Ensaio

CONSTELAÇÃO SIMBÓLICA E ANALÍTICA

«LIBAÇÕES»,
Poema de 
João de Almeida Santos.
Ilustração: «A Lua 
Desceu Sobre Mim»
 JAS 2026

André Moshé Veríssimo, PhD

“A Lua Desceu Sobre Mim” – JAS 2026

«Quem 
Deste poema 
Beber, 
Porque se sente 
Sozinho, 
Que saiba 
Que toda a casta 
Embriaga, 
E não só 
Se dela fizer 
Bom vinho»

 João de Almeida Santos,
«Libações»
 INTRODUÇÃO: A LIBAÇÃO 
COMO ACTO ONTOLÓGICO

O POEMA “LIBAÇÕES”, de João de Almeida Santos, publicado a 8 de Agosto de 2026, não se apresenta como mero artefacto lírico. É, antes, um acto ritual. A palavra libação — do latim libatio, o derramar de líquido em honra dos deuses — recupera aqui a sua força arcaica: o poema é, ele próprio, o líquido sagrado oferecido e, simultaneamente, consumido. Quem dele beber, bebe solidão e encontra embriaguez; bebe dor e encontra redenção. Esta dupla natureza — oferenda e intoxicação — constitui o eixo em torno do qual se organiza toda a constelação simbólica que o presente ensaio se propõe densificar. A ilustração que o acompanha, «A Lua Desceu Sobre Mim», da autoria do próprio poeta , não é ornamento externo. É o gesto visual da mesma descida: a Lua, força primordial e feminina, abandona a sua órbita distante e desce sobre o humano, tornando-se presença íntima, corpo, musa e prisão doce. O poema e a imagem formam, assim, um díptico de invocação. A descida da Lua é o acontecimento central: não o olhar do homem para o céu, mas a iniciativa do céu que se faz próximo. Este movimento de descida inverte a tradicional hierarquia contemplativa e estabelece, desde o primeiro instante, uma relação de intimidade sagrada entre o astro e o poeta. O presente ensaio propõe-se densificar as anotações hermenêuticas iniciais, estabelecendo não uma mera lista de influências e marcas, mas uma verdadeira constelação: um sistema de relações simbólicas em que cada estrela (marca poética) ilumina as demais e, no seu conjunto, revela a cartografia da alma que o poema desenha. Como ensina a antiga sabedoria hermética, «o que está em baixo é como o que está em cima»; aqui, o que está no verso é como o que está na alma do leitor que se deixa embriagar. A densificação não consiste em acrescentar ornamento, mas em revelar as camadas de sentido que a economia poética já contém, como quem, perante um vinho generoso, não o dilui, mas deixa que o tempo e a atenção o façam revelar a sua complexidade. Escrever sobre «Libações» é, pois, participar da própria libação. Que o leitor saiba: toda a casta embriaga — e a casta deste texto é a da análise que se faz prece e da crítica que se faz canto. A hermenêutica, quando é fiel ao objecto, não se coloca acima dele; bebe dele e, ao beber, deixa-se transformar. Este ensaio aspira a essa fidelidade.

DECIFRAÇÃO DAS INFLUÊNCIAS 
MÍTICAS E LITERÁRIAS

Nenhuma obra nasce do nada. «Libações» dialoga com uma linhagem que vai de Hesíodo a David Mourão-Ferreira, passando por Camões e Pessoa. Estas influências não são citações exteriores; são veias subterrâneas que alimentam a seiva do poema. Densificá-las é revelar como a tradição se faz presente sem se tornar peso, como a herança se transforma em invenção.

1. HESÍODO - A ancestralidade 
ritualística e a cosmogonia lunar

Em Hesíodo, particularmente na Teogonia e em Os Trabalhos e os Dias, a vinha e a terra não são meros elementos produtivos; são nós de ligação entre o humano e o divino. A fascinação perante o mistério astral — a Lua que regula as sementeiras, as marés e os ciclos menstruais — nasce dessa mesma ancestralidade. No poema de Almeida Santos, a Lua não é metáfora decorativa: é força primordial que «desceu sobre mim». Esta descida ecoa o movimento teogónico: as divindades não permanecem no Olimpo; interagem, descem, geram, transformam. Selene, na tradição grega, é a deusa que percorre a noite em carro de prata; aqui, ela abandona o carro e faz-se presença imediata sobre o poeta. A libação hesiódica era acto de reciprocidade: o humano oferece, o divino retribui com fertilidade ou protecção. Aqui, o poeta oferece o poema; a Lua-Diva retribui com inspiração e, paradoxalmente, com a doce prisão do amor. Como diz o verso inicial: «Quem deste poema beber, porque se sente sozinho…». A solidão é o solo onde a semente da libação germina. Hesíodo ensina que o trabalho e o ritual são respostas à condição humana de carência; Almeida Santos transforma essa carência em embriaguez criativa. A diferença é significativa: no poeta grego arcaico, a resposta à carência é a disciplina e a justiça; no poeta contemporâneo, a resposta é a celebração ritualizada da própria carência, transformada em oferta. A constelação começa, pois, com esta estrela arcaica: a Lua como potência cosmológica que desce e se faz íntima. Sem ela, as demais marcas perderiam o seu fundo mítico. A ancestralidade não é nostalgia de um tempo perdido; é reconhecimento de que certos gestos — a oferenda, a invocação, a embriaguez sagrada — permanecem estruturalmente necessários à alma humana, independentemente da época.

2. LUÍS DE CAMÕES 
A prisão doce e a medida do amor

A lírica camoniana habita o poema de modo profundo. A dicotomia entre desejo terrestre e amor platónico/sublime, a vivência simultânea da «medida velha» e da «medida nova», ecoa na tensão entre a embriaguez da casta (o vinho, o corpo) e a elevação da Diva (o céu, a alma). O verso camoniano célebre — «Amor é fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói e não se sente; / é um contentamento descontente; / é dor que desatina sem doer» — encontra eco directo na «doce teia», na «doce prisão» e no «enlevo interior» de «Libações». Camões legou à poesia portuguesa a capacidade de dizer o indizível do amor através do oxímoro e do paradoxo. Almeida Santos herda-a e densifica-a no contexto de uma libação moderna: o amor como ritual de redenção. Em Camões, o aprisionamento pelo amor é paradoxalmente libertação e cura da alma. O mesmo se verifica aqui: «Não há nela / Provação, / Liturgia / Do amor / Que enobrece / A alma / E cura / Da sua dor». A prisão é voluntária; a teia é tecida por uma fada; o encanto é de sereia. A diferença reside no tom: em Camões, o paradoxo do amor é muitas vezes trágico ou melancólico; em Almeida Santos, o paradoxo é celebrado como caminho de redenção. A prisão doce não é condenação; é liturgia. Esta inflexão celebratória constitui uma das originalidades do poema face à tradição camoniana que, no entanto, o alimenta.

Proverbialmente: quem ama, 
bebe da própria prisão 
e nela encontra a liberdade 
que a solidão não conhecia. 
A teia que prende é a mesma 
que sustenta; o fogo que arde 
sem se ver é o mesmo 
que ilumina a noite da alma.
3. FERNANDO PESSOA - O jogo conceptual 
e a inacessibilidade da perfeição

A presença de Fernando Pessoa manifesta-se no jogo linguístico e conceptual com a palavra «Casta». Esta flutua entre a casta da uva (a variedade que dá o vinho) e a virtude da pureza (castidade). «Diva», por sua vez, evoca simultaneamente a elevação espiritual e a cavatina de Bellini em Norma — «Casta Diva», a ária em que a sacerdotisa Druida invoca a Lua. Pessoa, mestre da sobreposição de sentidos, da ilusão e da representação intelectual da emoção, ensinou a poesia portuguesa a não temer a ambiguidade como espaço de verdade. Em «Libações», a ambiguidade não é falha de clareza; é a própria forma da verdade poética, que se recusa a ser reduzida a um único sentido. A busca pela perfeição inacessível — a amada que «sempre me fuja / Com medo / De ser seduzida» — é profundamente pessoana. Em Pessoa, o amor é quase sempre impossível ou diferido; a musa é heterónimo ou sombra. Em «Libações», a amada-Lua-Musa é capturada na palavra, mas permanece em fuga no real. Esta tensão entre imortalização poética e evasão existencial constitui uma das estrelas mais brilhantes da constelação: o poema captura o que o amor não consegue reter. Como o próprio Pessoa escreveu noutro contexto, a literatura é a maneira de se sentir a vida sem a viver. Aqui, a libação é a maneira de se embriagar do amor sem que a amada se deixe plenamente seduzir. A captura poética é, paradoxalmente, a única forma de posse possível; e é precisamente porque é apenas poética que se torna eterna. O jogo concetual pessoano permite ainda compreender a fluidez entre os planos: a mulher, a Lua e a Musa não são três entidades distintas que se sucedem; são três nomes da mesma presença. Esta sobreposição é a marca da inteligência poética que recusa a separação estanque entre o erótico, o cósmico e o artístico.

4. DAVID MOURÃO-FERREIRA 
- a sensualidade ritual 
e a liturgia do corpo

David Mourão-Ferreira legou à poesia portuguesa uma sensualidade elegante, uma musicalidade fluida e, sobretudo, a fusão do elemento erótico com o espiritual. O seu erotismo nunca é meramente carnal; pressupõe sempre um ritual, uma liturgia entre o corpo e o invisível. Em «Libações», esta herança é evidente na «doce teia», no «enleio», na «captura» e no medo da amada de ser seduzida. O poema funciona como um ensaio sobre a sedução, mas uma sedução que se faz ofício sagrado. A linguagem das sensações — o enlevo, a teia, a prisão doce — não descreve corpos; descreve a coreografia do desejo quando este se eleva à ordem do ritual. A musicalidade dos versos curtos, as rimas envolventes que simulam o efeito do vinho no corpo, o ritmo hipnótico — tudo isto ecoa a arte de Mourão-Ferreira de fazer da palavra um corpo que dança. A libação é, também, dança: o líquido derramado descreve um movimento, o poema descreve outro. Ambos conduzem ao êxtase. Em Mourão-Ferreira, o erotismo é frequentemente crepuscular, habitado pela consciência da fugacidade; em Almeida Santos, o erotismo é nocturno e lunar, habitado pela consciência da eternidade possível através do canto. A diferença de tom não anula a filiação; densifica-a.

O AMBIENTE POÉTICO, 
MELÓDICO E MARAVILHOSO

A atmosfera de «Libações» constrói-se através de uma musicalidade hipnótica. Os versos curtos, quase respiratórios, as rimas internas e finais que se entrelaçam como a «doce teia» de que o poema fala, criam um efeito de embriaguez no próprio acto de leitura. O leitor não observa a embriaguez: participa dela. É um espaço de transição — o crepúsculo ou a noite iluminada pela Lua argentada — onde o plano físico se funde com o onírico. A métrica irregular, a alternância de versos muito curtos com outros um pouco mais longos, produz um ritmo de ondulação, como o de um líquido que se derrama e se recolhe. A Lua ganha corpo, desce sobre o poeta e transforma o acto da escrita numa comunhão sagrada. Não há separação nítida entre o sujeito lírico, a amada, a musa e o astro. Tudo se confunde numa mesma substância fluida: a libação. Esta fusão é o segredo do ambiente maravilhoso: o maravilhoso não é o sobrenatural que irrompe; é o natural que se revela sagrado. O poema não inventa um mundo paralelo; revela a dimensão sagrada do mundo que já habitamos, quando o habitamos com a intensidade da atenção poética e amorosa. O ambiente é, ainda, um ambiente de transição e de limiar. A solidão inicial é o limiar; a embriaguez é a passagem; a redenção é o outro lado. Mas o outro lado não é um lugar definitivo onde se chega e se permanece; é um estado que se renova a cada leitura, a cada libação. O poema não fecha o círculo; mantém-no aberto, como a teia da fada que continua a ser tecida enquanto houver quem a deseje e quem a tema.

Proverbialmente: a noite 
que a Lua ilumina 
não é escuridão vencida, 
mas escuridão que se deixa amar. 
E o poema que a canta 
não é explicação do mistério, 
mas participação nele.
LEITURA ANALÍTICA 
DAS MARCAS POÉTICAS

As marcas que se seguem não são categorias isoladas. São estrelas de uma mesma constelação. Cada uma brilha com luz própria, mas o seu verdadeiro sentido só se revela na relação com as demais. Densificamo-las uma a uma, para depois as contemplarmos no conjunto. A ordem de apresentação não é hierárquica; é processual: partimos da embriaguez dionisíaca para chegar ao enigma que a todas envolve e nenhuma esgota.

1. A Marca Dionisíaca

Manifesta-se no acto de beber, na embriaguez, no vinho e na libertação do racionalismo. O vinho é o veículo para transcender a solidão e alcançar o transe criativo. Dioniso, deus do êxtase e da dissolução dos limites, habita cada menção à casta e à embriaguez. Mas não se trata de uma embriaguez meramente orgiástica: é embriaguez que conduz à «Casta Diva» e à redenção. O dionisíaco, aqui, purifica-se no contacto com o apolíneo da Lua argentada. Como ensina a tradição órfica, o êxtase não é fuga do real, mas intensificação do real até ao sagrado. A casta que embriaga não dissolve a consciência; eleva-a. O transe não é perda de si; é encontro com uma dimensão de si que a sobriedade quotidiana mantém adormecida. Neste sentido, a marca dionisíaca de «Libações» é uma marca de lucidez embriagada, não de embriaguez que obscurece.

2. A Marca do Ensaio e do Erotismo

O poema funciona como um ensaio sobre a sedução. O erotismo é insinuado pela linguagem das sensações: o «enleio», a «captura», o «medo de ser seduzida» e o contágio dos sentidos. Não há descrição explícita do corpo; há, antes, a coreografia do desejo. A amada teme ser capturada pelo amor que a imortaliza — paradoxo profundo: a sedução poética é mais poderosa e mais ameaçadora do que a sedução carnal, porque eterniza. O erotismo de «Libações» é, assim, um erotismo da palavra que se faz corpo e do corpo que se faz palavra. O ensaio, aqui, não é o género discursivo da argumentação; é o ensaio no sentido de tentativa, de prova, de experiência. O poema experimenta a sedução e, ao experimentá-la, revela as suas leis secretas: que o desejo se alimenta da distância; que a captura só é plena quando permanece incompleta; que o medo de ser seduzida é, também ele, uma forma de participação no jogo erótico.

3. A Marca da Luz e dos Minerais Nobres

Traduzida na «Lua Argentada». A prata simboliza a pureza reflexiva, o brilho frio mas acolhedor que ilumina a escuridão da alma sem a queimar, ao contrário do Sol. A prata é o metal da Lua na tradição alquímica e hermética; é o espelho, a reflexão, a receptividade. O poeta não invoca um astro ardente; invoca um astro que recebe e devolve a luz. A amada-Lua é, pois, espelho onde o poeta se contempla e se perde. A nobreza do mineral transmite-se à experiência amorosa: não é ouro de posse, mas prata de contemplação. Na alquimia, a prata (Luna) é o estágio intermediário entre o chumbo da matéria bruta e o ouro da perfeição. A Lua argentada de «Libações» ocupa precisamente este lugar intermédio: não é ainda a plenitude da redenção consumada, mas já não é a solidão opaca do início. É a luz que torna possível o caminho.

4. A Marca da Nostalgia (Saudade)

O desejo da amada que «sempre me fuja» instala o sentimento de distância intransponível. A beleza nasce da imperfeição do alcance: deseja-se o que se escapa. Esta é a saudade portuguesa na sua forma mais límpida — não a saudade do que se perdeu, mas a saudade do que nunca se possuiu plenamente. A fuga da amada não é rejeição; é condição de possibilidade do canto. Se a amada se deixasse capturar de vez, o poema cessaria. A saudade é, assim, o motor da libação contínua. A tradição lírica portuguesa fez da saudade não apenas um sentimento, mas uma estrutura ontológica: a consciência de que o que mais se ama é, por natureza, o que se ausenta. Em «Libações», esta estrutura é assumida sem melancolia destrutiva. A fuga é aceite como parte do ritual; o medo da amada é respeitado e, paradoxalmente, celebrado porque permite que o canto continue.

5. A Marca da Celebração

Exaltação da vida, da arte, do vinho e da capacidade de sentir plenamente através da poesia. Apesar da solidão inicial e da dor, o tom dominante não é elegíaco, mas celebratório. A libação é festa. Mesmo a prisão é doce; mesmo a teia é tecida por fada. Esta capacidade de celebrar no seio da carência é uma das heranças mais preciosas da tradição lírica ocidental e, em particular, da portuguesa. O poema não lamenta; oferece. E ao oferecer, transforma a falta em plenitude ritual. A celebração não anula a dor; integra-a. Não há na poesia de Almeida Santos a pretensão de um otimismo ingénuo. Há, antes, a coragem de celebrar apesar de, ou melhor, a partir de. A libação é o gesto que diz: mesmo na solidão, mesmo na fuga da amada, há algo digno de ser oferecido e bebido.

6. A Marca da Invocação

Estrutura-se como uma prece clássica dirigida à muse/divindade: «Casta Diva, Doce Lua Argentada, Dá-me sempre Inspiração». A forma invocatória recupera a tradição da musa épica e lírica, mas também a da oração. O poeta não descreve; pede. Não afirma posse; suplica continuidade. A inspiração é graça, não conquista. Esta humildade perante a fonte do canto é o que distingue a verdadeira invocação da mera retórica. E a graça pedida não é apenas para si: «Pra que seja / Também tua / E por todos / Adorada». A inspiração deseja-se partilhável. A invocação final do poema é, assim, um acto de generosidade: o poeta não quer a musa apenas para si; quer que ela seja de todos. Esta abertura do privado ao comum é uma das notas mais elevadas da peça.

7. A Marca do Amor

O amor surge sob a forma de dádiva e arrebatamento, simultaneamente força transformadora e prisão voluntária. Não é amor possessivo; é amor que se faz teia e que, nela, enobrece a alma. A amada é «a amada, / Que é a Lua / Argentada». A identificação é total: amar a mulher é amar a Lua; amar a Lua é amar a musa; amar a musa é amar o próprio acto de cantar. O amor, em «Libações», é o nome que se dá à unidade de todas as coisas que o poema celebra. Este amor não exige reciprocidade plena no plano existencial; contenta-se — e eleva-se — com a reciprocidade ritual da libação. A amada pode fugir; a Lua desceu. A mulher pode temer a sedução; a Diva já enleia. O amor poético encontra, assim, a sua plenitude precisamente onde o amor existencial encontra o seu limite.

8. A Marca da Redenção

A elevação espiritual alcançada através da aceitação da dor e da sua transformação em beleza ritualizada. A dor não é eliminada; é transfigurada. O «ritual de redenção» e o «remédio do sonhador» apontam para uma soteriologia poética: a salvação não vem de fora, mas do próprio acto de transformar a solidão em libação e a dor em canto. Esta é a grande promessa do poema: quem beber dele, mesmo sentindo-se sozinho, encontrará caminho para a redenção. A redenção, aqui, não é escatológica no sentido religioso tradicional; é imanente e contínua. Cada leitura, cada libação, é um acto de redenção renovado. O sonhador não é curado de uma vez por todas; é curado cada vez que bebe e cada vez que canta. A terapêutica da poesia é, assim, uma terapêutica da repetição ritual, não da cura definitiva.

9. A Marca da Dor

A dor existencial e a solidão são o ponto de partida («Porque se sente / Sozinho»). A poesia e a arte surgem como a única terapêutica eficaz. Sem a dor inicial, não haveria necessidade de libação. A dor é o solo; a embriaguez é a flor. Mas a dor não permanece no registo da queixa: é imediatamente integrada no ritual. Como na tradição da via negativa, a ausência e a carência tornam-se condições da presença do sagrado. A solidão do verso inicial não é acidental; é estrutural. O poema dirige-se explicitamente a quem se sente sozinho. A libação é, antes de mais, um remédio para a solidão. Mas não um remédio que a elimina por magia; um remédio que a transforma em comunhão possível — comunhão com a Lua, com a musa, com o próprio acto de beber e de cantar.

10. A Marca Litúrgica

Presente na terminologia sacra: «Libações», «Céu», «Alma», «Liturgia do amor», «Ritual de redenção». O profano transforma-se em sacro. O vinho deixa de ser apenas bebida; a amada deixa de ser apenas mulher; a escrita deixa de ser apenas técnica. Tudo é elevado à ordem do ritual. Esta sacralização não é escapismo; é o reconhecimento de que a experiência humana mais intensa — o amor, a solidão, a criação — participa já da ordem do sagrado, mesmo quando se desenrola no quotidiano. A liturgia do amor não necessita de templo exterior; o poema é o templo. A libação não necessita de altar de pedra; a página é o altar. Esta interiorização do sagrado é uma das marcas da modernidade poética e, ao mesmo tempo, uma das suas heranças mais antigas.

11. A Marca do Epicurismo

A procura do prazer elevado através do espírito, a apreciação do «bom vinho», a ataraxia obtida pela cura da dor através do enlevo poético. Não se trata do epicurismo vulgar da satisfação imediata, mas do epicurismo filosófico: o prazer estável que nasce da eliminação da dor desnecessária e da contemplação serena. A libação conduz a uma forma de ataraxia: a alma, curada da sua dor, repousa no enlevo. O prazer, aqui, é profundo e duradouro porque é ritualizado. Epicuro ensinava que o prazer verdadeiro é o da ausência de perturbação. Em «Libações», a perturbação (a solidão, a dor, a fuga da amada) é reconhecida e, através do ritual, transformada em enlevo. A ataraxia não é indiferença; é a paz que se alcança depois de se ter bebido profundamente da própria condição.

12. A Marca da Libação

O acto ancestral de derramar ou beber um líquido em honra dos deuses. Aqui, o próprio poema torna-se o líquido oferecido e consumido. Esta é a marca nuclear, aquela que dá nome ao texto e que organiza todas as demais. A libação é o gesto que une o dionisíaco (embriaguez), o litúrgico (ritual), o erótico (doce teia), o redentor (cura) e o invocatório (prece). Quem bebe do poema participa do mesmo acto que o poeta realiza ao escrevê-lo. A leitura é, também ela, libação. Na antiguidade, a libação podia ser de vinho, de leite, de mel, de azeite. Aqui, a libação é de palavras. Mas as palavras, quando verdadeiramente poéticas, têm a densidade e a fluidez do líquido sagrado. Derramam-se, embriagam, elevam, curam. O poema não descreve a libação; realiza-a.

13. A Marca Enigmática

Reside no duplo sentido constante da linguagem: a ambiguidade da palavra «Casta», a fluidez entre a mulher, a Lua e a Musa, e o receio da amada em ser capturada pela própria força do amor que a imortaliza. O enigma não é obstáculo à compreensão; é o espaço onde a compreensão se aprofunda. Como no oráculo, a verdade é dita de forma que obriga o ouvinte a trabalhar. O leitor de «Libações» é chamado a habitar a ambiguidade, não a resolvê-la. Só assim a constelação se revela em toda a sua densidade. O enigma final — o medo da amada de ser seduzida pelo amor que a captura — permanece aberto. É possível ler nele a resistência da liberdade feminina à possessão; é possível ler a consciência de que a imortalização poética é uma forma de captura; é possível ler o reconhecimento de que o desejo só se mantém vivo enquanto a plenitude se furta. Todas estas leituras são legítimas; nenhuma as esgota. A marca enigmática é a garantia de que o poema continua a viver para além de qualquer interpretação.

A CONSTELAÇÃO SIMBÓLICA 
Rede de Significados

Chegados a este ponto, as marcas individuais devem ser contempladas como estrelas de uma mesma figura celeste. No centro da constelação brilha a Casta Diva / Lua Argentada: ponto de convergência de todas as forças. Em torno dela orbitam, em relações de tensão e complementaridade, as demais potências. A constelação não é um inventário; é um organismo vivo de sentidos que se iluminam mutuamente. A Marca Dionisíaca e a Marca da Luz e dos Minerais Nobres formam um eixo de polaridade criativa: o vinho (quente, embriagante, terrestre) e a prata lunar (fria, reflexiva, celeste). A síntese desta polaridade é a própria libação: líquido que embriaga e, ao mesmo tempo, eleva. Sem o dionisíaco, a Lua seria apenas contemplação distante; sem a prata lunar, o vinho seria apenas embriaguez sem transcendência. A tensão entre ambos gera a energia do poema. A Marca do Amor e a Marca da Nostalgia formam outro eixo: a presença desejada e a ausência que a torna desejável. Sem a fuga da amada, o amor perderia a sua intensidade elegíaca; sem o amor, a fuga seria apenas indiferença. A tensão entre captura e evasão é o motor do canto. A saudade não é o contrário do amor; é a sua forma mais elevada e mais dolorosa — e, por isso, a mais fecunda para a poesia. A Marca da Dor e a Marca da Redenção constituem o eixo soteriológico. A dor é o ponto de partida; a redenção, o horizonte. Entre elas, a Marca Litúrgica e a Marca da Libação operam a transformação: o ritual é o cadinho onde a dor se transmuda em beleza e a solidão em comunhão. Este eixo vertical — da carência à elevação — dá ao poema a sua dimensão de caminho espiritual, sem que ele se torne jamais didáctico ou moralizante. A Marca da Invocação e a Marca da Celebração abrem o poema para além do sujeito lírico: a inspiração pede-se para ser partilhada; a celebração exalta o que é comum. O poema não é monólogo; é oferenda colectiva. A prece final — «Pra que seja / Também tua / E por todos / Adorada» — rompe o círculo da intimidade e convida o leitor a participar da mesma adoração. Por fim, a Marca Enigmática e a Marca do Ensaio e do Erotismo garantem que a constelação nunca se fecha numa interpretação única. O erotismo insinua sem revelar; o enigma sugere sem esgotar. A constelação permanece viva porque permanece parcial e aberta. Como as estrelas do céu, que mudam de posição segundo o ponto de observação e a hora da noite, as marcas de «Libações» revelam configurações diferentes segundo o leitor e o momento da leitura. Esta abertura não é fraqueza; é a condição da sua perenidade.

Proverbialmente: a constelação 
não se possui; contempla-se. 
E quem a contempla 
por tempo suficiente, 
descobre que as estrelas 
estão também dentro de si. 
O mapa do céu é, 
também, mapa da alma
NOTAS SOBRE A ESTRUTURA 
E A PROSÓDIA

O poema organiza-se em cinco movimentos, que correspondem aproximadamente às estrofes tipográficas do texto original. O primeiro movimento estabelece a condição de partida: a solidão e a promessa de que a casta embriaga. O segundo eleva a casta à Diva e introduz a redenção. O terceiro identifica a Diva com a amada e com a Lua, e introduz a teia e o encanto de sereia. O quarto aprofunda a natureza da teia como liturgia e ritual de redenção. O quinto e último é a invocação directa e a aceitação da fuga da amada. Esta progressão não é linear no sentido narrativo; é espiralada. Cada movimento retoma e densifica o anterior, como o líquido da libação que se derrama em círculos concêntricos cada vez mais amplos. A prosódia privilegia o verso curto, muitas vezes de duas a quatro sílabas, criando um ritmo de respiração acelerada e de batimento cardíaco. As rimas são frequentes, mas não sistemáticas no sentido de esquemas fixos; aparecem como eco e ressonância, reforçando o efeito de embriaguez. A repetição de palavras-chave — casta, diva, lua, teia, libação, redenção — funciona como leitmotiv musical, ancorando a memória do leitor e densificando o campo semântico. O ouvido é conduzido por estas recorrências como o corpo é conduzido pelo vinho: gradualmente, sem violência, mas de forma irreversível. Esta economia formal é essencial à eficácia simbólica. Um poema mais longo ou mais discursivo diluiria a intensidade da libação. A concisão obriga cada palavra a carregar o máximo de sentido; a musicalidade obriga o corpo do leitor a participar do ritmo. Forma e conteúdo são, aqui, indissociáveis: a forma é já a embriaguez de que o conteúdo fala. Quem lê em voz alta descobre que o poema pede para ser murmurado ou cantado em voz baixa, como uma prece ou como um encantamento. A oralidade residual é forte: o texto parece lembrar-se de ter sido dito antes de ser escrito.

A Ilustração e o Díptico Visual

A ilustração «A Lua Desceu Sobre Mim», da autoria do próprio João de Almeida Santos (JAS 2026), não é apêndice ornamental. Constitui a metade visual do mesmo acto de invocação. O díptico poema-imagem realiza plenamente o que a tradição clássica designava por ut pictura poesis: a poesia que se faz imagem e a imagem que se faz poesia. A descida da Lua, acontecimento central do título da pintura, é o mesmo acontecimento que o poema canta. A primeira pessoa — «sobre mim» — estabelece a intimidade radical: a Lua deixa de ser objecto distante e torna-se presença que invade e transforma o espaço do sujeito. Quem contempla a ilustração vê o gesto já realizado; quem lê o poema participa da sua realização verbal. Juntos, realizam a libação completa: o derramar das palavras e o ver da Lua que desce. No seio da constelação simbólica, a ilustração ocupa o lugar da estrela visível. Enquanto o texto trabalha com a ambiguidade e a sobreposição de sentidos, a imagem oferece a evidência imediata do acontecimento. Esta complementaridade reforça todas as marcas: a dionisíaca (a embriaguez do olhar), a lunar (a prata que desce), a invocatória (o gesto de acolhimento) e a enigmática (o mistério de uma Lua que escolhe descer sobre um humano particular).

ECO DE BELLINI
A Casta Diva de "Norma"

A expressão «Casta Diva» não é invenção isolada. É citação e reinvenção da célebre cavatina de Vincenzo Bellini na ópera Norma (1831). Nessa ária, a sacerdotisa drúida Norma invoca a Lua — Casta Diva — para que espalhe a sua luz de prata sobre o bosque sagrado e acalme os corações. A invocação é, ao mesmo tempo, prece colectiva e prece íntima: Norma pede paz para o seu povo e, em segredo, para o seu próprio coração dilacerado pelo amor proibido a um romano. Almeida Santos recupera esta invocação e desloca-a com mestria. Em Norma, a Casta Diva é a Lua invocada por uma mulher; em «Libações», a Casta Diva é a Lua que se identifica com a amada e é invocada por um homem. A inversão de género e de perspectiva densifica o símbolo: a Lua continua a ser pureza e luz, mas torna-se também objecto de desejo erótico e de captura poética. O eco de Bellini acrescenta à constelação uma dimensão musical e operática de grande densidade: a libação não é apenas lírica; é também ária, canto elevado, voz que se eleva na noite para pedir à Lua que desça. Quem conhece a melodia de Bellini ouve, por baixo dos versos, a prece que há quase dois séculos pede à mesma Lua a mesma graça. Esta intertextualidade opera em vários níveis. No nível formal, reforça a marca da invocação e da musicalidade. No nível simbólico, liga o poema à tradição do bel canto e à figura da sacerdotisa que, como o poeta, habita o limiar entre o sagrado e o erótico, entre a pureza ritual e a paixão proibida. Norma e o sujeito de «Libações» partilham a mesma condição: ambos cantam um amor que a ordem do mundo considera impossível ou perigoso, e ambos encontram na Lua a única testemunha capaz de compreender.

O Leitor como Participante da Libação

O poema dirige-se explicitamente a um leitor: «Quem deste poema / Beber, / Porque se sente / Sozinho…». A estrutura de endereçamento transforma a leitura em participação ritual. O leitor não é espectador; é convidado a beber. Beber o poema é aceitar a embriaguez que ele oferece; é reconhecer a própria solidão como ponto de partida e a libação como caminho possível de redenção. A tradição hermenêutica contemporânea insiste na participação activa do leitor na construção do sentido. Em «Libações», esta participação é levada mais longe: não se trata apenas de interpretar, mas de consumir, de se deixar embriagar, de entrar no ritual. O sentido não é algo que se extrai do texto; é algo que se bebe com ele. E, como em toda a libação verdadeira, o bebedor é transformado pelo que bebe. A hermenêutica torna-se, assim, uma forma de ascese e de celebração simultâneas. O ensaio que o leitor agora lê participa da mesma lógica: é também ele uma libação, oferecida a quem se sente sozinho perante a densidade do poema e deseja encontrar caminho de compreensão e de partilha.

Proverbialmente: o poema 
que se lê sem se deixar 
beber permanece fechado; 
o poema que se bebe 
sem se deixar ler dilui-se. 
Só a atenção que é, 
ao mesmo tempo, interpretação 
e entrega revela 
a constelação em toda 
a sua luz. Que o leitor, 
ao terminar, não feche 
apenas a página, mas derrame, 
a seu modo, a sua própria 
oferenda — de silêncio, 
de gratidão, ou de um novo canto
CONCLUSÃO - A SABEDORIA DA LIBAÇÃO

«Libações» ensina, na sua densíssima economia de meios, uma sabedoria antiga e sempre nova: que a solidão pode ser o início de uma comunhão; que a dor pode ser o solo de uma redenção; que o amor, mesmo quando se furta, pode ser cantado e, no canto, imortalizado; que a palavra, quando se faz ritual, recupera o seu poder de transformar o bebedor. Esta sabedoria não se enuncia sob a forma de doutrina; derrama-se sob a forma de libação. Quem a bebe, compreende-a no corpo e na alma, não apenas no intelecto. A constelação que desenhámos não esgota o poema. Nenhum mapa esgota o território. Mas permite que o leitor se oriente no espaço simbólico que Almeida Santos abriu com a precisão de quem sabe que a verdadeira poesia não explica o mistério: habita-o e convida a habitá-lo. A densificação hermenêutica não pretende substituir a experiência directa do poema; pretende, antes, preparar o terreno para que essa experiência seja mais plena, mais atenta, mais grata. Como o enólogo que descreve o terroir sem pretender substituir o vinho, o hermeneuta descreve a constelação sem pretender substituir a contemplação. No fim, permanece o gesto essencial: a libação. Derramar. Oferecer. Beber. O poeta derramou as palavras; o leitor bebe-as. Entre o derramar e o beber, acontece o milagre discreto da comunhão. A Lua desceu. A casta embriaga. A Diva enleia. A teia prende e liberta. A dor cura-se no ritual. A inspiração pede-se e partilha-se. E a amada, mesmo fugindo, permanece no centro da constelação, argentada e eterna. Esta eternidade não é a da posse; é a da presença ritual. Enquanto houver quem beba o poema, a Lua continuará a descer. Que quem deste ensaio beber — e do poema que o inspirou — saiba: toda a casta embriaga. E se a casta for Diva, e a Diva for Lua, e a Lua descer sobre a alma, então a embriaguez será redenção e a prisão será a mais doce das liberdades. E que, ao terminar a leitura, o leitor não feche apenas o livro, mas derrame, a seu modo, a sua própria libação — de gratidão, de silêncio, ou de um novo canto.

«Casta Diva, 
Doce Lua 
Argentada, 
Dá-me sempre 
Inspiração 
Pra cantar 
A musa amada 
Pra que seja 
Também tua 
E por todos 
Adorada»
REFERÊNCIAS

Almeida Santos, J. de. (2026). Libações [Poema]. (Ilustração: A Lua Desceu Sobre Mim). Publicação original do autor. (Agosto de 2026).

Bellini, V. (1831). Norma [Ópera]. La Scala. Milão, Itália.

Camões, L. de. (1994). Rimas (A. J. Saraiva, Ed.). Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Obra original do séc. XVI). Lisboa, Portugal.

Epicuro. (1997). Carta a Meneceu e máximas principais (A. L. A. de Sousa, Trad.). Edições 70. (Obra original ca. 300 a.C.). Lisboa, Portugal.

Hesíodo. (2008). Teogonia (A. M. L. de Seabra, Trad.). Edições 70. (Obra original séc. VIII-VII a.C.). Lisboa, Portugal.

Hesíodo. (2010). Os trabalhos e os dias (A. M. L. de Seabra, Trad.). Edições 70. (Obra original séc. VIII-VII a.C.). Lisboa, Portugal.

Horácio. (2008). Arte poética (A. M. L. de Seabra, Trad.). Edições 70. (Obra original ca. 19 a.C.). Lisboa, Portugal. [Contém o princípio ut pictura poesis]

Mourão-Ferreira, D. (2000). Obra poética (Vols. 1-2). Dom Quixote. Lisboa, Portugal.

Pessoa, F. (2006). Poesia completa de Álvaro de Campos (T. R. de Assis, Ed.). Assírio & Alvim. Lisboa, Portugal.

Pessoa, F. (2011). Livro do desassossego (R. Zenith, Ed.). Assírio & Alvim. Lisboa, Portugal.

NOTA

As referências a tradições hermética, órfica, alquímica e da saudade portuguesa são de natureza cultural-histórica e não remetem a uma edição única específica. A menção à via negativa reporta-se à tradição da teologia mística cristã e neoplatónica. A libação enquanto prática ritual reporta-se às fontes clássicas gregas e romanas (Hesíodo, entre outras).

AMV@08-2026

Poesia-Pintura

LIBAÇÕES

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “A Lua Desceu
 Sobre Mim” - JAS 2026
Original de minha autoria
Agosto de 2026

“A Lua Desceu Sobre Mim” – JAS 2026

POESIA – “LIBAÇÕES”

QUEM
Deste poema
Beber,
Porque se sente
Sozinho,
Que saiba
Que toda a casta
Embriaga,
E não só
Se dela fizer
Bom vinho.

MAS SE A CASTA
Embriaga,
Muito mais
Inebria
Se for Diva;
Será o céu,
Será paixão,
O que sempre
Nos cativa,
Será alma
Capturada
Numa doce
Libação
Que nos leva
À Casta Diva
E à nossa
Redenção.

 É CASTA,
Logo embriaga,
E é Diva,
Logo enleia,
Casta Diva,
A amada,
Que é a Lua
Argentada
E enreda
Em doce teia,
Tecida
Por uma fada,
Como encanto
De sereia.

DOCE TEIA,
Doce prisão,
É divina
Libação
E é enlevo
Interior,
Não há nela
Provação,
Liturgia
Do amor
Que enobrece
A alma
E cura
Da sua dor,
Ritual
De redenção,
Remédio
Do sonhador.

CASTA DIVA,
Doce Lua
Argentada,
Dá-me sempre
Inspiração
Pra cantar
A musa amada
Pra que seja
Também tua
E por todos
Adorada,
Mesmo que sempre
Me fuja
Com medo
De ser seduzida,
Pelo amor
Capturada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notícia

NOVIDADE EDITORIAL DA ACA EDIÇÕES

“NOVOS FRAGMENTOS
Para um Discurso sobre a Poesia”
(S. João do Estoril, ACA Edições,
2026, 284 páginas)

De João de Almeida Santos

JAS, Novos Fragmentos, S.João do Estoril, ACA Edições, 2026. CAPA: “Melancolia” – JAS 2023

SINOPSE

É o meu segundo livro de “Fragmentos”. Trata-se de 214 reflexões para um discurso sobre a poesia, distribuídas por 24 capítulos, a partir da própria experiência como poeta, seguindo uma nobre tradição que encontra raízes em Pascal, Novalis, Hofmannsthal, Barthes, Pessoa e tantos outros autores que nos legaram fascinantes obras de referência, no modelo de fragmentos. Cada fragmento encerra, na linha Schlegel, um conteúdo totalmente autónomo que pode ser lido e interpretado sem recurso a referências externas, constituindo-se, assim, este livro, como um excelente “Livro de Cabeceira” para os amantes de poesia. A leitura poderá ser, portanto, também ela, fragmentária. Um fragmento de cada vez. Para reflexão.

Em breve, nas livrarias. Lançamento previsto para Setembro, na Guarda.

 ACA EDIÇÕES

JAS. A Dor e o Sublime. 2023 (Esgotado)
JAS. Política e Ideologia na Era do Algoritmo. 2024 (Esgotado)
JAS. Fragmentos – Para um Discurso sobre a Poesia. 2025 (Esgotado) 

JAS@08-2026

 

Artigo

O TRIUNFO DA VONTADE

João de Almeida Santos

“S/Título” -JAS 2026

ATRIBUI-SE, mas não sei se correctamente, a Frederico II, “O Grande” (1712-1786), a seguinte declaração: “o meu povo e eu chegámos a um acordo que satisfaz ambos: eles dizem o que querem, e eu faço o que quero”.  Frederico II escreveu um famoso livro, Antimachiavel ou examen du Prince de Machiavel (La Haye, 1741), e Voltaire, que o teria ajudado a escrever o livro, foi um seu colaborador muito próximo. Um monarca que, em nome da sã moralidade, dedicou todo um livro a refutar com vigor O Príncipe, de Maquiavel, capítulo a capítulo (veja o meu Os Intelectuais e o Poder, Lisboa, Fenda, 1999, 33-36). Não sei se efectivamente esta declaração é verdadeira, até porque parece contrariar o que se lê no Antimaquiavel: “Em política dizei-me o que quiserdes, discutí, construí sistemas, apresentai exemplos, usai todas as subtilezas: apesar disso, no fim, regressareis ao conceito de justiça” (L’Antimachiavelli, Pordenone, Ed. Studio Tesi, 1987, Cap, XXIV, pág. 112). E a justiça não pode ser traduzida por “faço o que quero”. Mas a verdade é que esta declaração me suscitou uma reflexão crítica sobre a política actual, sobre a própria ideia de política tal como parece estar a ser cada vez mais assumida e até declarada. Ou seja, quando a ideia de política parece estar a identificar-se exclusivamente com a ideia de poder. Onde o importante é ter o controlo do poder de Estado, tudo o resto sendo secundário e meramente instrumental. E onde até a ideia de justiça, de que falava Frederico II, passou a ser convertida em arma de arremesso político com vista à conquista do poder (Lawfare).

1.

Digam o que vos apetecer, eu faço o que quero – há, nesta frase, uma espécie de dissociação entre o livre uso da palavra e o livre uso do poder. Com efeito, esta nova ideia de política acontece, hoje, em território formalmente democrático. A palavra de um lado e o poder do outro. Como se a palavra não servisse para legitimar o poder. E o poder não se legitimasse pela palavra. Liberdade cada vez mais difusa e poder cada vez mais concentrado. E parece ser verdade que nem sequer os ministros de Frederico II tinham qualquer autonomia de decisão. Tu falas e eu decido. Coisa estranha, mas é isto que parece insinuar-se nesta declaração. Uma dissociação que, afinal, talvez nunca tenha sido assumida com tanta clareza como hoje, em democracia representativa. Porque mesmo nos regimes totalitários a palavra (dos governados) era considerada importante e perigosa e, por isso, absolutamente condicionada e vigiada. Não se podia dizer o que apetecia porque o resultado poderia ser a prisão e a exclusão. Mas também a palavra do poder era considerada fundamental para a sua própria preservação. Creio não ser preciso revisitar estes sistemas, por demais conhecidos. Mas parece-me interessante citar o que, sobre o assunto, diz Maquiavel, em O Príncipe (1513): “sendo dunque uno principe necessitato sapere bene usare la bestia, debbe di quelle pigliare la golpe e il lione (…). Coloro che stanno semplicemente in sul lione, non se ne intendano” (Cap. XVIII; Opere, Milano, Mursia, 1966, pág. 99; itálico meu). O que daqui há a reter é que os que baseiam o poder somente na força (“in sul lione”) não sabem o que é verdadeiramente o poder. Ou melhor, reduzem, erroneamente, o poder a uma só das suas dimensões fundamentais. Até porque a identificação do poder com a força (que pode ser militar ou económica) representa, de facto, uma errada concepção do próprio poder – a imposição exterior da vontade. sem consentimento daqueles a quem se aplica, torna, de facto, o poder ilegítimo e frágil, negando-se, por isso, como poder efectivo.  O que se deduz da afirmação de Maquiavel é que é necessário usar a inteligência (“la golpe”, a raposa) para ter os favores do povo, para que a vontade seja livremente aceite como se fosse a própria vontade, para que o governo do soberano seja considerado como se fosse o governo do próprio povo. Mas, pelo contrário, o que temos hoje é uma exibição descarada da força (o caso mais evidente, em democracia, é o do actual presidente dos Estados Unidos) já sem grande preocupação de uso sequer da clássica dissimulação e de um discurso que colha os favores da opinião pública e se apresente como legítimo. Podes dizer o que te apetece, mas eu tenho a força, uso-a e imponho-te a minha vontade. O caso das tarifas é claro. E a permanente e exibida ameaça de uso da força também. O triunfo da vontade. Trump já o assumiu explicitamente: a manchete do New York Times de 09.01.2026 é muito clara a este respeito: “Trump Lays Out a Vision of Power Restrained Only by ‘My Own Morality’ ”, “my own mind”. Não há direito internacional ou tratados que limitem o seu poder, mas apenas a sua própria moralidade. Ou seja, a sua própria vontade (veja o meu artigo “O Grau Zero da Política”, de 13 de Janeiro de 2026, no seguinte link: https://joaodealmeidasantos.com/2026/01/13/artigo-235/).

2.

É claro que estamos numa época onde esta esfera da circulação pública de ideias é tão vasta, tão diferenciada, tão fragmentada e tão complexa, onde existe uma imensa mistura de informação certificada (media) e não certificada (redes sociais) e de desinformação, designadamente através de bots, que hoje já se tornou quase banal falar de “pós-verdade” e de “fake news”, como se isso caracterizasse, no essencial, a comunicação pública. O relativismo universal. Este aspecto dispensa a dissimulação, que era sempre mais ou menos sofisticada e profissional (para isso havia os spin doctors), e favorece o livre uso do poder já sem necessidade de o vestir ideologicamente. Apenas de o conquistar, não importa como. O relativismo universal na comunicação pública faz o seu caminho de forma, digamos, autopoiética, gerando uma imensa incerteza acerca do que é verdadeiro ou falso, do que é certo ou errado, do que é bom ou mau, do que é belo ou feio, sobretudo através do veículo audiovisual, onde estas relações são mais difíceis de verificar porque se apresentam como narrativas onde convivem elementos reais com elementos fictícios, inventados ou falsos. Tudo em regime de liberdade formal. A hiperfragmentação, a comercialização integral e a descaracterização da esfera pública, por um lado, levam a uma desqualificação do processo deliberativo e, por outro, abrem espaço para uma concentração discricionária do poder. Mas a verdade é que o poder democrático só se legitima se se confrontar com uma sociedade civil robusta e dotada de capacidade crítica e vigilante sobre a gestão pública do poder. Precisamente porque é gestão pública, não privada (como cada vez mais parece ser a gestão política americana).

3.

Esta fase da política é nova, até porque acontece em terreno democrático, embora tenha raízes já longínquas, e corresponde a um abaixamento de nível que compromete a própria democracia, a sua própria matriz. A política de entre-guerras, no séc. XX, acontecia na era de ouro da ideologia, onde, à esquerda e à direita, as referências axiológicas e normativas, ancoradas em “grandes narrativas”, serviam de guião seguro às massas e determinavam códigos de comportamento em linha com os regimes políticos que se iam instalando nas sociedades europeias, do Atlântico aos Urais. Fomentavam coesão em torno de ideais, fossem eles quais fossem, mesmo que exibissem e incorporassem uma legitimação ideológica da violência – do nazismo que atribuía à raça ariana o direito e o poder de aniquilar outras raças consideradas inferiores (inspirado na obra do senhor Gobineau) ao comunismo, que visava a aniquilação da burguesia (e da propriedade privada) em nome da história. Mas tudo estava inscrito numa “grande narrativa”, numa visão articulada do mundo que enquadrava o comportamento das massas. Com o fim da segunda guerra mundial e o aparecimento da televisão haveria de se verificar uma queda progressiva das ideologias, das chamadas “metanarrativas”, a emergência da sociedade pós-moderna e, com o desenvolvimento das tecnologias, já a partir dos anos quarenta, da sociedade pós-industrial. Seguir-se-ia uma nova fase, com a difusão social da internet e do digital, com as redes sociais e com a inteligência artificial, onde a comunicação pública passou a ser processada por novos canais que alteraram profundamente a comunicação pública que se processava através das tradicionais plataformas de comunicação e na qual emergem novos sujeitos de comunicação com novas características (os prosumers) e numa dimensão que não conhece paralelo na história da humanidade. Acresce ainda que, com o desenvolvimento da inteligência artificial generativa, esses novos sujeitos passam a ter uma capacidade de informação e de produção de conteúdos, através do sistema LLM (Large Language Model), verdadeiramente enorme sem que a isso corresponda um efectivo desenvolvimento das capacidades subjectivas do utilizador, dos sujeitos que a usam. O que acontece é a disponiblidade social de sofisticadas próteses tecnológicas que dotam o cidadão de capacidades que já excedem a sua própria estrutura intelectual e cognitiva. Ou seja, trata-se de uma função instrumental altamente sofisticada (Chat GPT, da Open AI GPT; Gemini, da Google; ou Claude, da Anthropic) disponível para a generalidade dos sujeitos que circulam activamente nas plataformas da comunicação digital.  Daqui resulta um “espaço intermédio” ou espaço público de comunicação verdadeiramente complexo que gera conteúdos praticamente impossíveis de controlar (até porque grande parte deles já são gerados por bots e, depois, administrados por algoritmos), sendo, para tal, necessário regressar às fontes de produção de informação certificada, ou seja, às plataformas clássicas que se assumem como sujeitos produtores de informação certificada (os media e o jornalismo profissional) e aos quais é possível imputá-la directamente. Independentemente do maior ou menor cumprimento dos códigos éticos do jornalismo, a verdade é que estes códigos existiam e ajudavam à procura da objectividade, da imparcialidade e da relevância na produção da informação, ajudando a moldar a capacidade crítica da cidadania e a proporcionar um processo deliberativo robusto. Com a “liquefação” ou a desagregação da esfera pública (Offentlichkeit) o processo deliberativo torna-se ineficiente e improdutivo para uma efectiva dialéctica com o poder de Estado, permitindo que este se reforce para além do que prevê a matriz da democracia. O Estado democrático moderno cresceu à medida do crescimento da própria sociedade civil e dos seus órgãos expressivos e mediadores, aquilo que Gramsci designava por “aparelhos de hegemonia”. O Estado que não se funda somente “in sul lione” deve funcionar no quadro de uma sociedade que se exprime através dos seus “aparelhos de hegemonia”, aqueles que, erroneamente, Louis Althusser designou como “aparelhos ideológicos de Estado”, estatizando um conceito que em Gramsci se referia à esfera privada da sociedade civil. De resto, a noção de legitimidade sempre esteve intimamente ligada à ideia de hegemonia (sempre no sentido de Gramsci), ou seja, a um fundamento de natureza ético-político e cultural que sempre se traduziu politicamente no acordo consensual da população. Mas a verdade é que estes dois conceitos parece terem desaparecido do léxico da política actual. Por que razão o centro-esquerda e o centro-direita sempre governaram? Porque eles eram a expressão política (em alternância) da hegemonia da classe média. Por que razão estão a perder o controlo do poder para a direita radical? Porque já têm dificuldade em representar politicamente essa hegemonia.

4.

Ora é neste ambiente de comunicação pública que a política que está “semplicemente in sul lione” se move, ou seja, num ambiente onde a “pós-verdade” é assumida, onde as “fake news” prosperam e onde a generalidade dos cidadãos, por um lado, não dispõe de uma narrativa estruturada, de referentes axiológicos e normativos seguros e consistentes para agir com segurança, mas também já não tem condições para escrutinar a informação que lhe chega, estando à mercê da desinformação e de uma forte polarização instrumental da atenção. A coexistência entre liberdade e desinformação de massa dá um poder enorme aos que detêm as alavancas do poder de Estado ou ao poder oligopólico e transnacional, ocupando neste cenário as grandes plataformas digitais um lugar muito destacado, e a nível mundial. É neste ambiente de incerteza e sem bússolas, de relativismo, de tagarelice universal que prospera e se afirma a ideia de política como pura administração do poder, legitimada pelo voto obtido neste ambiente caótico. A este respeito, e para tornar ainda mais clara a ideia, quase se poderia glosar o velho ditado popular: “os cães ladram e a caravana passa”; por entre um caótico “latido” universal a caravana do poder, indiferente ao ruído inconsequente, segue o seu percurso, passa, instala-se e consolida-se.

5.

O voto deixou, por todas estas razões, de corresponder a uma opção fundada no “imperativo categórico” (“age como se a máxima da tua vontade pudesse valer sempre e ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal”) e de transportar consigo uma fundada legitimidade de mandato, mas tão-só uma legitimidade flutuante, ficando, por isso, limitado a uma função técnica e procedimental de designação dos representantes para efeitos de acesso ao poder. Ou seja, o princípio electivo ficou atrofiado porque já só serve apenas para designar os representantes, sem lhes conferir uma substantiva legitimidade de mandato. É por isso que a legitimidade passou a ser simplesmente de exercício ou, como eu prefiro, flutuante, dando, enganosamente, a ideia de uma maior presença crítica da cidadania no exercício do poder. Como se a função crítica tivesse passado a ser a nova arma regular da cidadania, devido à gigantesca amplitude e diversidade dos meios de acesso à esfera pública. O que, como vimos, é uma ilusão. A hiperfragmentação do espaço e da comunicação públicos, compostos por uma mistura explosiva de informação certificada e não certificada, condimentada por uma imponente desinformação, tem como efeito anular qualquer efeito crítico sobre o sistema. Ou seja, cai a ideia de legitimidade do poder, mas cai também o valor facial da crítica pública. A questão da legitimidade do poder desaparece (ou seja, o voto passou a ser um mero dispositivo técnico que determina quem governa) e, como seu corolário, desenvolve-se progressivamente essa ideia de identificação da política como mera gestão do poder, tudo o resto tendo passado a ser meramente instrumental. A democracia passa a ser um mero dispositivo técnico para determinar quem governa, despida das outras funções que estavam inscritas originariamente na sua matriz.

6.

O que parece ter sobrado é um tosco nacionalismo tradicionalista ou, então, uma vasta ideologia identitária hoje amplamente difusa um pouco por todo o lado (e que alimenta abundantemente o discurso da direita radical) que mais do que unir ainda fragmenta mais a comunicação e o espaço públicos. Nem um nem outra permitem reconstruir a ideia de legitimidade do poder com pretensões de validade universal, como acontecia quando o fundamento era a doutrina iluminista em que a ideia de Estado e de política se inspiravam. Numa palavra, a ideia de legitimidade do poder obtida através do voto – fundamentado em valores, doutrinas, visões do mundo, utopias, conhecimento, ética pública, etc., como esferas em que se ancorava a decisão político-eleitoral – parece ter desaparecido do horizonte da política dando lugar a um mero procedimento técnico de designação dos representantes. A democracia deliberativa que parecia ser a via de resolução da crise de representação neste ambiente tornou-se ilusória, dada a dimensão das máquinas de consenso, sobretudo digitais, não reguladas nem tecnicamente imputáveis devido aos automatismos que as gerem (os algoritmos, por exemplo). Tudo o que acontece no processo eleitoral, nas campanhas e em “permanent campaigning”, está hoje alocado a especialistas de marketing (agora marketing 4.0) e a empresas de sondagem com vista a dar ao eleitor o que o eleitor quer, o que, por sua vez, é permanentemente induzido por essas mesmas máquinas de produção do consenso. A televisão de hoje é um exemplo muito clarificador deste tipo de relação, ilusória e fundada essencialmente no negativo (tablóide).

7.

O resultado é, pois, uma redução da política à pura gestão do poder, sendo tudo o resto simplesmente instrumental, num espaço público de comunicação hiperfragmentado, totalmente comercializado e atravessado por um relativismo universal que tem como expressão filosófica dedicada a doutrina da pós-verdade e onde, como disse, já não parece ser possível saber o que é verdadeiro e o que é falso, o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau, o que é belo e o que é feio. Ou seja, aquela que era a base dos regimes democráticos, a conquista do consenso através da credibilidade pessoal dos protagonistas, da visão do mundo que representavam e dos programas políticos que propunham a uma cidadania dotada de  claras cartografias axiológicas, normativas e cognitivas, transformou-se numa dialéctica de espelhos deformados onde cada cidadão faz as suas opções sem âncoras ideais que dêem sentido às suas escolhas, até porque os próprios partidos se transformaram eles próprios em puros comités eleitorais a funcionar em regime de outsourcing, tendo apenas em vista a conquista do aparelho de Estado e estando controlados por burocracias internas que, como demonstrou Robert Michels, aplicam, sem apelo, a famosa “lei de ferro. É neste ambiente que se vai impondo a redução da política a mero exercício do poder, de modo a que as formações políticas possam garantir a própria sobrevivência como organizações, através, pura e simplesmente, da ocupação do aparelho de Estado. Estamos perante uma grave anemia do regime democrático que pode ditar a sua morte ou, mais provavelmente, a sua transformação numa insuportável farsa.

JAS@08-2026

 

Ensaio

ANÁLISE SISTÉMICA DE «CASTA DIVA» / «ENLACE»

de João de Almeida Santos

André Moshe Veríssimo, PhD

“ENLACE” – JAS 2026 – PARA O POEMA “CASTA DIVA”

POEMA “CASTA DIVA” – O LiNK:

https://joaodealmeidasantos.com/2026/08/01/poesia-pintura-321/

I. ANÁLISE SISTÉMICA SOB GRELHA FPK
1. Enquadramento 
e densificação ontológica

O binómio poesia-pintura de João de Almeida Santos constitui um dispositivo sinestésico em que a figura da Casta Diva — pureza lunar, videira milagrosa, mulher, poema — é eixo de uma ontologia da criação e do desejo. A análise articula-se sob a grelha FPK: F – de fragmentação (sonho, passado, pecado, metamorfose, frase melódica suspensa), P – de pluralidade imanente (Lua, vinho, mulher, videira, poema, jogral, Melodie Lunghe), K – de residual kantiano transfigurado (o transcendental como fenómeno criador, sem noumenon residual). A invocação da ária de Bellini — «Casta Diva, che inargenti / queste sacre antiche piante» — abre o horizonte mítico-poético e musical (Bellini, 1831). No tecido das manifestações mítico-poéticas, o politeísmo e o panteísmo são modos de desvelamento da imanência e da pluralidade do real. Encontram expressão em Spinoza, na leitura herética de Yovel, na hermenêutica de José Augusto Seabra e no Livro do Desassossego de Bernardo Soares (Pessoa, 2013). O véu criativo emerge como dispositivo epistémico, poético e musical: não o véu que oculta uma verdade ulterior, mas aquele que, ao velar, cria a possibilidade de manifestação do múltiplo e do uno-imanente. A Casta Diva que «podias ser / Casta Diva / Como a Lua… / ……. / Ou não!» opera no registo da ambiguidade criadora. Este intervalo é o mesmo que a Melodia Infinita de Bellini dilata. A densificação ontológica exige a articulação com a noção de imaginatio em Spinoza. A imaginação multiplica as formas, a razão unifica. No poema, a imaginação multiplica a Casta Diva em Lua, vinho, mulher, videira e poema. A criação poética unifica-as no enlace. Esta unificação não é transcendental: é imanente. O enlace é a forma concreta da scientia intuitiva aplicada ao desejo.

2. Sinestesia, correspondências e o 
enlace como dispositivo de ressonância

A prática de João de Almeida Santos inscreve-se na linhagem baudelairiana das correspondências (Baudelaire, 1857/2006). A latada, o loureiro, o jardim e a Lua são correlatos objectivos de uma metamorfose desejante. A sinestesia opera como dispositivo de ressonância no sentido de Rosa (2016, pp. 281 ss.). O enlace — abraço, trepadeira, interpenetração — é o lugar onde a resposta ainda é possível. Rosa (2016, pp. 281–316) propõe que o critério do «bom viver» é a qualidade da relação. A ressonância designa resposta mútua. O oposto é a alienação (Entfremdung). A orquestração transparente de Bellini é a forma musical desta ressonância: a orquestra não domina, ressoa. A ilustração «Enlace» e o poema operam como orquestração transparente um do outro. A ressonância de Rosa (2016) e a orquestração transparente de Bellini (1831) convergem com a noção de natura naturans em Spinoza (2002). A potência produtora não domina os modos; expressa-se neles. A orquestra não domina a voz, expressa-se nela. O enlace não domina a Diva, expressa-se nela.

3. Anatomia textual e o imperativo 
do sonho como fingimento

O poema organiza-se em cinco blocos. Isotopias: pureza e pecado; Lua e videira; enlace e elevação; jardim e poema; jogral e canto. O núcleo reside na transformação: «E se agora / Já és mulher / E ontem eras / Videira / […] / Amanhã / Serás Poema» (Santos, 2026). Em Autopsicografia (Pessoa, 1932/1942, p. 235): «O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.» O sonho é a forma do fingimento criador. Este princípio dialoga com a Subordinação do Som ao Texto de Bellini (Cantar che nel animo si sente). No Livro do Desassossego (Pessoa, 2013), Soares vive a imanência como desassossego. O panteísmo é invertido: a ausência de Deus como plenitude do insignificante. Soares escreve: «Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos». O véu criativo é o acto de escrever. O sonho de Santos e a melodia infinita de Bellini são intervalos do mesmo regime. A densificação do fingimento articula-se com a crítica de Yovel (1989): o marrano dissimula; o fingidor finge; o jogral invoca; o cantor dilata. Em todos os casos, a criação procede da interposição de um intervalo.

4. Zarathustra e a elevação imanente

Nietzsche escreve em Para além do bem e do mal (§ 284) que a solidão é virtude de asseio e de grande saúde (Nietzsche, 1886/2011). No poema, a solidão do sonhador torna-se condição de elevação: «Voo contigo / À procura / Do passado» (Santos, 2026). O jardim encantado é o locus zarathustriano transfigurado. A latada que «trepou / Pernada acima, / Nesse enlace / Fatal» é a figura da elevação que não abandona a terra: imanência vertical. Esta elevação dialoga com a geometria eterna da necessidade spinoziana e com as Melodie Lunghe de Bellini.

5. A sociedade do cansaço e a 
resistência do sonho: Byung-Chul Han

Byung-Chul Han, em Müdigkeitsgesellschaft (Berlin: Matthes & Seitz, 2010), diagnostica a sociedade da positividade excessiva. O poema opera uma inversão: o sonho e o enlace constituem gestos de resistência. O jardim opõe-se à horizontalidade do desempenho. O jogral e o cantor que sustém a melodia infinita são figuras da negatividade criadora. Han (2010), Yovel (1989) e Bellini (1831) convergem: a negatividade é condição de possibilidade da criação.

II. ESTÉTICA MUSICAL DO BEL CANTO
6. Gramática criativa do Bel Canto

As Melodias Infinitas (Melodie Lunghe) são frases vocais de extensão inédita, desenhadas sem interrupções bruscas para acompanhar a respiração e a emoção orgânica. Esta técnica é a forma musical do véu criativo. A Melodia Infinita é a forma sonora da fragmentação (F), da pluralidade (P) e do residual kantiano (K) da grelha FPK. A Subordinação do Som ao Texto (Cantar che nel animo si sente) prioriza a declamação límpida da palavra. A Orquestração Transparente actua como suporte subtil e ressonante: a orquestra não domina, ressoa. Esta transparência é a forma orquestral da ressonância de Rosa (2016). A densificação da gramática criativa do Bel Canto articula-se com a imaginatio de Spinoza (2002). A imaginação multiplica as formas, a melodia infinita multiplica os arcos. A razão unifica, a cadência unifica. No intervalo entre a multiplicação e a unificação, a criação torna-se possível.

7. Enlaces poético-dramáticos 
em Bellini

Em Norma (Felice Romani), o enlace ápice entre tragédia clássica e paixão romântica encontra na ária «Casta Diva» a fusão entre invocação poética à lua e linha melódica suspensa. Em La Sonnambula (Felice Romani), o lirismo bucólico une-se à fragilidade da voz. Na sepultura de Bellini constam as notas de Amina: «Ah! non credea mirarti / Sì presto estinto, o fiore». Em I Puritani (Carlo Pepoli), a elegância melancólica e o dramatismo histórico expandem o horizonte. O poema de Santos herda este horizonte. As três óperas são heterónimos musicais: cada uma é uma potência de estilo.

8. A Casta Diva como intervalo 
musical e filosófico

A ária «Casta Diva» é o correlato musical do poema. A melodia infinita que se suspende sobre a orquestração transparente é a forma sonora do véu criativo. O cantor não rasga o véu, dilata-o. A densificação musical e poética convergem: a criação pelo intervalo. A grelha FPK em chave musical: a fragmentação é a frase que se dilata; a pluralidade é a orquestra que ressoa; o residual kantiano é a emoção como puro fenómeno sonoro.

III. DENSIFICAÇÃO MÍTICO-POÉTICA
 9. Spinoza e a fórmula 
da imanência absoluta

Em Spinoza, a fórmula Deus sive Natura constitui o núcleo de uma ontologia da imanência total (Spinoza, 2002). Deus não é causa transcendente, mas a substância única cujos atributos esgotam a realidade. O politeísmo residual é produto da imaginação (imaginatio). A natura naturans e a natura naturata coincidem sem hiato. No poema, o «milagre / Da natureza» é figura da natura naturans. Na ária de Bellini, a melodia infinita é a mesma figura. O enlace é a forma concreta desta coincidência.

10. A crítica de Yovel 
- o marrano da razão

Yirmiyahu Yovel, em Spinoza and Other Heretics (Princeton: Princeton University Press, 1989), radicaliza a leitura: Spinoza é o «marrano da razão». A filosofia da imanência stricto sensu afirma que este mundo é tudo o que há. O véu criativo em Yovel é o da dissimulação marrana: a linguagem ambígua que diz e não diz. No poema e na ária, a Casta Diva que «podias ser / Casta Diva / Como a Lua… / ……. / Ou não!» e a melodia que se suspende operam neste registo de dissimulação criadora.

11. José Augusto Seabra 
e a pluralidade das máscaras

José Augusto Seabra (1988) lê Fernando Pessoa como o lugar onde o politeísmo e o panteísmo se tornam dispositivos literários. A heteronímia é a forma contemporânea do politeísmo: cada heterónimo é um deus menor. O carácter heterotextual da escrita pessoana é a versão literária da imanência crítica de Yovel. No poema e na gramática de Bellini, a multiplicidade das formas da Casta Diva e das Melodie Lunghe operam no mesmo regime de pluralidade imanente.

12. Bernardo Soares 
e a imanência do sonho

No Livro do Desassossego (Pessoa, 2013), Bernardo Soares vive a imanência como desassossego. O panteísmo é invertido: a ausência de Deus como plenitude do insignificante. O véu criativo é o acto de escrever. O tédio é a experiência viva da imanência sem saída. O jardim encantado e a Rua dos Douradores pertencem ao mesmo mapa ontológico. A Casta Diva e o desassossego são faces da mesma moeda.

13. O véu criativo 
e o enlace como síntese

O véu criativo e o enlace articulam todas as manifestações. Em Spinoza, o véu da imaginação; em Yovel, o da dissimulação marrana; em Seabra, o da heteronímia; em Soares, o da prosa fragmentária; em Bellini, o da melodia infinita e da orquestração transparente; em Santos, o da Casta Diva e o enlace da latada. Em todos os casos, o véu não oculta uma verdade prévia, cria a verdade como efeito do próprio velamento. A grelha FPK lê esta densidade: a fragmentação é a forma do real; a pluralidade é a sua substância; o residual kantiano é a consciência de que o véu é transcendental, mas puro fenómeno criador.

IV. OS CINCO ARCOS MELÓDICOS 
E AS ISOTOPIAS FUNDAMENTAIS
14. Desenvolvimento dos arcos 
melódicos da ária «Casta Diva»

O primeiro arco — a invocação inicial — dilata-se sobre a orquestração transparente e corresponde ao bloco «SONHEI-TE». O segundo arco — a dilatação da frase longa — corresponde ao bloco «CASTA, TALVEZ». O terceiro arco — a suspensão e o retorno — corresponde ao bloco «SONHO-TE». O quarto arco — a intensificação e o clímax — corresponde ao bloco «AH, A LATADA!». O quinto arco — a resolução suspensa e o eco — corresponde ao bloco «TAMBÉM». A densificação de Bellini (1831) e de Santos (2026) converge: a resolução suspensa como potência de continuidade. O quinto arco nunca se fecha.

 15. Isotopias angulares

A noite de Verão é a isotopia inaugural do intervalo. O passado é a elevação retrospectiva. O pecado e a pureza constituem a ambiguidade criadora. A Lua é a figura da pureza e da ambiguidade. O vinho é o milagre da natureza e figura da natura naturans. O jasmim é o aroma da metamorfose. O jogral é o fingidor e o invocador. O canto é o intervalo entre a palavra e a nota. A invocação é o gesto de criação. O jardim é o locus absoluto. O loureiro e a latada são as figuras da elevação que não abandona a terra. O enlace é a forma absoluta da imanência e do véu criativo.

V. ANATOMIA PICTÓRICA 
E SÍNTESE CONCLUSIVA
 16. Anatomia pictórica de «Enlace»

A ilustração «Enlace» apresenta o entrelaçamento como correlato objectivo da metamorfose desejante e da melodia infinita. O enlace é a figura da imanência vertical e da orquestração transparente: não há além; há apenas o abraço onde a videira se torna mulher, a mulher se torna poema e a melodia se torna intervalo.

17. Síntese conclusiva

«CASTA DIVA» e «ENLACE» formam um sistema sinestésico em que a pureza lunar, o milagre do vinho, a metamorfose da videira, a invocação do jogral e a gramática do Bel Canto constituem o eixo de uma ontologia do desejo e da criação. Densificada por Rosa (2016, pp. 281–316), eixo de ressonância; por Han (2010), resistência à sociedade do desempenho; por Pessoa (1932/1942, p. 235; 2013), espaço onde o sonho salva o desejo e o véu cria a obra; por Nietzsche (1886/2011), virtude e condição de elevação; por Bellini (1831), invocação mítico-poética e musical da deusa que tempera os corações através das Melodie Lunghe, da subordinação do som ao texto e da orquestração transparente; por Spinoza (2002) e Yovel (1989), imanência radical em que o enlace se revela como dispositivo da pluralidade e da fragmentação criadora; por José Augusto Seabra (1988), pluralidade heterotextual que multiplica as formas sem as unificar.

A grelha FPK confirma a co-determinação. A Casta Diva permanece a figura da salvação ressonante: não transcendência, mas intervalo onde o mundo ainda responde, sob a forma de Lua, jasmim, vinho, poema e melodia infinita. O véu criativo permanece aberto. O enlace permanece entrelaçado. O intervalo nunca se fecha.

REFERÊNCIAS

Baudelaire, C. (1857/2006). As flores do mal (I. Junqueira, Trad.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Bellini, V. (1831). Norma [Ópera]. Libreto de Felice Romani.

Bellini, V. (1831). La Sonnambula [Ópera]. Libreto de Felice Romani.

Bellini, V. (1835). I Puritani [Ópera]. Libreto de Carlo Pepoli.

Han, B.-C. (2010). Müdigkeitsgesellschaft. Berlin: Matthes & Seitz.

Han, B.-C. (2015). The burnout society (E. Butler, Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Nietzsche, F. (1883–1885/2015). Assim falava Zaratustra (A. Margarido, Trad.; D. G. Dias, Rev.). Lisboa: Guimarães.

Nietzsche, F. (1886/2011). Para além do bem e do mal. Lisboa: Guimarães.

Nietzsche, F. (1886). Jenseits von Gut und Böse. Leipzig: C. G. Naumann.

Pessoa, F. (1932/1942). Autopsicografia. In Poesias (J. G. Simões & L. de Montalvor, Notas). Lisboa: Ática.

Pessoa, F. (2013). Livro do Desassossego (R. Zenith, Ed.). Lisboa: Assírio & Alvim.

Rosa, H. (2016). Resonanz: Eine Soziologie der Weltbeziehung. Berlin: Suhrkamp.

Rosa, H. (2019). Resonance: A sociology of our relationship to the world (J. C. Wagner, Trad.). Cambridge: Polity Press.

Santos, J. de A. (2021). Poesia. Lisboa: Buy the Book / By the Book.

Santos, J. de A. (2022). A Montanha Encantada [Pintura digital impressa, 119×94 cm]. Colecção do autor.

Santos, J. de A. (2025). Fragmentos – Para um discurso sobre a poesia. São João do Estoril: ACA Edições.

Santos, J. de A. (2026, 25 de Julho). SOLIDÃO. Poesia-Pintura. https://joaodealmeidasantos.com/

Santos, J. de A. (2026, Agosto). CASTA DIVA. Poesia-Pintura. Ilustração: «Enlace».

Seabra, J. A. (1988). Fernando Pessoa ou o poetodrama. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Spinoza, B. (2002). Ética (Trad. J. Guinsburg & E. P. Giancotti). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Yovel, Y. (1989). Spinoza and other heretics: The Marrano of reason. Princeton: Princeton University Press.

Yovel, Y. (1989). Spinoza and other heretics: The adventures of immanence. Princeton: Princeton University Press.

Yourcenar, M. (1983). Le Temps, ce grand sculpteur. Paris: Gallimard.

AMV@08-2026

Poesia-Pintura

CASTA DIVA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Enlace”
JAS 2026
Original de minha autoria
Agosto de 2026

“ENLACE” – JAS 2026

“CASTA DIVA, che inargenti
queste sacre antiche piante,
tempra tu de' cori ardenti,
tempra ancora lo zelo audace”

“CASTA DIVA” (Norma)
Vincenzo BELLINI

POEMA – “CASTA DIVA”

SONHEI-TE
Numa plácida
 Noite
De Verão.
Eras casta,
Mas podias ser
Casta Diva
Como a Lua...
.......
Ou não!

CASTA, TALVEZ,
De onde nasce
O vinho,
Milagre
Da natureza;
Ou em forma
De mulher...
............
Serás, assim,
Sempre Diva
Se ao poema
Te trouxer.

SONHO-TE
Muitas vezes,
Voo contigo
À procura
Do passado,
Mas um dia
Eu sonhei-te
Como casta
Em pecado,
Trepando
Pelo loureiro,
No meu jardim
Encantado.

AH, A LATADA!
Essa sim,
A que um dia
Trepou
Pernada acima,
Nesse enlace
Fatal
Onde me nasceu
A rima
Do canto
Que te invoca
Quando me torno
Jogral.

TAMBÉM
Me trepas
Na alma,
Como a Lua,
Numa forma de
Enlace
E se agora
Já és mulher
E ontem eras
Videira
Com aroma de
Jasmim,
Amanhã
Serás Poema
Por seres
Casta Diva
Para mim,
A que nasceu
No loureiro 
Lá no alto,
No jardim.