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Sobre joaodealmeidasantos1

Professor universitário, escritor, poeta, pintor. Publicou várias dezenas de livros, seus e em co-autoria, de filosofia, política, comunicação, romance, poesia, estética. Foi professor nas universidades de Coimbra, Roma "La Sapienza", Complutense de Madrid e Lusófona (Lisboa e Porto). Publica semanalmente, neste site, ensaios, artigos, poesia e pintura.

Artigo

REFLEXÕES SOBRE A EUTANÁSIA

PORQUE SOU A FAVOR DA DESPENALIZAÇÃO

Por João de Almeida Santos

Maos

 

OUSO DIZER QUE NINGUÉM DEFENDE A EUTANÁSIA. Porque, por princípio, ninguém deseja a morte. O eros (a pulsão da vida) em condições normais sobreleva o thanatos (a pulsão da morte).

De outro modo, estaria em risco a sobrevivência do género humano ou da espécie. Se à ideia de morte está associada a ideia de dor e de fim, às ideias de vida e de reprodução da espécie estão associadas as ideias de prazer e de amor… e uma dialéctica dos afectos. É o princípio da vida aquele exibe argumentos mais fortes. Sem mais. A tal ponto que nas religiões esta ideia de vida é projectada para uma dimensão extraterrena, iludindo assim a própria ideia de fim, a própria ideia de morte.

É por isso que quem defende o direito à eutanásia não poderá, sob pena de má-fé de quem o faz, ser acusado de ser apologista da morte. Porque em condições normais ninguém o é. Na verdade, trata-se, aqui, de um caso excepcional, assumido em circunstâncias excepcionais. E como tal deve ser entendido. Com todos os seus ingredientes e não com a linearidade de um pensamento maniqueísta ou de uma qualquer ortodoxia acusatória. Mas vejamos.

DUAS POSIÇÕES

Usando a dicotomia como método de raciocínio, podemos dizer que sobre esta questão há duas posições extremas.

A religiosa, que considera a vida um dom divino que transcende a esfera da vontade humana e que, por isso, não concede ao crente liberdade de dispor da sua própria vida e de agir radicalmente sobre essa dádiva transcendente.

A construtivista, que considera que a vontade humana é soberana e pode, por isso, sobrepor-se às variáveis ditadas pela sociedade, pela história e pela natureza.

É lógica e coerente a primeira posição e, por isso, respeito-a, embora não me identifique com ela. Já quanto à segunda, embora reconheça que muitas conquistas civilizacionais se devem a ela, em muitos casos acaba numa problemática e incerta engenharia social. O tema muito mais difícil e complexo da clonagem – proibida, por exemplo, na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia – poderia inscrever-se problematicamente num discurso com estas características. Tal como o da eugenia.

O PAPEL DO ESTADO

Mencionei estas posições apenas porque elas nos permitem ver a questão com mais clareza. Não entro em questões estritamente jurídicas, porque num assunto destes o que interessa é a posição de fundo que se assume. E que terá, naturalmente, consequências jurídicas. Mas interrogo-me se ao Estado cabe produzir uma norma que proíba um cidadão de, em determinadas condições e circunstâncias, decidir livremente pôr termo à sua vida. Interrogo-me se o Estado pode e deve criminalizar, por exemplo, e seguindo a inspiração da Igreja católica, o suicídio. Quem se suicida contraria o carácter inviolável da vida e por isso deverá ser condenado? No além, sim, certamente! Mas, no aquém? Depois de morto? E quem não consegue suicidar-se com eficácia deverá ser condenado por ter atentado contra a sua própria vida? Pondo-o na prisão? Parecem raciocínios humorísticos, mas não são, porque vão ao fundo do problema.

A questão põe-se, todavia, quando alguém é chamado a cooperar, por competência técnica e formal (um médico), na livre decisão, devidamente enquadrada (aqui, sim, pelo Estado, enquanto regulador), de um cidadão pôr termo à própria vida. Se aceitar, esse médico deverá ser acusado por ter cometido assassínio? E se outro se opuser deverá ser acusado por se ter recusado a pôr fim ao sofrimento atroz de um ser humano, a pedido, consciente e fundamentado, dele? No meu entendimento, nem num caso nem no outro deverá haver acusação.

Do que se trata, no caso da Eutanásia, é de clarificar a situação, definindo a posição do Estado relativamente a esta matéria. Não devem os católicos, por exemplo, pedir ao Estado que produza norma, activamente ou por omissão (ficando a eutanásia tipificada como assassínio, subsumida à lei geral), já que os verdadeiros católicos nunca praticarão a eutanásia, por óbvias razões de doutrina e de visão do mundo, não sendo, pois, a comunidade de fiéis afectada pela posição reguladora (que referirei) que um Estado venha a assumir. Mas será aceitável que queiram impor, através do Estado, a toda a sociedade a sua própria visão do mundo e da vida? Não deve o Estado democrático, pelo contrário, ser o garante da livre afirmação de identidades, em todos os planos, político, cultural ou religioso, desde que enquadradas pelo que Habermas designa como “patriotismo constitucional”, ou seja, adesão aos grandes princípios civilizacionais adoptados pelo Estado como sua lei fundamental? Do que aqui se trata é da laicidade da abstenção do Estado para uma livre dialéctica das identidades! Até mesmo neste caso, já que a decisão é remetida para a esfera da liberdade individual. De resto, nem o Estado, numa civilização de matriz liberal, deve intervir numa matéria tão íntima e pessoal como esta, a não ser para proteger precisamente a liberdade de cada um tutelar a própria integridade como entender. Ou seja, o Estado tem o dever de intervir, sim, mas para proteger a liberdade individual da interferência de factores externos à sua livre, racional e ponderada decisão relativamente à própria vida.

O ESTADO E OS DIREITOS INDIVIDUAIS

Considero, deste modo, que a intervenção do Estado em relação a esta matéria deve somente ser reguladora, garantir o direito de cada um tutelar a sua vida ou a sua morte. Alguns Estados, como é sabido, e em alguns países democráticos e civilizacionalmente avançados, usam a pena de morte como punição máxima ou como salvaguarda de um bem superior. Mas lembro o art. 2.º dessa fabulosa “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, de 1789: “O fim de qualquer associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Estes direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão”. Este artigo, conjugado com art. 5.º (“a lei não tem o direito de proibir a não ser as acções prejudiciais para a sociedade; tudo o que não é proibido pela lei não pode ser impedido, e ninguém pode ser obrigado a fazer o que a lei não ordena”), leva-me a concluir que, nesta matéria, o Estado somente deverá remover o que possa prejudicar, por um lado, a sociedade e, por outro, a livre tutela do cidadão sobre si próprio, clarificando as condições em que a morte assistida possa ser praticada. Assim, no caso em que um cidadão esteja na posse plena das suas próprias faculdades, mas em condições de insuportabilidade física (mesmo com cuidados paliativos) e de destino irreversível, o Estado tem a obrigação, isso sim, de certificar institucionalmente estas condições, seja do ponto de vista psicológico seja do ponto de vista médico, perante o recurso a assistência médica. A verificar-se que não existem factores exógenos a determinar a decisão, o Estado não deve, nem que seja por omissão, permitir que quem intervenha no processo, a pedido do cidadão em causa, e exclusivamente porque é detentor formal de competência técnica, seja acusado de assassínio. Tal como não deve permitir que quem se recuse, por razões de ética da convicção ou religiosas, sendo detentor formal de competência técnica, a cooperar no acto de eutanásia, seja acusado.

A FUNÇÃO REGULADORA E DE CONTROLO DO ESTADO

Tratando-se de alguém que comprovadamente esteja numa situação de sofrimento atroz, mas incapaz intelectualmente de tutelar a sua própria vida, estando, assim, dependente de outra tutela (por exemplo, familiar), o Estado tem o dever, perante uma decisão desta natureza, de reforçar a tutela dos direitos do cidadão em causa, accionando idóneos meios institucionais de controlo para verificar que não há factores exógenos àquela que seria, supostamente, a sua vontade em condições de plena posse das suas faculdades. A clarificação em causa deverá, no meu modesto entendimento, confinar-se à certificação de que na decisão não intervêm quaisquer factores externos ou exógenos. E nada mais, sob pena de, em qualquer dos casos acima referidos, o Estado estar a entrar na zona protegida de um direito individual inalienável, o da livre tutela da própria vida. Ou seja, defendo sobre esta matéria uma intervenção minimalista, mas reguladora e de controlo do Estado, deixando aos cidadãos a liberdade de accionarem, ou não, os mecanismos para poderem usufruir de uma morte assistida. O que não é admissível é pedir ao Estado que, em nome de uma mundividência, seja ela religiosa ou filosófica, anule a liberdade individual naquela que é a mais profunda e íntima esfera da própria personalidade. A eutanásia não pode ser tipificada como assassínio, porque não o é, e muito menos numa sociedade de matriz liberal onde a tutela da liberdade é um dos mais importantes princípios. E nesta visão da liberdade entram de pleno direito os católicos e a sua legítima discordância relativamente a posições diferentes da sua.

 FINALMENTE

Em suma, a minha posição sobre o assunto é, como se viu, ditada pela ideia que tenho acerca da legitimidade da intervenção da sociedade, através do Estado, sobre a esfera individual ou mesmo íntima. É minha convicção que numa sociedade com uma matriz liberal como a nossa esta é a posição mais sensata e conforme a esta matriz. #

 

 

 

Poesia-Pintura

O MEU NOME

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Teu Corpo” - Original de
minha autoria. Fevereiro de 2020.
JAS_Deusa09022020

“O Teu Corpo”. Jas. 02-2020

POEMA – “O MEU NOME”

PORQUE NÃO
ME NOMEIAS,
Meu amor?
Nome-ar.
Tão simples.
Quatro letras.
Devolver-me
Identidade,
Aquecida
Nos teus lábios
Pelo ar quente
Que respiras...

ASSIM, PERCO-ME,
Não sei de mim,
Fico sem espelho
Onde me ver
A cores
E em perfil
De traço fino
Nos teus doces
Murmúrios...
................
Que sufocas...
..............
E não desvelo
O destino traçado
Pelos deuses
No chão arenoso
Do caminho 
Da minha vida.

TORNO-ME SOMBRA
De mim
Quando me interpelas
Sem nome-ar,
Não me reconheço,
Sou outro,
Pronome
Indefinido ou
 Interjeição,
Ideia vaga,
Incerto perfil
Que se dilui
Como aguarela
Em folha branca
Manejada
Por ti à procura
De uma forma
Que, afinal,
Não tem nome.

PORQUE CATIVAS
O som
De quatro letras
E não cantas
A minha melodia
Com uma palavra
Só?
Ah, a tua boca
Logo hesita
Quando a palavra
Assoma
À flor dos teus
Lábios,
Como daquela vez
Em que soou
Timidamente
Como sussurro,
Murmúrio
Imperceptível,
Em surdina,
Na fronteira 
Do silêncio.

O MEU NOME
Desata
A tua alma
E ameaça
Levá-la consigo
A voar sobre
O mundo
De mãos dadas
No fio do horizonte?
São vertigens,
Meu amor?

AH, SE ASSIM FOSSE
Diria
O teu nome
Mais do que digo
Até adormecer
De cansaço....
.............
Só para te
Sonhar.

MAS TU NÃO
ME DIZES
Porque me desejas
Como parte de ti,
Sem partilha
Nem confissão?
Guardas
O meu nome
No silêncio
Do teu peito,
Como se fosse
Pecado dizê-lo?
Sentes perigo?
Que o meu nome
Se torne lava
Ardente,
Beijo verbal
Proibido
Pela gramática
Do amor
Logo ao primeiro
Sinal?
E foges
Para dentro
De ti
Com o coração
Aos pulos?

OH, TAMBÉM EU
NÃO TE DIGO,
Como chamamento,
No meu poema,
Onde os nomes
Se dizem
De outro modo,
Têm som
E ritmo
Diferentes,
São notas
De uma melodia
Sofrida
E cifrada...

MAS AS TUAS LETRAS
Estão lá,
Todas,
Uma a uma,
E a cor
Dos teus cabelos
Em aguarela
E o cetim
Da tua pele
Macia
Por onde deslizam
Os meus olhos
À procura dos teus,
Negros e profundos,
E essas mãos
Perfumadas
Filhas da arte
Que te desenham
A alma
Com riscos
E cores
Que atiras
Ao vento
Para que eu
Os agarre
E lhes dê
Som,
Ritmo
E sentido
Num poema...
..................
Ao entardecer...

E, ASSIM,
EU CANTO
O teu ser,
Tudo
O que foste,
O que és e
O que serás,
O que sabes e
 O que sentes,
O que vives e
 O que sonhas.
O que dizes
No que calas...
...........
Tudo,
Meu amor.

MAS TU DIZES,
Com a ironia
Do silêncio
Triste
Que te cativou,
Que também eu
Não te digo
Aqui,
Em arte,
Mesmo quando
Te canto mais
Do que ouves,
Te nomeio
Mais do que
Posso,
Te pressinto
Mais do que
Sentes...

E TU
Apenas te expões
Às minhas palavras,
À minha música,
Silencias-me
Porque balbucias
O meu nome
Só dentro
De ti,
Foges ao som
Encantatório
Que corre
Atrás de ti
Para se ouvir
Nos teus lábios.

BEM SEI
Que o teu mundo
Não é o dos nomes
Ou das palavras,
Sequer murmurejadas,
Mas o das cidades
Invisíveis
Na tua fuga
Permanente para
O infinito...

E SEI QUE AÍ
Me vais
Silenciosamente
Interpelando,
Como rosto
Mutante,
Essa tua forma
De docemente
Me soletrar.

NOMEIAS-ME, SIM,
Meu amor,
Mas à tua maneira!
JAS_Deusa09022020_1

“O Teu Corpo”. Detalhe.

Poesia-Pintura

ESCULPIR-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Bianco&Nero”.
Original de minha autoria 
para este poema. Fevereiro de 2020.
Travertino com veios

Bianco&Nero. Jas. 02-2020

POEMA – “ESCULPIR-TE…”

ENTRE O BRANCO
E O NEGRO
Quis esculpir-te
A alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei
Perdida
No jardim
Da minha vida...

ATRÁS DE TI,
Ou em fuga
(Já nem sei...),
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Guardadas
Dentro de mim.

SOBRARA
Uma marmórea
Pedra negra,
Espelho oracular
Onde me via
Escuro na alma
Por falta
De cores
Exuberantes
Que me protegessem
Do frio glacial
Da tua ausência
Nas longas
Intermitências
E contrapontos
Da nossa melodia.

SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor
Pousou suavemente
Na pedra
Lisa e brilhante
Da catedral
Onde te ia
Celebrar...

ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Onde guardei
O teu nome
Gravado em letras 
Invisíveis.

CRIEI PARA TI
Alvas incrustações
Em filigrana
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Para celebrar
A beleza
Do teu rosto.

E, AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Desse cântico
Desenhado
E esculpido
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com beleza
Minimal,
Na cor
E na forma,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento
Em fuga...
---------------
Um elegante
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar.

A ÂNCORA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti
E dilui-se,
Como eu,
Na negra vastidão...

EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
Sobre a flor
Que um dia
Encontrei
Perdida
No meu jardim
Encantado
Quando visitava
O impossível...
.................
À tua procura...
Travertino com veiosRecorte

Bianco&Nero. Detalhe.

 

 

 

 

 

 

Poesia-Pintura

ESTOU A PERDER-TE…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Jardim das Memórias”.
Original de minha autoria,
com citações de Gustav Klimt (1912).
Janeiro de 2020.
UmaCasaNoJardim_3_1006PublicadaCOR3Cop

“Jardim das Memórias”. Jas. 01-2020

POEMA – “ESTOU A PERDER-TE…”

ESTOU A PERDER-TE
Meu amor,
O estro
Com que te canto
Esmorece,
Vai perdendo
Lentamente
O seu fulgor,
O poema
Empalidece
E eu,
Em poética anemia,
Sinto um doce
E sonolento
Torpor.

SUBI CONTIGO
AO MONTE,
 Ao meu jardim
Encantado,
Com as cores
Que tu me deste
Eu aprendi a cantar
Contigo sempre
A meu lado.

CANTEI
A TUA PARTIDA
Quando desceste
O vale,
Mas, triste e
Sem destino,
Por veredas
Caminhei
Com saudades
Do jardim
Que contigo
Cultivei.

PERDIDO
DE TI,
Vagueei
No monte
À procura
De eco
Do meu canto
Derramado,
Mas o eco
Era silêncio
Profundo
Sob o azul
Irreal
Da abóbada
Celeste
Desse monte
Seminal.

UMA TRISTEZA
PROFUNDA
Tomou conta
De mim,
Desmaiou
A emoção
De te ver
Ou inventar
Com as cores
Do meu jardim
Porque um silêncio
Cortante
Sufocava,
Impenitente,
O eco
Dessa canção...

TAMBÉM EU DESCI
O VALE
Da minha vida
E regressei
À triste
Monotonia
Sem teu rosto
Desenhado,
Semente
Em gestação
De cada palavra
Que verso
No poema
Em construção
Nesse jardim 
Encantado...

ESTOU A PERDER-TE,
É poética
Anemia,
Sinto vazio
No peito,
O estro já escasseia
E vacila
A melodia...

O CÂNTICO
É murmúrio
Inaudível
De alma ferida,
Sem comoção,
Que nem dor
Ela já sente
De tão gasta
Nesta vida
Por excesso
De paixão.

O VALE
ESPERA-ME,
Sinto-me vazio
De ti
Porque
Não chegam sinais
Da rua do
Desencontro
Nem das fugas
Irreais
Para o teu
Infinito,
Janelas
De onde te veja
Dobrar
As esquinas
Esquecidas
Do nosso
Contentamento.

ESTOU A PERDER-TE,
AMOR,
Não há janela,
Nem cor,
Não há tempo
Nem lugar,
Não há poema
Nem mar
Que suspenda
O vazio
De não poder
Navegar
Nas águas
Desse teu rio...
....................
Eu perdi-te,
Meu amor?
UmaCasaNoJardim_3_1006PublicadaCOR3CopR

“Jardim das Memórias”. Detalhe.

 

Poesia-Pintura

“EU VI UM ANJO…”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Melancolia”
Original de minha autoria 
para este poema.
Janeiro de 2020
Melancolia1901Finaljpg

“Melancolia”. Jas. 01-2020

POEMA – “EU VI UM ANJO…”

EU VI UM ANJO
Cair
Docemente
Sobre mim
Com seu rosto
Imaculado
Num momento
D’incerteza
Que parecia
Não ter fim...

VINHA ELE
Lá de bem alto
Onde eu
O pressentia,
Estremeci,
Um sobressalto,
Porque esse anjo
Imaculado
Em mim
Não caberia.

SUA LUZ
Era intensa,
Ofuscava-me
O olhar,
O seu brilho
Deslumbrava
E eu senti-me
Cegar...

MAS NÃO SEI
Se era anjo...
................
Talvez fosse
Uma mulher,
E se não fosse
Arcanjo,
Ah,
Não era um
Rosto qualquer...

POR ISSO
ME FASCINOU,
Porque ao vê-lo
Descer
Desse trono
Onde reinava,
Quase, quase
Me cegou
A luz
Que o transportava...
..............
E levou-me
Ao Olimpo
Onde a arte
Lhe sobrava...

FIXEI-O, ENTÃO,
Num quadro
De memória,
Traços leves,
Cores intensas
Que cativam
O olhar.
Pintei-o
Da cor da
Minha paixão
Para nele
Desvelar
Essa mulher
Sensual
Que me veio
Cativar
Nesta tão bela
Prisão.

DESENHEI-A
Como belo
Avatar
Que entrou
Dentro de mim
Para sempre
Me lembrar
Que era
Uma mulher...
............
E não era
Querubim.

MAS VI UM ANJO,
Ah, eu vi,
Entrar bem
Dentro de mim
Sob forma
De mulher,
Porque anjo
Imaculado,
Uma grandeza
Infinita,
Não caberia
No meu pequeno
Jardim.

EU VI UM ANJO
DESCER
Neste vale
Da minha vida
E ele fez-me
Crescer,
Recomeçar
A partida...
.............
Para logo me
Perder...

E COM POEMAS
Parti
Em viagem
Ao Olimpo
Para com ele
Voar
Em cada palavra
Que digo,
Em cada verso
Que sinto...
.............
Mas bem sei
Que me perdi...

jas_melancolia3Final1901

“Melancolia”. Detalhe.

Poesia-Pintura

“A COR DA MEMÓRIA”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Transparência”.
Original de minha autoria
para este poema. Janeiro de 2020.
Transparência1

“Transparência”. Jas. 01-2020

POEMA – “A COR DA MEMÓRIA”

NUM DIA DE CHUVA,
Bateram levemente
À porta da minha
Memória... 

ERA TRANSPARENTE,
A porta.
Vi que eras tu.
Reconheci a tua boca,
O bâton púrpura
Dos teus lábios. 

NÃO SEI SE
ME PRESSENTISTE,
Não sei.
A porta
Era um espelho,
Através dela
Só se via
Do lado de cá. 

ENTRASTE,
Cheia de cor,
Que a chuva
Humedecera,
Mas deixara
Intacta.
Apenas com mais
Brilho...
........
O teu! 

TAMBÉM TU
ERAS TRANSPARENTE.
Olhei-te
E vi, através de ti,
Um céu plúmbeo... 

E, NA TRANSPARÊNCIA,
DESPONTOU O SOL,
Coado em amarelo.
Havia umas nuvens
Escuras
A nascente,
Lá no Monte... 

ÀS VEZES, O AMARELO
Ganhava tons de
Âmbar
E vestia-te o corpo,
Nu,
Na minha intangível
Memória
Fotográfica. 

VIA COM NITIDEZ,
Sereno,
Esse teu belo
Sorriso
Cristalino,
Mas, quando te quis
Tocar,
Ao de leve,
Um vidro desceu,
Vertical,
Sobre nós.
Era frio
E húmido,
Esse vidro.
Separou-nos.
E eu chorei! 

AS LÁGRIMAS
Escorreram
Pelo vidro.
Tentaste
Agarrá-las
Do lado de lá
E fixá-las com
Todas as cores
Que tinhas contigo.
Ficaram apenas 
Algumas gotas
Amarelas
Nesse vidro frio,
Húmido
E cortante...

DE REPENTE,
Tornaste-te sol
E eu já não era
Mais do que um
Reflexo dos teus
Raios filtrados
Por algumas
Nuvens...
.........
Escuras! 

DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Suavemente
À porta
Do meu quarto.
Corri a abri-la...
...............
Ninguém! 

REGRESSEI, RÁPIDO,
À minha memória
Para te reencontrar,
Mas tu já não
Estavas,
Sequer como reflexo...
...................
Deixara aberta
A porta do tempo...


Transparência1R

“Transparência”. Detalhe.


					

Poesia-Pintura

TEMPO

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Amanhã...”. 
Original de minha autoria 
para este poema. Janeiro de 2020.
FuturoFinal2

“Amanhã…”. Jas. 01-2020

É TEMPO DE RECOMEÇO?
O que ontem
Eu já era
É o que hoje eu sou,
As festas
Quiseram tempo
Intenso,
Mas o tempo resistiu
Ao que a vontade
Tentou...
.................
É tempo
De recomeço
Quando o tempo
Não passou?

EM CADA MOMENTO
Procuro
O tempo
Que, no passado,
Eu, poeta, 
Não vivi
Porque sempre
Reinvento
Tudo aquilo 
Que perdi,
Num poema
Ou em pintura
Para saber
Quem eu sou
Antes de lá
Me perder...
............
Nos lugares
Pra onde vou...

ENTRE HOJE E ONTEM
Há algo
Que já mudou?
Acaso me libertei?
A esperança regressou?
Fui ao baú
Das memórias
E vi logo 
O que tu és:
A imagem bem certeira
Desse tempo
Que passou...

TUDO MUDA
Amanhã,
Quando, tenso,
Eu passar
Na curva
Do teu caminho?
Encontro o que antes
Nunca vi?
Mulher com futuro
No olhar,
Sempre a sorrir
Para ti,
A repetir com carinho
Um terno
E tão antigo “Olá!”,
Cabelos negros
Ao vento,
Corpo esguio
Em movimento,
Removendo um passado
Que nunca mais
Voltará?

NÃO, O SEU TEMPO
É o silêncio,
Já não o tenho
Nas mãos,
Ele corre
Sem destino,
É ritmo sem melodia,
Caminho
Da minha vida
Que percorro dia-a-dia
Na vertigem
Do passado,
Mais tristeza
Que alegria
Como este peso
Do fado
Só liberto em
Poesia.

TEM TEMPO, A POESIA?
Talvez tenha,
Eu não sei,
Com ela voo
No céu
Sem limites
Nem fronteiras,
Um tempo que é
Só meu.

AH, SIM,
O tempo da poesia
É a minha salvação,
Perdi-te, mas eu não queria
Passado de negação.

É TEMPO DE RECOMEÇO,
Sopra vento de feição?
Sou feliz em poesia.
Não é o tempo
 Que salva,
Mas as palavras
Que digo
Enquanto fores
Alimento
Desta minha inspiração
Porque é assim
Que te canto:
Da dor sai alegria
Que me cura 
Da paixão.
FuturoFinal2R

“Amanhã”. Detalhe.

 

Poesia-Pintura

NÃO SEI SE TE CHEGAM

AS PALAVRAS…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Jardim das Palavras”.
Original de minha autoria para este
Poema. Dezembro de 2019.
JardimDasPalavrasFinal2812

“O Jardim das Palavras”. Jas. 12-2019

POEMA – “NÃO SEI SE TE CHEGAM AS PALAVRAS…”

NÃO SEI SE TE CHEGAM
As palavras
E, se chegam,
Se te tocam.
Não sei se
As arrumas
Nas gavetas
Da rotina
Ou as deitas
Nos desperdícios
Da vida...

TALVEZ NEM CHEGUEM.
Não sei.
É esta a beleza
Da minha invocação.
Canto-te
Sem saber se te
Chegam as letras 
Com que vou desatando
A sufocada
Afeição
Ou se o vento
As leva
Pra lugares
De poética
Virtude,
Resgate
Desta minha 
Solidão...

TALVEZ NÃO INTERESSE
Saber se chegam
Ao destino.
O que m’importa
É dar forma
À melancolia 
Do meu desejo de ti
Como se fosse
O primeiro dia 
Em que, fora do poema,
Eu logo te pressenti.

É POR ISSO QUE SÃO
Palavras pintadas
Com as cores
Do meu jardim,
Porque na beleza
Das palavras
E da cor
Se cristaliza,
Da vida,
O amor
E, da falta de ti,
Se decanta
A minha dor.

SIM, ÉS TU
Que me moves,
Me inspiras
E induzes perfeição.
Sem ti
Seria arte estranha,
Simples adorno,
Jogo de formas,
Um canto
De diversão.

O POEMA É 
Uma forma de socorro,
É magia
Que invoca o teu
Rosto
Perdido nas 
Nas brumas 
Da memória e
Coberto pelo
Silêncio
Do que nunca
Me dirás.

NADA A FAZER.
Com arte
Te quero seduzir
E eleger.
Não te chegam,
As palavras?
Só importa
A ideia
Que tenho de ti
E a poesia
Que decanta 
A minha vida
Pra te ter
Por companhia
Nesta longa
Despedida.

MAS À ARTE
Respondes
Com o silêncio 
E o mistério
Pra não quebrares
O encanto
Que faz de ti
Galeria 
Do que em arte
Eu senti
Em forma de poesia.

ESTRANHAS SAUDADES
Virão
Quando o estro
Me faltar
E à Torre
De Montaigne
Subir como refém...
............
Dela nunca
Sairei
Para novo
Desencontro
Lá para os lados
De Belém...
JardimDasPalavrasFinal2812Recor

“O Jardim das Palavras”. Detalhe.

Poesia-Pintura

“PRESSENTIMENTO”

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Travessia”.
Original de minha autoria
para este poema.
Dezembro, 2019.
Jas_Silhueta3

“Travessia”. Jas. 12-2019.

POEMA – “PRESSENTIMENTO”

MAIS UMA VEZ,
Ao entardecer,
Te pressenti,
Numa rua de Lisboa.
E não te vi.

AH, ESTA LISBOA 
Que amas!
Uma fria silhueta,
A travessia.
Um homem
Perdido em memórias
Que esfumam
No tempo
E deixam
A alma vazia.

DEUS EX MACHINA
Que desce sobre mim
No caos
Em que a vida
Se tornou,
Nos afectos
E na dor...
............
A invocar
As origens 
Do amor.

CAÍSTE-ME
NUMA ENCRUZILHADA
Improvável
Quando vinha
Da imensa planície
Onde os deuses
Se anunciam
No horizonte...

UM SÚBITO CLARÃO,
Um sobressalto...
 Estremeci.
Irrompeste,
Intempestiva,
Das brumas
Da memória...
...........
Mas apenas 
Te pressenti!

APROXIMEI-ME
Do teu mundo,
Sem saber?
Foi o destino,
Adormecido
Que estava
De nunca, 
Mas nunca 
Te ver.

ESTRANHOS
DESENCONTROS
Que desabam
Sobre nós
Com o destino
A comandar
No labirinto
Insondável
Das nossas vidas...

SILHUETA FUGIDIA,
É o que és,
Afinal,
Porque tudo é plano,
Demasiadamente
Plano, em ti.

VI UM NÚMERO,
A única certeza
Que tenho,
A janela
De onde te vislumbrei,
Mas incerto
Como todos
Os números
Deste mundo.
Incerto, sim,
Porque tu
Não és número
Que me dê
Certezas,
Para além da dor.
És mais quatro
Do que sete,
Meu amor!

OU TALVEZ TENHA SIDO
A minha fértil
Imaginação
Já um pouco doentia
A cruzar-se contigo
Num lance de
Pura magia.

MAS NEM SEI
Se é por ali
Que tu andas,
Porque de ti 
Nada sei,
Só o que me sobrou
Daquele tempo
E do tempo que criei
Para nunca te perder
Naquela história
Onde te conto
Longamente
Para em ti renascer.

QUE ESTRANHOS
Lugares de
Desencontro,
No meio da multidão!
Um instante,
Ambiente ruidoso
E improvável,
O regresso a ti,
Cada vez mais
Imaterial
Na película subtil
E transparente
Da memória...
Simulacro irreal.

AH, COMO NO FIM
Deste poema
Sofro a falta
De uns olhos verdes
A cobrirem-me a alma
De ternura,
Mas nem o sol
Se descobre
Para os acender
E me inundarem
De beleza
Da mais pura!
Jas_Silhueta3Recort

“Travessia”. Detalhe.