Artigo

“O MUNDO SUFOCA-ME
E Eu Também”

Livro de Poesia
de CÉSAR DIOGO PEREIRA
(Lisboa, ChiadoBooks, 
2026, 132 páginas)

Por João de Almeida Santos

“Na FNAC do CascaiShopping, 26.06.2026

“O MUNDO SUFOCA-ME – e Eu Também” é o título de um livro de um talentoso jovem, César Diogo Pereira, que ainda não fez catorze anos (fá-los em Setembro), mas que já publicou dois livros.  Este, que tive o gosto de apresentar na FNAC do CascaiShopping, na passada sexta-feira (este artigo é o texto da apresentação), tem este curioso título, que já enuncia todo um programa: o mundo sufoca-o e ele próprio também se sente a sufocar-se. Ele e o mundo em jogo, pois. Por isso, para se salvar, tem de se exilar de si, de se evadir, de se deslocar para um ponto exterior a si próprio e ao mundo, ou seja, para um intervalo, esse lugar que, afinal, os poetas ocupam. Isto dizem-no também o Pessoa e o Novalis, por exemplo. Os poetas nascem assim, num intervalo, num espaço intermédio. Exilam-se para aí. São filhos dele e nele vivem ou porque se sentem sufocados interiormente, como o César, ou porque não se ajeitam com o mundo, como o Bernardo Soares, ou, então, como o albatroz/poeta, de Baudelaire, que tem asas grandes demais para se poder mover nos estreitos sendeiros do mundo circunstante, mas que se move como “príncipe das nuvens” no céu, sobre os vastos oceanos, o espaço infinito do seu exílio. Todos sabemos que o Pessoa se recusou a ficar preso em si próprio e logo escapou para outros personagens que o ajudaram a viver vidas que, de outro modo, não viveria. Suponho que o César pretende seguir-lhe os passos.

1.

Conhecemo-nos aquando da apresentação no Centro Cultural de Cascais do meu livro Fragmentos – Para um discurso sobre a Poesia (S. João do Estoril, ACA Edições, 2025), em setembro de 2025. Lembro-me de que, na altura, me ofereceu o seu primeiro livro “Na cabeça dos poemas sem pés”. Outro título interessante, outro programa – na verdade, os poemas não têm pés, mas cabeça e asas para voar. Os pés servem para caminhar em sendeiros tão estreitos que os poetas não cabem neles, como o albatroz de Baudelaire, porque com a poesia se nasce com grandes asas (as palavras) para voar, não para caminhar nessas estreitas vielas do mundo circunstante.

E confesso que logo me impressionou o facto de um jovem com treze anos já ter escrito um livro, coisa que comigo já só aconteceria quando era assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Depois, este segundo livro e o convite. Podia eu recusar?

2.

Confesso que, à primeira, fui tentado a recusar o convite. Mas somente por uma razão substantiva e que tem a ver com a própria poesia. Quando um poeta tem uma poética já muito elaborada e um pouco complexa (como julgo ser o meu caso) a tendência dominante perante outras é sempre de muita exigência porque tende a apreciar toda a poesia à medida da sua própria poética, o que talvez não seja a melhor forma de aceder ao que outros poetas fazem. Mas depois lembrei-me do que escreveu o poeta Edgar Allan Poe na sua Poética (o título da edição portuguesa da F. C. Gulbenkian): os melhores intérpretes da poesia não são os críticos ou os especialistas da literatura, mas sim os poetas. Senti-me, pois, dividido entre estas duas posições e acabei por optar pela segunda, a de Poe. E, claro, a do César. Como logo intuíra que assim deveria ser.

3.

E creio que há uma razão para isso, para a posição defendida por Poe: se é verdade que a poesia vai lá ao fundo da alma e tenta trazer à consciência o que anda por lá a “fazer mossa”, a incomodar, como uma moinha intermitente que provoca desassossego, inquietação, então o melhor é fazer como fazem os psicanalistas: verbalizar o que nos desassossega. O grande poeta Novalis falava precisamente de activas associações de ideias, que mais tarde haveriam de constituir uma das técnicas da psicanálise de Freud, juntamente com a interpretação dos sonhos. Territórios afins aos da poesia, com a diferença substantiva da estética e da comunicação. Cito Novalis do seu livro “Fragmente”: “O poeta utiliza as coisas e as palavras como teclas e toda a poesia repousa sobre uma activa associação de ideias”. Retomo, quase textualmente, de um livro meu que está para sair (Novos Fragmentos, S. João do Estoril, ACA Edições, 2026), o comentário que faço desta afirmação de Novalis (de finais do século XVIII): frequentemente eu falo da poesia como de uma espécie de divã psicanalítico, e julgo que com alguma razão, com a diferença de o resultado ser de natureza estética e performativo, embora Novalis também diga (estranhamente) que “a estética é completamente independente da poesia”. Mas julgo que ele se refere à dimensão interior da poesia – só pode ser fruída se for sentida. Na poesia não existe essa distância própria do fruidor clássico das obras de arte, em geral? Talvez não. O “espírito dionisíaco” é independente do “espírito apolíneo”, se quisermos usar a linguagem do Nietzsche de “A Origem da Tragédia”, a poesia nasce da alma e da emoção e o espírito cristaliza, eleva, sublima…  sim, mas leva a alma consigo. E é aqui que está a diferença. A experiência poética não pode acontecer como se o poema estivesse numa posição exterior à de quem o frui. A identidade exigida na relação poema/fruidor retira exterioridade à relação estética. Na verdade, a estética implica, uma certa relação sensorial e uma certa distância na óptica do observador. Aísthesis significa em grego perceber com os sentidos, com a sensibilidade. Na poesia, a relação interna é dominante. Trata-se dos sentidos interiores. Talvez seja neste sentido que se pode compreender a afirmação de Novalis, a de uma espécie de relação íntima, não e de observador externo. Nunca me esqueço daquele efeito de estranheza (Entfremdungseffekt), que é um efeito de distanciação, de que falava B. Brecht, em relação ao teatro. Aqui, na poesia, parece ser exactamente o contrário. Nem distância nem estranheza (Fremdheit), mas identificação, proximidade. A adesão sobrepõe-se à relação crítica, que era a que Brecht queria.

4.

O poema “O que o amor pode fazer” pode ser um exemplo dessas activas associações de ideias de que falava Novalis – quando o li, anotei as seguintes observações: sonho; e no fim três santos salvam o sonhador/poeta; levitar (cito: “Levito e sento-me num piano / E uma valsa começo a tocar” p. 43 – as asas do albatroz/poeta que servem precisamente para levitar sobre o oceano da vida); divagações e livres associações. Tudo num só poema. Estamos, como se vê, a viajar na matriz da poesia.

5.

Depois outra afirmação de Novalis: “A linguagem é um instrumento musical das ideias”. O poder sensitivo da toada poética, do ritmo e da melodia como forma de exteriorização da palavra e do sentido. A música é irmã gémea da poesia e, por isso, é-lhe indissociável – é através da música que a poesia ganha uma forte performatividade, se torna acção efectiva. A semântica precisa da música como seu alimento. Diz o Bernardo Soares, (que, todavia, não se ajeitava com a poesia, como diz no “Livro do Desassossego”): “considero o verso como uma coisa intermédia, uma passagem da música para a prosa”. A poesia situa-se entre a música e a prosa. Duma, tem a toada e a melodia; da outra, tem a semântica. Não sei se no César a aprendizagem musical (através do piano, que pratica) influiu decisivamente na sua vocação poética, que, todavia, na minha opinião, me parece ser mais de tendência semântica, de expressão significante dos sentimentos e emoções que o desassossegam. Talvez seja assim, se tiver de o caracterizar através do que escreve, enquanto poeta.

6.

É por tudo isto que eu estou de acordo com Edgar Allan Poe: só os que estão por dentro de todo este complexo processo criativo e de fruição pode compreender bem o que vai na alma do poeta e pode, por isso, compreender melhor a poesia.

7.

Estes aspectos que acabo de referir encontrei-os no livro do César (talvez também porque andam sempre comigo, me acompanham permanentemente) a ponto de compreender muito bem o recorrente ondular, nos seus poemas, entre a semântica, o sentido, a associação de ideias (muitas vezes sem aparente ligação, com aparentes saltos de significação ou sentido), e a música, a rima, a toada, onde mais vezes se impõe a semântica, o sentido, mas onde noutras intervém de forma tempestiva a exigência rimática. Em todo o livro encontramos esta ondulação entre o significado e a melodia, sem uma clara opção estilística (creio eu) sobre a natureza da rima. A coisa ainda é mais visível porque ele “se atreve” nesta sua fase de iniciação poética a não usar sistematicamente (embora também, a use, e abundantemente, por exemplo, no poema “O Senhor que fazia cadeiras”, p. 78) aquela que os poetas tendem a usar no início, digamos, da “carreira” poética: a rima interpolada, aba, cdc, efe. E assim por diante. A rima surge ao sabor do seu ritmo interior, mas subordinada, julgo, ao imperativo semântico, que para ele talvez seja poeticamente superior. Transcrevo o essencial de um poema que, pelas razões que estou a referir, me chamou a atenção – “Sou Escrever?”:

“Se há algo que me preenche / É o saber, a sabedoria (…) / Sinto-me vazio, porque mostro tudo ao mundo / Sou poeta (…) / Mas ser poeta não é fingir / É ser verdadeiro e verdadeiramente sentir (…) / “Ser poeta é ser vazio / É ser cheio de poemas / É ser a esperança no meio de problemas. / É querer ser o mundo. / Poetas de coração profundo”.

É uma rima que parece ser imposta pela força das palavras anteriores, filhas mais da semântica do que da música. Não sei se será assim, mas parece-me que na poesia do César a dominante é mesmo a semântica, a significação, surgindo a rima quase como um seu mero eco sonoro, um efeito simplesmente derivado, porque tem de acontecer. É o que parece a quem, como eu, na minha poesia, procura sempre pôr as duas dimensões em equilíbrio e em sinestesia, sem subordinar uma à outra. O poema, para mim, é ao mesmo tempo uma pauta discursiva e uma pauta musical. Tudo num só andamento.

Aqui, temos rima, que não é sistematicamente interpolada, e temos semântica muito interessante. Por exemplo: ser poeta não é fingir? E o que diz o grande Pessoa na “Autopsicografia”? “O Poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”. Portanto, sim e não. A poesia é uma dança de palavras onde a contradição pode até ser mais esclarecedora do que a lógica. Em boa verdade, também acabamos por verificar que o poeta não finge porque diz o que deveras sente, parecendo que está a fingir. Porque se trata de poesia. A aparência de fingimento é a força e a liberdade da poesia. Mas é também uma sua decorrência, pois quando se entra na fase apolínea, a do espírito, o discurso passa a ter exigências estéticas que excedem a sua dimensão puramente semântica. Uma delas é a da música. Depois, neste poema e em muitos outros, a sonoridade num ritmo ditado, ao que me parece, com alguma espontaneidade (sem mediação assumida com pretensões compositivas), como disse, ao sabor das palavras que ocorrem, sem, digamos, culto de autonomia acústica. Simplesmente porque tem de haver rima. E tem mesmo.

8.

Este jogo entre a semântica e a música talvez seja a parte mais difícil da composição poética. Digo-o com experiência própria, pois vivo-o diariamente há cerca de doze anos, quase os que tem o César. E eu creio firmemente que esse é o grande segredo da força da poesia, do poder que ela tem de atingir a sensibilidade do leitor, que a tem de ouvir com a alma, sem dúvida, mas também com o ouvido, interno e externo, aquele que regista os sons e a própria surdina. Lembro-me bem das relações entre Beethoven e Goethe, da vontade manifesta que aquele tinha de compor segundo a poética de Goethe. De resto, a poetisa polaca Wislawa Szymborska, prémio Nobel da literatura, dizia que “desde que o mundo é mundo, nunca houve um (poeta) que contasse as sílabas com os dedos. O poeta nasce com os ouvidos”. E diz mais: que se a poesia tem regras ela não é prisioneira delas. É por isso que, diz ainda, não há professores de poesia. Que o mesmo é dizer que a poesia não se ensina. Talvez se deva mesmo dizer: não se ensina, sente-se. Como já referi. Depois é só dar-lhe forma e música (a componente apolínea), fazer o percurso que vai da alma até ao espírito, animado naturalmente pela fantasia, pela rítmica e pela melodia. Também o César o diz no poema “O Irreal da Academia”: “Na vida não há gramática” (p. 109). Por que razão haveria de a haver na poesia se esta é a arte mais próxima da vida humana, aquela que se identifica pela fala? Claro, há algumas regras, mas, no essencial, não há. Pelo menos não são determinantes. Se houvesse, a poesia ficaria presa a um colete de forças. Não seria poesia. Aqui trata-se de algo muito mais exigente, ou seja, de uma questão de sensibilidade comunicada e, sobretudo, de um imperativo existencial que leva o poeta a voar mais alto em direcção ao infinito, como queria a nossa extraordinária Florbela Espanca. Lembram-se de Baudelaire quando comparava o poeta a um albatroz, em “Les Fleurs du Mal”? Ele tem as asas grandes demais e por isso não se consegue mover em terra, mas, nos céus, ah, nos céus é o gigante do voo. Assim é o poeta para Baudelaire: voa mais alto, como o albatroz; e para o infinito, como queria a Florbela Espanca. E, lá do alto, comunica com as almas gémeas, almas sensíveis e inquietas, num murmúrio que, às vezes, parece cósmico.

9.

Permitam-me que transcreva, então, a última estrofe deste belo poema de Baudelaire (“O Albatroz” – transcrevo primeiro em francês e, depois, traduzo):

Le Poète est semblable 
au prince des nuées /
Qui hante la tempête 
et se rit de l’archer; /
Exilé sur le sol 
au milieu des huées, /
Ses ailes de géant 
l’empêchent de marcher.

(O Poeta é como 
o príncipe das nuvens
Que desafia a tempestade
e se ri do arqueiro
Exilado em terra 
no meio de clamores
As suas asas de gigante 
impedem-no de caminhar).
10.

Por que razão invoco a sabedoria destes poetas? Porque com eles é mais fácil entender aquilo que este livro contém: a predisposição deste jovem poeta para se colocar no ponto em que todos os verdadeiros poetas se colocam: numa espécie de intervalo entre eles e a vida, entre eles e o mundo para se poderem observar livremente e poderem também observar o mundo naquilo em que ele manifesta o que é essencial. O título do seu livro diz logo tudo: para me libertar do duplo sufoco parto para a poesia, colocando-me num espaço intermédio de onde possa observar-me e observar o mundo. Este “entre”, este ponto intermédio é o que é assumido também por Pessoa ou por Novalis, com disse. E creio que também o César se coloca aqui, neste ponto, para dizer o que quer e para se distanciar de si mesmo como sujeito de discurso, imaginando-se (poeticamente) outros personagens, outras vidas, na sua relação com o mundo: por exemplo, na figura dos que se queixam de tudo e tudo perdem (em “A Indecisão Exacerbada dos Seres”, p. 73); dos que não ouvem a sabedoria(“A história do Gato das Sete Vidas, p. 71); dos que esperam para ver o que acontece (“Espera subentendida”, p. 48-49); dos abúlicos (“Escolher Porquê?”, p. 45); dos irritados (“Irrita-me tudo o que vejo”, no poema “Estritamente objectivo”, p. 41); dos que estão fartos de tudo (no poema “Cresçam”, que no fim resulta em inquietação: “Pessoas confiáveis / Infelizmente estão a desaparecer / E só de pensar nisso /Não consigo adormecer”, este com rima interpolada, pp. 38-40). E podia continuar. Com um simples objectivo: o autor coloca-se nesse espaço intermédio, nesse intervalo, e, desse modo, pode dar voz a vários personagens que representam sentimentos, valores, atitudes que o inquietaram, que o desassossegaram. Ou seja, a essencialidade da vida em acto aqui representada em poemas e em personagens. Quem sabe se um dia o César não acaba por criar heterónimos, já que desde que nasceu não quis ficar confinado em si próprio e decidiu também ele voar para fora de si nesse extraordinário veículo mágico que é a poesia. Com disse e fez o Fernando Pessoa.

11.

Na verdade, se percorrermos o livro encontraremos uma vastíssima temática que o percorre e que é própria da poesia – os grandes temas que são objecto das suas livres associações poéticas, se assim posso caracterizar a sua poesia: o silêncio, a solidão, a palavra, o tédio, os astros (veja-se esta bela estrofe: “Nascem sóis / Dormem luas / Cantam rouxinóis / à procura de atenção… pp. 121-122; citei só quatro versos de que gostei muito); e ainda: a hipocrisia, o sonho, o cansaço, o incómodo, a desilusão, a saudade, o que é a vida, o que é o tempo, o que é a morte (veja-se estes quatro versos, em rima interpolada, do poema “Coisas da vida”: “A morte não está morta, / Porém tudo o resto está! / Porque a morte é uma porta / Para um futuro que não virá” – pp. 65-66) – todos estes são temas objecto da atenção do poeta, em registo variado, onde se nota, como já referi, frequentemente uma espécie de luta entre o sentido e a rima, entre a semântica e a música, como se a poesia do César estivesse sujeita ao vento, onde, por vezes, há tão fortes rajadas que o obrigam a mudar de direcção e a procurar outros territórios. Isso significa que a turbulência interior deste poeta é forte, a ponto de sentir o efeito de “poços de ar” que o deixam em suspensão. Mas se tomarmos em consideração essa constante da poesia referida por Novalis, a das activas associações, mas também a exigência sempre presente (e como disse tão difícil) de dar expressão musical às palavras, como se a poesia fosse ao mesmo tempo pauta musical, compreenderemos que é natural que isso aconteça em qualquer poema ou não se tratasse de uma combinação, como queria o Kant na Crítica do Juízo, entre a imaginação e o intelecto, onde sobreleva, sem dúvida, a imaginação. Porque é ela, a imaginação, que acciona o voo poético. E quando ela é potente o voo vai mais longe no fio do horizonte.  “Piove nell’alta fantasia”, dizia o Dante Alighieri, referindo-se à poesia. A imaginação é como a chuva com as suas modulações e a sua própria sonoridade. E os poetas gostam de andar à chuva e de se molhar e, muitas vezes, quando chove forte na alta fantasia, até ficam encharcados. Singin’in the Rain? Sim. ( https://www.youtube.com/watch?v=swloMVFALXw )

12.

Finalmente, e depois desta breve incursão pelo livro (mas tanto mais se poderia dizer), quero felicitar o jovem César Diogo Pereira por, nestes tempos de domínio absoluto do audiovisual sobre os jovens (e os não jovens), se dedicar intensamente a uma das mais interessantes artes, a poesia, enquanto ela torna possível responder com verdade (em modo de fingimento) e eficácia performativa às nossas inquietações existenciais, ao desassossego das almas inquietas, e com um altíssimo grau de performatividade, ou seja, de conversão em acto daquilo que mais parece ser indizível, assunto puramente interior da alma, difícil de traduzir em palavras. A poesia, em aliança discursiva da alma com o espírito e da palavra com a música, põe cá fora o que vai na alma do poeta e de um modo tal que pode ser partilhado e assumido como próprio pelas almas gémeas, sensíveis e desassossegadas, como a do poeta que se exprime com autenticidade e vigor criativo neste interessante livro. Um jovem que nem sequer ainda completou os seus catorze anos, mas que já navega nas águas profundas desta arte, com saber, força anímica e criatividade*.

NOTA

* O livro, sendo sobretudo um livro de poesia, tem também sete textos em prosa, um em mirandês, e um poema também em mirandês. E, a propósito desta sua incursão no mirandês, julgo interessante e útil sinalizar aqui essa obra extraordinária de Leite de Vasconcellos, Philologia Mirandesa (Lisboa, Imprensa Nacional, 1900), de quase 500 páginas, onde, ousaria dizer, está tudo sobre o chamado dialecto mirandês.

JAS@07-2026

 

Ensaio

ESCULPIR O INVISÍVEL

Análise sistémica, constitucional, 
kabbalística, psicanalítica e filosófica
do Poema «ESCULPIR-TE», 
e da pintura «O AURÍFICE» (JAS, 2022)

André Moshe Veríssimo, PhD

“O AURÍFICE” – JAS 2022. Exposição de Pintura e Poesia «Luz no Vale» – Museu da Guarda · 8 de Fevereiro de 2024

ÍNDICE

FRONTISPÍCIO — «O Aurífice» 
(JAS, 2022)
O POEMA «ESCULPIR-TE»
LIMIAR METODOLÓGICO
Cinco lentes, um só acorde
ANÁLISE SISTÉMICA E CONSTITUCIONAL 
A arquitectura da criação
ANÁLISE PSICANALÍTICA (FPX(
Instante, espelho oracular, 
sublimação
ANÁLISE FILOSÓFICA
Dialéctica, aporética e estética
DIMENSÃO KABBALÍSTICA
O nome invisível, o sopro, 
o ouro divino
A PINTURA "O AURÍFICE"
Espelho plástico do poema
CONCLUSÃO
A arte como resposta ao impossível
FONTES PATENTES
FONTTES LATENTES
TEXTOS DO AUTOR INTEGRADOS
FRONTISPÍCIO — «O AURÍFICE» (JAS, 2022)

Pintura de João de Almeida Santos (2022) que integra, com o poema «ESCULPIR-TE», a exposição «Luz no Vale» (Museu da Guarda, 8 de Fevereiro de 2024). A obra visualiza o processo criativo descrito no poema: o contraste marmóreo branco/negro, a filigrana de ouro preto sobre branco-pérola, a flor pousada na pedra lisa do oráculo vestal, o fio branco esvoaçante no céu marmóreo do altar e a âncora que se dilui na negra vastidão. É o contraponto visual exacto do poema que celebra a alma sedutora através da arte minimal, sem fronteiras, reinventando a amada em fuga e diluição.

O POEMA «ESCULPIR-TE»
João de Almeida Santos
Janeiro de 2024
ENTRE O BRANCO
E o negro
Quis esculpir-te
A alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei
Perdida
No jardim
Da minha vida...

ATRÁS DE TI,
Ou em fuga
(Já nem sei),
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Guardado
Dentro de mim.

SOBRARA
Uma marmórea
Pedra negra,
Espelho oracular
Onde me via
Escuro na alma
Por falta
De cores
Exuberantes
Que me protegessem
Do frio glacial
Da tua ausência,
Suportada
Nas longas
Intermitências
E contrapontos
De uma melodia
Inacabada.

SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor
Pousou suavemente
Na pedra lisa
E brilhante
Da catedral,
Do oráculo
Vestal
Onde te queria
Celebrar
Como amante.

ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Onde guardei
O teu nome
Gravado em letras
Invisíveis.

DESENHEI
Alvas incrustações
Em filigrana
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Para celebrar
A beleza
Do teu rosto.

E, AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Desse cântico
Desenhado
E esculpido,
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com arte
Minimal,
Na forma
E na cor,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento
Em fuga:
Um elegante
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar.

A ÂNCORA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti
E dilui-se,
Como eu,
Na negra
Vastidão...

EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
Sobre a flor
Que um dia
Encontrei
Perdida
No meu Jardim
Encantado
Quando visitava
O impossível...
..............
À tua procura.
LIMIAR METODOLÓGICO
Cinco lentes, um só acorde
«Onde outro autor 
compõe melodia, 
este autor 
compõe acorde.»

 Divisa do método FPK/FPX

O poema «ESCULPIR-TE», de João de Almeida Santos, datado de Janeiro de 2024, e a pintura que o acompanha, «O Aurífice» (2022), constituem uma só obra desdobrada em dois suportes — verbal e plástico —, ambos integrantes da exposição «Luz no Vale» inaugurada no Museu da Guarda a 8 de Fevereiro de 2024. O texto apresenta-se como uma meditação sobre o acto criativo como forma de celebrar e reinventar a amada ausente, através de uma estética minimalista em branco e negro, de filigrana de ouro preto sobre branco-pérola, e da metáfora central da flor encontrada por acaso no jardim da vida.

A análise que aqui se propõe é deliberadamente multi-perspectival, mobilizando cinco lentes que não se justapõem, mas se sobrepõem em acorde. A lente sistémica e constitucional atende à arquitectura interna do poema, às suas dez secções marcadas por maiúsculas e à rede de significantes que as liga: branco/negro, flor, jardim, arco-íris, pedra negra, oráculo, filigrana, nome invisível, fio branco, âncora, vastidão. A lente psicanalítica (FPX) segue a fenomenologia do instante do encontro, o espelho oracular como inner vision do self escuro e a sublimação artística da ausência. A lente filosófica — dialéctica, aporética e estética — expõe as tensões entre presença e ausência, cor e falta, fixidez e fuga, fusão e autarcia. E a lente kabbalística ilumina o poder do nome gravado em letras invisíveis, o sopro da alma (ruach), o ouro como luz divina e a busca do impossível como aproximação ao Ein Sof.

Rege todas as citações do poema o princípio ipsis litteris, nihil varietur: o texto é reproduzido sem variação e nenhuma alteração lhe é introduzida. Os estrangeirismos filosóficos, psicanalíticos e kabbalísticos apresentam-se em itálico e as referências seguem as normas APA, 7.ª edição, com indicação da cidade de publicação. Por uma opção deliberada, a longa cadeia de motivos latentes que o poema convoca — o murmúrio, o sussurro, o sopro, o nome, a voz, as águas doces e salgadas, a foz, o beijo, a inner vision, o estremecimento interior, o peso infinito das palavras — não é tratada em secção isolada, mas difundida ao longo das cinco análises, onde cada motivo encontra o seu lugar próprio.

ANÁLISE SISTÉMICA E CONSTITUCIONAL
A arquitectura da criação
1. Os dez movimentos e as suas articulações

O poema organiza-se em dez secções marcadas tipograficamente por maiúsculas, que funcionam simultaneamente como nós sistémicos de uma rede de significantes e como movimentos de uma sinfonia visual-poética. Esta dupla natureza — arquitectural e musical — é a chave da constituição da obra: cada secção é ao mesmo tempo uma pedra do edifício e um compasso da melodia.

O primeiro movimento — ENTRE O BRANCO E O NEGRO — estabelece o espaço binário fundamental e o desejo originário: esculpir a alma da amada na flor encontrada por acaso. A flor é o recipiente frágil e serendipítico onde o sujeito deposita a sua busca; o jardim da vida é o espaço interior, encantado, onde o impossível pode ser visitado. Note-se que tudo começa já entre — não no branco nem no negro, mas no intervalo, no limiar, nessa fenda onde toda a criação do poema terá lugar.

O segundo movimento — ATRÁS DE TI, ou em fuga — narra o esgotamento. O sujeito gastou todas as cores do arco-íris que guardava dentro de si; a perseguição (ou a fuga — «já nem sei») depleta a vitalidade cromática. A indecisão entre perseguir e fugir é constitutiva: o desejo não sabe se vai atrás do objecto ou se dele se afasta, e essa hesitação — esse «caminho em frente» que é também um «olhar para trás» — percorrerá todo o poema como a sua pulsação secreta. O sistema de significantes encadeia-se: arco-íris → cores guardadas → gasto → falta → frio glacial da ausência.

O terceiro movimento — SOBRARA — é o momento da revelação melancólica: resta apenas uma pedra negra marmórea, espelho oracular onde o sujeito se vê escuro na alma, por falta das cores exuberantes que o protegessem do frio da ausência, «suportada nas longas intermitências e contrapontos de uma melodia inacabada». A pedra é, de uma só vez, espelho, oráculo e altar; o self escuro é o preço da busca; e a melodia inacabada é o luto pela harmonia perdida — o primeiro grande motivo sonoro do poema, a que voltaremos.

O quarto movimento — SOPREI FORTE — marca a viragem criativa. Com a alma desnuda, o sujeito sopra forte e a flor pousa suavemente na pedra lisa e brilhante da catedral, do oráculo vestal onde a quer celebrar como amante. O sopro é acto pneumático de criação — eco do ruach divino —; a alma desnuda é a vulnerabilidade que permite a pousada delicada; o espaço sagrado transforma a celebração em ritual a um tempo amoroso e artístico.

Os movimentos ESCULPI-TE e DESENHEI detalham o processo: esculpir como filigrana de ouro preto sobre branco-pérola, aurífice da alma sedutora no coração alvoraçado da flor; guardar o nome em letras invisíveis; desenhar alvas incrustações como marcas indeléveis da arte que «um dia me visitou». A arte é, aqui, visitação — irrupção graciosa e involuntária — e marca indelével: o que o instante trouxe, a forma fixa para sempre.

O movimento central da oferenda — E, AGORA — abre o presente do poema: a olhar para o branco e o negro do cântico desenhado e esculpido, o sujeito oferece este poema «sobre pintura imaculada», celebrando com arte minimal, sem fronteiras, e reinventando a amada em fuga como elegante fio branco que esvoaça livre no marmóreo céu do altar. O poema é, ele próprio, a pintura imaculada; a reinvenção em fuga é a liberdade estética que transcende a fixidez da ausência.

Os dois últimos movimentos — A ÂNCORA e EVOCO-TE, ASSIM — fecham o sistema com a diluição e a evocação. A âncora, a sul, desliza suavemente sobre a amada e dilui-se, «como eu», na negra vastidão; e o sujeito evoca-a a branco e negro, sobre a flor perdida no jardim encantado, «quando visitava o impossível… à tua procura». O sistema fecha-se sobre si mesmo, regressando à flor e ao jardim do início — mas agora a busca não terminou: as reticências e a linha de pontos suspendem o poema num chamamento que não cessa.

2. Os pares antinómicos 
e a complexidade relacional

A constituição do poema assenta numa malha de antinomias que o atravessam de ponta a ponta: branco/negro (espaço binário inicial e final), cor/falta de cor (o arco-íris gasto contra a pedra negra e o escuro na alma), presença/ausência (a flor, o nome, a celebração contra a fuga, a ausência, a diluição), fixidez/fuga (a pedra, o altar, a catedral contra o fio branco que esvoaça), fusão/autarcia (esculpir a alma na flor do próprio jardim contra o diluir-se na negra vastidão), e visível/invisível (a filigrana e as incrustações contra as letras invisíveis do nome gravado).

O traço decisivo da arquitectura é que estas antinomias não se resolvem numa síntese fácil. O poema mantém a tensão viva e oferece a arte minimal como terceiro termo — não uma reconciliação, mas um espaço onde os opostos coexistem sem se anularem: celebrar sem fixar, reinventar em fuga, evocar o impossível. É uma complexidade relacional no sentido próprio: os elementos não valem isoladamente, valem pelas suas relações, e o sentido nasce da tensão que os mantém juntos sem os fundir.

3. O murmúrio das águas 
- o sistema sonoro do poema

Sob a superfície visual do poema corre um sistema sonoro que o sustenta e que importa trazer à luz. O poema é, antes de mais, murmúrio — fala baixa, sussurrada, que não grita o nome da amada, mas o guarda «em letras invisíveis». Toda a sua dicção é a de um balbucio e de um chamamento: as reticências, as intermitências, os contrapontos de «uma melodia inacabada» fazem do texto uma partitura de silêncios tanto quanto de sons.

A grande imagem acústica do poema é a das águas. Embora o lago e o rio não sejam nomeados literalmente, o poema move-se da nascente à foz: do murmúrio das águas doces — o jardim, a flor, a intimidade, a fonte interior — até à vastidão negra onde tudo se dilui, que é o mar, as águas salgadas, o oceano sem forma. A âncora — objecto marítimo por excelência — confirma esta deriva: o poema desce o curso das águas, da doçura da origem à amplitude salgada do fim. E a foz é esse ponto exacto onde o rio se entrega ao mar e perde o nome — como o eu que se dilui «na negra vastidão». A junção das águas doces e salgadas é a figura última do poema: a fusão em que o finito se entrega ao infinito.

Neste sistema sonoro inscreve-se também o beijo — não nomeado, mas pressuposto na celebração da amada «como amante» e no «coração alvoraçado» da flor. O beijo é a junção das bocas como a foz é a junção das águas: o ponto de contacto onde dois se tornam um sem deixarem de ser dois. O murmúrio, a voz, o sussurro, o sopro — toda a economia oral do poema — converge para esse contacto que o texto nunca descreve e sempre pressente.

3. ANÁLISE PSICANALÍTICA (FPX) 
Instante, espelho oracular, sublimação
1. O instante kairológico 
e a serendipidade do encontro

Do ponto de vista fenomenológico-existencial, o poema descreve um instante kairológico — não o tempo cronológico que mede, mas o tempo qualitativo que acontece — em que o sujeito encontra, por acaso, a flor perdida no jardim da sua vida. O encontro não é planeado: é serendipidade, visitação do impossível no espaço interior encantado. O «num acaso» marca a irrupção do contingente no projecto de celebração, e é dessa irrupção que tudo nasce. O passado e o instante cruzam-se aqui: o que se procurava há muito surge, sem aviso, no agora.

O esgotamento das cores do arco-íris é o momento de depleção libidinal: o sujeito gastou na perseguição (ou na fuga) toda a vitalidade cromática que guardava. A ausência da amada — o «frio glacial», «suportada nas longas intermitências e contrapontos de uma melodia inacabada» — produz uma melancolia cromática, a perda da exuberância protectora. A melodia inacabada é o sintoma do luto não elaborado, da harmonia interrompida: aquilo que, no plano sonoro, soa como contraponto suspenso é, no plano psíquico, a ferida aberta da ausência.

2. O espelho oracular 
e a inner vision do self escuro

A pedra negra marmórea é o espelho oracular onde o sujeito se vê «escuro na alma». Este espelho não é narcísico no sentido comum: não devolve uma imagem amável que o eu possa amar, mas a verdade do self ferido pela ausência. É oracular porque revela — não reflecte apenas, anuncia. A escuridão da alma é o preço pago pela busca: a depleção cromática deixou o sujeito sem protecção contra o frio. A pedra é, de novo, tríplice: espelho (visão de si), oráculo (revelação) e altar (espaço da celebração futura).

Esta visão é uma inner vision no sentido pleno: um olhar voltado para dentro, que vê não o rosto, mas a alma, não a superfície, mas a profundidade escura. É aqui que o poema toca o estremecimento interior — o tremor de quem se vê verdadeiramente, sem as cores que o protegiam. E é deste fundo de escuridão lúcida que surge a viragem: «SOPREI FORTE / com a alma desnuda». O sopro sobre a alma exposta é regressão criativa: a vulnerabilidade extrema, longe de paralisar, torna-se a condição da criação. Só a alma desnuda pode soprar com a força que faz a flor pousar.

3. Sublimação, idealização 
e a reinvenção em fuga

A celebração da amada «como amante» no espaço do oráculo vestal — lugar de pureza ritual — é a idealização: transformá-la em objecto de culto, a um tempo artístico e amoroso. Esculpi-la «como filigrana de ouro preto sobre branco-pérola» é a sublimação do desejo em forma delicada, preciosa, minimal. O aurífice da alma sedutora, trabalhando no coração alvoraçado da flor, é o artista que lavra o material psíquico — a alma da outra, depositada no próprio jardim — com a mestria paciente de um ourives.

O nome «gravado em letras invisíveis» é o traço sagrado e escondido que protege o vínculo, como o nome divino na tradição mística. As «alvas incrustações em filigrana» são as marcas indeléveis da arte que visitou: a sublimação deixa vestígios permanentes. E a oferenda do poema como pintura imaculada é a integração: o sujeito olha para o branco e o negro do cântico esculpido e dá-o como celebração. A reinvenção em fuga — o elegante fio branco que esvoaça livre no marmóreo céu do altar — é a transcendência da fixidez melancólica pela criação estética: a amada já não é prisioneira da pedra, voa livre no espaço sagrado que o poeta lhe oferece.

4. Fusão emocional ou autarcia anímica?

Chegamos à questão psíquica central, que o próprio poema formula sem a resolver: o gesto criativo do sujeito é fusão emocional com a amada ou autarcia anímica — auto-suficiência da alma que cria a partir de si? A âncora que «dilui-se, como eu, na negra vastidão» sugere fusão: a dissolução do self na ausência, a união mística com o objecto amado, a entrega total em que o eu perde as suas fronteiras. A junção das águas, a foz, o beijo — todos os motivos da confluência — apontam para a fusão como destino.

E, no entanto, o gesto que estrutura o poema é de autarcia criadora: é o sujeito quem esculpe, quem sopra, quem grava, quem desenha, quem oferece. A amada é reinventada a partir da escuridão do próprio sujeito, no jardim que é seu, na flor que ele encontrou. A obra nasce não da posse do objecto, mas da sua perda elaborada. A resposta do poema não é uma escolha entre os dois termos, mas uma terceira via: a autarcia criadora permite uma fusão estética que não anula o self — antes o reinventa em liberdade. O eu dilui-se na vastidão, sim, mas dilui-se tendo criado; a fusão é o termo de um gesto que foi, primeiro, soberano. Fundir-se depois de esculpir não é perder-se: é entregar uma obra.

ANÁLISE FILOSÓFICA 
Dialéctica, aporética e estética
1. Dialéctica do branco e do negro, 
da presença e da ausência

O movimento dialéctico do poema descreve-se em três momentos. A tese: o desejo de esculpir a alma da amada na flor do jardim, entre branco e negro — projecto de fusão estética e amorosa. A antítese: o esgotamento das cores, a sobra da pedra negra, o self escuro no espelho oracular, a ausência suportada na melodia inacabada — negação da vitalidade e da harmonia. E a síntese, provisória e aberta: o sopro com alma desnuda, o pousar da flor na pedra sagrada, a filigrana de ouro preto sobre branco-pérola, a oferenda do poema minimal que reinventa a amada em fuga — a arte como terceiro termo que medeia presença e ausência, cor e falta, fixidez e liberdade.

É decisivo que esta síntese seja aberta. A dialéctica do poema não culmina num Aufhebung que suprima as contradições numa unidade superior; culmina numa suspensão — as reticências finais, o «à tua procura» que não encontra. A arte não resolve a ausência: dá-lhe forma. E dar forma à ausência não é preenchê-la, é torná-la habitável.

2. As aporias do impossível e da diluição

O poema é rico em aporias — impasses que não se ultrapassam. mas se habitam. A primeira: como celebrar a amada na sua ausência sem a fixar (o que a tornaria ídolo) nem a perder na diluição (o que a aniquilaria)? O poema responde com a reinvenção em fuga: o fio branco esvoaça livre, não preso ao altar — celebra-se mantendo o movimento, honra-se deixando partir.

A segunda aporia: é possível visitar o impossível sem se perder no negro da vastidão? O poema responde com a persistência da evocação: mesmo diluindo-se «como eu na negra vastidão», o sujeito continua a evocar «a branco e negro sobre a flor». A terceira: a arte minimal, sem fronteiras, consegue conter o peso infinito da ausência? O poema responde afirmativamente — o cântico desenhado e esculpido, a pintura imaculada, o nome em letras invisíveis carregam esse peso sem se quebrarem. E a quarta, já encontrada no plano psíquico: a fusão desejada anula a autarcia ou enriquece-a? O poema mostra a terceira via — a autarcia criadora permite uma fusão estética que reinventa o self em vez de o suprimir.

3. Estética do minimal, da filigrana 
e do fio branco

Esteticamente, o poema constrói um minimalismo em branco e negro, onde a filigrana de ouro preto sobre branco-pérola é o ornamento delicado que celebra sem excesso. O «cântico desenhado e esculpido» é o próprio poema: as palavras são as incrustações alvas, o ritmo é o das intermitências e contrapontos da melodia inacabada transformada em arte. A sinestesia é visual e táctil ao mesmo tempo: a flor pousa suavemente, a pedra é lisa e brilhante, o fio branco esvoaça livre.

A minimalidade — «arte minimal, na forma e na cor, sem fronteiras» — é a resposta estética à exuberância gasta. Depois de esgotar o arco-íris, resta o essencial: branco, negro, ouro preto, fio branco. É uma estética da subtracção, em que menos cor significa mais intensidade, e o despojamento se torna a forma mais alta da celebração. O fio branco que esvoaça no marmóreo céu do altar é a imagem central dessa liberdade estética — a linha pura, sem peso, que desenha no negro o gesto da amada reinventada.

4. O peso infinito das palavras

Resta o motivo que coroa a dimensão filosófica: o peso infinito das palavras. Há um paradoxo no centro do poema — ele celebra o minimal, o despojado, o quase-silêncio do murmúrio e do nome invisível; e, no entanto, cada palavra carrega um peso que tende ao infinito. «Esculpir», «filigrana», «indelével», «imaculada», «vastidão»: são palavras lapidadas, densas, que pesam como pedra mesmo quando dizem a leveza do fio que esvoaça.

Este é o segredo da arte minimal do poema: a economia de meios não diminui o peso, concentra-o. Tal como o nome gravado em letras invisíveis tem mais potência por não ser pronunciado, também a palavra poética pesa mais por ser rara, escolhida, esculpida. O silêncio das reticências finais — «……………» — é a forma extrema deste peso: o que não se diz pesa mais do que tudo o que se disse. O poema termina onde a palavra, atingido o seu peso máximo, se cala — e nesse silêncio cabe o infinito da procura.

DIMENSÃO KABBALÍSTICA 
O nome invisível, o sopro, 
o ouro divino
1. O nome gravado em letras invisíveis

Na tradição kabbalística, o nome (shem) nunca é mera etiqueta: é força criadora, estrutura do real, potência oculta. O nome divino — o Tetragrammaton יהוה — é inefável: escreve-se, mas não se pronuncia; substitui-se na leitura por Adonai ou HaShem («O Nome»). A sua invisibilidade é dupla — visual, porque o som verdadeiro permanece oculto; e espiritual, porque o poder reside precisamente no que se não diz. Quando o Sefer Yetzirah (o «Livro da Criação») afirma que Deus formou o universo pelas vinte e duas letras do alfabeto hebraico e pelas dez sefirot, está a dizer que as letras não são símbolos, mas forças vivas: combiná-las é participar do acto criador.

Guardar «o teu nome / gravado em letras / invisíveis» no coração alvoraçado da flor é, assim, um acto de consagração: o nome da amada é tratado como nome sagrado, escondido para proteger o vínculo e para que a sua potência actue no interior do recipiente. A flor torna-se keli — vaso — da alma, e as letras invisíveis são como as letras primordiais que, segundo a tradição, formam os mundos. O que não se pronuncia não se apaga e não se esgota: por ser invisível, o nome é mais potente, não menos. É o paradoxo central do poema, e o ponto onde a Kabbalah do nome e a estética do minimal coincidem exactamente.

2. O sopro da alma desnuda e o ruach

«SOPREI FORTE / com a alma / desnuda» evoca o ruach elohim — o sopro de Deus que, no princípio, pairava sobre as águas (Génesis 1:2). O sopro é acto criador divino-humano: com a alma exposta, o poeta infunde vida na flor que pousa na pedra sagrada. A flor, no oráculo vestal, torna-se o lugar onde a amada é celebrada «como amante» — união de eros e sagrado, como no Cântico dos Cânticos. A vestal, virgem consagrada ao fogo, evoca a pureza ritual; o oráculo é o espaço da revelação.

Há aqui uma profunda ressonância com o sistema sonoro já descrito. O ruach hebraico significa, ao mesmo tempo, sopro, vento e espírito — e é vento («o vento»), é sopro («soprei forte»), é alma («com a alma desnuda») que o poema convoca neste movimento. O sopro que cria é o mesmo que murmura, que sussurra o nome, que move as águas. Criar, no poema, é soprar: dar o fôlego próprio à matéria do outro, para que a flor — e a amada — ganhem vida. O poeta cria, com este gesto, um espaço sagrado onde a celebração amorosa é também acto de tiqqun — reparação da fractura da ausência.

Importa, neste ponto, dar nome ao horizonte ético que sustenta toda a leitura kabbalística. A ética judaica — de Hermann Cohen e Franz Rosenzweig a Martin Buber e, sobretudo, Emmanuel Levinas — pensa o sujeito não como mónada que se basta, mas como ser convocado pelo rosto do Outro, anterior a toda a ontologia. «DESENHEI… para celebrar / a beleza / do teu rosto»: quando o poema faz do rosto da amada o termo último da arte, inscreve-se exactamente nessa tradição em que o rosto é epifania e mandamento, apelo que obriga antes de qualquer saber. O tiqqun não é, então, mero reparo cósmico: é responsabilidade pelo outro — a passagem do Dit ao Dire, do dito ao dizer, que constitui, como sustentámos em A intriga ética (Veríssimo, 2001) e em O livro do outro e a utopia do humano (Veríssimo, 2026e), a substância mesma da relação. Esculpir o nome do outro em letras invisíveis é guardá-lo como se guarda um mandamento: sem o exibir, mas obedecendo-lhe. A cataláxia axiológica da alteridade — a ordem de valor que nasce do encontro com quem nos excede — é o nome filosófico daquilo que o poema realiza em forma lírica.

3. O ouro preto, o branco-pérola 
e a diluição no Ein Sof

O «ouro preto sobre branco-pérola» é alquimia visual. O ouro — símbolo da luz divina, do aurum philosophicum — é tornado negro, como a nigredo alquímica, a fase de putrefacção e transformação, e aplicado sobre o branco puro. É a arte de converter a escuridão da alma — a pedra negra — em filigrana preciosa: o aurífice é, etimologicamente, «aquele que faz ouro», e o que ele faz é transmutar a perda em beleza. A nigredo do título — a escuridão da ausência — é a matéria-prima da obra de ouro.

A diluição da âncora e do eu «na negra vastidão» pode ler-se como dissolução no Ein Sof — o Infinito sem fim, o divino anterior a toda a manifestação. O self dilui-se para se unir ao amado na vastidão negra, que é também o espaço da criação e do mistério — o tehiru, o vazio aberto pelo tzimtzum, a contracção pela qual o Infinito se retrai para que o mundo possa ser. O fio branco que esvoaça livre é como o tzitzit — as franjas rituais — ou o fio de luz que liga o finito ao infinito. E a evocação final, no jardim encantado, «visitando o impossível», é a busca mística do devekut — a adesão ao divino — através da amada, que se tornou porta para o impossível. A junção das águas doces e salgadas na foz é, neste registo, a unio mystica: o ponto em que o nome e o Nome, o eu e o Outro, se dissolvem na unidade primordial.

A PINTURA "O AURÍFICE"
Espelho plástico do poema

A pintura de 2022 não ilustra o poema: tradu-lo plasticamente, ponto por ponto. Sobre o negro absoluto — a «negra vastidão», o Ein Sof, o tehiru — flutua uma flor pálida, cor de pérola e de ouro velho, de pétalas esculpidas como papel ou cera, que é exactamente a «flor encontrada por acaso» do poema, o keli onde a alma se grava. A flor não assenta em chão nenhum: paira no vazio, como a amada reinventada que «esvoaça livre no marmóreo céu».

No coração da flor, um centro escuro, granular, denso — o «coração alvoraçado» onde o nome se guarda em letras invisíveis. É a zona de maior concentração de matéria e de mistério: o ponto negro dentro do branco, a nigredo no seio da pérola, o tzimtzum no centro da luz. E desse centro nasce o elemento mais eloquente da pintura: um fio finíssimo que se ergue acima da flor numa volta leve e depois desce, sinuoso, até ao limite inferior. É, à letra, «um elegante fio branco que esvoaça livre no marmóreo céu do teu altar» — e é também a âncora que «a sul desliza suavemente e dilui-se». Subindo, é fio que voa; descendo, é âncora que afunda: a mesma linha diz, de uma só vez, a leveza da fuga e o peso da diluição.

A economia cromática da pintura é a do poema: branco-pérola, negro, ouro velho — nenhuma cor do arco-íris, que foi «gasto». É arte minimal no sentido rigoroso: o mínimo de elementos para o máximo de intensidade. O contraste marmóreo, a delicadeza da filigrana, a suspensão da flor no vazio, o fio que liga o alto e o baixo — tudo confirma que pintura e poema são um só acorde, composto em dois materiais. Onde o poema diz, a pintura mostra; e o que ambos celebram é a mesma alma sedutora, gravada com nome invisível no coração de uma flor que flutua sobre o infinito.

CONCLUSÃO 
A arte como resposta 
ao impossível

O poema «ESCULPIR-TE», de João de Almeida Santos, revela-se, à luz das cinco lentes aqui mobilizadas, uma obra de extraordinária densidade existencial, estética e simbólica. Sistemicamente, constitui uma rede de significantes interligados — branco/negro, flor, jardim, arco-íris, pedra negra, oráculo, filigrana, nome invisível, fio branco, âncora, vastidão — articulada em dez movimentos dialécticos que mantêm vivas as antinomias sem as resolver de forma simplista, e percorrida por um sistema sonoro que vai do murmúrio das águas doces à foz, onde elas se entregam às águas salgadas da vastidão.

Psicanaliticamente, o poema expõe a fenomenologia de um instante serendipítico que desperta o desejo de celebrar a amada ausente; a inner vision do self escuro no espelho oracular; a sublimação do desejo em filigrana preciosa; e a resposta à questão entre fusão emocional e autarcia anímica numa terceira via — a autarcia criadora que permite uma fusão estética sem perda do self. Filosoficamente, desdobra uma dialéctica de síntese aberta, habita quatro aporias maiores sem as falsear e ergue uma estética da subtracção onde o peso infinito das palavras se concentra no silêncio das reticências finais.

E, kabbalisticamente, o poema faz renascer um ensinamento antigo: o mais poderoso nem sempre é o que se vê ou se diz. O nome que permanece oculto — seja o Tetragrammaton, sejam os nomes gravados em letras invisíveis no coração de uma flor — é o que cria, protege e transforma. O sopro da alma desnuda é o ruach que infunde vida; o ouro preto sobre branco-pérola é a transmutação da nigredo da ausência em beleza; a diluição na vastidão é o regresso ao Ein Sof; e a busca do impossível é o devekut através da amada.

No fim, «ESCULPIR-TE» ensina que a arte é a resposta possível ao impossível. O nome da amada não precisa de ser gritado nem exposto: basta ser gravado invisivelmente no lugar mais sagrado — o coração da flor, o altar interior do poeta. Aí, como no mistério kabbalístico, o invisível torna-se a fonte mais viva de presença. E o poema, ipsis litteris, permanece — fio branco que esvoaça, livre, no marmóreo céu de um altar que o tempo não apaga.

Fontes patentes

Agamben, G. (2008). O que resta de Auschwitz: O arquivo e a testemunha (S. J. Assmann, Trad.). São Paulo: Boitempo.

Bataille, G. (1957). L’érotisme. Paris: Éditions de Minuit.

Bion, W. R. (1962). Learning from experience. Londres: Heinemann.

Buber, M. (2001). Eu e Tu (N. A. von Zuben, Trad.). São Paulo: Centauro. (Original publicado em 1923)

Cohen, H. (2004). A religião da razão a partir das fontes do judaísmo (Edição parcial; trad. várias). Madrid: Anthropos. (Original publicado em 1919)

Derrida, J. (1967). L’écriture et la différence. Paris: Éditions du Seuil.

Freud, S. (2010). Luto e melancolia. In Obras completas (Vol. 12, P. C. Souza, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Original publicado em 1917)

Heidegger, M. (2005). A caminho da linguagem (M. S. C. Schuback, Trad.). Petrópolis: Vozes.

Idel, M. (1988). Kabbalah: New perspectives. New Haven, CT: Yale University Press.

Jung, C. G. (2011). Psicologia e alquimia (M. L. Appy, Trad.). Petrópolis: Vozes.

Kaplan, A. (1997). Sefer Yetzirah: The book of creation (Ed. rev.). York Beach, ME: Samuel Weiser.

Kristeva, J. (1987). Soleil noir: Dépression et mélancolie. Paris: Gallimard.

Lacan, J. (1966). Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je. In Écrits (pp. 93–100). Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. Haia: Martinus Nijhoff.

Levinas, E. (1974). Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. Haia: Martinus Nijhoff.

Levinas, E. (1963). Difficile liberté: Essais sur le judaïsme. Paris: Albin Michel.

Otto, R. (1992). O sagrado (J. Gama, Trad.). Lisboa: Edições 70. (Original publicado em 1917)

Rosenzweig, F. (1997). A estrela da redenção (Trad. várias). Salamanca: Sígueme. (Original publicado em 1921)

Scholem, G. (1995). As grandes correntes da mística judaica (J. Guinsburg, Trad.). São Paulo: Perspectiva. (Original publicado em 1941)

Winnicott, D. W. (1971). Playing and reality. Londres: Tavistock.

Fontes latentes

Santos, J. de Almeida. (2024). Esculpir-te [poema]. In Exposição «Luz no Vale». Guarda: Museu da Guarda.

Santos, J. de Almeida. (2022). O Aurífice [pintura]. In Exposição «Luz no Vale». Guarda: Museu da Guarda.

Bíblia Sagrada. (s.d.). Génesis; Êxodo; Cântico dos Cânticos. (Edições várias).

Textos do autor integrados

Veríssimo, A. M. (2001). A intriga ética. Guimarães: Editora Cidade Berço.

Veríssimo, A. M. (2026a). A saudade e o bicho da terra: Adam Romez, Uriel da Costa e a condição do homem na poesia de João de Almeida Santos (Ensaio de crítica estética — matriz FPX). Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026b). A travessia imóvel: Leitura FPK dos «Novos Fragmentos (XXVIII)» de João de Almeida Santos. Guimarães: MDE Editora.

Veríssimo, A. M. (2026c). Falo de onde não estou: Uma leitura do «Desencontro» de João de Almeida Santos à luz da compulsão à repetição (Ensaio de crítica estética — matriz FPK). Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026d). O passado que ainda não aconteceu (Ensaio de crítica estética — matriz FPK). Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026e). O livro do outro e a utopia do humano: Da inscrição da violência à cataláxia axiológica da alteridade. Guimarães: MDE Editora.

AMV@06-2026

 

Ensaio

CRUZAMENTO SIMBÓLICO, ESTÉTICO E FPK

O POEMA A PRANCHA E A MUSA
Um único campo significante

Leitura cruzada de «Sonho no Lago», 
de João de Almeida Santos,
e da prancha «Perfil de Musa no Lago» 
(JAS2025), sob o signo de Eratô, 
Musa da poesia lírica e amorosa

André Moshe Veríssimo. PhD

“PERFIL DE MUSA NO LAGO” – JAS 2025

ÍNDICE
Texto-fonte — «Sonho no Lago» 
(J. de Almeida Santos)
Argumento
Limiar: dois suportes, um só acorde
A prancha como tradução plástica do verso
O rosto na água e a face na sombra
A brisa e a textura craquelada
A pauta de melodia e o colar geométrico
O lago e o abismo negro
Cruzamento F — o erotismo do quase e o excesso sagrado
Cruzamento P — o espelho que se fende e a sublimação
Cruzamento K — Sophia, tzimtzum e o tikkun da matéria
Érato: genealogia, nome e domínio
filha de Zeus e de Mnemósine
O nome desejado: Eratō e érōs
Os atributos: a lira, o mirto, a rosa, a flecha, a pomba
Érato na pintura célebre — seis leituras iconográficas
Le Sueur e o cabinet des Muses do Hôtel Lambert
Meynier, Érato e Cupido: a flecha de ouro
Kauffmann, Érato e o putto: o neoclássico sensível
Vouet e Dorigny: as rolas e o panejamento
Leighton: a lira encostada ao silêncio
Da pintura à prancha: o que jas2025 herda e subverte
Interoperacionalização sistémica: a rede fechada
Coda — Onde a brisa não apaga
Apêndice — A grelha trivalente O·E·M aplicada
Fontes patentes
Fontes latentes
TEXTO-FONTE — «SONHO NO LAGO»
Poema de João de Almeida Santos
VI O SEU ROSTO
Brilhante
Espelhado
Nas águas
Desse lago
Do jardim
E com olhar
Comovido
O gravei
Na minha alma...
.........
Só mesmo
Para mim.

SORRI-LHE
E disse olá!
Com estudada
Malícia,
O rosto
Me respondeu:
«Também tu
Andas por cá?»

«SIM, PASSEI
Por aqui
À procura
De mim,
Esperava
Encontrar-me
Espelhado
Nas águas puras
Deste lago
Do jardim.»

IMAGINEI-ME,
Então,
A seu lado,
Olhar seu rosto
De frente,
Ler-lhe a alma,
Encantado,
Mostrar-lhe
O que um poeta
Sente
Quando fica
Fascinado
E com a alma
Fremente.

DEPOIS LI-LHE
Um poema
De amor
Em palavras
Sincopadas
Que caíam
Com fervor
Como gotas
De cristal
Na pele fresca
De veludo
Desse rosto
Virtual.

DE SÚBITO,
Expôs
A beleza
Do seu perfil
Por uns escassos
Momentos
Para que eu
A pintasse
Com palavras
Como se fosse
Aguarela
Dos mais puros
Sentimentos.

FIQUEI FELIZ
De a ver,
Luminosa
E brilhante,
Como a água
Do lago,
Pura, fresca
E cintilante.

E UMA BRISA
Soprou
Sobre a água
Do meu lago
E logo apagou
O seu rosto
Como no despertar
De um sonho,
Mas eu
Desenhei-lhe
O perfil
Em pauta
De melodia
Para poder
Conservá-lo
Na mais íntima
Galeria.

NUNCA MAIS
Voltei
Ao lago,
Mas um dia
Voltarei
Em modo
De poesia
Onde a brisa
Nunca apaga
O seu rosto
Nas águas
Quentes
Desta minha
Fantasia.
⁂
ARGUMENTO
«Vem, ó clara Musa,
Eratô, começa o teu canto,
afinando à tua lira 
amável a melodia...»

Estesícoro, frag.
apud Estrabão, Geografia

Existem, deste encontro com a musa no lago, dois testemunhos. Um é verbal — o poema «Sonho no Lago», que João de Almeida Santos escreveu em Junho de 2026 e onde o rosto da amada se espelha nas águas puras de um jardim, sorri, fala, expõe o perfil e desaparece quando uma brisa toca a água. O outro é plástico — a prancha assinada JAS2025: um perfil esquerdo que irrompe de um abismo negro, com o rosto submerso na sombra e a cabeleira em textura craquelada, luminosa, como matéria prestes a libertar a luz que a habita.

Cada um destes testemunhos já recebeu a sua leitura própria. Resta o gesto que aqui se cumpre: não os ler em paralelo, mas cruzá-los — mostrar que poema e prancha não são duas obras sobre o mesmo tema, mas um único campo significante desdobrado em dois suportes. Onde outro autor compõe melodia, este autor compõe acorde: e o acorde, aqui, é a sobreposição irredutível do dito poético e do dito plástico, lidos segundo o regime trivalente FPK — filosófico (F), psicanalítico (P), cabalístico/estético (K).

À leitura original acrescenta-se agora um terceiro estrato, longamente desenvolvido: a figura de Eratô, musa do canto amoroso, que dá nome ao desejo que percorre ambos os suportes. Não como ornamento erudito, mas como chave: a sua genealogia, o seu nome, os seus atributos e — sobretudo — a longa série das suas representações na pintura célebre permitem ler o que a prancha de JAS herda da tradição iconográfica da musa e o que nela subverte. O lago do poema é o seu altar; o perfil da prancha é o seu rosto velado; e a tradição que vai de Le Sueur a Leighton é a moldura contra a qual a obra de 2026 se recorta.

LIMIAR 
Dois suportes, um só acorde

A tese deste cruzamento é simples de enunciar e densa de demonstrar: a prancha é o poema visto do lado da água, e o poema é a prancha dita do lado da voz. O que no texto se chama «rosto espelhado nas águas desse lago do jardim» é, na prancha, o perfil que emerge do negro; o que no texto se chama «e logo apagou o seu rosto / como no despertar de um sonho» é, na prancha, a textura craquelada da cabeleira, esse limiar de matéria onde a forma ameaça dissolver-se de novo no abismo de que veio.

Há, entre os dois, uma diferença de tempo que é decisiva. O poema narra uma sucessão: vi, sorri, disse olá, imaginei-me, li-lhe, fiquei feliz, soprou a brisa, desenhei-lhe o perfil. A prancha congela um único instante dessa sucessão — e congela precisamente o instante crítico, aquele em que o rosto já começou a apagar-se mas ainda não desapareceu de todo. A face está na sombra (já recua); a cabeleira está em luz (ainda resiste). A prancha é, portanto, o fotograma do desvanecimento: fixa o que o poema só pode dizer no gerúndio do «apagar».

É por isto que os dois suportes não se repetem: completam-se. O poema dá o movimento — o antes e o depois da brisa; a prancha dá o ponto — o exacto limiar entre presença e ausência. Lidos juntos, recompõem a estrutura inteira do acontecimento: o verso oferece a duração, a imagem oferece o instante, e o sentido nasce da tensão entre ambos.

Esta arquitectura tem um nome no idioma do método. Chamamos-lhe trivalência isodinâmica: nenhum dos três registos (F. P. K) é fundamento dos outros, e nenhum dos dois suportes (verbal, plástico) é original do outro. São traduções recíprocas de uma só operação — o encontro com o rosto no espelho fluido. Demonstrá-lo exige percorrer, primeiro, a prancha como tradução do verso; depois, os três cruzamentos F. P. K; a seguir, a figura de Eratô na sua mitologia e na sua iconografia; e, por fim, a rede sistémica que ata tudo.

Convém reter, desde já, um princípio de método. A trivalência não acrescenta sentido exterior ao poema ou à prancha: explicita o que ambos já operam em pré-compreensão integrada. Quando se diz que a craquelura «é» a shevirat ha-kelim, não se aplica uma grelha de fora — descreve-se o que a textura já faz: aprisionar luz na fenda. O cruzamento é, neste sentido rigoroso, uma restituição: devolve ao objecto a densidade que a leitura fracturada da Modernidade lhe retira, separando o erótico do místico e o místico do onírico. Aqui, os três voltam a coincidir no mesmo traço.

A PRANCHA COMO TRADUÇÃO PLÁSTICA DO VERSO *

Antes de cruzar os registos, convém estabelecer, verso a elemento, a correspondência exacta entre o que o poema diz e o que a prancha mostra. Não se trata de ilustração — a prancha não «desenha» o poema —, mas de tradução intersemiótica: cada operação verbal tem o seu equivalente plástico, e é na fidelidade dessa equivalência que o acorde se demonstra.

O rosto na água e a face na sombra

O poema abre com a visão: «Vi o seu rosto / brilhante / espelhado / nas águas». A prancha responde com um paradoxo cromático: a face — o lugar onde esperaríamos o brilho — está mergulhada em sombra quase total, apenas sugerida pela linha do nariz, do lábio, do queixo. O brilho transferiu-se para fora do rosto: para a cabeleira e para o colar. Esta deslocação é, ela própria, uma leitura: o rosto da musa não brilha por luz própria, mas por reflexo — é «espelhado», e um reflexo não tem face, tem contorno. A prancha mostra exactamente isto: um rosto que é todo perfil e nenhuma frontalidade, porque o que se vê na água nunca é o rosto, é a sua imagem.

Note-se a precisão da escolha do perfil. O retrato de perfil é, na história da arte, a forma do medalhão e da moeda — a efígie, o rosto destinado a durar, cunhado para a memória. Ao dar à musa um perfil de medalha, a prancha inscreve-a já sob o signo da conservação que o poema só alcançará no último verso. O perfil é a face que se oferece à posteridade, não ao encontro: olha para o lado, para o que passou, nunca para quem a contempla.

A brisa e a textura craquelada

«E uma brisa / soprou / sobre a água do meu lago / e logo apagou o seu rosto.» Este é o verso central, o ponto de viragem do poema — e é também o centro plástico da prancha. A cabeleira não é cabelo: é matéria em estado de devir, superfície craquelada, «pele do sonho». As fissuras dessa textura são o rasto da brisa — o vento que já passou a mão sobre a imagem e começou a desfazê-la. O que no poema é acontecimento (a brisa que sopra) é, na prancha, estado (a superfície fendida). A craquelura é a brisa solidificada.

A pauta de melodia e o colar geométrico

«Mas eu / desenhei-lhe o perfil / em pauta de melodia / para poder conservá-lo.» Ao apagamento, o poeta opõe a inscrição: converte o rosto que se desfaz em partitura, em forma que dura. Na prancha, este gesto tem a sua cifra exacta — o colar branco, geométrico, facetado como cristal ou origami, que funciona como «a margem, a linha onde o mar encontra a terra firme da consciência e da forma». O colar é a pauta: a ordem sintética que o poeta interpõe entre a cabeleira caótica (a matéria onírica que transborda) e o abismo negro (o nada que tudo ameaça). Onde a textura é a brisa, o colar é a melodia. A oposição plástica entre o craquelado orgânico e a faceta geométrica é, traço por traço, a oposição poética entre o «apagar» e o «conservar».

O lago e o abismo negro

Resta o fundo. No poema, o lago é água — superfície reflectora, «águas puras», «águas quentes desta minha fantasia». Na prancha, o fundo é negro absoluto, «oceano nocturno», o Real lacaniano que ameaça engolir a forma. Não há contradição: a água do poema é o negro da prancha, porque ambos são o mesmo elemento lido em dois momentos. A água que reflecte (poema) e a água que afoga (prancha) são a mesma água — o espelho fluido, que tanto devolve a imagem como a engole. O lago é luminoso enquanto contém o rosto; torna-se abismo no instante em que a brisa o apaga. A prancha pintou o lago no segundo momento.

CRUZAMENTO F 
O erotismo do quase 
e o excesso sagrado

No registo filosófico-estético, o eixo é o erotismo francês — de Sade a Bataille — lido como excesso e transgressão do limite. O cruzamento revela que poema e prancha encenam o mesmo erotismo, mas por meios opostos: o poema pelo dito, a prancha pelo velado.

No poema, o erótico está na palavra que toca: a musa responde com «estudada malícia», expõe o perfil «para que eu a pintasse com palavras», e as palavras do poeta caem «como gotas de cristal / na pele fresca de veludo / desse rosto virtual». Há contacto — táctil, ainda que virtual. É o excesso batailliano na sua forma comunicante: a palavra atravessa o tabu do sonho e toca o Outro.

Na prancha, o erótico está precisamente no que não se mostra. Não há nudez, não há contacto: há a tensão entre a face velada na sombra e a cabeleira que transborda de luz. É um «erotismo do quase»: quase visível, quase tocável, quase sagrado. A petite mort batailliana, que no poema é a brisa que apaga o rosto (o instante de comunicação que se dissolve no regresso à descontinuidade), é, na prancha, a sombra que já tomou a face e avança sobre o resto. O rosto da prancha está a morrer a pequena morte que o verso anuncia.

O cruzamento produz, assim, uma definição mais fina do erótico de ambos: não é o erotismo da posse, mas o erotismo da iminência — do rosto que está prestes a entregar-se e prestes a desaparecer, na mesma fracção de instante. O poema diz essa iminência no futuro («um dia voltarei»); a prancha mostra-a no presente suspenso. E em ambos, o que se deseja não é o corpo — é a imagem do corpo no espelho, o «rosto virtual», esse objecto que só existe enquanto se apaga.

Importa não confundir este erotismo com o do libertino. Em Sade, o desejo procura a posse e a destruição do objecto; aqui, o desejo procura conservar o objecto que foge — é um erotismo da fidelidade, não da devassidão. Este desvio é decisivo para o que se dirá de Érato: porque a musa de João de Almeida Santos não inspira a luxúria, inspira o canto — e o canto, ao contrário da posse, não consome o seu objecto, exalta-o. É o sentido que Diodoro Sículo já dava a Érato: aquela que faz dos homens, não possuidores, mas «dignos de serem amados».

CRUZAMENTO P 
O espelho que se fende 
e a sublimação

No registo psicanalítico, o lago é o espelho — e o cruzamento mostra que o estádio do espelho lacaniano opera, nos dois suportes, em modo invertido. No espelho clássico, o eu reconhece-se a si próprio. Aqui, o eu procura-se («passei por aqui / à procura de mim») e encontra, no lugar da sua imagem, o Outro — a musa. O reconhecimento falha-se a si mesmo: o sujeito, ao debruçar-se sobre a água para se ver, vê outro rosto.

O poema explicita esta inversão num dos seus momentos mais subtis. A musa diz: «também tu / andas por cá?», e logo: «sim, passei / por aqui / à procura de mim, / esperava encontrar-me / espelhado nas águas». Quem fala — o eu ou a musa? A ambiguidade é deliberada: a musa é o eu procurando-se, é a anima junguiana, a figura feminina interior que emerge do inconsciente portadora de saber e de perigo. O poeta encontra-se ao encontrá-la; perde-se ao perdê-la.

A prancha dá a este espelho a sua imagem mais exacta: um perfil cuja face está na sombra. O espelho lacaniano devolve normalmente uma imagem coesa — o eu ideal. Aqui devolve uma imagem fendida: a silhueta é reconhecível (o eu ideal persiste no contorno), mas a textura craquelada da cabeleira é a falha no espelho, o retorno do reprimido, a fissura por onde o eu coeso se esboroa. O observador da prancha, como o eu do poema, fica entre identificação e estranhamento: reconhece um rosto e não consegue retê-lo.

E há a sublimação. Em ambos os suportes, o que poderia ficar como puro impulso — desejo erótico, angústia da perda — é elevado à forma. No poema, pela «pauta de melodia» onde o perfil se conserva; na prancha, pela própria pincelada, que é o trabalho de sublimação visível: o sonho transformado em traço. A melodia do verso e o traço da prancha são o mesmo gesto sublimatório: converter a perda em obra, o luto do rosto apagado numa galeria — íntima no poema, exposta na prancha — onde a imagem perdura para além do instante que a destruiu.

Acrescente-se uma nota sobre a melancolia. Freud distinguia o luto, que elabora a perda e a deixa partir, da melancolia, que se recusa a perder e incorpora o objecto perdido no próprio eu. O poema parece, à primeira vista, melancólico — «nunca mais voltei ao lago» —, mas o seu gesto final é, a rigor, trabalho de luto bem-sucedido: não retém o rosto como ferida, inscreve-o como obra e, ao inscrevê-lo, liberta-se para «voltar um dia em modo de poesia». A prancha faz o mesmo: não é um monumento fúnebre, é uma efígie viva, um rosto guardado para poder ser revisto. Em ambos, a sublimação vence a melancolia.

CRUZAMENTO K
Sophia, tzimtzum 
e o tikkun da matéria

No registo cabalístico-estético, o cruzamento alcança a sua maior densidade, porque é aqui que a estrutura plástica da prancha realiza, quase didacticamente, o mito lurânico que o poema apenas insinua. A sequência inteira — tzimtzum → shevirat ha-kelim → tiqqun — encontra na obra dupla a sua encenação completa.

Tzimtzum
- O negro como retracção

O abismo negro da prancha não é, primeiramente, ameaça — é condição. Antes de a luz aparecer, a luz infinita (Or Ein Sof) retraiu-se para abrir um espaço onde algo pudesse ser: é o tzimtzum, a auto-contracção do Infinito. O negro absoluto da prancha é esse vazio primordial (o tehiru), o lugar esvaziado onde o rosto pode emergir. No poema, o equivalente é o silêncio antes da visão — o lago liso, ainda sem rosto, à espera. Sem o negro não há perfil; sem a água vazia não há reflexo. A retracção é o que torna possível a aparição.

Shevirat ha-kelim 
- A craquelura como vaso partido

A textura fendida da cabeleira é, na sua cifra mais directa, a shevirat ha-kelim — a quebra dos vasos que não puderam conter a luz da criação. As nitzotzot, as centelhas divinas, ficaram presas na matéria, e a craquelura é o registo dessa prisão: luz aprisionada na fissura, matéria prestes a libertar luz. No poema, o vaso que se quebra é a própria fantasia: «logo apagou o seu rosto / como no despertar de um sonho». O sonho é o keli, o vaso onírico, e a brisa é o sopro que o estilhaça. Em ambos, a luz não se perde — dispersa-se, fica à espera de quem a recolha.

Tiqqun 
- A melodia e o traço 
que recolhem as centelha

E quem a recolhe é o poeta — o pintor. «Desenhei-lhe o perfil / em pauta de melodia / para poder conservá-lo»: cada nota dessa pauta é uma centelha recolhida, cada verso um fragmento de luz arrancado à dispersão. É o tiqqun, a reparação, operada pela palavra. Na prancha, o tiqqun é a própria pincelada: cada traço que insiste na cabeleira luminosa, contra o negro que avança, é um caco recolhido, uma centelha devolvida à forma. O colar geométrico — o keli reconstruído, o vaso agora ordenado — é o tiqqun consumado em geometria: a luz que transbordava encontra, enfim, um continente que a segura.

Sobre tudo isto paira Sophia. A musa do lago é, na leitura sofiânica de Bulgakov, a Sabedoria divina feminina (Hokhmah) que medeia entre o Criador e a criação — e a prancha mostra-a no seu momento mais verdadeiro: não a Sophia serena dos ícones, mas Sophia em processo de encarnação, ainda presa nos cacos da matéria, ainda lutando para se manifestar. O rosto que emerge do negro é a Sabedoria a fazer-se imagem; a brisa que a apaga é a resistência da matéria à encarnação; e o regresso futuro «em modo de poesia / onde a brisa nunca apaga o seu rosto» é a escatologia sofiânica — a criação redimida, o divino-feminino enfim permanente na obra.

Esta leitura prepara já o estrato seguinte. Pois aquilo a que a teologia chama Sophia, e a psicanálise chama anima, a mitologia grega chamou Musa — e, no caso preciso do canto amoroso, Eratô. As três figuras nomeiam, em três línguas, a mesma potência feminina mediadora: a que faz o homem criar ao fazê-lo desejar. É a ela que se dedica a parte que se segue.

ERATÔ 
Genealogia, nome e domínio
«Vem agora, Eratô, 
e diz-me 
quem eram os reis…»

Virgílio, Eneida, VII, 37

Para que Eratô funcione como chave — e não como mera alusão decorativa — é preciso conhecê-la com exactidão: a sua origem, o seu nome, o seu lugar entre as nove irmãs, e o conjunto de atributos que a tradição lhe foi fixando. Só então as suas representações pictóricas (secção VII) poderão ser lidas como variações sobre um tema que a prancha de JAS, à sua maneira, prolonga.

A filha de Zeus e de Mnemósine

Érato é uma das nove Musas, filhas de Zeus e da titânide Mnemósine — a Memória. A genealogia é fixada por Hesíodo na Teogonia (v. 75 e seguintes), onde as nove são nomeadas em conjunto: Clio, Euterpe, Talia, Melpómene, Terpsícore, Érato, Polímnia, Urânia e Calíope. Nasceram na Piéria, ao pé do Olimpo, do encontro de Zeus com Mnemósine repetido por nove noites; e habitam o monte Hélicon, centro da inspiração poética. Apolodoro (Biblioteca, 1.3) e Diodoro Sículo confirmam a mesma ascendência.

Esta filiação não é indiferente ao nosso tema. Ser filha da Memória é, para uma musa do amor, a definição mais exacta possível do que o poema de JAS faz: o «Sonho no Lago» é, do princípio ao fim, um trabalho de memória — o rosto que se apaga é guardado «na mais íntima galeria», e a galeria é precisamente Mnemósine. Érato, filha da Memória, preside a esse gesto de conservar o amado contra o esquecimento. A prancha, ao dar à musa um perfil de medalhão — forma cunhada para durar —, inscreve-a sob o mesmo signo materno: a Memória que vence a brisa.

Há ainda uma singularidade de Érato entre as irmãs. Ao contrário da maioria das Musas, representadas como virgens, Érato tem descendência documentada: dada por Zeus em casamento a Malo, foi mãe de Cleofema, e a sua linhagem prolonga-se — através de Corónis e Flégias — até Asclépio, deus da medicina. A musa do amor é, portanto, também a origem distante da cura. Esta nota genealógica ressoa com um motivo caro ao autor: o canto que cura, a poesia como tiqqun, a beleza que repara. Érato liga, na sua própria descendência, o érōs à terapêutica.

O nome desejado - Eratô e Eros

O nome Eratô (Ἐρατώ) significa «amável», «desejada», se derivado, como quer a tradição, da mesma raiz de érōs. Foi Apolónio de Rodes quem fixou o jogo, ao abrir o Livro III da Argonáutica — o livro do amor de Medeia — com uma invocação a Érato, justificando a escolha pela consonância entre o nome da musa e o desejo que ela inspira. Virgílio retoma o gesto na Eneida (VII, 37), invocando-a no limiar da segunda metade do poema, a das guerras e das paixões. E Platão, no Fedro, liga-a expressamente aos amantes.

Esta etimologia é a charneira de todo o cruzamento. Pois o que o poema de JAS encena é, ponto por ponto, a operação que o nome de Érato condensa: o desejável que se dá a ver e o desejo que o canta. A musa do lago não tem outro nome senão «o seu rosto»; mas o seu nome próprio — aquele que a tradição lhe daria — é precisamente «a desejada». E o Hino Órfico às Musas atribui a Érato uma função que a prancha realiza à letra: Érato é aquela que encanta a vista. Ora a prancha é, antes de tudo, um objecto para a vista encantada — um rosto que fascina o olhar e se subtrai a ele.

Os atributos 
- a lira, o mirto, a rosa, 
a flecha, a pomba

Desde o Renascimento, Érato é representada com um conjunto estável de atributos, cada um dos quais encontra eco no par poema-prancha:

A lira (ou a pequena cítara). É o seu emblema principal, instrumento de Apolo e de Orfeu, que converte o desejo em canto e em ordem. No poema, a lira é a «pauta de melodia» onde o perfil se conserva; na prancha, é o colar geométrico, partitura facetada que ordena o caos da cabeleira. A lira é, em ambos, o instrumento da conservação: o que transforma o que foge em forma que fica.

A coroa de mirto e de rosas. Plantas de Afrodite. A rosa é a beleza que se abre e murcha — a flor do instante, como o rosto «por uns escassos momentos» exposto. O mirto, sempre verde, é a beleza que sobrevive ao Inverno — como o rosto que «um dia voltarei» a ver. Os dois atributos de Érato dizem, juntos, exactamente a tensão do poema: a rosa é a brisa que apaga, o mirto é a melodia que conserva.

A flecha de ouro. Por vezes Érato segura uma seta dourada, símbolo do érōs que ela desperta — assim a mostra, por exemplo, a tela de Meynier no Museu de Cleveland. A flecha é o desejo que fere à distância, sem contacto: precisamente o «erotismo do quase» que identificámos na prancha, onde o desejo nunca toca o seu objecto, apenas o visa.

As rolas (pombas). Nas representações de Simon Vouet, duas rolas debicam sementes aos pés da musa — aves de Afrodite, emblema da fidelidade amorosa e do par. A sua presença lembra que o canto de Érato não é o da conquista volúvel, mas o do vínculo: e o poema de JAS é, no fundo, um poema de fidelidade — a um rosto único, prometido e reencontrado.

Eros com a tocha. Por vezes a musa é acompanhada pelo próprio Eros, que segura uma tocha acesa. A tocha é a luz do desejo — e é difícil não a reconhecer na prancha, onde a única luz que rompe o negro é a da cabeleira incandescente, esse facho que arde contra a noite. Na prancha, Eros não está representado como figura: está como luz.

ERATÔ NA PINTURA CºELEBRE 
Seis leituras iconográficas

A figura de Eratô atravessa toda a pintura europeia, do maneirismo ao academismo vitoriano. Percorrer algumas das suas representações mais célebres não é digressão erudita: é construir a moldura contra a qual a prancha de JAS se recorta. Cada tela fixou um aspecto da musa; e a prancha de 2026, lida contra elas, revela com nitidez o que herda da tradição e o que nela rompe.

Le Sueur e o cabinet des Muses 
do Hôtel Lambert

Entre 1652 e 1655, Eustache Le Sueur pintou, para o cabinet des Muses do Hôtel Lambert, na Île Saint-Louis, um conjunto de painéis hoje no Louvre, entre os quais a célebre tela que reúne três musas: Melpómene, Érato e Polímnia (óleo sobre tela, 130×130 cm). Érato aparece aí com a sua lira, em harmonia serena com as irmãs, num classicismo de gesto medido e luz uniforme. É a Eratô apolínea: equilibrada, plena, sem sombra — a musa como ideal de ordem.

É exactamente contra esta serenidade que a prancha de JAS se define por contraste. Onde Le Sueur banha a musa numa luz igual e a integra num coro, a prancha isola-a sobre o negro absoluto e parte a sua superfície em craquelura. A musa de Le Sueur possui-se; a de JAS apaga-se. A distância entre as duas é a distância entre o classicismo da plenitude e uma estética do limiar e da perda — entre o keli intacto e o keli partido.

Meynier, Eratô e Cupido 
- A flecha de ouro

Charles Meynier, no início do século XIX, pinta Érato e Cupido (versões no Museu de Cleveland e no Bonnat-Helleu), onde a musa surge com a flecha de ouro recebida de Eros — sinal expresso da emoção que a inspira. Aqui o érōs é tematizado de frente: a musa e o deus do desejo partilham o mesmo espaço, e a seta dourada é o atributo que os liga.

A prancha de JAS herda de Meynier a presença do desejo, mas suprime a sua figuração. Não há Cupido, não há seta visível: o desejo passou inteiramente para a luz da cabeleira e para a sombra da face. É a mesma matéria erótica, mas interiorizada — o que em Meynier é alegoria de personagens torna-se, na prancha, drama puramente cromático entre o que arde e o que se apaga. A flecha de ouro de Meynier é, na prancha, o próprio facho luminoso que fere o negro.

Kauffmann, Érato e o putto 
- O neoclássico sensível

Angelica Kauffmann, das poucas mulheres admitidas na Royal Academy, pinta no final do século XVIII Érato, a Musa da Poesia Lírica, com um Putto: uma musa neoclássica de doçura pensativa, acompanhada por um pequeno génio alado. Kauffmann é célebre por unir o ideal clássico a uma profundidade emotiva — e a sua Eratô é menos a deusa do desejo ardente do que a da ternura contemplativa.

Esta inflexão — de Érato como sensibilidade, não como ardor — é a que mais se aproxima da prancha de JAS. A musa de JAS, com a face na sombra e o olhar voltado para o que passou, tem o mesmo recolhimento melancólico da musa de Kauffmann. Mas onde Kauffmann mantém a figura inteira, legível, iluminada, a prancha leva o recolhimento ao limite: a face já quase se apagou, e o que resta é o gesto de a guardar. Kauffmann pinta a musa a pensar; JAS pinta-a a desaparecer.

Vouet e Dorigny 
- As rolas e o panejamento

Nas composições de Simon Vouet e do seu genro e colaborador Michel Dorigny — autor de um painel de Eratô pertencente a uma série de nove musas, hoje dispersa —, a musa surge envolta em panejamentos amplos e acompanhada, aos pés, por duas rolas que debicam sementes. As aves de Afrodite introduzem na cena o tema do par e da fidelidade: a musa do amor não é a do desejo errante, é a do vínculo.

A prancha de JAS retém este núcleo — a fidelidade — mas despoja-a de todo o aparato. Não há panejamento, não há aves, não há cenário: há um perfil e um abismo. O que em Vouet é dito por acumulação de símbolos é, na prancha, dito por subtracção: o vínculo amoroso reduzido ao essencial — um rosto que se quer conservar contra o nada. A economia plástica da prancha é o oposto exacto da abundância barroca de Vouet; e, no entanto, ambas dizem o mesmo: o amor é fidelidade a uma face.

Leighton 
- A lira encostada ao silêncio

Frederic Leighton, presidente da Royal Academy e mestre do academismo vitoriano, pinta uma Eratô de grande sumptuosidade plástica, em que a musa, drapeada, surge com a lira num registo de melancolia contida e beleza solene. Leighton é o pintor da forma perfeita à beira da dissolução estética — a beleza que sabe da sua própria transitoriedade.

É talvez Leighton o antepassado mais próximo do tom da prancha. A sua Eratô carrega já a consciência da efemeridadeque o «Sonho no Lago» tematiza. Mas Leighton mantém a beleza intacta, apenas pensativa; a prancha de JAS dá o passo seguinte e mostra a beleza já em vias de se apagar — a craquelura é o que aconteceria à pele perfeita de Leighton se o tempo, finalmente, lhe tocasse. A prancha é uma Eratô leightoniana depois da brisa.

Da pintura à prancha
- O que JAS2025 herda e subverte

Reunindo as seis leituras, desenha-se com nitidez a posição da prancha na linhagem de Eratô. Dela herda: a lira (tornada colar-pauta), o desejo (tornado luz), o mirto e a rosa (tornados tensão entre apagar e conservar), a fidelidade a uma face (tornada economia de subtracção), a consciência da efemeridade (tornada craquelura).

Mas subverte três traços maiores da tradição. Primeiro, o fundo: onde a tradição põe paisagem, arquitectura ou coro de irmãs, a prancha põe o abismo negro — o tehiru cabalístico, o Real lacaniano. Segundo, a integridade da figura: onde a tradição dá a musa inteira e legível, a prancha dá um perfil meio submerso na sombra e uma matéria fendida — a figura em vias de dissolução. Terceiro, e mais decisivo, a temporalidade: as Érato da tradição estão no presente do seu esplendor; a Eratô de JAS está no limiar do desaparecimento, captada no exacto instante em que a brisa do verso central começa a apagá-la.

É nesta tripla subversão que a prancha se revela inseparável do poema. Pois aquilo que distingue a Érato de JAS de todas as anteriores — o fundo de abismo, a figura em dissolução, o instante do limiar — é, ponto por ponto, o que o «Sonho no Lago» narra. A prancha não é uma Eratô a mais na galeria: é a Érato deste poema, a musa do rosto que se apaga no lago e se conserva na pauta. Tradição e ruptura coincidem: jas2025 pinta a musa de sempre, no instante que nenhum pintor antes dele se atrevera a fixar — o da sua própria desaparição amorosa.

INTEROPERACIONALIZAÇÃO SISTÉMICA
A rede fechada

Os cruzamentos não são justaposições: formam um sistema fechado, onde cada elemento exige os outros e nenhum pode ser removido sem colapso da estrutura. Convém expor a rede no seu funcionamento.

O erotismo do registo F — o desejo do rosto iminente — só não cai em mera transgressão profana porque é atravessado pelo numinoso: o tremor sagrado diante do rosto que aparece (o tremendum) e o fascínio que leva a pintá-lo com palavras (o fascinans). Mas o numinoso, por sua vez, cairia em misticismo evasivo se não fosse ancorado pela profundidade psicanalítica do registo P: o espelho fendido, a anima, a sublimação dão ao sagrado a sua gramática terrena — o desejo, o inconsciente, o luto.

A psicanálise, por seu turno, esgotar-se-ia na imanência do sujeito se o registo K não a abrisse ao cosmos: o espelho lacaniano torna-se o keli, a anima torna-se Sophia, a sublimação torna-se tiqqun. E o tiqqun — a recolha das centelhas — precisaria de um agente que o operasse: esse agente é o poeta-pintor, cujo desejo (F), cuja elaboração (P) e cuja reparação (K) se unificam sob Eratô, musa do canto que faz da perda uma obra.

Eratô é, assim, o nó da rede inteira. Nela coincidem a anima do registo P e a Sophia do registo K; nela o érōs do registo F encontra o seu nome próprio; nela a Memória (sua mãe, Mnemósine) garante a conservação que é o telos do poema. E a sua descendência até Asclépio inscreve na própria genealogia a equação central do autor: o canto que cura, a beleza que repara. Retirar Eratô — ou qualquer dos registos, ou qualquer dos dois suportes — e a estrutura desaba.

Os dois suportes são, eles próprios, parte da rede: o poema dá a duração que a prancha não pode dar; a prancha dá o instante que o poema não pode fixar; e a tradição iconográfica de Eratô dá a ambos a moldura histórica contra a qual se recortam. É esta interdependência tripla — registos, suportes, tradição — que faz da obra um organismo, e não uma colecção.

CODA 
Onde a brisa não apaga

O poema termina numa promessa: «nunca mais voltei ao lago, / mas um dia voltarei / em modo de poesia / onde a brisa nunca apaga / o seu rosto». A prancha é o cumprimento dessa promessa. É o regresso ao lago «em modo de poesia» — só que em modo de pintura —, o lugar onde a brisa, finalmente, não apaga. Porque na prancha o rosto está fixado: a craquelura registou o apagamento e, ao registá-lo, deteve-o. O que no poema era ameaça («apagou o seu rosto») é, na prancha, memória vencida («mas eu desenhei-lhe o perfil»).

Eis o sentido último do cruzamento. Tomados isoladamente, poema e prancha dizem ambos a mesma melancolia — a beleza apaga-se, o sonho dissolve-se, o rosto recua para o negro de onde veio. Tomados em conjunto, e sob o olhar de Érato, dizem outra coisa: que a beleza apaga-se no tempo (poema) mas permanece na forma (prancha); que a brisa vence o instante, mas a melodia — e o traço — vencem a brisa. O poema é o lamento; a prancha é a vitória. E o acorde dos dois é a verdade inteira: amamos o que se apaga, e por isso o inscrevemos onde a brisa não chega.

Eratô, filha da Memória, preside a este acorde. Foi ela quem, de Hesíodo a Leighton, ensinou os poetas e os pintores a cantar o desejável e a guardá-lo do esquecimento. E é ela quem, na prancha de João de Almeida Santos, recebe enfim o rosto que nenhum pintor antes ousara mostrar no seu limiar — não a musa no esplendor, mas a musa no instante exacto em que se entrega e se subtrai. Na mais íntima galeria da fantasia — que é também, agora, uma galeria exposta, pendurada na parede do negro —, o perfil da musa permanece eternamente espelhado nas águas quentes do desejo.

O poeta nunca mais voltou ao lago. Mas voltou. E nós voltamos com ele, cada vez que lemos o verso e contemplamos o perfil, no mesmo acorde indivisível de palavra e cor — sob o signo da musa amável, da desejada, daquela cujo nome é o próprio nome do desejo que faz cantar.

REFERÊNCIAS
FONTRES PATENTES
APOLODORO. (2004). Biblioteca mitológica 
(J. García Moreno, Trad.). Madrid: Gredos.
APOLÓNIO DO RODES. (1990). Argonáutica 
(Livro III; A. Mendes Lopes, Trad.). Lisboa: 
Edições 70. (Original do séc. III a.C.)
BATAILLE, G. (1957). L’érotisme. 
Paris: Éditions de Minuit.
BULGAKOV, S. (1937). The wisdom of God: 
A brief summary of sophiology. 
Londres: Williams & Norgate.
DIODORO SÍCULO. (1933). Library of history 
(Vol. II; C. H. Oldfather, Trad.). 
Cambridge, MA: Harvard University Press.
FREUD, S. (2010). Luto e melancolia. 
In Edição standard brasileira das obras 
psicológicas completas de Sigmund Freud 
(Vol. XIV, pp. 245–263). Rio de Janeiro: 
Imago. (Original publicado em 1917)
HESÍODO. (2005). Teogonia 
(A. E. Pinheiro & J. R. Ferreira, Trad.). 
Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
JUNG, C. G. (1959). The archetypes
and the collective unconscious 
(R. F. C. Hull, Trad.). Princeton, 
NJ: Princeton University Press.
KAPLAN, A. (1990). Inner space: 
Introduction to Kabbalah, 
meditation and prophecy. Jerusalém: Moznaim.
LACAN, J. (1966). Le stade du miroir 
comme formateur de la fonction du Je. 
In Écrits (pp. 93–100). Paris: Éditions du Seuil.
MÉROT, A. (1987). Eustache Le Sueur 
(1616–1655). Paris: Arthena.
MILOVANOVIC, N. (2021). Peintures françaises 
du XVIIe siècle du musée du Louvre. 
Paris: Louvre éditions / Gallimard.
OTTO, R. (1917). Das Heilige. 
Breslau: Trewendt & Granier.
PLATÃO. (2000). Fedro 
(J. Ribeiro Ferreira, Trad.). 
Lisboa: Edições 70.
SCHOLEM, G. (1941). Major trends 
in Jewish mysticism. Jerusalém: Schocken.
VIRGÍLIO. (2014). Eneida 
(Livro VII; L. M. G. Cerqueira, Trad.). 
Lisboa: Bertrand. (Original do séc. I a.C.)

FONTES LATENTES

SANTOS, J. de Almeida. (2026). 
Sonho no Lago.
SANTOS, J. de Almeida. (2025). 
Perfil de musa no lago 
[prancha digital, assin. JAS2025]. 

***

ESTESÍCORO. (s.d.). Radina [fragmento, 
apud Estrabão, Geografia].
HINO ÓRFICO LXXVI (Às Musas). (s.d.).
LEIGHTON, F. (séc. XIX). Érato 
[óleo sobre tela].
KAUFMANN, A. (c. 1780). Erato, 
a musa da poesia lírica, 
com um putto [óleo sobre tela].
MEYNIER, C. (c. 1800). Érato e Cupido 
[óleo sobre tela]. 
CLEVELAND, OH: The Cleveland Museum of Art; 
Bayonne: Musée Bonnat-Helleu.
LE SUEUR, E. (1652–1655). 
Melpómene, Érato e Polímnia 
[óleo sobre tela]. Paris: Musée du Louvre 
(ex-Hôtel Lambert, cabinet des Muses).
VOUET, S., & Dorigny, M. (séc. XVII). Érato 
[óleo sobre painel de carvalho, da série das nove musas].
AMV@06-2026
André Moshe Veríssimo, PhD, é Professor universitário, investigador, filósofo, poeta, ensaísta e crítico de arte

 

Ensaio

ANATOMIA POLÍTICA  DO GESTO E DA VIDA NUA

Ékfrasis de uma mão que aponta 
no escuro e dissecação crítica 
da polis europeia em Junho de 2026

“S/Título” – JAS 2026. Pintura digital. Assinatura no canto inferior direito.

«Onde outro autor 
compõe melodia, 
este autor compõe acorde»
ÍNDICE
RESUMO
PRÓLOGO - A imagem que não explica, 
apenas indica
EKPHRASIS FPK DA MÃO
O Gesto como Acorde
NOTA METODOLÓGICA
O Modelo Infeldiano 
como Ontologia Relacional
DISSECAÇÃO DA NEUTRALIDADE ESTATAL 
e o Hastear de Bandeiras
O EXCESSO JUDICIAL 
e a inflamação do Corpus Politicum
A TRANSFORMAÇÃO DAS REDES SOCIAIS 
como Captura Bio-Neural
RICORSI EUROPEI
Social-Democracia, 
Novas Direitas, Diplomacia
CONVERGÊNCIA
O dedo apontador da Polis
PROSPECTIVA
Riscos e Potencialidades 
da Proliferação
CONCLUSÃO
Manter o Espaço de Teste Aberto
GLOSSÁRIO OPERATIVO 
de Conceitos-Chave
REFERÊNCIAS
RESUMO

Este ensaio pratica uma única ékphrasis conduzida em dois planos que se revelam, no fim, um só. No plano estético, lê-se a obra digital assinada «jas2026» — uma mão isolada que emerge de um abismo ocre e aponta horizontalmente para fora do quadro —, segundo a matriz FPK (filosófico, psicanalítico, cabalístico-estético), nos seus eixos de lineamentos, cores, figura, orientação, humano no meio material, realismo da mão e endereçamento simbólico do gesto e da vida nua. No plano político, toma-se como texto fonte as «Considerações tempestivas sobre a política actual», de João de Almeida Santos (23 de Junho de 2026), e dissecam-se os seus episódios — bandeiras e neutralidade do Estado, excessos do juiz Peinado, mutação das redes sociais, crise da social-democracia britânica, ascensão do partido Futuro Nazionale italiano e o canal diplomático de António Costa — segundo três modelos epistémicos em diálogo tenso: o popperiano (conjecturas e refutações), o infeldiano (ontologia relacional de campos de força) e, no limite, o feyerabendiano (proliferação anti-metódica). A tese é que o dedo apontador da obra e o dedo apontador do Estado neutro partilham uma mesma gramática: indicar sem possuir, mostrar o comum sem fixar a parte. A leitura é simultaneamente bio-neural, críptica, hermética, hermenêutica e científico-epistemática.

PRÓLOGO
A Imagem que não explica,
apenas Indica

Antes de qualquer conjectura sobre a polis, impõe-se o silêncio diante da imagem. A obra não argumenta: indica. Reproduzo-a aqui (ver supra) para que o leitor a tenha sob os olhos enquanto a anatomia, primeiro estética e depois política, se desenrola — porque, segundo o nihil varietur, nada deve ser dito da imagem que a imagem não sustente. Uma mão. Um antebraço que parece nascer de um lençol ou de um manto escuro. Nada mais: nem rosto, nem corpo, nem narrativa. Apenas o gesto puro, suspenso entre a carne e o abismo. É desta economia radical que partiremos.

ÉKPHRASIS FPK DA MÃO 
O Gesto como Acorde

A matriz FPK não lê a obra como melodia sucessiva — primeiro a forma, depois o sentido — mas como acorde: os três registos soam em simultâneo. Decomponho-os por clareza expositiva, mas o leitor deve ouvi-los como um único timbre.

1. Lineamentos, cores e figura

Os lineamentos são quase cirúrgicos. O indicador traça uma diagonal ascendente que corta o espaço pictórico com autoridade; os demais dedos recolhem-se em curva tensa, num contraponto rítmico. A pele é mapeada por veias, falanges e rugas que não são meramente desenhadas — são esculpidas pela luz. Não há contorno duro: há modulação de borda, ali onde a luz morre e a sombra nasce, assinatura do grande realismo táctil. A paleta é deliberadamente restrita — ocres, sienas queimadas, castanhos terrosos e um negro profundo que funciona como abismo. É uma monocromia quente, quase uterina, que remete simultaneamente à carne viva e à terra de onde viemos.

O fundo, povoado de grandes círculos desfocados (bokeh), não é simples efeito fotográfico: é membrana atmosférica que dissolve o espaço em zonas de pura potencialidade. A figura é radicalmente fragmentária — só a mão e o antebraço, emergindo do manto. No registo cabalístico, este fundo é o tzimtzum: a contracção primordial pela qual o Infinito se retrai para abrir um vazio onde algo finito possa existir. O negro não é ausência, é reshimu, o resíduo luminoso que torna possível a primeira figura. A mão é o primeiro kli — o primeiro vaso — que ousa formar-se na escuridão da retracção.

2. Orientação - o gesto imanente

A escolha da orientação horizontal é decisiva e carrega quase toda a carga semântica da obra. A mão não aponta para cima (transcendência) nem para baixo (queda, inferno, terra): aponta para o lado — para fora do quadro, para o espectador, para o vazio lateral. É um gesto de indicação imanente, não vertical. O braço parece vir da borda inferior, como se o corpo inteiro estivesse deitado ou suspenso atrás do plano pictórico. Guardemos esta nota, porque será a dobradiça de todo o ensaio: apontar para o lado é a forma plástica da neutralidade. Quem aponta para cima consagra; quem aponta para baixo condena; quem aponta para o lado apenas mostra — e, ao mostrar sem hierarquizar, devolve ao outro a liberdade de olhar.

3. O humano no meio material

A mão não é símbolo abstracto: é carne pintada, matéria densa que ocupa espaço. O processo trabalhou a textura da pele com uma fisicalidade que quase permite sentir a temperatura, a secura, a idade. Estamos diante de um corpo reduzido à sua parte mais instrumental e expressiva, mas que permanece irredutivelmente material. Não é idealização renascentista; é presença carnal num meio que é, ele próprio, matéria — pixel, luz digital, superfície. No registo fenomenológico, a mão é aqui o que Husserl chamava hylé: o dado sensível, a matéria da experiência antes de se constituir em objecto. Merleau-Ponty diria que é a carne do mundo a manifestar-se — a mão que aponta é simultaneamente tocante e tocada, sujeito e objecto da visão.

4. Realismo da mão e vida nua

O realismo é o ponto de maior tensão da obra. A mão é anatomicamente impecável — veias dorsais, articulações, a leve deformidade natural das falanges — mas não é hiper-realista no sentido fotográfico. É realista no sentido fenomenológico: dá-nos a mão como ela se dá na percepção, com toda a sua vulnerabilidade e potência. É essa nudez que autoriza falar de vida nua. A mão aparece sem luva, sem adorno, sem contexto social, exposta à luz e ao abismo. O gesto de apontar torna-se então quase trágico: o ser humano reduzido à sua essência biológica e simbólica, indicando algo que não vemos — talvez o sentido da existência, talvez o nada. A nudez aqui não é erótica, é ontológica.

Giorgio Agamben fornece a chave decisiva: a nuda vita é a vida reduzida à sua forma mais exposta, sem qualificação política ou cultural — apenas vida que aponta no escuro. E aqui o acorde fecha-se sobre si mesmo: a vida nua da estética é exactamente o referente da anatomia política que se segue. Pois toda a questão da polis em Junho de 2026 — bandeiras, processos judiciais, redes, identidades — é, no fundo, a questão de saber quem decide sobre a vida nua e que símbolos a capturam ou a libertam.

5. Correntes subterrâneas, sinais estéticos 
e precursores hiléticos

A imagem dialoga com correntes subterrâneas precisas. O tenebrismo de Caravaggio e dos seus seguidores (a mão esculpida pela luz contra o preto absoluto). A tradição moderna das mãos isoladas: as mãos angustiadas de Francis Bacon, as mãos existenciais de Giacometti, as mãos de Munch. O surrealismo das mãos que surgem em espaços sem corpo (Dalí, Magritte), aqui em tonalidade mais sombria. E a sensibilidade contemporânea do bokeh e da profundidade de campo rasa, que traz a fotografia para dentro da pintura.

Os sinais estéticos são patentes: a tensão irresolvida entre realismo anatómico e abstracção atmosférica; a dramática economia de meios (quase nada além de mão, escuridão e luz); o uso do negativo — do que não está representado — como força activa. Quanto às influências hiléticas (de hylé, a matéria informe), a obra opera no território da fenomenologia da percepção: oferece-nos a carne antes do conceito. A assinatura discreta «jas2026» no canto inferior direito parece quase irrelevante diante da força anónima da imagem: a obra não precisaria de autor para funcionar; funciona como ícone laico da condição humana contemporânea — um fragmento de carne inteligente, envelhecida, poderosa e frágil, apontando para um horizonte deliberadamente fora do quadro.

No registo psicanalítico, esse «fora do quadro» é o objet petit a lacaniano: a causa do desejo que nunca se deixa ver, em torno da qual todo o olhar gravita. A mão não mostra o objecto; mostra a falta. E é essa falta — esse vazio lateral para onde o indicador se estende — que se converterá, na Parte II, no vácuo de expectativas que o Estado neutro deve manter aberto.

NOTA METODOLÓGICA 
O Modelo infeldiano 
como Ontologia Relacional

O termo «infeldiano» é aqui cunhado por convenção hermética para designar uma ontologia relacional inspirada na física de campos (field theory) e na linhagem de pensadores — com destaque para Leopold Infeld — que recusaram a substancialidade isolada dos entes em favor das suas relações dinâmicas num continuum de forças, tensões e ressonâncias. No domínio político, este modelo abandona a imagem newtoniana de actores como partículas dotadas de propriedades intrínsecas e adopta, em seu lugar, a imagem de nós (nodes) num campo vectorial multidimensional. Cada actor — o Estado, um partido, um juiz, uma plataforma, uma identidade colectiva, uma bandeira — define-se não pela sua essência, mas pela resultante instantânea das forças de atracção, repulsão, tensão e ressonância que o ligam a todos os outros nós. A posição de qualquer entidade é sempre relacional, contextual e mutável; não existe «neutralidade» como ponto zero absoluto, mas apenas equilíbrios meta-estáveis resultantes da configuração actual do campo.

Eis o ponto de sutura com a Parte I: a mão de «S/Título» é, ela própria, um nó num campo. O seu indicador não possui um sentido intrínseco; o sentido emerge da relação entre a carne iluminada e o abismo que a cerca, entre o gesto e o vazio para onde aponta. Transposta para a polis, esta intuição transforma a conjectura central do texto fonte — a de que a neutralidade doutrinária do Estado é condição de possibilidade da liberdade identitária — numa hipótese sobre a estabilidade topológica do campo. O Estado «neutro» funciona como hub regulador cujo papel não é a ausência de força, mas a manutenção de um vácuo de expectativas que permite a coexistência e a oscilação de múltiplos sub-campos identitários sem que nenhum fixe permanentemente a topologia global.

A dimensão bio-neural integra-se naturalmente. Os padrões de activação sináptica que o texto fonte descreve — o reforço repetido de circuitos identitários por bandeiras, narrativas ou algoritmos — reinterpretam-se como modificações locais da topologia do campo vectorial. Uma plataforma digital que converte os utilizadores em matéria-prima não «explora» uma essência humana preexistente: reconfigura activamente o campo, ao ponto de a própria noção de agência individual emergir como efeito secundário de padrões de reforço algorítmico. O modelo permite, assim, uma anatomia simultaneamente microscópica (os padrões de excitação) e macroscópica (a curvatura global do campo), sem reducionismo de escala.

O diálogo com os outros dois modelos é deliberadamente mantido em tensão. O critério popperiano de falsificabilidade permanece operativo: cada conjectura sobre a estabilidade de um campo — incluindo a própria conjectura infeldiana — deve poder ser submetida a refutação. A proliferação feyerabendiana, por seu turno, recorda que o modelo infeldiano não é o único nem o «verdadeiro»: é uma lente fecunda entre outras, cuja utilidade depende da capacidade de dialogar — por vezes conflituosamente — com lentes rivais: a hermenêutica gadameriana do círculo parte-todo, a crítica imanente da Escola de Frankfurt, a genealogia foucaultiana dos dispositivos de poder. A saúde epistémica do campo depende precisamente desta proliferação controlada, desde que nenhum modelo ocupe sozinho o centro regulador — exactamente o princípio que o texto fonte reclama para o Estado democrático.

DISSECAÇÃO DA NEUTRALIDADE ESTATAL
e o hastear de bandeiras
1. O texto fonte, ipsis litteris

“AINDA BEM que houve uma iniciativa legislativa sobre o hastear de bandeiras nos edifícios públicos, propriedade do Estado, ou seja, de todos nós. Mas já não considero tão interessante que o PR a tenha devolvido ao Parlamento. Do que se trata aqui é somente da ideia de neutralidade ideológica ou doutrinária do Estado. Porque é precisamente a neutralidade ou a laicidade do Estado que torna possível proteger e garantir a liberdade de expressão das diversas identidades existentes na sociedade. […] E não será, certamente, colocando a bandeira LGBT nos edifícios públicos que se garante esta neutralidade do Estado. O Estado, do ponto de vista simbólico […], deve representar e ser representado apenas pelo que é comum […]. Tudo símbolos partilháveis universalmente” (Santos, 2026, 23 de Junho, ipsis litteris, nihil varietur).

2. Análise popperiana 
- a neutralidade como hipótese testável

A conjectura central resiste, à primeira vista, ao teste de falsificabilidade. A história das democracias liberais mostra que, quando o Estado se identifica com uma confissão religiosa, uma ideologia de classe ou uma causa identitária particular, as minorias tendem a ver constrangidos os seus espaços de expressão. A laicidade francesa, a neutralidade ideológica alemã ou a separação americana entre Igreja e Estado são, cada uma à sua maneira, tentativas de institucionalizar o princípio. Mas a formulação merece uma refutação parcial: a neutralidade absoluta é ela própria uma posição no campo de forças, não um ponto de vista de lugar nenhum. Como o modelo infeldiano sugere, o Estado «neutro» é sempre resultado de uma negociação histórica entre campos rivais; a sua neutralidade é equilíbrio instável, não essência metafísica. O Congresso de Aveiro de 1973, ao reclamar a «neutralidade doutrinária», situava-se num contexto específico de luta contra o Estado Novo; transportar a fórmula para 2026 sem mediação hermenêutica é correr o risco de anacronismo epistémico.

3. Leitura bio-neural
- sinapses identitárias no hub estatal

Do ponto de vista bio-neural, hastear bandeiras de parte em edifícios públicos equivale a introduzir um padrão de activação sináptica forte num hub que deveria permanecer disponível para todos os padrões. A bandeira nacional, a europeia e os símbolos heráldicos municipais funcionam como padrões de base, reconhecíveis por toda a rede neural colectiva. Quando se adiciona uma bandeira de parte, activa-se um sub-circuito identitário específico que, por reforço repetido, pode tornar-se dominante e inibir a expressão de outros circuitos. Não se trata de negar a legitimidade da identidade enquanto tal — trata-se de reconhecer que o espaço público estatal não é o lugar adequado para a sua consagração simbólica permanente, sob pena de converter o Estado de hub neutro em emissor de uma mensagem particular.

Regresse-se agora à mão de «S/Título». O seu indicador horizontal é a imagem exacta do Estado que o texto fonte deseja: aponta para o comum sem se identificar com ele. Se a mão apontasse para cima, consagraria — seria a bandeira de parte hasteada no frontão. Apontando para o lado, mantém-se disponível, neutra, meta-estável. A plasticidade da rede preserva-se precisamente pela recusa de fixar sinapses ideológicas no centro regulador — pela recusa de transformar o gesto imanente em gesto vertical.

4. Hermenêutica críptica 
e o limite feyerabendiano

A hermenêutica do símbolo revela uma camada críptica: o debate sobre as bandeiras é, em última análise, um debate sobre o controlo do que Bourdieu designaria por poder simbólico. Quem define os símbolos legítimos do espaço público define os limites do dizível e do pensável na polis. O texto fonte acerta ao invocar a lógica hegeliana do Estado como universal concreto que transcende os interesses particulares. Mas o limite feyerabendiano obriga a perguntar: e se existirem múltiplas universalidades possíveis, incomensuráveis entre si? A proliferação de bandeiras não é necessariamente sintoma de decadência; pode ser, à maneira feyerabendiana, sintoma de vitalidade democrática, desde que nenhuma pretenda ocupar sozinha o centro. O erro do PR teria sido ceder ao politicamente correcto; mas o erro oposto — absolutizar uma única concepção de neutralidade — seria igualmente dogmático. A posição verdadeiramente crítica mantém o debate aberto e testa empiricamente as consequências de cada política de símbolos.

O EXCESSO JUDICIAL 
e a inflamação do Corpus Politicum
1. O caso Peinado como campo de forças

O caso de Begoña Gómez e do juiz Juan Carlos Peinado oferece campo de aplicação à anatomia bio-neural e à epistemologia crítica. O texto fonte conjectura que o processo «parece ser sem fundamento até de acordo com quem fez as investigações» e que as medidas cautelares — retirada do passaporte, apresentações periódicas — constituem um vexame. Do ponto de vista popperiano, é conjectura ousada que requer testes severos: quais as provas concretas de que a acusação é «politicamente teleguiada»? A menção aos interesses familiares do juiz junto da líder do PP de Madrid é relevante, mas carece de demonstração de nexo causal. A epistemologia infeldiana permite ver o juiz não como sujeito isolado, mas como nó num campo judicial-político onde se entrecruzam, de forma complexa, as linhas de força entre poder judicial, executivo e oposições. A inflamação manifesta-se quando um actor judicial, em vez de aplicar protocolos de falsificação das hipóteses de acusação, parece operar segundo lógicas de confirmação enviesada.

2. Projecção neural e mecanismos de feedback

A afirmação do juiz de que a própria escolta policial poderia ajudar a arguida a fugir é, hermeneuticamente, um sintoma revelador: projecta um cenário de excepção (a fuga de Puigdemont) sobre um caso que, segundo o texto fonte, não apresenta indícios de risco de fuga. A projecção funciona como padrão neural de transferência — o circuito activado pela memória de fugas de líderes independentistas é transferido para um caso de natureza diversa, produzindo decisão desproporcionada. A homeostase seria restaurada pela intervenção do Consejo General del Poder Judicial, que abriu inquérito disciplinar — mecanismo de feedback negativo que o texto fonte regista com aprovação implícita. No limite feyerabendiano, porém, não existe protocolo único e infalível para distinguir «processo com fundamento» de «caça às bruxas»: cada época possui os seus critérios de demarcação, e a vigilância crítica consiste em manter essa tensão visível.

No registo cabalístico, o excesso judicial é uma forma de shevirat ha-kelim — a quebra dos vasos. O processo justo é um kli concebido para conter a luz da acusação sem se estilhaçar; quando o vaso recebe mais força do que pode comportar (a força da animosidade política investida na cautelar) parte-se e os fragmentos — as qelippot, as cascas — passam a aprisionar faíscas de justiça em vez de as libertar. O inquérito disciplinar é, então, o início de um tikkun: a reparação que recolhe os fragmentos e tenta restituir ao campo a sua plasticidade.

A TRANSFORMAÇÃO DAS REDES SOCIAIS
como Captura Bio-Neural
1. O texto fonte, ipsis litteris

“Duas mudanças substanciais já aconteceram: a primeira, foi a transformação dos users das grandes plataformas digitais (clientes) em matéria-prima das mesmas; e, agora, a transformação de um sistema concebido originariamente para funcionar como espaço de interacção comunitária em plataforma genérica de oferta de conteúdos informativos (e de desinformação). […] Aquelas que eram no início consideradas plataformas de libertação estão hoje transformadas em espaços de exercício de poder instrumental pelas grandes plataformas digitais” (Santos, 2026, 23 de Junho, ipsis litteris, nihil varietur).

2. A expropriação sináptica

A passagem de «plataformas de interacção comunitária» a «plataforma genérica de oferta de conteúdos» é talvez o exemplo mais claro de captura bio-neural do espaço público. Os utilizadores, antes clientes ou participantes, foram convertidos em matéria-prima cujos dados alimentam algoritmos de perfilagem preditiva, vendidos no mercado económico e político. Do ponto de vista neural, é uma expropriação massiva de sinapses: cada clique, cada like, cada tempo de permanência é registado e usado para reforçar circuitos de atenção e desejo que escapam ao controlo consciente do sujeito. A função de interacção comunitária cede perante a procura generalizada de conteúdos não certificados, degradando a qualidade epistémica da esfera pública digital.

Aqui a obra «S/Título» devolve-nos uma advertência sombria. A mão que aponta poderia ser a mão do utilizador soberano, indicando livremente o seu objecto de desejo. Mas, sob captura algorítmica, é antes a mão apontada: o bokeh do fundo — esses círculos desfocados de potencialidade — torna-se a metáfora exacta dos perfis preditivos que circundam o sujeito, antecipando o seu gesto antes de ele o decidir. A vida nua da Parte I reaparece aqui despida não pela arte, mas pelo capital: vida reduzida a dado, carne convertida em sinal de mercado.

3. Proliferação de alternativas 
no espírito feyerabendiano

A crítica do texto fonte é popperiana na essência: as notícias das redes «não são notícias certificadas» e os códigos éticos dos media tradicionais, embora imperfeitos, ofereciam um mínimo de imputabilidade e de teste intersubjectivo. O modelo infeldiano vai mais longe: as grandes plataformas não são intermediários neutros, mas campos de força que reconfiguram activamente as relações entre produtores e consumidores de sentido. O utilizador é, em simultâneo, consumidor, produtor de dados e objecto de extracção de valor — tripla posição que gera uma assimetria de poder que nenhum «mercado de ideias» auto-regulado corrige. A solução feyerabendiana não passa por impor um único modelo regulatório (o da certificação jornalística clássica), mas pela proliferação experimental de alternativas: plataformas cooperativas, protocolos de verificação descentralizados, algoritmos de transparência obrigatória, e até formas de desconexão colectiva que permitam testar empiricamente se o debate público melhora quando se reduz a dependência das grandes redes.

RICORSI EUROPEI
Social-Democracia, Novas Direitas, 
Diplomacia
1. O Reino Unido e a refutação prática de um paradigma

A queda de Starmer, a provável ascensão de Burnham e o avanço de Farage podem ler-se como um ricorso viquiano: o retorno, sob novas formas, de dinâmicas de polarização identitária e de questionamento da social-democracia como paradigma dominante. O texto fonte nota, com perspicácia, que a doutrina «precisa de ser repensada profundamente em vez de ser papagueada com fórmulas que já nada dizem aos cidadãos». Do ponto de vista popperiano, a erosão eleitoral do Labour constitui refutação prática de certas formulações da social-democracia contemporânea — não necessariamente da ideia de Estado-providência, mas da sua tradução em políticas culturais e identitárias que perderam ressonância junto de amplos sectores do eleitorado.

2. Itália: proliferação de paradigmas identitários

A emergência do Futuro Nazionale con Vannacci, que já rivaliza com a Lega nas sondagens, ilustra o princípio feyerabendiano da proliferação: quando um paradigma (a direita institucionalizada de Meloni e Salvini) parece estabilizado, surgem variantes mais radicais que testam os limites do aceitável e forçam uma redefinição do campo. O estatuto do FNV — com a sua ênfase na identità tradizionale italiana e na lotta coraggiosa contra ideologia gender, ideologia woke, cancel culture e immigrazionismo — representa uma conjectura identitária explícita que merece crítica severa, mas cuja existência no debate público é um dado que qualquer anatomia honesta deve registar. A neutralidade do analista não consiste em negar a legitimidade do novo actor, mas em recusar tratá-lo como simples «ameaça à democracia» sem antes examinar as condições que tornaram a sua emergência possível e atractiva.

3. A iniciativa de António Costa 
no campo UE-Rússia

A movimentação de António Costa, enquanto Presidente do Conselho Europeu, para abrir um canal diplomático com a Rússia é tratada com cepticismo pelo texto fonte. Do ponto de vista infeldiano, Costa age como nó que tenta reconfigurar o campo das relações UE-Rússia num momento em que esse campo está polarizado entre posições de confronto e posições de mediação, e em que se tornaram patentes as diferenças entre Kaja Kallas e Ursula von der Leyen. A conjectura de que se trata de uma tentativa de «mostrar serviço» em vésperas de renovação do cargo é plausível, mas carece de confirmação; a alternativa — um ensaio de autonomia estratégica europeia face às divergências transatlânticas — também não pode ser excluída sem mais investigação. Em qualquer caso, o episódio ilustra a tensão permanente entre a lógica institucional (o mandato do Conselho) e a lógica da iniciativa pessoal num campo onde a agência individual ainda conta.

CONVERGÊNCIA
O dedo apontador da Polis

Chega o momento de fechar o acorde. A Parte I leu uma mão que aponta horizontalmente para fora do quadro e nomeou esse gesto indicação imanente. As Partes III a VI dissecaram uma polis cuja questão central é a do Estado que deve apontar para o comum sem se identificar com a parte. Estas duas mãos são a mesma.

O Estado neutro do texto fonte é o indicador de «S/Título»: estende-se para mostrar — a nação, Camões, a bandeira da União, a heráldica do município — mas não fecha o punho sobre nenhum objecto particular. No instante em que o punho se fecha — quando o hub é capturado por uma bandeira de parte, por uma cautelar enviesada, por um algoritmo de perfilagem, por uma identidade que se quer única — o gesto deixa de ser imanente e torna-se vertical: consagra ou condena, e a vida nua que jazia exposta no escuro é apreendida, classificada, possuída. A inflamação auto-imune da polis é exactamente isto: o mecanismo regulador que deveria manter a mão aberta volta-se contra a própria abertura.

Cabalisticamente, a mão aberta de «S/Título» é a figura da Shekhinah no exílio — a presença que habita o vazio e o torna habitável, sem o preencher com qualquer ídolo. A neutralidade do Estado, lida assim, não é frieza ou indiferença: é a hospitalidade de um tzimtzum institucional, uma retracção que abre espaço para que as identidades se formem livremente. Apontar para o lado, no escuro, sem possuir: eis a mais alta forma política do gesto, e a tese última deste ensaio.

PROSPECTIVA 
Riscos e Potencialidades da Proliferação

A anatomia de Junho de 2026 revela uma paisagem em que a proliferação de paradigmas — novos partidos identitários, judicialização da política, captura algorítmica do debate, iniciativas diplomáticas paralelas — coexiste com tentativas de recentramento: a neutralidade estatal, a regulação das plataformas, a defesa da independência judicial. Do ponto de vista popperiano, a proliferação é bem-vinda na medida em que multiplica as conjecturas disponíveis para teste; do infeldiano, corresponde a uma intensificação das linhas de força, com risco de colapso em polarizações extremas, mas também com potencial de reconfigurações criativas. O limite feyerabendiano recorda que qualquer tentativa de impor uma «metodologia única» para gerir a proliferação — o regresso à neutralidade clássica, a regulação progressista das identidades, a desconexão digital radical — corre o risco de se converter em novo dogmatismo que suprime a própria fecundidade da diversidade.

Os riscos são reais: a judicialização excessiva pode paralisar a acção governativa legítima; a captura das redes pode degradar irreversivelmente a esfera pública; a ascensão de formações que rejeitam explicitamente o pluralismo identitário pode conduzir a dinâmicas de exclusão difíceis de reverter uma vez institucionalizadas. Mas as potencialidades também existem: a crítica das «fórmulas que já nada dizem aos cidadãos» pode forçar uma renovação genuína da social-democracia; a proliferação de movimentos pode abrir espaços para sínteses que transcendam as dicotomias clássicas; a própria crise da neutralidade simbólica pode levar a uma reflexão mais profunda sobre o que significa, em 2026, «representar o comum» numa sociedade de identidades múltiplas e sobrepostas. A anatomia aqui proposta não prescreve soluções: limita-se a manter visível a tensão entre estes riscos e estas potencialidades, recusando tanto o alarmismo catastrofista como o optimismo ingénuo.

CONCLUSÃO
Manter o Espaço de Teste Aberto

A anatomia esboçada não pretende oferecer diagnóstico final nem terapêutica. O seu objectivo é mais modesto e, simultaneamente, mais ambicioso: manter aberto o espaço de crítica e de teste onde as conjecturas políticas possam ser formuladas com ousadia e submetidas a refutação, sem que o próprio espaço de debate seja capturado por qualquer das partes. O Estado neutro, a rede neural colectiva, o campo de forças relacional e a proliferação de métodos constituem quatro lentes complementares — não excludentes — através das quais os episódios de Junho de 2026 se deixam ler de forma não dogmática. A lição popperiana de que o conhecimento progride pela eliminação do erro aplica-se tanto às ciências da natureza como à reflexão sobre a polis: cada tentativa de fixar definitivamente o sentido da neutralidade, da justiça, da regulação digital ou da identidade europeia deve ser tratada como hipótese de trabalho, não como artigo de fé.

E há a mão. Voltámos a ela em cada capítulo porque ela é o nihil varietur deste ensaio: o que não se altera enquanto tudo à volta se reconfigura. «jas2026» pintou uma mão que aponta no escuro e não explica — apenas indica. Foi essa a nossa tarefa diante das conjecturas tempestivas de João de Almeida Santos: tomá-las a sério, submetê-las a escrutínio metodológico e hermenêutico e devolvê-las ao leitor enriquecidas pela densidade de uma abordagem multi-metódica. Que o leitor, por sua vez, as submeta a novos testes. Esse é o movimento perpétuo da razão crítica e da polis democrática — e é também o gesto da mão que, no escuro, se recusa a fechar o punho.

Glossário Operativo de Conceitos-Chave

Os termos abaixo foram forjados ou adaptados no decurso desta anatomia e destinam-se a funcionar como ferramentas conceptuais de precisão, não como definições fixas. O seu sentido é relacional e contextual, sujeito a refinamento crítico em cada nova aplicação.

Hub regulador — Instância central (Estado, instituição, protocolo) que mantém a disponibilidade do campo para múltiplos padrões de activação sem se identificar permanentemente com nenhum. A sua captura por uma força particular equivale à perda de neutralidade e à polarização do sistema.

Captura sináptica — Processo pelo qual um padrão identitário ou ideológico reforça repetidamente as suas conexões no campo, inibindo ou marginalizando padrões rivais. Exemplos: colonização de edifícios públicos por bandeiras de parte; algoritmos que privilegiam conteúdos de confirmação.

Equilíbrio meta-estável — Estado do campo político em que a neutralidade se mantém não por ausência de forças, mas pela resultante dinâmica de tensões opostas que impedem a fixação definitiva em qualquer posição. Perturbações podem desencadear transições de fase.

Indicação imanente — Gesto que aponta para o lado — nem para cima (consagração) nem para baixo (condenação) —, mostrando o comum sem o possuir. Forma plástica, na obra «S/Título», daquilo que na polis se chama neutralidade activa do Estado.

Proliferação feyerabendiana — Multiplicação intencional de modelos, métodos e paradigmas interpretativos como condição de saúde epistémica. Não equivale a relativismo, mas à recusa de que exista um método único universalmente superior para todos os contextos.

Campo vectorial político — Modelo infeldiano em que cada actor, símbolo ou instituição é tratado como vector cuja magnitude e direcção resultam das relações de força com todos os outros vectores do sistema. A posição de um actor é sempre relacional e mutável.

Vida nua (nuda vita) — Vida reduzida à sua forma mais exposta, sem qualificação política ou cultural. Na obra, a mão sem luva nem contexto; na polis, o sujeito que os símbolos, as cautelares e os algoritmos disputam capturar ou libertar.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Agamben, G. (1998). Homo sacer: Sovereign power and bare life (D. Heller-Roazen, Trans.). Stanford: Stanford University Press.

Bourdieu, P. (1991). Language and symbolic power (G. Raymond & M. Adamson, Trans.). Cambridge, MA: Harvard University Press.

Feyerabend, P. K. (1975). Against method: Outline of an anarchistic theory of knowledge. London: New Left Books.

Gadamer, H.-G. (1989). Truth and method (2nd rev. ed., J. Weinsheimer & D. G. Marshall, Trans.). London: Sheed & Ward.

Hegel, G. W. F. (1991). Elements of the philosophy of right (A. W. Wood, Ed.; H. B. Nisbet, Trans.). Cambridge: Cambridge University Press.

Husserl, E. (1982). Ideas pertaining to a pure phenomenology and to a phenomenological philosophy: First book (F. Kersten, Trans.). The Hague: Martinus Nijhoff.

Infeld, L., & Einstein, A. (1938). The evolution of physics. Cambridge: Cambridge University Press.

Lacan, J. (1978). The four fundamental concepts of psychoanalysis (A. Sheridan, Trans.). New York: Norton.

Merleau-Ponty, M. (1968). The visible and the invisible (A. Lingis, Trans.). Evanston: Northwestern University Press.

Popper, K. R. (1963). Conjectures and refutations: The growth of scientific knowledge. London: Routledge and Kegan Paul.

Scholem, G. (1995). Major trends in Jewish mysticism. New York: Schocken Books.

Vico, G. (1999). New science (3rd ed., D. Marsh, Trans.). London: Penguin Books.

Fontes latentes

Santos, J. A. (2026). «S/Título» [mão que aponta no escuro] [Pintura digital]. Colecção do autor.

Santos, J. de A. (2026, 23 de Junho). Considerações tempestivas sobre a política actual. João de Almeida Santos. (Texto fonte base, reproduzido ipsis litteris em passagens seleccionadas, nihil varietur).

Veríssimo, A. M. (2001). A intriga ética. Guimarães: Editora Cidade Berço.

AMV@06-2026

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia-Pintura

SONHO NO LAGO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Perfil de Musa no Lago”
JAS 2025
Original de minha autoria
Junho de 2026

“Perfil de Musa no Lago” – JAS 2025

POEMA – “SONHO NO LAGO”

VI O SEU ROSTO
Brilhante
Espelhado
Nas águas
Desse lago
Do jardim
E com olhar
Comovido
O gravei
Na minha alma...
........
Só mesmo 
Para mim.

SORRI-LHE
E disse olá!
Com estudada
Malícia,
O rosto
Me respondeu:
“Também tu
Andas por cá?”

“SIM PASSEI
Por aqui
À procura
De mim,
Esperava
Encontrar-me
Espelhado
Nas águas puras
Deste lago
Do jardim”.

IMAGINEI-ME,
Então,
A seu lado,
Olhar seu rosto
De frente,
Ler-lhe a alma,
Encantado,
Mostrar-lhe
O que um poeta
Sente
Quando fica
Fascinado
E com a alma
Fremente.

DEPOIS LI-LHE
Um poema
De amor
Em palavras
Sincopadas
Que caíam
Com fervor
Como gotas
De cristal
Na pele fresca
De veludo
Desse rosto
Virtual.

DE SÚBITO,
Expôs
A beleza
Do seu perfil
Por uns escassos
Momentos
Para que eu
A pintasse
Com palavras
Como se fosse
Aguarela
Dos mais puros
Sentimentos.

FIQUEI FELIZ
De a ver,
Luminosa
E brilhante,
Como a água
Do lago,
Pura, fresca
 E cintilante.

E UMA BRISA
Soprou
Sobre a água
Do meu lago
E logo apagou
O seu rosto
Como no despertar
De um sonho,
Mas eu 
Desenhei-lhe
O perfil 
Em pauta
De melodia
Para poder
Conservá-lo
Na mais íntima
Galeria.

NUNCA MAIS
Voltei
Ao lago,
Mas um dia
 Voltarei
Em modo
De poesia
Onde a brisa
Nunca apaga
O seu rosto
Nas águas
Quentes
Desta minha
Fantasia.

 

Artigo

CONSIDERAÇÕES TEMPESTIVAS

SOBRE A POLÍTICA ACTUAL

João de Almeida Santos

"S/Título" - JAS 2026
AS BANDEIRAS E A NEUTRALIDADE DO ESTADO

AINDA BEM que houve uma iniciativa legislativa sobre o hastear de bandeiras nos edifícios públicos, propriedade do Estado, ou seja, de todos nós. Mas já não considero tão interessante que o PR a tenha devolvido ao Parlamento. Do que se trata aqui é somente da ideia de neutralidade ideológica ou doutrinária do Estado. Porque é precisamente a neutralidade ou a laicidade do Estado que torna possível proteger e garantir a liberdade de expressão das diversas identidades existentes na sociedade. Não foi por acaso que o célebre Congresso da Oposição Democrática, de Aveiro, em 1973, dizia nas suas conclusões, no ponto 4.3, “Objectivos da luta democrática”, sobre o Estado, o seguinte: ”Cumpre (…) garantir a neutralidade doutrinária do Estado”. E não será, certamente, colocando a bandeira LGBT nos edifícios públicos que se garante esta neutralidade do Estado. O Estado, do ponto de vista simbólico (que é o que está em causa no hastear de bandeiras nos edifícios públicos), deve representar e ser representado apenas pelo que é comum – a bandeira, a ideia de nação, o património comummente reconhecido como tal (Camões, por exemplo, no dia de Portugal), a pertença à União (através da bandeira) e à qual pode localmente ser acoplado o símbolo ou a heráldica de uma cidade ou de um município (veja o artigo 11 da CRP). Tudo símbolos partilháveis universalmente. Portugal é um país maioritariamente católico, mas existem outras confissões religiosas – não devem, por isso, ser hasteados nos edifícios institucionais públicos símbolos religiosos ou, por exemplo, pôr crucifixos nas escolas. É a laicidade, a universalidade e a neutralidade ideológica do Estado democrático que permite a protecção e garante a livre formação e expressão das identidades. Associar-lhe símbolos de parte é diminuí-lo na sua neutralidade e na sua própria função. O Decreto da AR (de 17.04.26), independentemente de um ou outro pormenor, no essencial, é correcto e o PR errou ao devolver o diploma à AR. E ficou-me a sensação de que houve aqui uma cedência ao politicamente correcto. É, infelizmente, muito frequente esta cedência um pouco por todo o lado.  O Decreto dizia: é proibido hastear bandeiras, não previstas no art. 3, designadamente “de natureza ideológica, partidária ou associativa”.  Ou seja, bandeiras que representem partes (por exemplo, partidos), isto é, que não representam o todo, a nação, que não sejam símbolos em que todos possam reconhecer-se, independentemente das legítimas opções pessoais. Eu não me reconheço na bandeira do CDS/PP, mas aceito-a como legítima; eu não me reconheço na bandeira LGBT, mas reconheço-a como legítima; eu não me reconheço na bandeira do FC do Porto, mas reconheço-a como legítima. Ou seja, o Estado só está em condições de garantir a livre afirmação das identidades se estiver acima delas, não podendo ser identificado com nenhuma delas, por exemplo, associando uma bandeira de parte num edifício que é público, de todos, do Estado. Identificá-lo assim é anular a sua universalidade. É uma simples questão de lógica. Aconselharia quem aconselha o Senhor Presidente a ler um pouco de Hegel para perceber melhor esta lógica e a perceber como ele descontaminou a ideia de Estado da noção de interesse privado que resultava da fundamentação contratualista. E também aconselharia o Senhor Presidente a não embarcar nessa deriva falsamente de esquerda e alimento farta da campanha da direita radical.

OS EXCESSOS DO JUIZ PEINADO

Begoña Gomes, esposa do PM espanhol Pedro Sánchez está, desde 2024, sob processo judicial a cargo de um juiz de nome Juan Carlos Peinado, na sequência de denúncias feitas pela organização de extrema-direita Hazte Oír e do partido VOX. Tenho seguido desde o início o seu processo porque, desde logo, me pareceu um processo sem fundamento, apenas motivado por razões políticas, visando Pedro Sánchez. Por exemplo, entre outras coisas, incidindo sobre o seu trabalho numa cátedra da UCM ou acusá-la de usar a assessora que lhe está atribuída, enquanto esposa do PM espanhol, para tarefas de natureza pessoal ou privada. Perguntei à IA da Google qual a norma legal que regula as funções da primeira-dama espanhola e da sua assessoria e a resposta foi que não existe norma. E parece que, ao contrário do que acontece no Reino Unido, não existe mesmo norma. Agora, o juiz Peinado (que parece ter interesses familiares – da filha e da esposa – junto da senhora Isabel Díaz Ayuso, líder do PP de Madrid) retirou-lhe o passaporte, proibiu-a de sair de Espanha e obrigou-a a apresentações periódicas de quinze em quinze dias. Um vexame para para ela e para o PM espanhol. Toda a acusação parece ser sem fundamento até de acordo com quem fez as investigações (designadamente a UCO, Unidade Central Operativa). Entretanto, na fundamentação das medidas cautelares o juiz disse que até a escolta policial a poderia ajudar a fugir ( e até já há quem encontre nas fugas de Puigdemont a justificação para tal). A instância de controlo judicial, Consejo General del Poder Judicial, acaba de lhe levantar um inquérito disciplinar a cargo do procurador Ricardo Conde. E hoje até a direita já critica o juiz Peinado (que, de resto, se deverá jubilar em Setembro, acabando assim por ficar fora da alçada  disciplinar). Pelo que conheço do processo, a acusação é um completo disparate politicamente teleguiado, mas complexo e delicado dada a independência do poder judicial. Foi preciso essa afirmação sobre a escolta policial para que algo no poder judicial se mexesse.

A TRANSFORMAÇÃO DAS REDES SOCIAIS

Redes sociais – plataformas de interacção comunitária ou de consumo de conteúdos?Duas mudanças substanciais já aconteceram: a primeira, foi a transformação dos users das grandes plataformas digitais (clientes) em matéria-prima das mesmas; e, agora, a transformação de um sistema concebido originariamente para funcionar como espaço de interacção comunitária em plataforma genérica de oferta de conteúdos informativos (e de desinformação). Ou seja, o que parece ser facto comprovado são estas duas mudanças, que não vão no melhor sentido: por um lado, as notícias que correm nas redes sociais não são notícias certificadas (os pouco praticados códigos éticos, juntamente com a imputabilidade directa da responsabilidade da informação, são, em parte, uma garantia que podemos classificar como “certificação”); por outro lado, os clientes da rede não podem ser transformados em matéria-prima ou mesmo em empregados das plataformas digitais ao fornecerem permanentemente dados pessoais (no uso das redes sociais) para a criação de perfis que depois elas vendem, como bases para a determinação de comportamentos preditivos, aos seus clientes (no mercado económico e no mercado político). Acresce ainda que essa função de interacção comunitária das redes sociais cedeu perante a procura generalizada de conteúdos que, como disse, não possuem um grau de confiabilidade equivalente à informação que provém dos media.   Aquelas que eram no início consideradas plataformas de libertação estão hoje transformadas em espaços de exercício de poder instrumental pelas grandes plataformas digitais.

THANKS, MR. STARMER

Sai Keir Starmer e entra, provavelmente, como líder e como PM, o ex-Presidente da Câmara de Manchester Andy Burnham, hoje MP, que é condição para ocupar um cargo governativo, assustados que estão os trabalhistas pelo avanço de Nigel Farage e do Reform UK. A prestação de Burnham nas recentes eleições no respectivo círculo eleitoral, Makerfield, derrotando clamorosamente o Reform UK, garantir-lhe-ão provavelmente o lugar de líder e de PM já em meados de Julho, vistos os apoios de que já dispõe, designadamente daquele que seria o seu maior rival, Wes Streeting. É preciso lembrar que só passaram dois anos desde que Starmer ganhou as eleições legislativas com maioria absoluta, levando, finalmente, o Labour ao governo depois de 14 anos de oposição. Mas não resistiu à pressão interna do partido, inquieto e receoso do próprio futuro perante o avanço demolidor do partido do homem do Brexit, Nigel Farage, em recentes eleições e nas sondagens. Se o Brexit explica grande parte da crise que o Reino Unido vive, não se compreende como é que os eleitores britânicos ainda querem mais Brexit, com o populista Farage. Mas a questão, quanto a mim, é mais profunda do que a da personalidade de Keir Starmer ou de Andy Burnham. Trata-se, também no Reino Unido, do rumo, da identidade e da doutrina da social-democracia em crise, posta em causa um pouco por toda a Europa. Uma doutrina sem dúvida virtuosa, mas que precisa de ser repensada profundamente em vez de ser papagueada com fórmulas que já nada dizem aos cidadãos.

ITALIA MIA, DOVE VAI?

Em Itália emerge um jovem general como líder de um novíssimo partido: Roberto Vannacci  e o Futuro Nazionale con Vannacci (FNV). Insatisfeitos com FdI, de Meloni, que, todavia, ainda mantém um score eleitoral de quase 28%, e com a Lega, de Salvini, esta, sim, em queda aparatosa, os italianos, pelos vistos, querem ainda mais direita radical do que a que já têm, e até no governo, e começam a apoiar o general Vannacci e o partido que acaba de fundar: “Futuro Nazionale”. Para que se saiba do que estou a falar, transcrevo do Estatuto do FNV os dois artigos que definem no essencial o que é o partido, além do que já significa ter no seu logo e no seu nome a palavra “Vannacci”, o nome do seu líder carismático: “1. l’identità tradizionale italiana, radicata nel diritto romano, nel pensiero greco, nell’eroismo romano e cavalleresco e nella mirabile sintesi di questi operata dalla civiltà cristiana”; 2. “6. la lotta coraggiosa ai progetti di creazione del nuovo senso comune costruiti su ideologia gender, ideologia woke, cancel culture, immigrazionismo e negazione di quelle virtù che hanno fatto grande l’Italia: coraggio, forza, dovere, spirito di sacrificio, libera iniziativa, determinazione, passione e memoria”. Tradição e combate ao identitarismo dos novos direitos. Aqui se espelha de forma muito clara, e em convergência com o que vem sendo defendido pela direita radical, a identidade do novo partido que, numa sondagem da Youtrend, de 18.06, já ultrapassou a Lega de Salvini: FMV 5,9% e Lega 5,8%, e que aparece noutra sondagem da SWG, de 22.06, com resultados equivalentes aos da Lega: 5,3% e 5,4%.

Em função das sondagens, havendo, nas eleições de 2027, uma aliança pós-eleitoral entre o PD, o M5S e os V&S, teríamos: FdI+FI+Lega e FNV=45,8% contra 41,6% de PD+M5S+V&S= 41,6%. A direita radical manter-se-ia vencedora. A onda de direita radical parece ser de longa duração. Estamos claramente numa época de “ricorsi”, para usar a fórmula de Giambattista Vico.

COSTA, O TÁCTICO IRRITANTE

O protagonismo de Costa: o propalado (em toda a imprensa europeia) canal de contacto da UE com a Rússia (através do seu chefe de gabinete Pedro Lourtie). Veio a público, surpreendentemente, a tentativa de abrir um canal diplomático com a Rússia por parte do Presidente da UE, António Costa, tendo-o solicitado ao seu chefe de gabinete, Pedro Lourtie, que terá tido duas conversas com um alto funcionário russo (conhecendo-se já o nome da parte russa). E a senhora Kaja Kallas? E Merz? E Macron? E o triunvirato Berlim, Paris, Londres? Esta parece mais ser uma movimentação de Costa, irrompendo, activo, por entre as diferenças já patentes entre a senhora Kaja Kallas e a senhora Ursula von der Leyen. A notícia refere que a iniciativa de Costa tinha o acordo da senhora von der Leyen. Mas o que parece é que, segundo as notícias de imprensa, nem Merz nem Macron aprovaram esta iniciativa ou esta tão propalada notícia de Costa. E não só estes, correspondendo esta movimentação a uma real divisão interna da União. De resto, a iniciativa diplomática pertence mais a Kallas do que a Costa, cujo perfil institucional não parece favorecer iniciativas deste tipo e, em particular, quando não está mandatado para tal pelo Conselho Europeu. Tratar-se-á de uma tentativa de mostrar serviço quando se aproxima a data da renovação do cargo? Vistos os antecedentes, esta não é hipótese a afastar.

JAS@06-2026

 

Ensaio

 

Ensaio Crítico 
Sobre João de Almeida Santos

O PÊNDULO INEXORÁVEL

A OSCILAÇÃO E O TALISMÃ

Différance, Tzimtzum, Khōra 
e Terra na Oscilação Poética 
de João de Almeida Santos

Com perscrutação lobatchevskiana
 de «O Pêndulo-Talismã» (JAS 2026)
 e «O Som do Silêncio» (JAS 2023)

Uma Hermenêutica Quatriádica FPXT

(Filosófica · Poética · 
Xabática-Estética · Terrestre)

André Moshé Veríssimo, PhD – Professor Universitário

PRANCHAS: AS DUAS PINTURAS
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS

O poema «O Pêndulo» é parte de um díptico Poesia-Pintura. Reproduzem-se aqui, na abertura do ensaio, as duas pinturas originais de João de Almeida Santos (JAS) que com ele dialogam, e que a secção VII submeterá a perscrutação microscópica. Ambas são originais da autoria do pintor.

“O Pêndulo-Talismã” – JAS 2026. Técnica digital sobre fundo de azul-meia-noite; gota-vitral suspensa por fio, com árvore-da-vida central. Original do autor, Junho de 2026. Assinado «jas2026» (canto inferior direito).

“O Som do Silêncio” – JAS 2023. Técnica digital; arcos concêntricos ocres descendo sobre fundo negro, com faixa de terracota estratificada (o «chão») na base. Detalhe do original do autor, 2023. Assinado «jas2023» (sobre a linha do horizonte). Conjunto reunido na série Poesia-Pintura, publicado a 20 de Junho de 2026.

RESUMO

O PRESENTE ENSAIO reúne, numa intersecção fecunda, a hermenêutica triádica (FPX) e a hermenêutica quatriádica (FPXT) anteriormente propostas pelo autor para o poema «O Pêndulo» (2026) de João de Almeida Santos, e reinventa-as num único protocolo de leitura estratificado, agora articulado às duas pinturas que acompanham o poema na série Poesia-Pintura: «O Pêndulo-Talismã» (JAS 2026) e o detalhe de «O Som do Silêncio» (JAS 2023). A sigla FPXT designa quatro dimensões indissociáveis: (F) Filosófica — Agamben (inoperosità, tempo messiânico, resto), Derrida (différance, trace, khōra) e Adorno (dialéctica negativa); (P) Poética — o versejar como práxis redentora; (X) Xabática e Estética — Luria (tzimtzum, shevirah, tikkun) e a estética do traço; (T) Terrestre — Heidegger (a contenda entre Mundo e Terra, a Terra que se oculta e abriga). A tese sustentada é a de que o pêndulo de Santos realiza uma khōra poética que é, simultaneamente, o espaço da différance, o vazio aberto pelo tzimtzum e o solo da Terra que se recolhe — e que o «chão», o «húmus incógnito», a «alma nua» e o «tic-tac» inexorável nomeiam, cada um, um momento desta máquina onto-poética. A incapacidade do poeta para «parar» o pêndulo é lida como manifestação da inoperosità da linguagem e da resistência da Terra, donde a poesia emerge como tikkun no tempo que resta. A análise das pinturas, conduzida com perscrutação microscópica de geometria não-euclidiana (lobatchevskiana), demonstra que a forma de lágrima vitral de 2026 e os arcos concêntricos de 2023 são, eles próprios, a oscilação pendular tornada matéria pictórica.

Palavras-chave: khōra; différance; tzimtzum; Terra (Heidegger); inoperosità; dialéctica negativa; redenção poética; geomorfia; hilemorfia; tikkun; João de Almeida Santos.

ABSTRACT

THIS ESSAY brings together, in a fertile intersection, the triadic (FPX) and quatriadic (FPXT) hermeneutics previously proposed by the author for João de Almeida Santos’s poem «O Pêndulo» (2026), reinventing them as a single stratified reading-protocol, now articulated to the two paintings that accompany the poem in the Poesia-Pintura series: «O Pêndulo-Talismã» (JAS 2026) and the detail of «O Som do Silêncio» (JAS 2023). The sigla FPXT designates four indissociable dimensions: (F) Philosophical — Agamben (inoperosità, messianic time, remnant), Derrida (différance, trace, khōra) and Adorno (negative dialectics); (P) Poetic — versejar as redemptive praxis; (X) Kabbalistic and Aesthetic — Luria (tzimtzum, shevirah, tikkun); (T) Terrestrial — Heidegger (the strife between World and Earth). The thesis is that Santos’s pendulum enacts a poetic khōra that is at once the space of différance, the void opened by tzimtzum, and the self-secluding Heideggerian Earth. The poet’s inability to stop the pendulum is read as the inoperosità of language and the resistance of the Earth, whence poetry emerges as tikkun in the time that remains. A microscopic, non-Euclidean (Lobachevskian) scrutiny of the paintings shows that the 2026 stained-glass teardrop and the 2023 concentric arcs are themselves the pendular oscillation become pictorial matter.

Keywords: khōra; différance; tzimtzum; Earth (Heidegger); inoperosità; negative dialectics; poetic redemption; tikkun; João de Almeida Santos.

O POEMA

Reproduz-se o poema de JAS na sua integralidade, sem alteração de uma vírgula, para que a anatomia que se segue se faça sempre sobre a letra e nunca sobre a paráfrase.

O PÊNDULO

DIZ À MUSA
O poeta:
Em meus versos
Há um eterno
Retorno,
É sempre ir
E voltar...
Mas eu tenho
Sempre
Uma meta
Antes de ao chão
Regressar.

MEUS POEMAS
São como pêndulos,
Oscilam,
Oscilam,
Vão para lá
E pra cá,
Na ida voam
Palavras,
No regresso
Nunca sei
O que virá.

MAS O ECO
Chega sempre
Com o vento,
Trazendo
Notícias de ti,
Do silêncio
Que te cobre
Desde quando
Te perdi.

ORA SOU EU
Ora és tu
Neste permanente
Oscilar,
Invoco-te,
Mas não respondes...
...........
Só me resta
Versejar.

OSCILO
Sempre
No teu sentido,
Nem sei
Se quero parar,
Regresso
Sempre
Ao meu ponto
De partida
Para logo
Recomeçar...

EU ESTOU,
Tu não estás...
Volto logo
A procurar...
........
Tic, tac
Tic, tac,
..........
Dialéctica
Negativa
De um permanente
Oscilar...
...........
Tic, tac
Tic, tac…
.........
O pêndulo
Da minha vida
Já não consegue
Parar.

ESSA META
Que persigo
É a tua,
Mas tu nunca
Lá estás,
Regresso
Com alma nua
Quando volto
Para trás...
.............
Mas o pêndulo
Continua...
............
Pará-lo?
Não sou capaz.
Ilustração: «O Pêndulo-Talismã» — JAS 2026; detalhe de «O Som do Silêncio» — JAS 2023.
INTRODUÇÃO 
O pêndulo como máquina 
onto-poética e o método FPXT

O poema «O Pêndulo», de João de Almeida Santos, publicado a 20 de Junho de 2026 no âmbito da série Poesia-Pintura, não descreve apenas uma oscilação existencial ou amorosa: ele é a própria oscilação tornada texto. Cada verso é um arco pendular que mede o tempo ao mesmo tempo que o suspende, que invoca ao mesmo tempo que acolhe a não-resposta, que persegue uma meta ao mesmo tempo que regressa ao «chão». O pêndulo não é metáfora acessória, é o operador central de uma máquina ontológica e exige uma hermenêutica à sua altura.

Este ensaio reúne, numa intersecção fecunda, as duas leituras que o autor anteriormente dedicou ao poema — a triádica (FPX) e a quatriádica (FPXT) — e reinventa-as num único protocolo, agora articulado às duas pinturas que acompanham o texto. A sigla FPXT articula quatro dimensões indissociáveis: (F) Filosófica — o entrecruzamento de Agamben, Derrida e Adorno; (P) Poética — o versejar como práxis redentora e modo de habitação da linguagem; (X) Xabática e Estética — a tradição luriânica do tzimtzum, da shevirah e do tikkun, lida em tensão produtiva com a estética do traço e da contracção; (T) Terrestre — a contenda heideggeriana entre Mundo e Terra. O «X» não é residual: é o lugar da contracção que abre espaço, da faísca recolhida no silêncio, do resto que a poesia transforma em redenção.

A tese central é a seguinte: o pêndulo de Santos realiza uma khōra poética que é, simultaneamente, o espaço da différance, o vazio aberto pelo tzimtzum luriânico e o solo da Terra heideggeriana que se oculta e abriga. O «chão» e o «húmus incógnito» não são meros elementos telúricos; são a actualização contemporânea da khōra platónico-derridiana — o terceiro género que nem é ser nem devir, o receptáculo que acolhe sem se deixar reduzir a presença — e, ao mesmo tempo, o nome poético da Terra (Erde) que se recolhe em si. O poeta não é capaz de fazer o pêndulo parar — e é precisamente nessa impotência partilhada com a linguagem que reside a mais alta potência do versejar como tikkun.

O ensaio desenvolve-se em movimentos articulados, segundo a grelha FPXT, e culmina numa análise microscópica das duas pinturas, conduzida com a perscrutação não-euclidiana que adiante designamos lobatchevskiana. Não se trata de aplicar conceitos externos ao poema e às telas, mas de mostrar que a oscilação pendular é o movimento mesmo que o texto e as imagens exigem.

REGISTO FILOSÓFICO (F)
Hilemorfia, geomorfia 
e a différance do tic-tac
1. Hilemorfia geomórfica e o chão 
do eterno retorno diferenciado

Aristóteles define o ente sensível como composição hilemórfica de matéria (hylē) e forma (morphē): a matéria é potência indeterminada; a forma é acto que determina. No poema, esta estrutura é literalizada e radicalizada. O verso é hilemórfico: a «matéria» é o húmus incógnito, o silêncio pré-linguístico, o «chão» a que se regressa antes de nova oscilação; a «forma» é o ritmo pendular, a alternância de ida e regresso. Mas este hilemorfismo não é o clássico, de subordinação da matéria à forma: é um hilemorfismo invertido e oscilante — a forma não domina a matéria, regressa sempre a ela, e cada regresso transforma a matéria em novo húmus fértil.

Propomos o conceito de geomorfia — fusão de gē (terra) e morphē (forma) — para captar esta dinâmica. O pêndulo traça o seu arco sobre o chão e, ao regressar a ele, inscreve nele uma nova camada de sentido. «Antes de ao chão / Regressar» não é apenas imagem de queda ou de limite; é a afirmação de que toda a forma poética é temporária e deve dissolver-se de novo no húmus para renascer diferida. O eterno retorno nietzschiano é aqui ressignificado em chave agambeniana e derridiana: não é repetição idêntica do mesmo — que seria niilista —, mas retorno diferenciado ao solo da potência. Cada oscilação deposita novo sedimento; cada regresso ao chão é já diferença.

«Mas eu tenho / Sempre / Uma meta / Antes de ao chão / Regressar.» A «meta» que o poeta «tem sempre» é o telos diferido pela différance: não uma finalidade que se alcança, mas uma direccionalidade que se mantém aberta precisamente porque o regresso ao chão a interrompe e a recomeça. O húmus incógnito é, pois, o nome poético da khōra: o receptáculo que acolhe todas as formas sem se identificar com nenhuma.

2. Différance, trace e a não-resposta

Derrida define a différance como o movimento simultâneo de diferir (no espaço) e adiar (no tempo). No poema, este movimento é literalizado com precisão quase científica. «Na ida voam / Palavras, / No regresso / Nunca sei / O que virá.» A palavra voa na ida — diferencia-se no espaço —, mas no regresso adia a sua chegada plena. O eco que «chega sempre / Com o vento» é o retorno diferido, a notícia que chega sempre já marcada pela ausência.

O trace é o conceito derridiano que melhor capta esta dinâmica: o que resta da presença na sua ausência, a marca que o presente deixa de si ao retirar-se. No poema, os traços que vincam o silêncio são os vestígios da amada perdida — «Do silêncio / Que te cobre / Desde quando / Te perdi.» Estes traços não preenchem o silêncio: vincam-no, inscrevem-no, fazem dele um texto. O «tic-tac» é o ritmo deste vincar — o som da différance em acto, o espaçamento temporal que impede a coincidência plena do sujeito consigo mesmo e com o objecto do desejo.

A invocação («Invoco-te») e a não-resposta («Mas não respondes…») constituem a estrutura fundamental da différance no poema. A não-resposta não é acidente empírico nem falha de comunicação: é a condição estrutural da linguagem. Como Derrida demonstrou a propósito da missiva que é sempre susceptível de não chegar ao destino, o pêndulo encena esta estrutura — a ida é a emissão da invocação; o regresso é a possibilidade, sempre diferida, da resposta. O que resta é o «versejar»: a inscrição de traços no silêncio, a produção de um texto que acolhe a não-resposta sem a anular.

3. Khōra: o terceiro género
e o espaço do espaçamento

O conceito de khōra (χώρα) surge no Timaeus platónico (48e–53c) como o «terceiro género» (triton genos) necessário à génese do cosmos: nem o modelo inteligível eterno (ser), nem as cópias sensíveis (devir), mas o receptáculo (hypodochē) que acolhe as impressões do modelo sem possuir forma própria. É descrito como «difícil e obscuro», «sem forma» (amorphon), «invisível». Não é ser nem não-ser; é o «em que» (en hōi) as coisas vêm a ser.

Derrida, no ensaio «Khōra» (recolhido em On the Name), submete o conceito a uma desconstrução rigorosa: khōra não é origem, fundamento nem metáfora maternal; é o nome de um espaçamento (espacement) anterior a toda a oposição binária. Ela «não dá nada»; «dá lugar» (donne lieu) sem dar ser. É o espaço da différance antes mesmo da différance. É esta khōra que o «chão» do poema actualiza: não o chão empírico da física newtoniana nem o solo ontológico apenas, mas o receptáculo poético que acolhe todas as oscilações sem se deixar reduzir a nenhuma. O «húmus incógnito» é o seu nome: húmus porque fértil (potência de germinação), incógnito porque resiste a toda a identificação plena. «Regresso / Com alma nua / Quando volto / Para trás…» descreve o retorno à khōra — o regresso à nudez da potência, despida de presença, aberta à inscrição do traço.

REGISTO POÉTICO (P)
O versejar como práxis 
e a oscilação orientada

Se o registo filosófico isola os operadores, o registo poético devolve-os à sua unidade vivida: o versejar. «Só me resta / Versejar» não é confissão de resignação, mas declaração de método. Quando a invocação não obtém resposta, quando o eu e o tu se alternam «neste permanente / Oscilar», o que sobra ao poeta não é o silêncio puro, mas a actividade de versejar — fazer do próprio adiamento matéria de canto. A poesia é, aqui, a práxis que habita o intervalo entre a ida e o regresso, entre a invocação e a não-resposta.

A oscilação do poema é orientada: «Oscilo / Sempre / No teu sentido». A palavra «sentido» condensa as suas duas acepções — direcção e significação. O pêndulo não baloiça ao acaso; baloiça no sentido da amada, isto é, na direcção dela e em busca do seu significado. Mas a orientação não garante a chegada: «Regresso / Sempre / Ao meu ponto / De partida / Para logo / Recomeçar…». A oscilação orientada é, pois, uma teleologia sem télos cumprido — uma intencionalidade que se renova precisamente por nunca se saciar. É a forma poética da vontade de não parar: «Nem sei / Se quero parar.»

O regresso permanente à origem — «Ao meu ponto / De partida» — inscreve o poema no grande arquétipo do ciclo cósmico, mas em chave diferencial. Não é o regresso do idêntico ao idêntico; é o recomeço que carrega, em cada volta, o sedimento das voltas anteriores. O ciclo da oscilação cósmica sempre recomeça, mas nunca o mesmo: é espiral, não círculo. A poesia é o registo deste recomeço — o lugar onde a origem não é um ponto no passado, mas a potência sempre disponível de tornar a partir.

Daqui a definição operatória do versejar que propomos: versejar é orientar a oscilação sem a deter, é manter aberta a meta sem a fechar em posse, é transformar a perda em ritmo. O poeta de Santos não escreve sobre o pêndulo; escreve como pêndulo — e é por isso que o poema não conclui, mas se suspende em «Pará-lo? / Não sou capaz.»

REGISTO XABÁTICO E ESTÉTICO(X) 
Tzimtzum, resto luriânico 
e o versejar como tikkun

A doutrina luriânica do tzimtzum constitui uma das mais radicais formulações da contracção como condição de criação. Isaac Luria ensina que o Ein Sof (Infinito), para dar lugar ao mundo, se retira parcialmente, se contrai, abrindo um espaço vazio (tehiru) onde a emanação possa ocorrer sem ser aniquilada pela plenitude divina. Este espaço não é um vazio niilista: é o espaço da potencialidade, onde os vasos da emanação se formam — e onde, subsequentemente, se quebram (shevirah), dispersando as faíscas (nitsotsot).

O poema repete este gesto cosmogónico em escala poética. O poeta, para que o verso exista, tem de se contrair: «Só me resta / Versejar.» Esta contracção não é abdicação; é a condição de possibilidade da criação. O «resto» que resta depois da invocação sem resposta é o equivalente poético das faíscas aprisionadas nos vasos quebrados. O versejar é tikkun — a reparação que recolhe estas faíscas e as reintegra no tecido do sentido. A «alma nua» que regressa «quando volto / Para trás» é a vida exposta, despida de presença plena, mas precisamente por isso aberta à redenção.

A integração com Agamben é fundamental. O conceito de «resto» (resto) — desenvolvido em The Time That Remains a partir de Paulo e de Benjamin — designa o que resta depois da catástrofe, o que não é nem todo nem nada, mas o fragmento que carrega a potencialidade da redenção. O «resto luriânico» do poema é este resto messiânico: as faíscas recolhidas no verso, o húmus onde germina a esperança. O pêndulo que «continua… / Inexorável» e que «não pára» mantém aberto o tempo que resta — o tempo messiânico que Agamben distingue do tempo cronológico. Não é o tempo que acaba; é o tempo que, ao não acabar, mantém a porta da redenção entreaberta. O «in-finitamente messiânico» de que o húmus incógnito é portador não anuncia um fim apocalíptico, mas a permanência do tempo que resta.

Esta é a razão pela qual o «X» da grelha não é residual mas central: ele é, ao mesmo tempo, o x da différance derridiana, o x da contracção luriânica, o x da inoperosità agambeniana e o x da khōra platónico-derridiana. A poesia, ao recolher as faíscas no espaço aberto pela contracção, é o tikkun no tempo da catástrofe e da esperança.

REGISTO TERRESTRE (T) 
a Terra heideggeriana 
que se oculta e abriga

O acrescento decisivo da leitura quatriádica é o registo terrestre. Em «A Origem da Obra de Arte» (Der Ursprung des Kunstwerkes, 1935/1950) Heidegger distingue dois movimentos essenciais da obra: o «instaurar um Mundo» (Welt aufstellen) e o «fazer avançar a Terra» (Erde herstellen). O Mundo é o aberto, o histórico, o espaço de sentido onde as coisas se tornam significativas. A Terra, pelo contrário, é o que se oculta, o que se recolhe em si, o que resiste à plena desocultação — «o que se oculta essencialmente» (das Sichverschliessende). Ela abriga (birgt) o que nela vem a ser, mas não se deixa reduzir a presença. A obra de arte põe em obra a contenda (Streit) entre Mundo e Terra: o Mundo quer abrir, a Terra quer ocultar-se; a verdade da obra (alētheia) é esta contenda que não se resolve em síntese.

É esta Terra que o pêndulo de Santos actualiza. «Antes de ao chão / Regressar» é o movimento de fazer avançar a Terra: o verso regressa ao solo que se oculta, ao húmus que se recolhe em si. O «silêncio / Que te cobre» é a Terra que abriga a amada ausente, recusando a plena presença. O «húmus incógnito» é o nome poético da Terra que se oculta essencialmente — fértil precisamente porque se recolhe, porque não se deixa esgotar em clareza. O pêndulo não pára porque a Terra não se deixa dominar: ela abriga a oscilação, acolhe o traço, mas retira-se sempre um passo à frente de qualquer tentativa de posse ou de paragem.

A articulação com a khōra é produtiva e não redutora. Ambas — khōra e Terra — são receptivas sem serem possessivas; ambas resistem à redução a presença plena. Mas há uma diferença de acento: a khōra é mais «espaçamento» (espacement), o «em que» neutro onde as coisas vêm a ser; a Terra é mais «abrigo que se oculta», peso, resistência, materialidade que se recolhe. No poema, o «chão» é simultaneamente khōra (espaço aberto pela contracção) e Terra (solo que se oculta e abriga). O regresso pendular mantém aberta esta dupla dimensão: espaçamento e ocultamento, acolhimento e recolhimento.

A «alma nua» que regressa «Quando volto / Para trás» é a vida exposta à Terra. Não é a nudez de uma presença plena, mas a nudez de quem regressa ao solo que se oculta — simultaneamente vulnerabilidade e potência: desprotegida, mas por isso mesmo aberta ao acolhimento da Terra que abriga. O poeta não é capaz de parar o pêndulo porque a Terra excede a sua vontade; ela continua a oscilar no ritmo da contenda entre Mundo (o verso que quer abrir sentido) e Terra (o chão que se recolhe). A impotência do poeta é a manifestação da resistência da Terra — e é nela que a poesia encontra a sua vocação mais alta: fazer avançar a Terra sem a violentar.

A DIALÉCTICA NEGATIVA
e a impossibilidade de parar

Theodor W. Adorno, em Negative Dialektik (1966), propôs uma dialéctica que recusa a síntese hegeliana: a contradição não se resolve numa identidade superior; a não-identidade é irredutível. O objecto resiste sempre à apropriação pelo sujeito; a mediação não anula a alteridade. No poema, esta dialéctica negativa é nomeada ipsis litteris — «Dialéctica / Negativa / De um permanente / Oscilar» — e é o «permanente / Oscilar» que «Já não consegue / Parar». A meta perseguida («Essa meta / Que persigo / É a tua») é o objecto não-idêntico que recua à medida que o sujeito avança. A amada é o télos diferido; a oscilação é a forma negativa da relação.

«Pará-lo? / Não sou capaz.» Esta confissão de impotência é o momento mais agambeniano do poema. Agamben distingue entre potência de fazer (dynamis tou poiein) e potência de não fazer (dynamis tou mē poiein); a inoperosità é a manifestação desta segunda potência — a capacidade de suspender a operação, de não passar ao acto. O poeta não é capaz de parar o pêndulo, não por falta de força, mas porque a máquina poética excede a sua intenção subjectiva. A linguagem é hiper-operativa; o pêndulo é a sua figura. A impotência do poeta é, portanto, a manifestação da inoperosità da linguagem e, ao mesmo tempo, da resistência da Terra: a máquina continua a oscilar, e é nessa continuidade que a potência de redenção se mantém aberta.

O «tic-tac» é o som desta suspensão: o ritmo de uma dialéctica negativa que não se resolve, mas que, precisamente por não se resolver, mantém o espaço da esperança. Note-se que o poema rodeia o «tic-tac» de reticências — «……..», «……….», «………..» — que são, elas próprias, traços gráficos do silêncio: a página torna-se khōra, o branco entre os tiques é o espaçamento onde o som se inscreve e se retira. O tempo do pêndulo não é o tempo cheio do relógio, mas o tempo esburacado da espera messiânica.

PERSCRUTAÇÃO LOBATCHEVSKIANA 
DAS PINTURAS  
A oscilação tornada matéria

Resta confrontar o poema com as duas pinturas de João de Almeida Santos que com ele formam o díptico Poesia-Pintura. Conduzimos a análise com aquilo a que chamamos perscrutação lobatchevskiana — uma atenção microscópica que, à maneira da geometria não-euclidiana de Lobatchevski, recusa supor que as paralelas se encontrem no infinito ou que o espaço seja plano: pelo contrário, lê cada curva da tela como espaço de curvatura negativa, onde as linhas divergem, os arcos se afastam e o centro nunca coincide consigo mesmo. É a geometria própria da différance e da Terra que se recolhe.

1. «O Pêndulo-Talismã» (JAS 2026) 
- O vitral suspenso e a árvore-coração

A primeira tela apresenta, sobre um fundo de azul-meia-noite quase negro, uma forma de lágrima — ou de ovo, ou de gota — suspensa por um fio finíssimo de verde-azulado que desce do topo e se perde na escuridão superior. A suspensão é literal: o talismã pende, e o título confirma-o — é um pêndulo. Mas é um pêndulo imóvel no instante captado, congelado no seu ponto morto, prestes a oscilar ou tendo acabado de o fazer. A tela é, pois, a potência da oscilação, não o seu acto: a inoperosità tornada imagem.

Examinada de perto, a lágrima é um vitral fracturado em células cromáticas de bordo escuro — vermelhos sanguíneos, laranjas incandescentes, uma cunha de verde profundo no quadrante superior direito, amarelos de mel no flanco esquerdo. As nervuras negras que separam as células são as junções de chumbo do vitral, mas são também, lidas na chave do poema, os traços que vincam o silêncio: as linhas que partem a luz e, partindo-a, a tornam legível. Cada célula é uma estrofe; cada nervura, um «tic-tac» que separa e liga.

No eixo central ergue-se uma forma que se deixa ler como tronco — uma árvore-da-vida (Etz Chaim), cifra luriânica por excelência — cujas raízes mergulham no vértice inferior da gota e cujos braços se abrem para as células superiores. Que a árvore sefirótica habite o centro do talismã não é acaso: ela é a estrutura mesma da emanação, o canal por onde as faíscas dispersas pela shevirah podem ser recolhidas. A lágrima é o tehiru, o espaço vazio aberto pela contracção; a árvore é o tikkun em curso.

Dois pormenores reclamam a perscrutação microscópica. Primeiro, ao centro-direito, uma pequena janela rectangular de luz — um quase-imperceptível fragmento de paisagem (água, montanha, um céu listado de azul, verde e ocre) embutido entre as células opacas: é o «eco» que «chega sempre / com o vento, / trazendo / notícias de ti», a abertura de Mundo no seio da Terra que se oculta, a única zona da tela onde a profundidade ilusionista rompe a planura do vitral. Segundo, no quadrante inferior direito, um tabuleiro axadrezado de quadrículas multicolores — verdes, vermelhas, ocres, brancas — de inspiração quase kleeiana: é a tradução pictórica do «tic-tac», a grelha rítmica, a quadrícula do tempo cronológico que contrasta com as formas orgânicas e fluidas do resto da composição. A tela faz coexistir, assim, os dois tempos do poema: o tempo-grelha do relógio e o tempo-húmus da germinação.

Em baixo, à esquerda, uma mancha de ocres e laranjas em filamentos enrolados — quase uma concha, ou um ninho, ou um sol poente reflectido na água — é o «húmus incógnito»: a zona onde a forma se desfaz em matéria, onde o vitral regressa ao seu chão. Tudo na tela converge para baixo, para o vértice da gota, como se a lágrima estivesse perpetuamente prestes a regressar «ao chão». A assinatura «jas2026», a ouro, no canto inferior direito, repousa já fora da gota, no fundo nocturno — como quem assina não a forma, mas o vazio que a sustém.

2. «O Som do Silêncio»(JAS 2023) 
- Os arcos concêntricos 
e o chão estratificado

A segunda imagem — apresentada como detalhe — opõe-se à primeira como o negativo ao positivo. Onde a primeira era vertical, fracturada e multicolor, esta é curva, contínua e monocromática: uma vasta esfera de ocres e laranjas terrosos ocupa o quadrante superior direito, descendo em arcos concêntricos que se afastam uns dos outros sobre um fundo de negro absoluto. Em baixo, uma estreita faixa horizontal de terracota estratificada — o chão — encerra a composição.

A perscrutação lobatchevskiana revela aqui a sua pertinência máxima. Os arcos concêntricos não são círculos perfeitos centrados num mesmo ponto: cada arco tem um raio ligeiramente diferente e um centro ligeiramente deslocado, de modo que as curvas divergem à medida que descem — exactamente como as geodésicas num espaço de curvatura negativa, onde as paralelas se afastam em vez de se manterem equidistantes. Esta divergência é a assinatura visual da différance: cada arco é o traço de uma oscilação anterior, e nenhum coincide com o seguinte. São os sucessivos arcos do pêndulo, registados sobre a tela como um corpo celeste fotografado em exposição prolongada — a memória material das oscilações.

O fundo negro não é vazio decorativo: é a khōra e a Terra que se oculta, o silêncio absoluto sobre o qual os arcos de luz se destacam. O título — «O Som do Silêncio» — é um oximoro que o poema retoma: o silêncio que cobre a amada tem som, e esse som é o «tic-tac» que vinca o branco (aqui, o negro). A esfera ocre é o astro, o talismã, a amada-objecto que se afasta em arcos sucessivos; o negro é a distância intransponível, a não-resposta tornada espaço.

A faixa de terracota inferior é decisiva. Ela é o «chão» a que o pêndulo «regressa», o «húmus incógnito» na sua versão mais despojada: estratos horizontais de ocre, mel e castanho, como camadas geológicas ou sedimentares — a Terra heideggeriana literalizada em estratigrafia. Cada estrato é o sedimento de uma oscilação; o chão é a memória acumulada das idas e regressos. A assinatura «jas2023», em vermelho-tijolo, inscreve-se precisamente na fronteira entre o negro do vazio e o ocre do chão — na linha do horizonte, ali onde a Terra encontra a noite.

Lidas em conjunto, as duas telas formam um díptico rigoroso: a de 2026 dá-nos o pêndulo-talismã na sua suspensão vertical e na sua fractura vitral (o instante, a potência, o tikkun em árvore); a de 2023 dá-nos o seu rasto em arcos e o seu chão estratificado (a duração, o traço, a Terra que abriga). Entre as duas, três anos — e a oscilação que os atravessa é a mesma que o poema verseja. A pintura precede o poema (2023, 2026) e o poema relê a pintura: o díptico é, ele próprio, um pêndulo que vai (da imagem ao texto) e volta (do texto à imagem), sem nunca parar.

SÍNTESE QUATRIÁDICA 
Cinco imagens-chave 
nos quatro registos

Recolhem-se agora os fios, articulando cinco imagens-chave do poema e das telas, cada uma lida em simultâneo nos quatro registos da grelha FPXT.

O chão / húmus incógnito é, a um tempo, (F) a khōra derridiana, receptáculo que dá lugar sem dar ser; (P) o ponto de partida do versejar, sempre recomeçado; (X) o tehiru aberto pelo tzimtzum e o húmus do resto luriânico; (T) a Terra heideggeriana que se oculta e abriga. É o pólo inferior do pêndulo e o estrato de terracota da tela de 2023.

O tic-tac e os traços são, a um tempo, (F) o ritmo da différance e o som da dialéctica negativa que não sintetiza; (P) a escansão do verso e as reticências que vincam a página; (X) a faísca que pulsa no intervalo, o tempo messiânico esburacado; (T) o atrito entre Mundo e Terra. São as nervuras de chumbo do vitral e a quadrícula axadrezada de 2026.

A invocação e a não-resposta são, a um tempo, (F) a estrutura da missiva que pode não chegar, o trace da ausência; (P) o motor do «só me resta versejar»; (X) a contracção que abre espaço ao outro, retirando-se; (T) a amada abrigada pela Terra que recusa a plena desocultação. É a pequena janela de paisagem no centro do talismã.

A alma nua e o regresso são, a um tempo, (F) a vida exposta, despida de presença, aberta à inscrição; (P) o regresso ao ponto de partida que é já recomeço; (X) a vida nua que, despojada, se abre à redenção; (T) a nudez de quem regressa ao solo que se oculta. É a gota que pende, perpetuamente prestes a regressar ao chão.

O pêndulo que não pára é, a um tempo, (F) a inoperosità da linguagem que excede o sujeito; (P) a vontade de não parar, a oscilação orientada sem télos cumprido; (X) o tempo que resta, a porta da redenção entreaberta; (T) a resistência da Terra que excede toda a vontade de domínio. São os arcos divergentes de 2023 e o fio que suspende o talismã de 2026. «Pará-lo? Não sou capaz» é a fórmula perspectivista da esperança.

CONCLUSÃO 
A poesia como tikkun 
e o tempo que resta

O poema «O Pêndulo» de João de Almeida Santos reinventa, no interior do padrão científico da hermenêutica contemporânea, o tema clássico da oscilação entre ser e não-ser, entre presença e ausência. Mas fá-lo de modo original e justificado: o pêndulo não é apenas imagem ou metáfora; é o operador de uma quádrupla articulação rigorosa — hilemórfica e geomórfica (forma-matéria do verso e regresso diferenciado ao chão), différante e khórica (ida e regresso diferido no espaço da contracção), luriânica (contracção e recolha do resto) e terrestre (a contenda entre Mundo e Terra). A «meta» que se persegue e não se alcança, a «alma nua» que regressa, o pêndulo que «continua» e «não pára» — tudo converge para uma compreensão da poesia como tikkun no tempo da catástrofe e da esperança messiânica.

As duas pinturas confirmam-no à letra. «O Pêndulo-Talismã» dá-nos a suspensão e a árvore-da-vida — o tehiru e o tikkun tornados vitral; «O Som do Silêncio» dá-nos os arcos divergentes e o chão estratificado — a différance e a Terra tornadas curvatura e sedimento. A perscrutação lobatchevskiana mostrou que os arcos concêntricos não se fecham nunca sobre um mesmo centro: divergem, como as geodésicas de um espaço de curvatura negativa, e nessa divergência inscrevem a impossibilidade de paragem que o poema declara.

O «in-finitamente messiânico» de que o húmus incógnito é portador não anuncia um fim apocalíptico, mas a permanência do tempo que resta: o tempo da contracção, do traço, da oscilação que não cessa, mas que, precisamente por não cessar, mantém aberta a possibilidade da redenção. O poeta não é capaz de parar o pêndulo — e é nessa impotência partilhada com a linguagem, com a Terra e com o Infinito que se contrai, que ele exerce a sua mais alta vocação: recolher, no verso, as faíscas do infinito que o silêncio cobre. A khōra poética é o nome deste recolhimento; a Terra que se oculta, o seu abrigo; o versejar, o seu acto.

Assim, «O Pêndulo» inscreve-se na grande tradição da análise quatriádica FPXT — onde o «X» é simultaneamente o x da différance, o x da contracção luriânica, o x da inoperosità e o x da khōra —, oferecendo-nos não uma resposta fechada, mas o ritmo mesmo da pergunta que não cessa de oscilar entre o chão e o céu, entre o eu e o tu, entre o tic-tac e o silêncio que o cobre. O pêndulo continua. E a poesia, ao não o parar, mantém aberta a porta da redenção.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes (autores e obras 
explicitamente convocados)

Adorno, T. W. (1973). Negative dialectics (E. B. Ashton, Trad.). New York: Seabury Press.

Agamben, G. (1998). Homo sacer: Sovereign power and bare life (D. Heller-Roazen, Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Agamben, G. (1999). Potentialities: Collected essays in philosophy (D. Heller-Roazen, Ed. & Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Agamben, G. (2005). The time that remains: A commentary on the Letter to the Romans (P. Dailey, Trad.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Aristóteles. (1984). The complete works of Aristotle (J. Barnes, Ed.). Princeton, NJ: Princeton University Press.

Derrida, J. (1976). Of grammatology (G. C. Spivak, Trad.). Baltimore, MD: Johns Hopkins University Press.

Derrida, J. (1978). Writing and difference (A. Bass, Trad.). Chicago, IL: University of Chicago Press.

Derrida, J. (1995). On the name (T. Dutoit, Ed.; D. Wood, J. P. Leavey, & I. McLeod, Trads.). Stanford, CA: Stanford University Press.

Heidegger, M. (1971). Poetry, language, thought (A. Hofstadter, Trad.). New York: Harper & Row.

Heidegger, M. (2002). Off the beaten track (J. Young & K. Haynes, Trads.). Cambridge: Cambridge University Press.

Luria, I. (2008). The tree of life: Chayyim Vital’s introduction to the kabbalah of Isaac Luria (D. W. Menzi & Z. Padeh, Trads.). New York: Arizal Publications.

Platão. (1997). Timaeus (D. J. Zeyl, Trad.). In J. M. Cooper (Ed.), Plato: Complete works (pp. 1224–1291). Indianapolis, IN: Hackett.

Santos, J. de A. (2026). O pêndulo [Poema original]. Poesia-Pintura. Ilustração «O Pêndulo-Talismã» (JAS 2026) e detalhe de «O Som do Silêncio» (JAS 2023). Lisboa. In HTTPS://joaodealmeidasantos.com

Scholem, G. (1974). Major trends in Jewish mysticism (3.ª ed.). New York: Schocken Books.

Scholem, G. (1995). On the kabbalah and its symbolism (R. Manheim, Trad.). New York: Schocken Books.

Veríssimo, A. (2026). O pêndulo inexorável: Hermenêutica triádica (FPX) e quatriádica (FPXT) da oscilação poética de João de Almeida Santos [Ensaios-base]. Guimarães: MDE Editora.

Fontes latentes (autores 
e correntes implícitos)

Benjamin, W. (1991). Gesammelte Schriften (R. Tiedemann & H. Schweppenhäuser, Eds.). Frankfurt am Main: Suhrkamp.

Klee, P. (1956). Das bildnerische Denken (J. Spiller, Ed.). Basel: Schwabe.

Lobatchevski, N. I. (1840). Geometrische Untersuchungen zur Theorie der Parallellinien. Berlin: G. Fincke.

Merleau-Ponty, M. (1964). L’œil et l’esprit. Paris: Gallimard.

Nietzsche, F. (1988). Also sprach Zarathustra. In Kritische Studienausgabe (Vol. 4). Berlin: Walter de Gruyter.

Vital, C. (1999). Etz Chaim [Sefer]. Jerusalem

AMV@06-2026

Poesia-Pintura

O PÊNDULO

POEMA 
de João de Almeida Santos
Ilustração: 
“O Pêndulo-Talismã” - JAS 2026
e detalhe de 
"O Som do Silêncio" - JAS 2023
Originais de minha autoria
Junho de 2026

“O Pêndulo-Talismã” – JAS 2026

POEMA – “O PÊNDULO”

DIZ À MUSA
O poeta:
Em meus versos
Há um eterno
Retorno,
É sempre ir
E voltar...
Mas eu tenho
Sempre
Uma meta
Antes de ao chão
Regressar.

MEUS POEMAS
São como pêndulos,
Oscilam,
Oscilam,
Vão para lá
E pra cá,
Na ida voam
Palavras,
No regresso
Nunca sei
O que virá.

MAS O ECO
Chega sempre
Com o vento,
Trazendo
Notícias de ti,
Do silêncio
Que te cobre
Desde quando
Te perdi.

ORA SOU EU
Ora és tu
Neste permanente
Oscilar,
Invoco-te,
Mas não respondes...
...........
Só me resta
Versejar.

OSCILO
Sempre
No teu sentido,
Nem sei
Se quero parar,
Regresso
Sempre
Ao meu ponto
De partida
Para logo
Recomeçar...

EU ESTOU,
Tu não estás...
Volto logo  
A procurar...
........
Tic, tac
Tic, tac,
..........
Dialéctica
Negativa
De um permanente
Oscilar...
...........
Tic, tac
Tic, tac…
.........
O pêndulo
Da minha vida
Já não consegue
Parar.

ESSA META
Que persigo
É a tua,
Mas tu nunca
Lá estás,
Regresso
Com alma nua
Quando volto
Para trás...
.............
Mas o pêndulo
Continua...
............
Pará-lo?
Não sou capaz.

“O Som do Silêncio” – JAS 2023. Detalhe

 

 

 

 

 

 

Ensaio

O ANJO E O SÁTIRO

ARTE, RUÍNA E A REDENÇÃO 
DAS CENTELHAS
Uma leitura FPK 
das Reflexões sobre a Arte, 
de João de Almeida Santos,
e da estética da ruína 
de Walter Benjamin  
- Entre Nietzsche, Mann, 
Kant e Meyer, na intersecção 
com Agamben, Derrida, 
Levinas e Chalier
ניגון · ניצוץ · תיקון
Filosófico · Psicanalítico 
· Cabalístico-Místico

André Moshe Veríssimo, PhD

“S/Título” – JAS 2026. O rosto emerge da treva velado pela sombra: só o contorno e o colarinho captam a luz, e a face — o que há de mais singular — permanece retida no escuro. Figura exacta do hester panim – veja, no texto, o estrato cabalístico-místico.

«Onde outro autor compõe melodia, 
este autor compõe acorde»

* Divisa do Autor

«Fiel discípulo do filósofo Diónisos,
prefiro ser um sátiro a ser um santo»

Nietzsche, Ecce Homo (apud Santos, 2026)

«Há uma única catástrofe,
que sem cessar amontoa
ruínas sobre ruínas»

W. Benjamin, Teses sobre o Conceito de História, IX (1940)

LIMIAR - O ANJO E O SÁTIRO

HÁ DUAS FIGURAS que, postas frente a frente, dizem quase tudo o que estas páginas procuram pensar. A primeira é o sátiro de Nietzsche — «fiel discípulo do filósofo Diónisos, prefiro ser um sátiro a ser um santo» (Nietzsche, Ecce Homo, apud Santos, 2026) —, a força vital que afirma a vida como fenómeno estético e que ri, dança e canta sobre o abismo. A segunda é o anjo de Benjamin — o Angelus Novus de Klee, que olha para trás e vê «uma única catástrofe, que sem cessar amontoa ruínas sobre ruínas» (Benjamin, 1940), arrastado de costas para um futuro a que chamamos progresso. O sátiro olha em frente e afirma; o anjo olha para trás e recolhe. E todavia — eis a tese deste ensaio — fazem o mesmo gesto: ambos resistem à colonização racional da vida, ambos guardam aquilo que o conceito, ao decompor, perde; ambos são guardiães de uma centelha.

Este ensaio toma como texto-base o artigo de João de Almeida Santos Reflexões sobre a Arte — A propósito dos Ensaios de Thomas Mann (Santos, 2026: https://joaodealmeidasantos.com/2026/03/31/artigo-246/) e fá-lo ressoar na intersecção fecunda com a estética da ruína de Walter Benjamin — a alegoria, o Trauerspiel, a melancolia do coleccionador e o anjo da história. São os dois ensaios cujo cruzamento aqui se opera: a reflexão de Santos sobre a arte como acesso às dimensões intensivas da vida e a meditação benjaminiana sobre a ruína como forma de conhecimento e de redenção. A ambos aplico a grelha que noutros lugares designei por leitura FPK: a superposição trivalente de um estrato Filosófico, de um estrato Psicanalítico e de um estrato Cabalístico-Místico, lidos não como melodias sucessivas, mas como as três notas de um único acorde.

A intersecção não é arbitrária, é convocada pelo próprio Nietzsche, que une os dois ensaios como uma dobradiça secreta. Pois foi Nietzsche quem, na segunda das Considerações Intempestivas — Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben (1874) —, mostrou que o excesso de história paralisa a vida, que o homem sobrecarregado pelo passado se torna incapaz de agir, exactamente como o anjo benjaminiano, imobilizado pela tempestade, querendo «deter-se, acordar os mortos e juntar os fragmentos», sem o conseguir (Benjamin, 1940). E foi o mesmo Nietzsche quem, em Assim falou Zarathustra, fez do homem «uma corda esticada entre a besta e o super-homem» (Santos, 2026) — uma ponte sobre o abismo, que é, ela também, uma figura da passagem e do crepúsculo, do ocaso que tanto o sátiro como o anjo habitam. A pergunta nietzschiana que percorrerá estas páginas — niilismo ou perspectivismo? — é a charneira em que o sátiro e o anjo se tocam: porque o perspectivismo é a afirmação de que há sempre uma centelha a recolher, e o niilismo a tentação de a deixar soçobrar nos escombros.

Convoco ainda, como o texto-base pede, quatro testemunhas: Michel Meyer e a sua problematologia (o pensar como arte de questionar, contra o dogmatismo das respostas); Kant e a terceira Crítica, pela mão de António Marques (o juízo estético como ponte entre o racional e o sensível, desinteressado, singular, comunicável sem conceito); Thomas Mann e A Montanha Mágica (o sanatório como estado de excepção, a planície como normalidade — qual é o mundo verdadeiro?); e, no horizonte fontal, Giorgio Agamben (o stato di eccezione e a forma-di-vita), Jacques Derrida (a différance e o pharmakon), Emmanuel Levinas e Catherine Chalier (o rosto, o Dizer e a sabedoria da sensibilidade). A todos atravessará a minha própria via — a leitura estruturada que ensaiei nos Contos e Psicanálise —, segundo a qual nenhuma obra se compreende sem descer às suas camadas pulsionais e místicas, e sem as ouvir soar juntas.

Uma pintura preside, ao longe, a estas páginas: S/Título (JAS, 2026), a tela sem nome que acompanha o artigo. Reservo-a para o estrato cabalístico, onde o seu próprio anonimato — o sem-título — se revelará como uma forma de apofatismo: o nome retido, a obra que se recusa a ser capturada por um conceito, fiel assim, na sua mudez, àquilo que Santos diz da arte. Que ela presida, pois, em silêncio.

OS DOIS ARGUMENTOS PATENTES
1. Santos
A arte como acesso à vida
que o conceito não captura

Restituamos primeiro, com fidelidade, o argumento de Santos, cujas oito secções desenham um percurso de rara coerência. A tese nuclear abre o texto: «há muito que penso que a obra de Friedrich Nietzsche só é compreensível plenamente através das categorias da arte» (Santos, 2026). Não se trata de uma observação biográfica — de que Nietzsche escrevia bem —, mas de uma tese epistemológica e ontológica: só do terreno da arte se alcança o sentido de um pensamento que se voltou deliberadamente para as dimensões da vida «que não são apreensíveis integralmente e na sua indissociável unidade com a maquinaria racional, conceptual, analítica, científica» (Santos, 2026).

Santos encontra em Thomas Mann — no ensaio A filosofia de Nietzsche à luz da nossa experiência (1947), recolhido na edição dos Ensaios (Mann, 2026: 456-489) — a confirmação articulada da sua intuição. Recolhe de Mann a fórmula de que a «cultura é a dimensão aristocrática da vida» e que a ela se associam, «como suas fontes e condições, a arte e o instinto» (Mann, apud Santos, 2026); recolhe a herança schopenhaueriana de que «a vida só se justifica como fenómeno estético»; e recolhe a recusa simultânea dos «caluniadores da vida e defensores do além e do nirvana» e do «optimismo dos racionalistas e dos reformadores do mundo» (Mann, apud Santos, 2026). No centro está a rejeição do homem teórico, «de proveniência socrática», «inimigo de Diónisos» e «assassino da tragédia» — aquele que «não quer ter nada por inteiro» (Santos, 2026). E a fórmula que Mann dá a Nietzsche e que Santos faz sua: «Nietzsche é o esteta mais completo e sem salvação que a história do espírito conhece» (Mann, apud Santos, 2026).

A segunda e a terceira secções descem ao concreto da linguagem. Lê-se em Zarathustra o episódio do santo que, na floresta, «compõe canções e canta-as», rindo, chorando e murmurando, «louvando um Deus que, afinal, está morto» (Santos, 2026); e a sentença célebre: «o homem é uma corda esticada entre a besta e o super-homem; uma corda sobre um abismo» (Der Mensch ist ein Seil, geknüpft zwischen Tier und Übermensch — ein Seil über einem Abgrunde). Santos comenta que estas são dimensões «revestidas como que por uma espessa neblina que não deixa ver com clareza e muito menos deixa penetrar os faróis conceptuais, a linearidade racional» (Santos, 2026). São, escreve, dimensões «não mensuráveis nem decomponíveis, por serem intensivas e não extensivas», que só uma «linguagem plástica, metafórica, onde a unidade da totalidade não é quebrada» pode preservar. Daí a definição que o Ecce Homo oferece e que Santos adopta como emblema: o «homem-poeta como decifrador de enigmas, redentor do acaso» (Santos, 2026).

A poesia, diz a terceira secção, «vai lá ao fundo, às pulsões e aos sentimentos, como o amor ou o ódio, a melancolia ou a nostalgia, que agitam a alma» e «obrigam à verbalização redentora e pacificadora» (Santos, 2026). Estes sentimentos «exprimem-se de forma intensiva, unitária e total» e «não é possível decompô-los em partes para, depois, os recompor em unidades abstractas». A quarta secção convoca Goethe, citado por Mann: «não há maneira mais segura de escapar ao mundo do que através da arte, e não há maneira mais segura de nos ligarmos a ele do que através da arte» (Goethe, apud Santos, 2026) — a arte como o veículo que «descola e aterra nesse aeroporto existencial que se chama mundo da vida (Lebenswelt)». E a tese política decisiva: «a colonização do mundo da vida pela razão ou, pior ainda, pela racionalidade técnica e instrumental constitui-se como violência exterior, opressão ou compressão que só a arte pode evitar» (Santos, 2026).

As secções quinta a sétima fundam esta convicção numa psicologia da criação e numa epistemologia das «duas linguagens». Santos recolhe de Nietzsche, citando Schiller, a confissão capital: «um certo estado musical da alma é anterior e só depois se segue em mim a ideia poética» (Eine gewisse musikalische Gemüthsstimmung geht vorher…) — uma «predisposição musical» que «antecede o impulso poético», «uma pulsão melódica interior da alma como motor da poesia» (Santos, 2026). E recusa a velha dicotomia racionalismo/irracionalismo como falsa: «é o objecto da nossa atenção que impõe o método e a linguagem, não a livre discricionariedade e sensibilidade do sujeito» (Santos, 2026). Há realidades — a relação «vital, existencial e intersubjectiva com o mundo» — cuja natureza exige outra linguagem que não a conceptual-analítica; querer reduzi-las a esta é não atingir «a própria realidade que é objecto da nossa atenção». A oitava secção encerra com a fórmula de Mann que dá à arte a sua dignidade última: «a filosofia não é uma abstracção fria, é vivência, sofrimento e sacrifício pela humanidade» (Mann, apud Santos, 2026) — o páthos, no sentido grego, como impregnação de toda a obra.

2. Benjamin
A ruína como alegoria, melancolia 
e potência messiânica

O segundo argumento patente é o de Benjamin, tal como se desenha na Origem do Drama Barroco Alemão (1928) e nas Teses sobre o Conceito de História (1940). O seu núcleo é a distinção entre símbolo e alegoria. O símbolo é orgânico, unitário, harmonioso — a parte participa do todo, o finito revela imediatamente o infinito (a rosa que é, sem resto, beleza e amor). A alegoria é fragmentária, arbitrária, melancólica — o signo não participa do significado, é convenção, é a caveira que remete à vanitas, é a ruína como história petrificada. E a ruína é a figura privilegiada da alegoria: a arquitectura desfeita, a natureza tornada fragmento, o tempo já não como progresso orgânico, mas como «catástrofe contínua, decomposição».

No Trauerspiel barroco — a peça de luto — a história é encenada como ruína: o príncipe, o mártir, o tirano e o intrigante habitam um mundo de mortes e traições onde a vida se petrifica em fragmento. A esta visão associa Benjamin duas figuras: o melancólico, paralisado pela contemplação dos destroços, e o coleccionador, que recolhe os fragmentos para os arrancar à dispersão e lhes dar nova vida numa constelação. E na nona das Teses, a ruína recebe a sua imagem mais alta: o anjo da história, de rosto voltado para o passado, que vê «uma única catástrofe, que sem cessar amontoa ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés»; quer deter-se e «juntar os fragmentos», mas uma tempestade — o progresso — enche-lhe as asas e arrasta-o «de costas para o futuro» (Benjamin, 1940). A tarefa do materialista histórico será, por isso, «escovar a história a contrapelo» (die Geschichte gegen den Strich zu bürsten): fazer explodir o continuum do progresso e libertar a centelha messiânica que dorme nos vencidos.

Importa fixar, desde já, a homologia que torna os dois argumentos um só objecto. O que Santos chama a colonização do Lebenswelt pela razão instrumental, Benjamin chama o continuum do progresso que produz ruínas; o que Santos chama a neblina intensiva que o conceito não capta, Benjamin chama o fragmento alegórico que a narrativa oficial exclui; o que Santos chama o poeta redentor do acaso, Benjamin chama o coleccionador que redime o destroço. E em ambos há um gesto que suspende a normalidade — a decisão estética, a interrupção messiânica — para salvar aquilo que a marcha do conceito ou do progresso condena. É este gesto, e a sua tripla profundidade, que os três estratos seguintes procurarão pensar.

ESTRATO FILOSÓFICO 
A excepção, a différance e o rosto
1. A excepção estética 
e a colonização do Lebenswelt
(Agamben, com Mann)

Comecemos pela categoria que Santos põe no centro sem a nomear: a violência. «A colonização do mundo da vida pela razão… técnica e instrumental constitui-se como violência exterior» (Santos, 2026). Esta frase é, lida com Agamben, a descrição exacta de um dispositivo biopolítico. Pois o que faz a razão instrumental ao Lebenswelt é o que a soberania faz à vida: uma inclusão por exclusão. A racionalidade não ignora simplesmente as dimensões intensivas, pulsionais e unitárias da existência; captura-as, excluindo-as — decompõe-nas em variáveis, mede-as, recompõe-nas como objectos, e nesse mesmo gesto as expulsa enquanto vida. A vida profunda é incluída na ciência sob a forma da sua própria exclusão: presente como objecto, ausente como vida. É a estrutura do que Agamben chama a vida nua (nuda vita): a zoê separada da sua forma, a vida reduzida ao que dela se deixa conceptualizar.

Ora a arte, em Santos, é precisamente a forma-di-vita agambeniana: aquela vida que não se deixa cindir da sua forma, em que viver e a forma de viver coincidem. Quando Santos diz que a arte acede «à unidade da vida sem a decompor, a desmontar em partes», está a descrever uma forma-de-vida que resiste à separação biopolítica. E a arte fá-lo, como a soberania, por uma decisão sobre a excepção: decide suspender a normalidade do conceito para deixar aparecer o que a normalidade exclui. Não há aqui paradoxo menor: a arte combate o estado de excepção da razão instrumental com um contra-estado de excepção — a suspensão estética da linguagem conceptual. É a tese que A Montanha Mágica de Mann eleva a alegoria: o sanatório de Davos é o stato di eccezione em pessoa — lugar de tempo suspenso, de vida intensificada pela proximidade da morte, onde a «planície» (a normalidade do trabalho, do tempo linear, da sociedade) fica em suspenso. A pergunta de Mann — «qual é o mundo verdadeiro, o do sanatório ou o da planície?» — é, lida assim, a pergunta soberana por excelência: ela decide qual vida conta como real. E a resposta de Santos é a de Hans Castorp tentado pela montanha: o mundo verdadeiro é o da excepção, porque é nele que a vida se dá «por inteiro».

Mas — e aqui Agamben corrige a tentação — há duas excepções, e a probidade obriga a distingui-las. Há a excepção que captura (o sanatório que isola a doença para a governar, a razão que decompõe a vida para a dominar) e há a excepção que liberta (a arte que suspende o conceito para devolver a vida à sua forma). A primeira é a excepção soberana; a segunda é o que mais adiante, com Benjamin, chamaremos a excepção messiânica. A arte não é, pois, uma fuga da vida: é, nas palavras de Goethe que Santos cita, ao mesmo tempo «a maneira mais segura de escapar ao mundo» e «a mais segura de nos ligarmos a ele» — uma excepção que não abandona a planície, mas a redime.

2. A différance da linguagem poética 
e a ruína como diferimento do símbolo 
(Derrida)

Santos insiste em que a linguagem poética «difere» do conceito sem o negar: «a linguagem da arte não nega a linguagem racional e técnico-científica, mas é mais humana e até superior» (Santos, 2026). A palavra «difere» não é aqui inocente, e a desconstrução derridiana permite-lhe toda a sua extensão. Pois a metáfora — «o homem é uma corda esticada sobre um abismo» — não representa um conceito (não diz «o homem é um ser intermédio»), nem o decompõe; ela difere-o, no duplo sentido da différance: difere de si mesma (a corda não é o homem, é outra coisa) e adia indefinidamente o sentido (a imagem não se fecha numa definição, abre um espaçamento onde o leitor há-de demorar-se). A poesia é différance em acto: produz sentido não por presença plena, mas por diferimento e rasto. A «neblina» de Santos é o nome poético daquilo a que Derrida chama o rasto (trace): não a ausência de sentido, mas o sentido que só se dá retirando-se, que nunca está inteiramente presente porque vive do seu próprio adiamento.

E a arte é, em Santos como em Derrida, um pharmakon: a fórmula de Goethe — escapar ao mundo e ligar-se ao mundo pela mesma arte — é a estrutura exacta do pharmakon, que é a um tempo veneno e remédio, fuga e regresso, sem que se possa decidir de uma vez por todas qual das duas faces prevalece. A arte cura a violência da colonização conceptual, mas pelo mesmo gesto pode tornar-se evasão, narcose, fuga sem regresso; é remédio e risco na mesma dose. Por isso o «voo» da arte «parte desse lugar, mas a ele regressa» (Santos, 2026): o pharmakon estético só é remédio se for também regresso.

É aqui que a ruína de Benjamin se revela como o exacto correlato histórico da metáfora poética. Pois o que a alegoria barroca é ao símbolo, a metáfora nietzschiana é ao conceito: um diferimento. O símbolo pretende a presença plena — a parte que é o todo, o finito que é o infinito; a alegoria confessa o diferimento — o signo que remete sem coincidir, que aponta para um sentido sempre adiado. A ruína é a trace tornada pedra: mostra que a transitoriedade não é acidente, mas estrutura, que o sentido histórico não se dá numa totalidade orgânica, mas em fragmentos que se diferem e se iteram. E a iterabilidade derridiana é a lei do coleccionador benjaminiano: recolher o destroço é repeti-lo noutra constelação, e nessa repetição alterá-lo, libertar-lhe um sentido que o original não continha. O sátiro que difere o conceito na metáfora e o anjo que difere o progresso na constelação fazem, no plano da linguagem e no plano da história, o mesmo gesto de différance.

3. O juízo estético e a problematologia 
- a ponte e a pergunta 
(Kant, com Marques; Meyer)

Como é possível uma linguagem que comunique o singular sem o subsumir num conceito? A pergunta é de Santos — «traduzi-lo ou convertê-lo criativamente na sua singularidade e totalidade, sem o decompor» (Santos, 2026) — e a sua resposta canónica está na terceira Crítica de Kant, que António Marques nos ajudou a ler como o lugar da ponte entre o entendimento e a sensibilidade. O juízo estético é, em Kant, desinteressado (não visa o uso nem o conceito do objecto), singular (julga este objecto, não uma classe), e todavia reivindica uma comunicabilidade universal sem conceito: «isto é belo» exige o assentimento de todos sem o poder demonstrar. Eis a estrutura precisa daquilo que Santos atribui à arte: comunicar à sensibilidade, «na partilha», uma singularidade que nenhum conceito esgota. O juízo estético é a prova transcendental de que a tese de Santos é possível — de que há um modo de dizer o singular que não o decompõe e que, contudo, não é mero capricho privado, porque aspira a ser partilhado.

E a este modo de dizer corresponde um modo de pensar, que Michel Meyer nomeou: a problematologia. Contra a tradição que faz do conhecimento um sistema de respostas — proposições que fecham a pergunta —, Meyer propõe pensar a partir do questionamento como elemento primeiro: pensar é manter aberta a pergunta, e há discursos cuja dignidade está em não resolver a interrogação num resultado. A arte é, neste sentido, problematológica por excelência: a metáfora da corda sobre o abismo não responde à pergunta «o que é o homem?», mantém-na aberta, fá-la ressoar. Quando Santos recusa a dicotomia racionalismo/irracionalismo afirmando que «é o objecto da nossa atenção que impõe o método e a linguagem», diz, em rigor, que há objectos cuja verdade é interrogativa e não apofântica — objectos que se traem se forem reduzidos a respostas. A ciência alia-se à resposta; a arte, à pergunta. E é por isso que a arte não é um défice de racionalidade, mas outra orientação cognitiva: a orientação para o que só na forma interrogativa se deixa dizer.

4. O rosto, o Dizer e a hospitalidade 
(Levinas, com Chalier)

Falta o que, nos dois argumentos, é mais discreto e mais decisivo: a dimensão ética. Quando Santos diz que a poesia acede às pulsões «que agitam a alma, estremecem o poeta e obrigam à verbalização redentora» (Santos, 2026), descreve, sem o saber, a estrutura levinasiana do Dizer (le Dire) anterior ao Dito (le Dit). A pulsão que «obriga» o poeta não é um conteúdo que ele escolha exprimir; é uma interpelação que o precede e o constitui como responsável — uma exposição ao que o excede. A linguagem poética é o Dizer que preserva o Dito na sua alteridade, que diz o outro sem o reduzir ao mesmo, sem o capturar no conceito. Por isso a arte é, em sentido rigoroso, ética antes de ser estética: ela é o modo de dizer que não faz violência ao que diz, que «respeita por inteiro tudo aquilo que cantar» (Santos, 2026).

E é aqui que Catherine Chalier acrescenta o que em Levinas ficara em sombra. Chalier — leitora da Cabala e da sabedoria bíblica — mostra que a sensibilidade não é o grau menor do conhecimento, mas a abertura primeira à alteridade: a receptividade pela qual o outro me toca antes que eu o pense. A «predisposição musical da alma» de que falam Schiller e Nietzsche é, nesta luz, uma forma da receptividade chalieriana: uma escuta que precede o conceito, uma afecção que antecede a ideia. Chalier devolve à sensibilidade a sua dignidade ética e mística: ser tocado, ser afectado, vibrar antes de compreender — eis o solo de toda a responsabilidade e de toda a criação. A arte, nesta intersecção, é a guarda da sensibilidade contra um mundo que só quer respostas e domínio; é hospitalidade ao que pulsa, acolhimento do que não tem ainda conceito nem nome. E é também, como veremos no estrato cabalístico, escuta de um niggun anterior à palavra.

Estende-se esta ética ao anjo de Benjamin. «Escovar a história a contrapelo» é o gesto ético por excelência: responder ao rosto dos vencidos, dos que a história oficial petrificou em destroço anónimo. A ruína tem rosto — o rosto do mártir do Trauerspiel, o rosto dos derrotados cujo sofrimento o progresso esqueceu. E o coleccionador que recolhe o fragmento e o poeta que recolhe a pulsão fazem o mesmo: respondem a uma interpelação que vem do que foi excluído, e ao responder-lhe, redimem-no. O sátiro acolhe a vida que a razão expulsa; o anjo acolhe os mortos que o progresso atropela. Ambos são figuras da hospitalidade incondicional.

5. Niilismo ou perspectivismo 
- a différance da verdade

Resta enfrentar a pergunta que o texto-base nos lega: a obra de Nietzsche é niilismo ou perspectivismo? A resposta que estes estratos sugerem é inequívoca e passa por distinguir duas leituras da «morte de Deus». Lida como niilismo, a morte de Deus é a queda no nada — o desabamento de todo o valor, a planície sem montanha, a ruína sem coleccionador. Lida como perspectivismo, é outra coisa: a abertura de um espaço em que a verdade, deixando de ser uma e definitiva, se torna perspectiva — não menos exigente, mas plural, móvel, criável. Ora o perspectivismo é, em rigor, a différance aplicada à verdade: não há um sentido único e presente das coisas, há perspectivas que se diferem umas das outras e se iteram, abrindo continuamente novos valores. Não é o fim da verdade; é o fim da verdade como presença plena, e o início da verdade como tarefa.

Assim, o niilismo é a tentação que espreita o anjo — deixar-se paralisar pela contemplação dos escombros, ler na catástrofe a prova de que nada vale. E o perspectivismo é a afirmação do sátiro — fazer da morte de Deus não um luto sem fim, mas a ocasião da transvaloração, a libação dionisíaca que celebra a vida «por inteiro», sabendo-a abismo. A segunda Intempestiva dizia-o já: o excesso de história (o anjo soterrado de passado) mata a vida; mas a história ao serviço da vida — a história escovada a contrapelo, recolhida como o coleccionador recolhe — devolve ao presente a sua centelha. Entre o niilismo e o perspectivismo decide-se, pois, se a ruína é túmulo ou semente; e toda a aposta da arte, em Santos como em Benjamin, é que a ruína guarda uma centelha que pede para ser recolhida. É essa centelha que o estrato cabalístico irá, enfim, nomear.

ESTRATO PSICANALÍTICO 
A pulsão, o magma e a melancolia
1. As pulsões primordiais e a sublimação

Quando Santos enumera as «pulsões e os sentimentos, como o amor ou o ódio, a melancolia ou a nostalgia, que agitam a alma» e «obrigam à verbalização redentora» (Santos, 2026), está, em rigor de termos, a falar a língua de Freud. Aquilo que «agita» a alma e «obriga» à expressão é a pressão da pulsão (Trieb), essa exigência de trabalho imposta ao psiquismo pela sua ligação ao corpo. A pulsão não se deixa pensar; exige descarga, representação, destino. E a arte é, na economia freudiana, um dos destinos mais altos da pulsão: a sublimação — o desvio da energia pulsional para um fim socialmente valioso e formalmente belo, sem recalcamento e sem sintoma. A «verbalização redentora» de Santos é o nome poético da sublimação: a pulsão que, em vez de se reprimir ou de se descarregar cegamente, se eleva à forma e nela se pacifica sem se mutilar. O sátiro é a pulsão assumida; a obra é a pulsão sublimada.

Mas há aqui uma subtileza que distingue a tese de Santos de um freudismo redutor. Santos insiste em que as pulsões «não é possível decompô-los em partes para, depois, os recompor em unidades abstractas»; são «intensivas, unitárias e totais». Ora isto é uma objecção precisa a toda a metapsicologia que trate a pulsão como quantidade decomponível. A vida pulsional, diz Santos, tem uma unidade intensiva que se perde se for analisada como soma de partes — e é exactamente esta unidade que a arte preserva e a ciência destrói. A psicanálise, no seu melhor, sabe-o: o sentido de um sintoma ou de um sonho não é a soma dos seus elementos, mas a sua configuração única, irredutível. É por isso que a interpretação analítica, quando é verdadeira, se parece menos com uma decomposição química do que com uma leitura poética — e é esta a via que ensaiei no método dos Contos e Psicanálise: ler cada conto não decompondo-o em mensagem, mas escutando a sua unidade intensiva, a sua música latente, o seu enigma.

2. A predisposição musical 
e a função alfa - Bion 
e a capacidade negativa

«Um certo estado musical da alma é anterior e só depois se segue em mim a ideia poética» (Schiller, apud Nietzsche, apud Santos, 2026). Esta frase, que Santos põe no centro da sua psicologia da criação, encontra na obra de Wilfred Bion a sua tradução metapsicológica mais exacta. Bion distingue os elementos beta — as impressões sensoriais e emocionais brutas, não pensáveis, magmáticas — da função alfa, que os transforma em elementos alfa, susceptíveis de serem sonhados, pensados, simbolizados. Ora o «estado musical da alma» que precede a ideia poética é precisamente o magma dos elementos beta sob tensão; e o trabalho do poeta — a passagem à «fase apolínea» de que fala Santos, à «linguagem minimalista, musical e metafórica» — é a função alfa em acto: a transformação do magma em forma sem perda da sua intensidade. A arte é função alfa levada ao sublime.

E há mais. Bion recuperou de Keats a noção de capacidade negativa (negative capability): a capacidade de permanecer «nas incertezas, nos mistérios, nas dúvidas, sem nenhuma busca irritável do facto e da razão». Ora a «neblina» de Santos — essa «espessa neblina que não deixa ver com clareza e muito menos deixa penetrar os faróis conceptuais» (Santos, 2026) — é o nome exacto do meio em que a capacidade negativa opera. O «homem teórico», que «não quer ter nada por inteiro», é o homem sem capacidade negativa: aquele que, incapaz de habitar a neblina, se precipita sobre o facto e a razão e, ao fazê-lo, mata o enigma. O poeta, o «decifrador de enigmas», é, ao invés, aquele que sabe permanecer na neblina sem a dissipar prematuramente — que faz da incerteza não um defeito a corrigir, mas o próprio elemento da criação. O analista, no divã, faz o mesmo: suspende a memória e o desejo, instala-se na reverie, deixa que o sentido emerja do magma sem o forçar. Decifrador de enigmas e analista partilham a mesma virtude: a paciência da neblina.

3. A melancolia: do luto à ruína 
(Freud, com Benjamin)

É no afecto da melancolia que os dois argumentos — a arte de Santos e a ruína de Benjamin — se enlaçam mais intimamente, e é a psicanálise que dá o nó. Freud, em Luto e Melancolia (1917), distingue o luto, que elabora a perda do objecto e por fim se liberta, da melancolia, que não consegue largar o objecto perdido e o incorpora, voltando contra o próprio eu a sombra do que perdeu. Ora o melancólico benjaminiano — o que contempla a ruína, o que colecciona os destroços — é exactamente esta figura: aquele que não larga o passado, que o traz dentro de si como uma sombra, que vive entre os fragmentos do que já não é. O Trauerspiel, a «peça de luto», é o teatro desta melancolia: a história encenada como objecto perdido que se recusa a passar.

Mas Benjamin opera sobre a melancolia uma torção que a psicanálise pode iluminar e abençoar. Pois há uma melancolia que paralisa — o anjo imobilizado, incapaz de juntar os fragmentos — e há uma melancolia que se converte em trabalho: o coleccionador que, em vez de se afundar na contemplação da perda, recolhe os destroços e os reconfigura numa constelação nova. Esta segunda melancolia é o luto tornado criação: não o esquecimento do perdido (que seria a planície, a normalidade que segue em frente), nem a fixação paralisante (que seria o niilismo), mas a elaboração que arranca ao passado a sua centelha. «Escovar a história a contrapelo» é, em linguagem psicanalítica, elaborar (durcharbeiten) o luto da história — atravessar a perda em vez de a negar ou de nela se afogar. E é aqui que o método estruturado dos Contos e Psicanálise encontra a sua justificação última: ler é elaborar, recolher os fragmentos de sentido que a leitura distraída atropela, e devolvê-los à constelação onde recuperam a sua centelha.

4. O dionisíaco e o real 
- Lacan e o que resiste ao conceito

Há, por fim, no coração da tese de Santos, uma intuição que Lacan permite formular com precisão: a de que existe um real que resiste à simbolização, e que é precisamente esse real que a arte visa e a ciência falha. Quando Santos fala de dimensões «não mensuráveis nem decomponíveis, por serem intensivas e não extensivas» (Santos, 2026), nomeia o que Lacan chama o real: não a realidade ordenada pelo símbolo, mas o que no ser resiste a ser dito, o que retorna sempre ao mesmo lugar, o que faz furo na rede dos conceitos. O dionisíaco nietzschiano — o magma, a embriaguez, a «experiência interior prévia», a libação — é uma figura deste real: uma intensidade que o apolíneo (o símbolo, a forma) tenta cingir sem nunca a esgotar.

E Lacan dá-nos ainda a chave da «predisposição musical». Pois ele distinguiu, sob a linguagem como sistema de signos, aquilo a que chamou lalangue — a materialidade sonora, musical, equívoca da língua, anterior à sua organização em sentido, onde o significante goza antes de significar. O «estado musical da alma» que precede a ideia poética é da ordem de lalangue: um gozo do som e do ritmo que é o solo de que a poesia emerge. A arte, em Nietzsche como em Santos, não acrescenta música a um sentido prévio; faz nascer o sentido de uma música anterior. E o poeta é aquele que não recalca lalangue sob a gramática conceptual, mas a deixa cantar — fiel, mais uma vez, ao sátiro e prefigurando o que, no estrato seguinte, reconheceremos como o niggun: o canto sem palavras que toca o que nenhuma palavra alcança.

ESTRATO CABALÍSTICO-MÍSTICO
O véu, o niggun, o anjo e a centelha
1. A neblina e o véu
- tzimtzum, hester panim e os levushim

Toda a reflexão de Santos gira em torno de uma imagem: a neblina — «uma espessa neblina que não deixa ver com clareza e muito menos deixa penetrar os faróis conceptuais» (Santos, 2026) — e o «véu da ilusão» que, segundo Nietzsche, citando Hamlet, deve pairar sobre o mundo «para agir». A tradição cabalística pensou esta neblina sob um nome preciso: o ocultamento divino, o hester panim — o «esconder da face». Para a Cabala luriânica a criação começa por um recuo: o tzimtzum, a contracção pela qual o Ein Sof infinito se retrai para abrir um vazio onde o mundo possa ser. A luz primordial não se dá em plena presença — asfixiaria o finito —; dá-se velada, filtrada por vestes (levushim) que a um tempo a escondem e a tornam suportável. O véu não é, pois, o contrário da revelação: é a sua condição. Só através da neblina se pode olhar o sol sem cegar.

Eis o que a leitura cabalística acrescenta a Santos. A «neblina» que envolve a vida profunda não é um defeito a dissipar — como crê o «homem teórico», que quer «penetrar os faróis conceptuais» até à plena claridade —; é o levush, a veste necessária sem a qual a intensidade da vida nos fulminaria. A razão instrumental, ao querer dissipar toda a neblina, comete o pecado de quem arrancaria as vestes à luz: não veria mais, ficaria cego. A arte, ao invés, sabe trabalhar com o véu — preserva a neblina porque sabe que nela, e só nela, a luz se deixa contemplar. A metáfora, a música, o «discurso para iniciados» de que fala Santos são levushim: vestes que revelam, velando, que dizem, ocultando, fiéis ao modo como o próprio infinito se dá. A apofática — dizer Deus pelo que Ele não é — e a poética — dizer a vida pela metáfora que a não decompõe — são, no fundo, a mesma arte da veste.

2. A predisposição musical como niggun

«Um certo estado musical da alma é anterior e só depois se segue a ideia poética.» Esta anterioridade da música sobre a ideia tem, na mística judaica, um nome e uma prática: o niggun, a melodia sem palavras do hassidismo. O niggun é o canto que precede e excede o dito: uma sequência de sílabas sem sentido conceptual — bim-bam, ai-ai-ai — pela qual a alma se eleva (devequt, a adesão a Deus) lá onde a palavra já não chega. Os mestres hassídicos ensinavam que há portas da alma que só a melodia abre e que o canto sem palavras está mais perto da fonte do que o canto com palavras, porque a palavra já é conceito, já é veste espessa, ao passo que a melodia pura é veste translúcida. A «pulsão melódica interior da alma como motor da poesia» (Santos, 2026) é, em rigor cabalístico, um niggun: a vibração anterior à ideia, a música da alma antes do verbo.

Compreende-se então por que razão Santos faz da música a raiz da poesia, e não o inverso. Porque a música é a linguagem que menos decompõe, a que mais preserva a «unidade intensiva e total» — a que, justamente, mais se aproxima do niggun originário. Aquilo a que Lacan chamou lalangue e Bion o magma pré-verbal, a Cabala chama o niggun da alma: o canto que está antes do sentido e que o sentido nunca alcança de todo. E o poeta é aquele que, descendo a essa música anterior, a faz subir à palavra sem a trair — que «acolhe na sua voz» o que ainda não tem voz. É o que noutro lugar escrevi a propósito da voz poética: que «a voz é, antes de todo o dito, exposição e oferta — o Dizer que precede o Dito» (Veríssimo, 2026a). O niggun é esse Dizer anterior, e a poesia, a sua veste.

3. O anjo da história 
e a angelologia judaica

Detenhamo-nos agora no anjo de Benjamin, porque ele não é uma figura decorativa, mas o ponto em que a estética da ruína toca a mística judaica de modo explícito. O Angelus Novus de Paul Klee, que Benjamin possuía e meditava, é lido por ele à luz de uma angelologia que o seu amigo Gershom Scholem conhecia como ninguém. Na tradição talmúdica e cabalística, os anjos não são eternos: são criados a cada instante, cantam diante do Trono o seu cântico único e passam, dissolvendo-se no rio de fogo de onde vieram. O anjo é, por essência, efémero e testemunha: existe para louvar e para desaparecer. O anjo benjaminiano herda esta efemeridade — quer deter-se, «acordar os mortos e juntar os fragmentos», mas é arrastado, não pode permanecer. A sua impotência é a impotência angélica: ele vê a verdade (a catástrofe), mas não tem o poder de a reparar; só pode testemunhá-la e ser arrastado.

E todavia — eis a torção messiânica — o anjo que não pode reparar aponta para Aquele que pode, e para a tarefa que cabe ao homem. Pois se o anjo apenas testemunha e passa, é ao homem, e não ao anjo, que a Cabala confia o tiqqun: a reparação. O anjo vê os escombros; o homem é chamado a recolhê-los. Benjamin sabia-o: a «fraca força messiânica» de que fala a segunda tese é uma força humana — a nossa —, e o Jetztzeit, o «tempo-de-agora» que faz explodir o continuum, é o instante em que um homem reconhece, num destroço do passado, uma centelha que lhe é destinada. O anjo é a melancolia que vê; o homem-coleccionador, o homem-poeta, é a mão que recolhe. Entre o anjo e o sátiro, o que falta — e o que os reconcilia — é o justo que repara.

4. A redenção das centelhas 
- arte e ruína como tiqqun

Chegamos ao centro do acorde. A Cabala luriânica ensina que, na criação, os vasos (kelim) destinados a conter a luz divina não suportaram a sua intensidade e se quebraram — a shevirat ha-kelim —, dispersando centelhas (nitzotzot) por todo o mundo decaído, cada uma aprisionada numa casca (qelippah). A tarefa do homem é o tiqqun: recolher as centelhas dispersas, libertá-las das cascas, devolvê-las à sua origem. Ora — e esta é a tese última deste ensaio — tanto a arte de Santos como a ruína de Benjamin são figuras do tiqqun. O que faz o poeta «redentor do acaso» senão recolher, do magma disperso das pulsões, a centelha que pede forma, e libertá-la da casca do mero acontecer? E o que faz o coleccionador benjaminiano, que «escova a história a contrapelo» e recolhe os destroços para os redimir na constelação, senão um tiqqun da história — a recolha das centelhas messiânicas aprisionadas nos escombros dos vencidos?

Assim se relê, na sua máxima profundidade, a fórmula que governa o texto-base: «a vida só se justifica como fenómeno estético» (Mann, apud Santos, 2026). Lida cabalisticamente, ela diz: a vida justifica-se na medida em que as suas centelhas são recolhidas e elevadas — e a arte é o nome desse recolher. O esteticismo dionisíaco não é, então, frívola celebração da aparência; é a forma extrema de uma seriedade messiânica: afirmar a vida «por inteiro» é recolher cada uma das suas centelhas, não deixar perder-se nenhuma, fazer de cada instante de acaso um instante redimido. O sátiro que afirma e o anjo que recolhe convergem no justo que opera o tiqqun: a redenção das centelhas é a obra comum da arte e da história. E o que escrevi a propósito da Saudade vale aqui inteiramente: o que persiste no mundo decaído é «o Ein Sof presente na existência mais ínfima: o infinito alojado no finito, o todo contido no quase-nada» (Veríssimo, 2026a), porque mesmo o mais quebrado dos vasos «ainda guarda luz» (Veríssimo, 2026a).

Resta a pintura que preside a este estrato (S/Título –JAS 2026, supra) — a tela sem nome que acompanha o artigo — cumpre, no seu próprio anonimato e no seu claro-escuro, a doutrina inteira. O rosto emerge da treva, mas a face permanece retida na sombra: só o contorno luminoso e o colarinho branco captam a luz, ao passo que aquilo que há de mais singular — os olhos, a expressão — fica velado, oculto, hester panim. Não é falta de representação: é representação do que se dá, velando-se. E o sem-título não é ausência de sentido: é recusa da casca conceptual, recusa de que a obra seja capturada por um nome que a decomponha e a fixe. A tela sem título é a obra que se mantém levush puro, veste sem conceito, neblina que preserva a sua centelha intacta. Ela faz, em pintura, o que o niggun faz em música e a metáfora em palavra: dá-se a ver velando-se, oferece-se sem se entregar ao conceito. O seu silêncio sobre o próprio nome e a sombra que guarda o seu rosto são a forma plástica da apofática — e são, talvez, a mais exacta figura do que Santos quis dizer quando afirmou que a arte acede «à unidade da vida sem a decompor». A obra sem título é a centelha que recusou a casca; o rosto na sombra é a luz que escolheu a sua veste.

REINVENÇÃO DO TEMA
A arte e a ruína 
como recolha das centelhas

Tendo estratificado os dois argumentos, podemos repor o tema de forma integral. A tese de Santos — a arte como acesso privilegiado às dimensões intensivas, pulsionais e unitárias da vida que o conceito não capta sem violência — deixa de ser, lida assim, uma defesa do irracionalismo ou uma nostalgia romântica, e revela-se como algo muito mais rigoroso: a afirmação de que existe um resto — a centelha, a unidade intensiva, o singular — que a colonização racional do Lebenswelt declara inexistente ou ilusório, e que todavia é o que verdadeiramente importa. A arte é o órgão desse resto: não o seu conceito (que o mataria), mas a sua veste, o seu niggun, a sua recolha. E a ruína de Benjamin é o mesmo resto, projectado na história: o fragmento que a narrativa do progresso declara lixo, e que o coleccionador redime.

A reinvenção consiste em pensar a arte e a ruína como um só gesto de tiqqun — a recolha das centelhas dispersas — operado em dois planos: o da vida (o sátiro, o poeta, a pulsão sublimada) e o da história (o anjo, o coleccionador, o destroço redimido). Em ambos opera uma excepção que não é a soberana (a que captura para dominar) mas a messiânica (a que suspende para libertar); em ambos a verdade não é presença plena, mas différance — perspectiva, rasto, constelação; em ambos a linguagem adequada não é a do conceito que decompõe, mas a da forma que preserva a unidade intensiva. A falsa dicotomia racionalismo/irracionalismo, que Santos com razão recusa, resolve-se assim não numa escolha mas num acorde: há duas orientações cognitivas — a que decompõe para dominar e a que recolhe para redimir —, e a sabedoria está em saber qual convém a cada realidade. À natureza física, a linguagem que decompõe; à vida e à história dos homens, a linguagem que recolhe.

Foi esta, no fundo, a convicção que ensaiei no método dos Contos e Psicanálise e que em A Intriga Ética (Veríssimo, 2001) formulei como princípio: que ler — um conto, uma vida, uma época — não é decompor uma mensagem, mas recolher uma centelha; que a interpretação é menos análise do que tiqqun. Aplicada aos dois ensaios, esta convicção permite a reposição final do tema: a arte e a história, quando fiéis à sua vocação, são duas formas da mesma piedade — a recusa de deixar perder-se o que a razão instrumental e o progresso condenam ao esquecimento. O sátiro afirma a vida recolhendo-lhe cada centelha; o anjo, impotente, aponta para o homem que há-de recolher as centelhas da história. E entre os dois, o justo — o poeta, o coleccionador, o leitor atento — opera a reparação. Não há aqui consolo fácil: a recolha é interminável, as centelhas são incontáveis e a tempestade do progresso não cessa. Mas é precisamente nisto que reside a dignidade do humano: em recolher, sabendo que nunca acabará, a luz que os escombros guardam.

CARTOGRAFIA DAS CORRENTES LATENTES

Por probidade do método, explicito as correntes convocadas e o lugar da sua entrada. Do estrato filosófico: Giorgio Agamben (o stato di eccezione, a nuda vita, a forma-di-vita, o resto messiânico), que dá à «colonização do Lebenswelt» a sua gramática biopolítica e a A Montanha Mágica a sua leitura como excepção; Jacques Derrida (a différance, o rasto, o pharmakon, a iterabilidade), que mostra a linguagem poética e a alegoria como diferimento e a arte como veneno-remédio; Emmanuel Levinas e Catherine Chalier (o rosto, o Dizer anterior ao Dito, a sabedoria da sensibilidade e a receptividade ao outro), que revelam a raiz ética da criação e da recolha; Michel Meyer (a problematologia), que pensa a arte como questionamento contra o dogmatismo da resposta; e Kant, pela leitura de António Marques (o juízo estético como ponte desinteressada, singular e comunicável sem conceito). Convoquei ainda, como charneira histórica, as Considerações Intempestivas de Nietzsche sobre a utilidade e a desvantagem da história para a vida.

Do estrato psicanalítico: Sigmund Freud (a pulsão, a sublimação, o luto e a melancolia), que dá às «pulsões primordiais» de Santos a sua economia e à ruína de Benjamin o seu afecto; Wilfred Bion (a função alfa, a transformação do magma beta, a capacidade negativa), que traduz a «predisposição musical da alma» e a «neblina»; Jacques Lacan (o real que resiste ao símbolo, lalangue), que nomeia o que a arte visa e a ciência falha. Do estrato cabalístico-místico: Isaac Luria e a tradição luriânica (tzimtzum, hester panim, levushim, shevirat ha-kelim, qelippot, nitzotzot, tiqqun), com Gershom Scholem por intérprete e pela mediação da angelologia judaica; a tradição hassídica do niggun; e Walter Benjamin como charneira entre o messiânico e o estético. Dos meus próprios textos, integrei ipsis verbis A Intriga Ética (2001), o ensaio A Saudade e o Bicho da Terra (2026a) e a doutrina da voz de O Grão da Voz e o Dizer (2026d), e convoquei o método de leitura estruturada dos Contos e Psicanálise (2026f). Todas estas correntes convergem porque os dois objectos — a arte e a ruína — as chamam, cada uma do seu ângulo, à mesma pergunta sobre a centelha e a casca.

SÍNTESE TRIVALENTE 
O acorde do anjo e do sátiro

Recolhamos as três notas no acorde único. No estrato filosófico vimos que a arte e a ruína são duas excepções messiânicas — não a soberania que captura, mas a interrupção que liberta — e que ambas operam por différance (a metáfora que difere o conceito, a constelação que difere o progresso), preservando o singular que o juízo estético comunica sem conceito e que a problematologia mantém como pergunta; e vimos que o perspectivismo, e não o niilismo, é a verdade de Nietzsche, porque há sempre uma centelha a recolher. No estrato psicanalítico vimos que as pulsões primordiais se sublimam na obra, que a «predisposição musical» é a função alfa transformando o magma e a capacidade negativa habitando a neblina, e que a melancolia da ruína se converte, pela elaboração, em recolha criadora. No estrato cabalístico vimos que a neblina é o véu necessário (hester panim, levushim), que a música anterior à ideia é o niggun, que o anjo da história é a testemunha angélica que aponta para o tiqqun confiado ao homem, e que arte e ruína são, juntas, a recolha das centelhas dispersas pela quebra dos vasos.

As três notas dizem, cada uma no seu registo, a mesma verdade: que há na vida e na história um resto intensivo, singular, luminoso — a centelha — que a razão que decompõe e o progresso que totaliza condenam ao esquecimento e que à arte, à poesia e à memória cabe recolher. O sátiro recolhe-o afirmando a vida «por inteiro»; o anjo aponta-o, impotente, na catástrofe; o justo recolhe-o, na obra e na história. O erro do «homem teórico» é crer que a centelha não existe porque não se deixa decompor; o erro do niilista é crer que, existindo, não vale a pena recolhê-la. A leitura FPK afirma, contra ambos, que a centelha existe e que recolhê-la é a obra mais alta — e que essa obra tem três nomes que são um só: arte (no plano da vida), redenção (no plano da história), tiqqun (no plano do ser). Onde outro autor escolheria uma nota — o sátiro ou o anjo, a afirmação ou a melancolia —, este ensaio compõe o acorde: o sátiro e o anjo, a afirmação dionisíaca e a recolha messiânica, soando juntos sobre o mesmo abismo. E é nesse soar conjunto que a vida, como na tela sem título, emerge da treva sem se entregar à treva e se oferece à luz sem nela se dissolver.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes (citadas no texto-base 
e nas referências dadas)

Goethe, J. W. (s.d.). Máximas e reflexões (citado por Mann, 2026). Lisboa: Relógio D’Água.

Heidegger, M. (1961). Nietzsche (Vols. 1–2). Pfullingen: Neske.

Kant, I. (1998). Crítica da faculdade do juízo (A. Marques & V. Rohden, Trads.). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Original publicado em 1790.)

Mann, T. (2026). Ensaios (A. Sousa Ribeiro, Sel., Trad., Pref. e Notas). Lisboa: Relógio D’Água.

Marques, A. (1994). O sublime em Kant. Lisboa: Edições Colibri.

Meyer, M. (1986). De la problématologie: Philosophie, science et langage. Bruxelles: Mardaga.

Nietzsche, F. (1872). Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik. Leipzig: Fritzsch.

Nietzsche, F. (1874). Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben (Unzeitgemässe Betrachtungen, II). Leipzig: Fritzsch.

Nietzsche, F. (1883–1885). Also sprach Zarathustra. Chemnitz/Leipzig: Schmeitzner/Naumann.

Nietzsche, F. (1908). Ecce homo. Leipzig: Insel.

Novalis. (1965). Fragmente. In Schriften (Vol. 2). Stuttgart: Kohlhammer.

Santos, J. A. (2026, 31 de Março). Reflexões sobre a arte: A propósito dos Ensaios de Thomas Mann [Artigo]. Lisboa: João de Almeida Santos. https://joaodealmeidasantos.com

Schiller, F. (citado por Nietzsche, 1872). Carta sobre a génese da poesia. In Die Geburt der Tragödie. Leipzig: Fritzsch.

Fontes latentes (convocadas pelo ensaísta)

Agamben, G. (1995). Homo sacer: Il potere sovrano e la nuda vita. Torino: Einaudi.

Agamben, G. (2003). Stato di eccezione. Torino: Bollati Boringhieri.

Benjamin, W. (1928). Ursprung des deutschen Trauerspiels. Berlin: Rowohlt.

Benjamin, W. (1991). Über den Begriff der Geschichte. In Gesammelte Schriften (Vol. I.2). Frankfurt am Main: Suhrkamp. (Original escrito em 1940.)

Bion, W. R. (1962). Learning from experience. London: Heinemann.

Bion, W. R. (1970). Attention and interpretation. London: Tavistock.

Chalier, C. (1993). Lévinas: L’utopie de l’humain. Paris: Albin Michel.

Chalier, C. (2002). La sagesse des sens: Le regard et l’écoute dans la tradition hébraïque. Paris: Albin Michel.

Derrida, J. (1967). De la grammatologie. Paris: Éditions de Minuit.

Derrida, J. (1972). La dissémination. Paris: Éditions du Seuil.

Freud, S. (1946). Trauer und Melancholie. In Gesammelte Werke (Vol. 10). London: Imago. (Original publicado em 1917.)

Lacan, J. (1975). Le séminaire, livre XX: Encore. Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. La Haye: Martinus Nijhoff.

Levinas, E. (1974). Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. La Haye: Martinus Nijhoff.

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Jerusalem: Schocken.

Scholem, G. (1972). Walter Benjamin und sein Engel. Frankfurt am Main: Suhrkamp.

Textos do autor integrados
(ipsis litteris)

Veríssimo, A. M. (2001). A Intriga Ética. Guimarães: Editora Cidade Berço.

Veríssimo, A. M. (2026a). A Saudade e o Bicho da Terra. Adam Romez, Uriel da Costa e a Condição do Homem na Poesia de João de Almeida Santos (Uma leitura hermenêutica, sistémica, constitucional, kabbalística, psicanalítica e subliminal à luz do viés de Agustina Bessa-Luís). Ensaio de Crítica Estética — Matriz FPX. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026d). O Grão da Voz e o Dizer. Ensaio sobre «A Tua Voz», de João de Almeida Santos. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026f). Contos e Psicanálise: O Submundo das Fábulas (Leitura estruturada em matriz FPK). Guimarães: edição do autor.

* Edição científica definitiva. Texto-base de João de Almeida Santos citado ipsis verbis; citações dos textos do autor fixadas nihil varietur. Ortografia segundo a norma anterior ao Acordo de 1990. Estrangeirismos em itálico. Referências em norma APA7 com indicação da cidade de edição. Pintura S/Título (JAS, 2026) reproduzida com permissão do autor.

AMV@06-2026

Ensaio

A TRAVESSIA IMÓVEL

O POETA-PÊNDULO, O ESPAÇO INTERMÉDIO 
E O TEMPO QUE RESTA
Uma leitura FPK 
dos Novos Fragmentos (XXVIII) 
de João de Almeida Santos, 
na intersecção fecunda 
com O Pêndulo do Resto 
— entre o resto messiânico 
(Agamben), 
o rasto e a restance 
(Derrida),
o intervalo do rosto 
(Levinas, Chalier), 
o espaço transicional 
(Winnicott)
e a metaplasticidade 
hematonómica da Cabala luriânica
מָקוֹם · רֶשֶׁת · תִּיקּוּן
Filosófico · Psicanalítico 
· Cabalístico-Estético

Por André Moshe Veríssimo PhD

“TRAVESSIA” – JAS 2026 – 93×118, papel de algodão, 310gr, e verniz Hahnemühle, Artglass AR70, em mold. de madeira. O corpo dourado oferece-se e dissolve-se entre a massa telúrica, à esquerda, e a silhueta negra, à direita: a figura exacta do tzimtzum, da qelippah e da centelha que circula como sangue (AMV).

«Onde outro autor compõe 
melodia, este autor 
compõe acorde»
* Divisa do Autor
«Ficam, partindo. 
E partem, ficando. 
É um autêntico vai-e-vem,
sem saírem do lugar»
* João de Almeida Santos (2026)
«παλίντροπος ἁρμονίη ὅκωσπερ
 τόξου καὶ λύρης»
* Heraclito de Éfeso, 
fr. DK 22 B 51
«Ho nyn kairós — 
o tempo de agora 
é o tempo que resta»
* a partir de 
Giorgio Agamben (2000)

 

LIMIAR

HÁ TEXTOS que descrevem um lugar e textos que são esse lugar. Os Novos Fragmentos (XXVIII) — Para um Discurso sobre a Poesia, que João de Almeida Santos deu a público em Junho de 2026 (Santos, 2026), pertencem à segunda espécie: não falam acerca do intervalo — instalam-se nele, e de lá falam. Sob a forma aparente de um discurso sobre a poesia, o que ali se executa é uma cosmologia do entre: a tese, vertiginosa na sua simplicidade, de que o poeta «nunca parte de vez» e «nunca fica de vez», de que «fica, partindo» e «parte, ficando» (Santos, 2026), e de que o seu lugar «é mais condição do que lugar, não é lugar propriamente dito» (Santos, 2026). É essa condição — não-lugar, intervalo, terra de ninguém — que proponho anatomizar.

Faço-o segundo o método que noutro lugar designei por leitura FPK: a sobreposição trivalente de um estrato Filosófico, de um estrato Psicanalítico e de um estrato Cabalístico-Estético, sondados não como melodias sucessivas, mas como as três notas de um único acorde. Não se procura aqui a paráfrase nem a glosa, mas a anatomia: o gesto de abrir o texto para ver a arquitectura das suas vísceras — e, no caso, para ver que essas vísceras são feitas de tempo, e não de espaço. Porque é essa, no fundo, a descoberta de Santos: «o lugar cede ao tempo» (Santos, 2026); «a poesia é filha do tempo, não do espaço» (Santos, 2026). À leitura do texto de Santos cruzo um segundo ensaio, que o prolonga e que comigo dialoga: O Pêndulo do Resto — Poesia, Messianidade e o Tempo que Resta, onde o vai-e-vem do poeta é lido ao lado da minha própria leitura de Giorgio Agamben — a tese de que «a messianidade não é o fim do tempo, mas o tempo do fim: o ho nyn kairós, o tempo que resta» e de que «esse tempo tem a forma do resto — o tò leîmma — aquilo que impede o todo de coincidir consigo mesmo». A hipótese que percorre estas páginas é que o pêndulo poético de Santos e o resto messiânico são «a mesma coisa dita de dois ângulos»: que a oscilação da existência e a estrutura do tempo que ainda pode ser vivido se encontram no mesmo intervalo — «o espaço onde o que era fixo se torna poroso, onde o que parecia perdido ainda pode ser afirmado».

Preside a estas páginas uma tela: Travessia (JAS, 2022, supra), o corpo dourado que se oferece e se dissolve entre a massa escura e telúrica, à esquerda, e a silhueta negra que o acolhe, à direita. Reservo-a para o estrato cabalístico-estético, porque é aí que a sua verdade se cumpre; mas convém anunciá-la desde já, pois é a pintura, e não um conceito, que empresta a este ensaio o seu nome secreto. Travessia não é a passagem que chega: é a passagem que permanece passagem — o atravessar que não cessa, a mobilidade que não sai do lugar. Tal é, também, a tese última destas páginas. Este ensaio inscreve-se, por fim, no método dedicado que venho cultivando sob o título Contos e Psicanálise: a convicção de que toda a obra — o poema, a tela, o conto — é um campo de estratos a desfazer e a refazer, e de que a crítica é menos um juízo do que uma travessia pela espessura do dito. Lê-lo-emos, pois, de uma perspectiva fontal-agambeniana e pós-estrutural — derridiana, levinasiana e à luz de Catherine Chalier —, sem esquecer que a fonte de toda a fonte, aqui, é a água em que «nunca nos banhamos duas vezes», e que já Heráclito sabia mover-se, tic, tac, entre a margem e a corrente.

O ARGUMENTO PATENTE 
O Poeta-Pêndulo e a Ontologia 
do Espaço Intermédio

Comecemos por restituir, com fidelidade, o argumento de Santos, pois nenhuma desconstrução é legítima que não seja precedida de uma construção exacta. O texto abre com uma imagem que é, ela mesma, um pequeno poema — o Pêndulo: «É o eterno retorno, / Diz à musa / O poeta, / É sempre ir / E voltar, / Tic, tac, / Mas tenho sempre / Uma meta / Antes de / Ao meu chão / Regressar» (Santos, 2026). Tudo o que se seguirá está já contido nestes onze versos: a oscilação (ir e voltar), o ritmo (tic, tac), a meta que precede o regresso, e o chão — o lugar — como termo e origem de um movimento que, afinal, nunca o abandona. A tese explícita é dada em resposta a um amigo que, glosando um poema do autor, lhe perguntava se nele já partira «de vez». A resposta é uma pequena ontologia: «Os poetas nunca partem de vez. Vão partindo, vão ficando. Ficam, partindo. E partem, ficando. É um autêntico vai-e-vem, sem saírem do lugar» (Santos, 2026). E logo a precisão decisiva, que desloca a questão do espaço para a condição: «O lugar dos poetas é mais condição do que lugar, não é lugar propriamente dito. No sense of place» (Santos, 2026). O poeta parte «para ver se encontra o que anteviu (na memória) antes de partir»: é «viagem no tempo», e o que a move é «o desejo, a força propulsora do desejo» — porque «o que procuram, afinal, já está neles» (Santos, 2026).

Onde se coloca, então, o poeta? «No intervalo entre a presença e a ausência. Entre o presente e o passado» (Santos, 2026). É esse «ponto axial» que lhe dá «a intermitência matricial, mas também criativa». E o regresso nunca é regresso ao mesmo: «ao regressarem, o lugar, afinal, já não é o mesmo». Daí as fórmulas paradoxais em que Santos cunha a sua intuição — «mobilidade estática», «permanência dinâmica», «o chão do poeta é mesmo movediço», movimento «em espiral ascendente e progressiva» (Santos, 2026). O poeta é, numa palavra, um ser do entre, cuja existência «é uma dinâmica, não uma fixidez».

Segue-se a grande metáfora marítima, que dá ao ensaio o seu páthos: «O poeta vive num mar de ondas revoltas, mas nunca naufraga. Porquê? Porque está em permanente naufrágio. Naufragar é preciso… para sobreviver como poeta» (Santos, 2026). O naufrágio é o «ambiente natural» do poeta; e quando «a alma se está a afundar», chega «o espírito, animado pela fantasia, para a resgatar», e «levanta voo» — mas só «se tiver espírito». É o espírito que o conduz «à fronteira entre o mar e a terra, entre a presença e a ausência, entre o passado e o futuro», e «é ali que começa o voo» (Santos, 2026). A sobrevivência do poeta aos «desencontros, que são como os naufrágios», faz-se «montado em palavras, que as leva o vento». E a vida do poeta resume-se, de novo, ao pêndulo: «Está e não está, / Não está / E volta a estar, / É sempre / Um vai-e-vem, / Tic, tac, / Nunca consegue / Parar» (Santos, 2026).

A condição poética é, pois, irrenunciável e mortal na sua suspensão: «Um poeta parado é poeta morto. Ser poeta é uma condição» (Santos, 2026). É aqui que Santos convoca Florbela Espanca — «Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens (…) É ter sede de infinito» — para concluir que «quem tem sede de infinito nunca pode parar» (Florbela Espanca, apud Santos, 2026). O infinito «nunca se alcança, a não ser no olhar, quando duas linhas paralelas se encontram», e por isso o poeta «tem sempre de caminhar»: hacer camino al andar, deixando «pegadas, sus huellas, como marcas de quem passou por ali em busca do tempo perdido» (Santos, 2026). «As pegadas são as palavras.» O poeta «bate à porta dos que também gostam de assim viajar», convocando «não os turistas da palavra, mas os amantes, como queria o Lorca» — e, no fim, «dirá, sorrindo: Amen» (Santos, 2026).

A segunda parte do texto — sob a rubrica Ontologia do Espaço Intermédio — aprofunda filosoficamente a intuição. Santos parte do dado banal — «podemos estar (fisicamente) num lugar e (mentalmente) noutro» — para extrair dele uma vertigem: «onde é que estou mais? Onde estou ou onde não estou?» (Santos, 2026). E formula a inclinação essencial do poeta: «o poeta pende sempre mais para o lugar onde não está». Ser movido pela utopia é «estar sempre a sair de onde se está»; mas a utopia, sendo u-topos, «é a ausência de lugar» e, logo, «um movimento no tempo mental» (Santos, 2026). A alma que se desloca por afecto tem «uma certa fisicidade» — «ela é o corpo do espírito» —, restando o corpo «existencialmente inerte e mudo», o «corpo sem alma» de que «há muitos por aí» (Santos, 2026).

Culmina o argumento numa fórmula que será o nervo de toda a nossa leitura. A arte «nasce num intervalo»: só do intervalo se pode «observar para os dois lados, para trás e para a frente, para o presente e para o passado, para a terra e para o mar». Ela é «uma poderosa ontologia do espaço intermédio entre o presente (físico e temporal) e a ausência e o silêncio» (Santos, 2026). E a arte é «movimento em busca do que se perdeu e da palavra acerca do que se perdeu», «em livres associações (Novalis)» ou, mais radicalmente, com «o desassossegado Soares»: «saudades do que não aconteceu» (Pessoa, apud Santos, 2026). Não há, portanto, «lugar, espaço para visitar. Só desejo. Revisitar o desejo» — porque «houve tempo, não houve espaço» (Santos, 2026). O lugar cede ao tempo; o corpo cede ao tempo; «a alma é mais do tempo do que do espaço».

As imagens finais do texto entregam-nos já os fios que iremos puxar. Que «não se faz poesia com o sol a bater-nos no rosto, quando há excesso de realidade e o espaço domina»: a poesia «acontece sempre na penumbra e numa atmosfera de vazio espacial» (Santos, 2026) — eis o tzimtzum, a contracção que abre o vazio, de que falaremos. Que «a redenção é a arte», «opção pelo tempo que a nossa alma habita», sempre inclinada para o futuro (Santos, 2026) — eis a messianidade. E que «a vida é uma rampa inclinada e a poesia é como um skate espiritual que nos permite percorrê-la», perigosa, vertiginosa, capaz de «quedas aparatosas» (Santos, 2026) — eis o naufrágio, e a queda, e o risco que a psicanálise saberá nomear. Tal é, em síntese fiel, o argumento patente. A nossa tarefa não é negá-lo — seria impróprio e, sobretudo, falso, porque na sua ordem ele é irrefutável —, mas mostrar o que, por baixo dele, continua a respirar.

ESTRATO FILOSÓFICO 
O Resto, o Rasto e o Intervalo
1. Filogénese do Entre 
- Heraclito, Platão 
e a sede de infinito

Antes de Agamben, antes de Derrida, há uma fonte da fonte — e a probidade filogenética exige que a reconheçamos. Quando Santos escreve que o movimento do poeta «acontece em espiral ascendente e progressiva», que «no retorno já tudo mudou», que é «mobilidade estática» e «permanência dinâmica» (Santos, 2026), repete, sem o saber ou sabendo-o, o gesto inaugural do pensamento ocidental sobre o devir: o de Heráclito de Éfeso. «Potamoîsi toîsin autoîsin embaínomén te kaì ouk embaínomen» — nos mesmos rios entramos e não entramos (Heráclito, fr. DK 22 B 12): o rio é o mesmo e nunca o mesmo, como o lugar do poeta, ao qual se regressa e que «já não é o mesmo». E o tic, tac do pêndulo tem, em Heráclito, o seu nome mais exacto: «palíntropos harmoníe» (fr. B 51), a harmonia de tensão inversa, «como a do arco e da lira». O arco e a lira: o instrumento da morte e o instrumento do canto partilham a mesma estrutura — uma corda mantida em tensão entre dois extremos opostos. O poeta-pêndulo é essa corda. A sua música não resolve a tensão entre presença e ausência: vive dela. «O caminho para cima e para baixo é um e o mesmo» (fr. B 60) — tic, tac.

A segunda fonte é Platão, e dá-nos a chave do desejo — que Santos identifica como «a força propulsora» do poeta, aquilo que o move «para um lugar que não é bem um lugar» (Santos, 2026). No Banquete (202d–203a), Diotima ensina que Eros não é um deus, mas um daímon, um metaxý — um intermédio «entre o mortal e o imortal», filho de Poros (o Recurso, a abundância) e de Penía (a Pobreza, a falta). Eros é, por nascimento, o ser do entre: nunca pleno, nunca vazio, sempre a caminho, «sempre pobre» e «sempre a maquinar». O desejo poético é exactamente este metaxý platónico: o poeta deseja o que, num sentido, já tem («o que procuram já está neles», Santos, 2026), e não tem, num outro, porque o tem apenas como falta e como memória. A sede de infinito de que falava Florbela é a herança directa do Eros-metaxý: querer o que não se possui, possuir como falta e, por isso, «nunca poder parar» (Santos, 2026). O intervalo não é, pois, uma invenção moderna: é o lugar arcaico do desejo e do canto.

2. O Resto e o Kairós 
- Agamben fontal

Tomemos agora a fonte que o segundo ensaio convoca explicitamente, e que constitui, creio, o nervo filosófico destas páginas: a archeologia agambeniana do tempo messiânico. Em Il tempo che resta (Agamben, 2000), lendo a Epístola aos Romanos de Paulo, Agamben distingue com rigor o tempo messiânico do tempo escatológico: o messiânico não é o fim do tempo (éschaton), mas «o tempo do fim», «o tempo que o tempo leva a acabar» — o ho nyn kairós, o «tempo de agora». Não é um outro tempo que viesse depois do cronológico: é uma contracção, uma transformação interna do tempo cronológico, que o torna habitável de outro modo. Eis a tradução conceptual exacta do pêndulo de Santos: o poeta não viaja para outro lugar no espaço — «houve tempo, não houve espaço» (Santos, 2026) —, ele contrai o tempo, fá-lo «pender para o passado» e, simultaneamente, inclina-se para o futuro. A «viagem no tempo» de Santos é o kairós agambeniano: o agora que resta.

E o que é, neste agora, o poeta? É a figura do resto — tò leîmma, a she’erit de Israel —, «aquilo que impede o todo de coincidir consigo mesmo», como escrevi no ensaio companheiro. O resto não é uma parte que sobeja: é a brecha estrutural por onde a totalidade se mostra incompleta e por onde a promessa sobrevive ao seu próprio fracasso. O poeta que «fica, partindo» é, rigorosamente, um resto: não coincide com o lugar (não fica de vez), nem dele se exclui (não parte de vez), e nessa não-coincidência mantém aberto o intervalo. Aqui se ilumina a fórmula paulina que Agamben faz sua: o «hos me», o «como não» — viver a condição própria «como não» a vivendo, possuir «como não» possuindo, chorar «como não» chorando. O poeta de Santos habita o lugar hos me: está «como não» estando, parte «como não» partindo. «Está e não está, / Não está / E volta a estar» (Santos, 2026): a definição lírica perfeita do hos me messiânico.

Resta a operação que dá ao tempo messiânico a sua eficácia: a katargesis, o tornar-inoperante. O Messias não destrói a lei nem o lugar: torna-os inoperantes (katargeîn), desactiva-os, suspende a sua operação para os abrir a um uso novo. É a inoperosità que Agamben pensará em obras ulteriores como o coração da política e da arte por vir. Ora, é precisamente isto que faz o poeta com o lugar: torna-o inoperante como lugar — «o lugar cede ao tempo» (Santos, 2026) — para o reabrir como condição, como intervalo, como uso. O «refresh» de que Santos fala, esse reiniciar em que «no retorno já tudo mudou», é a katargesis em acto: a desactivação do lugar fixo e a sua reabertura como tempo vivo. E a «redenção» que Santos identifica com a arte — «opção pelo tempo que a nossa alma habita» (Santos, 2026) — é o nome teológico desta inoperância criadora. A perspectiva é, neste estrato, fontalmente agambeniana: lê-se o intervalo do poeta não como privação, mas como potência — como o lugar onde, suspensa a operação do mundo, algo de novo pode ainda advir.

3. A Différance, o Rasto 
e a Restance - Derrida

Se Agamben dá ao intervalo o seu tempo, Derrida dá-lhe a sua escrita. Pois o que Santos descreve — um presente que nunca está pleno, sempre habitado pela ausência do passado e pela antecipação do futuro — é, ponto por ponto, a estrutura que Derrida nomeou différance. Em La voix et le phénomène (Derrida, 1967a) e em La différance (Derrida, 1972) mostra-se que o presente vivo (a lebendige Gegenwart de Husserl) nunca é uma plenitude simples: ele é constituído pela retenção do que já não é e pela protensão do que ainda não é, e logo «contaminado», desde sempre, pela não-presença. O presente é um efeito de diferimento — de um adiar (différer) que é também um diferir (différer): nunca aqui, nunca agora por inteiro. O «entre a presença e a ausência, entre o presente e o passado» de Santos (2026) é o nome poético da différance: o intervalo não é um acidente que sobrevém a presenças plenas — é a condição de que toda a presença é apenas um efeito tardio.

Daí decorre a figura derridiana que melhor diz o poeta de Santos: o rasto (la trace). Em De la grammatologie (Derrida, 1967b) o rasto é «o que não se deixa resumir na simplicidade de um presente»: é a marca de uma ausência, a presença de algo que já partiu. Ora, Santos di-lo com uma exactidão que comove: «as pegadas são as palavras» (Santos, 2026). As huellas de Machado, as marcas «de quem passou por ali», são o rasto derridiano — a escrita como inscrição de uma passagem que, ao inscrever-se, já se ausentou. O poeta não deixa presenças: deixa rastos. E porque o rasto é, por definição, o que resta de uma presença ausente, encontramos aqui o conceito que liga Derrida a Agamben: a restance — o permanecer do que não está plenamente presente. O poema é uma restance: o que fica, partindo. E acrescentemos a hauntologie de Spectres de Marx (Derrida, 1993): o intervalo do poeta é habitado por espectros — pelo que já não é e pelo que ainda não é —, e «o tempo está fora dos seus gonzos», out of joint, como o chão movediço de quem nunca sai do lugar, mas a quem o lugar nunca espera igual.

Note-se, porém, a subtileza: Derrida não reduz o poema ao jogo vazio dos rastos. Há, na différance, uma abertura ao outro — uma justiça que excede o texto e o convoca. «Il n’y a pas de hors-texte» nunca significou que nada existe fora do texto, mas que não há acesso ao sentido senão pelo diferimento, pela mediação do rasto — e que, nessa mediação, se anuncia uma alteridade irredutível. É exactamente o que faz o poeta de Santos quando «bate à porta dos que também gostam de assim viajar» (Santos, 2026): a sua escrita-rasto não se fecha em si, abre-se ao outro, à «liturgia dos amantes da palavra». O rasto chama. E é nesse chamamento que o estrato derridiano se entrega, sem ruptura, ao estrato seguinte — o de Levinas.

4. O Intervalo do Rosto e a Noite
- Levinas e Catherine Chalier

Há em Santos uma palavra que a desconstrução por si só não esgota: «desencontro». O poeta «sobrevive aos desencontros, que são como os naufrágios» (Santos, 2026). Ora o desencontro supõe um encontro falhado — supõe o outro. E é aqui que Levinas se torna indispensável. Toda a ontologia do espaço intermédio que Santos descreve corre o risco de ser uma ontologia solitária: o poeta sozinho no seu pêndulo, dialogando com a sua memória e o seu desejo. Levinas vem lembrar que o intervalo só é habitável porque, antes de tudo, há o rosto de outrem — que a primeira ausência não é a do lugar, mas a do outro que parte ou tarda. Em Le temps et l’autre (Levinas, 1948) o tempo não é o horizonte solitário de um sujeito: é «a própria relação do sujeito com outrem». O futuro é o outro; o intervalo entre presente e futuro é a distância que me separa e me liga àquele que vem. O desencontro de Santos é, levinasianamente, a estrutura mesma do tempo: nunca coincidimos com o outro no instante, e é dessa não-coincidência que nasce o tempo — e o poema.

Mais fundo ainda: em De l’existence à l’existant (Levinas, 1947) Levinas descreve o il y a — o «há» anónimo e impessoal, o murmúrio do ser que persiste quando todos os entes se ausentam, o rumor da existência sem existente. É a insónia, a vigília sem sujeito, o ruído de fundo do mundo. Ora não é exactamente este o «mar de ondas revoltas» em que o poeta «está em permanente naufrágio» (Santos, 2026)? O il y a é o mar; e o que Levinas chama hipóstase — o instante em que um sujeito se levanta sobre o anónimo e diz «eu» — é o «espírito» que «chega para resgatar a alma» e «levanta voo» (Santos, 2026). O naufrágio permanente é a exposição perpétua ao il y a; o poema é a hipóstase que, a cada instante, se arranca dele sem nunca o abolir. Levinas dá-nos, assim, a metafísica do naufrágio de Santos: não há terra firme, há a vigília sobre o abismo, e o sujeito é o que, montado em palavras, se levanta sobre ela.

É Catherine Chalier, leitora maior de Levinas e da fonte hebraica, quem nos oferece o último refinamento. Em La nuit, le jour — Au diapason de la création (Chalier, 1998) Chalier pensa a noite não como ausência do dia, mas como a sua condição matricial: há um saber da noite, uma fecundidade do escuro, que o pleno meio-dia da presença ignora. Como não ouvir aqui Santos: «não se faz poesia com o sol a bater-nos no rosto»; «ela acontece sempre na penumbra» (Santos, 2026)? A penumbra de Santos é a noite de Chalier — não privação de luz, mas o diapasão em que a criação se afina. E em La trace de l’infini (Chalier, 2002), Chalier mostra que o rasto (a trace levinasiana) não é apenas marca de uma ausência: é o modo como o Infinito passa sem se deixar capturar, deixando no rosto de outrem o vestígio de uma transcendência que não se reduz a presença. O rasto-palavra do poeta, lido com Chalier, não é só memória do perdido: é o lugar onde o infinito — a «sede de infinito» de Florbela — deixa o seu vestígio sem jamais se dar como objecto. A esperança, que Chalier pensa contra todo o desespero, é precisamente isto: a fidelidade ao rasto de um infinito que nunca está, mas que sempre chama.

5. A filogénese moderna 
Nietzsche, Pessoa, Valéry

Resta cartografar a linhagem moderna que o segundo ensaio convoca e fazê-lo filogeneticamente — isto é, vendo como cada figura herda e transforma a anterior. Primeiro, Nietzsche. O «eterno retorno» que Santos põe na boca do poeta (Santos, 2026) não é, em Nietzsche, uma cosmologia circular: é o «peso mais pesado» (das schwerste Gewicht, Die fröhliche Wissenschaft, §341), a prova ética suprema — querer que tudo regresse, inclusive o sofrimento, inclusive o naufrágio, e dizê-lo com alegria. O poeta de Santos, que «nunca naufraga porque está em permanente naufrágio», é já uma figura nietzschiana: não escapa ao abismo, dança sobre ele. O tic, tac do pêndulo é o ritmo do amor fati — o sim a tudo o que retorna. Zaratustra ensina-o; Ecce Homo vive-o; e o poeta repete-o, transformando o vai-e-vem em afirmação.

Depois, Pessoa — e aqui a filogénese toca o coração da questão. A heteronímia não é um jogo literário: é uma ontologia do intervalo. «Eu sou um outro» significa que o sujeito nunca coincide consigo, que cada nome é um resto, cada voz um fragmento que se afirma sem pretender ser o todo. O poeta que «fica, partindo» é heteronímico por natureza: parte de si para se tornar outro e, ao regressar, já não é o mesmo. E a fórmula que Santos colhe em Bernardo Soares — «saudades do que não aconteceu» (Pessoa, apud Santos, 2026) — é a expressão mais perfeita da estrutura do resto: a saudade não de um passado que foi, mas de um passado que poderia ter sido e não foi; um luto pelo possível, uma nostalgia do virtual. Foi a esse paradoxo que dediquei o ensaio O Passado que Ainda Não Aconteceu (Veríssimo, 2026c): a tese de que o tempo da alma não é o do calendário, e que o que mais funda a existência é, muitas vezes, aquilo que nela faltou acontecer. O poeta de Santos vive dessa falta fecunda.

Por fim, Valéry, que fecha a linhagem com a figura da consciência que se contempla a oscilar. O Monsieur Teste, os Cahiers, La Jeune Parque — toda a obra de Valéry é a vigília de um espírito que se observa a si mesmo no acto de pensar, que faz do intervalo entre o eu e o eu o próprio objecto do poema. «Le vent se lève!… il faut tenter de vivre!» (Valéry, 1922): no Cimetière marin é do limiar entre a imobilidade contemplativa e o sopro que rompe que nasce a decisão de viver — exactamente o instante em que «o espírito levanta voo» (Santos, 2026). A oscilação, em Valéry, não é mera repetição: é «a mente a ver-se a si mesma no intervalo», poesia em estado puro. E é esta a herança que Santos recolhe, sem o citar: a de uma poética que não descreve o mundo, mas a consciência a habitar o seu próprio entre. De Heráclito a Valéry, de Platão a Pessoa, há uma única e longa linhagem — a do pensamento do intervalo —, e o Discurso sobre a Poesia de Santos é o seu mais recente elo.

ESTRATO PSICANALÍTICO 
O fort-da, o espaço transicional 
e o naufrágio
1. O carretel 
- Freud e a compulsão à repetição

O que a filosofia pensa como intervalo, a psicanálise viu, primeiro, como jogo de criança. Em Além do Princípio do Prazer (Freud, 1920) Freud observa o neto de um ano e meio, que, na ausência da mãe, lança para longe um carretel preso a um fio, proferindo um prolongado «o-o-o-o» (que interpreta como fort, «foi-se»), e logo o puxa de volta, saudando o seu reaparecimento com um jubiloso «da» («aqui está»). Fort — da. Foi-se — aqui está. Eis o pêndulo de Santos na sua cena originária: «Está e não está, / Não está / E volta a estar» (Santos, 2026). O tic é o fort; o tac é o da. A criança, incapaz de reter a presença da mãe, fá-la simbolicamente partir e regressar, e nessa repetição converte a passividade sofrida (ser abandonado) em actividade dominada (mandar embora e fazer voltar). O poema é o carretel do adulto: não retém o objecto amado nem o tempo perdido — fá-los partir e regressar no ritmo da palavra, «montado em palavras, que as leva o vento» (Santos, 2026).

Mas Freud vai mais longe, e o seu passo é decisivo para Santos. A repetição do fort-da revela uma tendência que está «além» do princípio do prazer: a compulsão à repetição (Wiederholungszwang), o impulso a reencenar o desprazer, a regressar ao trauma, a voltar sempre ao mesmo naufrágio. «Está em permanente naufrágio» (Santos, 2026): a fórmula de Santos é a definição clínica exacta da compulsão à repetição. Foi a este mecanismo que dediquei o ensaio Falo de Onde Não Estou (Veríssimo, 2026), leitura do poema Desencontro de Santos à luz da repetição freudiana: aí mostrei que o desencontro não é um falhanço acidental do encontro, mas a sua forma repetida e estrutural — que se desencontra sempre do mesmo modo, e que é nessa fidelidade ao desencontro que o sujeito se constitui. O poeta não sobrevive ao naufrágio apesar de o repetir: sobrevive porque o repete, porque faz do regresso ao abismo o seu próprio voo. «Naufragar é preciso… para sobreviver como poeta» (Santos, 2026): é a sublimação da compulsão em canto.

2. A área intermédia
- Winnicott e o espaço transicional

Nenhum conceito psicanalítico traduz tão exactamente a ontologia do espaço intermédio de Santos como o de espaço transicional, de Donald Winnicott. Em O Brincar e a Realidade (Winnicott, 1971), Winnicott descreve uma «terceira área» da experiência humana — nem puramente interna (subjectiva) nem puramente externa (objectiva) —, um «espaço potencial» que se abre entre o bebé e a mãe, entre o eu e o não-eu. É nesse espaço que surge o objecto transicional (a fralda, o ursinho) — o primeiro «não-eu» que é ainda meio-eu —, e é nele que se enraízam, para toda a vida, o brincar, a cultura, a religião e a arte. O espaço transicional é, literalmente, um intervalo: o lugar paradoxal onde a questão «isto fui eu que criei ou isto encontrei?» nunca deve ser colocada, porque a sua não-resolução é a própria condição da criatividade.

Ora é exactamente este o «não-lugar» do poeta de Santos. Quando Santos escreve que «o que procuram, afinal, já está neles», mas que partem mesmo assim «para ver se encontram o que anteviram» (Santos, 2026), descreve com precisão o paradoxo transicional: o objecto poético é, ao mesmo tempo, criado e encontrado, interno e externo, presença e ausência. O «chão movediço» é o solo transicional — nem firme realidade externa, nem pura fantasia interna, mas a área intermédia onde ambas se interpenetram. E a fórmula de Santos — «o lugar dos poetas é mais condição do que lugar» (Santos, 2026) — é a definição winnicottiana do espaço potencial: não um sítio, mas um modo de habitar o entre. A arte, dirá Winnicott, é o prolongamento adulto do brincar; e o poeta de Santos, que «viaja e constrói caminho al andar» (Santos, 2026), é o adulto que nunca deixou de brincar na terceira área — que fez do espaço transicional a sua morada permanente.

3. A coisa, o negativo e a mãe morta 
- Lacan, Bion, Green

Aprofundemos o que, no intervalo, faz falta — pois o desejo, que move o poeta, é desejo de uma falta. Lacan dá-lhe o nome de das Ding, a Coisa: o objecto absoluto e perdido em torno do qual o desejo gravita sem nunca o alcançar, e que a sublimação «eleva à dignidade da Coisa» (Lacan, 1986). O «infinito» que «nunca se alcança» (Santos, 2026) é a Coisa lacaniana: não um objecto que faltasse encontrar, mas a falta erigida em causa do desejo — o objet petit a, resto da operação que constitui o sujeito. E em Os Quatro Conceitos Fundamentais (Lacan, 1973), Lacan pensa a repetição como o encontro sempre falhado com o real — a tuché que se manifesta como desencontro (a sua palavra é, notavelmente, la rencontre manquée). O desencontro de Santos é a tuché lacaniana: o real só nos visita falhando o encontro, e o poema é a rede (automaton) de significantes que se tece em torno desse buraco.

Wilfred Bion oferece-nos o avesso luminoso desta falta. A sua noção de reverie — o estado de devaneio receptivo em que a mente materna acolhe e transforma o que ainda não tem forma — e a sua célebre injunção, trabalhar «sem memória nem desejo» (Bion, 1970), descrevem a disposição exacta de que nasce a poesia, segundo Santos: «na penumbra», «numa atmosfera de vazio espacial» (Santos, 2026). O poeta é a função-alfa que transforma o «il y a» — os elementos beta, brutos, do naufrágio — em sonho dizível. E Bion lembra que o pensamento nasce de uma ausência: é o seio ausente que, não sendo alucinado, força a criança a pensar. «Saudades do que não aconteceu» (Pessoa, apud Santos, 2026): o pensamento, como o poema, nasce no lugar de um objecto que falta.

Resta a sombra mais densa, que André Green soube nomear. Em O Trabalho do Negativo (Green, 1993) e no ensaio sobre «a mãe morta» Green descreve o corpo sem alma — a presença física de quem está psiquicamente ausente, a mãe presente, mas desinvestida, cuja ausência interior deixa no filho um vazio que nenhuma presença ulterior preenche. Como não estremecer ao ler Santos: «resta o corpo existencialmente inerte e mudo, porque a alma migrou para outro lugar. Corpo sem alma (e há muitos por aí)» (Santos, 2026)? O corpo sem alma de Santos é a mãe morta de Green: a forma extrema do espaço intermédio quando ele se congela — quando a alma parte e não regressa, quando o pêndulo pára. E aqui se mede toda a gravidade da advertência de Santos: «Um poeta parado é poeta morto» (Santos, 2026). Parar o pêndulo é a morte psíquica; manter o fort-da, o vai-e-vem, a oscilação, é manter viva a alma contra a tentação do congelamento. O trabalho do negativo, em Green, pode ser mortífero (a desligadura) ou criador (a simbolização); a poesia é a face criadora do negativo — o vazio que, em vez de matar, faz cantar.

ESTRATO CABALÍSTICO-ESTÉTICO 
O vazio, a centelha 
e a metaplasticidade
1. O tzimtzum e a penumbra 
- A contracção que abre o intervalo

Há uma tradição que pensou o intervalo não como psicologia nem como ontologia, mas como cosmogonia — e essa tradição é a Cabala luriânica, tal como Gershom Scholem a reconstituiu e Aryeh Kaplan a transmitiu. No princípio, ensina Isaac Lúria, o Ein Sof, o Infinito sem limite, ocupava tudo; para que houvesse mundo, teve de se retrair, de abrir em si um vazio — o tehiru — onde o finito pudesse vir a ser. A esta auto-retracção do divino chama-se tzimtzum: a criação começa não por uma efusão, mas por uma contracção — Deus faz lugar ao mundo ausentando-se. Ora não é isto, exactamente, o que Santos descobre quando escreve que a poesia «acontece sempre na penumbra e numa atmosfera de vazio espacial», que «não se faz poesia com o sol a bater-nos no rosto, quando há excesso de realidade» (Santos, 2026)? O excesso de realidade — o pleno meio-dia da presença — é o Ein Sof não contraído, que tudo ocupa e nada deixa ser. A penumbra é o tzimtzum: a retracção da luz que abre o vazio onde a palavra pode nascer. O poeta repete, em pequeno, o gesto cosmogónico: contrai a presença para abrir o intervalo. «Esbate-se o presente (…) e aviva-se o tempo» (Santos, 2026) — eis o tzimtzum da alma.

2. A metaplasticidade hematonómica
- A tela como corpo em travessia

Detenhamo-nos agora na tela (veja supra), pois é nela que o estrato se torna visível. Travessia divide-se em três grandes massas verticais, como um tríptico interior: à esquerda, a forma escura, texturada, quase telúrica, que evoca casca, húmus, matéria primal; ao centro, a grande figura dourada que se oferece e se dissolve em tons quentes; à direita, o negro denso que acolhe uma segunda presença, quase espectral, marcada por padrões circulares. A leitura crítica que tenho por justa cunhou para esta obra um conceito que faço meu: o de metaplasticidade hematonómica. Metaplasticidade, porque a forma não é fixa: é capaz de mudar de estado, de densidade, de identidade — exactamente como o poeta que «está e não está». Hematonómica, porque esse movimento obedece a uma lógica de fluxo vital, «como se a pintura tivesse sangue»: as linhas estruturais — finas, nervosas, riscadas com urgência — «não delimitam apenas; distribuem o cromatismo», funcionando «como veias condutoras», «esqueleto e, simultaneamente, sistema circulatório da pintura».

Lida cabalisticamente, a tela é uma cena de tzimtzum, shevirá e tiqqun. A massa telúrica da esquerda é o húmus primordial, a matéria por informar; o negro da direita, com os seus padrões circulares, é a qelippah — a casca, o invólucro que acolhe e aprisiona; e a figura central, dourada, que «se esvai deliberadamente», cujas curvas «são simultaneamente afirmadas e negadas pelas camadas que as atravessam», é a luz vertida nos vasos — luz que não se fixa, que circula, que «sangra de uma zona para outra». O esvaecimento da figura não é fraqueza: «é forma de relação» — «o eu que se oferece e, ao mesmo tempo, se entrega ao outro (ou ao nada)». Eis a shevirat ha-kelim, a quebra dos vasos, pintada: a forma que não pode conter a intensidade que a atravessa e que, por isso, se dissolve, espalhando as suas centelhas (nitzotzot) pela superfície. E o vermelho que «explode na parte superior como flor ou órgão» não está «no» corpo — «é o corpo a manifestar-se»: é a centelha que rompe a casca, o nitzotz que insiste em arder.

Há, na descrição da tela, uma intuição que toca o coração da Cabala e que merece nome próprio: a da decifração do infinitamente pequeno. «Cada centímetro quadrado deste quadro contém um universo de marcas minúsculas»; «o infinitamente pequeno não é detalhe decorativo — é o lugar onde a obra se decide»; «o macro só se compreende plenamente quando se desce ao nível celular da pintura». Esta é, verbatim, a doutrina luriânica das centelhas: a redenção do mundo (tiqqun olam) não se faz por grandes gestos, mas pela recolha paciente das centelhas dispersas no ínfimo — em cada faísca aprisionada num fragmento de casca. Escrevi-o noutro lugar, a propósito do bicho da terra na poesia de Santos: o que persiste no mundo decaído é «o Ein Sof presente na existência mais ínfima: o infinito alojado no finito, o todo contido no quase-nada» (Veríssimo, 2026a). A tela de Santos é a prova pictórica desta tese: é no risco mínimo, na hesitação do pincel, no instante em que «a cor sangrou para além do previsto», que a grandeza se decide. O infinitamente pequeno é o nitzotz; e a arqueologia visual que a tela exige é o tiqqun do olhar.

Reconheça-se, ainda, a ressonância hermética que a obra convoca, e que a perspectiva filogenética não deve calar. A tríade cromática da tela — o negro telúrico, o dourado que arde, o vermelho que explode — repete a sequência da opus alquímica: a nigredo (o negro, a putrefação fecunda), a citrinitas (o amarelo-ouro, o despertar da luz) e a rubedo (o vermelho, a pedra, o sangue do espírito). A metaplasticidade hematonómica é, em rigor, um solve et coagula: a forma dissolve-se (solve) para se recompor noutro estado (coagula). E o princípio que rege a passagem do macro ao micro — «o macro só se compreende ao nível celular» — é a Tábua de Esmeralda hermética: «quod est inferius est sicut quod est superius», o que está em baixo é como o que está em cima. Jung viu na alquimia o teatro projectado da individuação (Jung, 1944); a tela de Santos é esse teatro: um corpo que atravessa os estados da matéria como a alma atravessa os estados do ser, tic, tac, entre a dissolução e a coagulação.

3. O resto e a Shekhiná 
- A travessia como tiqqun

Mas a Cabala luriânica não termina na quebra. Ao tzimtzum e à shevirá segue-se o tiqqun: a reparação, o recolher das centelhas dispersas e o seu retorno à origem — tarefa infinita, e que é obra não de Deus apenas, mas do homem. Cada gesto justo, cada palavra verdadeira, cada centelha resgatada da casca contribui para a reparação do mundo. Ora é precisamente esta a função que Santos atribui à arte quando a chama «redenção» (Santos, 2026): o poema é um acto de tiqqun — recolhe, na palavra, a centelha do que se perdeu e devolve-a à circulação do sentido. E aqui o resto messiânico (estrato filosófico) e a centelha cabalística (estrato presente) revelam-se um só: tò leîmma e nitzotz são o mesmo — aquilo que, restando da quebra, mantém aberta a possibilidade da reparação. O poeta é o recolhedor de restos; e o seu pêndulo, esse ir e voltar que «nunca consegue parar» (Santos, 2026), é o movimento mesmo do tiqqun: descer à casca, resgatar a centelha, elevá-la, e descer de novo.

Há, por fim, uma figura que reúne todos os fios: a Shekhiná — a presença divina que, segundo a Cabala, se exilou com Israel e vagueia pelo mundo decaído, habitando o intervalo entre o céu ausente e a terra. A Shekhiná é, por excelência, a presença em ausência: Deus que está, estando ausente; que parte, ficando. Não é esta a definição mesma do poeta de Santos — «está e não está», «fica, partindo»? O poeta é uma figura da Shekhiná exilada: habita o «não-lugar», a «terra de ninguém» (Santos, 2026), porque é dele a missão de manter acesa, no exílio, a centelha da presença. E o «Amen» com que Santos faz o poeta fechar o seu canto (Santos, 2026) não é um ornamento devoto: é a palavra que, em hebraico (amén, da raiz aman, firmeza, fidelidade), sela a fidelidade ao que não se vê — a confiança no rasto do infinito que Chalier pensou. O poeta diz Amen ao tempo que resta: afirma, sorrindo, a travessia que não cessa.

REINVENÇÃO DO TEMA
A travessia imóvel

Estratificado o texto de Santos, podemos agora reenunciar o seu tema por inteiro — não para o contradizer, mas para o cumprir num registo que o argumento patente não podia alcançar. A tese reinventada é esta: o espaço intermédio não é uma privação a vencer, mas uma potência a habitar; e o que parece a maldição do poeta — não fixar lugar, não coincidir consigo, naufragar sem cessar — é, lido nos três estratos, a sua mais alta dignidade. Filosoficamente, o intervalo é o kairós messiânico, o tempo que resta, a différance que faz de toda a presença um efeito tardio e de todo o poema um rasto que chama. Psicanaliticamente, é o espaço transicional, a terceira área onde o real e a fantasia se interpenetram, e onde o fort-da converte a perda sofrida em canto dominado. Cabalisticamente, é o tzimtzum que abre o vazio criador, a shevirá que dispersa as centelhas, o tiqqun que as recolhe. Três nomes de um único lugar: o entre.

Chamo a esta reinvenção a travessia imóvel — oxímoro deliberado, fiel às fórmulas de Santos («mobilidade estática», «permanência dinâmica»). A travessia é imóvel não porque não haja movimento, mas porque o movimento não é deslocação no espaço: é transformação no tempo. O poeta atravessa sem sair do lugar porque o que atravessa não é uma distância, mas uma espessura — a espessura do tempo, da memória, do desejo, do exílio. Já em A Intriga Ética (Veríssimo, 2001) sustentava que a ética não é um sistema de regras sobreposto à acção, mas a própria intriga em que a acção se vê convocada por um outro que a precede e a julga. Transposta à poética, a tese diz: o poema não é um objecto que o poeta produza a partir de um lugar seguro, mas a intriga em que o sujeito se descobre refém de uma alteridade — do tempo perdido, do outro ausente, do infinito que chama. «O sujeito só é sujeito porque é refém do outro, responsável antes de qualquer escolha» (Veríssimo, 2026a): o poeta é refém da travessia e é nessa condição de refém, e não na posse, que se cumpre.

A reinvenção tem uma consequência ética que importa explicitar, sob pena de o intervalo se tornar puro esteticismo. Habitar o entre não é evadir-se do real: é a forma mais exigente de o enfrentar. O poeta que «pende sempre mais para o lugar onde não está» (Santos, 2026) não é um fugitivo — é uma sentinela. Pende para a ausência porque é ali que estão os que partiram, os que faltam, os que ainda não vieram; pende para o passado porque é ali que jazem as centelhas por recolher; pende para o futuro porque é ali que se inclina a esperança. A «paz inquieta» de que Santos fala (Santos, 2026) é o nome exacto desta condição: nem a falsa paz da presença plena (que é esquecimento), nem o puro desassossego do naufrágio (que é desespero), mas a vigília fiel de quem se mantém no limiar — inclinado, como diz Santos, e endireitado «só por momentos» pela poesia. A travessia imóvel é uma ética da fidelidade ao intervalo.

CARTOGRAFIA DAS CORRENTES LATENTES

Pela probidade do método, explicito as correntes que, não estando patentes no texto de Santos, foram por mim convocadas para o estratificar, e o lugar exacto da sua entrada. Do estrato filosófico, na raiz filogenética: Heráclito (a palíntropos harmoníe, o fluxo) e Platão (o metaxý, Eros-desejo do Banquete), fontes arcaicas do pensamento do intervalo. Em posição fontal: Giorgio Agamben (o tempo che resta, o ho nyn kairós, o tò leîmma, o hos me, a katargesis, a inoperosità), de quem se lê a archeologia do tempo messiânico como chave de todo o ensaio. Em registo pós-estrutural: Jacques Derrida (a différance, o rasto, a restance, a hauntologie), que desnaturaliza a presença; Emmanuel Levinas (o il y a, a hipóstase, o tempo como relação com outrem, o rasto do Infinito), que dá ao naufrágio a sua metafísica e ao desencontro a sua ética; e Catherine Chalier (a noite criadora, o rasto do infinito, a esperança), que afina a penumbra de Santos no diapasão da criação. Da linhagem moderna: Nietzsche (o eterno retorno como amor fati), Pessoa (a heteronímia como ontologia do resto, a «saudade do que não aconteceu»), Valéry (a consciência que se contempla no intervalo), com Florbela Espanca, Lorca, Novalis e Machado já patentes no texto.

Do estrato psicanalítico: Sigmund Freud (o fort-da, a compulsão à repetição, o luto), que dá ao pêndulo a sua cena originária; Donald Winnicott (o espaço transicional, a terceira área, o brincar), que oferece a tradução mais exacta da ontologia do espaço intermédio; Jacques Lacan (das Ding, o objet a, a tuché como encontro falhado), Wilfred Bion (a reverie, a função-alfa, o pensar a partir da ausência) e André Green (o trabalho do negativo, o corpo sem alma / a mãe morta), que sondam a falta de que o desejo se alimenta e o congelamento que o ameaça. Do estrato cabalístico-estético: Isaac Lúria e Aryeh Kaplan (tzimtzum, tehiru, shevirat ha-kelim, qelippot, nitzotzot, tiqqun, Shekhiná), com Gershom Scholem por intérprete, e Walter Benjamin (o Jetztzeit, o tempo-de-agora messiânico) como charneira entre o místico e o histórico; mais a tradição hermético-alquímica (a Tábua de Esmeralda, o solve et coagula, a tríade nigredo–citrinitas–rubedo), com Jung por leitor, convocada pela cromática da tela. Convoquei, enfim, dos meus próprios textos, A Intriga Ética (2001), A Saudade e o Bicho da Terra (2026a), O Passado que Ainda Não Aconteceu (2026c) e Falo de Onde Não Estou (2026), cujas formulações foram integradas ipsis litteris. Todas estas correntes convergem, não por ecletismo, mas porque o objecto — a ontologia do intervalo — as chama, cada uma do seu ângulo, à mesma pergunta sobre o entre.

SÍNTESE TRIVALENTE 
O acorde do intervalo

Reunamos as três notas no único acorde que o método FPK procura. No estrato filosófico, vimos que o intervalo de Santos é o kairós que resta (Agamben), o efeito de différance e o rasto que chama (Derrida), a relação com o outro e o vestígio do infinito (Levinas, Chalier), e que toda uma linhagem — de Heráclito a Valéry — pensou o entre como o lugar próprio do desejo e do canto. No estrato psicanalítico, vimos que esse intervalo tem uma cena originária (o fort-da freudiano), uma morada (o espaço transicional de Winnicott), um motor (a falta, das Ding, a reverie) e uma ameaça (o congelamento, o corpo sem alma de Green). No estrato cabalístico-estético vimos que o intervalo é cosmogonia (o tzimtzum da penumbra), pintura (a metaplasticidade hematonómica da Travessia, lida entre a qelippah e a centelha) e tarefa (o tiqqun, o recolher dos restos, o exílio fiel da Shekhiná).

As três notas dizem, cada uma no seu registo, a mesma verdade: que o poeta — e, com ele, todo o que cria — é um ser do entre e que essa condição não é defeito a corrigir. mas potência a habitar. Onde outro autor escolheria uma só nota — a melancolia da perda ou a euforia da presença —, este ensaio compõe o acorde: a perda e o canto, a ausência e o rasto, o naufrágio e o voo, a casca e a centelha. Soam juntas, e é nesse soar-em-conjunto, e só nele, que a travessia se mantém — como na tela, onde o corpo dourado não é absorvido pela massa escura nem se evapora no negro, mas permanece, vibrante, no limiar em que um se torna no outro. Palíntropos harmoníe: a harmonia de tensão inversa, a do arco e da lira. O poeta de Santos é essa corda tensa entre a presença e a ausência; e o seu tic, tac é o som — dissonante e por isso vivo — de uma corda que se recusa a parar, porque parar seria, como ele próprio o disse, morrer.

Resta dizer, em conclusão, por que importa esta travessia. Num tempo de excesso de presença — de plena luz, de saturação do espaço, de abolição do intervalo —, o poeta-pêndulo de Santos é uma resistência e uma promessa. Resistência, porque recusa o «sol a bater no rosto», o «excesso de realidade» (Santos, 2026), e reivindica a penumbra, o vazio fecundo, o direito ao entre. Promessa, porque guarda, no exílio do não-lugar, a centelha do que ainda pode advir — o tempo que resta, a palavra por dizer, o encontro depois do desencontro. «Nunca paramos», diz o segundo ensaio, ecoando o tic, tac de Santos. E é verdade: não paramos, porque parar é morrer; mas também porque, enquanto o pêndulo oscila, há ainda mundo por reparar, há centelhas por recolher, há um Amen por pronunciar à beira do mar. A travessia é imóvel, e por isso interminável. Tic, tac. Tic, tac.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes (citadas no texto 
de J. A. Santos)

Espanca, F. (1931). Charneca em flor. Lisboa: J. Rodrigues & C.ª.

García Lorca, F. (1998). Obras completas (Vols. 1–4). Barcelona: Galaxia Gutenberg. (Original work published 1936.)

Machado, A. (1912). Campos de Castilla. Madrid: Renacimiento.

Novalis. (1965). Schriften (P. Kluckhohn & R. Samuel, Eds.). Stuttgart: Kohlhammer. (Original work published c. 1798.)

Pessoa, F. (1982). Livro do desassossego, por Bernardo Soares (J. do Prado Coelho, Ed.). Lisboa: Ática.

Santos, J. A. (2026, Junho 16). Novos fragmentos (XXVIII) — Para um discurso sobre a poesia [Ensaio]. Lisboa: João de Almeida Santos. https://joaodealmeidasantos.com

Santos, J. A. (2022). Travessia [Pintura sobre papel de algodão, 93 × 118 cm]. Lisboa: colecção do autor.

Fontes latentes
(convocadas pelo ensaísta)

Agamben, G. (1990). La comunità che viene. Torino: Einaudi.

Agamben, G. (2000). Il tempo che resta: Un commento alla Lettera ai Romani. Torino: Bollati Boringhieri.

Benjamin, W. (1991). Über den Begriff der Geschichte. In Gesammelte Schriften (Vol. I.2). Frankfurt am Main: Suhrkamp. (Original escrito em 1940.)

Bion, W. R. (1970). Attention and interpretation. London: Tavistock.

Chalier, C. (1998). La nuit, le jour: Au diapason de la création. Paris: Seuil.

Chalier, C. (2002). La trace de l’infini: Emmanuel Levinas et la source hébraïque. Paris: Cerf.

Derrida, J. (1967a). La voix et le phénomène. Paris: Presses Universitaires de France.

Derrida, J. (1967b). De la grammatologie. Paris: Minuit.

Derrida, J. (1972). Marges de la philosophie. Paris: Minuit.

Derrida, J. (1993). Spectres de Marx. Paris: Galilée.

Freud, S. (1940). Jenseits des Lustprinzips. In Gesammelte Werke (Vol. 13). London: Imago. (Original publicado em 1920.)

Green, A. (1993). Le travail du négatif. Paris: Minuit.

Heráclito. (2005). Fragmentos (DK 22) (J. Barnes, Trans.). Lisboa: Imprensa Nacional. (Original c. 500 a. C.)

Jung, C. G. (1944). Psychologie und Alchemie. Zürich: Rascher.

Kaplan, A. (1990). Innerspace: Introduction to Kabbalah, meditation and prophecy. New York: Moznaim.

Lacan, J. (1973). Le séminaire, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse. Paris: Seuil.

Lacan, J. (1986). Le séminaire, livre VII: L’éthique de la psychanalyse. Paris: Seuil.

Levinas, E. (1947). De l’existence à l’existant. Paris: Vrin.

Levinas, E. (1948). Le temps et l’autre. Montpellier: Fata Morgana.

Levinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. La Haye: Martinus Nijhoff.

Nietzsche, F. (1999). Die fröhliche Wissenschaft. In Kritische Studienausgabe (Vol. 3). München: De Gruyter. (Original publicado em 1882.)

Platão. (2008). O Banquete (M. T. Schiappa de Azevedo, Trans.). Lisboa: Edições 70.

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Jerusalem: Schocken.

Valéry, P. (1922). Charmes. Paris: Gallimard.

Winnicott, D. W. (1971). Playing and reality. London: Tavistock.

Textos do autor integrados 
(ipsis litteris)

Veríssimo, A. M. (2001). A Intriga Ética. Guimarães: Editora Cidade Berço.

Veríssimo, A. M. (2026a). A Saudade e o Bicho da Terra. Adam Romez, Uriel da Costa e a Condição do Homem na Poesia de João de Almeida Santos. Ensaio de Crítica Estética — Matriz FPX. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026c). O Passado que Ainda Não Aconteceu. Ensaio de Crítica Estética — Matriz FPK. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026). Falo de Onde Não Estou. Uma leitura do «Desencontro» de João de Almeida Santos à luz da compulsão à repetição. Ensaio de Crítica Estética — Matriz FPK. Guimarães: edição do autor.

Nihil varietur

Edição erudita definitiva. Texto-fonte de João de Almeida Santos citado ipsis verbis; textos do autor fixados nihil varietur e integrados ipsis litteris. Ortografia portuguesa anterior ao Acordo de 1990. Estrangeirismos em itálico; termos hebraicos e gregos na sua grafia. Referências em APA7, com indicação da cidade de edição.

AMV@06-2026