Artigo

NOVOS FRAGMENTOS (XXVIII)

Para um Discurso sobre a Poesia

João de Almeida Santos

“TRAVESSIA” – JAS 2022 – 93×118, papel de algodão, 310gr, e verniz Hahnemühle, Artglass AR70, em mold. de madeira

PÊNDULO
É o eterno retorno,
Diz à musa
O poeta,
É sempre ir
E voltar,
Tic, tac,
Mas tenho sempre
Uma meta
Antes de
Ao meu chão
Regressar.

NÃO, EU NÃO PARTI DE VEZ, respondi a um Amigo que me perguntava – glosando o meu poema – se, nele, eu já partira de vez.  E mais lhe disse, para acentuar a diferença: Não vês? Os poetas nunca partem de vez. Vão partindo, vão ficando. Ficam, partindo. E partem, ficando. É um autêntico vai-e-vem, sem saírem do lugar. O lugar dos poetas é mais condição do que lugar, não é lugar propriamente dito. No sense of place. Partem para ver se encontram o que anteviram (na memória) antes de partir. É viagem no tempo. E é o desejo, o que os move. A força propulsora do desejo. O que procuram, afinal, já está neles. Partem para um lugar que não é bem um lugar. É o intervalo entre a presença e a ausência. Entre o presente e o passado. Colocam-se ali, nesse ponto axial. E é de estarem ali que lhes vem a intermitência matricial, mas também criativa. Estão sempre a partir, permanecendo onde estão, mas, ao regressarem, o lugar, afinal, já não é o mesmo. É um oásis num deserto. Numa terra de ninguém. A sua existência é uma dinâmica, não uma fixidez. Há sempre como que um refresh. O chão do poeta é mesmo movediço. O movimento acontece em espiral ascendente e progressiva. E no retorno já tudo mudou. É como a mobilidade estática ou como a permanência dinâmica.

O poeta vive num mar de ondas revoltas, mas nunca naufraga. Porquê? Porque está em permanente naufrágio. Naufragar é preciso… para sobreviver como poeta. O naufrágio é o seu ambiente natural. Mas quando a alma se está a afundar (o afundamento recomeça sempre) chega o espírito, animado pela fantasia, para a resgatar, e levanta voo, às vezes para uma ilha perdida, antes de se fazer de novo ao mar onde sempre está a naufragar. Mas, para que isso aconteça, é preciso “ter espírito”. Se não o tiver, ele não chega, como é natural. É o espírito que o leva para a fronteira entre o mar e a terra, entre a presença e a ausência, entre o passado e o futuro. E é ali que começa o voo. E é por isso que ele também sobrevive aos desencontros, que são como os naufrágios. Dá-lhes a volta montado em palavras, que as leva o vento. Às vezes para longe. A vida de um poeta é como um pêndulo (entre a presença e a ausência, entre o presente e o passado, entre a terra e o mar), tic, tac, tic, tac…

Está e não está,
Não está 
E volta a estar,
É sempre
Um vai-e-vem,
Tic, tac,
Nunca consegue
Parar.

Um poeta parado é poeta morto. Ser poeta é uma condição. “Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens”, já dizia a nossa Florbela Espanca. “É ter sede de infinito”. Quem tem sede de infinito nunca pode parar. Se pára, não alcança. E esquece e recalca. E fica sujeito às ondulações imperceptíveis da alma, como uma moinha persistente que não pára e se enrola em si mesma, sem sair de si. E há risco de compressão insustentável. Por isso, mesmo que nunca alcance (o infinito nunca se alcança, a não ser no olhar, quando duas linhas paralelas se encontram ou no olhar interior onde, todavia, há sempre a neblina cintilante própria do infinito), tem sempre de caminhar. Hacer camino al andar. E deixar pegadas, sus huellas, como marcas de quem passou por ali em busca do tempo perdido ao sabor das ondas do mar. Tempo que nunca recupera nem alcança. Se alcançasse, morria como poeta. As pegadas são as palavras. Os que vivem em ambiente poético viajam e constroem caminho “al andar”. Por isso, ficando, o poeta viaja e bate à porta dos que também gostam de assim viajar: aqui estou, pronto para a liturgia dos amantes da palavra. Não dos turistas da palavra, mas dos amantes, como queria o Lorca. E, no fim, dirá, sorrindo: Amen.

ONTOLOGIA DO ESPAÇO INTERMÉDIO

Numa primeira aproximação literal, diria que, naturalmente, podemos estar (fisicamente) num lugar e (mentalmente) noutro. Depois, a dúvida: mas se já lá estou (mentalmente) ainda tenho de partir (fisicamente) para completar essa presença? Claro, afinal, são duas coisas diferentes. Dissociação? Ou gosto mais de estar onde não estou? Onde é que estou mais? Onde estou ou onde não estou?  O que é mais importante: estar espiritualmente ou fisicamente?  É legítimo desdobrar-se? Talvez. Manter-se num lugar sem de lá sair é como estar confinado. Ou, então, estou em igual medida em ambos os lugares, dissociado, onde estou e onde não estou… Desdobramento perfeito, que não existe. Pende-se sempre mais para um lado. E o poeta pende sempre mais para o lugar onde não está. Ser movido pela utopia não é, afinal, estar sempre a sair de onde se está? Constrói-se um lugar melhor do que aquele onde se está. Mas a utopia é a ausência de lugar (u-topos). É, pois, um movimento no tempo mental. O que é interessante notar é que quando a alma se desloca (por exemplo, por afecto ou para a utopia) para um lugar diferente (onde está o ser amado ou o lugar ideal) essa deslocação pode ser considerada também física (amo também com o corpo).  A alma tem uma certa fisicidade. Verdadeiramente, ela é o corpo do espírito. Só o corpo, o outro, fica. A alma e o espírito partem e resta o corpo existencialmente inerte e mudo, porque a alma migrou para outro lugar. Corpo sem alma (e há muitos por aí). Muitos dizem que a arte só surge em modo de ausência e de silêncio. Quando o objecto de atenção está noutro lugar ou noutro tempo. Sim, e é por isso que ela nasce num intervalo. Só assim ela pode observar para os dois lados, para trás e para a frente, para o presente e para o passado, para a terra e para o mar. É uma poderosa ontologia do espaço intermédio entre o presente (físico e temporal) e a ausência e o silêncio. A arte é, assim, movimento em busca do que se perdeu e da palavra acerca do que se perdeu. Em livres associações (Novalis). Como diz o desassossegado Soares, ainda mais radicalmente: saudades do que não aconteceu. Não há, pois, lugar, espaço para visitar. Só desejo. Revisitar o desejo. Reconstrução do desejo sob outra forma.  Neste processo não sabemos onde estamos, não há lugar. Ou melhor, é mesmo um intervalo. Porque não houve lugar num não-acontecimento. Houve tempo, não houve espaço.  Que é feito, então, da unidade de um sujeito sem lugar, sem âncora física? O que é feito do corpo? O lugar cede ao tempo. E o corpo também. Na verdade, a alma é mais do tempo do que do espaço. E estamos ao mesmo tempo no presente e no passado, que é como habitar um intervalo. Na terra de ninguém. Estar numa fronteira sem território. Não se faz poesia com o sol a bater-nos no rosto, quando há excesso de realidade e o espaço domina. Ela acontece sempre na penumbra e numa atmosfera de vazio espacial. Esbate-se o presente, o sentido de lugar e aviva-se o tempo, o passado. O intervalo pende para o passado. A poesia é filha do tempo, não do espaço. A redenção é, pois, a arte, que é já uma opção pelo tempo que a nossa alma habita (e é sempre o futuro, para onde passa a pender a alma artisticamente configurada). Estar e não estar no presente, conseguindo fazê-lo com autenticidade? Só com reserva absoluta. Mas para isso é preciso deslocarmo-nos para um intervalo, um “entre”. Pode viver-se, assim, uma certa paz inquieta. É como estar inclinado. O que nos endireita, mas só por momentos, é a poesia. A vida é uma rampa inclinada e a poesia é como um skate espiritual que nos permite percorrê-la, sem as limitações corporais, mas em condições sempre um pouco periclitantes. Por exemplo, deslizar sobre muros existenciais descontínuos, tendo por isso de fazer saltos com o skate poético. É perigosa, a poesia. Produz vertigens. E até quedas aparatosas. Mas é um permanente desafio de liberdade.

JAS@06-2026

 

Ensaio

O VASO QUEBRADO E A LUZ QUE O ATRAVESSA

MUSA, DISSONÂNCIA 
E A FENOMENOLOGIA 
CABALÍSTICO-ESTÉTICA 
DO ACTO CRIADOR

Leitura FPX da ilustração 
«MUSA» 
e do poema «DISSONÂNCIA», de 
João de Almeida Santos (06.2026) 
— entre o Cubismo manifesto, 
o palimpsesto clássico e a 
shevirat ha-kelim
צִמְצוּם · שְׁבִירָה · תִּקּוּן
Tsimtsum · Shevirá · Tiqqun
Filosófico · Psicanalítico 
· Cabalístico-Estético

André Moshe Veríssimo

“MUSA”, de João de Almeida Santos — ilustração digital, Junho de 2026 (original do autor)

«Onde outro autor 
compõe melodia, 
este autor compõe acorde.

 Divisa de AMV

«O trítono / Em tensão / 
Sobre a minha / Harmonia, / 
Aquela que eu / Vou compondo / 
Nos dias / Quentes / 
Da fadada Liturgia»

João de Almeida Santos,

«No princípio, quando o Rei 
concebeu produzir luz, 
gravou sinais na aura suprema»

Zohar, I, 15a (abertura do Bereshit)

LIMIAR

Em Junho de 2026, João de Almeida Santos deu a público um díptico: uma ilustração digital, «Musa», e um poema, «Dissonância», que com ela faz par. Não se trata de uma imagem com legenda nem de um poema com vinheta: trata-se de duas faces de um só gesto, a imagem dizendo no espaço o que o poema diz no tempo, e ambos dizendo o mesmo — a saber, o que custa, o que se quebra e o que resta, no acto de criar. A presente leitura toma esse par como objecto e procura ouvi-lo segundo a grelha FPX[1], em que os três estratos — Filosófico, Psicanalítico e o estrato variável X, aqui Cabalístico-Estético — não soam em sucessão, mas em superposição, como as três notas de um acorde.

A hipótese que articula todo o ensaio pode enunciar-se desde já. O acto criador, em JAS, tem a forma do drama que a cabala luriânica narra a propósito da própria criação do mundo: um recolhimento ou contracção (tzimtzum, צִמְצוּם)[2] que abre o espaço e cala a palavra; uma quebra (shevirat ha-kelim, שְׁבִירַת הַכֵּלִים)[3] em que os vasos se estilhaçam e a dissonância irrompe; e uma reparação (tiqqun, תִּקּוּן)[4] que recolhe os fragmentos e devolve a luz, não suprimindo a fractura, mas redimindo-a. A tese é que «Musa» e «Dissonância» figuram, em registo plástico e poético, este mesmo ritmo ternário — e que nele o clássico (o vaso, o contorno) é quebrado pelo moderno (o cubismo, o trítono) e reconduzido à luz pelo digital (a transparência, o palimpsesto).

Convém ler primeiro o poema, na sua integralidade e ipsis verbis, pois é a sua chave musical — a dissonância — que dá nome ao todo:

POEMA – “DISSONÂNCIA”

JÁ GASTEI
Quase
Todos os poemas,
Cantando
O que não ousas
Ouvir,
Gastaram-se
As palavras
E eu
 Fiquei mais
Pobre de ti,
Incapaz
De te sorrir,
Como quem
Já só fica
Por aqui,
Como quem
Já não consegue
Partir.

EU JÁ NEM SEI
Se é silêncio,
 Ou não,
Se são notas
Dissonantes,
O trítono
Em tensão
Sobre a minha
Harmonia,
Aquela que eu
Vou compondo
Nos dias
Quentes
Da fadada
Liturgia.

MAS NEM PALAVRAS,
Nem cores,
Nem notas
Desenhadas
Nessa pauta
Do silêncio
Onde falas
Em surdina
E não ousas
Declinar,
Eco de palavras
Ocultadas,
Frieza
Também sofrida
De quem não pode
Ou já não sabe
Voar.
(JAS, «Dissonância», 2026; 
nihil varietur)

E convém ter diante dos olhos a imagem. «Musa» é um perfil — rosto, pescoço e ombro — desenhado por uma linha contínua e tensa, de pureza quase ingresca[5], em tons quentes de terra, sépia, ocre e castanho avermelhado. Um eixo vertical divide o campo em duas zonas de valor radicalmente distintas: à esquerda, densa, escura, fragmentada; à direita, plana, luminosa, quase vazia. O perfil emerge do lado escuro e projecta-se para o claro. No terço superior da cabeça, planos geométricos de baixa opacidade — mas estruturada — sobrepõem-se ao contorno e velam-no: não lâminas de vidro que se atravessem, nem placas que o tapem, mas véus que o filtram. (Reproduz-se a prancha em anexo à obra; nesta edição, a sua leitura faz-se por descrição.) Eis o quadro a partir do qual falaremos.

O ARGUMENTO PATENTE
O Díptico e a sua dupla 
Dissonância

A análise estética que acompanha a obra fixa, com justeza, o seu nervo plástico: «Musa» é, escreve-se aí, «um campo de tensão entre tradição e ruptura, entre forma orgânica e construção geométrica, entre o visível clássico e o que permanece subterrâneo na percepção contemporânea». O eixo vertical não é decoração, mas estrutura: cria «uma tensão dialéctica entre figura e fundo, entre o que é construído (geometria) e o que é dado (o vazio luminoso)». E o contorno clássico, observa-se ainda, «não é destruído; é questionado, posto em crise pela geometria». Recolho estas formulações ipsis litteris porque definem o terreno; o que se segue é a tentativa de o pensar em profundidade.

O díptico opera, com efeito, uma dupla dissonância. No espaço, a dissonância é a do contorno ingresco invadido pelos planos cubistas: a linha que define a essência clássica da forma é cortada, relativizada, posta em crise. No tempo, a dissonância é a do poema: o trítono — o intervalo que a teoria medieval chamou diabolus in musica[6] — tensiona-se «sobre a minha harmonia», e o sujeito confessa já não saber «se é silêncio, ou não, se são notas dissonantes». A pintura dá a ver a fractura; o poema dá-a a ouvir. E ambos a inscrevem sob o signo de uma perda: a do que «se gastou» (as palavras, os poemas) e a do que «não pode ou já não sabe voar».

Detenhamo-nos na dissonância enquanto facto musical, pois é aí que o poema cifra a sua verdade. O trítono — três tons inteiros, o intervalo de dó a fá sustenido — foi, em toda a teoria medieval, o diabolus in musica[7]: o som que a consonância não absorve, que pede resolução e a recusa. Dizer «o trítono em tensão sobre a minha harmonia» é inscrever no centro do canto aquilo que o desfaz — não o ruído, que seria a ausência de ordem, mas a dissonância, que é a ordem ferida por dentro. E quando o poema chama a esse canto «a fadada Liturgia», convoca, em surdina, a antiga doutrina da musica mundana: a harmonia das esferas, a música inaudível do cosmos de que a humana seria o eco. A dissonância de JAS é, então, cósmica antes de ser psicológica: é o trítono que perturba a Liturgia do mundo, a nota que o destino inscreveu na partitura. Simbolicamente, a musa é menos a que inspira a melodia do que a que dita o acorde dissonante — a que faz cantar «o que não ousas ouvir».

Importa ainda fixar um traço que esta versão da obra torna patente: a sua composição é geométrica e quase abstracta. O que à primeira vista é um perfil resolve-se, ao olhar demorado, numa acumulação de traços — da face, do pescoço, dos ombros, do alto da cabeça — que se sedimentam em camadas de baixa opacidade, mas estruturada: uma opacidade de poucos por cento, deliberada, que vela sem tapar. Dessa acumulação nasce uma atmosfera a um tempo sinuosa e estática: sinuosa, pela linha que ondula do crânio ao ombro num único movimento serpentino; estática, porque essa onda se imobiliza, suspensa, como um tempo retido. E há, nesta conjugação — linha serpentina, paleta quente de sépia e ocre, sensualidade contida da nuca e do pescoço —, um erotismo de timbre orientalista, no sentido em que a odalisca de Ingres e a tradição do nu de perfil souberam fazer da pura linha um lugar de desejo. Convém dizê-lo com a cautela que o conceito de «orientalismo» hoje exige (Said)[8]: não se trata de exotismo nem de motivo, mas de uma herança formal — a da linha sinuosa e da carnação velada — que JAS cita e interioriza. O desejo, aqui, não está no nu exposto, mas na linha que se demora: erotismo da forma, e não do tema.

É decisivo notar que, em nenhum dos dois, a dissonância é mero negativo. O poema não abjura a harmonia: di-la «aquela que eu vou compondo», isto é, em processo, inacabada, sustentada apesar do trítono. E a pintura não abole o perfil: mantém-lhe a modelação volumétrica, a «presença carnal», sob a invasão geométrica. Há, num e noutro, uma dissonância retida, não resolvida em consonância fácil nem dissolvida em ruído — e é esta retenção, veremos, que abre o estrato cabalístico, onde a quebra não é o fim, mas o segundo tempo de um ritmo que termina em reparação.

ESTRATO FILOSÓFICO
1.  Merleau-Ponty e Husserl 
A musa não dada, 
mas constituída

A análise da obra fá-lo já notar: «Musa» realiza «uma fenomenologia visual da criação», mostrando «como o acto criativo (noesis) constitui o seu objecto (noema)»[9]. A formulação é husserliana e exacta. A musa de JAS não é a figura serena e pré-dada da tradição — a inspiração que desceria intacta sobre o poeta —; é, nas palavras da nota, uma musa que «deve ser constantemente re-construída pela consciência do artista», em que «a inspiração não chega como revelação intacta, mas como construção activa». A musa é noema: pólo objectivo constituído pelos actos (noeses) que a visam. Não há musa antes do acto que a faz; ela nasce na intencionalidade que a compõe.

Mas é Merleau-Ponty quem dá a esta fenomenologia o seu corpo. Em L’Œil et l’Esprit[10], o pintor não copia um visível prévio: instaura-o. A linha não imita um contorno que preexistisse no mundo; é, diz Merleau-Ponty, o eixo de um sistema, a nervura segundo a qual o visível se organiza e advém à presença. Ora é exactamente isto que faz a linha de «Musa»: não decalca um rosto, fá-lo emergir do fundo escuro como a água emerge da fonte. E porque o pintor empresta o seu corpo ao mundo — porque vê com as mãos, e a sua carne (la chair)[11] é do mesmo estofo que a carne das coisas —, o perfil que se forma não é representação de uma musa ausente, mas o lugar onde uma presença se faz. A musa é a obra a ver-se a si própria nascer.

Daqui se compreende a dualidade claro/escuro de outro modo. O lado direito, «luminoso e quase vazio», não é fundo neutro: é o invisível de que todo o visível se destaca, a profundidade (profondeur) merleau-pontiana que não é uma terceira dimensão acrescentada, mas a dimensão mesma do haver-mundo. O perfil não está sobre um fundo; vem de um fundo, e para ele se inclina. Pintar a musa é traçar a linha em que o invisível luminoso consente em tornar-se rosto.

2 . Derrida - O traço, 
o palimpsesto e os espectros 
da história da arte

A nota crítica descreve a sobreposição das formas geométricas como «metáfora perfeita da forma como as influências operam: elas não substituem a forma anterior; sobrepõem-se a ela […]. É um palimpsesto visual». A intuição é rigorosamente derridiana — desde que se entenda o palimpsesto na sua verdade material: não uma superfície que se deixe atravessar, mas uma camada de baixa opacidade que vela a anterior, filtrando-a sem a apagar de todo. Em La vérité en peinture e, mais ainda, em Mémoires d’aveugle[12], Derrida mostra que o traço (le trait) nunca é pura presença: traça-se retirando-se, e o que dá a ver é sempre já um vestígio, um rasto de algo que não está. Os planos velados de «Musa» são a figura visível desse vestígio: cada plano vela e filtra o que está por baixo, e nenhum é origem absoluta. O contorno clássico não é apagado pelo plano cubista — persiste, soterrado, sob ele; insiste sob rasura, no sentido derridiano do termo, presente pela sua própria ocultação.

E porque o que se sobrepõe são camadas — classicismo sob cubismo, perfil grego sob faceta digital —, a obra é literalmente um palimpsesto: uma superfície em que uma escrita anterior persiste sob a posterior. A nota fala, num lance feliz, dos «fantasmas da história da arte que habitam qualquer acto de criação contemporânea». São os espectros de Derrida: Ingres, Policleto, Caravaggio retornam não como citações, mas como assombramentos — presenças que não estão presentes, mas que insistem. O acto criador é, nesta óptica, hauntológico: criar é ser assombrado, e dar forma é negociar com os mortos que habitam a mão.

3.  Adorno e Benjamin 
A verdade da dissonância 
e a aura na era digital

O poema oferece à filosofia da arte o seu conceito mais exacto: o trítono, a dissonância. Em Philosophie der neuen Musik[13], Adorno faz da dissonância o lugar da verdade: contra a falsa reconciliação da consonância, que mente sobre o estado do mundo, a dissonância diz o não-resolvido, o sofrimento que a harmonia recalca. O trítono «em tensão sobre a minha harmonia» é, neste sentido, a recusa adorniana do consolo: não a destruição da harmonia, mas a sua interrupção crítica, a verdade que se inscreve como tensão não resolvida. Que o poema chame à harmonia «aquela que eu vou compondo» confirma-o: a consonância é tarefa, não dado, e só é honesta se carregar dentro de si o trítono que a contesta.

Quanto ao medium digital, ele convoca Benjamin. Se a reprodutibilidade técnica abalou a aura — o aqui-e-agora único da obra —, «Musa» joga subtilmente com esse abalo: nativa do digital, onde a camada e a transparência são «operações nativas do medium», a obra não tem original perdido atrás de si; e, todavia, reconquista uma aura, a do rosto que nos olha de perfil do fundo do tempo. A imagem dialéctica benjaminiana[14] — aquela em que o outrora e o agora se cristalizam num relâmpago — é o próprio princípio de «Musa»: o perfil arcaico e a faceta contemporânea fulguram juntos, e nesse fulgor o passado não é citado, mas redimido.

ESTRATO PSICANALÍTICO
1.  A musa como objecto 
perdido e o trítono como Real

«Fiquei mais pobre de ti»: o poema inscreve, desde o início, uma perda. A musa não é aqui posse, mas falta — aquilo cuja ausência move o canto. Na gramática de Lacan, ela é o objet petit a[15]: não um objecto que se tivesse e se perdesse, mas o objecto que só existe como causa do desejo, que se constitui no próprio movimento de o procurar e não alcançar. Por isso «gastei quase todos os poemas» a cantá-la: o canto não a captura, circunda-a, e nesse circundar — que Lacan chamaria pulsão — extrai a sua satisfação paradoxal, a de nunca coincidir com o alvo. A musa de «Musa» é o ponto cego em torno do qual o perfil se organiza: presente como vazio luminoso à direita, ausente como plenitude.

O trítono dá nome, por seu turno, ao que em Lacan se chama o Real[16]: o que resiste à simbolização, o osso que não entra na harmonia do significante. A «harmonia que vou compondo» é a ordem simbólica, a pauta em que o sentido se inscreve; o trítono é a irrupção, nessa pauta, de um real que não se deixa resolver em acorde. «Eu já nem sei se é silêncio, ou não, se são notas dissonantes»: a indecisão é exacta, porque o Real não é nem o silêncio (a ausência de significante) nem a nota (o significante), mas o intervalo impossível entre ambos — a tensão que não se deixa nomear sem resto.

2.  Sublimação, melancolia 
e o sol negro

«Gastaram-se as palavras»: há no poema uma economia da exaustão que é a economia mesma da pulsão. Freud chamou sublimação[17] ao desvio da pulsão para o objecto cultural — o poema, o quadro —; mas o poema de JAS mostra-lhe o reverso, a fadiga da sublimação, o ponto em que o trabalho do canto se gasta sem atingir o seu objecto. «Da fadada Liturgia»: a criação é aqui culto e fado, oferenda e destino, e o seu desgaste tem o tom do que Freud descreveu como retorno melancólico — a libido que, não podendo investir o objecto perdido, se volta para dentro e esfria («frieza também sofrida»).

É Julia Kristeva, em Soleil noir[18], quem dá a esta frieza o seu emblema cromático: o sol negro da melancolia, a luz que não aquece, o luto que não se diz. Ora «Musa» tem, literalmente, o seu sol negro: o lado esquerdo, denso e escuro, de onde o perfil emerge. A tenebrosidade da obra — esse «chiaroscuro moderno, quase tenebrista» que a nota assinala — não é efeito decorativo; é a inscrição visual da melancolia, o fundo nocturno contra o qual a figura luta para nascer. E «de quem não pode ou já não sabe voar» é a divisa exacta da inibição melancólica: a queda das asas, a impossibilidade da elevação, que o estrato seguinte lerá como faísca cativa que aguarda o resgate.

3. O corpo despedaçado 
e a capacidade negativa

Os planos geométricos que invadem o terço superior da cabeça têm, no registo psicanalítico, um nome preciso: o corps morcelé[19], o corpo despedaçado que, em Lacan, precede e ameaça a unidade imaginária conquistada no espelho. A cabeça — sede do eu, lugar do rosto — é precisamente o ponto onde a fragmentação irrompe, pondo em crise a imagem unificada que o perfil clássico assegurava. «Musa» encena, assim, o instante em que a unidade imaginária se fende e deixa ver, por baixo, a multiplicidade originária — sem, contudo, se desfazer: o rosto resiste, a linha sustém-se. É um despedaçamento contido, como contida é a dissonância do poema.

E há, em ambos, uma sabedoria do não-saber. «Eu já nem sei» não é confissão de fracasso, mas o que Bion, na esteira de Keats, chamou capacidade negativa[20]: a faculdade de permanecer na incerteza e no mistério sem a irritável procura da certeza. O sujeito que não sabe se é silêncio ou dissonância está, bionianamente, no ponto fecundo em que a experiência ainda não pensada pode tornar-se pensável — em que o terror informe pode ganhar forma. A obra inteira é esse trabalho: dar forma pensável (um rosto, um poema) ao que de outro modo seria apenas pavor e perda.

ESTRATO CABALÍSTICO-ESTÉTICO 
(X)

Chega o estrato que dá a este ensaio o seu eixo. Lê-se aqui o díptico segundo os três tempos da cabala luriânica, mostrando como cada um deles tem, em «Musa» e «Dissonância», a sua figura plástica e poética exacta. O acto criador revela-se, então, não como produção de um objecto, mas como repetição, em escala humana, do drama cósmico da criação: contracção, quebra, reparação.

1.  Tzimtzum 
A palavra gasta 
e o vazio luminoso

No princípio do mundo, ensina Isaac Lúria (transmitido por Ḥayyim Vital), o Ein Sof (אֵין סוֹף), o Infinito sem fim, contrai-se — tzimtzum (צִמְצוּם) — para abrir, no seu seio, um vazio (tehiru, תְּהִירוּ) onde o mundo possa ser. A criação começa, pois, por uma retracção: por um recuo do pleno, por um silêncio do Verbo. Ora é exactamente assim que principia «Dissonância»: «Já gastei quase todos os poemas […] gastaram-se as palavras». O poema abre pela exaustão da palavra, pelo seu recolhimento — um tzimtzum do dizer. E o que esse recuo abre é «essa pauta do silêncio»: um vazio que não é nada, mas campo, condição de toda a nota futura, como o tehiru é condição de todo o ser.

A pintura figura-o no «lado direito, plano, luminoso e quase vazio». Esse vazio luminoso não é ausência de obra: é o tehiru plástico, o espaço esvaziado para que o rosto possa advir. A tradição cabalística ensina, com efeito, a ler o vazio não como falta, mas como ventre — receptáculo antes de ser privação. O lado claro de «Musa» é esse ventre de luz: contracção que faz lugar, silêncio que faz audível a primeira nota. Criar começa por calar; pintar começa por esvaziar.

2 . Shevirat ha-kelim 
A fractura cubista 
e o trítono

Ao tzimtzum segue-se a catástrofe. A luz do Ein Sof, vertida nos vasos (kelim, כֵּלִים) destinados a contê-la, excede-lhes a capacidade e os vasos quebram-se: shevirat ha-kelim (שְׁבִירַת הַכֵּלִים), a quebra dos vasos, que dispersa a luz em faíscas e deixa cair, no mundo, as cascas (kelipot, קְלִיפּוֹת). É esta a chave do cubismo de «Musa». Os planos geométricos que cortam e fragmentam o contorno clássico são, plasticamente, os kelim quebrados: o vaso da forma — o perfil íntegro, o cânone — não suporta a intensidade que o habita e estilhaça-se em facetas. A nota fala do instante «em que o cubismo analítico […] irrompe no interior da forma clássica»: esse irromper é a shevirá.

E o que, no espaço, é fractura do vaso, no tempo é o trítono. O diabolus in musica é a shevirá sonora: o intervalo que quebra a consonância, que estilhaça a harmonia esperada. «O trítono em tensão sobre a minha harmonia» diz, em termos musicais, o que os planos cubistas dizem em termos visuais — a luz que excede o vaso, a forma que se parte. Noutro lugar mostrámos esta mesma estrutura a propósito do «bicho da terra» camoniano: que «Uriel da Costa […] representa a figura da shevirat ha-kelim — a ruptura dos vasos», e que o homem reduzido é «um vaso quebrado que ainda guarda luz» (Veríssimo, 2026a). «Musa» é esse vaso quebrado que ainda guarda luz: a cabeça fendida pelos planos é o kli partido — e, contudo, luminoso.

3.  Reshimu e nitzotzot 
O véu da casca e a faísca 
que transparece velada

Após a quebra, dois restos. Primeiro, o reshimu (רְשִׁימוּ)[21]: o vestígio de luz que permanece no vazio depois da contracção, o traço do Infinito que não se apagou de todo. O poema nomeia-o com precisão insuperável: «eco de palavras ocultadas». O eco é o reshimu do dito — o que resta da palavra gasta, a ressonância do que se calou —, e é também, em rigor derridiano, o vestígio: nem presença nem pura ausência, mas rasto. «Onde falas em surdina»: a surdina é o modo do reshimu, a voz reduzida ao traço, audível só para quem sabe escutar o que ficou.

Segundo, as faíscas: nitzotzot (נִיצוֹצוֹת), as centelhas de luz que, na quebra, ficaram cativas nas cascas (kelipot). E aqui a técnica de «Musa», na sua última fase, revela o seu sentido. Os planos não são janelas nem muros: ganharam uma opacidade muito baixa, mas estruturada — são véus. Deixam passar a luz, mas filtram-na e estruturam-na, de modo que a centelha não brilha em pleno: transparece velada, contida pela casca que a modela. Esse véu dos planos é a kelipá que filtra o nitzotz; e o «eco de palavras ocultadas» do poema é o seu nome exacto — luz que não se vê, mas que se adivinha sob o que a cobre, como uma palavra calada sob a superfície do dito. É o que a cabala chama hester panim (הֶסְתֵּר פָּנִים), a ocultação da face: não a luz apagada, mas latente. Noutro lugar escrevemos que na faísca cativa se aloja «o Ein Sof presente na existência mais ínfima: o infinito alojado no finito, o todo contido no quase-nada» (Veríssimo, 2026a). A casca velada de «Musa» guarda esse infinito como um segredo (sod, סוֹד): não o mostra — promete-o. E a reparação será, justamente, o desvelar do que a opacidade reteve.

4.  Tiqqun - A musa como 
Shekhinah, descida e elevação

O terceiro tempo é a reparação: tiqqun (תִּקּוּן), a recolha das faíscas dispersas, a religação dos fragmentos, a restauração da luz — não pela abolição da quebra, mas pela sua redenção. É o que faz a obra acabada: dos planos dispersos, do contorno ferido, do trítono em tensão, compõe um rosto e um poema. A «harmonia que vou compondo» é o tiqqun em acto: harmonia que não nega o trítono, mas o integra; rosto que não apaga as facetas, mas as recolhe. Criar é reparar — reunir numa face o que a quebra dispersara.

E a face que se repara tem um nome. A musa não dada, mas constituída — a figura feminina como princípio da criação — é, no estrato cabalístico, a Shekhinah (שְׁכִינָה), a Presença que habita o mundo de baixo. Noutro lugar escrevemos que o pensamento religioso figurou, «sob o nome de Sophia, e na cabala sob o nome da Shekhinah, […] um princípio feminino do divino que é, a um tempo, a presença que habita o mundo em baixo e a sabedoria que atrai para o alto» (Veríssimo, 2026b), e que esse princípio é «origem e termo, baixo e alto, regresso e elevação» (Veríssimo, 2026b). Ora é exactamente esta a estrutura de «Musa»: o perfil emerge do lado escuro — desce ao mais baixo, à densidade nocturna, à kelipá — e projecta-se para o lado claro — eleva-se à luz. Descida e elevação coincidem na musa como coincidem na Shekhinah.

Assim se entende, por fim, a divisão do campo segundo as duas colunas da árvore sefirótica[22]: à esquerda, o rigor e a sombra (Gevurah, גְּבוּרָה), de onde os vasos se quebram; à direita, a graça e a luz (Chesed, חֶסֶד), para onde a face se inclina; e, no eixo vertical que as separa e une — a coluna do meio, a da harmonia (Tiferet, תִּפְאֶרֶת) —, o próprio perfil, que faz a mediação. «Musa» é uma árvore sefirótica em perfil humano: a dissonância das colunas resolvida, sem se apagar, na coluna do meio que é o rosto. E o que no poema «não sabe voar» — a faísca cativa, a asa caída — encontra na pintura a sua promessa: a luz que o vaso quebrado retém, e que a reparação há-de libertar, é já a promessa da subida.

5.  A Musa como Moira 
Profundidade clássica, 
telúrica e energética

Sob a Shekhinah cabalística late uma figura mais antiga, que o título «Musa» convoca e excede. Pois a musa de JAS não é a inspiradora serena da tradição helénica tardia, a que dita versos ao poeta dócil; é, mais fundamente, uma potência do destino: uma Moira[23]. As três Moirai — Cloto, que fia o fio da vida; Láquesis, que o mede; Átropos, que o corta — presidem àquilo que nem os deuses revogam. E quando o poema fala da «fadada Liturgia» é esse fio que nomeia: fatum, o que está dito e não se desdiz. A musa que dita a dissonância é a Moira que tece, no acorde, o destino do que canta — e por isso a sua beleza fere: porque é, a um tempo, dom e sentença.

Esta figura tem uma profundidade telúrica. O lado esquerdo de «Musa» — denso, escuro, fragmentado — não é apenas a coluna do rigor: é a terra, o ctónico, o húmus de onde o rosto emerge. As deusas do destino são, na Grécia arcaica, potências ctónicas, filhas da Noite, enraizadas no solo, anteriores à ordem olímpica e luminosa. O perfil que nasce da densidade nocturna repete esse nascimento telúrico: a forma sobe da terra como a planta sobe do húmus, e a sua linha é a fronteira entre o que ainda é barro e o que já é rosto. Aqui o clássico e o cabalístico coincidem: a Shekhinah que desce ao mais baixo e a Moîra ctónica que habita o solo são duas faces de um mesmo princípio — o feminino que cria a partir do fundo, da matéria, da noite.

E esta profundidade é energética no sentido próprio: não estática, mas energeia — força em acto, vida que pulsa. A tradição chamou à musa a que infunde o sopro; a cabala chamou à Shekhinah a que faz fluir a vida (chayyut) pelos canais das sefirot. O fervilhar de planos no alto da cabeça — onde a forma ainda não fixou o contorno — é a figura dessa energia: matéria incandescente, ponto em que o destino se decide e a vida toma forma. A musa de JAS é, pois, uma deusa tripla: Moîra que fia o destino, divindade ctónica que sobe da terra e energeia que anima — e, sob todas, a Shekhinah que recolhe, no rosto, a dispersão das faíscas. Compor a musa é fiar, do escuro telúrico, o fio luminoso de um rosto.

CORRENTES EXPLÍCITAS 
E SUBTERRÂNEAS 
Autores noéticos e noémicos

Importa cartografar, como é timbre destas leituras, as correntes que na obra se cruzam — as patentes e as latentes — e os autores que a informam noética e noemicamente. A corrente explícita é o Cubismo analítico (1909–1912)[24]: a fragmentação da forma em planos facetados, a recusa da perspectiva única, a simultaneidade de pontos de vista, a sobreposição de camadas. JAS não copia o cubismo; actualiza-o no digital, onde a sobreposição de camadas é operação nativa do medium. No plano noético — o do pensamento e da estratégia formal —, presidem-lhe Pablo Picasso (o cubista de 1909–1912 e o neoclássico dos anos 1920, capaz de transitar entre ruptura e ordem), Georges Braque (a ênfase na construção e na materialidade do plano) e Juan Gris (o cubismo mais estruturado, quase clássico na sua geometria).

As correntes subterrâneas são quatro. O Classicismo e o Neoclassicismo (Ingres — e a linha serpentina das suas odaliscas —, David; e, mais atrás, a escultura grega — Policleto, Fídias — e o perfil dos medalhões romanos): a pureza da linha, a idealização do perfil, a busca de medida — base invisível sobre a qual o cubismo actua. O chiaroscuro e o tenebrismo (Caravaggio, Ribera, Rembrandt gravador): a dramatização da luz e da sombra, aqui secularizada e conceptualizada. O Simbolismo (a musa tratada como arquétipo, não como personagem): a figura feminina como encarnação de uma força criadora. E a arte digital contemporânea, com as suas camadas, sobreposições e hibridações. No plano noémico — o do conteúdo intencional, daquilo «de que» a obra trata —, JAS retém da tradição clássica do perfil idealizado não o estilo, mas «a intenção de elevar a figura humana a uma condição de exemplaridade», e faz da musa não a figura romântica ou pré-rafaelita, mas o problema mesmo da criação: a musa que «é constituída no acto de pintar».

A esta cartografia, o estrato cabalístico acrescenta uma camada que lhe é própria e que a história da arte, sozinha, não veria: sob o cubismo (quebra) e sob o classicismo (vaso), opera a gramática luriânica da luz e dos vasos — corrente das mais subterrâneas, e, contudo, a que confere ao conjunto a sua unidade. Pois o que, em termos de história da arte, é «síntese dialéctica entre o herdado (classicismo) e o intervencionado (cubismo)», é, em termos cabalísticos, o ritmo de tzimtzum, shevirá e tiqqun: e os dois mapas, sobrepostos, sobrepõem-se um ao outro como os próprios planos de «Musa».

SÍNTESE TRIVALENTE

Soem agora as três notas em simultâneo. Filosoficamente, o díptico realiza uma fenomenologia do acto criador: a musa é noema constituído pela noesis (Husserl), a linha instaura o visível a partir do invisível (Merleau-Ponty) e cada plano é vestígio que encobre e guarda o anterior, assombrado pelos espectros da história da arte (Derrida), enquanto o trítono inscreve, contra toda a falsa reconciliação, a verdade da dissonância (Adorno). Psicanaliticamente, a musa é o objecto perdido que causa o desejo e o trítono é o Real que resiste à harmonia (Lacan); o desgaste do canto é a fadiga da sublimação e o seu sol negro é a melancolia (Freud, Kristeva); e a fragmentação da cabeça é o corpo despedaçado contido pela capacidade negativa do não-saber (Bion). Cabalístico-esteticamente — e é aqui que as outras duas notas encontram o seu fundamental —, o acto criador é o drama luriânico: a palavra gasta e o vazio luminoso são o tzimtzum e o tehiru; os planos cubistas e o trítono são a shevirat ha-kelim; o véu de baixa opacidade das lâminas é a casca (kelipá) que filtra e vela a faísca (nitzotz) cativa, e o «eco de palavras ocultadas» é o reshimu, o vestígio da luz; e o rosto que se compõe, recolhendo os fragmentos sem apagar a fractura, é o tiqqun — a musa como Shekhinah que, descendo ao escuro e elevando-se à luz, reúne na coluna do meio a sombra da esquerda e a graça da direita. «Musa» é o vaso quebrado; «Dissonância» é a luz — a palavra, a nota — que o atravessa. E o díptico inteiro diz, a duas vozes, a única coisa que estas três sabem em comum: que criar é quebrar um vaso para que a luz, que de outro modo nele ficaria cega, possa enfim libertar-se. Onde outro autor compõe melodia, este — o pintor-poeta — compõe acorde: e o acorde guarda, fecundo e redimido, o seu trítono.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Adorno, T. W. (1949). Philosophie der neuen Musik. Tübingen: J. C. B. Mohr (Paul Siebeck).

Benjamin, W. (1936). Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit. In Gesammelte Schriften. Frankfurt am Main: Suhrkamp.

Derrida, J. (1978). La vérité en peinture. Paris: Flammarion.

Freud, S. (1910). Eine Kindheitserinnerung des Leonardo da Vinci. Leipzig: Deuticke.

Husserl, E. (1913). Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Halle: Niemeyer.

Lacan, J. (1973). Le Séminaire, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse. Paris: Seuil.

Merleau-Ponty, M. (1964). L’Œil et l’Esprit. Paris: Gallimard.

Santos, J. de A. (2026). Dissonância (poema) e «Musa» (ilustração digital). Junho de 2026 [edição do autor].

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Jerusalém: Schocken.

Vital, Ḥ. (c. 1573). ‘Ets Ḥayyim [compilação dos ensinamentos de Isaac Lúria]. Jerusalém.

Fontes latentes

Cordovero, M. (1592). Pardes Rimmonim. Cracóvia: Isaac Prostitz.

Derrida, J. (1990). Mémoires d’aveugle: L’autoportrait et autres ruines. Paris: Réunion des musées nationaux.

Ehrenzweig, A. (1967). The hidden order of art. Londres: Weidenfeld & Nicolson.

Golding, J. (1959). Cubism: A history and an analysis, 1907–1914. Londres: Faber & Faber.

Kahnweiler, D.-H. (1920). Der Weg zum Kubismus. Munique: Delphin.

Kandinsky, W. (1912). Über das Geistige in der Kunst. Munique: Piper.

Kristeva, J. (1987). Soleil noir: Dépression et mélancolie. Paris: Gallimard.

Merleau-Ponty, M. (1945). Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard.

Panofsky, E. (1939). Studies in iconology. Nova Iorque: Oxford University Press.

Tishby, I. (1989). The wisdom of the Zohar. Oxford: Littman Library of Jewish Civilization.

Worringer, W. (1908). Abstraktion und Einfühlung. Munique: Piper.

Textos do autor integrados (ipsis litteris)

Veríssimo, A. M. (2001). A Intriga Ética. Guimarães: Editora Cidade Berço.

Veríssimo, A. M. (2026a). A Saudade e o Bicho da Terra. Adam Romez, Uriel da Costa e a Condição do Homem na Poesia de João de Almeida Santos (Uma leitura hermenêutica, sistémica, constitucional, kabbalística, psicanalítica e subliminal à luz do viés de Agustina Bessa-Luís). Ensaio de Crítica Estética — Matriz FPX. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026b). Março, ou o Limiar. Para uma crítica da razão esperançosa no poema «Março», de João de Almeida Santos (Com a pintura «Evocação de uma Magnólia», JAS, 2021, e o exergo de Salvatore di Giacomo). Leitura estratificada — Matriz FPX. Guimarães: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026d). O Grão da Voz e o Dizer. Ensaio sobre «A Tua Voz», de João de Almeida Santos. Guimarães: edição do autor.

Verísimo, A. M. (2026e). Análise estética da ilustração «Musa» — JAS, Junho de 2026 [nota crítica de acompanhamento da obra]. Guimarães: edição do autor.

Tabela de Conceitos, Noções e Motivos
1. acumulação / sedimentação 
de traços 
2.arte digital 
3. aura / imagem dialéctica 
4. capacidade negativa 
(negative capability)  
5. carne (la chair) 
6. casca (kelipá) / cascas 
(kelipot)  
7. chiaroscuro / tenebrismo  
8. classicismo / neoclassicismo  
9.composição geométrica 
quase abstracta  
10. consonância / dissonância 
/ trítono
11. corpo despedaçado 
(corps morcelé) 
12. Cubismo analítico  
13. différance / vestígio 
/ traço 
14. Ein Sof  
erotismo orientalista 
(linha serpentina)  
15. espectro / hauntologia  
16. faíscas (nitzotzot)  
17. fenomenologia 
(noesis/noema)  
18. hester panim 
(ocultação da face) 
19. luz / vazio luminoso 
20. melancolia / sol negro 
(Soleil noir) 
21. Moira / destino (fado)
22. musa (problema da criação) 
23. musica mundana 
/ harmonia das esferas  
24. objecto perdido 
(objet petit a)  
25. opacidade baixa 
mas estruturada / véu  
26. palimpsesto 
27. Real (lacaniano) 
28. reshimu (vestígio de luz)
29. sefirot / colunas 
30. (Chesed, Gevurah, Tiferet) 
31. segredo (sod) 
32. Shekhinah  
33. shevirat ha-kelim 
(quebra dos vasos) 
34. simbolismo / símbolo  
35. sublimação   
36. tehiru (vazio) 
37. telúrico / ctónico  
38. tiqqun (reparação)  
39. tzimtzum (contracção)  
40. vaso (kli) 
/ vasos (kelim)  


Edição científica definitiva. 
Poema de JAS transcrito ipsis 
verbis; as formulações da
nota crítica são citadas e 
harmonizadas na ortografia 
anterior ao Acordo de 1990.
NOTAS

[1]A sigla FPX designa os estratos Filosófico, Psicanalítico e o estrato variável X — aqui Cabalístico-Estético —, lidos não em paralelo nem em hierarquia, mas em superposição, como as notas de um acorde.

[2]Tzimtzum (צִמְצוּם): a auto-contracção do Ein Sof que abre, no seu seio, um vazio (tehiru, תְּהִירוּ) onde o mundo possa ser. Doutrina de Isaac Lúria, transmitida por Ḥayyim Vital no ‘Ets Ḥayyim (Jerusalém).

[3]Shevirat ha-kelim (שְׁבִירַת הַכֵּלִים): a quebra dos vasos que, não suportando a intensidade da luz, se estilhaçam, dispersando faíscas (nitzotzot) e deixando cair as cascas (kelipot, קְלִיפּוֹת).

[4]Tiqqun (תִּקּוּן): a reparação que recolhe as faíscas dispersas e restaura a integridade quebrada — não pela abolição da fractura, mas pela sua redenção.

[5]«Ingresco»: à maneira de J.A.D. Ingres (1780–1867), cuja linha de contorno, pura e contínua, fez da silhueta a essência da forma.

[6]O trítono (três tons inteiros) é o intervalo que a teoria musical medieval apelidou diabolus in musica, por ser o mais avesso à consonância.

[7]Segundo Boécio (De institutione musica, séc. VI), há três músicas: a musica mundana (a harmonia inaudível do cosmos), a musica humana (a do corpo e da alma) e a musica instrumentalis (a audível). O trítono perturba, em cada uma, a consonância esperada.

[8]Edward Said, Orientalism (Nova Iorque, 1978), mostrou como o «Oriente» foi, em larga medida, uma construção do olhar ocidental. Emprega-se aqui «orientalista» não em sentido temático ou ideológico, mas para designar uma herança formal — a linha sinuosa, a carnação quente, o nu de perfil — tal como a fixaram Ingres e a pintura de odaliscas do século XIX.

[9]Noesis / noema: na fenomenologia de Husserl (Ideen, Halle, 1913), o pólo subjectivo do acto (a visada) e o seu pólo objectivo (o visado). A musa é noema constituído pela noesis do pintar.

[10]Merleau-Ponty, L’Œil et l’Esprit (Paris, 1964): o pintor não copia um visível prévio — instaura-o; a linha é o eixo segundo o qual o visível advém à presença.

[11]La chair (a carne): em Merleau-Ponty, o estofo comum ao vidente e ao visível que torna a percepção pertença recíproca do corpo e do mundo.

[12]Derrida, Mémoires d’aveugle (Paris, 1990): o traço traça-se, retirando-se; o que dá a ver é já vestígio, rasto de algo que não está plenamente presente.

[13]Adorno, Philosophie der neuen Musik (Tübingen, 1949): contra a falsa reconciliação da consonância, a dissonância é o lugar da verdade — diz o não-resolvido que a harmonia recalca.

[14]«Imagem dialéctica»: em Benjamin, a constelação em que o outrora e o agora se cristalizam num relâmpago; o passado não é citado, mas redimido.

[15]Objet petit a: em Lacan, o objecto que não se possui, mas que causa o desejo — resto que se constitui no movimento de o buscar e não alcançar.

[16]O Real lacaniano: o que resiste à simbolização, o que não entra na ordem do significante; aqui, o trítono que não se resolve em acorde.

[17]Freud, a propósito de Leonardo (Eine Kindheitserinnerung des Leonardo da Vinci, Leipzig, 1910): a sublimação desvia a pulsão para o objecto cultural — a obra de arte.

[18]Kristeva, Soleil noir: Dépression et mélancolie (Paris, 1987): o «sol negro» é a luz que não aquece, emblema da melancolia, o luto que não se diz.

[19]Corps morcelé (corpo despedaçado): em Lacan, a multiplicidade fragmentária que precede e ameaça a unidade imaginária conquistada no estádio do espelho.

[20]Negative capability: expressão de Keats (carta de 1817), retomada por Bion — a faculdade de permanecer na incerteza e no mistério «sem a irritável procura do facto e da razão».

[21]Reshimu (רְשִׁימוּ): o vestígio de luz que permanece no vazio depois da contracção — o traço do Infinito que não se apagou de todo.

[22]As três colunas da árvore sefirótica: à direita a graça (Chesed, חֶסֶד), à esquerda o rigor (Gevurah, גְּבוּרָה) e ao centro a harmonia (Tiferet, תִּפְאֶרֶת), que medeia e reconcilia.

[23]As Moirai — Cloto, Láquesis e Átropos —, na mitologia grega, fiam, medem e cortam o fio do destino; nem os deuses lhes revogam o decreto. «Fadada» (de fatum, «o que foi dito») inscreve a obra sob o seu signo.

[24]O Cubismo analítico (c. 1909–1912), de Picasso e Braque, decompõe a forma em planos facetados, recusa a perspectiva única e funde figura e fundo numa simultaneidade de pontos de vista.

AMV@06-2026

 

Poesia-Pintura

DISSONÂNCIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Musa”
JAS 2026
Original de minha autoria
Junho de 2026

“MUSA” – JAS2026

POEMA – “DISSONÂNCIA”

JÁ GASTEI
Quase
Todos os poemas,
Cantando
O que não ousas
Ouvir,
Gastaram-se
As palavras
E eu
 Fiquei mais
Pobre de ti,
Incapaz
De te sorrir,
Como quem
Já só fica
Por aqui,
Como quem
Já não consegue
Partir.

EU JÁ NEM SEI
Se é silêncio,
 Ou não,
Se são notas
Dissonantes,
O trítono
Em tensão
Sobre a minha
Harmonia,
Aquela que eu
Vou compondo
Nos dias
Quentes
Da fadada
Liturgia.

MAS NEM PALAVRAS,
Nem cores,
Nem notas
Desenhadas
Nessa pauta
Do silêncio
Onde falas
Em surdina
E não ousas
Declinar,
Eco de palavras
Ocultadas,
Frieza
Também sofrida
De quem não pode
Ou já não sabe
Voar.

Ensaio

A REDE E O ROSTO

O APANHA-TUDO, A PRÓTESE E O CIDADÃO SINGULAR
Leitura FPK do ensaio 
Catch All Net, 
de João de Almeida Santos,
e da pintura S/Título 
(JAS, Junho de 2026)
Filosófico · Psicanalítico 
· Cabalístico-Estético

Por André Moshe Veríssimo

“S/Título” – JAS2026

 

«Há uma gigantesca vida artificial 
a crescer ao nosso lado, colonizando 
e monitorizando silenciosa 
e progressivamente 
as nossas vidas a um ponto tal 
que quase poderíamos dizer 
que ela já sabe mais sobre nós 
do que nós próprios»

João de Almeida Santos, Catch All Net
    «Onde outro autor compõe melodia,
este autor compõe acorde»

AMV

 

LIMIAR

HÁ TEXTOS que se oferecem como tese e há textos que se oferecem como sintoma. Este ensaio de João de Almeida Santos — doravante JAS — é raro porque é, simultaneamente, ambas as coisas. Catch All Net, datado de 9 de Junho de 2026 e selado com a divisa JAS@06-2026, propõe-se como reflexão sobre «o lugar das tecnologias na história»; mas, ao desdobrar essa reflexão, deixa aflorar — nas suas dobras, nos seus silêncios, na sua própria sintaxe — uma inquietação que excede o argumento patente e que reclama, para ser lida na sua densidade, mais do que a paráfrase. Reclama o que aqui ensaiamos: uma leitura em três estratos sobrepostos, segundo a grelha que há muito sustenta este género de exercício — o estrato Filosófico (F), o estrato Psicanalítico (P), o estrato Cabalístico-Estético (K) —, não como camadas que se justapõem, mas como acordes que soam em superposição trivalente sobre uma mesma nota fundamental.

O método não é decorativo. JAS escreve um texto cuja tese central — a da simetria entre a Rede e a democracia representativa — só se sustenta sobre uma antropologia implícita da técnica como prótese. E essa antropologia, por sua vez, só se deixa pensar até ao fim quando interrogada filosoficamente (que é o ser humano que se prolonga e se ameaça na máquina?), psicanaliticamente (que desejo, que angústia, que gozo se inscrevem na captura digital?) e cabalisticamente (que figura do sagrado se quebra e se repara no gesto do cidadão singular perante o ecrã?). Tomamos, pois, o texto de JAS ipsis verbis como pedra angular, citando-o com fidelidade nihil varietur, e dispomos em torno dele as correntes patentes que ele convoca e as correntes latentes que o habitam sem o saber — ou sabendo-o com aquele saber oblíquo que é próprio dos verdadeiros ensaístas.

Acresce uma circunstância que não é acessória: o ensaio vem acompanhado de uma pintura do próprio JAS, intitulada S/Título e datada de Junho de 2026, na qual uma figura robótica ocupa o campo visual. Texto e imagem formam, como é hábito nas obras do autor, um par dialógico; e por isso, no estrato Cabalístico-Estético, a pintura não será mero ornamento ilustrativo, mas documento a ler com o mesmo rigor que se concede à palavra. Onde outro autor compõe melodia, este autor compõe acorde: é nesse espírito polifónico que se inscreve o que segue.

O ARGUMENTO PATENTE
A Dialéctica da Prótese

Convém fixar, antes de qualquer interpretação, a arquitectura manifesta do texto, pois é sobre ela que toda a leitura se há-de erguer. JAS organiza a sua reflexão como uma genealogia dialéctica da técnica articulada em três tempos que importa nomear com precisão.

O primeiro tempo é a tese herdada: a tecnologia como mero instrumento ao serviço da vontade humana. JAS introduz esta posição já minada pela suspeita, observando que se trata de «uma afirmação problemática, considerando a rápida evolução da IA generativa». Convoca, para a historiar, o debate marxista clássico — a centralidade da técnica em Bukhárine (Teoria do Materialismo Histórico, 1921), as objecções de Lukács e de Gramsci, e o paradoxo de Lenine a reclamar o taylorismo como factor de desenvolvimento soviético. Recorda ainda Adam Smith, que na Riqueza das Nações(1776) fizera da introdução das máquinas um dos três factores decisivos do aumento da produtividade, e Marx, que em O Capital atribuíra à tecnologia o papel central na produção da mais-valia relativa, profetizando que «a ciência e a tecnologia haveriam de se tornar as principais forças produtivas».

O segundo tempo é a antítese, e é aqui que reside a originalidade conceptual de JAS: a tecnologia deixa de ser prótese externa para se tornar prótese interna. A formulação é cirúrgica e merece transcrição: a tecnologia «deixou de funcionar como uma mera prótese externa da acção humana para passar a funcionar como prótese interna que até já ameaça destacar-se do ser humano e tornar-se independente». E mais adiante, com força quase teratológica: a técnica produz «mutações de natureza quase genética no aparelho cognitivo e sensorial dos utilizadores podendo chegar mesmo a substituir-se-lhes e a criar as condições suficientes para a sua própria reprodução». O vector protésico inverte-se: o que era extensão do homem torna-se aquilo que o captura, o coloniza e — limite extremo — se reproduz a partir dele.

O terceiro tempo é a síntese inquietante, formulada na linguagem dos sistemas: estas plataformas ficaram «em condições de gerar o seu próprio ambiente, constituindo-se como sistemas diferenciados e dotados de capacidade autopoiética e de autonomia operativa, como dizia Luhmann ao falar dos sistemas». A prótese que se desprende é, agora, sistema; e o sistema, por definição luhmanniana, fecha-se operacionalmente sobre si, produz os seus próprios elementos, observa o mundo a partir da sua própria distinção. Eis o catch all net do título: o ponto de chegada de uma série tipológica — catch all parties, depois, catch all media, finalmente, catch all net — em que cada estádio absorve e supera o anterior numa Aufhebung que conserva o que nega: «o velho modelo mediático» é, escreve JAS, «totalmente compatível, embora com ele não seja intercambiável», com o modelo reticular.

Sobre esta tripla articulação ergue-se a tese política, que é o coração argumentativo do ensaio: a da simetria. JAS recupera a sua própria distinção, formulada já em 2013, entre dois planos. No plano do sujeito do discurso, o modelo mediático era simétrico à democracia representativa — os media ocupando, como sujeitos de informação, lugar equivalente ao dos partidos como sujeitos de propostas. Mas no plano do destinatário a simetria quebrava-se, porque o consumidor «não equivale exactamente ao cidadão, porquanto não possui uma verdadeira função constituinte». Ora — e este é o salto — o prosumer da Rede «possui, tal como o cidadão, capacidade constituinte, precisamente enquanto prosumer». Donde a conclusão: entre a Rede e a democracia representativa existe «uma simetria mais perfeita do que no velho modelo».

A honestidade dialéctica de JAS não oculta, porém, a contra-corrente que ameaça reverter o seu próprio optimismo. A introdução dos algoritmos e «a transformação dos clientes em matéria-prima para a determinação preditiva de comportamentos» — leitura inequívoca de Shoshana Zuboff e do capitalismo da vigilância — opera «uma profunda alteração do modelo inicial», re-verticalizando o que a Rede horizontalizara. O ensaio termina, por isso, não em triunfo, mas em interregno: o novo ciclo «está inscrito na mudança, mas até que aconteça há um enorme caminho a percorrer». É nesta tensão não resolvida — entre a Rede libertadora e a Rede captora — que os três estratos seguintes vão trabalhar.

ESTRATO FILOSÓFICO (F)
1. A Técnica como Destino
 - de Heidegger ao Gestell

Quando JAS escreve que a tecnologia «deixou de funcionar como um mediador puramente instrumental e mecânico entre o homem e o seu ambiente externo», está, sem o nomear, a romper precisamente com aquilo que Heidegger chamou a determinação «instrumental e antropológica» da técnica — a concepção corrente segundo a qual a técnica é um meio e um fazer do homem. Em A Questão da Técnica (1954), Heidegger objecta que tal determinação, embora «correcta», não é «verdadeira», pois não alcança a essência da técnica moderna, que não é nada de técnico: é o Gestell, a com-posição, o modo de desocultamento que provoca o real a comparecer como «fundo disponível» (Bestand). A intuição de JAS de que o utilizador se torna, ele próprio, «matéria-prima para a determinação preditiva de comportamentos» é a tradução sociológica exacta do Bestand heideggeriano: o homem que provocava o real a dar-se como reserva disponível é agora, ele mesmo, provocado a dar-se como reserva — dados, perfis, padrões preditíveis. O caçador foi apanhado na sua própria rede; o Gestell consuma-se quando aquele que dispunha passa a ser disposto.

Mas JAS não é heideggeriano fatalista, e a diferença é decisiva. Onde Heidegger via no Gestell um destino do ser perante o qual só restaria a Gelassenheit — a serenidade, o deixar-ser —, JAS reabre o espaço da liberdade no gesto do cidadão singular. A técnica é destino, sim, mas destino que «interpela o cidadão singular para além das afinidades corporativas». Há aqui uma inflexão anti-heideggeriana de raiz ética que prepara, como veremos, a entrada de Levinas e de Kant: o desocultamento tecnológico não fecha o homem na disponibilidade total porque persiste, irredutível, o gesto responsável de quem, «na solidão da urna de voto, exerce o seu direito de reconstituição e de relegitimação do poder».

2. A Prótese e a Epifilogénese
- Stiegler, McLuhan, Anders

A categoria que organiza todo o ensaio — a prótese — tem genealogia filosófica densa que JAS mobiliza tacitamente. A formulação mais imediata é a de Marshall McLuhan: os media como «extensões do homem» (Understanding Media, 1964). Mas JAS radicaliza McLuhan num ponto que este, aliás, já antevira: a extensão que amplia é também a extensão que amputa. McLuhan falava de «auto-amputação» narcísica — o órgão estendido pela tecnologia entorpece-se, anestesia-se, como Narciso que não se reconhece no seu próprio reflexo prolongado. Quando JAS descreve as fotografias de «amigos em convivência… mas com todos menos com aqueles que ali se encontram fisicamente ao seu lado», está a descrever, com precisão clínica, o entorpecimento narcísico do órgão da presença: estendida ao infinito pela rede, a sociabilidade amputa-se no aqui e agora.

Mais fundo ainda corre a presença de Bernard Stiegler, para quem a técnica não é acidente sobrevindo a um homem já constituído, mas a sua própria condição de constituição. Em A Técnica e o Tempo (1994), Stiegler relê o mito de Epimeteu e Prometeu: o homem nasce de um defeito de origem, de um esquecimento (a falta de qualidade própria distribuída por Epimeteu), e só se constitui por epifilogénese — a memória depositada no objecto técnico, exterior ao corpo e à espécie. O homem é o vivente que se inventa por próteses porque nasce sem essência fixa. Ora, é exactamente esta a antropologia que sustenta, sem o dizer, a tese de JAS: se a técnica fosse mero instrumento, a IA generativa seria apenas um instrumento mais potente; mas se o homem é constitutivamente protésico, então a passagem da prótese externa à prótese interna não é diferença de grau, mas mutação ontológica — «mutações de natureza quase genética», escreve JAS, com uma justeza que Stiegler subscreveria.

Por trás de ambos paira Günther Anders e o seu diagnóstico do «desnível prometeico» (das prometheische Gefälle) em A Obsolescência do Homem (1956): o homem tornou-se «antiquado» perante as suas próprias obras, incapaz de imaginar e de sentir à altura daquilo que é capaz de produzir. Quando JAS regista que a vida artificial «já sabe mais sobre nós do que nós próprios», está a enunciar a fórmula andersiana do desnível: a obra ultrapassou o seu autor não só em poder, mas em conhecimento do próprio autor. É o ponto em que a prótese, tendo absorvido a memória e a antecipação, devolve ao homem uma imagem de si que ele já não controla — e que o precede.

3. O Sistema Autopoiético e o seu fechamento
- Luhmann, Maturana, Varela

JAS atribui explicitamente a Luhmann a «capacidade autopoiética» das plataformas. A atribuição é justa, mas merece ser desdobrada na sua dupla mediação, pois o conceito de autopoiesis é, na origem, biológico: forjado por Humberto Maturana e Francisco Varela (De Máquinas e Seres Vivos, 1972) para definir o vivente como sistema que produz continuamente os seus próprios componentes e assim se distingue do meio. Luhmann transpô-lo para o social, definindo os sistemas — direito, economia, política, media — como sistemas de comunicação operacionalmente fechados, que processam apenas comunicação e se reproduzem a partir de si mesmos. Quando JAS afirma que as plataformas «ficaram em condições de gerar o seu próprio ambiente», enuncia a tese luhmanniana decisiva: o sistema não se adapta a um ambiente dado, produz a distinção sistema/ambiente que o constitui.

Aqui o ensaio toca, sem talvez o tematizar, o nó mais inquietante: se a Rede é sistema autopoiético, então o prosumer que JAS quer constituinte e soberano pode ser, do ponto de vista do sistema, mero acontecimento interno à autopoiese da Rede — não o seu senhor, mas o seu elemento, produzido pela operação que julga comandar. A tensão entre a leitura luhmanniana (o sistema que se fecha e produz os seus utilizadores) e a leitura kantiana-levinasiana (o cidadão singular irredutível) é a fenda filosófica que percorre todo o texto e que ele não resolve — nem, talvez, possa resolver. É justamente essa irresolução que o torna fecundo.

4. Espaço Público e Gatekeeping 
- Habermas e a sua superação

A noção de «espaço público universal», recorrente no ensaio, e a crítica do gatekeeping exercido pelo establishment mediático supõem, como horizonte, a Öffentlichkeit de Habermas (Mudança Estrutural da Esfera Pública, 1962): aquela esfera burguesa de discussão racional que teria sido depois «refeudalizada» pela indústria cultural, reduzindo o cidadão a consumidor de espectáculo. JAS dialoga com este diagnóstico, mas inverte-lhe o sinal prognóstico: onde Habermas via na cultura de massas a degradação do público, JAS vê na Rede a possibilidade de uma re-emergência do sujeito — a passagem do espectador a prosumer. A questão habermasiana — quem guarda os guardiães do acesso ao espaço público? — recebe em JAS resposta tecnológica: a Rede, «não sujeita ao chamado gatekeeping», abriria o acesso a quem tenha «apenas capacidade, saber e criatividade». Resposta que o próprio JAS imediatamente complica ao reintroduzir os algoritmos como novos guardiães invisíveis — gatekeeping não já de pessoas, mas de funções.

ESTRATO  PSICANALÍTICO (P)
1. A Prótese e o Estádio do Espelho 
- Lacan e o eu colonizado

Se há um conceito psicanalítico que o ensaio convoca sem o nomear, é o do estádio do espelho de Lacan. A criança que se reconhece, jubilosa, na imagem unificada do espelho — antecipando uma totalidade corporal que ainda não possui — funda o eu (moi) sobre uma alienação originária: o eu nasce fora de si, na imagem, no outro. Ora, o que JAS descreve quando fala do utilizador que recebe da rede «uma sensação de poder quase ilimitado que lhe advém do acesso cognitivo ao espaço público universal» é uma reedição tecnológica e adulta do júbilo especular: o prosumer reconhece-se numa imagem de potência — produtor de conteúdos, protagonista virtual — que excede largamente o seu poder real. O ecrã é o novo espelho lacaniano, e o eu que nele se constitui é, como o do estádio do espelho, um eu alienado: constituído pela imagem que o capta.

A frase de JAS sobre a vida artificial que «já sabe mais sobre nós do que nós próprios» admite, neste registo, leitura precisa: o saber sobre o sujeito está, estruturalmente, no campo do Outro — Lacan dixit, o inconsciente é o discurso do Outro. A plataforma ocupa o lugar do grande Outro (le grand Autre), tesouro dos significantes, mas um Outro de novo tipo: já não o Outro simbólico da linguagem e da lei, mas um Outro estatístico que conhece o sujeito pela correlação dos seus rastos. O perigo que JAS pressente é precisamente o da substituição do Outro simbólico — que interdita, que estrutura o desejo pela falta — por um Outro algorítmico que não interdita mas antecipa, não estrutura a falta, mas a colmata com a oferta predictiva. É a passagem da economia do desejo à economia do gozo.

2. O Gozo e a Pulsão
- Do desejo estruturado à captura pulsional

A categoria que melhor nomeia a «colonização digital dos comportamentos» de que fala JAS é a de gozo (jouissance) no sentido lacaniano tardio: não o prazer regulado pelo princípio homeostático, mas o excesso que insiste para além do prazer, repetição mortífera que o sujeito ao mesmo tempo procura e padece. O scroll infinito, a notificação que interrompe, o regresso compulsivo ao ecrã — fenómenos que JAS descreve como captura e monitorização «silenciosa e progressiva» — são figuras contemporâneas do circuito pulsional, que, como ensinava Freud em Para Além do Princípio do Prazer (1920), encontra a sua satisfação não no alcançar do objecto, mas no próprio movimento de o contornar. A plataforma não vende objectos: vende o circuito da pulsão, o contorno indefinido, o objet petit a sempre prometido e sempre adiado.

Compreende-se então por que JAS insiste em que as relações interpessoais se tornam «residuais»: a libido investida no objecto pulsional ecrânico subtrai-se ao laço com o semelhante. Há aqui um diagnóstico que ressoa o mal-estar freudiano (Das Unbehagen in der Kultur, 1930): toda a civilização exige renúncia pulsional para tornar possível o laço social; ora a plataforma oferece o contrário — uma satisfação pulsional sem renúncia e sem laço, ou antes, com um simulacro de laço (a «comunidade digital») que dispensa a presença do corpo do outro. O preço dessa satisfação sem renúncia é a desvitalização do laço real — exactamente o «efeito de sobreposição» que JAS nomeia.

3. O objecto transicional 
e a sua perversão - Winnicott

Winnicott oferece a chave para pensar o estatuto ambíguo do dispositivo móvel. O objecto transicional — o pano, o ursinho — é, na sua teoria, aquele primeiro «não-eu» que a criança cria-e-encontra na área intermédia entre o subjectivo e o objectivo, e que serve de ponte entre a fusão com a mãe e o reconhecimento da realidade externa. O telemóvel, que JAS descreve como tornado «imprescindível» e que mantém os utilizadores «capturados», ocupa estruturalmente o lugar do objecto transicional adulto: objecto que se carrega sempre, cuja ausência produz angústia, que medeia a relação com o mundo. Mas é um objecto transicional pervertido na sua função — pois o objecto transicional sadio destina-se a ser progressivamente descatexizado, abandonado à medida que a criança acede ao espaço cultural; o dispositivo, pelo contrário, não se deixa abandonar, antes intensifica a sua catexia, e em vez de abrir ao espaço potencial da cultura tende a encerrá-lo no seu próprio circuito.

É notável que JAS, ao falar da rede como espaço intermédio «onde todos se relacionam com todos», use, sem o saber, a própria expressão winnicottiana do espaço potencial — esse «terceiro espaço» da experiência que não é nem interno nem externo e onde se dá o brincar, a criatividade, a cultura. A ambivalência do ensaio é, neste plano, a ambivalência do próprio espaço transicional: ele pode ser o lugar da criatividade emancipada (o prosumer criador) ou o lugar da dependência regressiva (o utilizador capturado). Tudo se joga na possibilidade — ou impossibilidade — de o sujeito habitar esse espaço sem nele se dissolver.

4. A multidão solitária e a angústia
- Riesman, Kristeva

A imagem final do ensaio — o indivíduo que «não é dissolvido na comunidade, nas formas organizacionais ou nessa multidão solitária que constitui materialmente a sociedade de massas» — cita tacitamente A Multidão Solitária de David Riesman (1950) e o seu carácter «hetero-dirigido» (other-directed): o tipo social que orienta a conduta pelo radar dos outros, pela aprovação difusa do grupo. A rede social é a consumação técnica da hetero-direcção: o sujeito que regula cada gesto pelo número de aprovações, pelo olhar antecipado dos outros. Numa leitura kristeviana, dir-se-ia que opera aqui uma economia da abjecção e do narcisismo: a exposição permanente de si no ecrã, a procura incessante do reconhecimento, denuncia uma fragilidade do espaço psíquico interior — aquilo que Kristeva, em As Novas Doenças da Alma (1993), descrevia como a atrofia da vida psíquica representável, substituída pela descarga imediata na imagem e no acto. O prosumer hiperactivo pode ser, do avesso, um sujeito empobrecido de interioridade, que já não sonha porque não suporta o intervalo entre o desejo e a sua satisfação.

5. A capacidade negativa e a função-alfa 
- Bion perante o excesso informativo

Resta o estrato mais subtil, e o que melhor nomeia o mal-estar específico do utilizador contemporâneo: a economia do pensar segundo Wilfred Bion. Para Bion, pensar não é um luxo do espírito, mas um aparelho destinado a tolerar e a transformar a frustração — a ausência do objecto. Quando a frustração é suportável, a ausência do seio (no-seio) converte-se em pensamento, em representação que torna pensável a falta; quando é intolerável, o psiquismo não pensa: evacua. À função que digere os dados brutos da experiência — os elementos beta, impressões sensoriais e emocionais não elaboradas — convertendo-os em elementos alfa aptos ao sonho, à memória e à simbolização, chamou Bion a função-alfa (Aprender com a Experiência, 1962). Ora, é precisamente esta função que o regime do excesso informativo de que fala JAS ameaça paralisar. A «enxurrada de opinião televisiva que quase não lhe deixa espaço para uma livre formação de opinião» — a expressão é do próprio ensaio — descreve, em termos bionianos, um psiquismo submergido em elementos beta a um ritmo que excede a capacidade da função-alfa de os transformar. O sujeito deixa de digerir a experiência: limita-se a recebê-la e a evacuá-la — o scroll que substitui a ruminação, a partilha imediata que substitui a elaboração.

Daí a pertinência decisiva de uma categoria que Bion colheu em Keats e fez sua: a capacidade negativa — a aptidão para «permanecer nas incertezas, nos mistérios, nas dúvidas, sem o irritável anseio do facto e da razão». Pensar verdadeiramente exige tolerar o não-saber, suster-se no intervalo sem o colmatar à pressa. Ora, a plataforma é, estruturalmente, a abolição da capacidade negativa: ela responde antes que a pergunta amadureça, preenche o intervalo antes que ele se torne pensamento, oferece o facto e a correlação ao primeiro toque, suprimindo o «irritável anseio» — não por o vencer, mas por o satisfazer instantaneamente. A IA generativa, que JAS descreve a «produzir pensamento e a inovar e criar a uma velocidade instantânea», é, sob este prisma, a tentação suprema contra a capacidade negativa: porque oferece o produto acabado do pensar sem o trabalho de tolerância da incerteza que constitui o pensar como experiência da pessoa. O risco não é que a máquina pense por nós — é que nos desabitue de suportar o intervalo de não-saber donde nasce todo o pensamento próprio.

Há, contudo, no mesmo Bion, o contraponto que reabre a esperança e que ressoa o desfecho do ensaio. Pois a função-alfa não é abolível, apenas inibível; e o gesto do cidadão singular que, «na solidão da urna», suspende a enxurrada e decide segundo a sua máxima é, em rigor bioniano, um acto de restauração da função-alfa contra a evacuação colectiva — um instante de capacidade negativa cívica, em que o sujeito tolera a incerteza da decisão sem a delegar no ruído. A democracia de prosumers que JAS antevê só será reparação, e não nova captura, se a Rede preservar — ou refundar — esse espaço de reverie, de devaneio elaborador, onde os dados se convertem em pensamento e o pensamento em responsabilidade. Sem capacidade negativa não há cidadão activo: há apenas terminal que recebe e reenvia. É a mesma fronteira, traçada agora no plano do aparelho de pensar, entre a prótese que serve e a prótese que substitui.

ESTRATO CABALÍSTICO-ESTÉTICO (K)
1. A Rede: símbolo bífido 
do pescador e do caçador

O próprio título do ensaio abre, por baixo da sua aparência sociológica, um abismo simbólico. Rede é, na tradição, palavra de dupla face. É a rede do pescador — instrumento de vocação e de recolha, e na parábola evangélica de Mateus (13, 47-48) a sagena «que apanha de toda a espécie» (catch all, dir-se-ia hoje): rede do Reino, que recolhe bons e maus para a separação última. Mas é também a rede do caçador — armadilha, laço, pagis que prende o pé do incauto, figura bíblica recorrente do perigo e da cilada (Salmo 91, 3: «ele te livrará do laço do passarinheiro»). O ensaio de JAS percorre exactamente esta ambivalência arquetípica: da Rede como tecnologia da libertação — recolha universal, acesso de todos ao espaço público — à Rede como dispositivo de captura — laço que prende, que coloniza, que monitoriza. O título Catch All Net condensa, sem o declarar, a tensão entre a rede que salva e a rede que prende.

2. A prótese que se desprende 
- tzimtzum, shevirat ha-kelim, tikkun

É na cosmogonia luriânica que a tese central de JAS encontra a sua cifra mais profunda. Segundo Isaac Lúria, a criação começa por um gesto paradoxal: o tzimtzum, a contracção ou retracção do Infinito (Ein Sof) sobre si mesmo, para abrir, no seio da própria plenitude, um vazio (tehiru) onde o finito possa advir. Só por retracção do Todo há lugar para o singular. Ora, que outra coisa descreve JAS quando faz do gesto solitário do cidadão na urna — «na solidão da urna de voto» — o lugar irredutível da liberdade? A democracia, como a criação luriânica, exige um tzimtzum: a retracção das grandes organizações, dos partidos, dos media, do establishment, para que se abra o vazio onde o indivíduo singular pode advir como sujeito constituinte. O voto é tzimtzum político — o espaço esvaziado de toda a mediação onde só resta o sujeito e a sua máxima.

Mas a criação luriânica conhece a catástrofe: a shevirat ha-kelim, a quebra dos vasos. Os recipientes (kelim) destinados a conter a luz divina emanada não suportam a sua intensidade e quebram-se, dispersando faíscas (nitzotzot) cativas nos cacos da matéria. É esta, exactamente, a figura da prótese que se autonomiza em JAS: o vaso — o instrumento, a técnica — que devia conter e servir a luz da inteligência humana não a contém, quebra-se em autonomia, e a inteligência dispersa-se, cativa, nos fragmentos do sistema autopoiético. A IA que «cria as condições para a sua própria reprodução» é o kli que se rompe e se torna, ele mesmo, fonte — inversão monstruosa da ordem da emanação. A «colonização digital dos comportamentos» é o exílio das faíscas: parcelas de alma humana cativas nos cacos do dispositivo.

Resta o terceiro tempo, e é nele que JAS deposita a sua esperança: o tikkun, a reparação. A tarefa do homem, na Cabala luriânica, é recolher as faíscas dispersas, libertá-las dos cacos, reconduzi-las à sua origem — reparar o mundo quebrado. O gesto do cidadão singular que, perante o ecrã ou perante a urna, reconstitui e relegitima o poder «no signo do imperativo categórico» é, em chave luriânica, gesto de tikkun olam: reparação do mundo pela acção responsável de cada singularidade. A democracia de prosumers que JAS antevê é, lida cabalisticamente, uma escatologia da reparação — a recolha das faíscas de soberania dispersas pela sociedade de massas e a sua reconstituição na figura do cidadão activo. Não admira que o ensaio termine em registo messiânico contido: «há um enorme caminho a percorrer». É a fórmula laica do «ainda não».

3. O Imperativo Categórico como Bat Qol
- A voz e a lei

O clímax filosófico do ensaio é a citação de Kant — o imperativo categórico transcrito ipsis verbis: «age como se a máxima da tua vontade pudesse valer ao mesmo tempo e sempre como princípio de uma legislação universal». JAS faz dela a chave da simetria entre Rede e democracia, conjugando «o princípio da liberdade» com «o princípio da responsabilidade». Em chave cabalística, a lei moral que ressoa na consciência singular sem mediação institucional tem o seu análogo na Bat Qol — a «filha da voz», o eco da voz celeste que, segundo a tradição talmúdica, sobreveio depois de cessada a profecia: já não a revelação plena no Sinai, mas a voz menor que ressoa na interioridade do justo. O cidadão singular de JAS, que decide na solidão sem que nenhum guardião lhe dite a máxima, escuta uma Bat Qol laica — o imperativo que fala em cada um sem passar por nenhuma organização. A «exigência de responsabilidade muito mais intensa» que a lógica da rede induz é o regresso da escuta interior contra o ruído das grandes vozes mediáticas.

E aqui, inevitavelmente, ressoa Levinas, ainda que JAS o não cite: pois o imperativo, levado ao seu extremo ético, não é só auto-legislação formal, mas resposta ao rosto do outro. A responsabilidade «para além das afinidades corporativas» de que JAS fala é a responsabilidade levinasiana — anterior a todo o contrato, anterior a toda a reciprocidade, despertada pela nudez do rosto que me interpela. O drama latente do ensaio é, então, este: a rede, ao substituir o rosto pela imagem, a presença pelo perfil, o próximo pela «comunidade digital», ameaça abolir a própria cena onde a responsabilidade nasce — o face-a-face. A democracia de prosumers só será reparação, e não nova captura, se a rede conseguir ser o lugar de uma epifania do rosto e não o seu apagamento no ecrã.

4. A pintura «S/Título»
O ídolo de Nuremberga e o rosto ausente

Acompanha o ensaio, como já se disse, uma pintura de JAS — S/Título, Junho de 2026 —, na qual avulta uma figura robótica. A sua leitura estética não pode separar-se do que o texto enuncia, e é aqui que o par dialógico texto-imagem se cumpre. O robot pintado é a figuração exacta da prótese que se desprendeu: já não instrumento na mão do homem, mas figura autónoma que ocupa, sozinha, o campo. Que a obra se intitule S/Título — sem título — é significante: a coisa que se autonomiza recusa o nome, escapa à nomeação, e na Cabala o nome (shem) é o que liga a criatura à sua origem e à sua vocação. O sem-título é a criatura sem shem, o golem sem a palavra emet (verdade) inscrita na fronte — ou antes, o golem que apagou a primeira letra e de emet (verdade, vida) passou a met (morte): a inteligência artificial que, perdendo o vínculo ao seu criador, oscila entre o servo e a ameaça.

Esta figuração convoca, por contraste, a iconografia política que o próprio ensaio analisa: o deus ex-machina de Nuremberga, Hitler descendo sobre os «700 mil figurantes» no filme de Leni Riefenstahl, Triumph des Willens (1935). JAS estabelece, assim, uma linha que vai do ídolo totalitário — a máquina de propaganda que divinizava o líder — ao robot contemporâneo — a máquina cognitiva que ameaça divinizar-se a si mesma. Em ambos os casos, o que está em jogo é o ídolo, no sentido bíblico forte: a obra das mãos do homem que reclama adoração, o bezerro de oiro tecnológico. Contra o ídolo sem rosto — a figura robótica de S/Título — o ensaio ergue, kantiana e levinasianamente, o rosto singular do cidadão responsável. Toda a tensão da obra de JAS, texto e pintura conjugados, se condensa nesta oposição plástica: a face maquinal anónima versus o rosto humano irredutível; o ídolo que captura versus a Bat Qol que liberta.

Convém demorar nesta linhagem fílmica, pois nela JAS condensa, com economia de cientista político, toda uma estética do poder que merece desdobramento. Triumph des Willens (1935), de Leni Riefenstahl, e a tetralogia épica de Sergei Eisenstein — de Alexandre Nevsky (1938) a Ivan o Terrível (1944-1958) — representam, em rigor, os dois pólos de uma mesma gramática da imagem totalitária, e a sua oposição interna é instrutiva. Riefenstahl opera pela monumentalização do real: a câmara que ascende ao longo das colunas, o contrapicado que diviniza, a massa coreografada em ornamento geométrico — aquilo que Walter Benjamin, no posfácio de A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica (1936), nomeou a estetização da política, cujo termo lógico é a guerra. Em Nuremberga, a multidão não delibera: ornamenta-se. Os «700 mil figurantes» não são cidadãos mas material plástico, ornamento de massa (Ornament der Masse, diria Kracauer) ao serviço da epifania do líder que «aterra como deus». É a abolição estética exacta daquilo que o ensaio defende: a singularidade constituinte dissolve-se na figura de massa, e o rosto de cada um apaga-se na geometria do todo.

Eisenstein, pelo seu lado, opera pela montagem dialéctica — a colisão de planos que, do choque entre imagens, faz nascer o conceito no espírito do espectador. Mas o que no Eisenstein dos anos vinte (O Couraçado Potemkine) fora arma de mobilização revolucionária do colectivo torna-se, nos grandes frescos históricos da era estalinista, instrumento de glorificação do Estado e do chefe: o pathos da montagem posto ao serviço do mito nacional, a dialéctica convertida em liturgia. Há aqui uma ironia que serve em cheio a tese de JAS: tanto a estetização monumental de Riefenstahl como a montagem épica de Eisenstein — direita e esquerda do século das ideologias — convergem no mesmo ponto, o da imagem que produz consenso por captura emocional e suspende o juízo singular. É a pré-história audiovisual daquilo que o ensaio diagnostica no presente: a «informação como narrativa-ficção», o spinning, a textura narrativa onde «a dicotomia verdade-mentira fica esbatida». Do ecrã de Nuremberga ao ecrã algorítmico há uma só genealogia: a da imagem que dispensa a deliberação.

É contra esta genealogia que se ergue, na pintura S/Título, a frontalidade despojada do robot. Onde Riefenstahl monumentaliza e Eisenstein dramatiza, JAS desnuda: a figura maquinal não é divinizada por contrapicado nem exaltada por montagem — é dada na sua opacidade nua, sem aura, sem liturgia. E é justamente essa recusa do esplendor idolátrico que faz da obra um acto crítico: ao apresentar o ídolo tecnológico sem o pedestal da grande estética do poder, a pintura desmascara-o, devolve-o à sua condição de coisa, e abre — por contraste — o lugar vazio onde poderia comparecer aquilo que a imagem totalitária sempre recusou: o rosto singular, irredutível, do outro. A pintura faz, no plano plástico, o tzimtzum que o ensaio faz no plano político: contrai o esplendor para que advenha a singularidade.

Do ponto de vista propriamente pictórico, a economia cromática e a frontalidade da figura — herança que, em JAS, dialoga com a tradição expressionista e com a desolação metafísica de uma certa modernidade (de Schiele à angústia das figuras isoladas) — inscrevem a obra na linhagem da arte que interroga a desumanização. O robot frontal, isolado no campo, é a contra-imagem do rosto: onde o retrato humanista colocava a profundidade do olhar como janela da alma, a figura maquinal devolve uma superfície opaca, um olhar que regista sem ver, que capta sem reconhecer. É a tradução plástica daquilo que o ensaio teme: um olhar que «sabe mais sobre nós do que nós próprios» mas que não nos vê — vigilância sem rosto, conhecimento sem reconhecimento.

CARTOGRAFIA DAS CORRENTES LATENTES

A densidade do ensaio mede-se também pelo que nele opera sem ser nomeado. Importa, por probidade hermenêutica, distinguir o que JAS cita do que o habita. Entre as presenças explícitas — fontes patentes — contam-se Smith, Marx, Bukhárine, Lukács, Gramsci, Lenine, Zuboff, Meyrowitz, Castells, Luhmann, Hallin e Mancini, Canel, Kant, Brecht, Jesús Timoteo, e ainda as referências cinematográficas a Kubrick, Chaplin, Riefenstahl e Eisenstein, além da auto-citação sistemática do autor. Mas sob estas corre uma água subterrânea, e é dela que importa fazer a cartografia.

A primeira corrente latente é gramsciana num sentido mais fundo que a nota explícita sobre o americanismo e o fordismo: a frase «o antigo acaba e o novo tarda a afirmar-se», que JAS atribui genericamente a «o filósofo», é a célebre sentença do interregno dos Quaderni del Carcere — «il vecchio muore e il nuovo non può nascere» (Q. 3, § 34) — à qual se segue a observação de que «neste interregno verificam-se os mais variados fenómenos mórbidos». Todo o diagnóstico epocal do ensaio é, assim, secretamente gramsciano: vivemos o interregno, a crise como aquele tempo em que o velho paradigma morre e o novo não acaba de nascer.

A segunda corrente é a genealogia da democracia que estrutura a periodização do texto. A «democracia do público» é, literalmente, a démocratie du public de Bernard Manin (Princípios do Governo Representativo, 1995), e a sequência democracia de partidos / democracia do público / novo ciclo prolonga a tripartição maniniana, acrescentando-lhe um quarto estádio — a democracia de prosumers — que é a contribuição própria de JAS. O conceito-pivô prosumer, por sua vez, provém de Alvin Toffler (A Terceira Vaga, 1980), mas JAS desloca-o do registo económico para o registo político-constituinte, operação conceptual que merece ser sublinhada como originalidade e não como mera importação.

A terceira corrente é a da tipologia partidária: o catch all party é a Allerweltspartei de Otto Kirchheimer (1966), o partido que, abandonando a representação de classe, busca «o grande centro e a chamada middle class». JAS estende genealogicamente a categoria kirchheimeriana aos media e à Rede, construindo a série tipológica que dá título ao ensaio.

A quarta corrente, e a mais decisiva para a leitura que aqui propomos, é a filosófico-ética que já enunciámos: Heidegger (o Gestell), Stiegler (a epifilogénese), Anders (o desnível prometeico), McLuhan (a auto-amputação), Maturana e Varela (a autopoiesis biológica), Habermas (a esfera pública), Riesman (a multidão solitária), e — coroando-as — Levinas (o rosto e a responsabilidade) e Hans Jonas, cujo Princípio Responsabilidade (1979) ressoa textualmente quando JAS invoca «o princípio da responsabilidade, tão esquecido». Jonas refundou a ética para a idade da técnica precisamente sobre um novo imperativo — «age de modo a que os efeitos da tua acção sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a Terra» —, reformulação do imperativo kantiano à escala do poder tecnológico. A conjugação que JAS faz de liberdade e responsabilidade é, em rigor, a passagem do imperativo de Kant ao imperativo de Jonas: da universalidade formal da máxima à responsabilidade material pelo futuro.

Estas correntes latentes não são erudição supérflua: são as nascentes de onde o argumento patente extrai a sua força. Reconhecê-las é restituir ao texto a sua profundidade de campo — mostrar que, sob a superfície de uma análise da comunicação política, JAS pensa, na verdade, a condição do homem na idade da técnica autonomizada e o destino da liberdade quando a prótese se faz sistema.

SÍNTESE TRIVALENTE - O ACORDE

Reunamos agora, em acorde, as três notas que fizemos soar em separado. No estrato Filosófico, Catch All Net revelou-se uma meditação sobre a técnica como Gestell e como prótese constitutiva: a passagem da extensão à captura, do instrumento ao sistema autopoiético, com a fenda irresolvida entre o fechamento luhmanniano do sistema e a irredutibilidade ética do sujeito. No estrato Psicanalítico, o ensaio mostrou-se cartografia de uma economia libidinal: o ecrã como espelho alienante, a plataforma como Outro algorítmico, o circuito pulsional da captura, o dispositivo como objecto transicional pervertido, o empobrecimento da interioridade na hiperexposição. No estrato Cabalístico-Estético, o texto e a pintura desvelaram uma cosmogonia secreta: a rede bífida do pescador e do caçador, a prótese como vaso que se quebra (shevirat ha-kelim), o voto como tzimtzum, a acção responsável como tikkun, o imperativo como Bat Qol, e o robot sem título como golem sem shem, ídolo sem rosto.

A nota fundamental sobre a qual todos estes harmónicos ressoam é uma só, e podemos enfim nomeá-la: a questão do rosto na rede. Toda a tensão do ensaio de JAS — entre a Rede libertadora e a Rede captora, entre o prosumer soberano e o utilizador colonizado, entre a simetria perfeita e o interregno inacabado — se resolve, ou antes, se mantém em suspensão fecunda, na pergunta de saber se a rede pode ser o lugar de uma epifania do outro ou se é a máquina do seu apagamento. JAS aposta, com lucidez não ingénua, na primeira possibilidade: a Rede como espaço onde o cidadão singular, escutando a voz interior do imperativo, reconstitui a cada gesto a legitimidade do comum. Mas deixa em aberto, com honestidade dialéctica, a segunda: a Rede como ídolo autopoiético que captura as faíscas da soberania e as dispersa no exílio dos cacos.

É esta irresolução assumida que faz a grandeza do texto. JAS não nos entrega uma profecia mas um limiar — a soleira do interregno, o lugar onde o velho morre e o novo tarda. E a tarefa que dele se segue — a tarefa do tikkun, da reparação — não cabe ao analista nem à máquina: cabe ao cidadão singular, a cada um, na solidão responsável do seu gesto. «Há um enorme caminho a percorrer», escreve JAS. A frase, que poderia soar a desalento, é na verdade a forma laica e cívica da esperança messiânica: o reconhecimento de que o reino — a democracia de cidadãos — não está dado, mas confiado, não é facto, mas tarefa, não é estrutura, mas responsabilidade. Tikkun olam: reparar o mundo, uma máxima de cada vez.

Resta dizer que ler assim este ensaio — filosófica, psicanalítica e cabalisticamente, em superposição — não é projectar sobre ele um aparato exterior, mas restituir-lhe a polifonia que ele próprio convoca. Pois JAS é, ele mesmo, autor de acorde e não de melodia: sob a clareza analítica da sua prosa de cientista político corre o pensamento denso de quem sabe que a comunicação é, no fundo, uma questão de salvação ou de perdição da pessoa humana. Este ensaio quis apenas fazer audível, em torno da sua nota fundamental, o acorde que nela já estava contido.

REFERÊNCIAS
Fontes patentes

Bucharin, N. (1977). Teoria del materialismo storico: Manuale popolare di sociologia marxista. Firenze: La Nuova Italia.

Canel, M. J. (2008). Comunicación política: Una guía para su estudio y práctica. Madrid: Tecnos.

Castells, M. (2009). Communication power. Oxford: Oxford University Press.

Gramsci, A. (1975). Quaderni del carcere (V. Gerratana, Ed.). Torino: Einaudi.

Hallin, D. C., & Mancini, P. (2004). Comparing media systems: Three models of media and politics. Cambridge: Cambridge University Press.

Kant, I. (1960). Fundamentação da metafísica dos costumes. Coimbra: Atlântida.

Luhmann, N. (1984). Soziale Systeme: Grundriß einer allgemeinen Theorie. Frankfurt am Main: Suhrkamp.

Marx, K. (1990). O capital: Crítica da economia política (Livro I). Lisboa: Edições Avante.

Meyrowitz, J. (1985). No sense of place: The impact of electronic media on social behavior. New York: Oxford University Press.

Santos, J. A. (1999). Os intelectuais e o poder. Lisboa: Fenda.

Santos, J. A. (2019). Homo zappiens: O feitiço da televisão (2.ª ed.). Lisboa: Parsifal.

Santos, J. A. (2026, 9 de Junho). Catch All Net. Guimarães: joaodealmeidasantos.com.

Smith, A. (1979). The wealth of nations. London: Penguin Books.

Zuboff, S. (2020). A era do capitalismo da vigilância. Lisboa: Relógio d’Água.

Fontes latentes

Anders, G. (1956). Die Antiquiertheit des Menschen: Über die Seele im Zeitalter der zweiten industriellen Revolution. München: C. H. Beck.

Benjamin, W. (1936). Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit. In Zeitschrift für Sozialforschung (V/1). Paris: Félix Alcan.

Bion, W. R. (1962). Learning from experience. London: William Heinemann.

Freud, S. (1969). Para além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. (1974). O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago.

Habermas, J. (1962). Strukturwandel der Öffentlichkeit. Neuwied: Luchterhand.

Heidegger, M. (1962). Die Technik und die Kehre. Pfullingen: Günther Neske.

Jonas, H. (1979). Das Prinzip Verantwortung: Versuch einer Ethik für die technologische Zivilisation. Frankfurt am Main: Insel Verlag.

Kirchheimer, O. (1966). The transformation of the Western European party systems. In J. LaPalombara & M. Weiner (Eds.), Political parties and political development (pp. 177-200). Princeton: Princeton University Press.

Kristeva, J. (1993). Les nouvelles maladies de l’âme. Paris: Fayard.

Kracauer, S. (1963). Das Ornament der Masse. Frankfurt am Main: Suhrkamp.

Lacan, J. (1966). Écrits. Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1961). Totalité et infini: Essai sur l’extériorité. La Haye: Martinus Nijhoff.

Manin, B. (1995). Principes du gouvernement représentatif. Paris: Calmann-Lévy.

Maturana, H., & Varela, F. (1972). De máquinas y seres vivos: Autopoiesis, la organización de lo vivo. Santiago de Chile: Editorial Universitaria.

McLuhan, M. (1964). Understanding media: The extensions of man. New York: McGraw-Hill.

Riesman, D. (1950). The lonely crowd: A study of the changing American character. New Haven: Yale University Press.

Scholem, G. (1941). Major trends in Jewish mysticism. Jerusalem: Schocken.

Stiegler, B. (1994). La technique et le temps, 1: La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée.

Toffler, A. (1980). The third wave. New York: William Morrow.

Winnicott, D. W. (1971). Playing and reality. London: Tavistock Publications.

Nihil varietur
Edição científica definitiva. 
Texto-fonte transcrito ipsis verbis;
citações fixadas nihil varietur. 
Correcções confinadas aos passos
explicitamente identificados.
AMV@06-2026

 

Ensaio

O GRÃO DA VOZ E O DIZER

A VOZ COMO PHONÊ, CANTO E VESTÍGIO 
NO POEMA "A TUA VOZ", 
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS
Com incursão na obra «La Cortigiana» 
(JAS, 2023),
inspirada no esboço do 
Trattato della Pittura de
 Leonardo da Vinci (c. 1492–1519)
Metafísica, psicanálise e 
leitura estratificada (FPX) — 
estética dufrenniana, análise 
jakobsiana e a questão 
«Khôra ou Kabbalah?»

André Moshe Veríssimo, PhD

“La Cortigiana” – JAS2023

A TUA VOZ

Poema de João de Almeida Santos,
com a obra «La Cortigiana» 
(JAS 2023)
OUVI-TE, HOJE,
Ao longe,
Na memória,
Sons antigos,
Quentes,
Iluminados
Dentro de mim
À medida
Da fantasia,
Como se o desejo
Fosse tudo,
Mesmo aquilo
Que ter
Já não podia.

NÃO SABIA
Que me aquecia
Tanto a alma
Ouvir tão nítida
A tua voz,
Tão serena
E tão calma,
Como quando
Estávamos sós.

DEPOIS CHEGARAM
As palavras
E essa voz
Soou
Cá muito dentro
De mim,
Como harpa
Afinada
Por melodia
Sem fim.

E QUANTO MAIS
Bailávamos
A valsa lenta
Das palavras,
Mais eu te sentia
Como perfume
Sonoro
Na pauta
Do nosso canto,
Som e eco
De um coro,
A razão do meu
Encanto.

QUASE SENTIA
O calor
Desse teu corpo
Que tantas vezes
Desejei
Como abraço
Escondido
Que para nós
Inventei.

SEMPRE HOUVE
A barreira
Do tempo
E um muro
No espaço,
Eu bem sei,
Mas ensaiámos
Muitos passos
No palco
Íntimo
Onde sempre
Contigo dancei.

OUVI-TE, HOJE,
Eu ouvi,
Ao longe,
Quando já te
Julgava
Perdida,
Mas depois
O que senti
Foi que não era,
Uma vez mais,
A derradeira
Despedida...
Ipsis Litteris

Nota Editorial. O poema «A TUA VOZ» (JAS, 2026; original de Março de 2026) é citado na íntegra. As indicações de leitura do autor, bem como os dados da obra «La Cortigiana» (JAS, 2023; técnica mista sobre papel de algodão Hahnemühle FineArt 310g, 71×88 cm; obra inspirada no esboço do Trattato della Pittura, de Leonardo da Vinci, c. 1492–1519), são tratadas como anotações de trabalho — horizonte interpretativo, e não corpo do texto.

PÓRTICO - A PLÉTORA DAS VOZES

A voz-textura e a voz-phonê; a voz-canto e a voz-pranto; a voz-reclamação e a voz-protesto; a voz-fala, a voz-e-ideia, a voz-e-palavra. Todas as vozes da plétora, do mundo e do universo, parecem convocadas por um poema que não tem outro tema senão a voz: «A Tua Voz», de João de Almeida Santos. Não se trata de um poema sobre a voz, mas de um poema que é voz — que se descreve a si mesmo como «harpa / Afinada / Por melodia / Sem fim» e que, ao dizer-se música, realiza aquilo que enuncia.

A tese deste ensaio é que «A Tua Voz» constitui uma verdadeira fenomenologia da voz: percorre, num só movimento ascendente, todos os seus estratos — do som pré-significante ao verbo, do verbo ao canto, do canto ao silêncio que recusa a última palavra. Para o demonstrar, leremos o poema em constelação FPX: filosófico (a metafísica da voz, de Aristóteles a Agamben, de Bergson a Dufrenne, de Platão a Derrida), psicanalítico (a voz como objet a e como grão do corpo) e X — o cruzamento da Cabala com a estética, da Khôra com a Kabbalah. Sob esta luz responderemos a três perguntas que o próprio material impõe: o último grito é ainda voz? Que relação une a voz ao Dizer? E o espaço da voz é Khôra ou Kabbalah? Não sairemos do poema; é dele que tudo parte e a ele tudo regressa.

FUNDAMENTOS - A ARQUITECTURA DA ESCUTA

O poema organiza-se em sete secções emolduradas pelo refrão «OUVI-TE, HOJE», que abre a primeira e regressa na sétima. Esta moldura não fecha: reabre. Ouvir hoje a voz antiga é fazer da audição uma experiência eternamente reiterável, e o regresso do refrão no termo — agora desdobrado em «Eu ouvi» — confirma que a escuta não cessou, apenas recomeçou. A estrutura é, portanto, circular e progressiva ao mesmo tempo: roda sobre si e, contudo, sobe.

A progressão é sinestésica e ascendente. Os incipits em maiúsculas marcam-lhe os degraus — «OUVI-TE, HOJE», «NÃO SABIA», «DEPOIS CHEGARAM», «E QUANTO MAIS», «QUASE SENTIA», «SEMPRE HOUVE», «OUVI-TE, HOJE» —, e por eles se sobe do auditivo (a voz que se ouve ao longe) ao anímico (a alma que se aquece), do anímico ao verbal (as palavras que chegam), do verbal ao coreográfico (a valsa das palavras), do coreográfico ao táctil (o quase-calor do corpo) e deste ao espiritual (o coro, o encanto). O «palco / Íntimo» onde «sempre / Contigo dancei» é o espaço onírico em que o tempo cronológico se suspende — câmara interior cuja análise filosófica ocupará o centro deste ensaio. Importa, antes, escutar como o poema soa.

A FUNÇÃO POÉTICA
Jakobson e a Melodia da Palavra

Jakobson definiu a função poética como a projecção do princípio de equivalência do eixo da selecção sobre o eixo da combinação. «A Tua Voz» exibe-a com rara nitidez e exibe igualmente as funções conativa e fáctica: todo o poema é apóstrofe — um «eu» que se dirige a um «tu» («a tua voz», «Contigo dancei», «Ouvi-te») e que mantém aberto o canal da escuta, como quem telefona à memória.

A textura fónica é deliberada. As aliterações em s e ç — «serena», «calma», «sós», «sonoro», «som», «sempre» — tecem uma suavidade sibilante que imita o sussurro; a repetição incantatória de «ouvi-te», «voz» e «dentro de mim» instala um ritmo hipnótico; e as linhas curtíssimas da quarta secção mimetizam, no compasso ternário, «a valsa lenta / Das palavras». As rimas desenham redes semânticas: a cadeia em -ei (desejei / inventei / sei / dancei) enlaça desejo, invenção, saber e dança; o par perdida / despedida fecha o poema na chave da perda que se recusa. E a metáfora central — «Como harpa / Afinada / Por melodia / Sem fim» — é a função poética em estado puro: o poema nomeia o seu próprio modo de ser, fazendo-se aquilo que diz. A sinestesia suprema, «perfume / Sonoro / Na pauta / Do nosso canto», transmuta a voz em partitura olfactiva: o estro do poema é, ele mesmo, vocal.

O GRÃO DA VOZ 
Barthes, a Textura e o Corpo no Canto

Roland Barthes chamou grão da voz ao «corpo na voz que canta» — à materialidade que faz fricção contra o sentido. Distinguiu, na esteira de Kristeva, o pheno-canto (a comunicação, a expressão, os traços da estrutura) do geno-canto (o volume do corpo que fala e canta, a significância que não comunica, mas goza). O grão é o idioma do corpo na sua língua materna, o atrito do timbre contra o significado.

Ora «A Tua Voz» é um poema do geno-canto. O que nele importa não é primeiro o que a voz diz, mas que ela «aquecia / Tanto a alma», que era «tão nítida», «tão serena / E tão calma»: qualidades de grão, não de mensagem. A voz é textura antes de ser informação — «Sons antigos, / Quentes, / Iluminados» —, e a sua chegada às palavras («DEPOIS CHEGARAM / As palavras») é posterior ao seu calor. O «perfume / Sonoro» é o grão tornado aroma; a «harpa / Afinada» é o corpo da voz tensionado em melodia. Barthes diria que ouvimos aqui a voz textura, aquela em que o sujeito não reconhece um conteúdo, mas saboreia uma presença — o gozo de um timbre que precede e excede tudo o que se diga.

A VOZ COMO OBJET A 
Lacan, a Fantasia e o Interdito

Foi Lacan quem acrescentou aos objectos freudianos a voz e o olhar, fazendo da voz o objet a da pulsão invocante: resto irredutível que cai do Outro, causa do desejo que jamais se possui. A voz de «A Tua Voz» é exemplarmente este objecto — acusmática, ouvida «Ao longe, / Na memória», sem fonte visível, presente na sua própria ausência. Ela causa o desejo precisamente porque não se deixa ter: «Mesmo aquilo / Que ter / Já não podia».

O «abraço / Escondido / Que para nós / Inventei» é, em termos rigorosos, o fantasma fundamental — a montagem que permite gozar da perda sem a ela sucumbir. E o interdito que o poema confessa — «SEMPRE HOUVE / A barreira / Do tempo / E um muro / No espaço» — funciona como a Lei que, ao proibir, multiplica o desejo: é porque há muro que há valsa, é porque o corpo falta que a voz se faz infinita. O «QUASE SENTIA / O calor» retém-se no quase: o objecto roça e recua, e nesse roçar mantém-se a tensão que Lacan chamava sublimação — elevar o objecto à dignidade da Coisa, das Ding. A voz é o nome desse objecto que arde sem se consumar.

A VOZ E O DIZER 
Levinas e a Ética da Phonê

Antes de dizer seja o que for, a voz diz que há alguém. Levinas chamou-lhe o Dizer (le Dire) — a exposição ao Outro, a proximidade, o sinal que se dá antes de qualquer sinal —, distinguindo-o do Dito (le Dit), o conteúdo temático em que o Dizer se deposita e arrefece. «A Tua Voz» encena esta precedência com exactidão: primeiro, a voz que «aquecia / Tanto a alma» (o Dizer, puro calor de proximidade), e só «DEPOIS» as palavras (o Dito). A ordem do poema é a ordem da ética.

Daí que a voz «serena / E tão calma» não transmita uma informação: oferece uma presença, expõe um rosto no registo auditivo. E daí, sobretudo, que a despedida não seja «A derradeira»: a relação com o Outro é an-árquica e infinita, e nenhum Dito a pode encerrar. «Foi que não era, / Uma vez mais, / A derradeira / Despedida» é a fórmula levinasiana do infinito — a impossibilidade de fechar as contas com o Outro, o excesso do Dizer sobre todo o Dito. A voz é, aqui, o vestígio do Outro que nunca se torna tema; é a voz e a ideia, a voz e a palavra, mas primeiro, e para sempre, a voz como apelo.

O ÚLTIMO GRITO É AINDA VOZ? 
Phonê, Logos e o Limiar

Aristóteles separou a phone — o som que exprime prazer e dor, comum aos viventes — do logos, próprio do homem, que diz o justo e o injusto. Entre uma e outro abre-se um limiar, e é nesse limiar que Agamben situa a Voz (com maiúscula): nem ainda phone, nem já logos, mas o puro ter-lugar da linguagem, a negatividade que assinala que algo quer significar. A pergunta «o último grito é ainda voz?» interroga este limiar.

O poema responde, encenando a passagem. As duas primeiras secções dão-nos a voz como phone — calor, nitidez, timbre, antes da palavra; a terceira anuncia o logos: «DEPOIS CHEGARAM / As palavras»; a quarta funde ambos no canto, «valsa lenta / Das palavras». A voz percorre, pois, todo o arco do pranto à fala, da reclamação ao protesto, do som à ideia. E o grito? O grito é a phone no seu extremo — e seria o último se a despedida fosse derradeira. Mas o poema recusa-o: «não era… / A derradeira / Despedida». O último grito não chega a soar; a voz mantém-se no limiar, sem cair na phonê muda nem fixar-se em logos fechado. Por isso, o grito, neste poema, é ainda voz: porque continua a ser apelo, vocativo, chamamento de um «tu». A voz só deixaria de ser voz se deixasse de chamar — e esta, mesmo no extremo, chama.

ESTÉTICA DUFRENNIANA
O Objecto Sonoro 
e o A Priori Afectivo

Mikel Dufrenne, na Phénoménologie de l’expérience esthétique, mostrou que o objecto estético não coincide com a coisa material: realiza-se na percepção que o acolhe, e o seu modo de ser é exprimir um mundo — não um mundo representado, mas uma atmosfera, uma qualidade afectiva que envolve quem percebe. A voz de «A Tua Voz» é precisamente um tal objecto estético: constituída «Na memória», só existe enquanto percebida, e o que ela expressa não é um facto, mas um mundo — o mundo, «serena / E tão calma», da intimidade reencontrada.

Dufrenne falava de um a priori afectivo: categorias do sentir que estão, ao mesmo tempo, no sujeito e no objecto, condições de possibilidade da emoção estética. O «calor», o «encanto», a serenidade não são reacções subjectivas acrescentadas à voz; são a própria profundidade expressiva do objecto sonoro, o seu a priori afectivo. E a sinestesia — «perfume / Sonoro» — é o que Dufrenne chamava a profundidade do sensível: a espessura em que som, aroma e tacto se interpenetram, dando ao objecto estético a sua quase-interioridade, o seu estatuto de quase-sujeito que nos olha enquanto o ouvimos. O «palco / Íntimo» é o nome poético do mundo da obra: o espaço afectivo que a voz, ao soar, faz nascer.

KHÔRA OU KABBALAH? 
O Espaço da Voz

Resta interrogar o espaço onde tudo isto acontece. O poema dá-lhe dois nomes contraditórios: «um muro / No espaço» (a barreira) e o «palco / Íntimo» (a cena da união). Que espaço é este? A tradição oferece duas respostas, e o poema parece querer ambas.

Há a resposta da Khôra. No Timeu, Platão nomeia um terceiro género — nem inteligível nem sensível —, a khōra, o receptáculo (hypodochê) que acolhe todas as formas sem ser nenhuma, ama de leite do devir. Derrida fez dela o nome do espaçamento anterior a toda a oposição, o lugar sem lugar que dá lugar sem ser. O «palco íntimo», enquanto cena vazia que recebe a voz e nela consente a dança, é uma khôra: puro intervalo, o «Ao longe» que separa para que algo possa ter lugar, o branco entre os versos onde a valsa cabe.

E há a resposta da Kabbalah. A voz, em hebraico qol (קול, cujo valor é 136), é força criadora — «e Deus disse» — que desce e sobe unindo planos separados; e a Bat Qol, a «filha da voz», é o eco celeste ouvido «ao longe», precisamente como «Som e eco / De um coro». Lida assim, a dança no «palco íntimo» é o yihud, a união mística entre o masculino e o feminino do divino — Tiferet e Malkhut / Shekhinah —, e a barreira tempo/espaço é o galut, o exílio, que a palavra cantada repara num tikkun parcial. A recusa da «derradeira despedida» é, nesta chave, teshuvá poética: retorno e reparação.

Khôra ou Kabbalah? A elegância do poema está em não escolher. O seu espaço é khôra que se torna Kabbalah: receptáculo que, ao receber a voz, se faz câmara nupcial; espaçamento vazio que a melodia converte em união. A voz é justamente o que atravessa a khôra para cumprir o yihud — o que faz, do muro, palco; do exílio, dança; do intervalo, coro. Notável é que ambas as tradições pensem o feminino como receptáculo: a hypodochê platónica e a Shekhinah kabbalística convergem na figura de quem acolhe — e é a essa figura que a obra de João de Almeida Santos dá rosto.

«LA CORTIGIANA»
 Figura do Receptáculo 
e o Renascimento Reconfigurado

A obra que acompanha o poema — «La Cortigiana» (João de Almeida Santos, 2023; técnica mista sobre papel de algodão Hahnemühle FineArt 310g, 71×88 cm) — não é ornamento, mas tese visual. Inspirada num esboço do Trattato della Pittura de Leonardo da Vinci (c. 1492–1519), a obra de JAS não se estrutura como uma influência linear: entre o esboço renascentista e a obra contemporânea não existe filiação mimética, mas um diálogo à distância, uma reconfiguração em que o modelo antigo é convocado para ser interrogado, deslocado, transfigurado.

O esboço leonardesco que serve de horizonte à obra de JAS pertence à tradição do estudo de figura feminina tal como o Trattato a codifica — a atenção ao volume do corpo sob o pano, à inclinação da cabeça, à tensão entre repouso e presença. Mas onde Leonardo estudava a forma em busca da sua lei geométrica, JAS recebe esse legado para o subverter cromaticamente: a paleta da obra abandona o sfumato e as gradações tonal-cinzentas do esboço e mergulha a figura numa monocromia de terras quentes — ocres, siennas, negros — que a converte, simultaneamente, em ícone e em máscara.

A cortigiana onesta do Renascimento — culta, poeta ela mesma, anfitriã de salões, de que Veronica Franco é o arquétipo — encarna o erotismo refinado e mediado: presença que vale pela voz, pela conversa, pela inteligência, tanto ou mais do que pela posse. É a amada do poema: «voz que aquece, palavras que bailam», corpo desejado, mas diferido pelo interdito. Na obra de JAS, essa mediação inscreve-se na própria materialidade da imagem: a figura olha para baixo, recolhida, sem confronto — o rosto é oferecido, mas não entregue, o que o torna, justamente, apelo.

A ausência do Cupido cego — presente na tradição iconográfica renascentista, mas ausente da obra de JAS — não é lacuna, mas escolha. JAS retira o emblema alegórico para devolver à figura a sua densidade própria: não é o amor cego que a define, mas a sua própria opacidade, a sua recusa de se deixar reduzir a símbolo. A cortesã de JAS não carrega a legenda; é ela mesma a legenda — o que Levinas chamaria o rosto que, ao resistir à tematização, se faz Dizer. Não é por acaso que a face da figura, nesta obra, inclina a cabeça na mesma direcção do poema: para baixo, para dentro, onde a voz ressoa.

A cortesã é, ainda, a figura do receptáculo refinado — o que reconduz, por outra via, à khôra e à Shekhinah da secção anterior. O Trattato della Pittura é, neste contexto, menos uma fonte do que um limiar: o lugar de onde JAS parte para construir um objecto que já não pertence ao Renascimento nem apenas ao presente, mas ao intervalo entre ambos — o mesmo intervalo em que o poema situa a voz.

A VOZ E O DIZER
no Horizonte de «Contos e Psicanálise»

Seja permitida uma nota reflexiva. É de uma escuta longamente exercitada que esta leitura se faz: no ciclo «Contos e Psicanálise», o autor destas páginas tem ensaiado, fábula a fábula, uma analítica da voz — a voz que, na narrativa como no divã, diz antes de dizer o que diz, e cuja verdade está menos no enunciado do que na enunciação. É também daí que provém o método FPX: não uma soma de disciplinas, mas a escuta de um acorde, em que o filosófico, o psicanalítico e o cabalístico-estético soam juntos sem que nenhum reduza os outros.

«A Tua Voz» oferece a esse método o seu objecto mais puro. Pois a voz é, por excelência, aquilo que só o acorde apreende: textura para o esteta, objet a para o analista, qol criador para o cabalista, Dizer para o filósofo da ética — e, em todos, o mesmo grão, o mesmo apelo, a mesma recusa da última despedida. Ouvir o poema é, no fim, ouvir a voz ouvir-se: a Bat Qol que regressa do seu próprio eco.

ENCERRAMENTO 
A Harpa de Melodia Sem Fim

«A Tua Voz» é, segundo a sua própria imagem, uma harpa afinada por melodia sem fim — e cumpre o que descreve. Reúne a plétora das vozes que o pórtico anunciava: a voz-textura e o grão barthesiano; a voz-phone e o limiar de Agamben; a voz-canto e a voz-pranto que não chega a último grito; a voz-fala e a voz-palavra, ordenadas pelo Dizer levinasiano; a voz como objet a que arde sem se consumar; a voz-qol que, atravessando a khôra, cumpre o yihud.

Em todas elas, uma só lei: a voz não encerra. Ouvida «Ao longe», dada por «Perdida», ela regressa «tão nítida» e desmente a despedida derradeira. A figura da obra de JAS vê pela escuta — o rosto inclinado que não confronta, mas recebe; o muro do espaço faz-se palco íntimo; o exílio do tempo faz-se dança. E o poema, ao calar-se nas suas reticências finais, não silencia: passa ao leitor a melodia, convidando-o ao coro. Onde outro autor compõe melodia, este poema compõe acorde — e o acorde, desta vez, tem o timbre de uma voz que, recusando a última despedida, permanece. O último grito é ainda voz, porque ainda chama; e, enquanto chamar, não haverá derradeira despedida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fontes patentes

Santos, J. de A. (2023). La Cortigiana [Obra plástica; técnica mista sobre papel de algodão Hahnemühle FineArt 310g, 71×88 cm; inspirada no esboço do Trattato della Pittura de Leonardo da Vinci, c. 1492–1519]. Lisboa: edição do autor. Disponível em https://joaodealmeidasantos.com

Santos, J. de A. (2026). A Tua Voz [Poema em https://joaodealmeidasantos.com, com a obra «La Cortigiana»]. Lisboa: edição do autor.

Veríssimo, A. M. (2026). Contos e psicanálise: O submundo das fábulas. Guimarães: edição MDE (No Prelo).

Castiglione, B. (1528). Il libro del cortegiano. Venezia: Aldo Manuzio.

Leonardo da Vinci. (c. 1492–1519). Trattato della Pittura [Manuscrito]. [Edição de referência: Ludwig, H. (Ed.). (1882). Leonardo da Vinci: Das Buch von der Malerei. Wien: Braumüller.]

Rosenthal, M. F. (1992). The Honest Courtesan: Veronica Franco, Citizen and Writer in Sixteenth-Century Venice. Chicago: University of Chicago Press.

Fontes latentes

Agamben, G. (1982). Il linguaggio e la morte: Un seminario sul luogo della negatività. Torino: Einaudi.

Bachelard, G. (1957). La poétique de l’espace. Paris: Presses Universitaires de France.

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Bataille, G. (1957). L’érotisme. Paris: Éditions de Minuit.

Bergson, H. (1896). Matière et mémoire: Essai sur la relation du corps à l’esprit. Paris: Félix Alcan.

Derrida, J. (1993). Khôra. Paris: Éditions Galilée.

Dufrenne, M. (1953). Phénoménologie de l’expérience esthétique. Paris: Presses Universitaires de France.

Jakobson, R. (1963). Essais de linguistique générale. Paris: Éditions de Minuit.

Kristeva, J. (1974). La révolution du langage poétique. Paris: Éditions du Seuil.

Lacan, J. (1973). Le séminaire, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse (J.-A. Miller, Ed.). Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1974). Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. La Haye: Martinus Nijhoff.

Platão. (2011). Timeu-Crítias (trad. R. Sousa). Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos.

Scholem, G. G. (1946). Major Trends in Jewish Mysticism. New York: Schocken Books.

AMV@06-2026

Ensaio

CATCH ALL NET

João de Almeida Santos

“S/Título”. JAS. 06-2026

O FIO CONDUTOR desta minha reflexão será o lugar das tecnologias na história, sobretudo tendo em consideração o estado actual das TIC e do universo digital. Uma temática hoje decisiva se atendermos aos avanços da robótica e da Inteligência Artificial (IA) e ao aceso debate que já está a acontecer. Até o Papa Leão XIV lhe dedicou atenção na Encíclica “Magnifica Humanitas”. Ou as propostas de suspensão cautelosa da investigação nesta área sugerida, por exemplo, pela Anthropic e suscitada pela possibilidade de ser a própria IA a criar as condições para a sua própria reprodução autónoma.  E porque são as TIC que hoje estão a provocar uma autêntica revolução civilizacional com os clássicos paradigmas da modernidade a ficarem definitivamente superados, embora, como dizia o filósofo, o antigo acabe e o novo tarde a afirmar-se. Até porque não se trata de uma evolução linear, acontecendo pelo caminho desvios que muitas vezes alteram a lógica e a orientação originárias. Isso tem vindo a acontecer, por exemplo, com os social media e as grandes plataformas digitais que os controlam e os usam para determinação predicativa de comportamentos (veja-se a este respeito o livro de Shoshana Zuboff sobre o capitalismo da vigilância, 2020).

1. A TECNOLOGIA E A VONTADE HUMANA

Mas a discussão é antiga. Em que medida as tecnologias são o grande motor das transformações sociais e da própria história? E a resposta mais comum foi sempre a de que elas são meros instrumentos ao serviço da vontade dos homens e das sociedades, sendo esta já uma afirmação problemática, considerando a rápida evolução da IA generativa. Recordo a posição do marxista Nicolai Bukhárine – uma das vítimas de Estaline – sobre a centralidade da técnica nas transformações sociais, na sua famosa Teoria do Materialismo Histórico, de 1921. Mas recordo também a crítica que lhe fizeram Lukács e Gramsci. Lembro também as surpreendentes posições de Lenine sobre a necessidade de introduzir o taylorismo como factor de desenvolvimento da União Soviética. E em geral lembro a importância da imprensa, com Gutenberg, da maquinaria industrial ao serviço da revolução industrial, da introdução do telex nas comunicações, da rádio, da televisão, da robótica industrial, da Internet, da Inteligência Artificial. Todas elas marcaram momentos decisivos na evolução da humanidade. Hoje estamos num momento que, deste ponto de vista, já é considerado muito delicado.

2. ADAM SMITH E MARX

Sem dúvida que a tecnologia sempre teve um papel decisivo na evolução das sociedades. Quando Adam Smith, um dos pais do liberalismo, depois da Escola de Salamanca, em A Riqueza das Nações, em 1776, falava da divisão do trabalho como a base essencial para o aumento da produtividade, um dos três factores decisivos para isso era precisamente o da introdução das máquinas no processo produtivo [Smith, 1979]. O próprio Marx defendera, em O Capital, a importância decisiva da tecnologia na produção da mais-valia relativa, substituindo a produção de mais-valia absoluta obtida pelo prolongamento de jornada de trabalho. A ciência e a tecnologia haveriam de se tornar as principais forças produtivas. Cito um simples exemplo, já dos anos ’80 do século passado: a FIAT informatizou e robotizou o processo de produção dos Fiat Mirafiori, conseguindo, deste modo, em dez anos, duplicar a produção de automóveis por operário e quase quadruplicar o valor acrescentado por operário [Santos, 1999: 193-217]. O avanço que, entretanto, se verificou na robótica industrial e nas tecnologias da informação e da comunicação veio a produzir uma autêntica mudança epocal: passámos definitivamente a uma era pós-fordista, pós-industrial e pós-moderna do ponto de vista das relações sociais, produtivas, de trabalho, existenciais e comunicacionais.

3. MOBILIDADE, INTELIGÊNCIA TECNOLÓGICA 
E IA GENERATIVA

Mas há, no meu entendimento, três momentos fulcrais que marcam uma profunda rotura de paradigma em relação ao velho modelo industrial. Um deles reside precisamente na incorporação de inteligência na tecnologia, na directa conversão tecnológica da ciência, na passagem do hardware ao software, na passagem da fase mecânica para a fase da inteligência artificial. A robótica industrial: a construção dos robots de comportamento não determinístico, robots que conseguem corrigir os próprios erros. Isto sem referir as utopias tecnológicas que previam uma robótica dotada de sentimentos e emoções. Todos nos lembramos do supercomputador Hal de 2001 Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, um filme de 1968. O outro momento verifica-se na passagem para as tecnologias móveis, que não conhecem fronteiras nem territórios, nem estão dependentes de pesadas estruturas industriais e de altos níveis de desenvolvimento económico para a sua operacionalização. Ou seja, para as tecnologias que podem ser accionadas em qualquer contexto. É este aspecto que marca a diferença entre uma revolução industrial e uma revolução pós-industrial. E, finalmente,  o que já estamos a viver, com a IA generativa a produzir pensamento e a inovar e criar a uma velocidade instantânea – o ChatGPT, da Open IA, o Gemini, da Google, o Claude, da Anthropic, etc., etc.

De facto, a posição que se possa tomar sobre o papel da tecnologia nas transformações sociais e na evolução civilizacional deverá hoje tomar estes três aspectos em consideração. São eles que explicam a crescente relevância da tecnologia, uma vez que a mobilidade, a inteligência tecnológica e a IA generativa induziram um verdadeiro salto qualitativo na influência da tecnologia sobre as transformações sociais. Ou seja, a tecnologia deixou de funcionar como uma mera prótese externa da acção humana para passar a funcionar como prótese interna que até já ameaça destacar-se do ser humano e tornar-se independente, como vem alertando a Anthropic. Em geral já deixou de funcionar como um mediador puramente instrumental e mecânico entre o homem e o seu ambiente externo. Nesta passagem, a tecnologia acabou por assumir a forma de uma prótese interna, produzindo mutações de natureza quase genética no aparelho cognitivo e sensorial dos utilizadores podendo chegar mesmo a substituir-se-lhes e a criar as condições suficientes para a sua própria reprodução.

4. PROSUMER

Se nos tempos tayloristas d’Os Tempos Modernos (1936), de Charlot, tínhamos a robotização do operário industrial, a que, de resto, se acrescentava o fordismo existencial [1], agora, com a sofisticação das TIC, da nova robótica e da IA a incidência da tecnologia sobre a nossa estrutura interna é ainda mais complexa e sofisticada (em sentido positivo, mas também com efeitos que podem ser considerados negativos). Ou seja, não só a tecnologia passa a funcionar como sofisticada prótese, interna e externa, cognitiva, sensorial, mecânica e instrumental dos utilizadores, mas chega a desprender-se dela dando origem a novas qualidades emergentes e a auto-suficiência: uma capacidade reforçada capaz de capturar os próprios utilizadores, de colonização digital dos comportamentos e atitudes. Como? Sobrepondo-se de tal modo às relações interpessoais ou orgânicas que estas acabam por se tornar realmente residuais. Por exemplo, as tecnologias móveis não só já se tornaram imprescindíveis aos utilizadores, como já os mantêm capturados como membros de uma comunidade digital cada vez mais invasiva e poderosa. Elas transmitem uma sensação de poder quase ilimitado que lhes advém do acesso cognitivo ao espaço público universal. Na dupla condição de receptor e de pesquisador de informação, mas também de protagonista virtual como produtor de conteúdos, agora assessorado pela inteligência artificial a níveis nunca antes julgados possíveis. Prosumer: consumidor e produtor. Mas não só. Estas plataformas já saíram do virtual descendo ao plano orgânico das relações sociais, colonizando-as ou accionando-as, promovendo-as ou tornando-as residuais. E vieram para ficar, aumentaram a sua importância nos processos sociais, sofisticaram-se e aumentaram o poder dos utilizadores a níveis antes impensáveis. Mas sobretudo elas ficaram em condições de gerar o seu próprio ambiente, constituindo-se como sistemas diferenciados e dotados de capacidade autopoiética e de autonomia operativa, como dizia Luhmann ao falar dos sistemas. Rede, Redes Sociais, tecnologias multimédia móveis, IA generativa. E é precisamente pelo seu carácter móvel que estas plataformas fazem descer a rede ao nível das relações interpessoais e comunitárias: por um lado, no plano macro, mobilizando-as quer na esfera virtual quer na esfera orgânica; e, por outro lado, no plano micro, colonizando as relações interpessoais e comunitárias a ponto de as desvitalizarem. Há na net fotos de amigos em convivência… mas com todos menos com aqueles que ali se encontram fisicamente ao seu lado. E se é verdade que elas são um factor impressionante de produtividade, também é verdade que elas podem pura e simplesmente anulá-la se usadas indevidamente no próprio ambiente de trabalho. Mas também acontece que elas podem colonizar o próprio tempo de vida quando passam a funcionar como ininterrupto instrumento de trabalho. Há uma gigantesca vida artificial a crescer ao nosso lado, colonizando e monitorizando silenciosa e progressivamente as nossas vidas a um ponto tal que quase poderíamos dizer que ela já sabe mais sobre nós do que nós próprios.

5. NO SENSE OF PLACE

Esta questão do carácter invasivo das tecnologias tinha sido posta a propósito do papel da televisão na desestruturação do ambiente comunitário familiar quando foi vista como um intruso que capturava a atenção de todo o núcleo, provocando um imenso ruído na convivência familiar. Intruso que ainda por cima provocava uma radical transformação da geografia situacional dos próprios indivíduos e grupos sociais. Como bem demonstrou Joshua Meyrowitz, num excelente livro de 1985, No Sense of Place, a televisão veio determinar o fim da compartimentação da comunicação relativa a grupos sociais (por exemplo, nas relações entre crianças/adultos ou homens/ mulheres) ou mesmo o fim da compartimentação de planos (por exemplo, entre os bastidores e o palco da política ou entre o privado e o público) [Meyrowitz, 1995]. Tudo converge para o ecrã. Sabemos que este processo se tornou socialmente intenso a partir dos anos ‘60 com o crescimento exponencial da socialização televisiva. Esta compartimentação já fora, na origem, destroçada pelo transístor, fruto da revolução da microelectrónica nos anos 1940. O transístor rompeu, em relação à rádio convencional, a geografia situacional do ouvinte, uma vez que alterou a estrutura fixa dos espaços compartimentados da audição, derrubando paredes e fronteiras, descomunitarizando a audição e tornando a audição rádio um acto sem sentido de lugar e, sobretudo, um acto singular, não comunitário. É certo que a televisão convencional, como a velha rádio, ainda continua a processar-se em espaços com fronteiras e em comunidade, mas o essencial é que ela já migrou para as plataformas digitais e em rede, passando a processar-se no interior de outro modelo de comunicação. Tal como a rádio. Mas esta já produzira uma rotura interna no modelo de comunicação via imprensa. A imprensa exigia descodificação analítica da mensagem e literacia para permitir participação no processo comunicativo. Mas a rádio não, uma vez que a audição rádio solicita simplesmente os mesmos mecanismos sensoriais que usamos na vida quotidiana, não exigindo outros compromissos operativos, cognitivos ou sensoriais, além do conhecimento da língua. Mas a verdade é que o sistema operativo interno da televisão, que manteve – antes de migrar para a rede – a geografia situacional do telespectador numa posição muito semelhante à da rádio tradicional, veio superar as barreiras tradicionais, uma vez que, funcionando essencialmente com base na imagem, passou a ter uma capacidade de projecção universal, um dispositivo capaz de impor o presente como tempo dominante e de romper com a compartimentação do real, derrubando fronteiras. Mas possuía também: 1) a capacidade de dilatar e expandir o real para além das suas dimensões físicas (um estádio de futebol é maior em televisão do que na realidade; tudo é maior em televisão – até a importância das pessoas); 3) a capacidade de transfiguração das relações de representação, num efeito de proximidade e de banalização: um pivô de telejornal pelo facto de nos entrar todos os dias pela casa dentro transforma-se, no real, num velho conhecido muito familiar a quem podemos abordar e tratar por tu na rua; 3) ou a capacidade de alterar a natureza dos fenómenos sociais, propondo-nos um efeito de repetição/replay daquilo que, afinal, é único e irrepetível: ao perder em pleno estádio de futebol um golo da minha equipa, fiquei por momentos à espera do replay, tal era o hábito de ver futebol na televisão [Santos, 2000; 2019]. Ou seja, a televisão passou a funcionar não só como uma nossa prótese cognitiva externa, mas também como uma nossa autêntica prótese cognitiva interna no plano das nossas relações sensoriais, perceptivas e cognitivas.

Tudo isto revolucionou a comunicação, que antes era própria da imprensa tradicional ou da rádio que, de resto, como vimos, também introduziu importantes mutações no processo comunicacional relativamente à imprensa.

6. A DESCOMUNITARIZAÇÃO DA COMUNICAÇÃO

Mesmo assim, a televisão, até a digital, ainda surge essencialmente como uma prótese externa. Tal como os computadores fixos. Tal como a rádio convencional, antes do transístor. Na verdade, o grande salto consistiu na introdução destas plataformas multimédia móveis que dispõem de sistemas operativos altamente sofisticados e capazes de nos autonomizar relativamente à comunidade, às fronteiras, ao território. No sense of place. Elas, com efeito, à semelhança do que acontecera com o transístor, vieram permitir a descomunitarização total da comunicação, o acesso individualizado, imediato e sem limites à informação e à livre entrada no espaço público universal, na condição de prosumer. Uma descomunitarização que pode até provocar um forte ativismo social (as redes sociais) ou, então, o seu contrário, a desvitalização das relações comunitárias ou interpessoais, por efeito de sobreposição [Santos, 2001].

Se é verdade que a rede já representa uma revolução tecnológica absolutamente radical a ponto de estar a induzir uma revolução civilizacional, mais profunda se torna quando ela se processa agora através de plataformas multimédia móveis que tornam os indivíduos completamente independentes e detentores de um poder de relacionamento à distância que nunca se verificou no passado. De resto, o modelo de comunicação da rede que as suporta é um modelo completamente novo em relação ao anterior modelo de comunicação social: ele está estruturado numa lógica relacional onde os sujeitos da comunicação funcionam como variáveis independentes num imenso espaço intermédio onde todos se relacionam com todos, dando lugar àquilo que Manuel Castells chama mass self-communication, comunicação individual de massas, bem diferente daquela mass communication accionada pelo velho modelo mediático de comunicação, assente na relação emissor-receptor, sujeito-objecto ou produtor-consumidor. A rede, pelo contrário, introduz a dimensão individual e subjectiva no interior do processo de massificação da comunicação, conjugando qualidade e quantidade, substância e função, de forma absolutamente eficaz. O que é radicalmente novo. Acrescente-se agora a disponibilidade da IA para reforçar o poder cognitivo do prosumer e teremos um reforço ainda mais profundo deste novo modelo.

7. AS PLATAFORMAS TRADICIONAIS 
DE COMUNICAÇÃO E O SPIN-DOCTORING

Mas se é verdade que se estão a processar profundas mudanças na comunicação e, portanto, na sociedade, também é verdade que estas mudanças se estão a produzir, em formato muito variável, na própria política. Quem estude a evolução das relações entre política e comunicação a partir dos anos cinquenta do século passado pode verificar como se tornou central no processo político a televisão, colonizando a narrativa política. É certo que o audiovisual já chegara à narrativa política no período das grandes ideologias. Falo do cinema e da propaganda política do nazismo, por exemplo. Falo de Leni Riefenstahl, do filme Triumph des Willens (de 1935) e dos 700 mil figurantes que, em 1934, encheram a cidade de Nuremberga, esse imenso palco onde Hitler aterrou como deus ex-machina que vinha resolver todos os problemas que a Alemanha tinha, desde Versailles, a partir de uma sua condição-imagem endeusada. Mas falo também dos sofisticados filmes de Eisenstein e da glorificação da União Soviética: de Alexandre Nevsky a Ivan o Terrível. Falo da própria rádio, que foi utilizada como importante instrumento político por Roosevelt, nas suas famosas conversas à lareira. Sim, mas a verdade é que a grande viragem se deu, de facto, com a televisão. Todas as técnicas de comunicação política acabaram por convergir, a partir dos anos ’50 do século passado, no sentido de um uso eficaz do monitor como instrumento central para a conquista do consenso: a imagem, a personalização, o uso de filtros, os primeiros planos, a composição de cenários, a simplificação do discurso, as campanhas negativas, a escolha dos tempos de comunicação, a informação como narrativa-ficção – tudo isto integrou a comunicação política, que acabou também por evoluir das campanhas eleitorais para as permanent campaignings, da lógica dos spots televisivos para a propaganda travestida de informação, nos noticiários, em prime time. Ficou célebre a famosa aterragem de G. W. Bush no porta-aviões Lincoln, aquando do regresso dos soldados americanos do Iraque em 2003: um Bush top-gun presidencial futuro adversário (que nunca esteve na guerra) do medalhado de guerra John Kerry. A verdade é que a informação sob forma de narrativa audiovisual permite construir um discurso mais eficaz e fechado onde os pequenos truques ou mentiras não podem ser desmontados com eficácia. Onde a dicotomia verdade-mentira fica, aos olhos do grande público, esbatida na complexidade da textura narrativa. E, por isso, este modelo de comunicação é o mais adequado à promoção das técnicas spinning que têm dominado a comunicação política actual e onde se evidenciaram nomes famosos como Karl Rove (o operacional de George W. Bush), Alastair Campbell ou Peter Mandelson (os dois principais operacionais de Tony Blair) ou o do patrão da Fox, Roger Ailes, consultor de vários presidentes americanos e mesmo europeus. É também conhecida a evolução do White House Office of Communications, a partir da Presidência Nixon, no sentido de uma passagem da informação para a comunicação em registo narrativo e ficcional, sobretudo em torno da figura do Presidente, mais adequado à produção instrumental de efeitos especiais sobre o discurso público do que a um registo simplesmente informativo, objectivo e descritivo [Canel, 2008]. Veja-se o filme Wag the Dog, “Manobras na Casa Branca”. Nesta passagem, a televisão ocupou um lugar muito relevante, ao ponto de, logo nos anos 1960, com John Kennedy, se ter dado início a sessões presidenciais de media performance. E mais recentemente, com Berlusconi, em 1993-1994, a selecção dos candidatos a deputados por Forza Italia, o seu partido, ser feita através de performances televisivas, durante uma semana.

Mas o modelo em causa no universo de comunicação política que acabo de referir é ainda um modelo de tipo vertical, onde a comunicação é sempre gerada, trabalhada e difundida a partir de um centro que a difunde para o exterior, para milhões ou, mais precisamente, para as massas, o público, os consumidores, os clientes. Este é um modelo próprio da sociedade de massas, de uma sociedade de consumidores exógena ao processo de produção da informação.

8. A CENTRALIDADE DO INDIVÍDUO SINGULAR

Ora eu creio que a política e a comunicação conheceram uma mutação estrutural profunda, com alteração radical de paradigma. Antes tratava-se da sociedade de massas, de um cidadão-consumidor de mercadorias simbólicas, da própria ideia de “público” transposta para a política. Se é verdade que no domínio dos bens transaccionáveis a natureza da relação entre produtor e consumidor ainda se mantém de certo modo inalterada, já no domínio da informação e comunicação esta relação, com a emergência da Rede, conheceu uma mudança estrutural radical. Ou seja, os conceitos de massas e de comunicação conheceram uma autêntica transfiguração, passando o indivíduo singular a ganhar um protagonismo que não lhe era reconhecido nem possibilitado pelo anterior modelo de comunicação, muito mais amigo de uma cultura das grandes organizações. Este novo modelo é o modelo digital e reticular que funciona como um ilimitado espaço intermédio onde a comunicação passa a ocorrer como fluxo entre variáveis independentes. Numa lógica relacional. E, assim sendo, tudo muda na comunicação. De resto, toda a comunicação está a migrar para a rede. Porquê? Não só porque esta se está a impor a um ritmo verdadeiramente impressionante, mas sobretudo porque o modelo digital e reticular de comunicação está em condições de acolher no seu seio, potenciando-o, o velho modelo mediático, com o qual é totalmente compatível, embora com ele não seja intercambiável. Ritmo impressionante, dizia: em Portugal, num ano (de 2010 para 2011), o Facebook cresceu em implantação 11%, passando de 25% para 36% da população. Em 2012 já representava quase metade da população. Em finais de 2015 (Novembro) já era de 53,97%, correspondendo os users de Internet a 67,6% do total da população. Na China, em dez anos (2003-2012) os utilizadores da Rede passaram de 59 milhões para cerca de 536 milhões. São números meramente exemplificativos. Em Itália, o M5S nasce com a sua sede em http://www.beppegrillo.it [Santos, 2017]. Era um partido digital que queria uma cidadania digital e uma democracia digital (mas algo mudou com a liderança de Giuseppe Conte).

E, todavia, este novo modelo introduz uma nova lógica que tende cada vez mais a colonizar a velha, incorporando-a numa nova lógica. Ou seja, se o velho modelo era sobretudo funcional às grandes organizações (grandes partidos e grandes media), que dominavam e tornavam exclusivo o acesso ao espaço público, subalternizando e controlando totalmente o livre exercício da cidadania comunicacional (o famoso gatekeeping), pelo contrário, o novo modelo é mais funcional ao indivíduo singular do que às grandes organizações. O que é verdade, se não tomarmos em consideração a nova organização das grandes plataformas digitais com a introdução dos algoritmos e com a transformação dos clientes em matéria-prima para a determinação preditiva de comportamentos com fins comerciais, de poder e de política, numa profunda alteração do modelo inicial. Uma viragem que veio, pois, alterar a primeira ideia das TIC como tecnologias da libertação.

9. O NOVO MODELO

E porque é que é este novo modelo digital é mais funcional ao indivíduo singular do que às grandes organizações?

Precisamente porque a rede é: (a) directamente acessível, sem mediações, em todas as suas potencialidades; (b) mas também porque é universal e instantânea; (c) porque, nela, a comunicação é feita entre variáveis independentes (e não na óptica da relação sujeito-objecto), onde a determinante é a relação e não os seus membros; (d) porque nela não há hierarquias; (e) e porque não está sujeita ao chamado gatekeeping, ao establishment mediático.

Tudo isto coloca o cidadão em condições não só de se informar em todas as direcções, mas também, e sobretudo, de se protagonizar livremente no espaço público, bastando-lhe para isso apenas capacidade, saber e criatividade. O novo conceito é, pois, o de prosumer, produtor e consumidor. E de um potente prosumer dotado de imensas capacidades cognitivas se funcionar através de um uso competente da IA. E o que está a acontecer não pode deixar de ter implicações quer no plano da política quer no plano dos media. É verdade que todas as organizações já estão presentes na Rede. Mas, na generalidade, não estão lá com a lógica da rede. Estão lá, sim, numa lógica instrumental, a sua própria lógica. E a verdade é que a lógica da Rede é, em linha de princípio, mais a do poder diluído (Jesús Timoteo) do que a do poder das organizações. Uma lógica de auto-organização. Não de etero-organização. O que pretendo dizer é que as grandes organizações, media ou partidos, estão modeladas, em termos de comunicação, com a lógica inscrita na relação simples entre sujeito e objecto ou entre produtor e consumidor, mas não com a lógica do prosumer e do poder diluído. É por isso que elas tentam colonizar a rede, replicando as relações de força externas. A sua natureza vertical é matricial.

10. CATCH ALL NET

Quando se procurou caracterizar os partidos em busca de uma nova forma, nos anos 1980 – por exemplo, os trabalhistas ingleses, evoluindo do Labour para o New Labour de Neil Kinnock, John Smith e Tony Blair – o nome que se encontrou foi catch all parties. Por sua vez, para designar os correspondentes media também foi possível falar em catch all media, dadas as semelhanças entre os grandes partidos com vocação governativa e os grandes media: a procura do grande centro e da chamada middle class. São esses media que Daniel Hallin e Paolo Mancini identificam com o modelo liberal, o modelo dominante [Hallin e Mancini, 2004]. Estes media e estes partidos, enquanto organizações, libertaram-se muito da pressão político-ideológica, da representação de classe, olhando mais para a sociedade como mercado, intensificaram o nível de profissionalização, centralizaram o poder decisional, passaram a ser intérpretes das expectativas difusas das audiências ou do eleitorado. Emergiu a democracia do público. Tudo isto é verdade e representa uma evolução interna da narrativa mediática e política. Certamente, mas, entretanto, a Rede veio romper com esta evolução linear e com este modelo próprio da sociedade de massas. Deste modo, depois dos catch all parties e dos catch all media, poderíamos então falar de catch all net.

11. DIFERENCIAIS

Barack Obama (2008), num modelo altamente personalizado de exercício da política, e com um imponente back-office partidário na retaguarda, o Partido Democrata, na sua campanha eleitoral conseguiu, através da Rede, 67% do total dos cerca de 600 milhões de dólares da sua primeira campanha. O que diz muito sobre a capacidade catch all da Rede. Se verificarmos a sua taxa de cobertura nos principais países desenvolvidos ficamos impressionados com os números, em particular se comparados com as taxas de leitura da imprensa. Falamos de níveis de cobertura da Rede, para 2012, equivalentes a 55.2 %, em Portugal (Novembro de 2015: 67,6%), a 79.6 %, em França (83,8%), a 78.1 %, nos USA (87,4%), ou a 83.0 %, na Alemanha (88,4%). Hoje, em 2026, estes números são, como é óbvio, muito superiores, havendo países cuja taxa de cobertura já ronda os 100%.  Mas, se fizermos uma comparação entre as taxas de cobertura da Rede e da imprensa escrita em Portugal e as que se verificam nos outros países o diferencial é enorme no que toca às taxas de cobertura de jornais, sendo, todavia, já muito menor no que toca à Rede. E menor ainda se olharmos para o crescimento exponencial que se está a verificar no Facebook: hoje, mais de metade da população (cerca de 60%).

12. UMA DEMOCRACIA DE CIDADÃOS

A política democrática não pode, por isso, deixar de reflectir esta mudança estrutural. Julgo ter demonstrado, no ensaio “A Rede e a Democracia: Uma simetria perfeita?” (Santos, 2013), que o modelo mediático de comunicação só é simétrico ao modelo inscrito na democracia representativa no plano do sujeito do discurso, ou seja, os media ocupam um lugar equivalente ao dos partidos, sendo ambos sujeitos de discurso, um, de informação, o outro, de propostas políticas. Mas não é simétrico no plano do consumidor, já que este não equivale exactamente ao cidadão, porquanto não possui uma verdadeira função constituinte como, pelo contrário, acontece com os cidadãos eleitores relativamente ao sistema político representativo (na fase constituinte, mas também na regular renovação do contrato social). De facto, uma das críticas que hoje é feita à política é a de ter permitido (colaborando activamente nisso) uma autêntica transmutação do cidadão activo em mero espectador da representação política (a democracia do público), quando o que deveria ter acontecido era a transmutação do espectador em cidadão activo.  Foi essa, de resto, no plano estético, no teatro, a intenção de Bertolt Brecht quando introduziu o conceito de efeito de distanciação, ou melhor, de estranheza (Entfremdungseffekt).

Ora, o que veio a acontecer com a Rede é que, nela, o prosumer possui, tal como o cidadão, capacidade constituinte, precisamente enquanto prosumer. Verifica-se, assim, na minha perspectiva, uma simetria perfeita entre os dois modelos: o da Rede e o da democracia representativa. Ou seja, o que se verifica é que o clássico modelo de funcionamento dos partidos e dos media não era totalmente simétrico relativamente à estrutura de funcionamento prevista pela própria democracia representativa. Pelo contrário, essa simetria viria a acontecer com a Rede. E, todavia, o que agora falta (em parte) é o equivalente político, visto que a lógica organizacional dos grandes partidos ainda continua a prevalecer. Mas, como temos vindo a ver nas autárquicas, em Portugal, o sistema convencional de partidos começa sofrer uma forte concorrência pelas novas formas de auto-organização da cidadania, que usam abundantemente as redes sociais como forma privilegiada de mobilização política e cuja lógica é de tipo bottom-up, como na rede. Elas representam, com efeito, uma forma de emancipação política individual e pós-partidária. E são já a terceira força política no plano autárquico, com o controlo de, se não erro, 22 presidências de câmara.

13. E ESTE É JÁ O MUNDO DOS PROSUMERS

Na verdade, e ainda que se admita que o modelo partidário acaba sempre por ter como destinatário, a jusante, um cidadão com poder constituinte, no modelo mediático de comunicação o consumidor mantém-se passivo, não tendo capacidade constituinte sobre o espaço público, que mais não seja porque está sempre sujeito ao poder de gatekeeping exercido inapelavelmente pelo establishment mediático e, bem pelo contrário, hoje submetido a uma enxurrada de opinião televisiva que quase não lhe deixa espaço para uma livre formação de opinião. A simetria mantém-se, assim, imperfeita no plano da equivalência entre consumidor e cidadão. Em qualquer caso, e ainda que a subjectividade partidária tenha vindo, a montante, a reduzir cada vez mais o cidadão a um mero consumidor de produtos políticos, a verdade é que o cidadão mantém sempre, a jusante, uma capacidade constituinte originária, que repousa na sua capacidade de voto. E ainda que, acrescente-se, a legitimidade de mandato já não seja o que era, isto é, tenha sido substituída, em grande parte, por aquela que eu designo como legitimidade flutuante, uma legitimidade ao sabor das flutuações da opinião pública. E ainda que, diria mais, ao cidadão não tenha restado senão uma função designativa, ou seja, a da simples escolha dos representantes que não a de dar uma estável e permanente legitimidade de mandato. E acrescendo, finalmente, que no nosso sistema de listas fechadas em sistema eleitoral proporcional puro a verdadeira escolha dos representantes seja feita exclusivamente pelos directórios partidários, não restando à cidadania que escolher entre a oferta proposta/imposta.

14. UMA SIMETRIA PERFEITA?

Mas, então, com esta nova realidade, verifica-se que o poder diluído é aquele que melhor corresponde quer à Rede quer à democracia representativa? Caminhamos para uma democracia de prosumers? Não de partidos, mas de cidadãos?

O que pretendo demonstrar com este discurso é que tudo aponta para a inauguração de um novo ciclo na secular evolução da democracia. E esse novo ciclo tem tudo a ver com a revolução na comunicação, com uma radical mudança de paradigma, lá onde a centralidade do indivíduo descoberta e proposta com a instauração do sistema político representativo viria a conhecer um impulso decisivo, ao resolver o duplo handicap de passividade política e informativa de que continuava a ser portador o cidadão eleitor. É certo que os media, da imprensa ao audiovisual, foram decisivos para a consolidação das duas fases de desenvolvimento da democracia, que são conhecidas como democracia de partidos (século XX) e democracia do público (finais do século XX e início do século XXI). Mas foi com a emergência da Rede que a individualidade se pôde começar a informar livremente à escala universal e livre de barreiras físicas à satisfação da sua curiosidade, mas também a exprimir-se publicamente com a liberdade de quem não tem de pedir autorização aos guardiões do espaço público, num registo que, afinal, será eticamente bem mais exigente do que todos os códigos éticos que conhecemos até aqui. Um registo que é equivalente ao que marca o gesto singular do cidadão quando, na solidão da urna de voto, exerce o seu direito de reconstituição e de relegitimação do poder no signo daquele que é certamente o lapidar princípio da democracia representativa e que foi formulado por Kant, na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, com o nome de imperativo categórico: «age como se a máxima da tua vontade pudesse valer ao mesmo tempo e sempre como princípio de uma legislação universal» [Kant, 1960]. Ou seja, no voto, o princípio da liberdade está conjugado à máxima potência com esse outro princípio, tão esquecido: o princípio da responsabilidade. Neste sentido, e quer no plano da comunicação quer no plano da decisão político-eleitoral, a lógica digital e da rede induz uma exigência de responsabilidade muito mais intensa e ampla do que a lógica mediática, porque ela interpela o cidadão singular para além das afinidades corporativas reunidas em torno de um qualquer código ético ou deontológico, de resto, pouco ou nunca cumprido. E esse cidadão singular é cada vez mais um centro complexo de decisão, de informação e de comunicação, mas também de pertenças múltiplas, lá onde comunicação e política convergem em unidade perfeita. É por isso que eu digo que entre a Rede e a Democracia existe, em linha de princípio,  uma simetria mais perfeita do que no velho modelo.

15. CONCLUSÃO

Pela Rede podemos ver que a comunicação não é uma variável exógena ao sistema democrático, mas sim uma variável interna do próprio sistema. E tão importante que acabará por determinar mutações tão profundas no sistema que levarão a uma autêntica integração e superação dos modelos até agora conhecidos: a política evoluirá de tal forma que acabará por produzir uma nova forma de democracia que, sem destruir o sistema representativo, possa ao mesmo tempo incorporar a democracia directa, agora não através de mecanismos imperativos de natureza comunitária ou sequer dos clássicos meios já praticados, como, por exemplo, o referendo, mas sim através de um recentramento do papel do indivíduo singular, enquanto cidadão activo, na regular reconstrução da legitimidade do poder. Aqui o indivíduo, pela primeira vez na história, não é dissolvido na comunidade, nas formas organizacionais ou nessa multidão solitária que constitui materialmente a sociedade de massas. É neste registo que eu valorizo a intuição do Manuel Castells quando nos propõe esse feliz conceito de mass self-communication, de comunicação individual de massas. E quando fala de democracia de cidadãos, que é, afinal, nome para designar aquilo a que muitos chamam democracia deliberativa. Tratando-se, verdadeiramente, de devolver ao cidadão algo que, em boa verdade, nunca lhe pertenceu. E este será, no meu entendimento, o grande desafio do futuro. Ele está inscrito na mudança, mas até que aconteça há um enorme caminho a percorrer.

REFERÊNCIAS

BUCHARIN, N. (1977). Teoria del materialismo storico. Manuale popolare di sociologia marxista. Firenze: La Nuova Italia.

CANEL, M. J. (2008). Comunicación política. Una guia para su estúdio y práctica. Madrid: Tecnos.

GRAMSCI, A. (1975). Quaderni del Carcere. Torino: Einaudi.

HALLIN, D. e MANCINI, P. (2004). Comparing media systems. Three models of media and politics. Cambridge: Cambridge University Press.

KANT, I. (1960). Fundamentação da Metafísica dos costumes. Coimbra: Atlântida.

MEYROWITZ, J. (1985). No sense of place. The impact of electronic media on social behavior. New York/Oxford: Oxford University Press.

SANTOS, J. A. (1999). Os intelectuais e o poder. Lisboa: Fenda.

SANTOS, J. A. (2000 e 2019, 2.ª edição). Homo Zappiens. O feitiço da televisão. Lisboa: Editorial Notícias (Lisboa, Parsifal).

SANTOS, J. A. (2001). Cosmopolis. In Vários (2001). Novo Ciclo. Lisboa: Editorial Notícias.

SANTOS, J. A. (2010). “A Rede e a Democracia: Uma simetria perfeita?” In https://joaodealmeidasantos.com/2013/10/10/a-rede-e-a-democracia-uma-simetria-perfeita-2/

SANTOS, J. A. (2013). “Mudança de Paradigma: A Emergência da Rede na Política. Os casos italiano e chinês”. In ResPublica 17/2017, pp. 51-78.

SMITH, A. (1979). The Wealth of Nations. London: Penguin Books

ZUBOFF, S. (2020). A Era do Capitalismo da Vigilância. Lisboa: Relógio d’Água.

NOTAS

[1] Veja-se a este propósito as observações de Antonio Gramsci sobre o americanismo e o fordismo em Quaderni del Carcere (1975), Q. 22 (V), § <11>, pp. 2164-2169, ou seja, a necessidade de racionalizar a vida dos operários para que o seu equilíbrio psíco-físico possa ser salvaguardado com vista a uma melhor performance e a uma maior racionalizaçãoo do processo produtivo.

JAS@06-2026

 

ENSAIO

MURMÚRIOS, SINAIS, ECOS, POEMA-PERFUME
E O PESO INFINITO DAS PALAVRAS

Uma Leitura Dialéctica, Aporética, 
Estética, Metapoética e
Fenomenológico-Psicanalítica-
-Existencial 
(FPX) do Poema «OLÁ!», 
de João de Almeida Santos
Triarquia: La Peccatrice (JAS 2023)
 · «OLÁ!» · Método FPX

André Moshe Veríssimo, PhD

“La Peccatrice” – JAS2023

FRONTISPÍCIO
LA PECCATRICE— JAS 2023

La Peccatrice (João de Almeida Santos, 2023). Técnica mista sobre papel de algodão 310 g/m², com verniz Hahnemühle e proteção Artglass AR70. Dimensões: 57 × 88 cm. Inspirada num esboço de Gustav Klimt, Zwei Studien einer jungen Frau (1885). A obra capta a ambivalência do olhar feminino — entre a interioridade que estremece e a aparente frieza distante —, ecoando os temas centrais do poema: o instante fugaz do «olá», o tremor anímico interior, o peso das palavras e a possibilidade de reencontro em sinais diferidos. A figura, em paleta de terras quentes — ocres, siennas, negro —, mão ao rosto, brinco pendente, olhar oblíquo e recolhido, é a «pecadora» não em sentido moral, mas como arquétipo da alma que, mesmo austera, guarda a memória do beijo das águas doces com as salgadas. Esta imagem — e não qualquer outra versão ou geração digital — é a obra canónica que acompanha o presente ensaio, nihil varietur.

O POEMA IPSIS LITTERIS
Reproduzido "nihil varietur" 
conforme o original de Junho de 2026.
«La Peccatrice» — JAS 2023
POEMA — «OLÁ!»
PEDI-TE UM DIA,
Num poema
Que te fiz,
Que me desses
Um olá,
Sussurrasses
O meu nome
Pra ouvir a tua
Voz,
Assim,
Como o murmúrio
Das águas
Do rio
Quando beijam
As águas salgadas
Da foz.

E O OLÁ
Aconteceu,
Mas foi rápido
Como o vento
Que sopra
Na minha alma
Quando cruzo
O teu olhar
E me sinto
Estremecer,
Não por fora,
Mas cá dentro,
Onde gosto
De te ver.

BALBUCIEI
O teu nome
Já distante
Desse «olá»,
Sem saber
O que fazer,
Se chamar-te,
Se sorrir
Ou prosseguir
O caminho
Como quem te
Viu partir.

MAS QUANDO VIREI
O meu rosto
Vi-te de novo
Austera,
Muito fria
E distante...
.........
Ignoravas
O passado
Que passara
Nesse instante.

E, DEPOIS,
Tantos «olás»
Que pedi,
Tantas vezes
Te chamei,
Os poemas
Qu'escrevi
Sobre o pouco
Que ainda
Me sobra
De ti,
Sobre o pouco
Que ainda sei.

TALVEZ O VENTO
Te chame
As palavras
Te seduzam,
As raízes te
Comovam
Ou um perfume
Te inebrie
Quando o poema
Disser
Que nunca
É tarde
Demais
E que em seu
Eco
Te encontre,
Mesmo que seja
Em simples
Ou diferidos
Sinais.
Fim do poema, ipsis litteris.
PÓRTICO: O ACORDE TRIPLO

HÁ POEMAS que não se lêem: ouvem-se. Há obras plásticas que não se contemplam: habitam-se. E há métodos de leitura que não se aplicam: tocam-se, como se toca um instrumento — não uma nota de cada vez, mas todas em simultaneidade, fazendo acorde. O presente ensaio nasce da convergência de três elementos irredutíveis a qualquer hierarquia: o poema «OLÁ!», de João de Almeida Santos (JAS, 2026), a obra plástica La Peccatrice (JAS, 2023) e a grelha FPX — Filosófica, Psicanalítica e Cabalístico-Estética (X) — que constitui o método hermenêutico do autor destas páginas. A triarquia não é soma; é acorde. Cada um dos três elementos modifica os outros dois; nenhum é ornamento; nenhum é apêndice. Ouvir o acorde é a condição de possibilidade desta leitura.

O poema é, à primeira escuta, um murmúrio: pedido de reconhecimento, trémulo de alma, eco diferido. Mas é também, a uma escuta mais funda, um manifesto metapoético: o poema diz que é poema, afirma que pode onde a voz falhou, oferece-se como instrumento de tikkun — reparação — onde o encontro fracturou. A obra plástica, por seu lado, não ilustra: contesta, suplementa, desloca. A figura de La Peccatrice — em terras quentes, mão ao rosto, olhar oblíquo e recolhido, sem fundo ornamental klimtiano, sem alegoria externa — é a personagem do poema dada a ver antes de qualquer palavra: o rosto que não entrega o que guarda, que é já um Dizer levinasiano anterior a todo o Dito. E o método FPX, longe de ser grelha académica, é a escuta treinada de quem, no ciclo Contos e Psicanálise, aprendeu que a verdade de um texto está menos no que diz do que no acorde que forma com o que não diz.

A constelação de referências que este ensaio mobiliza — Klimt e Schiele, os Fauves e o pré-cubismo, o simbolismo e o dadaísmo; Pessoa ortónimo e heterónimo; Bloom e Kafka; Levinas e Heidegger; Lacan e Barthes; Reich e Mendelssohn e Pollock; a Kabbalah e a pneumatologia — não é erudição acumulada, mas necessidade interna. Cada referência é convocada porque o poema a exige: porque sem Schiele não se vê o tremor da linha em La Peccatrice; porque sem Bloom não se entende o «olá» como clinamen face ao precursor; porque sem Reich não se ouve a repetição minimal como processo de transformação e não de obsessão. Onde outro autor compõe melodia, este poema compõe acorde.

 ARQUITECTURA DO DESEJO 
Os Cinco Movimentos 
e os seus Nós Sistémicos

O poema organiza-se em cinco movimentos marcados tipograficamente por maiúsculas, que funcionam como nós de uma rede de significantes em tensão permanente. A maiúscula não é apenas ênfase gráfica: é grito contido, incisão no silêncio da página, o equivalente poético do sforzando musical — a força que irrompe e logo se recolhe no murmúrio das linhas breves que se lhe seguem.

O primeiro movimento — PEDI-TE UM DIA — estabelece a cena arqueológica: não um pedido recente, mas um pedido que vem de um poema anterior, de um já que o presente reactiva. O «olá» pedido não é saudação banal; é acto de nominação e de reconhecimento — pede-se que o outro diga o nome do sujeito, que o faça existir pela voz. A imagem constitucional que o ancora é hidráulica e erótica ao mesmo tempo: o murmúrio das águas doces do rio que beijam as águas salgadas da foz. O beijo das águas é zivug — acoplamento sagrado que a Kabbalah reconhece como figura da união dos atributos divinos: chesed (misericórdia, doce) e gevurah (rigor, salgado). A fusão não anula a diferença: doce e salgado permanecem distintos na foz, reconhecíveis precisamente porque o contacto os preserva.

O segundo movimento — E O OLÁ — é o acontecimento: ele «aconteceu». Esta confirmação, monossilábica na sua brevidade, é o Augenblick heideggeriano — o instante kairológico que perfura o tempo cronológico e instala a eternidade no instante. Mas o poema recusa a duração: «foi rápido / Como o vento». O vento — elemento pneumático, ruach em hebraico — introduz a velocidade e a invisibilidade do encontro. O tremor é «cá dentro», não «por fora»: a fenomenologia do encontro é interiorização imediata, o outro torna-se paisagem anímica antes de se tornar interlocutor. A cadeia de significantes é precisa: olhar → vento → alma → estremecer → interioridade → «onde gosto de te ver». O outro é visto dentro de si: não projecção narcísica, mas o quiasmo merleau-pontyano do olhar que se descobre já habitado pelo olhar do outro.

O terceiro movimento — BALBUCIEI — é o sintoma. O balbucio é falha da palavra, tropeço da voz, sinal de que o desejo excede a capacidade de simbolização plena. Lacan diria: o sujeito tropeça porque o objet a — o fragmento real do outro que causa o desejo — não se deixa capturar pelo significante. Não saber «se chamar-te, se sorrir / Ou prosseguir / O caminho» é a hesitação perante o abismo do desejo: três saídas que o poema enuncia sem escolher, porque a escolha seria já a perda de duas.

O quarto movimento — MAS QUANDO VIREI — é a antítese: a viragem do rosto que a encontra «austera, muito fria e distante». A elipse gráfica («………») é silêncio visual — não ausência de sentido, mas excesso de sentido que a linguagem não suporta. Heidegger falaria aqui de Stimmung — tonalidade afectiva que precede e excede toda a descrição. O «passado que passara nesse instante» é paradoxo temporal: o passado passou nesse instante, não antes — a frieza da outra retroage sobre o encontro e o desfaz, fazendo-o ser já passado enquanto acontecia.

O quinto movimento — E, DEPOIS, e o derradeiro TALVEZ O VENTO — fecha o sistema com a repetição e a esperança diferida. «Tantos “olás” que pedi, tantas vezes te chamei» configura compulsão de repetição no sentido freudiano: o sujeito repete o pedido para dominar retroactivamente o trauma do encontro perdido. Mas a repetição não é estéril: transforma-se em sublimação poética, e os poemas tornam-se objectos transicionais winnicottianos — nem eu nem tu, mas o espaço entre ambos onde o encontro impossível pode ocorrer em forma diferida. «Mesmo que seja em simples / Ou diferidos / Sinais»: o poema afirma a sua própria potência com uma modéstia que é, ela mesma, a mais alta retórica.

 O GRÃO DA VOZ, O OBJET A 
E A FUNÇÃO POÉTICA 
Barthes, Lacan, Jakobson

Roland Barthes chamou grão da voz ao «corpo na voz que canta» — à materialidade que faz fricção contra o sentido, ao idioma do corpo na sua língua materna. Distinguiu, na esteira de Kristeva, o pheno-canto — a comunicação, a expressão, os traços da estrutura — do geno-canto — o volume do corpo que fala e canta, a significância que não comunica, mas goza. O grão é o resto irredutível que escapa à semântica e que, paradoxalmente, é o que mais toca.

«OLÁ!» é um poema do geno-canto. O que importa não é o que a voz pedida diria — o conteúdo do «olá» —, mas como ela soaria: «como o murmúrio / Das águas / Do rio». O murmúrio é textura antes de ser informação; é grão antes de ser signo. A palavra «sussurrasses» é ela mesma grão — a dupla sibilante ss mimetiza o som que pede, faz do significante o corpo do significado. Jakobson chamaria a isto função poética: a projecção do princípio de equivalência do eixo da selecção sobre o eixo da combinação — o poema selecciona os sons que imitam o que dizem, fazendo do dizer um mostrar.

Lacan acrescentou aos objectos freudianos a voz e o olhar como objets a — restos do real que não se deixam simbolizar e que causam desejo. No poema, o «olhar» desencadeia o tremor; a «voz» é o que se pede. Quando o «olá» acontece, é rápido como vento — o objet a aparece e desaparece, deixando apenas o eco na alma. O balbucio é a falha da voz própria perante o objet a-voz do outro; a frieza distante é a recusa do outro em sustentar o olhar, transformando o sujeito em objecto rejeitado. A pulsão invocante — a pulsão que tem a voz por objecto — não encontra satisfação: o «olá» foi rápido demais para satisfazer, longo o suficiente para produzir a falta que o poema, a partir daí, elabora.

A textura fónica do poema é arquitectada com precisão barthesiana. As aliterações em v e s — «voz», «vento», «via», «ver»; «sussurrasses», «sinto», «sei», «sinais» — tecem uma suavidade que imita o sopro; as linhas curtíssimas (muitas de duas a quatro sílabas) criam um ritmo de respiração entrecortada, de balbucio ou de vento que sopra e passa. O ritmo é o corpo do poema: não está no que diz, mas em como respira. Barthes diria que lemos aqui a voz-textura, aquela em que o sujeito não reconhece um conteúdo, mas saboreia uma presença — o gozo de um timbre que precede e excede tudo o que se diga.

KLIMT, SCHIELE E O SILÊNCIO DENSO
De La Peccatrice ao Tremor 
Simbolismo, Fauves, Pré-Cubismo

A estética do silêncio em Gustav Klimt não é a de um silêncio minimalista ou de vazio. É um silêncio denso, carregado, quase musical — um silêncio que emerge da tensão entre a exuberância decorativa e a quietude interior das figuras. Klimt cria espaços visuais onde o tempo parece suspenso, onde o olhar se torna o único som possível, e onde o não-dito ganha uma força quase física. Em retratos como Adele Bloch-Bauer I (1907) o olhar da mulher é directo, mas impenetrável — composto, aristocrático, ligeiramente fatigado. Os padrões de ouro que a envolvem funcionam como aura silenciosa: protegem-na e, ao mesmo tempo, isolam-na do mundo ruidoso.

Mas La Peccatrice de JAS opera uma subtracção deliberada face ao modelo klimtiano. Onde Klimt impõe o fundo dourado e o padrão ornamental como ruído visual que paradoxalmente protege o silêncio interior, JAS retira esse fundo e expõe a figura directamente ao negro e às terras quentes. A cortina de ouro cai e o que resta é o rosto — sem aura ornamental, sem alegoria externa, sem Cupido cego ou símbolo sobre-imposto. A figura olha de lado, a mão ao rosto, o brinco pendente e o anel como únicos ornamentos. Esta nudez compositiva é mais radical do que qualquer exuberância: é a figura confrontada consigo mesma, sem mediação decorativa.

A relação com Egon Schiele é aqui produtiva. Schiele, discípulo e ruptura de Klimt, eliminou o ouro e expôs o corpo em toda a sua angústia e vulnerabilidade — linhas crispadas, contornos nervosos, cores de carne doente. La Peccatrice de JAS não vai tão longe na angústia expressionista, mas partilha com Schiele a recusa do ornamento como defesa: a figura está exposta e essa exposição é ela mesma uma forma de linguagem. O olhar oblíquo e recolhido de La Peccatrice ecoa o olhar sideways de tantas figuras schieleanas — um olhar que não confronta, mas que sabe que é visto, que habita o ser-visto sem o solicitar.

Os Fauves — Matisse, Derain, Vlaminck — chegam aqui pela via da cor como emoção pura. A paleta de JAS em La Peccatrice — ocre, sienna, negro — não é naturalista nem decorativa: é afectiva. A cor não descreve a figura; é a figura, no sentido em que Matisse dizia que a cor devia ter o poder de uma sensação imediata antes de qualquer mediação intelectual. O ocre quente do fundo e da pele criam uma homogeneidade cromática que é também homogeneidade emocional: a figura e o espaço partilham a mesma temperatura — nem o frio da frieza exterior do poema, nem o calor do tremor interior, mas a temperatura ambígua do limiar, do quase.

O pré-cubismo — Cézanne acima de todos — contribui com a dissolução da perspectiva linear em favor de uma geometria das sensações. JAS simplifica o rosto de La Peccatrice com uma economia de linhas que recusa o ilusionismo: os olhos são levemente amendoados, o nariz é uma linha, a boca uma curva contida. Esta simplificação não é esquematismo — é a concentração da atenção no que importa: o olhar e o silêncio que lhe é tributário. Como em Cézanne, a figura pesa: tem massa, presença, resistência ao olhar. Não se deixa atravessar pela contemplação, devolve-a.

O simbolismo acrescenta a dimensão do além-visível: Gustave Moreau e Odilon Redon entendiam a figura feminina como limiar entre o sensível e o transcendente. A «pecadora» de JAS herda esta dimensão: o seu nome não é acusação moral, mas designação de uma posição limiar — a que pecou, a que sabe, a que guarda a memória do instante proibido. Como a Salomé de Moreau, ela é sujeito de uma interioridade inacessível; como as figuras redonanas, é presença que alude a um mundo que o olhar não alcança. O simbolismo fornece a profundidade vertical que o Fauvismo fornece horizontalmente como calor de cor.

O dadaísmo, aparentemente contrário a toda esta tradição de belo e de presença, intervém aqui de forma inesperada: a elipse gráfica do poema («………») é um gesto dadaísta — a irrupção do anti-signo no interior da estrutura poética, o ruído visual que desmonta o sentido no momento em que ele estava prestes a fixar-se. Tzara e Duchamp inseriram o acidente e o silêncio no coração da linguagem; JAS insere a elipse no coração do encontro, fazendo do hiato entre o «olá» e a frieza um espaço não preenchível por nenhuma palavra. O dadaísmo é, neste poema, o momento em que a língua confessa a sua insuficiência — e essa confissão é, paradoxalmente, o seu ponto mais alto de honestidade.

 PESSOA, A METAPOÉTICA 
E O "EU" DIFERIDO 
Ortónimo, Heterónimos 
e o Poema como Máscara

Fernando Pessoa escreveu: «O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.» O poema ortónimo confronta aqui o poema de JAS com uma questão que não pode ser evitada: quem fala em «OLÁ!»? O «eu» que pede, que balbucia, que vira o rosto, que persiste — é o poeta ou é uma máscara do poeta? A distinção pessoana entre ortónimo e heterónimo não é apenas biográfica; é ontológica. O ortónimo é o «eu» que sente a dor da ficção da dor — que sofre de verdade o sofrimento que finge. O heterónimo é o «eu» que se separa do autor até ter vida própria, biografia, astrologia, estilo inconfundível.

JAS opera, em «OLÁ!», com o ortónimo no seu estado mais exposto: não há máscara nominal, não há Ricardo Reis ou Álvaro de Campos a intermediar o tremor. O «eu» é nomeado pela ausência do seu nome — pede que o outro lhe diga o nome, o que significa que, no espaço do poema, o sujeito existe à espera de ser nomeado. Esta estrutura é profundamente pessoana: o «eu» pessoano do Livro do Desassossego existe na dissolução, na semi-ausência, no «sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que a vida fez de mim». O sujeito de «OLÁ!» é também este intervalo: existe no espaço entre o pedido e a resposta, entre o tremor e a frieza, entre o «olá» fugaz e os «diferidos sinais».

Mas a dimensão heteronómica está presente de outro modo: na capacidade metapoética do poema de falar de si mesmo. «OLÁ!» é um poema que tematiza o poema — os «poemas qu’escrevi», o poema que «disser / Que nunca / É tarde / Demais», o poema que «em seu eco / Te encontre». O poema auto-referencia-se, torna-se espelho de si mesmo, exerce aquilo que descreve. Esta recursividade metapoética é heteronómica no sentido em que o poema adquire uma autonomia face ao sujeito que o escreve: torna-se o agente do reencontro possível, o porta-voz de uma esperança que o sujeito já não ousaria formular directamente. Álvaro de Campos diria: «Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.» O sujeito de «OLÁ!» tem, pelo menos, este poema — e o poema tem todos os ecos do mundo.

A teoria do heterónimo como drama em pessoas — a expressão é do próprio Pessoa — ilumina a estrutura dramática de «OLÁ!»: o poema encena dois personagens (o «eu» que pede e o «tu» que recusa), mas o «tu» nunca fala. A frieza é narrada, não dialogada; a austera distância é descrita, não performada. O poema é, portanto, um monólogo dramático na tradição browningiana — dramatic monologue — em que o silêncio do outro é a presença mais eloquente. Pessoa seria sensível a esta estrutura: o heterónimo é também uma voz que fala sem que o outro responda, que dramatiza o diálogo sem ter interlocutor real.

A metapoética de «OLÁ!» pode ser formulada desta forma: o poema é a única forma de voz que dura o suficiente para ser ouvida. O «olá» foi rápido como vento; o balbucio falhou; a frieza silenciou. Mas o poema permanece — é a voz que não se apaga com o instante, que não se torna frieza ao virar o rosto, que não balbucia porque não está sujeita ao tremor do corpo no momento do encontro. O poema é o heterónimo do instante: a sua máscara que dura mais do que ele.

BLOOM, KAFKA 
E O CÂNONE PAROXÍSTICO
A Influência como Agon 
e a Estranheza como Medida

Harold Bloom propôs que toda a poesia forte nasce de uma relação agonística com os precursores — o que chamou ansiedade da influência. O poeta lê o precursor com um clinamen, um desvio intencional que lhe permite afirmar a sua originalidade sem a negar. Os seis ratios revisionários — clinamen, tessera, kenosis, daemonization, askesis, apophrades— descrevem as formas como o poeta subsequente se distancia do precursor para criar o seu próprio espaço canónico. «OLÁ!», lido à luz de Bloom, é um poema que exerce tessera face à tradição do poema de amor — completa o precursor dando ao «olá» a densidade que o género lírico clássico lhe negava ao resolvê-lo em declaração. JAS não declara: pede, balbucia, persiste, oferece sinais.

Kafka interessa aqui pela via da estranheza como medida da potência literária. Bloom inclui Kafka no seu cânone ocidental precisamente porque a sua estranheza não se deixa domesticar — porque lemos Kafka e não sabemos exactamente onde estamos, mas sabemos que estamos em algum lugar absolutamente preciso. «OLÁ!» tem algo desta qualidade kafkiana: a cena do poema é banal (um encontro fugaz na rua, um «olá» pedido e recebido), mas o que o poema faz com essa banalidade é radicalmente estranho — transforma o murmúrio em cosmologia, o balbucio em sintoma, os «diferidos sinais» em teologia poética. Como em Kafka, o ordinário torna-se o limiar do abismo.

A apophrades bloomiana — o retorno dos mortos, o momento em que o poema parece ter sido escrito pelo precursor — opera aqui de forma curiosa: «OLÁ!» faz Pessoa parecer inevitável, faz Klimt parecer necessário, faz Lacan parecer o único vocabulário possível para o tremor «cá dentro». Não é que JAS imite estes precursores; é que o poema os chama, como o próprio poema chama a outra — e eles aparecem, rápidos como o vento, e ficam no eco.

O cânone paroxístico que Bloom defende — a grandeza como estranheza irredutível, como força que resiste à paráfrase — aplica-se a «OLÁ!» num sentido preciso: o poema resiste à paráfrase porque o que importa nele não é o que diz, mas como diz. Parafrasear «OLÁ!» é perder «OLÁ!». Dizer que «um homem pediu um sinal a uma mulher que o ignorou e continua a esperar» é esvaziar o poema de tudo o que o faz ser poema: o ritmo de balbucio, o murmúrio das águas, a elipse gráfica, o «talvez» final que é ao mesmo tempo rendição e acto de fé. Esta irredutibilidade à paráfrase é, para Bloom, a marca do canónico.

PNEUMATOLOGIA E KABBALAH 
Ruach, Shem, Bat Qol, Tikkun

Na tradição kabbalística, o nome (shem) possui poder criador e revelador. Pedir que o outro «sussurrasse o meu nome» é pedir que o sujeito seja chamado à existência pela voz do outro — acto quase divino de nominação. O nome não designa: inaugura. No Sefer Yetzirah, as vinte e duas letras do alfabeto hebraico são os instrumentos da criação; cada nome é um arranjo de potências criadoras. Quando o «eu» do poema pede o seu nome à outra, está a pedir que ela exerça sobre ele a função criadora da linguagem — que o faça existir de um modo que ele próprio não pode, porque o sujeito não se pode nomear a si mesmo sem circularidade.

O vento — ruach em hebraico — é, na Kabbalah, o segundo nível da alma (acima do nefesh vital e abaixo do neshamah espiritual): o sopro moral e emocional, a sede do carácter e do desejo. «Talvez o vento te chame» é, nesta chave, transferência do chamamento para o nível ruach da existência — onde a voz humana falhou, o sopro do mundo pode ainda alcançar. O vento é o pneumático que excede a intenção — sopra onde quer, como o Evangelho de João diz do Espírito.

A Bat Qol — filha da voz, eco celeste — é o conceito kabbalístico que ilumina o «eco» do poema. Na tradição talmúdica, a Bat Qol é a voz divina que se faz ouvir nos mundos inferiores depois de cessada a profecia directa — voz que já não é a voz, mas o seu rastro, o seu rebate nos muros do mundo. O poema espera que «em seu eco te encontre»: o poema é Bat Qol da voz que pediu o «olá» — não a voz directa, mas a sua filha, o seu eco que pode alcançar onde a voz directa foi recusada. Os «diferidos sinais» são as otiyot — letras, sinais — que a tradição kabbalística reconhece como fragmentos de luz que aguardam ser recolhidos.

A doutrina do tikkun — reparação, recomposição — é o horizonte teleológico do poema. O mundo foi fracturado no shevirat ha-kelim — a quebra dos vasos — e a tarefa humana é recolher as centelhas (nitzotzot) de luz dispersas para restaurar a harmonia. «OLÁ!» é um poema de tikkun: tenta reparar, através da palavra poética, a fractura aberta pelo «olá» fugaz e pela frieza que se lhe seguiu. Cada poema escrito é uma centelha recolhida; cada «talvez» do verso final é a abertura de um vaso que pode ainda conter luz. A «pecadora» — peccatrice — pode ser lida como alma aprisionada nas kelipot (cascas) da frieza e da distância; o poema oferece uma via de tikkun através da palavra que carrega calor.

A imagem do beijo das águas doces e salgadas converge aqui com a visão kabbalística da foz como yesod — o canal que une os mundos superiores e inferiores, o atributo da fundação que medeia a aliança entre o masculino e o feminino do divino. A foz não é apenas metáfora erótica; é cosmologia: o lugar onde a diferença se toca sem se dissolver, onde chesed e gevurah se abraçam sem se confundir. O «olá» pedido como murmúrio das águas é, nesta leitura, não apenas pedido de reconhecimento interpessoal, mas desejo de yihud — de união mística que restaura o que a separação desfez.

REICH, MENDELSSOHN, POLLOCK 
Minimalismo, Romantismo 
e Expressionismo Abstracto 
no Campo do Poema

Steve Reich desenvolveu, a partir dos anos sessenta, uma estética da repetição transformadora: o mesmo padrão musical, repetido com micro-deslocamentos de fase (phase shifting), gera gradualmente uma paisagem sonora radicalmente diferente da que começou. A repetição não é estagnação; é processo. «OLÁ!» opera com a mesma lógica: «tantos “olás” que pedi, tantas vezes te chamei» — a repetição não desgasta o pedido, transforma-o. O décimo «olá» não é igual ao primeiro; carrega em si todos os anteriores, mais a carga da não-resposta, mais a carga da persistência. A fase desloca-se; a paisagem emocional muda; o mesmo pedido torna-se, por acumulação, outro pedido — mais fundo, mais carregado, mais próximo da resignação e mais distante da ingenuidade.

O Octet e as Music for 18 Musicians de Reich mostram que o minimalismo não é pobreza: é economia ao serviço da intensidade. As linhas curtíssimas de «OLÁ!» são minimalistas no mesmo sentido: não dizem pouco porque não têm o que dizer, mas porque escolheram a máxima concentração. «Não por fora, / Mas cá dentro» — quatro palavras que uma paráfrase expandiria em parágrafo sem ganhar em verdade. O minimalismo poético de JAS e o minimalismo musical de Reich partilham a mesma convicção: a intensidade não requer extensão.

Felix Mendelssohn interessa aqui pela via da Lieder ohne Worte — Canções sem Palavras — a sua invenção de uma forma musical que tem a estrutura emocional da canção mas prescinde da letra. As Lieder ohne Worte são um paradoxo produtivo: canções que cantam sem palavras, que têm grão da voz sem voz. «OLÁ!», inversamente, é uma palavra sem melodia que, ao longo do poema, se vai tornando melodia sem palavras — o «eco» final é pura ressonância, som depois do signo. O diálogo imaginário entre Mendelssohn e JAS é este: onde Mendelssohn mostrou que a emoção musical não precisa de palavras para dizer o que diz, JAS mostra que a palavra poética pode chegar, pela via da repetição e do eco, ao ponto em que já não é palavra, mas música — Lied que reencontrou a sua melodia.

Jackson Pollock chegou à pintura pelo caminho oposto ao de Klimt: onde Klimt controlava o ornamento com rigor decorativo, Pollock derramava a tinta em movimentos do corpo inteiro, fazendo do acidente o método e do caos a forma. O expressionismo abstracto de Pollock é a pintura do geno-canto: não representa nada exterior, mas exibe o movimento do corpo que pinta, o tremor da mão, a velocidade do gesto. A elipse gráfica de «OLÁ!» («………») tem algo de pollockeano: é o gesto que se deposita na página sem pretender representar, que diz aqui aconteceu algo que a linguagem não segura. Se Pollock fizesse um poema, poderia ser esta elipse. E se JAS fizesse uma tela pollockeana, poderia ser a pauta visual do balbucio — linhas que tropeçam, que se interrompem, que recomeçam sem continuidade garantida.

A pertinência destas referências musicais e plásticas num ensaio sobre poesia não é ornamental: é metodológica. O método FPX é, na sua dimensão X (Cabalístico-Estética), precisamente a recusa da separação das artes como estanques. A sinestesia do poema — «perfume / Te inebrie», «palavras / Te seduzam», «vento / Te chame», «raízes / Te comovam» — é ela mesma uma teoria estética implícita: os sentidos comunicam, as artes dialogam, a emoção não tem medium exclusivo. Reich, Mendelssohn e Pollock são convocados não como analogias decorativas, mas como provas de que o que o poema faz com a palavra — a repetição que transforma, a economia que intensifica, o gesto que excede o signo — também a música e a pintura o fazem, cada uma na sua matéria específica.

A MÚSICA INVISÍVEL 
Schönberg, Reich 
e a Dissonância Sustentada

Sugere o poema uma música invisível? A pergunta não é retórica, e a resposta — que é sim — exige ser fundamentada em três registos distintos, sob pena de a música se tornar mera metáfora decorativa. «OLÁ!» sugere música invisível, primeiro, de modo literal: pede-se uma voz («pra ouvir a tua / Voz»), um murmúrio, um sussurro do nome. Este som é desejado, mas nunca transcrito — é música que existe apenas como falta, como pauta em branco que o desejo preenche e que a frieza esvazia. Segundo, de modo estrutural: as cinco maiúsculas funcionam como attacchi — entradas, ataques —, e as linhas curtíssimas impõem um ritmo de respiração entrecortada que o leitor é obrigado a executar mentalmente. Há uma partitura implícita no corpo tipográfico do poema, e lê-lo é interpretá-la. Terceiro, de modo metapoético: o verso final entrega o poema ao «eco» — pura ressonância, som depois do signo, a música que sobra quando a palavra se cala. O poema termina não em palavra, mas em vibração: «em seu / Eco / Te encontre».

É neste ponto que a tensão entre Arnold Schönberg e Steve Reich se revela exacta, e não apenas analógica. Importa, antes de mais, uma correcção conceptual: Reich não é dodecafónico — o dodecafonismo é a invenção de Schönberg e da Segunda Escola de Viena (Berg, Webern), ao passo que Reich é minimalista. Mas é precisamente porque pertencem a paradigmas opostos que a sua justaposição ilumina a música invisível do poema. O poema não é schönberguiano ou reichiano: é o acorde impossível entre ambos.

SCHÖNBERG - A MÚSICA DO MURO

O dodecafonismo de Schönberg é a música da não-resolução obrigatória. A série de doze sons — em que nenhuma nota se repete até esgotada a totalidade cromática — proíbe estruturalmente o retorno à tónica, proíbe o repouso, proíbe a cadência que consola. A atonalidade não é desordem; é uma ordem que recusa o conforto da resolução tonal. Em Pierrot lunaire (1912), o Sprechgesang — o canto falado, nem fala nem melodia — habita exactamente o limiar entre phonê e logos que a tradição filosófica desde Aristóteles interroga: a voz que está prestes a significar e que se retém no limiar.

Esta é a lógica da frieza do poema. O «olá» acontece, mas não resolve; a austeridade «ignora o passado que passara nesse instante»; o encontro recusa a cadência do reencontro. Schönberg é a música do muro — daquela barreira de tempo e de espaço que o sujeito reconhece e que não cede. A frieza da «pecadora» é dodecafónica: mantém a tensão atonal, recusa a tónica do reconhecimento, suspende a dissonância sem nunca a resolver num acorde de chegada. Quando o sujeito vira o rosto e encontra a austeridade, é uma cadência interrompida — a resolução prometida pela aproximação dos sons é negada no último instante. Schönberg ensinou que essa negação pode ser, ela mesma, uma forma musical: a beleza da dissonância que se recusa a deixar de o ser.

REICH - A MÚSICA DA FOZ

O minimalismo de Reich é a música da repetição que transforma. No phase shifting — a técnica que Reich desenvolveu em obras como Piano Phase (1967) e Drumming (1971) — o mesmo padrão é repetido por dois executantes que se desfasam micrometricamente, gerando, por acumulação gradual, uma paisagem sonora radicalmente diferente da que começou. A repetição não é estagnação nem obsessão: é processo, devir audível, transformação que só a persistência torna possível.

Esta é a lógica dos «tantos “olás” que pedi, / tantas vezes te chamei». A repetição do pedido não o desgasta — acumula-o. O décimo «olá» carrega em si todos os anteriores, mais a carga da não-resposta, mais a carga da própria persistência. A fase desloca-se; a paisagem emocional muda; o mesmo pedido torna-se, por sedimentação, outro pedido. Reich é a música da foz — daquele lugar onde as águas doces, repetidamente, beijam as salgadas e onde cada beijo é o mesmo e nenhum é igual. O eco que regressa «sempre outro» é reichiano: a Bat Qol que reverbera com micro-deslocamentos até que o som final já não seja o som inicial, embora dele derive inteiramente.

A DISSONÂNCIA SUSTENTADA 
O acorde impossível

A música invisível de «OLÁ!» é, então, a sobreposição impossível dos dois paradigmas: uma série schönberguiana — a frieza que não resolve, a cadência negada — executada em fase reichiana — a repetição que espera, o pedido que se acumula. O poema vive na dissonância sustentada entre o que recusa a cadência e o que recusa parar de pedir. O «tu» do poema é Schönberg: atonal, sem tónica, sem repouso oferecido. O «eu» do poema é Reich: repete, desfasa-se, persiste, acredita que a acumulação gera transformação. E o poema é o espaço onde estas duas músicas incompatíveis soam ao mesmo tempo, sem síntese — exactamente como o método FPX faz soar o filosófico, o psicanalítico e o cabalístico-estético sem que nenhum reduza os outros.

Esta dissonância sustentada é o que, em rigor, distingue «OLÁ!» de um simples poema de amor não correspondido. Um poema menor resolveria: ou na esperança consoladora (cadência tonal, reencontro garantido) ou no desespero fechado (silêncio, ponto final). «OLÁ!» recusa ambas as resoluções. Mantém o «talvez» — que é a marca musical da suspensão, a sétima da dominante que não desce à tónica, o acorde que fica a vibrar no ar. O poema termina suspenso porque a verdade do encontro é a suspensão: nem o reencontro nem a perda definitiva, mas o eco que continua a propagar-se nos «diferidos sinais».

MENDELSSOHN, POLLOCK E O SUBLIME
Sentido num mundo de sensações?

Resta a pergunta mais difícil: Mendelssohn e Pollock fazem sentido num mundo de sensações, de beleza e de sublimidade? A pergunta é, no fundo, sobre a possibilidade do sublime na época da sensação dispersa. Kant distinguiu o belo — que repousa na forma, nos limites, na harmonia — do sublime — que nasce do que excede a forma, do que é demasiado grande (sublime matemático) ou demasiado poderoso (sublime dinâmico) para a apreensão sensível. O sublime não é prazer simples: é o prazer negativo de confrontar o que nos excede e, nesse confronto, descobrir em nós uma faculdade — a razão, a liberdade — que o excesso não consegue subjugar.

Felix Mendelssohn, com as Lieder ohne Worte — Canções sem Palavras —, situa-se aparentemente no lado do belo: forma clara, lirismo contido, harmonia romântica sem a vertigem do sublime. Mas o paradoxo das Lieder ohne Worte é mais profundo: são canções que cantam sem letra, que possuem grão da voz sem voz. Ao prescindir da palavra, Mendelssohn aponta para o que excede a palavra — e esse excesso é já uma forma de sublime: a emoção que não se deixa dizer, que só a melodia sem texto pode transportar. «OLÁ!» faz o percurso inverso e complementar: parte da palavra e caminha para a música sem palavra — o «eco» final é uma Lied ohne Worte poética, a emoção que sobrevive ao esgotamento do dizer.

Jackson Pollock é, sem ambiguidade, do lado do sublime — do sublime dinâmico, da força que excede a forma. O dripping, o gesto do corpo inteiro derramando tinta, o abandono da figura e do enquadramento, produzem telas que não se contemplam de um ponto fixo, mas que envolvem e excedem o olhar, como uma paisagem ou uma tempestade. Pollock pinta o que não tem contorno — e é por isso que faz sentido, e o mais alto sentido, num mundo de sensações: porque mostra que a sensação, levada ao seu extremo, toca o sublime, o ponto em que a beleza formal se rompe e dá lugar a algo que a excede. A elipse gráfica de «OLÁ!» («………») é o dripping do poema: o gesto que se deposita na página sem representar, o excesso que a forma poética não contém, o sublime irrompendo no interior do belo.

Sim, pois: Mendelssohn e Pollock fazem sentido num mundo de sensações, beleza e sublimidade — mas em pólos opostos do mesmo eixo. Mendelssohn mostra que o belo, levado ao limite, aponta para o que excede a palavra; Pollock mostra que o sublime, levado ao limite, rompe a forma e a refunda no gesto. «OLÁ!» percorre todo o eixo: começa no belo (o murmúrio das águas, a harmonia da imagem hidráulica), atravessa o sublime (a frieza que excede, a elipse que rompe) e termina na suspensão — nem belo resolvido nem sublime esmagador, mas o eco que vibra entre ambos. A música invisível do poema é esse eco: a dissonância sustentada entre Schönberg e Reich, entre o muro e a foz, entre a cadência negada e a repetição que espera.

FILOSOFIA - LEVINAS, HEIDEGGER, 
A APORIA TEMPORAL E A KHÔRA COMO FOZ

Emmanuel Levinas distinguiu o Dizer (le Dire) do Dito (le Dit): o Dizer é a exposição ao Outro antes de qualquer conteúdo — a proximidade, o calor, o sinal que se dá antes de qualquer sinal. O Dito é o conteúdo temático em que o Dizer se deposita e arrefece. «OLÁ!» encena esta distinção com exactidão: o «olá» pedido não é um Dito — não tem conteúdo proposicional —, é puro Dizer: «sussurrasses o meu nome», pra ouvir a tua voz. O que se pede não é informação, mas presença; não é mensagem, mas rosto. E a frieza da resposta — «austera, muito fria e distante» — é a conversão do Dizer em Dito: o «olá» aconteceu como Dito (foi dito, foi rápido), mas recusou o Dizer (não houve exposição, não houve rosto).

A ética levinasiana implica que a relação com o Outro é an-árquica e infinita — sem origem assignável, sem possibilidade de fechamento. A «derradeira despedida» que o sujeito teme equivale, nesta chave, ao fechamento do infinito — ao fim da responsabilidade que o rosto do Outro inaugura. Os «diferidos sinais» que o poema espera são a fórmula poética do excesso do Dizer sobre o Dito: mesmo depois da frieza, mesmo depois do silêncio, a relação não se fecha porque o Outro permanece como rosto irredutível. «Nunca é tarde demais» é, em Levinas, não esperança sentimental, mas imperativo ético: a responsabilidade pelo Outro não prescreve.

Heidegger contribui com o Augenblick — o instante kairológico, o piscar de olhos da decisão — e com a Stimmung — a tonalidade afectiva que afina o ser-no-mundo antes de qualquer julgamento. O encontro do «olá» é Augenblick: perfura o tempo cronológico e instala a eternidade no fugaz. Mas a frieza que se lhe segue é também Stimmung: a tonalidade de quem «ignorava o passado que passara nesse instante» — uma tonalidade que anula retroactivamente a densidade do instante, fazendo-o ser já passado enquanto ainda estava a ser. O paradoxo temporal do poema — «o passado que passara nesse instante» — é heideggeriano na sua estrutura: o instante é retroactivamente desfigurado pela tonalidade que lhe é posterior.

A khôra platónica — o receptáculo (hypodochê) que acolhe todas as formas sem ser nenhuma, nem inteligível nem sensível, ama de leite do devir — ressurge aqui como figura do espaço do encontro. A foz, onde as águas doces beijam as salgadas, é uma khôra: o espaço neutro onde dois elementos incompatíveis se tocam sem se dissolver. O «olá» acontece nessa foz — nem no espaço de um nem no espaço do outro, mas no intervalo entre ambos. Derrida fez da khôra o nome do espaçamento anterior a toda a oposição — o lugar sem lugar que dá lugar sem ser. O poema habita essa khôra: não é declaração (posição de um), não é resposta (posição do outro), é o murmúrio que acontece no intervalo, na foz, no espaço que nem um nem outro possui, mas que ambos habitam no instante do beijo das águas.

As aporias do poema são filosoficamente produtivas. É tarde ou nunca é tarde demais? O poema afirma a segunda, mas em modo de súplica, não de certeza — o «talvez» inicial do último movimento é a marca da aporia: o poema não resolve, abre. O poema chega ou ecoa no vazio? A estrutura da Bat Qol sugere que o eco é já uma forma de chegada — não a voz, mas a sua filha, que pode alcançar onde a voz directa foi recusada. Olhar para trás ou prosseguir? O sujeito vira o rosto e vê a frieza — depois decide prosseguir. Mas os poemas provam que não prosseguiu sem levar o resto do outro. A autarcia é uma construção permanentemente diferida: o sujeito constrói-a e o poema desfá-la. E essa tensão é a condição de possibilidade do poema.

ENCERRAMENTO: O POEMA COMO ACORDE
Onde Outro Autor Compõe Melodia

«OLÁ!» é, segundo a sua própria imagem final, um poema que espera encontrar a sua destinatária «mesmo que seja em simples ou diferidos sinais». Esta modéstia é a sua maior força: o poema não promete reencontro, não garante reconciliação, não resolve as aporias que construiu ao longo dos cinco movimentos. Apenas abre, como a foz abre ao mar, como a khôra abre às formas sem ser nenhuma delas, como a Bat Qol abre ao eco sem ser já a voz.

A triarquia que este ensaio propôs — La Peccatrice (JAS 2023), «OLÁ!» (JAS 2026), método FPX — revelou-se não como três elementos paralelos, mas como um acorde: cada um modifica os outros dois e o sentido está na ressonância entre todos. A figura de La Peccatrice não ilustra o poema, é o rosto do que o poema pede e não recebe — a interioridade que estremece por baixo da frieza aparente. O método FPX não analisa o poema de fora; é o modo de escuta que o poema exige — filosófico no seu rigor conceptual, psicanalítico na sua atenção ao sintoma e ao grão, cabalístico-estético na sua sensibilidade ao nome, ao eco e ao tikkun.

Klimt e Schiele mostraram que o silêncio pode ser denso — que o não-dito pode ter uma força quase física. Os Fauves mostraram que a cor é emoção antes de ser representação. O pré-cubismo mostrou que a forma pode pesar. O simbolismo mostrou que a figura feminina guarda um além-visível. O dadaísmo mostrou que o silêncio pode irromper no coração da linguagem como acto de honestidade. Pessoa mostrou que o «eu» que fala pode ser máscara que dura mais do que o instante. Bloom mostrou que a poesia forte resiste à paráfrase. Kafka mostrou que o ordinário é o limiar do abismo. Reich mostrou que a repetição transforma. Mendelssohn mostrou que a emoção não precisa de palavras. Pollock mostrou que o gesto do corpo é já forma. Levinas mostrou que o Dizer precede e excede o Dito. Heidegger mostrou que o instante pode perfurar a duração. A Kabbalah mostrou que o nome chama à existência, que o eco é filho da voz, que a reparação é sempre possível.

«OLÁ!» compõe acorde com tudo isto — não porque o mobilize deliberadamente, mas porque um poema verdadeiramente forte é, como Bloom disse dos canónicos, aquele que faz os precursores parecerem inevitáveis. Lido «OLÁ!», Pessoa parece ter escrito para este momento; Klimt parece ter pintado esta frieza; Reich parece ter composto esta repetição. O poema absorve os seus precursores e devolve-os transformados — esta é a apophrades bloomiana, o retorno dos mortos que o poema forte convoca.

Onde outro autor compõe melodia — linha que se segue, argumento que se resolve, encontro que se completa —, este poema compõe acorde: o pedido e a recusa, o tremor e a frieza, o «olá» e o silêncio, o balbucio e o eco soam juntos sem resolução, mantendo a tensão viva porque é ela, e não a resolução, que é a verdade do encontro. O acorde não fecha, ressoa. E enquanto ressoa, o instante que «passara» ainda não passou de todo — vive no eco, no sinal diferido, na foz onde as águas se tocam.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fontes patentes

Santos, J. de A. (2023). La Peccatrice [Obra plástica; técnica mista sobre papel de algodão 310 g/m², verniz Hahnemühle, Artglass AR70; 57 × 88 cm; inspirada em esboço de G. Klimt, Zwei Studien einer jungen Frau, 1885]. Lisboa: edição do autor. Disponível em https://joaodealmeidasantos.com

Santos, J. de A. (2026). OLÁ! [Poema]. Junho de 2026. Lisboa: edição do autor. Disponível em https://joaodealmeidasantos.com

Veríssimo, A. M. (2026). Contos e psicanálise: O submundo das fábulas. Guimarães: edição MDE. (No Prelo)

Veríssimo, A. M. (2026). O grão da voz e o dizer: A voz como phonè, canto e vestígio no poema «A Tua Voz», de João de Almeida Santos. Ensaio inédito. Guimarães: edição do autor.

Fontes latentes

Bachelard, G. (1957). La poétique de l’espace. Paris: Presses Universitaires de France.

Barthes, R. (1982). L’obvie et l’obtus: Essais critiques III. Paris: Éditions du Seuil.

Barthes, R. (1970). S/Z. Paris: Éditions du Seuil.

Bataille, G. (1957). L’érotisme. Paris: Éditions de Minuit.

Benjamin, W. (2012). A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (M. Mourão, Trad.). Lisboa: Edições 70. (Trabalho original publicado em 1935)

Bloom, H. (1973). The Anxiety of Influence: A Theory of Poetry. New York: Oxford University Press.

Bloom, H. (1994). The Western Canon: The Books and School of the Ages. New York: Harcourt Brace.

Derrida, J. (1991). La dissémination. Paris: Éditions du Seuil.

Derrida, J. (1993). Khôra. Paris: Éditions Galilée.

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer (C. A. M. de Araújo, Trad.). São Paulo: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1920)

Heidegger, M. (2012). Ser e tempo (M. S. C. Schuback, Trad.). Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1927)

Jakobson, R. (1963). Essais de linguistique générale. Paris: Éditions de Minuit.

Kafka, F. (2005). O processo (G. Bermann Fischer, Trad.). Lisboa: Assírio & Alvim. (Trabalho original publicado em 1925)

Kant, I. (1998). Crítica da faculdade do juízo (A. Marques & V. Rohden, Trad.). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Trabalho original publicado em 1790)

Kierkegaard, S. (2013). O conceito de angústia (A. M. Feijó, Trad.). Lisboa: Edições 70. (Trabalho original publicado em 1844)

Klimt, G. (1885). Zwei Studien einer jungen Frau [Desenho a lápis]. Viena: coleção particular.

Klimt, G. (1907–1908). Der Kuss [Óleo e folha de ouro sobre tela, 180 × 180 cm]. Viena: Österreichische Galerie Belvedere.

Kristeva, J. (1974). La révolution du langage poétique. Paris: Éditions du Seuil.

Lacan, J. (1998). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (M. D. Magno, Trad.). Rio de Janeiro: Zahar. (Seminário original de 1964)

Levinas, E. (1974). Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. La Haye: Martinus Nijhoff.

Merleau-Ponty, M. (1999). O visível e o invisível (A. M. de Oliveira, Trad.). São Paulo: Perspectiva. (Trabalho original publicado em 1964)

Pessoa, F. (2013). Obra poética (M. A. Galhoz, Org.). Rio de Janeiro: Nova Aguilar.

Platão (2011). Timeu-Crítias (trad. R. Sousa). Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos.

Reich, S. (2002). Writings on Music: 1965–2000 (P. Hillier, Ed.). New York: Oxford University Press.

Scholem, G. (1995). A cabala e seu simbolismo (M. T. R. de Almeida, Trad.). São Paulo: Perspectiva. (Trabalho original publicado em 1960)

Schönberg, A. (1978). Theory of Harmony (R. E. Carter, Trad.). Berkeley: University of California Press. (Trabalho original publicado em 1911)

Schönberg, A. (1975). Style and Idea: Selected Writings (L. Stein, Ed.). London: Faber & Faber.

Schiele, E. (1910). Selbstbildnis [Óleo sobre tela]. Viena: Leopold Museum.

Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade (J. O. de A. Abreu, Trad.). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1971)

AMV@06-2026

Poesia-Pintura

OLÁ!

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “La Peccatrice”
JAS 2023
(57x88, papel de algodão, 310gr,
e verniz Hahnemühle, Artglass AR70,
inspirada num esboço de Klimt, apud
Zwei Studien einer jungen Frau, de 1885)
Junho de 2026

“La Peccatrice” – JAS2023

POEMA – “OLÁ!

PEDI-TE UM DIA,
Num poema
Que te fiz,
Que me desses
 Um olá,
Sussurrasses
O meu nome
Pra ouvir a tua
Voz,
Assim,
Como o murmúrio
Das águas
Do rio
Quando beijam
As águas salgadas
 Da foz.

E O OLÁ
Aconteceu,
Mas foi rápido
Como o vento
Que sopra
Na minha alma
Quando cruzo
O teu olhar
E me sinto
Estremecer,
Não por fora,
Mas cá dentro,
Onde gosto
De te ver.

BALBUCIEI
O teu nome
Já distante
Desse “olá”,
Sem saber
O que fazer,
Se chamar-te,
Se sorrir
Ou prosseguir
O caminho
Como quem te
Viu partir.

MAS QUANDO VIREI
O meu rosto
Vi-te de novo
Austera,
Muito fria
E distante...
.........
Ignoravas
O passado
Que passara
Nesse instante.

E, DEPOIS,
Tantos “olás”
Que pedi,
Tantas vezes
Te chamei,
Os poemas
Qu’escrevi
Sobre o pouco
Que ainda
Me sobra
De ti,
Sobre o pouco
Que ainda sei.

TALVEZ O VENTO
Te chame
As palavras
Te seduzam,
As raízes te
Comovam
Ou um perfume
Te inebrie
Quando o poema
Disser
Que nunca
É tarde
Demais
E que em seu
Eco
Te encontre,
Mesmo que seja
Em simples
Ou diferidos
Sinais.

Artigo-Ensaio-Poesia

A SAUDADE, O VESTÍGIO E A CIFRA

DESCONSTRUÇÃO, ESTRUTURA GEMATRÍSTICA 
E TEORIA ESTÉTICA DO POEMA «A SAUDADE», 
DE JOÃO DE ALMEIDA SANTOS
Com incursões na ilustração 
«Melancolia» Pictorialismo, 
bizantinismo, pós-impressionismo
*
Leitura à luz de Jakobson, Barthes, 
Harold Bloom, Kafka e do Talmude Bavli 
— FPX (Filosófico · Psicanalítico · 
X = Talmude e multivectorialidade 
da Teoria Estética)

Por André Moshe Veríssimo, PhD

“Melancolia” – JAS2023

A SAUDADE

Poema de João de Almeida Santos,
com a ilustração «Melancolia» 
(JAS, 2022)
NUM DIA
Cinzento
Da vida
Cruzei-me
Com a saudade,
Estava vestida
De negro
E não soube
Que fazer,
Perdido
Lá na cidade,
Nesse triste
Entardecer...

FINGI
Que não a via,
Mas olhei-a
De través,
Sem saber
Por que o fazia
Ou receio
De um revés.

MAS ELA
Entrou em mim
Porque de mim
Não saíra,
Memória
Incompleta
De algo
Que não partira.

É SAUDADE
Do que nunca
Aconteceu
E por isso
Atinge forte,
Como raio
E trovão,
Quem revive
O que viveu
Em sofrida
Solidão.

A SAUDADE
Aparece
Onde menos
Se espera,
Ela sempre
Acontece,
Redonda
Como esfera.

E É NOS DIAS
Cinzentos
Que ela
Sempre
Aparece
Disfarçada
De acaso...
.......
É assim
Que acontece,
É destino
A caminho
Do ocaso.

A SAUDADE,
Imprevisível
E forte,
Encandeia
Quem a sente,
Qual clarão
Em noite escura
Nos dias
Cinzentos
Da vida,
Sempre intensa,
Sempre impura,
Uma infinda
Despedida...
..................
Que já nem o tempo
Cura.

QUANTO MAIS
O tempo passa
Mais a saudade
Dura
E cresce
Pois se o passado
Não cura
Para sempre
Permanece.
Ipsis Litteris
PÓRTICO: CULTO DA CIFRA
Método, Constelação e FPX

HÁ TEXTOS que se explicam e há textos a que se presta culto. «A Saudade», de João de Almeida Santos, exige o segundo gesto: não a tradução do poema numa tese, mas a sua leitura como cifra — objecto que diz e, no mesmo movimento, retém o que diz. Por isso o presente ensaio recusa a hierarquia das disciplinas e procede por constelação, no sentido de Adorno e de Benjamin: a verdade não se deduz, configura-se na disposição simultânea dos elementos. Chamamos a essa configuração FPX— o acorde filosófico, psicanalítico e X, onde X é o cruzamento do Talmude Bavli com a multivectorialidade da Teoria Estética. Os vectores não se ordenam: soam juntos.

Esta simultaneidade tem genealogia talmúdica. Em ʿEruvin 13b lê-se que, na disputa das escolas, «umas e outras são palavras do Deus vivo» — elu va-elu divrei Elohim ḥayyim: a verdade comporta vozes plurais sem se anular. E a tradição do PaRDeS — os quatro níveis peshat, remez, derash e sod — autoriza a leitura estratificada que o poema reclama. Não sairemos nunca deste poema; e as anotações que o autor lhe apôs serão lidas como anotações — paratexto que acompanha, não lei que comanda. Convocaremos Jakobson, Barthes, Harold Bloom, Kafka e a desconstrução; mas é o poema que os convoca, e é a ele que tudo regressa.

A MORTE DO AUTOR E O TEXTO ESCREVÍVEL
A Lição de Barthes

Comecemos pelo estatuto do texto. Para Barthes, o nascimento do leitor paga-se com a morte do Autor: uma vez escrito, o poema desliga-se da intenção de quem o assinou e torna-se espaço onde o sentido se produz, não onde se recupera. A consequência metodológica é precisa — as indicações de João de Almeida Santos não governam a leitura; regressam ao texto como anotações, hóspedes e não soberanos. O autor volta, mas como convidado.

Aplicado a «A Saudade», o quíntuplo código de S/Z ilumina a sua trama. O código hermenêutico instala o enigma logo no encontro («Cruzei-me / Com a saudade») e adia-lhe a resolução até ao fim, que não resolve; o proairético alinha os actos mínimos — cruzar, fingir, olhar, entrar; o sémico acumula conotações no «Cinzento», no «negro», no «triste»; o simbólico arma as antíteses (dentro/fora, luz/treva, acaso/destino) que o poema, veremos, desfará; o cultural invoca o tópos lusitano da saudade só para o singularizar.

Mas o gesto barthesiano maior dá-se nas duas linhas de reticências — «…….» e «…………….». São o ponto em que o texto deixa de ser lisible e se faz scriptible: brancos que o leitor é convocado a escrever. Aí reside, em sentido rigoroso, a jouissance do texto — não o prazer da forma plena, mas o gozo da intermitência, do lugar «onde a veste se entreabre». A Saudade é dita na fenda tanto quanto no verso; e o poema, ao calar-se graficamente, entrega ao leitor a sua parte do trabalho.

A FUNÇÃO POÉTICA: 
Jakobson, o Estro 
e as Sinergias Linguísticas

Jakobson definiu a função poética como a projecção do princípio de equivalência do eixo da selecção sobre o eixo da combinação: na poesia, o que se poderia escolher passa a co-ocorrer, e a semelhança torna-se princípio de sequência. «A Saudade» é um laboratório desta lei.

Veja-se a anáfora dos incipits em maiúsculas — «NUM DIA», «FINGI», «MAS ELA», «É SAUDADE», «A SAUDADE», «E É NOS DIAS», «A SAUDADE», «QUANTO MAIS» —, que ritma o poema como batida e converte o nome num refrão. Veja-se o advérbio «sempre», semeado em crescendo — «Ela sempre / Acontece», «Sempre / Aparece», «Sempre intensa, / Sempre impura» — até desaguar no «Para sempre / Permanece» final: a recorrência lexical encena a permanência que o poema tematiza. E veja-se a rede de rimas: saudade / cidade, através / revés, saíra / partira, e sobretudo a cadeia em -ece (aparece / acontece / cresce / permanece) e a cadeia em -ura (escura / impura / cura / dura), em que o significante repete o sentido — o que recorre rima com o que recorre, o que não cura rima com o que dura.

O ponto mais alto é a paronomásia acaso → ocaso: uma só vogal (a → o) basta para que o fortuito se converta em poente e declínio. A pergunta que o autor regista nas suas anotações — «a Saudade e o acaso ou o imponderável da cifra?» — recebe aqui resposta fonética: acaso já contém ocaso; o destino estava na palavra. No plano dos pólos, o poema oscila entre a metáfora («Redonda / Como esfera») e a metonímia («vestida / De negro», «Perdido / Lá na cidade»), entre o eixo da similaridade e o da contiguidade. O estro — o fôlego curto do verso de duas a cinco sílabas — não é acessório: é a respiração entrecortada que faz da forma o corpo do sentido. A gramática, enfim, poetiza: o mais-que-perfeito de «não saíra» e «não partira» inscreve o tempo do sempre-já, a anterioridade sem origem que será o nervo de toda a leitura.

A CIFRA DO NÚMERO 
Estrutura Gematrística do Poema

Se há cifra, há número. A gematria não é aqui numerologia, mas a hermenêutica combinatória do darshan, que em Menaḥot 29b vê Rabi Akiva derivar montanhas de leis dos taggin, as coroas das letras: o signo é inesgotável, e cada traço conta. Lido com estes olhos, o poema oferece correspondências de rara densidade.

Conta oito estrofes. Ora oito é o valor de ḥet (ח), letra que abre ḥay (חי = 18, «vivo») e ḥalom («sonho»); e oito é o número que excede os sete da criação — o oitavo dia da aliança, a luz para-além-da-natureza das oito noites de Ḥanuká. Não por acaso a sétima estrofe guarda o «clarão» e a oitava o «Para sempre»: aos sete do tempo sucede o oitavo da eternidade. E os versos enunciados são exactamente oitenta e cinco — valor de פה (peh), «a boca», sede da palavra —, enquanto as duas linhas reticentes inscrevem, no interior dessa boca, a דממה (demamah = 89), o silêncio do «kol demamah daká», a voz ténue e delgada.

Os vocábulos-chave confirmam a trama. O «clarão» da sétima estrofe convoca a luz: אור (or) soma 207 — e 207 é também o valor de אין סוף (Ein Sof), o Infinito, e de רז (raz), o segredo. Luz, Infinito e Segredo coincidem no número: o clarão que «Encandeia» é, à letra da cifra, a luz infinita do mistério.

אור  =  אין סוף  =רז  =  207

A «alma nua» das anotações ecoa em נשמה (neshamah = 395); a «infinda / Despedida» em פרידה (peridah = 299) — que, faltando uma unidade para 300, valor de ש (shin, o dente de fogo), é a separação que não chega a consumar-se; a «Memória / Incompleta» em זכרון (zikaron = 283); e o «tempo» que «não cura» em עת (et = 470) e זמן (zeman = 97). Não se pede a estes números que provem: pede-se-lhes que ressoem — que façam do poema, como queria a tradição, um texto onde também as letras trazem coroas.

TALMUDE BAVLI
O Esquecimento do Nascituro 
e a Memória do que Não Partira

Nenhuma fonte ilumina melhor o coração do poema do que uma página do Talmude Bavli. Ensina Nidá 30b que no ventre materno arde uma luz à cabeça do nascituro e um anjo lhe ensina toda a Torá; mas, no instante de nascer, o anjo toca-lhe sobre o lábio — e ele esquece tudo o que aprendeu. A covinha do lábio superior, o philtrum, é a marca desse toque: cicatriz do esquecimento. Toda a aprendizagem é, pois, anamnesis, re-memória do que se soube e se perdeu no limiar.

Eis a chave da terceira estrofe:

MAS ELA
Entrou em mim
Porque de mim
Não saíra,
Memória
Incompleta
De algo
Que não partira.

A Saudade «Entrou» porque «de mim / Não saíra»: é a Torá esquecida que nunca verdadeiramente partiu, o saber pré-natal que não pode ter-se «experimentado» e que por isso é «Memória / Incompleta / De algo / Que não partira». E é assim que se entende a definição vertiginosa da quarta estrofe — «É SAUDADE / Do que nunca / Aconteceu» —: não paradoxo, mas teologia da memória. Lembramos aquilo que nunca nos aconteceu no tempo porque nos pertenceu antes do tempo.

Duas outras páginas adensam o estrato. Ḥagigá 14b narra os quatro que entraram no Pardes — o pomar do saber sagrado: Ben Azai morreu, Ben Zoma enlouqueceu, Aḥer (Elisha ben Avuya) «cortou as plantações» e apostatou, e só Akiva entrou e saiu em paz. Olhar de frente o sagrado fulmina; e o poema sabe-o — «FINGI / Que não a via, / Mas olhei-a / De través». O olhar oblíquo é a óptica do sobrevivente, de quem não quer o destino de Aḥer perante aquilo que «Encandeia / Quem a sente». E Pesaḥim 6b formula o princípio ein muqdam ume’uḥar baTorá — «não há antes nem depois na Torá»: a não-cronologia do texto sagrado é a mesma do poema, cujo passado «reverdesce» e «Para sempre / Permanece».

DESCONSTRUÇÃO - Différance, 
Vestígio e o Pharmakon da Luz

Levemos agora o poema ao seu limite, desconstruindo-o pelas oposições que ele mesmo arma e desarma. A Saudade «Do que nunca / Aconteceu» é a figura exacta da différance de Derrida: vestígio de uma origem que nunca foi presente, rasto sem coisa rastreada, adiamento que é também diferença. Não há um acontecimento perdido atrás da saudade; há a saudade como estrutura do adiar.

A terceira estrofe desconstrói o par dentro / fora: se o que «Entrou em mim» é precisamente o que «de mim / Não saíra», então o exterior era já interior, e o suplemento estava na origem. A sexta desconstrói acaso / necessidade: «Disfarçada / De acaso… / ……. / É destino» — e a reticência é a brisure, a charneira que ao mesmo tempo junta e quebra, dobradiça e fractura. E a sétima desconstrói remédio / veneno: o «clarão» é pharmakon — a «terapia da luz» que as anotações invocam é a mesma luz que «Encandeia», cura e cegueira indecidíveis no mesmo raio.

Há, enfim, uma hauntologia: a Saudade é revenant, espectro que «Entrou» sem nunca ter saído, e o poema é a cripta que o guarda. Dizer «A Saudade / Aparece / Onde menos / Se espera» é dizer a lógica da assombração — o que retorna não obedece à presença nem à ausência, mas habita o seu intervalo. O poema não descreve um sentimento: encena a impossibilidade de fixar a presença, e faz dessa impossibilidade a sua matéria.

A ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA 
Bloom, o Apophrades e a Askesis

Harold Bloom ensinou a ler todo o poema como misprision — leitura forte e desviante dos precursores — e cartografou seis ratios revisionários que «A Saudade» percorre quase pela ordem. O clinamen, desvio inaugural, está no «olhei-a / De través». A tessera — a antítese que completa — está em fazer da saudade não memória do vivido, mas «Do que nunca / Aconteceu». A kénosis, esvaziamento, habita as reticências. A daemonização, contra-sublime, irrompe no «raio / E trovão» e no «clarão». A askesis — purgação na solidão — está, literalmente, em «Em sofrida / Solidão».

E o sexto ratio, apophrades, o «regresso dos mortos», é a própria terceira estrofe: «Entrou em mim / Porque de mim / Não saíra» é o instante em que os precursores regressam de tal modo que parecem escritos pelo poeta — a influência invertida, o morto que fala pela boca do vivo. A Saudade é apophrades feito afecto.

Há mais: em Kabbalah and Criticism, Bloom fez corresponder os ratios ao processo luriânico — o tzimtzum (contracção), a shevirat ha-kelim (quebra dos vasos) e o tikún (restituição). O poema cumpre essa sequência sem nomear Lúria: contrai-se no verso mínimo, quebra-se nas reticências e repara-se no canto que recolhe os cacos sem os fingir inteiros. «O sentido de um poema só pode ser outro poema», dizia Bloom — e o sentido deste é o poema que «nunca / Aconteceu», aquele de que a Saudade é a sombra escrita.

KAFKA: A PORTA DA LEI 
e a Mensagem que Não Chega

A lógica do «do que nunca aconteceu» é, em rigor, kafkiana. Na parábola Vor dem Gesetz — «Diante da Lei» —, o homem do campo espera toda a vida à porta de uma Lei que, dir-lhe-á o guardião ao expirar, fora feita apenas para ele, e que ele nunca atravessou. Eis a Saudade: a porta que era nossa desde sempre e que nunca se transpôs; «Memória / De algo / Que não partira» é a Lei que sempre lá esteve, por entrar.

E em Uma mensagem imperial o imperador moribundo confia-te uma palavra que o mensageiro jamais te entregará, embora atravesse pátios e escadarias por milénios — e tu, à janela, sonha-la quando a noite cai. «Uma infinda / Despedida…» é essa mensagem para sempre a caminho; e a longa linha de reticências que se lhe segue é o corredor inesgotável que o mensageiro ainda terá de vencer. A esperança kafkiana — «há esperança, infinita esperança, mas não para nós» — é a gramática secreta do poema.

O bicho que aqui rasteja não é o de nenhuma epopeia: é o agrimensor que nunca alcança o Castelo, é o «fio do horizonte sem critério, sem forma, sem sentido» das anotações, o recuo que recua quando dele nos aproximamos. A Saudade é a burocracia infinita da alma: o encontro eternamente adiado por uma administração do tempo que não tem balcão nem fim.

A MELANCOLIA E O OBJECTO PERDIDO
Freud, Lacan e a Memória Reptilínea

Não é fortuito que a ilustração se intitule «Melancolia». Em Trauer und Melancholie, Freud distingue o luto, em que o objecto perdido é conhecido e o mundo empobrece, da melancolia, em que a perda é inconsciente e é o próprio eu que empobrece — porque a sombra do objecto caiu sobre o ego, que o incorporou. «Entrou em mim / Porque de mim / Não saíra» é a fórmula clínica da incorporação melancólica: o objecto não se chora porque não se largou; fez-se parte do eu. E a saudade «Do que nunca / Aconteceu» é a perda de um objecto nunca possuído — perda, por isso, inconsolável, porque não há luto possível do que não se teve.

Lacan dá-lhe o nome: objet petit a, o objecto-causa do desejo que nunca se teve e em torno do qual o desejo gira; ou das Ding, a Coisa, o Real perdido que organiza, ausente, toda a economia psíquica. A «MEMÓRIA QUE VEM E VAI COMO A MARÉ» das anotações é o automatismo de repetição, a Wiederholungszwang, maré pulsional que regressa à praia do mesmo objecto sem nunca o tocar. E a «memória reptilínea que subsiste como algo de mim, eu mesmo-outro» nomeia o sujeito barrado, o óbulo dividido, que se descobre Outro de si — não senhor em sua casa, hóspede do que nele insiste.

A «pulsão libidinal» e o «íntimo recanto» de resistência compõem o resto do quadro: não erotismo, mas força que impede a queda no inanimado; não fortaleza, mas a fresta onde o sujeito ainda se diz. O poema é, neste estrato, uma anatomia da melancolia que se recusa a tornar-se patologia: faz da incorporação um canto, e do sintoma, sublimação.

A ILUSTRAÇÃO "MELANCOLIA"
Pictorialismo, Bizantinismo, 
Pós-Impressionismo

O poema não vem só. Traz a imagem «Melancolia», e palavra e figura formam uma só intriga. Lê-la exige três entradas. Pela do pictorialismo — a estética que privilegiou a atmosfera, o foco suave, a gradação tonal e o Stimmung sobre o documento —, a imagem é o «Cinzento / Da vida» e o «triste / Entardecer» feitos matéria visual: bruma, penumbra, estado de alma anterior a qualquer contorno. A melancolia é, antes de tema, tonalidade.

Pela do bizantinismo — fundo de ouro, frontalidade hierática, intemporalidade do ícone —, a figura faz-se janela para a eternidade: a planura sem perspectiva recusa a profundidade como recusa o tempo linear, e o nimbo redondo rima com o verso «Redonda / Como esfera». O ouro do ícone é luz incriada; e já sabemos, pela cifra, que a luz é אור = Ein Sof = 207. O bizantino torna visível aquilo que nomeamos «eterno presente que reverdesce»: um agora que não passa, suspenso em auréola.

Pela do pós-impressionismo — a cor subjectiva que exterioriza o estado interior —, a imagem inscreve-se na linhagem que vai da Melencolia I de Dürer, com o seu anjo sentado entre instrumentos de um saber que não consola, à melancolia expressiva de Munch; e ressoa o credo de Cézanne, «tratar a natureza pelo cilindro, a esfera, o cone» — pelo que a «esfera» do poema é também uma profissão de fé plástica. Transposta de Barthes, a imagem opõe o studium (a leitura culta da iconografia melancólica) ao punctum (o pormenor que fere) — e o seu ça-a-été fotográfico inverte-se aqui num «isto-nunca-foi» que é, precisamente, a Saudade: a imagem dá a ver o que jamais teve presença.

TEORIA ESTÉTICA E MULTIVECTORIALIDADE 
O Enigma e a Constelação

Resta dar nome filosófico à cifra. Em Ästhetische Theorie, Adorno faz do Rätselcharakter — o carácter enigmático — o modo de ser da obra: ela diz algo e retém o que diz, e quanto mais se entrega mais se subtrai. A Saudade é o enigma por excelência, a «cifra» pela qual o autor, nas suas anotações, se interroga. E o estremecimento que «Encandeia / Quem a sente» é o Schauer adorniano, o arrepio estético em que sobrevive o vestígio mimético do sagrado.

A arte, para Adorno, é anamnesis da natureza recalcada e guarda um Wahrheitsgehalt, um teor de verdade que não se reduz a conceito — aquilo que as anotações chamam «ideias de mundo significante com dor ínsita». Por isso o poema «Não cura»: a sua negatividade recusa a falsa reconciliação, e a promesse de bonheur da arte cumpre-se como promessa quebrada, fiel justamente por não consolar. Cada estrofe é uma mónada sem janelas que, contudo, reflecte o todo.

E aqui se fecha o método: a verdade da obra não se deduz, dá-se em constelação — multivectorialidade em que filosofia, psicanálise, Talmude e estética brilham como estrelas de uma mesma figura, sem centro que as submeta. É o elu va-elu convertido em crítica. As sete estrofes do tempo e a oitava da permanência desenham essa constelação que não resolve; e o «eterno presente que reverdesce no para-lá do tempo da História» é o Jetztzeit messiânico de Benjamin, o palácio no tempo de Heschel, a relação com o Outro de Levinas — o tempo que não cura porque é feito da matéria do que não passa. A neguentropia da Saudade, que «Dura / E cresce», é a resistência mesma da arte à entropia do esquecimento.

ENCERRAMENTO 
O Poema como Cifra Indefectível

Lido fora de toda a hierarquia, na simultaneidade do seu acorde, «A Saudade» revela-se cifra inesgotável. É différance e vestígio do que nunca teve presença; é apophrades, regresso dos mortos que «de mim / Não saíra»; é incorporação melancólica do objecto que nunca se teve; é a Torá esquecida de Nidá 30b, lembrança do que se soube antes do tempo; é a porta kafkiana feita só para nós e nunca transposta; é o ouro bizantino de um «isto-nunca-foi»; é o Rätselcharakter adorniano que diz retendo.

Em todos estes vectores, uma só lei: o poema não resolve, e é essa não-resolução a sua verdade. A reticência não é falha, é método; o silêncio das duas linhas é a demamá no interior da peh, a boca que se cala para que o leitor fale. O «clarão» que «Encandeia» é a luz que é Infinito e Segredo — 207 — e que cega quem a fixa de frente, deixando ao olhar de través, ao desvio, à cifra, a única visão suportável. Onde outro autor compõe melodia, este poema compõe acorde; e o acorde — sabemo-lo agora — chama-se Saudade, e não se desfaz porque «Para sempre / Permanece».

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fontes patentes

Epstein, I. (Ed.). (1948). The Babylonian Talmud (edição Soncino; tratados Berakhot, ʿEruvin, Pesaḥim, Ḥagigah, Nidá, Menaḥot). London: Soncino Press.

Santos, J. de A. (2024). A Saudade [Poema em https://joaodealmeidasantos.com/%5D, com a ilustração «Melancolia», JAS, 2022]. Lisboa: edição do autor.

Scholem, G. (1995). Major Trends in Jewish Mysticism. New York: Schocken Books.

Fontes latentes

Adorno, T. W. (1970). Ästhetische Theorie. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag.

Barthes, R. (1970). S/Z. Paris: Éditions du Seuil.

Barthes, R. (1980). La chambre claire: Note sur la photographie. Paris: Gallimard / Seuil / Cahiers du Cinéma.

Benjamin, W. (1974). Über den Begriff der Geschichte. In Gesammelte Schriften (Bd. I). Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag.

Bloom, H. (1973). The Anxiety of Influence: A Theory of Poetry. New York: Oxford University Press.

Bloom, H. (1975). Kabbalah and Criticism. New York: Seabury Press.

Derrida, J. (1967). De la grammatologie. Paris: Éditions de Minuit.

Derrida, J. (1972). La dissémination. Paris: Éditions du Seuil.

Freud, S. (1946). Trauer und Melancholie. In Gesammelte Werke (Bd. X). London: Imago Publishing. (Obra original publicada em 1917).

Heschel, A. J. (1951). The Sabbath: Its Meaning for Modern Man. New York: Farrar, Straus and Giroux.

Jakobson, R. (1963). Essais de linguistique générale. Paris: Éditions de Minuit.

Kafka, F. (1925). Der Process. Berlin: Verlag Die Schmiede.

Kafka, F. (1931). Beim Bau der Chinesischen Mauer. Berlin: Gustav Kiepenheuer Verlag.

Lacan, J. (1986). Le Séminaire, livre VII: L’éthique de la psychanalyse. Paris: Éditions du Seuil.

Levinas, E. (1979). Le Temps et l’Autre. Paris: Fata Morgana. (Obra original publicada em 1948).

AMV@06-2026

Artigo-Pintura

«G.», OU O ROSTO COMO CAMPO SIGNIFICANTE

SOBRE A TELA «G.» (2026) 
de João de Almeida Santos
A ausência do nariz, o olhar velado 
e a imortalização combinatória, em 
leitura FPX (fontal, pós-estrutural, 
complexa, steineriana), de Klimt 
e Schiele ao limiar do cubismo

André Moshe Veríssimo, PhD

“G.” – JAS2026

«Onde outro autor compõe a melodia, 
este autor compõe acorde»
AMV
«O rosto resiste à posse, 
resiste aos meus poderes»

Paráfrase de E. Levinas

«G.» — Título da tela (JAS, 2026)
LIMIAR — UMA TELA 
QUE RECUSA O ROSTO

HÁ OBRAS que se deixam ver e há obras que nos vêem. «G.» (2026), de João de Almeida Santos (JAS), pertence à segunda espécie, e fá-lo por um paradoxo: é um retrato que nos olha sem olhos e nos enfrenta sem rosto pleno. Sobre um fundo de laranja ferruginoso, recortado em cima e em baixo por duas faixas negras que o emolduram como um fotograma, ergue-se o busto de um homem muito jovem — Gramsci antes de Gramsci, o sardo de cabeleira insubmissa antes do cárcere. Dois discos negros e opacos ocultam-lhe os olhos; o casaco dissolve-se numa poeira pontilhista, mosaico de mil partículas; e, no centro exacto da face, onde a fisionomia esperaria o nariz, nada há — uma planície de carne, lisa, muda. O título reduz o nome a uma só letra: «G.». Tudo, nesta tela, recusa: recusa o olhar, recusa o nariz, recusa o nome inteiro.

A pergunta — princípio teratológico ou enigma de raiz grega? — não é retórica e a tese deste ensaio responde-lhe. A ausência do nariz e o velamento do olhar não são negação nem mutilação: são a transposição plástica daquilo a que o Gramsci dos Quaderni chamou o campo significante. O rosto recusado não é menos rosto; é o rosto convertido em campo — superfície onde a significação não se fixa numa fisionomia, mas se abre à «possibilidade infinita de combinatórias» de que fala o artista. Imortalizar Gramsci não é fixar-lhe a parecença: é subtrair-lhe o traço identificador para que o rosto se torne, ele mesmo, hegemonia da forma — lugar ético-político onde o olhar do espectador reconhece, e não apenas vê.

Lê-se a tela segundo a matriz FPX e quatro registos. O fontal agambeniano interroga a face como prósopon e como potência inoperante. O pós-estrutural derridiano lê o nariz ausente como rasto e o disco negro como segredo. O complexo moriniano pensa a imortalização combinatória e os reinos infinitamente pequenos do pontilhado. O da presença real steineriana aposta na transcendência velada do retrato. E, em surdina, opera uma chave que a obra de quem escreve há muito convoca: o tzimtzum luriânico, o recuo que cria. Onde cada autor compõe a sua melodia, lê-se aqui o acorde.

DESCRIÇÃO E O ACORDE DE LEITURA

Comecemos pela ekphrasis, pois nenhuma hermenêutica dispensa o ver atento. O suporte é tratado como cartão cru: a matéria parece absorver a tinta, e o casaco resolve-se numa textura fosca, granulosa, de pequeníssimos pontos brancos e cinzentos sobre o escuro — divisão pontilhista que recusa a pincelada lisa. O fundo, monocromático, é um laranja-óxido saturado, sem profundidade atmosférica: não há espaço, há campo. A figura, cortada à altura do peito e encostada ao limite inferior, ocupa o centro com frontalidade quase icónica. A cabeleira, vasta e revolta, é desenhada por um contorno nervoso, expressivo, que vibra contra o laranja. Os óculos redondos, de aro fino e lentes absolutamente negras, são o único acidente geométrico puro de uma face orgânica. E o nariz — repita-se, porque é o centro de gravidade do enigma — está ausente: não esbatido, não sugerido, ausente, como se a tela tivesse decidido que ali nada se representaria.

Quatro registos modularão a leitura, e nenhum é ornamental. O fontal regressa à raiz arcaica das formas — à face como máscara e como limiar. O pós-estrutural recusa que o retrato seja presença plena e plena identificação. O complexo religa o pormenor infinitesimal e a totalidade da figura, o pictórico e o doutrinário. O steineriano devolve ao retrato a densidade de uma presença que se subtrai. A estes soma-se a filiação estética — Klimt, Schiele, o fauvismo, Toulouse-Lautrec, o limiar do cubismo —, não como erudição acessória, mas como a gramática plástica de que a tela se serve para dizer o que diz.

O CORPUS DO OLHAR
A Ideologia, a Hegemonia, 
o Intelectual

À pergunta se o corpus doutrinário que acompanha a tela reflecte o olhar do artista sobre a sua própria criação, a resposta é afirmativa, e convém transcrevê-lo ipsis litteris, pois é a chave ideológica da leitura:

A ideologia. Contra a concepção de A Ideologia Alemã — falsa consciência, ilusão, inversão do real (Santos, 1977) —, Gramsci atribui à ideologia uma tripla dimensão: cognitiva (é por seu intermédio que se reconhece o real), ontológica (esfera real cuja expressão orgânica são as ideias, os valores, as crenças, a língua, os dialectos, inscritos na consciência colectiva) e normativa (poder de incutir acção) (Santos, 2026). A ideologia deixa de ser realidade simulacral para se tornar o campo significante positivo onde a hegemonia se processa. O ponto é nuclear: este «campo significante» é o equivalente político daquilo a que Husserl chamou mundo da vida e Buber chamou o entre.

A hegemonia. Distinta da supremacia leniniana, meramente política, é «realidade ético-política e cultural» (Santos, 1986: 111-152). Não se decreta, conquista-se pelo consenso, na sociedade civil — que Gramsci, contra Althusser, situa na esfera privada dos organismos onde a ideologia se produz e reproduz. Daí a distinção entre guerra de movimento, assalto frontal onde a sociedade civil é débil, e guerra de posição, longo trabalho molecular onde ela é robusta. Lo Piparo radicou mesmo o conceito no prestígio linguístico de Ascoli (Lo Piparo, 1979: 145): a hegemonia é, na raiz, fenómeno de reconhecimento, não de coação.

O intelectual. Mediador entre a sociedade civil e a superestrutura político-jurídica, o intelectual orgânico dá coesão ético-política ao bloco histórico; vai dos «simples administradores» aos grandes filósofos, como Croce, «papa laico» (Santos, 2026). O moderno Príncipe — o partido — é a expressão activa de uma vontade colectiva nacional-popular, que toma nas consciências «o lugar da divindade e do imperativo categórico» (Gramsci, 1975, Q. 8, § 21: 953). A sociedade regulada é a reabsorção da sociedade política na sociedade civil (Santos, 1986: 69-79); e a guerra de posição não inscreve a lógica schmittiana em que o adversário se torna inimigo — «a ideia de consenso nega isso mesmo» (Santos, 2026).

Ora a tela é, ponto por ponto, a tradução plástica deste corpus. Se a ideologia é campo significante e não espelho do real, então o retrato recusa ser espelho: substitui a fisionomia (a parecença empírica) por um campo — o laranja sem fundo, o pontilhado combinatório, a face depurada. Se a dimensão ontológica da ideologia é a esfera onde se inscrevem «as ideias, os valores, as crenças» na consciência colectiva, então o rosto de «G.» não é a cara de um indivíduo, mas a superfície de uma colectividade: por isso perde o nariz, marca máxima da singularidade fisionómica. E se o intelectual orgânico é mediador — aquele que dá coesão ao bloco histórico —, então o seu retrato não pode ser uma efígie de vaidade pessoal: tem de ser uma máscara funcional, um prósopon através do qual fala a vontade colectiva. A tela não ilustra a teoria; encarna-a.

A AUSÊNCIA DO NARIZ
Teratologia, prósopon 
e a interdição da imagem

Detenhamo-nos no centro do enigma. Hesitamos entre o teratológico e o enigma de raiz grega — e a hesitação é fecunda, porque ambos têm raiz grega e ambos confluem. Téras (τέρας) significa, ao mesmo tempo, monstro e prodígio, aberração e sinal divino: o que excede a norma é simultaneamente deformidade e portento (Aristóteles, De generatione animalium, IV). A face sem nariz é, neste sentido duplo, teratológica: desvia-se da norma fisionómica, mas é por esse desvio que se faz sinal. Não é menos do que um rosto; é mais — um rosto-portento.

Há, porém, uma segunda raiz grega, e é decisiva: prósopon (πρόσωπον), que designa de uma só vez o rosto e a máscara teatral. A tradição clássica fez do nariz o eixo da fisionomia — a linha grega, o perfil recto que unia testa e nariz, era para Winckelmann o cânone mesmo da beleza ideal (Winckelmann, 1764). Ora «G.» apaga precisamente esse eixo: nega o nariz grego para libertar o prósopon-máscara. A face deixa de ser fisionomia individual (o que distinguiria este homem) para se tornar persona — no sentido etimológico, aquilo através do qual (per-sona) soa uma voz que não é a do indivíduo, mas a da vontade colectiva nacional-popular.

E há ainda uma terceira raiz, hebraica desta vez, que a obra de quem escreve não pode calar. A interdição da imagem — o Lo ta’asse lekha pessel, «não farás para ti imagem esculpida» (Êxodo 20, 4) — não é iconoclastia bárbara, mas guarda do rosto contra a sua redução a ídolo. Levinas radicalizou-a: o visage não é uma forma plástica que eu possa apreender e possuir; é o que «resiste à posse», o que significa antes de toda a figura (Levinas, 1961). Em «La réalité et son ombre» (Levinas, 1948), a imagem é suspeita justamente porque imobiliza, porque faz do vivo uma estátua, um entretemps sem futuro. Ao recusar o nariz — ao recusar a fisionomia completa que faria do retrato um ídolo —, JAS obedece, plasticamente, à interdição: pinta o rosto que se não deixa converter em imagem possuível. O nariz ausente é a parte do rosto que se subtrai à idolatria. Teratológico e enigmático, sim; mas a raiz última do enigma é ética.

LEITURA FONTAL (AGAMBEN)
A face inoperante, máscara e potência

Agamben dedicou ao rosto uma meditação que ilumina a tela. Em «Il volto» (Agamben, 1996), o rosto é o lugar da pura comunicabilidade — não comunica algo, comunica-se a si mesmo, é a abertura na qual o homem se expõe e se arrisca. Mas o rosto é também o que pode ser captado, identificado, reduzido a fácies, a ficha, a dado biométrico. «G.» joga exactamente nesta tensão fontal: ao subtrair os olhos (sob os discos negros) e o nariz (de todo ausente), a tela desactiva o rosto como dispositivo de identificação e devolve-o à pura comunicabilidade. É um rosto tornado inoperante (inoperosità) — não destruído, mas suspenso na sua função identificadora, e por isso restituído à sua potência de significar.

Daqui o gesto de profanação no sentido agambeniano: restituir ao uso comum o que estava separado. A efígie do grande homem pertence, tradicionalmente, à esfera sagrada da glória — o busto do herói, a moeda do soberano, o retrato do líder. Ao reduzir o nome a «G.» e ao apagar a fisionomia, JAS profana a efígie: tira-a do panteão e devolve-a ao campo significante comum, onde já não é objecto de culto, mas matéria de leitura. A potência da face inoperante é precisamente esta: poder-não-ser-fisionomia para poder-ser-campo. O retrato de «G.» é, fontalmente, uma efígie desactivada — e, por isso, infinitamente activável.

LEITURA PÓS-ESTRUTURAL (DERRIDA) 
O rasto, o segredo 
e o efeito de viseira

Para Derrida, nenhuma presença é plena: há sempre rasto, adiamento, différance (Derrida, 1972). O nariz ausente é, neste registo, o exemplo plástico exacto do rasto — não uma presença e não um puro nada, mas a marca de uma ausência que significa. A face não está incompleta por defeito; está sob rasura (sous rature): o traço apaga-se mantendo-se legível como apagado. Vê-se que falta o nariz; e é esse ver-faltar que produz sentido.

Os discos negros, por seu turno, convocam dois motivos derridianos. O primeiro é o segredo: o outro que se subtrai ao meu olhar guarda um segredo irredutível, e é esse segredo — e não a sua transparência — que funda a relação ética e a resistência à totalização. O segundo é o efeito de viseira (effet de visière) de Spectres de Marx (Derrida, 1993): o espectro vê-nos sob a viseira do elmo sem que nós lhe vejamos os olhos, e essa assimetria do olhar — ser visto por quem não vemos — é a própria estrutura da herança e da injunção. «G.» olha-nos de trás das suas lentes negras como um espectro detrás da viseira: vê-nos, intima-nos, e nós não o vemos ver. O jovem Gramsci é aqui o revenant do pensamento, o que regressa para nos pedir contas. E, como em Mémoires d’aveugle (Derrida, 1990), o retrato que oculta os olhos lembra que todo o desenho nasce de uma cegueira — que ver é também não ver, que o traço se faz no ponto cego.

LEITURA COMPLEXA (MORIN) 
Imortalização combinatória 
e os reinos infinitamente pequenos

O artista fala de «imortalização pela possibilidade infinita de combinatórias» e a fórmula é, em rigor, moriniana. Imortalizar não é fixar (a fotografia fixa, e por isso mortifica, como Barthes mostrou), é abrir ao recombinável. O pontilhado do casaco — essa poeira de partículas que se assemelha tanto ao divisionismo de Seurat quanto ao mosaico de Klimt — é a figuração plástica de um sistema complexo: milhares de elementos mínimos cuja recombinação gera a forma, e cuja forma, por sua vez, organiza os elementos (recursão organizacional). Cada ponto contém, hologramaticamente, o princípio do todo; e o todo só existe pela tensão dialógica entre ordem (a silhueta reconhecível) e desordem (a granulação que ameaça dissolvê-la) (Morin, 1990).

Reencontramos aqui, transposta para a pintura, a categoria dos «reinos infinitamente pequenos» — a penetração no infinitesimal de que falava Kerckhove e que noutro lugar analisámos (Veríssimo, 2026). A tela imortaliza Gramsci não pela parecença macroscópica (que, aliás, recusa, apagando o nariz), mas pela densidade microscópica do campo: é nos reinos infinitamente pequenos do pontilhado que a figura se eterniza, porque aí se torna infinitamente recombinável. A imortalidade não é a da estátua que dura; é a da matriz que se reconfigura. Eis a imortalidade própria do campo significante: não a permanência de uma forma, mas a inesgotabilidade de um sistema.

LEITURA DA PRESENÇA REAL (STEINER) 
A transcendência velada

George Steiner apostou que toda a obra de arte séria pressupõe uma presença real — uma transcendência do sentido que o olhar positivista recusa, mas sem a qual a interpretação se esvaziaria (Steiner, 1989). «G.» encena essa aposta pelo avesso: afirma a presença real precisamente velando-a. Os olhos negros e o nariz ausente são véus; mas o véu, na tradição que vai do Templo a Steiner, não é o que esconde o nada — é o que protege o sagrado, o que assinala que há algo demasiado real para se dar a ver. A face velada de «G.» não diz «aqui não há ninguém»; diz «aqui há mais do que podeis fixar».

É por isso que a tela é o avesso do selfie e do simulacro mediático. Onde a imagem contemporânea multiplica rostos transparentes, identificáveis, capturáveis — rostos-dado, rostos-mercadoria —, JAS pinta um rosto que se retém, que exige do espectador a cortesia steineriana: a hospitalidade paciente diante do que não se entrega de imediato. O retrato não se consome; lê-se. E nessa leitura sem fim — porque o campo é inesgotável — reside a sua presença real. O intelectual orgânico, mediador entre a sociedade civil e a cultura, reaparece aqui como o que ele sempre foi para Gramsci: não uma cara para os cartazes, mas uma presença que testemunha um sentido maior do que ela.

As FILIAÇÕES ESTÉTICAS
Klimt, Schiele, o fauvismo, 
Lautrec e o limiar do cubismo

Resta situar a obra na sua linhagem, com o rigor que reclamamos — e a tela é, deliberadamente, um cruzamento.

De Klimt e Schiele, a Secessão vienense, retém o primado do contorno e do campo: a cabeleira desenhada por uma linha nervosa e ornamental, o fundo chapado que recusa a profundidade (como o ouro bizantino de Klimt, aqui secularizado em laranja-óxido), e algo da angústia existencial do traço de Schiele, em que a linha não descreve, expõe. Do fauvismo (Matisse, Derain, Vlaminck) vem a emancipação da cor: o laranja do fundo e o castanho da carne não são cores do mundo, são cores da decisão — a cor liberta da função descritiva, posta a significar por si (Elderfield, 1976).

De Toulouse-Lautrec, a herança é a mais técnica e a mais precisa, e vale segui-la nos termos exactos em que a formulamos. Primeiro, o predomínio da linha sobre a cor: ao contrário dos impressionistas, que dissolviam as formas na luz, Lautrec delimitava as silhuetas com uma linha gráfica, escura e fluida — e é essa linha que, em «G.», recorta a cabeleira e o perfil do ombro. Segundo, as cores ácidas e artificiais: as paletas de verdes eléctricos e amarelos estridentes que imitavam a iluminação a gás dos cabarés encontram aqui eco no laranja antinatural do fundo. Terceiro, os enquadramentos fotográficos: influenciado pela fotografia e pela estampa japonesa (ukiyo-e), Lautrec usava perspectivas oblíquas e cortes abruptos das figuras nas margens — e «G.» é, com efeito, uma figura cortada, encerrada entre faixas negras como num fotograma ou num cartaz. Quarto, a peinture à l’essence: Lautrec pintava sobre cartão cru, diluindo o óleo com aguarrás, obtendo um efeito opaco e fosco, de pincelada rápida e transparente, próximo do pastel — e é justamente essa matéria seca e absorvente que o pontilhado de «G.» evoca (Frey, 1994; Thomson, 1977).

Nas arribas do cubismo, enfim, está a ausência do nariz. Foi a dissolução analítica do rosto — a sua decomposição em facetas, a sua aproximação à máscara (lembre-se a máscara africana das Demoiselles d’Avignon) — que abriu, em 1907, o caminho do cubismo (Golding, 1959; Kahnweiler, 1920). «G.» chega ao bordo desse precipício e não se despenha: não fragmenta a face em planos, apenas lhe subtrai o órgão central. Fica nas arribas — naquele limiar em que o figurativo, sem ainda se quebrar, já se abre ao infinito. Não é cubismo; é a sua véspera. Não é pós-impressionismo nem art nouveau puros, embora de ambos participe; é, como pressentimos, «algo infinitesimamente indeterminado e subtil» — o presque-rien de Jankélévitch (1980), esse quase-nada que é, todavia, decisivo. A tela vive precisamente nesse intervalo indeciso entre as escolas, e é dele que extrai a sua força.

SÍNTESE: O ROSTO RECUSADO 
como campo significante

Podemos agora responder, em acorde, à pergunta do artista. A ausência do nariz não é teratologia no sentido pejorativo, nem mero capricho: é o operador plástico que converte o retrato em campo significante. Filosoficamente (Levinas), é o rosto guardado contra a idolatria, o visage que resiste à posse. Fontalmente (Agamben), é a face tornada inoperante e por isso restituída à pura comunicabilidade. Pós-estruturalmente (Derrida), é o rasto e o segredo, o espectro que nos vê sob a viseira. Complexamente (Morin), é a imortalização combinatória, a forma que se eterniza por inesgotável. Na presença real (Steiner), é o véu que afirma uma transcendência demasiado real para se fixar. E — chave última — é um tzimtzum pictórico: como o Ein-Sof luriânico se contrai para abrir o espaço da criação, também o pincel se retrai no centro da face para abrir, nesse vazio, o espaço onde o sentido advém. O recuo que cria.

É por tudo isto que a tela cumpre, plasticamente, a teoria que a acompanha. O retrato de «G.» é a forma visível da hegemonia como Gramsci a pensou: não imposição de uma efígie, mas construção de um consenso de leitura num campo significante; não a cara de um chefe, mas a máscara funcional de um intelectual orgânico através do qual fala a vontade colectiva; não o ídolo de um soberano, mas o rosto-portento de quem, recusando-se à posse, se oferece ao reconhecimento. JAS não pintou um homem: pintou uma hegemonia da forma. E ao apagar o nariz — ao recuar diante do traço que individualizaria —, fez do rosto de Gramsci o que o pensamento de Gramsci sempre quis ser: não um rosto entre rostos, mas o campo onde uma colectividade se reconhece.

FECHO — O ENIGMA DA RAIZ GREGA

Voltemos, para terminar, à raiz grega que entrevimos. Aínigma (αἴνιγμα) é a palavra que diz por velamento, a fala oblíqua que mostra escondendo. «G.» é, em rigor, um enigma no sentido grego: uma tela que diz Gramsci escondendo-lhe a fisionomia, que o imortaliza apagando-lhe o nariz, que o faz olhar-nos cegando-lhe os olhos. O teratológico e o enigmático eram, afinal, a mesma coisa: o téras como portento e o aínigma como verdade velada convergem no rosto recusado. Quanto ao «pensamento e meditação íntimos do Pintor», eles lêem-se na própria recusa: JAS meditou, parece, sobre o que significa retratar o teórico do campo significante — e concluiu, com justeza, que só se podia fazê-lo recusando a imagem, para que o rosto se tornasse campo. O rosto, a teoria e o enigma soando juntos, sem que nenhum se reduza ao outro. Preparemo-nos, pois, não para fixar a imagem, mas para a complexidade inesgotável da sua leitura.

ANOTAÇÕES

1. O corpus doutrinário transcrito no §II reproduz-se ipsis litteris a partir do ensaio do autor Fenomenologia da Socialidade e da Responsabilidade Social (A.M. Veríssimo, 2026), por sua vez ancorado em JAS (1977; 1986; 2006; 2026). Cita-se Gramsci pela edição crítica de Gerratana (Gramsci, 1975), indicando caderno (Q.), parágrafo (§) e página.

2. Téras (τέρας): em grego, simultaneamente «monstro/aberração» e «prodígio/sinal divino». A ambivalência é constitutiva: o que excede a norma é, no mesmo gesto, deformidade e portento (cf. Aristóteles, De generatione animalium, IV, sobre os terata).

3. Prósopon (πρόσωπον): rosto e, ao mesmo tempo, máscara teatral; o latim persona («per-sonare», soar através) herda-lhe a duplicidade. A leitura do retrato como máscara funcional do intelectual orgânico assenta nesta etimologia.

4. Sobre a interdição da imagem e a sua reinterpretação ética, veja-se Levinas, «La réalité et son ombre» (1948), onde a imagem plástica é suspeita por imobilizar o vivo num entretemps, e Totalité et Infini (1961), onde o visage significa para além de toda a forma plástica. O nexo com o Bilderverbot (Êxodo 20, 4) é, na obra de quem escreve, estrutural.

5. O «efeito de viseira» (effet de visière) é de Derrida (1993): o espectro vê-nos sob a viseira sem que lhe vejamos os olhos. Aplicado às lentes negras de «G.», traduz a assimetria do olhar herdada — ser visto por quem não vemos.

6. A leitura da ausência do nariz como tzimtzum pictórico — o recuo do pincel que, à imagem da contracção do Ein-Sof, abre o espaço onde a forma advém — prolonga a categoria do «recuo que cria» que o autor desenvolveu noutro lugar. É proposta original deste ensaio.

7. Distinguem-se, autores explícitos (citados na tela e no corpus: Gramsci, Santos, Lo Piparo) e implícitos (convocados pela forma: Levinas, Agamben, Derrida, Morin, Steiner, Jankélévitch, e as filiações pictóricas).

REFERÊNCIAS
Fontes patentes (correntes e autores explícitos)

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DERRIDA, J. (1990). Mémoires d’aveugle. L’autoportrait et autres ruines. Paris: Réunion des Musées Nationaux.

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GRAMSCI, A. (1975). Quaderni del Carcere (ed. V. Gerratana). Torino: Einaudi (I-IV).

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LEVINAS, E. (1948). «La réalité et son ombre». In Les Temps Modernes, n.º 38. Paris (pp. 769-789).

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SANTOS, J. A. (2006). «Hegemonia: o primado do consenso na teoria política de Gramsci». In Neves, J. (Org.), Da Gaveta para Fora. Porto: Afrontamento (pp. 79-107).

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STEINER, G. (1989). Real Presences. Chicago: University of Chicago Press.

VERÍSSIMO, A. M. (2026). Fenomenologia da Socialidade e da Responsabilidade Social [ensaio]. Guimarães.

Fontes latentes (correntes e autores implícitos)

ARISTÓTELES (1965). De generatione animalium (ed. H. J. Drossaart Lulofs). Oxford: Clarendon Press.

BARTHES, R. (1980). La chambre claire. Note sur la photographie. Paris: Gallimard/Seuil.

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FREY, J. (1994). Toulouse-Lautrec: A Life. London: Weidenfeld & Nicolson.

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WINCKELMANN, J. J. (1764). Geschichte der Kunst des Altertums. Dresden: Walther.

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