria ter merecido a maior atenção no capítulo sobre a saúde, tal como a grave questão das urgências (fala-se de 45% de falsas urgências) e a sua parcial resolução não só pela penalização de quem a elas recorre indevidamente, pondo em risco quem delas precisa realmente, mas também por uma nova gestão dos centros de saúde como centros operacionais de cuidados primários, e não só como gabinetes de consulta e de administração.

9.

Universidade, investigação e ciência em nove medidas/propostas, em pouco mais de meia página. Fala-se de democratização do acesso, de divulgação da ciência, da internacionalização, do emprego científico, de doutoramentos e de contratação de doutorados – tudo orientações em curso. Mas não se fala da recente extinção da FCT e da criação da uma nova instituição que inclui a inovação; não se fala da avaliação das UI&D e dos projectos de investigação exclusivamente por equipas estrangeiras que não conhecem o país, revelando até desconfiança institucional relativa à neutralidade e à competência dos avaliadores nacionais; não se fala da total desvalorização da língua portuguesa neste processo, relativamente também a publicações em língua portuguesa; e não se fala da A3ES, enquanto entidade de controlo do ensino universitário, sem dúvida excessivo e fortemente penalizador da autonomia da universidade. Realidades de que depende todo o sistema de ensino superior e de investigação científica e que deveriam ter merecido alguma atenção.

10.

Estes são alguns assuntos que apenas servem para ilustrar a insuficiência e a inadequação do método extensivo de construção da moção, ou seja, a longa listagem indiferenciada de mais de quinhentas medidas/propostas como alternativa a uma priorização dos principais desafios que Portugal enfrenta nos sectores nucleares (saúde, habitação, imigração, fiscalidade, protecção civil, por exemplo), com a identificação das causas e da respectiva solução, tudo devidamente enquadrado naquela que é a filosofia política que hoje inspira o PS (e da qual não se fala) e que deve estar alinhada com as profundas transformações por que está a passar a nossa sociedade e em geral as sociedades contemporâneas. Apresentada como está, fica a sensação de a moção não passar de um contentor de palavras sem grande significado nem fundamentação visível. Em particular, o que é dito sobre o partido e o que a moção não toma em consideração, apesar do excesso de páginas que exibe. Por exemplo, refere a famosa semana de quatro dias, em estudo nos governos de António Costa, mas não se pronuncia sobre a gritante diferença entre o emprego público e o emprego privado, gerando cidadãos de primeira e cidadãos de segunda categoria. Muito em breve publicarei um livro sobre o PS onde terei ocasião de entrar muito mais a fundo naquilo que no meu entendimento deveria polarizar a atenção dos responsáveis do PS e, em particular, do seu secretário-geral, José Luís Carneiro. JAS@04.03.2026

 

Poesia-Pintura

A TUA VOZ

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “La Cortigiana”
JAS 2026
Original de minha autoria
 Março de 2026

“La Cortigiana” – JAS 2026

“En las cristaleras de nuestro salón 
de actos hay dos conceptos: 
poesía y elocuencia”
 
Santiago Muñoz Machado (1949)

POEMA – “A TUA VOZ”

OUVI-TE, HOJE
Ao longe,
Na memória,
Sons antigos,
Quentes,
Iluminados
Dentro de mim
À medida
Da fantasia,
Como se o desejo
Fosse tudo,
Mesmo aquilo
Que ter
Já não podia.

NÃO SABIA
Que me aquecia
Tanto a alma
Ouvir tão nítida
A tua voz,
Tão serena
E tão calma,
Como quando
Estávamos sós.

DEPOIS CHEGARAM
As palavras
E essa voz
Soou
Cá muito dentro
De mim,
Como harpa
Afinada
Por melodia
Sem fim.

E QUANTO MAIS
Bailávamos
A valsa lenta
Das palavras,
Mais eu te sentia
Como perfume
Sonoro
Na pauta
Do nosso canto,
Som e eco
De um coro,
A razão do meu
Encanto.

QUASE SENTIA
O calor
Desse teu corpo
Que tantas vezes
Desejei
Como abraço
Escondido
Que para nós
Inventei.

SEMPRE HOUVE
 A barreira
Do tempo
E um muro
No espaço,
Eu bem sei,
Mas ensaiámos
Muitos passos
No palco
Íntimo
Onde sempre
Contigo dancei.

OUVI-TE, HOJE,
Eu ouvi,
Ao longe,
Quando já te
Julgava
Perdida,
Mas depois
O que senti
Foi que não era,
Uma vez mais,
A derradeira
Despedida...

Artigo

ITÁLIA – O REFERENDO SOBRE A JUSTIÇA

Ou sobre Giorgia Meloni?

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

NOS DIAS 22 E 23 DE MARÇO ocorrerá em Itália um referendo sobre a justiça, depois da aprovação, na Câmara dos Deputados e no Senado, mas não por maioria de dois terços, da lei constitucional 253, de 30.10.2025, sobre a reforma da justiça. Qualquer que seja a participação dos eleitores o referendo, porque é constitucional e “confirmativo”, será válido. Do que se trata, no essencial? Da separação das carreiras dos magistrados judiciais e dos magistrados do ministério público, que em Itália não se verifica, existindo uma só carreira para ambas as magistraturas (“giudicante” e “requirente”).

1.

Na verdade, o que está em causa é a clara separação das carreiras dos procuradores e dos juízes, onde aqueles passam a ser simplesmente acusadores públicos, num estatuto equivalente ao dos advogados de defesa, ficando o juiz numa terceira e superior posição relativamente à acusação e à defesa. O vice-ministro da Justiça italiano formulou claramente o que está em causa deste modo: “o objectivo é pôr o juiz no vértice de um triângulo isósceles em cuja base, à mesma distância, estão o ministério público e o advogado” (Travaglio, M., 2026, Perché NO – Guida al Referendum su magistratura e politica in poche e semplici parole (Roma: PaperFirst, pág.  77). A esta posição equivalerá, de acordo com a “legge costituzionale”, a criação de dois conselhos superiores da magistratura, um para a magistratura judicial e o outro para a magistratura do ministério público, mas também de um Alto Tribunal (“Alta Corte”) para a matéria disciplinar, os três com composição determinada por sorteio. Tudo aqui.

2.

A discussão em Itália está a ser muito intensa e parece estar a ser altamente contaminada mais pelo confronto político geral do que pela matéria em causa propriamente dita, apesar de encontrarmos em ambas as posições, na do “sim” e na do “não”, personalidades de diferentes inspirações políticas, de direita e de esquerda. Mas é certo que em alguns (muitos) a posição assumida é mais determinada pela identidade do proponente (o governo Meloni) do que pela matéria concreta do referendo. No essencial, os defensores do “não” dizem que com a unificação das carreiras e a possibilidade de transição da posição de procurador para a de juiz e vice-versa, de resto muito comum em inúmeros países, fica mais garantida a legalidade e a imparcialidadedo ministério público, sendo a sua acção considerada mais como a de um “órgão de justiça” (Travaglio, 2026: 11,12, 59, 180,187), que age em nome da sociedade, do que como “órgão acusatório”, não se verificando efectivamente uma simetria com a posição de defesa. Como exemplo concreto, apontam os defensores do “não” o dispositivo legal que obriga o ministério público a entregar ao juiz provas a favor do réu, sob pena de sanção, quando, pelo contrário, a sanção recai sobre a defesa se esta entregar provas que incriminem o réu que defende (2026: 78). Isto representa uma efectiva assimetria entre acusação pública e defesa, colocando o ministério público num plano superior, ao lado da magistratura judicial – “órgão de justiça”, defensor da legalidade e imparcialidade na acção. Por outro lado, dizem, o facto de juízes e procuradores (pm) ganharem experiência no desempenho de ambas as funções isso dá-lhes maiores competências para o exercício de qualquer uma das funções (Travaglio, 2026: 62). De resto, como disse, esta mobilidade já se verifica na maior parte dos países.  Na verdade, diz Gustavo Zagrebelsky, “a ‘separação das carreiras’, (…) segundo os autores da Reforma, tem como objectivo tornar iguais as posições das partes perante o juiz ‘terceiro’ e imparcial” (2026: 12), enquanto, para ele, o ministério público é mais um “órgão de justiça” do que um “órgão de acusação”, em que, com esta reforma, ele se transformará, e até com maior poder acusatório (Travaglio, 2026, 12), com claro prejuízo para o cidadão, perdendo-se, assim, em justiça o que se ganha em poder acusatório. Diz, por sua vez, o procurador de Nápoles, Nicola Gratteri, em entrevista (na parte final do livro):  todos os países têm inveja “da independência não só do juiz, mas também do ministério público, o que é uma raridade. Devemos mantê-la firme, porque porque ela tem sentido só se o ministério público e o juiz tiverem a mesma cultura da jurisdição, isto é, se forem ambos imparciais” (2026: 187). Independência e imparcialidade, duas qualidades reconhecidas quer ao ministério público quer ao juiz. Em Portugal, como se sabe, a constituição só reconhece independência ao juiz, atribuindo ao ministério público apenas autonomia, ainda que o procurador-geral seja nomeado pelo PR sob proposta do primeiro-ministro. Já a imparcialidade parece ser uma contradição em termos, tratando-se, em qualquer caso, de um acusador público.  Também esta só poderá ser garantida pelo juiz “terceiro”, qualidade que lhe permite ser imparcial. Esta posição de Zagrebelsky e da generalidade dos defensores do “não” só é compreensível no quadro de uma concepção de tipo republicano, que eleva o ministério público a “órgão de justiça”, juntamente com o juiz, fazendo ambos parte orgânica de um bloco institucional do Estado (o tribunal) com o qual a defesa terá de se confrontar. Trata-se de uma concepção onde o Estado se agiganta perante os cidadãos e os seus direitos fundamentais. Uma assimetria que parece ferir gravemente o princípio da igualdade. Note-se que, em Portugal, mesmo com carreiras separadas, o ministério público se senta à direita do juiz e no mesmo plano elevado, ficando a defesa em posição de inferioridade. É disto que se trata.

3.

Os defensores do “sim”, onde se inclui, e de forma militante, o famoso juiz de “tangentopoli” e, depois, fundador e líder do partido “Italia dei Valori”, Antonio di Pietro, não só se colocam na mesma posição enunciada pelo vice-ministro da Justiça, sublinhando que o juiz deve ser uma figura terceira e superior às partes (acusação e defesa), como também criticam a influência da Associação Nacional de Magistrados (ANM)  e das diversas correntes que a integram na composição e na gestão do actual Conselho Superior de Magistratura (CSM). Vem a propósito lembrar o livro Il Sistema. Potere, politica, affari. Storia secreta della magistratura italiana (Torino, Rizzoli, 2021), de Alessandro Sallusti e Luca Palamara, uma entrevista daquele jornalista a este ex-magistrado, que foi durante quatro anos presidente da Associação Nacional dos Magistrados. Neste livro-entrevista Palamara conta como funcionava o que ficou conhecido como o “método Palamara”, ou seja, o modo como eram tomadas as decisões sobre o Conselho Superior da Magistratura e as próprias nomeações para cargos (designadamente para a vice-presidência do próprio CSM) numa promíscua rede de relações entre as correntes da ANM e a política ao seu mais alto nível. Palamara esteve no centro do sistema até que acabou por ser expulso da própria magistratura, vítima dos próprios jogos de poder internos e externos. Ou seja, o argumento de que, com a separação das carreiras, se irá verificar uma politização do ministério público cai por terra ao verificar-se que no actual sistema é já isso que acontece e de forma muito intensa, onde funciona uma rede que vai dos interesses pessoais dos magistrados aos das correntes internas da ANM e aos do poder político que estiver instalado no momento (por exemplo, Palamara relata episódios do tempo de Matteo Renzi PM e do M5S).

4.

A introdução do sorteio como regra que passará a impedir a contaminação do CSM ao nível da sua composição, da sua gestão e do processo de gestão das carreiras pelas inúmeras correntes que existem na ANM, ao mesmo tempo que o “Alto Tribunal” (“Alta Corte”) disciplinar, eleito também por sorteio, completa o fim do controlo disciplinar desta Associação, através do CSM, sobre os magistrados – é um dos pontos importantes do debate em curso. E um dos argumentos usados por Zagrebelsky para criticar o método do sorteio é o seguinte: “o sorteio pressupõe, precisamente, que todos e cada um valham um. Mas nem sequer na Atenas clássica – exemplo muito citado e muito superficial, retirado do século V a.C – as coisas se verificavam assim”. (…) “Quem deve o cargo a uma eleição tem consigo a força derivada de ter sido escolhido; quem é sorteado não tem mais do que a sorte, que seguramente não é uma força. O efeito da Reforma será a deslegitimação do órgão no seu conjunto” (2026: 16 e 15; itálico meu). A resposta que alguns dão é a seguinte: todos os que estão sorteados entraram na carreira por concurso e estão em condições de julgar e de condenar qualquer réu até a uma pena de prisão perpétua – por que razão, pois, não teriam legitimidade para argumentar perante os seus colegas? Mas outra resposta poderia ser a de pedir a Zagrebelsky que fosse reler com atenção o livro de Palamara e o relato sobre os métodos “idóneos” de escolha promovidos pela ANM (ou seja, a “eleição” pilotada pela ANM). Outro dos argumentos contra o sorteio é o de que quase todos os magistrados estão inscritos na ANM e que, por isso, nada acabará por mudar dentro do CSM (Travaglio, 2026: 79). Trata-se, todavia, de um argumento falacioso porque, na verdade, o que acontece é que acaba o seu poder de escolha porque se introduz o factor aleatório (o sorteio) na composição, criando um poderoso obstáculo a um funcionamento de tipo oligárquico, precisamente no sentido grego da palavra, da ANM.

5.

Todas estas questões são objecto de análise minuciosa no livro, citado no ponto 2. (Perché NO), de Marco Travaglio, director do influente jornal italiano  “Il Fatto Quotidiano”, com uma introdução de 15 páginas de Gustavo Zagrebelsky e, no fim, com uma entrevista ao procurador de Nápoles Nicola Gratteri. Na verdade, não se trata de “poucas e simples palavras”, como se lê no subtítulo, porque o livro é muito e minuciosamente argumentado a favor do “não”. De leitura obrigatória para quem se interesse pelo tema da justiça e pelo modo como ela está organizada e funciona (ou não funciona) em Itália. De qualquer modo, um belo livro que, aqui, cito abundantemente.

6.

Quando li a introdução de Zagrebelsky, a favor do “não”, escrevi no livro: “não estou de acordo com nada do que ele diz”. E tinha uma razão para o dizer: o facto de não ser tomada na devida consideração a diferença substancial entre a posição e as funções do juiz e as do ministério público, sendo certo que a) as carreiras unitárias; b) a definição funcional relativa ao ministério público, certamente inspirada no modelo republicano (“órgão de justiça” mais do que “órgão de acusação”, defensor da legalidade e da imparcialidade); e c) a assimetria da relação entre acusação pública e defesa – tudo  serve para colocar os magistrados do ministério público (magistrati requirenti) num plano superior, equivalente ao dos magistrados judiciais (magistrati giudicanti). No modelo liberal esta posição não caberia justamente porque nele os direitos individuais têm maior força e pregnância do que no modelo republicano. Direitos que podem mesmo ser anteriores (“naturais e imprescritíveis”) ao próprio Estado (veja-se o n.º 2 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789). Por outro lado, o que se nota recorrentemente na argumentação contra o referendo é a eterna suspeição de subordinação do ministério público ao poder político, designadamente ao poder executivo, sendo certo que na maior parte dos países de democracia representativa o ministério público depende, embora em graus diferentes, precisamente do governo (Áustria, Alemanha, França, Holanda, Espanha, Reino Unido e USA, por exemplo – 2026: 122-127). Nota-se também, no meu entendimento, uma excessiva desconfiança ou até mesmo uma desqualificação generalizada do poder político democrático e de origem electiva, apesar de legitimamente sufragado. Sobre o sorteio, julgo, como já disse, que, ao contrário do que defende Zagrebelsky e pelo que se sabe dos jogos de poder entre a ANM, os interesses individuais e corporativos e a política, ele reforça mais do que diminui a legitimidade dos órgãos, devido à introdução da aleatoriedade no modelo de escolha de legítimos membros das magistraturas. Em relação aos milhares de magistrados que entrarão no sorteio (cerca de 7200 juízes e de 2200 procuradores/pm – Travaglio, 2026: 52), o mecanismo certamente deverá vir a ser regulamentado por lei ordinária.

António di Pietro, ao referir-se ao ministério público, fala da emergência de um quarto poder,  o da Associação Nacional dos Magistrados, uma associação privada, e da necessidade de se recorrer a um “medicamento” que o limite. Este medicamento chama-se precisamente sorteio.

7.

O livro de Palamara sai em Janeiro de 2021, mas há muito que se sabia da existência activíssima das correntes no seio da magistratura. De qualquer modo, não é de excluir que Giorgia Meloni, que chega ao poder em Outubro de 2022 e que tem como estratégia de longo alcance o reforço do poder do executivo (através do chamado “premierato”), ou seja, um decisionismo executivo de base electiva, queira romper com o poder do ministério público tal como ele vem sendo exercido, ou seja, sob influência das correntes presente na ANM. A separação das carreiras e a recolocação do ministério público naquela que deve ser a sua colocação no modelo liberal, e não no modelo republicano que subjaz à construção de um compacto bloco judicial estatal; a introdução do método do sorteio para composição dos dois órgãos superiores; e, finalmente, a criação de um órgão superior distinto (Alta Corte), também ele composto por sorteio, que chama a si a esfera disciplinar – tudo isto tem como objectivo, no meu entendimento, uma reconfiguração do poder judicial naquela que é a área do seu poder interno, da sua composição à sua gestão. Não sei até que ponto Giorgia Meloni tenha tido em conta, ao avançar com esta lei constitucional, os novos tempos de “lawfare” que estamos a viver, lá onde o poder político está sujeito a um poder que tem visto crescer a sua capacidade intrusiva em todas as esferas da vida colectiva, incluída a de derrubar governos, como aconteceu recentemente em Portugal. Não sei. Mas a verdade é que parece não ser possível levar por diante um qualquer projecto decisionista enquanto se mantiver a seu lado um poder como aquele que acabou com a primeira república italiana, num processo que ficou conhecido como “tangentopoli” e que viu precisamente Antonio di Pietro como protagonista. E que, curiosamente, também teve como vítima ilustre Bettino Craxi, o primeiro decisionista democrático italiano, morto no exílio, na Tunísia (escrevi sobre o decisionismo de Craxi quando nos anos oitenta comecei a escrever como articulista regular do DN). Não sei se o pano de fundo da reforma será  também este, para além das fundadas razões internas da reforma, mas as variáveis estão todas lá. De qualquer modo, e depois de uma ponderada e argumentada avaliação dos argumentos dos defensores do “não” e do “sim”, se votasse em Itália, eu votaria “sim” neste referendo. Sem ser a panaceia que tudo resolve, como se vê pelo caso português e as suas graves derivas, a separação das carreiras parece-me ser a mais conforme à geometria organizacional da justiça e à natureza das funções dos seus agentes na relação com a cidadania e os seus direitos. JAS02-2026

 

Poesia-Pintura

A MUSA (QUE NÃO É) DE SIRACUSA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: "S/Título"
JAS 2026
Original de minha autoria
Fevereiro de 2026

“S/Título” – JAS 2026

A MINHA MUSA
Não veio
De Singapura
Nem  sequer
De Siracusa,
Não é branca
Nem traz paz,
Quando a vejo
Estremeço,
Mas é de presença
Fugaz.

E É DOURADA
Porque voa
Lá no alto
Junto ao sol
Que a ilumina
Levada
Pelo poeta,
É rápida,
Fugidia,
Quase divina,
Mas mais parece
Um cometa.

NÃO CANTA,
Não dança,
Nem pinta,
Ela deixa
A vida correr
Levada
Pelo destino...
.........
E é assim
Que tem de ser
Como eu
A imagino.

E EU TAMBÉM,
Sempre atraído
Por ela,
Já nem sei
Se a vou ver
A não ser
Na fantasia,
Pintada
Numa aguarela,
Desenhada
Em poesia.

POUCO SE SABE
Da musa
E nem o poeta
O diz,
Ela não vai
À janela
Pra da rua
Não se ver,
Foi sempre
O que ela quis
Mesmo sem nunca
O dizer.

A MINHA MUSA
Não vem
Lá de Siracusa
Nem sequer
De Singapura,
Não sei bem
De onde vem,
É musa,
É mesmo pura
Como em poesia
Convém.

O POETA
Perguntou
Coisas
À musa
E nem sequer
A conhecia?
Talvez,
Mas que importa,
Mais uma vez?
É assim
 A poesia...