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Sobre joaodealmeidasantos1

Professor universitário, escritor, poeta, pintor. Publicou várias dezenas de livros, seus e em co-autoria, de filosofia, política, comunicação, romance, poesia, estética. Foi professor nas universidades de Coimbra, Roma "La Sapienza", Complutense de Madrid e Lusófona (Lisboa e Porto). Publica semanalmente, neste site, ensaios, artigos, poesia e pintura.

Poesia

GEOMETRIA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Triângulos”.
Original de minha autoria para este
poema. Janeiro de 2019.
geometria

Triângulos. Jas. 01-2019

POEMA – “GEOMETRIA”

MEUS POEMAS
São triângulos
Perfeitos,
Geometria
De afecto
Irreal
Com três lados,
O poeta
Refractário,
A musa
Que o inspira
E a fonte
Seminal...

“ - PORQUÊ
GEOMETRIA”,
Dirias tu,
“Se o amor não
É exacto,
Perfeito e
Linear,
Linha pura
De um rosto
Que só tu podes
Olhar?”

PORQUE A GEOMETRIA
Eleva ao excelso
Paraíso,
Exactidão,
Leveza,
Rapidez,
Linhas
Rectas,
Refracção
(Como vês)
De um rosto
Divinal
Que projecto
Com a alma
No meu jardim
De cristal...

ELEVA-ME
À perfeição,
Que não é
Pecaminosa,
Distante
Da curva linha
Rugosa
Que descreve
O amor
Em gestação
Como onda
Sinuosa,
Turbilhão
Nesse vasto
Oceano
Que não ouso
Enfrentar...

E, POR ISSO,
Quando desenho
O amor
Como círculo
Perfeito,
Ângulo
Agudo do sete,
Eu perco-te,
Mesmo que o
Desenlace e
O projecte
Como linha
Que descreve
Um voo
Ao infinito
Que já transborda
De azul...

POR MAIS FIGURAS
Que desenhe
Ou fugas
Que eu encete,
Linhas no fio
Do céu,
Não encontro
O amor,
Mas projecção
Geométrica
De uma nudez
Interior
Que eu espelho
No meu canto,
Expiação
Desta dor!

NÃO HÁ AMOR
Num triângulo 
Perfeito,
Bem sei,
Na aritmética
Do espaço,
Linha em fuga
De uma deserta
Rua 
Para lá do
Horizonte
Dessa alma
Sempre nua...

AH, MAS NA COR...
Na cor que sinto
Bem fundo
Dentro de mim,
Como fonte
De calor
Com que me
Visto a alma
Para me agasalhar
Desta tão fria 
Dor...
Sim, eu vislumbro
O amor...
.............
Nas faces
De um cristal
De onde te vejo
Em triângulos
De cor e luz, 
Espelhos
Desse teu rosto 
Em refracção
Luminosa
Que ao poeta
Inspira e seduz
Quando te canta
A beleza
P’ra te dizer 
Do destino 
A que o poema 
Conduz...

MEUS POEMAS
Serão, pois, 
Triângulos
De luz e cor
Que m'iluminam a 
Alma
Onde te guardo 
Escondida,
Para sempre, 
Meu amor!
geometriar

Detalhe.

Poesia

PERFUME

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração: “Perfume”. 
Original de minha autoria para este poema. 
As duas referências que gostaria  
de assinalar, neste poema, são as 
“Memórias de Adriano", da Marguerite
Yourcenar (Alfragide, Leya, 2018: 72-73), 
e "Os Sonetos de Shakespeare" 
(Lisboa, Quetzal, 2016 - Soneto 54).
Janeiro de 2019.
rosarosaefinal1301

Perfume. Jas. 01-2019

POEMA – “PERFUME”

E SE UM DIA
Me perguntasse
O que é, para ti,
O amor?
Pintar
Esse teu rosto,
A retórica
Do corpo,
Celebrando-te
A cor?

OU DIZER-TE
NUM POEMA,
Retórica
Da minha alma
Que te sofre
Em dilema
Entre o silêncio
E o canto
De tão longa
Ser
Esta nossa
Despedida?

DESENHAR-TE
Como se fosses
Flor
À medida do
Desejo,
A retórica
Da cor
Que sempre,
Ao ver-te,
Festejo?

O QUE É?
O perfume de uma
Rosa,
Branca
Ou vermelha
De cor,
Que sempre 
Me enche 
De ti
E me perde,
Meu amor?

DESENHAR UMA 
PAISAGEM
Contigo
No horizonte,
Uma brisa
Que sopra
Suavemente
Lá em cima
No meu Monte?

O QUE É PARA TI
O AMOR?
Ouvir-te
Como minha
Sinfonia
Ou sentir o teu
Silêncio,
A secreta
Melodia?

ENLAÇAR TEU CORPO
Ao meu,
Um calor
Que inebria,
Celebrar-te
Sem parar
Uma noite
E um dia
Ou projectar
No espelho
O teu corpo
Virtual,
Celebrando
Teu perfil
Como minha
Alquimia
Num estranho
Ritual?

SABES O QUE É,
MEU AMOR?
Talvez não...
..................
De tanto te
Celebrar,
Pintar,
De tanto cantar
O teu rosto,
A beleza seminal,
Numa tela,
Num ecrã
Ou no meu triste
Mural...
................
Este amor
Pode até ser
Negação...

SAI DE TI
E deixa-te ir,
Vagueia
A vida
Com alma,
Não celebres
Com tristeza
Cada tua despedida
Como se o tempo
Parasse
Para não seres
Esquecida...

SAI DE TI, SIM!
Procura
O que o mundo
Te dará
Pois essa será
A tua certa
Medida...

AMOR TALVEZ SEJA
O perfume
De uma rosa
Em gestação,
“Brando odor que
Nela habita”,
Cor intensa,
Forma bela,
Palavra que
O poema
Sempre hesita,
Mas interpela
Em versos que
Te destilam
Verdade
Quando a vida
Se resolve
Na escrita...
...................
De uma tão funda
Saudade!
rosarosaefinal1301rec

Detalhe.

 

 

 

 

 

 

ARTIGO

POR ONDE ANDA A INTERNACIONAL SOCIALISTA?

João de Almeida Santos

is

“IS?”. Jas. 01-2019

A PERGUNTA que gostaria de fazer ao Vice-Presidente da “Internacional Socialista”, Carlos César, Presidente do PS, quando leio a notícia sobre a iniciativa que um tal Yanis Varoufakis está a promover para a criação de uma “Internacional Progressista” é esta: Por onde anda a “Internacional Socialista”?

Claro que é uma pergunta retórica, pois todos sabemos que esta organização, na verdade, politicamente já quase não existe, apesar de ter um Presidente, Georgios Papandreou (desde 2006), um Secretário-Geral, Luis Ayala (desde 1989, há trinta anos, o que diz tudo!) e um Presidium com 34 Vice-Presidentes. Parece ser claro que a sua inexistência política se deve à crise generalizada dos partidos socialistas, que não têm sabido interpretar as profundas mudanças que se estão a verificar nas nossas sociedades e que, por isso, têm vindo a definhar inexoravelmente, com uma ou outra excepção. Mas não seria esta uma boa razão para, com a globalização, activar a Internacional Socialista e relançar a social-democracia? Afinal, o que se constata é que nem o próprio Partido Socialista Europeu parece dar grandes provas de vida, quer do ponto de vista interno quer do ponto de vista de uma estratégia para a União Europeia e para o relançamento da proposta política e ideal da social-democracia. Mas, sobretudo, o que não se vê é pensamento político, que é do que mais se precisa. Vistas as lideranças, não acredito que haja uma resposta, para além dos habituais clichés. Ou seja, o que, de facto, parece estar a acontecer é uma crise generalizada da social-democracia. E esta crise só não a vê quem não quiser ver. Os resultados das eleições nos vários países da Europa são claros, sendo flagrantes, por exemplo, os casos da Grécia, de Itália, da França ou da Holanda. Por outro lado, a onda de extrema-direita alastra em mancha de óleo e as eleições europeias serão o grande teste à resistência do establishment político, onde também se inclui a direita moderada. As brechas por onde irrompe o extremismo político são conhecidas: a insegurança, o problema dos refugiados e, em geral, dos movimentos migratórios, a incerteza, os efeitos da globalização sobre o emprego… e a incapacidade de resposta do establishment político aos problemas, prisioneiro que está da narrativa do politicamente correcto e da chamada realpolitik. Claro, mas o que está a acontecer é muito mais profundo e tem a ver com uma mudança estrutural na composição e na articulação das sociedades e na relação que os indivíduos singulares mantêm com elas, em grande parte devido os avanços da tecnologia e, em particular, das tecnologias da informação e da comunicação (TICs). E, claro, aos avanços civilizacionais [1].

A Internacional Nacional-Populista

A verdade é que a extrema direita já agarrou as TICs, já as usou na sua forma mais deletéria, através da Cambridge Analytica [2], pondo-as ao serviço, na batalha eleitoral (USA, UK), da narrativa sobre os problemas estruturais que acima identifiquei, explorando o que sabia acerca dos acerca de milhões de pessoas e visando atrair os seus “demónios interiores”. Artífice disso foi precisamente Steve Bannon, então vice-presidente daquela empresa, e Aleksandr Kogan e os seus companheiros da Universidade de Cambridge, sendo, este, Professor Associado e tendo “received grants from the Russian government to research Facebook users’ emotional states”, segundo um artigo publicado pelo The Guardian (17.03.2018).

Pelo contrário, a esquerda tem sido incapaz de as usar como tecnologias da liberdade e como instrumento de emancipação da cidadania, porque ainda está prisioneira das velhas fórmulas da política orgânica e de encapsulamento organizacional e ideológico da política ao mesmo tempo que tem vindo a agir no quadro da velha realpolitik. De resto, o establishment político e o establishment mediático são tendencialmente adversários jurados da rede porque ela representa uma nova configuração do poder centrado na cidadania ou, pelo menos, um poder paralelo ao que era expresso exclusivamente pelas grandes organizações com poder de gatekeeping político e comunicacional. Uma nova natureza do poder, portanto. Poder diluído, como dizia o saudoso Jesús Timoteo Álvarez (Gestión del poder diluido. La construcción de la sociedad mediática (1989-2004). Madrid, Pearson, 2005). A amizade da esquerda convencional pelas TICs e redes sociais é apenas interesseira, de curto alcance e usa-as apenas como new media, que não são.

A extrema-direita, para construir aquilo que o seu ideólogo de serviço, Bannon, o homem que preparou a chegada ao poder de Donald Trump, já designou como Internacional Nacional-Populista, está a trabalhar uma narrativa à altura do momento, tendo como referentes políticos reais Matteo Salvini, Victor Orbán, Jaroslaw Kaczynski, Donald Trump, Jair Bolsonaro, Marine Le Pen, Geert Wilders, Heinz-Christian Strache, Santiago Abascal, Gauland & Weidel, etc… Bolsonaro, ao que parece, já começou a caminhada para o mccarthyismo, anunciando a expulsão dos comunistas da função pública. E o exemplo da vertiginosa ascensão de Salvini, explorando politicamente o combate ao fenómeno migratório e a contraposição à União Europeia, explica de forma bem simples o que está a acontecer.

Entretanto, o senhor Varoufakis, desiludido com a política de Atenas e do seu ex-camarada camarada Tsipras (ele tem agora um novo movimento europeu, DiEM25), rumou a Burlington, no Vermont, e, com o activo Bernie Sanders, decidiu, na sua Fundação, criar uma nova internacional, a Internacional Progressista, para combater a ameaça do nacional-populismo, convocando para o efeito personalidades como o Presidente da Câmara de New York, Bill de Blasio, a Presidente da Câmara de Barcelona, Ada Colau, Susan Sarandon, Jeffrey Sachs, Naomi Klein ou Cynthia Nixon. O objectivo é colocar-se como alternativa à internacional nacionalista, sim, mas também às velhas elites que permitiram que o sistema económico gerasse mais desigualdade. O Manifesto começa assim:

Há uma guerra global em movimento contra os trabalhadores, contra o ambiente, contra a democracia, contra a decência. Uma rede de facções direitistas está-se a alargar através das fronteiras para provocar a erosão dos direitos humanos, silenciar a diferença e promover a intolerância. Desde 1930 que a humanidade não enfrentava uma tal ameaça”.

É importante que surjam iniciativas como estas que reconheçam que a velha política está a falhar – e nem é preciso relembrar o falhanço liberal do início do século XX – e que a resposta não poderá ser a mesma que se verificou entre guerras, com ditaduras a pulular por essa Europa fora. Mas também é lícito perguntar por que razão a área da social-democracia continua a assobiar para o lado e a afundar-se, podendo levar ao afundamento da própria democracia. Algum problema haverá para que isto esteja a acontecer. Mas não se vê iniciativas que tentem dar uma solução à crise…

Que fazer?

Por isso, a pergunta com que iniciei este artigo é legítima e resulta de uma profunda preocupação pelo caminho que a social-democracia está a percorrer e do mutismo intelectual e cognitivo dos seus dirigentes. É bem conhecida a crise que os partidos socialistas estão a sofrer por toda a Europa, com a honrosa excepção dos “gauleses” do PS. A mais recente crise verificou-se na vizinha Andaluzia, confirmando-se mais uma vez a tendência para o declínio. No Brasil, está-se a verificar a criminalização de um grande partido de esquerda da América Latina, o PT, sem que se tenha ouvido a voz da Internacional Socialista, apesar de o Secretário-Geral ser o vizinho chileno Luis Ayala. Bem sei que o PT não a integra (não interessa as razões), mas é um partido da sua área. Do socialista grego Georgios Papandreou, seu Presidente, desde 2006, sucedendo a António Guterres, não se tem notícias, tal como do velho Pasok, que abandonou. O Partido Democrático em Itália está em progressiva perda e não se vê como possa recuperar. O panorama europeu é, deste ponto de vista, confrangedor e até a escolha do próximo candidato do PSE a Presidente da Comissão parece não ter grande sentido, sobretudo se atendermos à própria crise que a União Europeia está a viver. Mas talvez a escolha tenha sido feita na óptica de uma derrota nas próximas eleições.

A verdade é que Varoufakis já conseguiu a convergência de Bernie Sanders, que representa uma parte muito consistente do Partido Democrático americano. E também é verdade que a iniciativa responde, de facto, a um problema. O que eu não compreendo é este silêncio e esta inacção de organizações tão importantes como a Internacional Socialista ou o Partido Socialista Europeu. Falta acção, sem dúvida, mas sobretudo falta pensamento. E a sensação é que a social-democracia já está acantonada no exercício de uma frágil realpolitik que em tempos de profunda mudança perde qualquer sentido. Mas era bom que acordasse porque ela representa uma área política e um património que serão sempre muito relevantes para o futuro da humanidade. Por isso, e até pelo meu próprio posicionamento pessoal, o que me apetecia fazer era dar a este meu texto a forma de uma Carta aberta, não a Carlos César, mas a António Costa. Só não o faço porque alguns iriam achá-la um pouco pretensiosa. Mas aqui fica o essencial do que teria dito nessa carta.

NOTAS

[1]  Sobre este assunto, veja o livro, por mim organizado, Novas fronteiras da política na era digital, Lisboa, Edições Universitárias Lusófonas (versão digital, de acesso livre, em cipes.ulusofona.pt), em particular o Capítulo I: “Um novo paradigma para a social-democracia” (pp. 15-46), de minha autoria.

[2]  A whistleblower has revealed to the Observer how Cambridge Analytica – a company owned by the hedge fund billionaire Robert Mercer, and headed at the time by Trump’s key adviser Steve Bannon – used personal information taken without authorisation in early 2014 to build a system that could profile individual US voters, in order to target them with personalised political advertisements”. “Christopher Wylie, who worked with a Cambridge University academic to obtain the data, told the Observer: ‘We exploited Facebook to harvest millions of people’s profiles. And built models to exploit what we knew about them and target their inner demons. That was the basis the entire company was built on’”. The Guardian, 17.03.2018.

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Poesia

PINTO-TE COM PALAVRAS!

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Chakra”. Original de minha
autoria para este poema. Janeiro de 2019.
chakra0601

Chakra. Jas. 01-2019

POEMA – “PINTO-TE COM PALAVRAS!”

TU PINTAS-ME...
Eu bem sei,
Gastas a alma
Na cor
E nos riscos
Que te fazes
Para assim
Me compor,
Elevar em 
Catarsia,
Parar a dor
Que te canto,
Choro triste,
Poesia.

“- E TU CANTAS
Meus pobres
Traços,
Euforia
De paisagens,
Rostos perdidos
No tempo,
Cores que
Tapam
A tristeza
De te perder
Para sempre
Como minha
Melodia”.

SIM, EU CANTO
Todas as cores
Com que te pintas
A vida,
O que te nasce
Das mãos
Sempre já em
Despedida...

E CANTO
As minhas dores
Com essas palavras
Gastas
Que são como
Os sabores
Com que tempero
O destino
De ti sempre
Tão ausente
Como laico
Do divino!

SIM, EU CANTO
A vida
Sem a tinta
Que é, afinal,
Um desejo...
Flui-te das mãos,
Expõe-te a alma
(Um lampejo!)
Ao poeta
Que te pinta
Em versos
Como cometa
Que nasce
E morre
Consigo
Como frágil
Borboleta
Que perdeu
O seu abrigo...

PORQUE DESENHAS
A alma
Com silêncio
Que tu logo
Cobres
De tinta
P’ra que eu já
Não te veja
Em meus versos
Enganados
E, assim,
Já não te minta...

MAS EU VEJO-TE
Sempre
Num poema
Para além da
Tua cor,
Por isso vivo
Em dilema:
Sou poeta ou
Pintor?

SE TE PINTO,
Cubro
O silêncio
De cor,
Se te canto
Sou eu mesmo...
..............
Um poeta,
Fingidor!

chakra0601recor

Poesia

ESTA NOITE EU SONHEI-TE…

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Regresso a Pasárgada”. Original 
de minha autoria para este poema. Dezembro de 2018
Pasárgada301218

“Regresso a Pasárgada”. Jas. 12-2018

POEMA – “ESTA NOITE EU SONHEI-TE…”

ESTA NOITE EU
SONHEI-TE...
....................
Já passara
Tanto tempo
Que parti
Do meu nordeste,
Do jardim do 
Paraíso!

COMO SE NA
VASTIDÃO
Do espaço 
Entre o sonho
E tua vida
Não houvesse
Essa tristeza
De tão longa
Despedida...

QUE ESTRANHO
ESTE SONHO,
Pois julgava-te
Perdida
Lá no fundo
Da memória,
Onde a imagem
De teu rosto
Não me fosse
Devolvida!

AH, QUE BOM
SONHAR-TE,
Recriar
O que perdi,
Virar tudo
Do avesso,
Reviver
O teu sorriso
E ficar-me
Por aqui!

ESTA NOITE
EU SONHEI-TE
E gosto
De o dizer,
É como ter-te  
A meu lado
Para não mais
Te perder
Porque nasci
P’ra te amar...
...................
Esse dom
Que faz sofrer!

AH, QUE SONHO!
Ficou-me colado
Ao corpo
Mesmo quando
Acordei,
Foi um prazer
Infinito,
Pois tinha 
O doce sabor
De alguém
Que eu amei.

SONHEI-TE,
Senti-te
Dentro de mim...
.................
Mas eu não sei
Por onde andas,
Se te ganhas 
Ou te perdes...
..............
E esta dor
Não tem fim...

PERDI-TE
De modo diferente,
Bem sei,
Porque nunca
Te encontrei
Na ponte
Desse teu rio
Que eu nunca
Atravessei.

ESTA NOITE EU
SONHEI-TE...
...........
Voltaste
De longa ausência,
Voltas sempre,
Sim, eu sei,
Porque de mim
Não saíste,
Do dia em que  
Te encontrei.

MAS PARECE
Que te esfumas
No poço fundo
Do tempo,
Tua imagem
S'esbate
Nesta retina
Já gasta,
Tua voz é
O silêncio
Deste som
Que me consome,
Teu olhar
Fica cerrado
Para nunca mais
Me ver,
Braços caídos
No corpo
Para não me
Abraçares
Nem que seja
Na memória
Do que nos sobra
Da vida!

É ASSIM QUE
EU TE SONHO,
Vendo-te um pouco
Perdida,
Comigo sozinho
No cais
Com a alma
Adormecida,
Porque daqui, 
Deste meu 
Sonho, 
Tu já não sais,
 No resto da
Minha vida!

ESTA NOITE EU
SONHEI-TE
Porque estás
Longe de mim,
Não foi por 
Vontade minha,
Foi a vida,
Foi assim...

Pasárgada301218Rec

 

 

Poesia

ENCONTRO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Dame mit Ohrring”. Original
de minha autoria para este poema. 
Dezembro, 2018.
Exactamente há um ano, publiquei o poema “Teus Olhos”, agora 
recriado sob a mesma inspiração, mas ilustrado, não com “Dame 
mit Muff”, de Gustav Klimt, que aqui evoco e invoco, mas por este  
quadro de minha autoria. O percurso de um ano, aqui plasmado, 
quarenta e cinco desenhos depois, de um atrevido aprendiz de pintor 
que, em grave estado de necessidade poética, se lançou na ousada 
aventura de ilustrador da sua própria poesia!
JAS_Dame mit Ohrring231218Final

“Dame mit Ohrring”. Jas. 12-2018

POEMA – “ENCONTRO”

CHEGASTE SÓ,
Rápida,
Deusa
No jardim,
Asas nos olhos,
Um horizonte
Sem fim...

A LUZ MORNA
Do entardecer
Deu brilho
Ao macio
Do teu rosto
Para o embelecer
Na penumbra
Que descia
Nesse cair
De sol-posto.

TUDO É BELO
Em ti, 
Quando te deixas
Ir,
E vais, livre,
Por aí,
Serena
E distante
Da fria rotina,
Seduzida pela cor
Que sempre
Te cativou
E há muito
Te destina...

 “ – ESTÁS MODERNO,
Meu amigo!”
Disseste, com
Malicioso sorriso,
Suave porto
De abrigo
De que tanto
Eu preciso...

VI-TE LEVE
Como traço
De pintor
Em aguarela,
Livre como
Pagã divindade,
Suave e doce
Como mulher
Sedutora
Em terna
E já madura
Idade...

VIMOS MIL
Quadros
Luminosos
E vi teu rosto
Em contraluz,
Esse perfil
Que há muito
Me seduz,
Traços finos em
Deslumbrante
Harmonia...
................
Era assim
Que nesse
Entardecer
Eu já te via!

SENTI-ME SUBIR
Ao céu,
Privilégio
Inesperado
Esse dom
Imerecido...
............
Ver-te ali
A meu lado
E sentir-me
Tão docemente
Perdido...

VEJO-TE, SIM,
Às vezes,
De semblante
Carregado,
Sulcos marcados
No rosto,
Recolhida
Num silêncio
Ecoado,
Dias cinzentos
Quando a luz
Te põe órfã
Por momentos,
Em sofrida
Melancolia!

CHEGASTE SÓ,
Nesse dia,
Mas cintilante,
A transbordar
De luz
E alegria.

LI-TE NA ALMA
Com o olhar,
Respirei contigo
O mesmo ar,
Dei vida
Ao que eu já
Pressentia...
................
Nesse morno
Entardecer!

QUANDO TE VEJO,
Assim,
Em sonho,
Nestes dias
De leveza,
Posso dizer
Que te amo,
Que te toco,
Ao olhar,
Que te beijo
Na alma
P’ra melhor
Te abraçar,
Que te digo
O que não ouso,
Ao sabor
Do vento
Em cada
Amanhecer
E que acordo
Sempre
Ao relento
Sob o céu
A descoberto
Para logo,
Bem cedo,
Ao lusco-fusco,
Eu te ter...

NO REGRESSO,
Parei a teu lado,
Por uns momentos,
Olhei-te
Sete vezes,
Um movimento
Sem fim,
Repeti
O teu nome,
Olhaste p’ra mim,
Perdi-me
Do mundo,
Levei-te ao jardim,
Colhi duas rosas,
Respirei
Bem fundo,
Um acre aroma
Me inebriou,
Beijei-te no rosto,
Meu peito parou...

MAS LOGO PARTISTE
Sozinha a voar
Ainda mais bela,
Comigo a sonhar,
Teus olhos
De mel
Em rosto sereno
E sempre feliz,
De alma bem cheia,
Um perfil de deusa
Como eu te quis...
....................
Até que o teu nome
Comigo partisse
P’ra este poema
Onde te recebi
Com estas palavras
Que nunca te disse
Mas que te ofereço
No que agora
Eu (já) escrevi!

JAS_Dame mit Ohrring231218FinalRec

Poesia

FUGA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Corpos”.
Original de minha autoria 
sobre bailado de
Angelin Preljocaj para este poema. 
Dezembro de 2018.
Dance_16_12

“Corpos”. Jas. 12-2018

POEMA – “FUGA”

SINTO A TUA FALTA
E como a sinto
Eu danço e danço
Até cair exausto
No palco
De um poema.

SINTO O TEU SILÊNCIO
Murmurado
E como sinto
O meu canto
É triste,
Amargurado!

MAS NÃO SINTO
A tua pele
E como não a
Sinto
Eu pinto-a
De cores intensas
Numa folha
De papel.

NÃO OUÇO
A tua melodia
E como não a
Ouço,
Nem que seja
Por um dia,
Eu caio logo
Em silêncio
Para melhor
Te sentir,
Cá dentro,
Na minha fantasia.

FAZ-ME FALTA
A tua voz,
O teu sorriso...
..................
E como
Nunca me dizes
O nome
Digo-to eu
Num poema
Tão sofrido
Que busco
Um paraíso
Onde me sinta
 Perdido!

DA TUA FALTA
Nasce em mim
A orquestra
Para uma
Sinfonia,
Corpos que
Dançam
Abraçados
Ao sabor da fantasia,
Andamentos
Sem fim,
Em catarsia,
Contrapontos de
Silêncio,
Luzes e cores,
Aromas e
Flores...
.......... 
Neste palco 
Do poema!

TU FALTAS-ME
E eu revivo-te
No canto e
Na cor,
No silêncio e
Na dor,
Na dança
E no amor,
Na poesia...
...............
Em palavras
Que lanço
Ao vento
Construindo
As paredes
Desta minha
Utopia.

TUDO RECRIO
P’ra te reencontrar
À distância
De um poema,
Cantar-te,
Dançando
Com palavras,
Dizer-te
Em silêncio
Para melhor
Ouvir
O que nunca
Me dirás.

VISITO-TE, ASSIM,
Das mil maneiras
Com que te
Procuro
E te digo,
Encerrado
Numa torre de marfim,
Nesta teia
Enredado
P’ra melhor
Te reviver,
Com a leveza
Da arte,
Cá bem mais 
Dentro de mim.

Dance_13_12Rec

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia

I N O C Ê N C I A

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Loubotinhas”. Original
de minha autoria para este Poema.
Dezembro de 2018.
Loubotinhas5

“Loubotinhas”. Jas. 12-2018

POEMA – “INOCÊNCIA”

ENTRE LIVROS
E POEMAS
Encontrei-as,
As botinhas,
Marcas puras
De infância
Que traçaram
Um caminho
Logo aos primeiros
Passos...
...............
Com o selo
Do carinho!

DEI-LHES COR,
A que pude
Encontrar
Nesta vida
De aventura,
E com ela
Eu pintei
As chegadas
E partidas,
Encontros
E despedidas
Na sua forma
Mais pura.

ENCONTREI-AS
E lembrei-me
Do dia
Em que eu
Te conheci,
Do sorriso
Que esbocei,
Da timidez
Que travei
P’ra te dizer
Do afecto
Que logo te
Prometi.

AGORA, REGRESSO
 A elas,
Aos passos
Que ensaiei,
Às palavras
Que tentei...
................
Ao beijo
Que não te dei,
À tristeza em que
Caí...

É DE PUREZA
Que falo,
Meu amor,
Antes de a vida
Me pôr
Laços presos
Ao meu corpo
Que já não sei
Deslaçar
A não ser
Em poesia
Onde posso viajar
P’ra muito
Perto de ti.

COM ESTAS BOTINHAS
Eu voo
E regresso
Ao paraíso,
Posso dizer
Que te amo
E mais dizer...
...............
Não preciso!

EU GOSTO DE 
GATINHAR COM
A ALMA,
Descobrir
O que não sei,
Encontrar-te
Outra vez,
Dar um passo,
Dois ou três,
Caminhar
Sempre inseguro,
Tropeçar
Quando me vês,
Cair prò lado
Escuro
Quando partes...
...................
Ou não me crês!

EU GOSTO DELAS
E por isso as pintei
Para tas oferecer,
Um sorriso
De criança
Antes de adormecer,
Um sinal
De esperança...
...................
E de tanto
Eu te querer!

REGRESSO
À inocência
E vejo-te
A partir dela
E assim já não
Te esqueço
Porque com
Estas botinhas
Posso voar
Lá de cima,
Da que foi
Nossa janela!

Loubotinhas5R

 

Poesia

NA BRUMA DA MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Luar”. Original de minha
autoria para este poema. Dezembro de 2018.
Rosam5

“Luar”. Jas. 12-2018

POEMA – “NA BRUMA DA MEMÓRIA”

FUI LEVAR-TE
Uma rosa
Aos confins
Do meu afecto.
Desci fundo
Na memória
Onde ainda te
Guardava
Como se fosse
Teu tecto.

PROCUREI-TE
Na bruma
Espessa
Que caía
Sobre mim
E quase não te 
Encontrei,
De tão longa
Despedida...
...............
Uma saudade
Sem fim!

PERDI-TE
O rasto
E o perfil,
Até teu nome
Perdeu cor,
Teus olhos
Luziam,
Incertos,
Nesta neblina
Da dor...

PERDI-TE A VOZ
E a tua
Melodia,
Quase tudo...
................
Mas, no fim,
Não te perdia!

PORQUE ERAS
Uma ideia
Que me sobrou
Do afecto
Que por ti
Sempre senti,
Construção
De arquitecto
Para nunca
Te perder
Desde o dia
Em que te vi.

NO MEIO DA NEBLINA
Esfumava-se
O teu rosto
De tanto eu
Te perder,
Incerto
O cintilar
De teus olhos
Que eram negros
Nessa ideia
De te ver.

ERA BRUMA
Indefinida
Este meu
Esquecimento,
Mas sobraste
Como ideia
Nesse preciso
Momento.

E VOLTEI!
Eu volto sempre!
É desejo
De te ver,
Dar-te corpo
Nas palavras
Com que te quero
Dizer
Em cada dia,
Depois de, no fim, 
Te perder 
(Eu bem sabia).

AGORA, DESENHO-TE
Com palavras e
Com cores,
Com paisagens
Que tenho dentro
De mim,
Com rostos
E com flores,
Aromas,
Um passeio
Com pavões,
Utopias,
Gritos d’alma,
Emoções...
..................
P’ra te recriar
Com magia
E contigo
Caminhar
Lá mais no alto, 
Na fantasia,
Onde vive
Essa ideia
Que procuro
Quando te quero
Encontrar!

VOO COM UMA
Rosa,
Disfarçado de
Insecto,
P'ra te ver
Ali de perto,
Olhos negros,
Cintilantes,
Fugidios
Ao fascínio 
Do jogo da sedução
Numa noite
De luar...
............
E talvez
De perdição!

MAS TEUS
Olhos
Apagam-se
Na fria penumbra
 Da memória
E, então,
Pinto-os
Com as cores
Do arco-íris
P’ra melhor
Te inventar
Banhada
Pelo sol
Nas mil gotículas
Que brilham
Dentro de mim,
Ponte luminosa
Donde sempre 
Te alcanço
P’ra me resgatar
Com flores 
Do teu quimérico 
Jardim.

TOMA ESTA ROSA,
P'ra que sintas
O aroma  
Do meu estro
E como, ausente, 
Eu te guardo
Tão perto de mim!

Rosam5R