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Sobre joaodealmeidasantos1

Professor universitário, escritor, poeta, pintor. Publicou várias dezenas de livros, seus e em co-autoria, de filosofia, política, comunicação, romance, poesia, estética. Foi professor nas universidades de Coimbra, Roma "La Sapienza", Complutense de Madrid e Lusófona (Lisboa e Porto). Publica semanalmente, neste site, ensaios, artigos, poesia e pintura.

Artigo

OS MANIFESTOS ROSACRUZES

Uma tradição secreta com 400 anos de história
(Alma dos Livros, 2020, Pág.s. 271).
Autor - Rui Lomelino de Freitas

Por João De Almeida Santos

Rosacruz1

Rui Lomelino de Freitas, João De Almeida Santos, Ricardo Antunes na FNAC de Alfragide, 17.11.2020.

UMA BOA CONVERSA, hoje, 17.11.2020, na FNAC de Alfragide, com o autor do livro, Rui Lomelino de Freitas e o Editor da “Alma dos Livros”, Ricardo Antunes. A gravação ficará disponível no Youtube da FNAC a partir de 6 de Janeiro de 2021. Um excelente livro, com uma longa, exaustiva e cuidada introdução, os três Manifestos (“Fama Fraternitatis R.C.”, “Confessio Fraternitatis R. C.” e “Núpcias Alquímicas”), um Glossário com 30 entradas e uma bibliografia fundamental com 38 títulos. Ficamos a saber quase tudo sobre os Rosacruzes.

Os Princípios

AO QUE PARECE, tudo começou em Tuebingen am Neckar, a bela cidade da Suábia, onde, há muito, num período muito importante da minha vida, vivi, em Wanne, Hartmeyerstrasse. E tudo começou sobretudo graças a Tobias Hess e a Johannes Valentinus Andreae. Os três Manifestos são de 1614, 1615 e 1616. O último é um longo conto de cerca de 100 páginas. Os seus autores queriam mudar o mundo, enviando os Manifestos aos poderosos da Europa e propondo uma reforma geral e universal de todo o mundo. Inspiravam-se no hermetismo, no esoterismo cristão, na mística e na filosofia islâmicas e em Paracelso, o principal inspirador. Sua figura central era Cristão Rosacruz, o modelo humano, ou ideal-tipo, em que se ancoravam os rosacruzes. Moviam-se no interior da alquimia e das suas práticas, conducentes à espiritualização integral do ser humano. Os princípios em que se baseavam eram o regresso às Sagradas Escrituras, a filosofia natural, a centralidade do indivíduo, os valores da humildade, do silêncio e da cooperação, o paralelismo especular entre o macrocosmos e o microcosmos, a exigência de separação e purificação do contingente para a espiritualização e o acesso ao universal, com vista a uma reforma geral e universal de todo o mundo, a sua verdadeira utopia.

O Espírito do Tempo

É NA CONFESSIO que estão consignados os 37 princípios por que se regiam. Também para eles o número sete era o número perfeito: por exemplo, são sete os dias que Cristão Rosacruz leva para se conduzir com a sabedoria possível e permitida pelo Supremo às Núpcias Alquímicas. Johannes Valentinus Andreae, a quem são atribuídas as “Núpcias Alquímicas”, também escreveu uma utopia, “Christianopolis”, que integra o conjunto constituído pelas utopias da época, a “Utopia” (1516), de Thomas Morus, a “Cidade do Sol” (1602) , de Campanella, e a “Nova Atlântida” (1627), de Francis Bacon. Em geral, os rosacruzes alinhavam com o espírito da época, com a revolução científica (Copérnico, Galileu e Newton), a reforma luterana e a calvinista, o renascimento, o humanismo italiano (Pico della Mirandola, Lorenzo Valla e Marsilio Ficino) e com a recusa da autoridade do Papa e do seu poder universal de legitimação dos poderes políticos nacionais (através de bulas). Nessa altura, Hugo Grotius deu a machada final ao escrever o Mare liberum, publicado em 1609. Ou seja, os rosacruzes refutam a mundividência medieval, a autoridade do Papa e apostam numa reforma geral  e universal  da humanidade, inscrevendo-se nos grandes princípios que estruturam a modernidade.

Zenão, o Alquimista de Yourcenar

O QUE ME SUSCITOU uma enorme curiosidade foi o paralelismo entre esta mundividência e a de Zenão, o médico, filósofo e alquimista da Marguerite Yourcenar de “L’Oeuvre au Noir” (Paris, Gallimard, 1968). Zenão e Cristão Rosacruz. A mesma inspiração, a do médico suíço Paracelso. Um trajecto de viagens parecido. E sobretudo paralelismo com Paracelso, o grande inspirador dos Rosacruzes. Cito duas passagens da própria Yourcenar, na nota final à obra: Zenão teria “trinta e um anos quando morreu Paracelso”, “dont je le fais l’émule et parfois l’adversaire”(p. 495); e, ainda, “as viagens de Zenão, a sua tripla carreira de alquimista, de médico e de filósofo (…), seguem muito de perto o que se sabe ou o que se conta deste mesmo Paracelso, e o episódio da permanência no Oriente, quase obrigatório na biografia dos filósofos herméticos, inspira-se também nas peregrinações reais ou lendárias do grande químico suíço-alemão” (p. 497). Há evidentemente uma enorme simpatia da autora pela figura de Zenão (e, claro, pela alquimia, implicitamente considerada superior pelo desenho da simpática figura do protagonista) ao lado das convenções impiedosas e obscurantistas dos poderes político-religiosos daquele tempo. Mas era um moderado, Zenão. E nisto talvez se afastasse dos rosacruzes, que execravam a figura do Papa e previam a sua iminente queda. O título do livro (“Oeuvre au Noir”) designa nos tratados alquímicos a fase da separação e da dissolução da substância que era, diz-se, a parte mais difícil “du Grand Oeuvre” (p. 501). Convergência perfeita, se se entender que esta era a operação que visava superar (pela separação, pela purificação) a contingência, as rotinas e os preconceitos com vista à obtenção do ouro espiritual (pelos rosacruzes). A obra correspondia àquele balanço a que Kant chamou “Ausgang”, a saída da humanidade do estado de menoridade, pela elevação espiritual ao universo da Razão, balanço muito valorizado pela reinterpretação que Michel Foucault fez do escrito de Kant “Was ist Aufklaerung?” no ensaio “Qu’est-ce que les Lumières?” (1993).

“L’Oeuvre au Noir” baseou-se num minucioso estudo documental sobre a mesma época da Fraternidade Rosacruz, tendo Zenão nascido 104 anos antes de ter sido publicado o primeiro Manifesto. Mas, como vimos, a inspiração era a mesma, as fontes eram as mesmas, a orientação alquímica era a mesma. Talvez o assunto já esteja estudado, mas, mesmo assim, é caso para eu próprio avançar nesta pesquisa um pouco, no futuro.

Conclusão

O MOVIMENTO ROSACRUZ continuou e continua, seguindo caminhos diversificados. A complexa simbologia que encontramos nas “Núpcias Alquímicas” pode muito bem ser o pretexto para tentarmos decifrar o oculto que se encontra por detrás daquela riquíssima e fantástica imagética linguística, que, de resto, evolui ao longo de sete dias, sete. Alguma geometria e perfeição geométrica se encontrará nesta sofisticada narrativa. Talvez a leitura da utopia de Christianopolis, completada pela releitura de L’Oeuvre au Noir, ajude a fazer luz. 

NupciasAlq

Elaboração de minha autoria sobre texto do Quinto Dia das “Núpcias Alquímicas”.

Poesia-Pintura

COR, DÁ-ME COR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Cor”.
Original de minha autoria
para este poema.
Novembro de 2020.

Jas_TCor151120Pub

“Cor”. Jas. 11-2020.

"Donde termina el arco iris, 
en tu alma o en el horizonte?"

Pablo Neruda 

POEMA – “COR, DÁ-ME COR”

COR, DÁ-ME COR,
Fico mais perto
De ti
Se vieres
Docemente
Com o vento.
Cor, dá-me cor
Que as palavras
Coloridas
Já me sabem
A cinzento.

OU TALVEZ NÃO.
Palavras
Nunca me faltam
Nem vivo
Na escuridão,
Ainda consigo
Dizer-te
E com elas
Dar-te a mão.

TENHO-AS
Que me cheguem
Para cantar
Ao vivo
O concreto
Do teu nome,
Ouvir assim
O teu eco
Quando a tristeza
Irrompe
E esta dor
Me consome...

AH, MAS A COR
Se for intensa
E nascer
Por explosão,
Se tiver
Em contraponto
Palavras
De emoção
Que dão ritmo
Ao azul
Dos teus sonhos
De papel...
.................
Ah, sim, é tudo
O que eu preciso
Pra te esculpir
A cinzel.

DÁ-ME COR
Que eu sou
Sensível
À luz fulgente
Do teu olhar,
Vagueio nas
Flores que colho
Quando vestes
O vermelho,
A cor viva
Com que brilhas
No cristal
Do meu espelho...
...............
Ou te cobres
Com o manto
Do arco-íris
Que és.

AH, TU ÉS COR,
Gota d’água
Suspensa
No fio
Do horizonte,
Iluminada
De ouro
Pelo sol
Que já desponta
Lá em cima,
No meu Monte.

DANÇAS COM ELA,
A cor,
E com ela 
Adormeces...
..........
Por amor.
É sopro
Da tua alma
Quando a vida
Se faz sonho
E lá no alto
Do céu
Logo te cobres
De azul...

MAS EU GOSTO
De te pintar
Com palavras,
Onde o azul é
Mais quente,
O verde
Esse teu manto
E o vermelho
Emoção
Nos poemas que
Te canto
Com paixão...
...............
Vibra o verso
Em amarelo
Dói-me o peito
De amor
E já treme
A minha mão.

É NA COR
Destas palavras
Que te revejo
As vezes
Que eu quiser
Pois dou corpo
Ao desejo
Nos poemas
Que fizer.

CADA VEZ MAIS
Gosto de cor,
De me confundir
Com ela,
Dançá-la
Como vida
Em efusão,
Fogo de artifício
Que embriaga
Os sentidos
Como lava de
Vulcão...

EVOCO
O Poeta-Mestre
Quando pedia
“Mais luz”
Já no seu leito
Fatal.
Tinha luz
Dentro de si
Mas a cor
Já não entrava
No portal.
Era cinzenta
E ténue
A cor
Que lhe restava
E logo escurecia
Quando a porta
Se fechava...

LUZ É COR,
Desperta da
Letargia,
Ressuscita
Do torpor,
Celebra vida
Com magia,
É canto,
É alquimia,
Chilreio de
Passarinho
Que anuncia
O meu voo
Aos azuis
Que por lá pintas
Como se fossem
Meu ninho.

AH, SIM!
Mas eu gosto
É de palavras,
Foi com elas
Que te vi
Nas letras
Que desenhei,
Os rostos
Que descrevi,
Emoção
Que não calei.

E TU CABES
Em quatro letras
Quando teu
Nome
Tem sete
E me sabe
A Primavera
No meu Jardim
Encantado
Onde tudo
Me fascina
Porque a beleza
Impera
E eu fico
Apaixonado.

Jas_TCor151120PubRec

“Cor”. Detalhe.

Artigo

LINHAS VERMELHAS

  Três Casos e uma Reflexão

Por João De Almeida Santos

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“A Linha do Horizonte”. Jas. 11-2020.

ARTIGO – “LINHAS VERMELHAS”

OS CASOS SÃO OS SEGUINTES: Steve Bannon o ideólogo do nacional-populismo internacional viu a sua conta e um vídeo apagados do Facebook, do Twitter e do Youtube por manifesto atentado ao “código de conduta” destas redes sociais; o antigo líder do Labour inglês, Jeremy Corbyn, foi suspenso do partido por permitir o crescimento do anti-semitismo dentro do partido, tendo ele próprio posições que roçam o anti-semitismo; o terceiro caso refere-se à formação de um governo regional nos Açores, da responsabilidade do PSD, ancorado num “geringonça” de direita que integrará o partido “Chega”.

Steve Bannon

O PRIMEIRO CASO remete para a necessidade, cada vez maior, de introduzir uma qualquer regulação nas redes sociais, dotando-as de um “código de conduta” (expressão que já foi usada pelas próprias plataformas) em rede com vista a impedir comportamentos não aceitáveis à luz dos grandes princípios das declarações universais e, em qualquer caso, não admitidos pela generalidade das constituições das democracias representativas. As administrações das grandes plataformas digitais têm esse poder e sofisticados meios digitais para controlar o uso das redes. Os meios de comunicação têm os chamados códigos éticos (que pouco praticam) e uma clara imputabilidade de responsabilidades legais e morais. As plataformas já têm alguma experiência neste controlo, tendo em 2019 assinado um “código de conduta” com a Comissão Europeia com vista a impedir a desinformação durante as eleições para o Parlamento Europeu. Bannon passou claramente das marcas ao dizer o que disse sobre Christopher Wray, o Director do FBI, e de Anthony Fauci, Director do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas. Ainda que fosse uma mera figura de estilo, ela seria sempre passível de uma interpretação violenta por parte dos militantes mais radicais, passando das palavras aos actos. Ao comportamento na rede, porque é público, deveria ser aplicado (mas considero que deveria mesmo quando é restringido ao círculo digital de amigos ou comunitário, no interior das plataformas), com as devidas adaptações à natureza do meio, um código de conduta próximo daquele que é aplicável aos media, com os princípios de uma comunicação responsável (tenho experiência pessoal de alguns cuidados – excessivos – que duas plataformas já usaram com duas obras minhas e não me queixo, porque prefiro isso ao seu uso desbragado).

Jeremy Corbyn

O CASO DE CORBYN é de uma extrema gravidade e fortemente prejudicial para o Labour: a suspensão de um líder do Labour acusado de posições que permitiram ou favoreceram o anti-semitismo no Labour, motivando a saída de inúmeros e importantes militantes judeus. Corbyn foi líder vários anos. O seu radicalismo pode explicar, por um lado, a não contida aversão à actual União Europeia e, lá no fundo, no fundo, desejar o Brexit, e, por outro, também uma certa aversão às políticas de Israel, em particular à sua política internacional. Sim, mas as diferenças políticas não se podem transformar em abstracto e ofensivo preconceito contra um país democrático onde até há um partido trabalhista – membro da (quase defunta) Internacional Socialista – que tem vindo a alternar-se no poder com o Likud, o centro-direita. Imagino o que não teria sofrido o Prémio Nobel da Paz e ex-Presidente de Israel, Shimon Peres, ao ver assim tratado o seu país por um grande partido irmão. Mesmo assim, trata-se de uma insólita suspensão de um ex-líder partidário num partido com os pergaminhos do Labour. A acusação veio da Comissão britânica dos Direitos Humanos e Corbyn, de facto, foi suspenso. O fundo da questão resume-se a isto: não se trata de diferenças políticas ou de juízos políticos sobre concretas políticas, mas sim de uma posição anti-semita de fundo de Corbyn que arrastou o partido para uma posição muito delicada ou mesmo insustentável, no plano interno e no plano internacional. Por isso, o actual líder, Keir Starmer acabou por tomar esta radical e insólita decisão: suspender Corbyn do Labour. Talvez seja excessiva, pois, Corbyn já não é líder, mas politicamente tem o significado de um alto preço pago pelo Labour e pelo próprio Jeremy Corbyn (que já disse que não aceitará a punição). Mas esta é questão interna de um partido político.

O caso do “Chega”

O TERCEIRO CASO diz respeito à formação do Executivo regional dos Açores na sequência das recentes eleições. Pondo de parte que o Ministro da República cometeu um erro grave ao não indigitar Vasco Cordeiro, que venceu as eleições, para formar governo e submeter o seu programa à vontade soberana dos representantes, retirando daí as devidas consequências no caso de o programa não passar, a questão politicamente mais delicada é a de a coligação liderada pelo PSD integrar o partido “Chega”. O PS declarou que, ao negociar com este partido, o PSD passou uma linha vermelha, ou seja, se colocou numa posição politicamente insustentável. Creio que o PS foi acusado, pela direita, do mesmo quando formou a geringonça com o PCP e o Bloco. Agora é a vez do PS. Uma simetria perfeita que não se deve estranhar. Que seja o parlamento a determinar a solução governativa é a natureza do sistema representativo que o exige, mas já a aliança com este partido corresponde a passar uma linha vermelha, diz o PS. Linha vermelha de risco, suponho. Não tanto, acho eu, linha vermelha constitucional. Sim, do ponto de vista do combate político e da defesa dos seus princípios o argumento tem todo o sentido, em especial para um partido do centro-esquerda, como é o PS. Posição, de resto, confortada pelo abaixo-assinado de algumas personalidades da chamada “direita democrática”, ontem tornado público. Mas, do ponto de vista institucional, não, já que o Chega é um partido legalmente constituído, está representado nos Parlamentos nacional e regional e, que se saiba, nunca foi objecto de qualquer acção que visasse declará-lo inconstitucional. A democracia tem esta virtude insofismável: permitir que quem age à revelia dos seus valores possa existir politicamente desde que cumpra as regras constitucionalmente e legalmente determinadas. Isto, para já não falar do poder da lógica integrativa: é melhor que este partido se exprima no interior das instituições do que o faça fora, nas ruas e nas praças, eventualmente com violência.  Lembro que em Itália o xenófobo Matteo Salvini, “irmão” mais velho de André Ventura, foi vice-primeiro ministro e que, um ano e meio depois, acabou por sair do governo e conhecer um drástico redimensionamento na sua aceitação pela opinião pública, passando de um score eleitoral de cerca de 34% para valores médios das sondagens equivalentes a cerca de 24% (8 sondagens, no mês de Outubro). Uma democracia robusta não se amedronta com a arruaça ideológica nem se socorre da coerção para derrotar os adversários. Dá-lhes um virtuoso abraço de urso. Para que fique claro: tal como defendi publicamente e de forma muito empenhada o acordo do PS com o PCP e o Bloco de Esquerda, também defendo a plena legitimidade de o PSD Açores formar governo com o apoio do “Chega”.

 Conclusão

TRÊS CASOS, três respostas ao radicalismo.

Steve Bannon banido das redes sociais, uma medida que não terá mais do que uma importância simbólica porque não afectará a sua intervenção política, que é sobretudo desenvolvida em back office, nos bastidores da direita americana e europeia, através do “The Movement”. Mas pode servir como exemplo e sobretudo como ponto de partida para se chegar a uma forma de regulação na rede, estando já a ser dados alguns passos nesse sentido. As instituições políticas nacionais e supranacionais deverão ter um papel activo a desempenhar, como já aconteceu na Europa e nos Estados Unidos.

Jeremy Corbyn suspenso do Labour, suspeito de anti-semitismo. Não se tratou aqui de diferenças políticas, mas de uma posição de fundo inaceitável para um partido social-democrata. É aceitável que Corbyn possa ser sibilinamente contra a União Europeia, exiba preferências de socialização dos meios de produção, mas já não pode ser aceitável que o líder de um grande partido social-democrata de governo e de um grande país europeu assuma atitudes (e ao que parece foram muitas as manifestações de evidente hostilidade e ofensivas para com Israel) que revelam um preconceito inaceitável sobre um povo que viveu a tragédia que conhecemos e uma solitária democracia que há muito vive em risco permanente.

Finalmente, a posição do PS sobre a formação do governo nos Açores. O PSD tem toda a legitimidade para formar governo com o “Chega”, partido presente nos Parlamentos nacional e regional e não declarado inconstitucional. Pagará um preço político por isso. Mas a diferença política, que é saudável, não pode transformar-se em pregação moral quando a acção política decorre no quadro constitucional. Quase apetecia relembrar o velho ditado: “faz o que eu digo, não o que eu faço”. No meu modesto entendimento, é melhor que a extrema-direita esteja representada no Parlamento (ou que, por via de eleições, até possa fazer parte de uma solução governativa) do que a fazer agitação nas ruas e praças deste país, eventualmente com violência e polarizando o descontentamento generalizado da cidadania, com perigosos resultados políticos.

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“A Linha do Horizonte”. Detalhe.

Artigo

NOTA SUPLEMENTAR
ao artigo “PLUTOPOPULISMO OU DEMOCRACIA?”,
com actualização da Ilustração “QUO VADIS?”

JOE BIDEN É O NOVO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS

A Democracia venceu o Plutopopulismo

Por João De Almeida Santos

IlustraPlutopopulismo

“Quo Vadis?”. Jas. 11.2020. Modificado.

ARTIGO - "JOE BIDEN É O NOVO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS"

JOE BIDEN VENCEU as eleições presidenciais americanas, que ocorreram na Terça-Feira, dia 3 de Novembro. Num país tecnologicamente tão avançado são precisos quatro dias para se conhecer o vencedor. Mas diga-se a verdade: Biden teve mais de 4 milhões de votos populares do que Donald Trump. Na maior votação de sempre dos Estados Unidos, Joe Biden foi o candidato mais votado da história americana (com uma abstenção de cerca de 36%) e, no fim, depois de uma contagem verdadeiramente sofrida, acabará também por bater o adversário com (previsivelmente) 306 grandes eleitores, em 538. Para os que falam de irregularidades é preciso lembrar que o voto popular, onde Biden obteve cerca de + 2,8% que o adversário, confirma que os americanos o preferiram a Trump. 

O Voto Popular

MAS HÁ QUE DIZER que a base eleitoral dos republicanos acrescida do estilo espalha-brasas, arlequinesco e burlesco de Trump demonstrou a sua eficácia, o que significa que a política não exprime somente organicidade nem racionalidade programática e axiológica. A capacidade de falar directamente à emoção vale muito em política. Como, de resto, na vida, no amor, na fé. Mas é claro que nestas eleições, depois de um mandato presidencial atípico, a racionalidade venceu e confirmou o que vem acontecendo com uma impressionante regularidade: os americanos, fora do complexo sistema eleitoral, na verdade, preferem os democratas aos republicanos: Bill Clinton, Al Gore, Barack Obama, Hillary Clinton. Só John Kerry não venceu no voto popular. Todos eles, desde 1992, ganharam as eleições no voto popular, embora Al Gore e Hillary Clinton não tenham tido sucesso na eleição dos grandes eleitores presidenciais.

A Enorme Responsabilidade da Dupla Biden-Harris

BIDEN é um homem politicamente experimentado e certamente terá em consideração os cerca de 70 milhões de eleitores que votaram em Donald Trump e no partido republicano. Um recorde, também, com um Presidente atípico e iconoclasta. E a verdade é que vivendo o mundo uma enorme e caótica crise, com várias faces, terreno fértil para os charlatães e pescadores de águas turvas, esta vitória de Biden acabará com o vigoroso estímulo ao crescimento de propostas populistas no mundo que a Presidência Trump representou, embora, em boa verdade, o plutopopulismo não tenha sido esmagado, vistos os resultados e a dimensão da base eleitoral de Trump. Caberá agora a Joe Biden e a Kamala Harris fazerem algo pela reconstrução da política americana, tendo também em consideração a influência que ela tem em todo o mundo. Falo de política, não de negócios. Sim, porque o problema é muito amplo e profundo. No meu entendimento, a fractura estrutural que se está a verificar reside no gap que existe entre uma cidadania de múltiplas pertenças que tem ferramentas de informação e de intervenção como nunca antes teve e o establishment, que continua a fazer política por inércia, sem sobressalto que o desperte para voos mais consentâneos com a nova identidade da cidadania e com os desafios que a humanidade tem pela frente. Um gap, ou fractura, central em política, em condições de abrir espaço ao surto de movimentos políticos de novo tipo capazes de disputar a centralidade no sistema. Instrumentos para isso já existem, continuando, todavia, a faltar enquadramento jurídico-político para esta nova realidade. Mas não creio que o fechamento institucional e constitucional em concha das actuais elites consiga evitar a mudança. Ela já está a acontecer e não pelas melhores razões. Assim sendo, não seria melhor abrir amplamente o sistema a novos protagonismos antes que outros e menos desejáveis acabem por se impor e consolidar, como ia acontecendo com estas eleições presidenciais americanas? Na verdade, a tarefa dos democratas, de novo na Casa Branca, não será somente uma tarefa americana. A responsabilidade é mundial. Para o bem e para o mal. Esperemos, pois, que a dupla Biden-Harris esteja à altura dos gigantescos desafios com que nos confrontamos. A União Europeia bem precisada está de um parceiro credível e empenhado para, juntos, condicionarem a política internacional pelas melhores razões, e não pelas piores. 

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“Quo Vadis?”, Detalhe.

Poesia-Pintura

“ENCONTREI-TE LÁ EM CIMA, NO MONTE”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração:”Palácio das Artes
no Monte Parnaso”.
Original de minha autoria
para este poema. Novembro de 2020.
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“Palácio das Artes no Monte Parnaso”. Jas. 11-2020.

POEMA – “ENCONTREI-TE LÁ EM CIMA, NO MONTE”

“Tu prima m’inviasti / 
verso Parnaso a ber ne
le sue grotte, /
e prima appresso
Dio m’alluminasti”.

Dante Alighieri. Divina Commedia.
Purgatorio.
Canto XXII, 64-66. 
PERDI-TE
Porque, afinal,
Nunca
Te abracei,
Numa praça,
Numa rua,
Num jardim,
Em lado algum,
Eu já nem sei...

MAS ABRACEI-TE
No Parnaso,
Lá em cima,
Com palavras
Em forma de poema,
Enredado nas
Mil cores
Do jardim encantado
Da tua alma.

VESTIDO DE COR
Senti-me
Afagado
No meu canto,
Umas vezes
Um pouco triste,
Outras
Em sufocado
Pranto
Por não ter
O teu corpo
Junto a mim,
Por não te ter
A meu lado.

SIM, ENCONTREI-TE
No Parnaso,
No Monte
Da luz divina,
No Monte
Da branca neve,
Cristalina,
E, abraçado a ti,
Eu vi lá do alto
A costa
E o mar,
Vi com nitidez
O meu mundo
Interior
E como te devo
Amar,
Aprender
A sonhar-te
Em azul,
A tua cor
E, lá no alto,
Voar...

A NEBLINA
Cobria-te
Para te vestir
E refrescar
A alma
Como chuva
De palavras
Húmidas
Caídas do meu
Céu
Enublado
E triste.

EU NÃO ERA MAIS
Que um espelho
Que te devolvia
Fantasia
Contra a
Petrificação
Que espreitava
Nos olhares
Indiscretos
E volúveis
Que te espreitavam
Em cada dia.

MAS TU NÃO ME VIAS.
Em mim,
Especulavas
(Dizias),
E eu, espelho
Da tua alma,
Gastava assim
Os meus dias...

E DE TANTO
Em mim
Te reveres
Declinaste
O espelho que
Começava
A embaciar-te
A alma...

E NÃO ERA
Da neblina
Que te envolvia,
Mas dos desenhos
Que tuas mãos
Esboçavam
Nesse espelho
Já húmido
De ti...
............
E da minha
Fantasia.

DESPEDISTE-TE
Do Monte,
Desceste
Em desconforto
Sob os olhares
Das mil górgones
Que ameaçavam
Petrificar-te
No caminho
Para o vale...
..............
E sucumbiste.
Ou talvez não...

JÁ SÓ, NO MONTE,
Disse:
"De tanto te reveres
Em mim
Ficou-me, de ti,
O repetido reflexo.
E sabes o que
Brotava
Quando te olhavas
Na minha superfície
Luminosa?
Beleza,
Toda a que me sobrou
Quando, triste,
Desceste o Monte
E a tua melodia
Me faltou.”

MAS TEU ROSTO
Não petrificará
Porque ficou
Guardado
No meu corpo
Vítreo
Onde todos
Se revêem
Sem saber
Que no reflexo
Levam, gravada
Em transparência,
A tua imagem...
................
Embaciada.

E POR CÁ FIQUEI,
Espelho do mundo,
 A olhar para
O espaço
Sideral
À espera
Que um cometa
Me alumie o caminho
Para ta devolver como
Teu reflexo
Original...
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“Palácio das Artes no Monte Parnaso”. Detalhe.

Artigo

PLUTOPOPULISMO OU DEMOCRACIA? (*)

AS ELEIÇÕES AMERICANAS

Por João de Almeida Santos

IlustraPlutopopulismo

“Quo Vadis?”. Jas. 11-2020.

ARTIGO - "PLUTOPOPULISMO OU DEMOCRACIA?
  As Eleições Americanas"

NOS USA, A COMPETIÇÃO ao último voto entre um candidato populista anti-sistema e outro que representa o que de mais sistema seria possível encontrar foi ao rubro. Ambos com mais de setenta anos (um com 74 e outro com 78). E, contra o iconoclasta, os democratas escolheram um ícone do sistema. As sondagens dos últimos dias davam Trump mais perto de Biden e o resultado parece continuar incerto, dada a natureza destas eleições. Um importantíssimo aspecto de que pouco se fala, de tão personalizadas serem e por isso polarizarem todas as atenções, é que nestas eleições também se desenha o perfil do poder no Congresso. A ver vamos. Já votaram dezenas e dezenas de milhões de americanos e, hoje, dia 3 de Novembro (no momento em que escrevo), concluir-se-á o processo de consulta aos eleitores. A escolha é clara: sistema ou anti-sistema. Mas é também entre previsibilidade e incerteza. E, ainda, entre um cinzento apparatchik e um burlesco arlequim. Tertium non datur. Quando, afinal, é mesmo disso que se trata, haver quem rompa este cÍrculo vicioso entre establishmente anti-establishment, sem revolução. Porque, afinal, assim como estamos, não se sai do establishment e da política dos pequenos passos, que, de tão pequenos, acabam por tropeçar na pura gestão dos interesses privados sem olhar ao interesse geral. Sim, porque da vontade geral pode não decorrer necessariamente o interesse geral.

Plutopopulismo

 A SITUAÇÃO É DRAMÁTICA, quando se vive uma crise sanitária mundial com desfecho imprevisível sobre a vida dos cidadãos, por motivos de saúde ou por motivos de economia. E quando a este dramatismo se vem, nestes dias, juntar, no coração da União Europeia, um recrudescimento do militantismo homicida dos radicais islâmicos (Paris, Nice, Viena), numa espiral de violência simbólica e física entre um inconsequente e insistente caricaturismo islâmico e o terrorismo, num desafio trágico entre a liberdade laica e a fé islâmica, provocando danos maiores do que a causa do próprio conflito entre sátira e religião.

Vivemos tempos difíceis, sim, num tempo que também é de transição, de mudança civilizacional e que, por isso, exige reflexão, ideias e acção, com a necessária profundidade histórica.

Tudo isto, ao contrário do que pode parecer e do que se diz habitualmente, pede mais política e não menos política. Damos as mãos para combater o inimigo (externo) e não falamos de política? Não, porque o que acontece decorre directamente da política e só a política permite afrontar os perigos e a mudança. O pior que poderia acontecer seria ela chegar pelas mãos de um salvador, perante a passividade total do establishment e da cidadania. Na verdade, os tempos de crise são tempos de política pura e dura que se espera que não continue a ser interpretada, nos USA, por alguém alguém a quem são atribuídas cerca de 22 mil aldabrices desde o início do mandato, que envia da Casa Branca 200 tweets num dia e que, em dois anos, viu o seu Gabinete perder 30 altos colaboradores. Pelos vistos, os tempos estão maduros para gerarem aquilo que alguns já chamam plutopopulismo de fachada democrática, mas não tanto que o venham a consolidar precisamente naquele que é o mais poderoso e influente país do mundo. Plutopopulismo. É isso mesmo. Sem mediações. Nem políticas, nem financeiras. Tudo concentrado num homem só.

Que Fazer?

MAS, ENTÃO, A PERGUNTA de um milhão de dólares é a seguinte: que política?

O que sabemos é que a política tradicional, confinada no palácio, endogâmica e à procura de consenso na nova middle class socialmente maioritária está a demonstrar que é incapaz de interpretar a mudança profunda que está a ocorrer na sociedade e que começa logo precisamente na identidade e nos sentimentos de pertença de uma cidadania cada vez mais complexa. E também sabemos que os poderes fortes vivem melhor com a anemia da política e a discrasia da representação e que estas (política e representação), enfraquecidas, mas chamadas a ocupar o gigantesco palácio do Estado, se limitam a gerir o statu quo sem grandes rasgos, mas com alguma voracidade em cargos e benesses. Os diferentes arcos da governação é o que têm feito, associando o tecnocratismo ao relativismo pós-moderno e à crise das ideologias e dos valores. E quando os tempos ficam maduros para o regresso da política logo surgem os intérpretes do oráculo para revelar ao povo a boa nova e tempos de resgate da dignidade ofendida e perdida. É o que está a acontecer. Para compreender como estas coisas acontecem é só ver o início do filme da Leni Riefenstahl, Triumph des Willens, de 1935, a chegada do salvador vindo lá do alto, do céu,  um “deus ex machina” que vem repor a ordem na desordem que está a ocorrer no palco da tragédia alemã que começou com o Tratado de Versailles e que continuou com a República de Weimar até ao gran finale do nazismo.

Há Razões para Sorrir?

NÃO SEI, no momento em que escrevo, o que irá acontecer nos Estados Unidos. Mas sei que nenhum dos dois candidatos seria a minha opção. Porque um e outro se movem dentro de um paradigma em crise, não oferecendo respostas credíveis para a resolver. Biden será a solução menos gravosa, sem dúvida, mas representa de forma intensa a confirmação daquilo que, afinal, constituiu a razão última da vitória de Trump nas eleições presidenciais de 2016. A vitória de Biden saberá, pois, a desforra do establishment, humilhado por Trump, ao derrotar Hillary Clinton. A de Trump significará que o sistema continua a ser incapaz de responder aos novos desafios, acabando por gerar, de facto, um plutopopulismo de fachada democrática, interpretado por um arlequim cada vez mais digital e televisivo. Em qualquer dos casos, não há boas razões para sorrir.

_______

(*) Artigo escrito (e não modificado) no dia 03.11, antes, pois, de serem conhecidos os resultados das eleições presidenciais americanas. No momento em que o publico (09:00 do dia 04.11) Biden, segundo o NYT, está com 227 delegados e Trump com 213 (havendo empate no Senado e uma curta vitória dos democratas na Câmara). Está tudo em aberto e o actual Presidente surpreende pelo número de estados em que vence, podendo mesmo vir a ganhar de novo estas eleições. Há que aguardar. Mas uma coisa é já certa: estas eleições merecem uma profunda reflexão sobre o caminho que a política está a levar. E não só nos Estados Unidos.

IlustraPlutopopulismoRec

“Quo Vadis?”. Detalhe.

Artigo

GIGI PROETTI (1940-2020)

A minha sentida homenagem 
a um grande artista 
no dia do seu aniversário... 
e da sua partida.

Il mio sincero omaggio 
ad un grande artista 
nel giorno del suo compleanno... 
e della sua partenza.

João de Almeida Santos

Gigi051120

Gigi na minha Aldeia a ouvirmos “Il Lonfo”. Gigi nel mio Paese sentendo “Il Lonfo”. Jas. 11-2020.

SENTI UMA TRISTEZA PROFUNDA, hoje de manhã, quando soube que este fabuloso artista nos tinha deixado, precisamente no dia em que faria 80 anos. Conheci pessoalmente Gigi Proietti, apresentado por um amigo comum, Ugo Gregoretti, num daqueles intermináveis jantares no “Da Mario” alle Coppelle, no coração da Roma barroca, ali a dois passos da Piazza Navona. Ainda me lembro de, quando fui apresentado, lhe ter dito, com ingénua espontaneidade: “Ma Lei sa che é bravissimo?”. A um grande, um enorme artista. Como se a sua arte e o seu génio não tivessem por trás tanto saber e trabalho profissional. Sorriu, e por ali ficámos na conversa. E segui-o sempre nas suas fascinantes performances. O que era interessante neste actor é que, além do seu alto profissionalismo, irradiava simpatia, talvez também tecnicamente calculada, mas certamente radicada na sua humanidade, a que resulta desta extraordinária profissão. Era um actor completo. Cantava Roma com a alma, uma voz profunda e profissional. Nas minhas viagens de carro ouvia-o sempre, sobretudo “Er Barcarolo” e “Nun je dà retta Roma”. Também era um modo de, com ele, relembrar o romanesco que aprendi com os meus velhos amigos do “Da Mario” (sobretudo com o Aldo) e na poesia do Trilussa e do Gioachino Belli. Mas gostava de o ouvir cantar, sobretudo quando cantava a minha Roma. Proietti Interpretava com a alma e o corpo, sem deixar fora nada de si. Interpelava cumplicemente o público, que respondia sempre com garbo. Um actor total. Era frequente interpretar em romanesco, à perfeição, como é natural, mas sempre com a gestualidade própria do romano típico. Adorava este actor e hoje senti uma perda irreparável.  A arte perdeu um grande.

HO PROVATO UNA PROFONDA TRISTEZZA, stamattina, quando ho saputo che questo favoloso artista ci aveva lasciato, proprio il giorno in cui avrebbe compiuto 80 anni. Ho conosciuto personalmente Gigi Proietti, presentato da un comune amico, Ugo Gregoretti, in una di quelle interminabili cene al “Da Mario” alle Coppelle, nel cuore della Roma barocca, a due passi da Piazza Navona. Ricordo ancora, quando fui presentato, di avergli detto, con ingenua spontaneità: “Ma Lei sa che è bravissimo?”. A un grande, un grande artista. Come se la sua arte e il suo genio non avessero così tanto sapere e lavoro professionale alle spalle. Ha sorriso e siamo rimasti lì, chiacchierando. E l’ho sempre seguito nelle sue affascinanti performance. La cosa interessante di questo attore è che, oltre alla sua alta professionalità, irradiava sempre simpatia, forse anche tecnicamente calcolata, ma sicuramente radicata nella sua umanità, che risulta da questa straordinaria professione. Era un attore completo. Ha cantato Roma con l’anima. Una voce profonda e professionale. Nei miei viaggi in macchina l’ho sempre sentito, soprattutto “Er Barcarolo” e “Nun je dà retta Roma”. È stato anche un modo per ricordare, con lui, il romanesco che ho imparato dai miei vecchi amici da “Da Mario” (soprattutto da Aldo) e dalla poesia di Trilussa e Gioachino Belli. Ma mi piaceva sentirlo, soprattutto quando cantava la mia Roma. Proietti Interpreta con l’anima e con il corpo, coinvolgendo sempre con complicità il pubblico, che rispondeva e ammiccava con piacere. Un attore totale. Era frequente interpretare in romanesco, alla perfezione, com’è naturale, ma sempre con la gestualità tipica del romano. Amavo questo attore e oggi ho sentito una perdita irreparabile. L’arte ha perso molto.

Veda Proietti “diseur” nella poesia metasemantica di Fosco Maraini: “Il Lonfo”. Link:

Veja o Gigi Proietti “diseur” no Poema meta-semântico de Fosco Maraini, “Il Lonfo”. Link:

https://www.youtube.com/watch?v=AKgxlCIGqc8

Gigi

Poesia-Pintura

O POETA QUE SE FEZ PINTOR

 Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Evocação
de um Arbusto em Flor”.
Original de minha autoria.
Novembro de 2020.

Microsoft Word - JAS_O Pintor.docx

“Evocação de um arbusto em Flor”. Jas. 11-2020.

POEMA – “O POETA QUE SE FEZ PINTOR”

O POETA BRINCAVA 
Com suas palavras,
Cantava o amor
Porque a desejava...

ERA UM POETA,
Era fingidor,
Não a desenhava,
Cantava-lhe
A cor.

SUAS CORES
Eram palavras,
Fazia pincel
Da sua caneta,
O poeta riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel 
E pintava,
Pintava...
.............
Era a granel...
..............
E a sua tela
Deixou de ser
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou:
Azul, vermelho
E tanto amarelo...
.................
Tudo ele pintou,
Procurando sempre
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos seus
Olhos,
Era luz da pura
Que iluminava
O novo papel
Onde desenhou
O seu fino rosto
Com o seu pincel.

DESCOBRIU AS CORES
Com que a dizia,
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
....................
Mais que poesia.

PINTAVA ASSIM
E os seus poemas
Já não lhe chegavam,
Pintor de palavras,
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
...................
“E o que tu fazias
Faço agora eu
(Dissera-lhe um dia),
Porque sou poeta
Mas também pintor".

"DEIXASTE-ME SÓ,
Entregue à palavra,
E eu,
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor".

"MAS EU FAÇO DELA
O meu arco-íris
Pra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O POETA BRINCAVA
Mas era séria
Essa brincadeira,
Perdido em palavras
Encontrou a cor
E nos seus poemas
Dela fez bandeira...

Microsoft Word - JAS_O Pintor.docx

“Evocação de um Arbusto em Flor”. Detalhe.

Ensaio

VEM AÍ A PÓS-DEMOCRACIA?

Ensaio

Por João de Almeida Santos 

Democracia1

“A Bola de Cristal e o Futuro”. Jas. 10-2020.

COMEÇO POR DIZER que quando usamos conceitos como pós-democracia ou pós-representação a referência é sempre a democracia representativa. Os teóricos têm de estar sempre a inovar, mesmo que isso represente alguma violência ao real. Mas a criatividade teórica, para ser eficaz, precisa de conceitos estimulantes e desafiadores. Ora estes dois conceitos parece indicarem que a democracia representativa está velha, se consumou, se gastou. O que não é verdade, porque ela é muito jovem, se a medida for o tempo histórico, a longa duração. E até poderemos afirmar, sem risco de errar, que a democracia representativa até pode ser considerada uma utopia difícil ou mesmo impossível de alcançar.

Sufrágio Universal e Democracia

SEJA COMO FOR, a democracia representativa, que só existe desde que haja sufrágio universal, é, de facto, bastante jovem, pois ela não se identifica stricto sensu com sistema representativo, que é bem anterior, não sendo compatível com regimes censitários. O que tínhamos, pois, até ao sufrágio universal era simplesmente um sistema representativo em regime censitário. A sua história anda de braço dado com a implantação do sufrágio universal e, claro, com o sistema representativo. E é bastante jovem porque, neste sentido, a sua plena implantação histórica só se verificou verdadeiramente, passados três turbulentos e dramáticos decénios, na segunda metade do século XX, uma vez que, como disse, só da combinação do sistema representativo com o sufrágio universal poderá resultar a democracia representativa, sendo também certo que a pedra-de-toque que a distingue de todas as outras formas de democracia é o mandato não-imperativo. Ou seja, o mandato não revogável (sobre o conceito de representação veja-se o excelente texto de Diogo Pires Aurélio – Aurélio, 2009).

A Democracia como Utopia

DEPOIS, em boa verdade, ela configura-se como uma utopia se considerarmos que o voto, neste regime, tem poder constituinte, é individual, é secreto, é universal e convoca aquilo a que Kant chamou imperativo categórico, ou seja, que cada voto seja determinado pela ideia de que deverá ser assumido como se dele resultasse uma legislação universal com poder impositivo. O que significa que este voto, exprimindo uma profunda convicção (fundamentada e argumentada), traz com ele uma responsabilidade absoluta, como se o mundo viesse a ser regulado por ele. Um acto singular com pretensões de validade universal e, consequentemente com o princípio da responsabilidade como valor matricial. É neste princípio, difícil de atingir na sua plenitude, que se funda a democracia e que lhe dá um valor que nenhum outro regime consegue exibir. Um princípio que exige plena maturidade da cidadania.

Democracia e Mandato

E A CONFIRMAR esta leitura vê-se que o seu resultado é um mandato de tipo não imperativo: através dele o representante assume uma dimensão universal porque passa a ser titular do principal órgão de soberania, o Parlamento, esse mesmo que legisla segundo o mesmo princípio de universalidade, ou seja, de acordo com o interesse geral (da nação) e não de acordo com o interesse particular, seu, de classe ou regional. E nem sequer de acordo com o círculo eleitoral que o elege (veja-se sobre a natureza do mandato o Art. 7, Secção III, Cap. I, Título III, da Constituição francesa de 1791).

O Espaço Intermédio

MAS A VERDADE é que tudo está a mudar e, mantendo-se a matriz representativa originária, para a qual ainda ninguém conseguiu encontrar substituto válido, algo mudou no sistema representativo. E o que mudou reside, para além do sufrágio universal, na relação entre os representantes e os representados, aquilo a que alguém chamou “espaço intermédio” (Tagliagambe, 2009), aquele espaço que se situa entre a cidadania e o poder, entre a rua e o palácio, entre o acto do voto e o exercício do poder que dele resulta. Hoje tudo se sabe (a verdade e a mentira) e até é possível fazer política e comunicar para além daqueles que são os canais tradicionais de intermediação da política e da comunicação, partidos e media. Antes, não. E até era proibido (logo no século XVIII) informar acerca do que se passava no Parlamento. Ou seja, a participação política deixou de se reduzir ao (já tão reduzido, nos regimes censitários) acto de votar para designar a representação e legitimar o mandato. A ideia de participação cresce à medida que este “espaço intermédio” também cresce, ou melhor, é ocupado pelas plataformas de comunicação (social) ao serviço da relação entre os representantes e os representados.

Desintermediação e Democracia Deliberativa

ISTO ACONTECEU sobretudo com o aparecimento da televisão e, nos nossos dias, viria a aprofundar-se com a emergência da rede, das TICs e das redes sociais, ou seja, com a possibilidade de aceder ao espaço público deliberativo sem interferência dos chamados gatekeepers, dos mediadores, seja da comunicação seja da política. E foi por isso que o discurso sobre a pós-democracia (representativa) ganhou uma forte acuidade, lá onde o processo de construção do consenso e o processo de formação da decisão passaram a correr também noutros canais que não os tradicionais. Numa palavra, a política e a comunicação já estão desintermediadas, tendo terminado o monopólio da intermediação pelos tradicionais meios (media e partidos) (Biancalana, 2020). Por isso, alguns consideram que estamos perante uma pós-democracia (representativa) porque a representação deixou de ser a fórmula exclusiva para o exercício do poder; outros, como eu, consideram que esta nova fase pode ser favorável, não à pós-democracia ou à pós-representação, mas ao relançamento da democracia representativa se ela evoluir para uma democracia deliberativa, uma forma superior de democracia representativa que, em parte, vem resolver o problema do decisionismo e da fractura entre representantes e representados. Ou seja, uma forma de inclusão da cidadania na política e na democracia através de uma qualificação do consenso e do processo decisional, da metabolização política informal e formal (não simplesmente instrumental), pelos representantes, dos fluxos que correm na esfera pública deliberativa, onde hoje a cidadania poder intervir directamente sem mediações e gatekeeping. Numa democracia deliberativa a representação política mantém-se com as características de sempre, mas incorpora esse “espaço intermédio” que nos primeiros tempos do sistema representativo estava completamente vazio (após o voto, de resto, censitário, não era permitido conhecer o que se passava no palácio do poder, sendo crime a sua divulgação).  Diria mais. Se, de facto, a política convencional desconhecer esta mudança radical estará condenada porque surgirão (como já acontece) forças que ocuparão este “espaço intermédio” contra a própria democracia representativa. O que já aconteceu, como se sabe: a intervenção da Cambridge Analytica no Brexit e nas Presidenciais de 2016 nos USA. A partidocracia e a mediocracia, ambas endogâmicas, representam esta cegueira relativamente ao que mudou radicalmente desde a criação do sistema representativo: da ocultação, legalmente sancionada, do exercício do poder (no século XVIII) passou-se à transparência total quer do exercício do poder quer dos seus próprios bastidores, devido à evolução dos meios de comunicação, ao sufrágio universal, ao progresso constitucional e, agora, ao novo espaço público deliberativo, com a network society e as suas componentes orgânicas.

Participação e Representação

VEM ESTE DISCURSO A PROPÓSITO de um pequeno ensaio de Michele Sorice, director do Centro de Investigação da Universidade Luiss (“Centre for Conflict and Participation  Studies), de Roma, publicado como introdução ao volume da revista Culture e Studi del Sociale  sobre “Conflito e partecipazione democratica nella società digitale” – vol. 5 (2), 2020.  O ensaio tem precisamente como título “A participação política no tempo da pós-democracia” e o autor utiliza uma linguagem conceptual muito eficaz para abordar estas novas tendências em curso.

Michele Sorice vai ao tema directamente e chama atenção para o esvaziamento da ideia de conflito na competição política, para a diferença entre representação e participação, a redução da política a “governance”, a excessiva fragmentação da intervenção política na era digital (hiperfragmentação) e a consequente despolitização que tem vindo a ser associada à “network society”, o “imperialismo das plataformas”, reforçado pelo desenvolvimento do chamado “capitalismo digital”, designado como “capitalismo das plataformas”, e ainda para o conflito entre “os velhos espaços públicos da sociedade de massas” e a “hiperfragmentação” induzida pela “network society”.  Sorice cita Colin Crouch, Post-Democracy After the Crises (Crouch, 2020), uma passagem em que este autor afirma que  se tornou necessário rever as relações das redes sociais com a democracia e a pós-democracia, visto o uso que as grandes plataformas fazem dos perfis de milhões e milhões de utilizadores para fins de construção de um novo poder global precisamente pós-democrático e alternativo às elites tradicionais. E associa-lhes também as hiperlideranças, os populismos, os processos de despolitização e a chamada pós-esfera pública induzida pela “platformization”. E chama ainda a atenção para a deslocação do poder das oligarquias ideológicas da política tradicional para as elites tecnocráticas, plenamente funcionais às dinâmicas de comercialização da cidadania, a sua valorização mais como valor de troca do que como valor de uso. O que diz tudo.  O autor liga o processo de plataformização à pós-democracia e à chamada pós-esfera pública. E é neste quadro, que, segundo ele, se coloca a crise de legitimidade dos partidos, a transformação dos movimentos sociais, a emergência de novas formas de agregação, como, por exemplo, os movimentos urbanos, o desenvolvimento da cidadania activa e a afirmação de novas formas de acção social directa. Crise dos partidos e emergência das plataformas de mobilização – é nesta encruzilhada que irrompem estes fluxos sociais que podem mudar o panorama da democracia representativa. E é aqui que bate o ponto, segundo o autor, ou seja, na necessidade de mobilização da ideia de conflito (por oposição ao processo de anestesia política em curso) para uma revitalização da participação e da política. Esta ideia permite superar, por um lado, a simples ideia de representação, mas também o simples direito generalizado a tomar a palavra como paradoxal anestesiante político de massas, ou seja, a participação de todos como redução do poder da cidadania, enquanto ela pode induzir a ilusão de um autogoverno que, afinal, não decorre automaticamente deste tipo de participação. Uma ilusão, sim, porque esta participação é “hiperfragmentada” e não se encontra ancorada em novas formas culturais alternativas, em conflito com as formas hegemónicas, e não está inscrita, diria, com Gramsci, num “bloco histórico” capaz de se constituir como alternativa hegemónica. Mesmo assim, considero que este “poder diluído” (mas não hiperdiluído) da cidadania é superior ao exclusivo poder de delegação (regular e cíclico), em eleições, na representação, que tende a remeter a participação para uma esfera residual, considerada até como potencialmente subversiva. Além disso, Sorice vê na relação do neoliberalismo com esta hiperfragmentação da cidadania uma tendência fatal porque se trata de uma participação ilusória e politicamente inócua, ou seja, não conflitual nem alternativa.

O Capitalismo da Vigilância

Sem dúvida que não é possível ignorar as “dinâmicas de poder presentes no ecossistema mediático nem as lógicas económicas e os mecanismos proprietários que regulam a actividade dos próprios social media”, como diz Sorice. E para ilustrar este último aspecto bastaria ao autor referir o livro da Shoshana Zuboff, “The Age of Surveillance Capitalism” (Zuboff, 2019; obra gentilmente oferecida pela Luiss University Press), uma análise impiedosa do poder das grandes plataformas e da forma como o obtêm, evidenciando assim a desigualdade estrutural entre plataforma e utente, traduzida no uso abusivo de dados pessoais para efeitos de tratamento dos big data e de previsão dos comportamentos para fins comerciais e de poder financeiro. O autor sintetiza, e muito bem, esta questão, traduzida no capitalismo e no imperialismo digital desenvolvido no processo de plataformização das sociedades, entendendo por isso o domínio das grandes plataformas, como, por exemplo, a Google ou o Facebook, sobre as sociedades.

Conceitos

ESTA LINHA CRÍTICA já tinha sido avançada pelo autor no livro que coordenei sobre “Política e democracia na era digital” (Santos, 2020), no capítulo de sua autoria e de Emiliana de Blasio (“O partido-plataforma entre despolitização e novas formas de participação: que possibilidades para a esquerda na Europa?”, pp. 71-101). E aqui, neste ensaio, insiste em chamar a atenção para reais tendências que estão a ocorrer na sociedade em rede e para os seus perigos, desvirtuando aquelas que eram, no início, reconhecidas como virtudes da novas tecnologias da libertação. Mas usa também um corpo conceptual que importa integrar na análise política dos actuais fenómenos políticos, sendo certo que a academia teima em não sair do velho sistema conceptual. Com efeito, Sorice dá palco a conceitos como “ecossistemas comunicativos digitais”, “hiperliderança”, hiperfragmentação”, diferença entre participação e representação e entre “governance” e “e-government”, “platformization”, capitalismo e imperialismo digital, pós-democracia, pós-representação, “capitalismo das plataformas”, “network society”, participação sem conflito, participação conflitual, “comercialização da cidadania”, “pós-esfera pública”. Conceitos interessantes e fundamentais para aceder à política e à comunicação tal como hoje se configuram. E é claro que acompanho o autor nesta análise crítica.

Diria, todavia, que falta agora ver o lado positivo da emergência da rede, das TIC e das redes sociais (social media) seja do ponto de vista da comunicação seja do ponto de vista da política.

Quem ler o livro da Shoshana Zuboff, já referido, ficará muito bem elucidado sobre o processo de acumulação do novo capitalismo digital, ou “capitalismo da vigilância”, e também sobre o seu poder, sobre a passagem das tecnologias da liberdade a instrumentos de acumulação capitalística. Processo a que o autor também alude. E também é verdade que o acesso universal ao espaço público, a participação de todos, a integração política virtual podem tender a anular o conflito e a anestesiar a verdadeira participação política, fragmentando excessivamente uma intervenção sem novas formas culturais alternativas, sem uma cartografia cognitiva e com a ilusão de participar pelo simples direito de acesso à nova esfera pública. E ainda a favorecer hiperlideranças de inspiração populista acoradas na relação directa e carismática com o povo da rede. Sim, tudo isto pode acontecer e, em parte, já está a acontecer, até porque a política clássica tem vindo a evoluir cada vez mais para uma lógica endogâmica que a afasta da cidadania.

O Novo Mundo Digital

MAS TAMBÉM É VERDADE que a rede, em geral, as TIC e as redes sociais abriram canais de acesso e de participação absolutamente novos e praticamente livres de gatekeeping. Acesso em dois sentidos: a) para obter informação em múltiplos suportes e em diversificadas fontes; b) e para intervir livremente no processo comunicacional e no processo político acedendo sem mediadores ao espaço público deliberativo. Estes canais de acesso valorizaram extremamente o espaço público deliberativo e deram origem a formas de organização autónomas do poder partidário, as plataformas digitais temáticas, como, por exemplo, moveon.org ou meetup, em condições de dar voz ao conflito e de mobilizar a cidadania. O exemplo da plataforma moveon.org nos USA é muito significativo. Por exemplo apoiando Bernie Sanders, Barack Obama ou o Obamacare.

O que quero significar é que aos media tradicionais se veio juntar uma nova e poderosa realidade, a que chamo “espaço intermédio”, que permite um mais aberto  e livre acesso ao espaço público na dupla dimensão da recepção de conteúdos e da produção de conteúdos, dando origem a um novo tipo de cidadania: a do prosumer. Este facto veio reforçar a importância do “espaço intermédio” enquanto espaço público deliberativo – por onde corre a relação entre representados e representantes – e tornar possível designadamente um revigoramento da democracia representativa e uma maior accountability quer do poder político quer do poder mediático, seu irmão gémeo.  Na verdade, a mudança é profunda porquanto não só representa o alargamento do espaço público e o fim do gatekeeping, mas também porque representa uma mudança qualitativa na relação comunicacional com a evolução da “mass communication” para “mass self-communication” e com a transformação do cidadão em prosumer, em receptor e produtor de comunicação e política, dando assim efectividade política ao conceito criado por Alvin Tofler, em The Third Wave, em 1980 (Tofler, 1980; e Castells, 2007).

Não vejo, todavia, esta expansão gigantesca do acesso ao espaço público deliberativo nos dois sentidos acima referidos sem um enquadramento, uma cartografia cognitiva, uma bússola que conduza a cidadania num certo sentido. Neste caso, mais do que falar em novas formas de mediação, falaria em hegemonia, em conquista ético-política da esfera reticular e em capacidade de polarização da cidadania por novas formas culturais alternativas. Na verdade, do que se trata, com o novo espaço público deliberativo e com o novo tipo de acesso, é simplesmente da sua enorme expansão e de uma lógica de funcionamento totalmente distinta da que era dominada pelos senhores do gatekeeping comunicacional, mas também político. Nada mais. Mas que já é muito, lá isso é.  E é por isso que concordo com Michele Sorice na ideia de que são necessárias novas formas culturais, que podem ser interpretadas e accionadas pelos partidos políticos desde que sejam capazes de responder, não transformisticamente, aos novos desafios. O fim dos monopólios que sirva, ao menos, para isso. E não creio que o chamado “capitalismo da vigilância” consiga controlar totalmente este novo mundo, tal como nem os chineses o conseguem controlar, apesar de, esses sim, procurarem hegemonizá-lo através das ideologias do nacionalismo e do consumismo, sem deixarem, todavia, de usar todos os instrumentos de controlo disponíveis, que são muitos e diversificados (Santos, 2017).

Conclusão

NÃO CREIO, pois, que seja boa ou viável a proposta pós-democrática ou pós-representativa porque, na verdade, os fundamentos e as funcionalidades da representação se mantêm. Pelo contrário, a democracia deliberativa, mantendo intacta a representação, reabre os canais de acesso à informação e à política e rompe com o monopólio e o exclusivismo da representação porque dão à cidadania a possibilidade de entrar em cena no palco da deliberação pública, influenciando não só a o processo de construção do consenso, mas também a própria produção da decisão. A política deliberativa enriquece a democracia representativa, mas não a substitui nem a diminui. Por um lado, ampliando o leque de possibilidades de empoderamento político da cidadania e, por outro, revigorando a própria representação e os partidos políticos, enquanto portadores de visões do mundo capazes de agregar a cidadania de acordo com as pertenças de cada um e com cartografias cognitivas que lhe sirvam de bússola. As plataformas temáticas têm o poder de se constituir como canais complementares de acesso ao espaço público deliberativo e deste modo influenciar decisivamente a política e a representação. A rede é um “espaço intermédio” incontornável e as redes sociais não são mais do que derivados orgânicos desta realidade. E por isso não é possível falar delas como se fala de media, tendo estrutura e lógica diferentes dos media convencionais. E também por isso não creio que seja útil abordá-las com a dicotomia tornada famosa por Umberto Eco: a dos apocalípticos e dos integrados.

Referências bibliográficas 
para  melhor compreender esta matéria
  1. Aurélio, D. P. (Coord.). (2009). Introdução a: Representação Política. Lisboa: Horizonte, pp. 9-51.
  2. Biancalana, C. (Coord). (2018). Disintermediazione e nuove forme di mediazione. Verso uma democrazia post-rappresentativa? Milano: Fondazione Giangiacomo Feltrinelli.
  3. Castells, M. (2007). “Communication, Power and Counter-power in the Network Society. In International Journal of Communication 1 (2007), 238-266.
  4. Crouch, C. (2020). Post-Democracy After the Crises. Cambridge: Polity.
  5. De Blasio, E. e Sorice, M. (2020). “O partido-plataforma entre despolitização e novas formas de participação: que possibilidades para a esquerda na Europa?”. In Santos, 2020, pp. 71-101.
  6. Santos, J. A. (2020). Política e Democracia na Era Digital. Lisboa: Parsifal.
  7. Santos, J. A. (2017). “Mudança de Paradigma: A Emergência da Rede na Política. Os casos Italiano e Chinês”. In ResPublica, 2017, 17, pp. 51-78.
  8. Sorice. M. (2020). “La partecipazione politica nel tempo della post-democrazia”. In Culture e Studi del Sociale-CuSSoc, 2020, 5(2), pp. 397-406
  9. Tagliagambe, S. (2009). El Espacio Intermedio. Madrid: Fragua.
  10. Tofler, A. (1980). The Third Wave. New York: William Morrow.
  11. Zuboff, S. (2019), The Age of Surveillance Capitalism. USA: Public Affairs.

Democracia1REC

“A Bola de Cristal e o Futuro”. Detalhe.

Poesia-Pintura

TEU CORPO DE CRISTAL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Reflexos”
Original de minha autoria
para este poema. Outubro de 2020.

ReflexosFim2510Exp

“Reflexos”. Jas. 10-2020.

POEMA – “TEU CORPO DE CRISTAL”

AGORA VEJO-TE
Ao perto,
Despida,
Cada bago
Me seduz
Como cristal,
Refracção
Da luz
Que desce
Sobre ti
E me atinge
O olhar
Como raio
Fatal.

CEGO
De tanta luz,
Entrevejo-te
Num clarão,
Multidão
De cristais
Que brilham
E desafiam,
Vermelho rubi
De todas as paixões,
Espelho de
Alma
Deslumbrada
Que vive de
Ilusões.

MAS ÉS ROMÃ
E faço o caminho
Ao invés
Pra te encontrar
Ao alcance
Da minha mão,
Poder colher-te,
Fazer caminho
Contigo,
Do inferno
À primavera,
Do fogo ardente
Ao vicejar
Dos campos,
Aos frutos
Da nossa terra
Onde o teu
Poder impera.

ÉS DEUSA, SIM,
Imortal,
Teu corpo
É cristal
Que brilha
No templo de
Salomão
E me convida
A entrar
Nessa bela
Catedral
Guiado por
Tua mão?

SAÍSTE DE TI
E agora és
Semente
Múltipla
Do futuro
Que há-de vir,
Deusa
Da fecundidade,
Do amor
E da paixão
A celebrar
No fogo
Ardente
Desse teu lar
Onde os bagos
Do teu ventre
São como
Lava
De vulcão.

ReflexosPublicadoRec

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