Ensaio

O DRONE E A GUERRA

A propósito de um livro de José Sócrates

JOÃO DE ALMEIDA SANTOS

Drone2 

NO DIA 4 de Novembro de 2017 tive ocasião de apresentar, em Lisboa, no Hotel Sana, o novo livro do ex-Primeiro-Ministro, José Sócrates, “O mal que deploramos. O drone, o terror e os assassinatos-alvo” (Porto, Sextante, 2017, pp. 200). Uma obra interessante – que se segue a “O Dom Profano. Considerações sobre o Carisma”, de 2016 -, não só por tratar de um tema que tem estado muito ausente do debate em Portugal, mas também porque centra, com forte argumentação analítica, a questão do uso intenso da tecnologia de guerra – neste caso, o drone – na resolução do problema do terrorismo internacional e do seu enquadramento no direito internacional e no direito penal. Uma questão fortemente controversa, mesmo nos Estados Unidos, e que o autor oportunamente traz ao debate.  

TECNOLOGIA E SOCIEDADE

Bem sei que este é um tema antigo, diria mesmo clássico. Até um sofisticado intelectual marxista russo, próximo de Lénine, Nikolai Bukárine, já o tinha enfrentado e assumido, no seu famoso “Manual Popular de Sociologia Marxista”, no início dos anos vinte do século passado, tendo por isso sido criticado por um outro famoso marxista chamado Georg Lukács. Na verdade, a tecnologia, por mais avançada que seja e por mais inteligência (artificial) que incorpore, poderá, algum dia, ser assumida como solução (relativamente) autónoma para a resolução de problemas políticos, subalternizando a intervenção da vontade humana? Até que ponto o automatismo tecnológico pode ir na condução dos destinos das sociedades humanas?

Claro, o tema passa a ser objecto de reflexão cada vez mais complexa à medida que a revolução tecnológica vai avançando, à medida que a inteligência artificial vai sendo incorporada na tecnologia, sobretudo depois da revolução informática e digital. E hoje já avançou tanto que até ameaça colonizar as nossas vidas e determinar grande parte dos processos sociais: da robótica industrial às transações financeiras internacionais, ao sistema comunicacional, hoje todo em processo de migração para o interior da rede, à inteligência artificial, cada vez mais avançada e a aproximar-se daquilo que o Stanley Kubrik nos sugeriu em “2002 Odisseia no Espaço”, com o Super Computador Hal 9000 a experimentar, em fim de vida, emoções humanas, demasiado humanas. Sim, tudo isto e muito mais se começarmos a analisar a interferência e o poder que as modernas tecnologias estão já a exercer sobre cada um de nós… até à captura e à determinação dos comportamentos individuais (veja, a este respeito, o meu Ensaio: Santos, J. A., 2015, “Política, sociedade e tecnologias da informação”).

A QUESTÃO EM DEBATE

E é aqui que se inscreve este produto tecnológico que dá pelo nome de Drone, zangão, pelo som que emite, veículo sem piloto, robot aéreo. Trata-se, portanto, de alta tecnologia que vem introduzir mudanças determinantes na gramática da guerra, para usar o conceito de Clausewitz, provocando uma profunda disrupção no próprio conceito. Em palavras mais simples: os drones são usados pelos Estados Unidos desde 2001, num enquadramento de guerra ao terror (conflito armado dos Estados Unidos com a Al-Qaeda), com autorização indeterminada do Congresso, mas também em territórios que não têm estatuto de teatro de guerra, não constituem antagonista militar nem ameaça directa e iminente de uso da força conta os USA. Os drones são aqui usados exclusivamente como instrumentos de execução no interior de Estados soberanos aos quais não foi declarada guerra, como executores extrajudiciais de supostos suspeitos, numa dupla falha relativamente ao que preceitua quer o direito internacional quer o direito penal. Se aquele território não está em guerra, não lhe é aplicável o direito da guerra, ou seja, a própria autorização do Congresso; e, se assim for, o castigo do suspeito só pode ser executado no quadro de um processo judicial justo e com garantias, não como pura e simples execução extrajudicial.

Esta parece ser a grande questão em debate neste livro: a ilicitude da intervenção dos drones como tem vindo a ser feita em países como o Iémen, a Somália, Líbia, Síria ou o Paquistão, ou seja, a condução de uma guerra sem teatro de guerra, tornada possível pela existência de drones.

Mas o livro não é só isto, uma reflexão sobre a grande questão de fundo. Ele analisa também o meio enquanto tal, as suas características, o que o distingue dos seus antecessores tecnológicos, que guerra é a sua relativamente à guerra convencional, como actua e em que condições e que consequências traz para a gramática da guerra e para a política. Em poucas palavras, o drone funciona, afinal, como um “deus absconditus” e, em última análise, os seus algoritmos já são tão avançados que podem efectuar a selecção dos alvos com base em comportamentos-padrão, considerados desviantes e, naturalmente, fora dos teatros de guerra. Nisto consistiriam os chamados “ataques de assinatura” (pp. 72-73). Trata-se, pois, de uma arma “limpa” que não gera custos para os decisores políticos e que até pode, por isso, ser entregue à esfera militar, desde que se mantenha a deliberação do congresso que autoriza o Presidente ao uso da força militar contra suspeitos de atentarem contra a segurança dos Estados Unidos. Uma arma, pois, que altera a natureza da guerra nas suas variáveis fundamentais porque altera o conceito de teatro de guerra e subtrai ao confronto um dos contendores, anulando a necessária reciprocidade (igualdade dos contendores), característica matricial da lógica da guerra.

GUERRA E VIDEOGAMES

A obra, naturalmente crítica relativamente a este uso indevido, ilegal e ilegítimo dos drones, evolui, depois, para uma outra questão de fundo, ou seja, para a questão de saber se esta é uma arma estratégica eficaz para ganhar a guerra. E conclui que não, porque as suas características, o modo como intervém sobre os territórios e sobre as populações infunde terror e comete erros grosseiros fazendo vítimas naqueles que muitas vezes até estão do lado contrário ao dos suspeitos. Mas há uma outra consequência igualmente gravosa do lado do utilizador dos drones: a alienação de responsabilidades dos decisores políticos neste guerra silenciosa, “limpa” e meramente tecnológica como se se tratasse simplesmente de um videojogo, ao ponto de gerar aquilo que o autor designa por “guerra unmanned” – e, por extensão, “democracia unmanned” -, sem piloto, onde a tecnologia e a tecnocracia emergem como assépticas funções e lideranças no governo das sociedades.

Também o próprio conceito de guerra é posto em questão, tal como o direito da guerra ou o próprio direito internacional. É como se o próprio conceito desaparecesse dando lugar a uma teoria dos jogosem grande escala, onde a tecnologia ganharia uma relevância nunca antes vista, designadamente em relação à política. Sabemos como sempre foram importantes os avanços tecnológicos na guerra, da espada às armas de fogo, aos canhões, aos tanques, à aviação, aos mísseis, às bombas atómicas… e agora aos sofisticados, invisíveis e letais drones. A questão que se põe é se esta nova mudança não constitui uma ruptura, um salto qualitativo em relação aos meios tradicionais, a um ponto tal que possa produzir uma mudança de paradigma na forma de conceber e de conduzir a guerra.

Este é, pois, um ensaio sobre o dronee as consequências da sua assunção pelos Estados Unidos como a arma para onde converge a guerra ao terror, chegando mesmo, pelo seu domínio excessivo, a condicionar o próprio conceito de guerra e a relação desta com a política. Já não lhe bastava ter a sua própria gramática. Agora passou a ter uma sua própria lógica, que o própio Clausewitz, no Livro VIII, não lhe reconhecia (“a guerra é a continuação da política por outros meios”).

O MAL QUE DEPLORAMOS

Vejamos tudo mais de perto.

JS_O MAL QUE DEPLORAMOS

1. Começo pelo  nome: “O mal que deploramos”. E lembro que essa foi a frase de uma congressista americana, a única que votou contra, no fatídico ano de 2001, na votação do Congresso americano sobre a “autorização para o uso da força militar” pelo Presidente dos USA. O receio da congressista Barbara Lee era o de se tornarem iguais àqueles que, em nome da justiça, queriam combater: agentes do terror. Combater o terror com o terror, ferindo de morte os valores universais e a própria matriz liberal da democracia com que as sociedades livres se conduzem. Os atentados terroristas – e a referência é sempre o 11 de Setembro e o ataque às Torres Gémeas -, execrados unanimemente por todos nós, surgem agora reproduzidos especularmente, como resposta, por nós próprios, já convertidos naquilo que mais deploramos enquanto vítimas e enquanto cidadania portadora de valores universais. Esta é a questão ética que, assumidamente, atravessa todo o ensaio. Daí o título.

2. Depois os USA. Este ensaio centra-se no país que está na vanguarda da utilização dos drones como tecnologia de guerra e de combate ao terror. Está, pois, aqui, em análise a política de combate mundial ao terror pelos Estados Unidos. E por várias razões: porque é o país que mais usa e mais dispõe desta tecnologia avançada; porque foi ele que sofreu o mais espectacular ataque terrorista de que há memória (mais de três mil mortos civis na destruição das Torres Gémeas); e porque passou a ter, sobretudo após 1989, uma vocação tendencialmente imperial.  Da conjugação destas três razões resultou uma política internacional de intervenção armada que vai de países em situação de conflito armado internacional, como o Afeganistão e o Iraque, a países fora do teatro de guerra, como o Paquistão, o Iémen, a Somália, a Líbia e a Síria. Ou seja, a autorização passou a ser aplicada indiferenciadamente em qualquer país onde forem detetados inimigos a abater porque suspeitos de terrorismo, agindo ora numa lógica de guerra, nos países onde se verifique um teatro de guerra (Afeganistão ou Iraque), ora numa lógica de polícia sem fronteiras, polícia do mundo, onde a guerra não esteja declarada, como os que acima referi.

O DRONE E O TEATRO DA GUERRA

3. E é aqui que surge um outro aspecto nuclear debatido no ensaio, com uma clareza meridiana e na qual se centra a proposta final do livro: “permitir o uso de drones só no contexto de um conflito armado”, porque, de acordo com o autor,  (a) só este pode estar ancorado na lei internacional; (b) não seriam necessárias novas leis de enquadramento; e (c) acabaria com a intervenção de drones em países em paz (p. 166).

Mas o que é que tem vindo a acontecer? Intervenções armadas (assassinatos-alvo) fora do teatro de guerra, mas accionadas a partir de uma normativa prevista, em 2001, para a guerra ao terror, ou seja, com um enquadramento que autoriza o Presidente a intervenção armada fora das fronteiras dos USA, incluindo dentro das fronteiras em países fora do teatro de guerra. Ora o que acontece é que estas intervenções armadas – e são muitas e em vários países –, não podendo ser desencadeadas ao abrigo da lei da guerra, porque ela não existe com esses países, convertem-se em execuções extrajudiciais, realizadas, pois, ao arrepio da lei penal e dos mecanismos judiciais de garantia, numa dupla metamorfose: o soldado torna-se polícia e o polícia torna-se carrasco. Tudo à margem da lei e sem que estejam garantidos os pressupostos para a propalada intervenção em legítima defesa, ou seja, sem que haja perigo de ataque iminente e alternativa para lhe escapar.

O livro é muito insistente neste ponto porque as tentativas de legitimação de intervenção armada através dos drones têm vindo a ser feitas em nome da chamada legítima defesa, numa perfeita desadequação entre este conceito e as circunstâncias daquele tipo de intervenção. De facto, a intervenção armada, hoje, segundo a Carta das Nações Unidas, só já é permitida como legítima defesa (art. 51.º) e em circunstâncias muito bem definidas  como mandato da ONU (art. 2.º, n.º 5). O que parece não estar a acontecer com as frequentes intervenções armadas dos drones designadamente em territórios fora do teatro de guerra.

O MEIO E A IDENTIDADE MORAL DO UTILIXZADOR

4. Um outro aspecto muito interessante que este ensaio de José Sócrates nos traz é a reflexão acerca das características do meio, ou seja, do drone e do seu lugar no interior de uma gramática da guerra. O que este meio acrescenta, pois, em termos de estado da arte. Falamos, é claro, da guerra aérea e da noção de espaço, sendo certo que o drone se revela como uma tecnologia dotada de características tão especiais que acaba por condicionar a própria gramática ou mesmo a lógica da guerra, que já é do foro da política. O autor chega mesmo a dizer que

o facto de centrar esta reflexão sobre a guerra contra o terror na arma drone e nos assassinatos-alvo resulta de estar convencido de que foram as suas propriedades específicas que estiveram no centro da conceção e da condução da estratégia da guerra e que são elas que levantam os mais sérios e novos desafios éticos e jurídicos e estratégicos no debate sobre a guerra” (p. 187).

Poderia mesmo dizer, reforçando o pensamento do autor: – diz-me que armas usas e dir-te-ei quem és. Ou mesmo, glosando um ditado popular português bem eficaz: – se queres conhecer o vilão põe-lhe um drone na mão! José Sócrates, em defesa desta ideia de que o meio também tem poder constituinte sobre a identidade de quem o usa,  chega mesmo a citar Sartre (“a existência precede a essência”) e Gramsci para mostrar o poder dos nossos actos e dos nossos meios sobre a construção da nossa própria identidade. E de facto, António Gramsci dizia, nos “Quaderni del Carcere”, que “l’uomo è ciò che diventa”, o homem é aquilo em que se torna, é fruto dos seus actos. Transpondo para o drone, poderíamos dizer que o seu uso como arma letal, que serve para “vigiar e punir”, não pode deixar de ter consequências morais constituintes sobre quem o usa, sobre a sua própria identidade moral.

AS CARACTERÍSTICAS DO DRONE

5. Pois bem, as características do drone – o protagonista da guerra wireless – conferem-lhe, para glosaro que o Marx do I livro de “O capital” dizia da mercadoria, quase a natureza de um fetiche dotado de autonomia própria e de poderes quase mágicos:

(a). mata à distância; (b). altera a relação do comando com a arma e com o teatro de operações, tornando-se invisível; (c). é dotado de uma enorme precisão; (d). actua em sentido vertical, de cima para baixo; (e). é rápido, silencioso e inesperado; (f). espia, vigia e pune, ou seja, mata; (g). gera uma relação especial do soldado que pilota o drone com o teatro de operações equivalente ao dos videojogos, criando, por isso, a percepção de uma relação artificial com a vítima; (h). a sua acção não produz danos do lado do atacante; (i). Implica (relativamente) poucos recursos; (j). opera em segredo, sendo as suas acções cirúrgicas.

Estas características fazem do drone um meio capaz de interferir não só na gramática da guerra como na lógica da guerra e, consequentemente, na política. Um simples exemplo: não havendo baixas nos militares, mobilizando recursos financeiros moderados (relativamente às intervenções convencionais) e actuando num elevado nível de segredo e de invisibilidade, o seu impacto sobre a  gestão política (e a opinião pública) parece ser relativamente diminuto e, por isso, a tendência pode vir a ser a de uma progressiva autonomia do processo e, consequentemente, a de uma sua desancoragem dos processos de legitimação, quer seja no plano formal quer seja no plano deliberativo mais geral. Ou seja, tende a verificar-se uma evolução para uma guerra de tipo autogenerativo, uma guerra sem sujeito, com a sua gramática, mas sem lógica, ou seja, sem política (aparente). Verifica-se, pois, a passagem de uma lógica de guerra para uma lógica de polícia e, mais globalmente, a passagem de uma unmanned war para umaunmanned democracy. Agiganta-se, pois, a tecnocracia, e definha a política – parece-me ser a conclusão do autor. Uma tendência que, infelizmente, se está a verificar em todas as frentes da política. Governam os que “sabem da poda”, os assépticos especialistas, os tecnocratas e, finalmente, a tecnologia, agora já dotada de inteligência artificial. O povo só já subsiste como entidade puramente referencial e como súbdito.

O QUE É, AFINAL, O DRONE?

6. José Sócrates preocupa-se em descrever o processo de gestação do drone e o seu enquadramento na história da tecnologia da guerra, ao procurar explicar em que é que consiste esta espécie de mudança de paradigma. O drone começa como alvo a abater, como instrumento de treino, depois evolui para meio de reconhecimento e de vigilância e, finalmente, para arma letal – tal é a história do drone (pp. 43-51). E, nesta história, a evolução foi tal que se deu um salto qualitativo de modo a que a última fase veio alterar a própriagramática da guerra, introduzindo uma tal autonomia que a gramática se converteu em discurso com sujeito próprio, agora já liberto do problema da legitimidade e, em última instância, do próprio controlo da guerra pelo povo, doravante liberto dos problemas morais e jurídicos, do problema da exposição pública no uso dos recursos e dos mortos em combate. De facto, referindo-se a Barack Obama, de quem se diz confesso admirador, diz o autor que foram os delicados problemas derivados de Guantánamo e de Abu Ghraib que levaram o Presidente americano a apostar numa estratégia de combate politicamente mais segura, menos problemática e polémica, porque invisível, precisamente a do combate ao terror através dos drones (71-72), abundantemente utilizada durante o seu mandato, para espanto de muitos. “Matar em vez de capturar” (p. 15), com esse temível instrumento que tem inscrito no seu ADN somente a primeira hipótese. Na verdade, Obama, cito, “autorizou quatro vezes mais ataques de drones que o seu antecessor” (p.14). O que lhe custaria um apelido pouco amigável: “covert commander in chief”, na “Drone war”. Mas a verdade é que se desapareceram os problemas morais e jurídicos ligados à prática da tortura, apareceram os novos problemas ligados ao uso do drone.

7. Mas a sua evolução mais próxima como arma, deu-se em 1999, na guerra do Kosovo, quando – depois de terem tido funções de informação, vigilância e reconhecimento –  um Predator serviu para filmar e iluminar os alvos para o ataque dos F16, numa experiência de ataque cirúrgico sem baixas, espectacular e já muito parecido com um videogame. O passo decisivo seria dado em 2001: “um alvo que se transformou em olho e um olho que se transformou em arma”. Letal.

UMA ARMA VITORIOSA?

8. Uma outra questão debatida em muitas páginas do livro é a da eficácia do uso dos drones como arma vitoriosa. A conclusão do autor é negativa. O drone altera a natureza da guerra, fere as normas do direito internacional, as do direito penal e tende a subtrair-se ao controlo da deliberação pública, evoluindo de uma lógica de política para uma lógica de polícia. Como se demonstra no livro através de testemunhos, sendo um instrumento de intervenção militar cirúrgica, não tem preocupações de envolvimento e de integração das populações em contexto considerado insureccional, gerando, pelo contrário, sentimentos de ódio derivados da atmosfera de terror a que está associada a sua intervenção no terreno. E não é só aquele concreto zumbido aterrorizador de um objecto invisível e letal que as vítimas e os que estão no seu espaço-alvo ouvem; é sobretudo o agudo sentimento de insegurança generalizado – sob a forma de terror infundido pela surpresa, a imprevisibilidade, a invisibilidade e esse zumbido mortífero – que o drone infunde nas populações, ainda por cima exibindo taxas significativas de danos colaterais. Isto, associado a injunções ilegais e ilegítimas, agrava nas populações sentimentos de rejeição maiores do que os que existiam antes dos ataques. O autor refere outras experiências equivalentes – inglesa e francesa – que resultaram desastrosas para estes países. E a verdade é que o retorno desta violência tem vindo a aumentar exponencialmente na nossa própria casa, na Europa e na América. Acresce ainda, segundo o autor, que os assassinatos-alvo dos dirigentes políticos do terror retiram sempre de cena protagonistas com peso político específico e com quem, numa diplomacia da negociação, acabariam por vir a negociar soluções de paz, sendo incerto o peso político dos que lhes sucederão, mas sobretudo sendo também certo que a liturgia da vítima faz sempre mais devotos do que os que existiam antes do sacrifício. De resto, as estatísticas sobre as soluções deste tipo de conflitos têm claramente dado conta do predomínio esmagador da via diplomática e de negociação relativamente à via armada.

CONCLUSÃO

O livro mantém-se, com coerência, numa perspectiva crítica relativamente à guerra determinada pelo uso indiscriminado deste terrível meio letal, sem pretender ir muito mais além (até pelas dimensões do ensaio, pela delimitação rigorosa do tema que o autor faz e pela coerência discursiva do seu fio condutor), mas sempre se poderia perguntar ao autor qual é, afinal, a sua solução, para a resolução do problema do terrorismo seja ele de Estado seja ele insureccional. Este aspecto não é tratado explicitamente no livro, embora se possa claramente deduzir do discurso que a solução deverá ser política e diplomática e não militar e, muito menos, perseguida através de um terror especular que só diminui quem, ao longo de séculos, conquistou patamares civilizacionais que, sim, viram cair tantas vítimas pelo caminho, mas que felizmente resultaram em progresso civilizacional e em conquista de direitos e de valores que hoje já constituem um sólido património mundial.

Outra questão que não é aflorada é a da caracterização do outro lado da guerra. De certo modo, falando o autor de guerra assimétrica, a propósito de uma guerra que acabou por subtrair um dos contendores ao embate no teatro de guerra, eu poderia devolver-lhe o conceito dizendo-lhe que o seu também é um discurso de certo modo assimétrico porque se limita a pôr em crise uma das partes, sem fustigar explicitamente e de modo ainda mais cortante a barbárie intolerável que alimenta a estratégia do outro lado do conflito. Bem sei que há uma posição ética e política implícita na crítica ao uso letal do drone fora do teatro de guerra e que todo o discurso tem como pressupostos os valores que estão consagrados nas grandes cartas de princípios que a humanidade assumiu e nos valores que estão inscritos quer no direito internacional quer no direito da guerra. E que, por isso, o mesmo crivo crítico que se aplica a este uso dos drones vale também para quem atropela ainda mais profundamente estes mesmos valores. E, assim, também seria útil, numa reflexão como esta, pôr em debate crítico e analítico essa outra mundividência que alimenta agressivamente um pretenso choque civilizacional radical com a mesma vocação aniquiladora que se exprime na gramática pura da guerra. Naturalmente, não como discurso desculpabilizador, do lado de cá, mas simplesmente como discurso analítico e clarificador, do lado de lá, havendo sem dúvida muito a dizer.

De qualquer modo, trata-se de um excelente ensaio, claro na exposição e nas posições que defende e muito interessante e útil por ter trazido à agenda pública este tão relevante, preocupante e actual tema de debate político. Infelizmente, as questões da paz e da guerra, neste plano, têm ocupado pouco espaço no debate público que vem ocorrendo entre nós e, por isso, este livro cumpre uma útil função, sendo muito bem-vindo ao debate.##

ARTIGO SOBRE O LIVRO, NO JN

JAS.Sócrates e o Carisma (3)

Poesia

 

ESTRANHA ENCRUZILHADA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “A Rua”.
Original do autor. Agosto de 2018.
VdP0108ExpCOR
"A Rua". Jas. 08/2018
POEMA - "ESTRANHA ENCRUZILHADA..."
CRUZEI-ME CONTIGO
Numa esquina
Da vida
Nesta rua
Onde reinventei
Uma estranha
Despedida!

NÃO TE VI
Como te via
Da janela
Sobranceira
Quando passavas
Na rua
Abraçada
À beleza, 
Teu perfeito 
Avatar
Numa nova
Encruzilhada
Que o tempo
Quis desenhar...

SE TE VI,
Mas eu não sei,
Foi duma janela
Vidrada
Que me devolveu
A imagem
Como espelho
De uma fada
Onde te fui
Visitar!

MESMO ASSIM
ESTREMECI...
Pressenti-te
Sem te ver,
Fugidio
Ao olhar
Indiscreto
De um acaso
Tecido pelo
Destino...

AH! DEPOIS 
SEGUI
Com a alma
Essa tua silhueta
Embaciada...
Pensei
Que não ia
Por ali
No meio
Da multidão,
Que não te via
Por falta
De nitidez
Do meu campo
De visão,
Que não te reconhecia
Nessa rua paralela
Onde todos
Nos cruzamos,
Indiferentes
Ao que já
Nem vemos nela!

ANÓNIMO
Me assumi
Como essa gente
Comum
Que se cruza
No caminho
Sem jogar
O seu destino...

SENTI TRISTEZA
Profunda,
A alma
Petrificada
Com lágrimas secas,
Das que
Não saem de nós,
Não banham
O nosso rosto,
Dor íntima,
Dor atroz
Cravada no peito
Lá bem fundo,
Perdida,
Já sem voz
Nem a melodia
Com que cantava
O rio
De que tu eras
A foz.

QUE ESTRANHA
Sensação!
Caminhando
Lado a lado,
Perdidos
Num horizonte
Que se esfuma
Até nos engolir
Como espuma
Que se desfaz
Na areia branca
Da praia...

ATÉ QUE CHEGUEI
A estas palavras
Escritas na água
Remexida pelo vento,
Também elas
Esmorecendo
Na praia
De um lamento
Porque sigo
Outras ondas
Noutras rimas
Em poemas errados
Ou simulados
Para dar voz
Ao poeta triste...

MAS GOSTEI
De olhar
Sem te ver,
Apenas imaginando
Que eras tu,
Regressada dos confins
Da minha memória...

E GOSTEI
Que me visses
Sem me olhar,
Pensando
Que nem sequer
Me pressentias,
A mim,
Esse anónimo
Que te seguia
Para logo
Te perder...

TUDO TÃO ONDULANTE,
Tão dolorosamente
Normal,
Estranhamente
Banal...
......................
Que até este poema
Espanta
Por cantar
O que nunca 
Aconteceu!

QUE EXERCÍCIO
Foi este?
Crueldade
De um destino
Apenas imaginado?
Indiferença fatal
Que se torna
Irreversível
Como ferida
Que não cura
E dor
Que dissolve
Como espuma,
No poema,
As palavras
Com que ainda
Te digo?

AFINAL, QUE TE FIZ,
Meu amor,
Para te perder
Assim,
Ao entardecer,
Numa encruzilhada
Da rua 
Que reinventei
Para te cantar
Como melodia
Para quem já
Não me ouve?

VdP0108ExpRec

 

Poesia

POR CAMINHOS PARALELOS…

João de Almeida Santos

Ilustração de minha autoria. Julho de 2018.

FAMA2507“Uma Casa no Jardim”. JAS. Julho, 2018.

POEMA

POR CAMINHOS
PARALELOS
Nos seguimos
Ao infinito,
Pintei o meu
De vermelho
Mas o teu
É mais bonito!

GASTEI
As minhas palavras,
Gasto as cores,
Eu já nem sei,
E porque o silêncio
É de ouro
Só às palavras
Cheguei.
Mas tirei-lhes
Logo o som
Por saber
Que te doía.
 O silêncio
É, pois, o rei
Até que te veja,
Um dia...

A ESTES SENDEIROS
Cheguei
Quando eu te
Conheci,
Foram-se anos,
Bem sei,
Desde o dia
Em que te vi...

SÃO CAMINHOS
PARALELOS,
Nisto, naquilo,
Sei lá...
Mas estás
Do outro lado,
Eu não te vejo
Por cá,
Na rua do
Desencontro
Que ficou
Muito vazia
Desde que tu
Foste embora
Dessa forma
Inesperada
Como eu, sim,
Já previa...

O HORIZONTE
Que vejo
É o ponto
Destas linhas
Paralelas,
Convergimos
No olhar
Mas não caminhamos
Por elas
Porque a vida
Nos tirou
Da rua 
Das aguarelas! 

FAMA2507c 

Ensaio

SOBRE A OBRA DE ARTE

PEQUENO EXERCÍCIO REFLEXIVO

Ilustração: "Uma casa no Jardim". 
Original do autor. Julho de 2018

JOÃO DE ALMEIDA SANTOS

FAMA2507“Uma Casa no Jardim”. JAS. Julho, 2018 

ENSAIO - SOBRE A OBRA DE ARTE
NESTAS REFLEXÕES parto de uma experiência pessoal no campo da poesia 
e da pintura. Não se trata, pois, de um ensaio académico ou 
pretensamente especialístico. Nem de um ensaio de um poeta ou de um 
pintor. Não consigo alcandorar-me a esse estatuto. O que procuro é 
uma rede conceptual que me ajude, nos exercícios estéticos de um 
amador, a enquadrar as minhas próprias propostas, seja no campo da 
poesia seja no campo da pintura, ou seja, a evidenciar um conjunto de
 variáveis que, no meu modesto entendimento, integram a matriz de uma
 obra de arte.

 

O VIRTUOSISMO

Na pintura, quem desenha bem corre sempre o risco de se colocar numa posição de exterioridade relativamente ao que faz, desenvolvendo uma lógica de tipo retratista ou de pintura naturalista e descritiva. Quando maior for a destreza maior poderá ser a tendência a deslizar para a própria zona de conforto, não se concentrando na produção de sentido, fazendo muito em pouco tempo de forma mais ou menos mecânica, ainda que ágil e tecnicamente virtuosa. Em filosofia esta posição, a da exterioridade do observador relativamente ao objecto, é conhecida como positivismo, onde a análise se pretende neutra e objectiva porque o observador se coloca numa posição exterior em relação ao objecto. E se na ciência (sequer nas ciências da natureza) esta posição não tem fundamento, na arte ainda tem menos. Mas esta não é uma minha observação original ou uma descoberta importada atrevidamente da filosofia da ciência para a arte. Já no século XVIII, Johann Winckelmann, o fundador da história da arte, dizia o seguinte, a este respeito:

“O sentido interno não é sempre proporcionado ao (sentido) externo, isto é, a sua sensibilidade não corresponde sempre à exactidão da sensibilidade externa, porque a acção do sentido externo é mecânica, enquanto a acção do sentido interno é intelectual. Pode, portanto, haver perfeitos desenhadores que não tenham sentimento (…); mas eles estão somente em condições de imitar o belo, não de o inventar e de o realizar” (Winckelmann, J., 1953. Il Bello nell’Arte. Torino: Einaudi, p. 95).

É mais ou menos isto, em palavras simples: a arte não reside nas mãos, mas na cabeça. “Esse est percipi” (“ser é ser percebido”), dizia Berkeley. E o nosso Pessoa, nesse extraordinário “Livro do Desassossego” também: “Ser uma coisa é ser objecto de uma atribuição” (Porto, Assírio e Alvim, 2015, 82). Ou seja, a nossa relação com o mundo é indissociável de uma projecção subjectiva constituinte. E mais intensa é na arte. E ainda mais se for intencional, e até atrevida, ao ponto de virar do avesso o que está disponível perante nós para ser objecto de uma injunção estética.

Na poesia acontece algo semelhante aos que têm um bom domínio da métrica e da rima, fazendo poesia, por exemplo, em rima interpolada e correndo o risco de subordinar a força plástica e a riqueza semântica da poesia a uma musicalidade primária e dominante. Em palavras simples, fazer poesia “pimba”! Ou seja, o risco é o de subordinar a poesia à música, à rítmica, construindo-a a partir de fora, de um ponto que lhe é exterior, perdendo identidade e anulando a sua autonomia.

O mesmo acontece na dança, quando os movimentos são executados como “ilustração” mecânica ou linear da música, do ritmo ou de uma narrativa. É por isso que a execução dos movimentos em contraponto é decisiva. Com a dança moderna o corpo tornou-se um sujeito expressivo, produtor da sua própria linguagem e das relações com outros corpos expressivos no espaço cenográfico, accionando uma narrativa estética que deve ser lida a partir das formas desenhadas e dinamizadas pelos próprios corpos. Balanchine tem alguns bailados extremamente minimalistas do ponto de vista cenográfico que evidenciam esta característica constituinte do corpo-sujeito. A ideia de ilustração de uma narrativa através da dança foi definitivamente superada pela dança moderna, a partir de I. Duncan, Diaghilev e Nijinsky.

A SUBJECTIVIDADE NA ARTE

No caso da pintura, a solução, quanto a mim, um mero curioso, é a de construir, logo à partida, um espaço imaginário como ambiente onde se desenvolve a analítica do processo criativo. Ou seja, a partida para a criação já contém uma decisão intelectual do artista, onde a subjectividade é determinante porque, deste modo, não se coloca numa perspectiva exterior de observação do que se lhe oferece como disponível à sua interpretação, mas, pelo contrário, é ele que reconstrói livremente o próprio ambiente de acção (estética). Neste quadro que executei, com este objectivo, o conjunto é uma reconstrução imaginária que não corresponde à paisagem real, embora contenha vários elementos realistas. A dinâmica do ambiente – imaginária – constituída por dois caminhos paralelos, mas distintos intencionalmente em intensidade cromática e colocados em planos diferentes, em direcção a um ponto central para onde converge o nosso olhar e que dá acesso a uma exuberante floresta, é que estrutura o espaço, fazendo dele mais do que uma mera paisagem. Há neste processo uma desrealização para o ulterior trabalho de formalização mais livre e autopoiético, tendo como objectivo não só a beleza, mas também o sentido, em largo espectro, naturalmente.

No caso da poesia, basta ter em atenção este risco, subordinando a rima à semântica e ao fio condutor do poema e só regressando à melodia e à rítmica – extremamente importantes – depois de fixado o tema e o eixo semântico. A adopção da rima interna, mais difícil, é a melhor garantia de segurança para preservar a autonomia do exercício poético relativamente à música (que considero, sob a forma de melodia e de rítmica, imprescindível num bom poema). A poesia é para comer, certamente, como dizia a Natália Correia, mas é sobretudo para ouvir, sem ser necessário activar o som. Ouve-se com a alma. É como, parafraseando Balanchine, ouvir um bailado ou ver uma composição musical.

FAMA2507c

A CONTEMPLAÇÃO DA ARTE COMO DESVELAMENTO

Para mim, a obra de arte nunca se revela à primeira observação, imediata e directa, como se estivesse nua, porque a ideia é precisamente a de desvelamento e de metatemporalidade. Como acontece com a Medusa, a visão imediata petrifica, devendo usar-se sempre um espelho mental para aceder ao centro da obra. Ela deve, pois, ser descoberta. Ideia muito próxima da de verdade na língua grega, a-lêtheia, precisamente des-velamento, revelação, bem diferente da ideia de adequação, adaequatio, de correspondência mecânica entre o real e o dispositivo sensorial ou a representação. E que grande diferença! É aqui que reside essa fronteira que é preciso atravessar para chegar ao centro vital da obra de arte. Ela é sempre polissémica porque nunca se deixa aprisionar numa leitura literal nem fica prisioneira do tempo em que foi criada ou da pulsão que a originou. Entre a génese e o seu desenvolvimento formal há sempre uma “separação” que lhe concede autonomia para se produzir e reproduzir livremente de forma autopoiética e com pretensões de universalidade. E esta característica deriva da sua autonomia formal e da sua complexidade (que pode existir mesmo quando se trate de formas extremamente simples), das várias camadas semânticas, ou plásticas, que a integram, dispostas em harmonia entre si e com o todo, em formas que trazem o belo aos nossos sentidos. Esta complexidade, que dá origem a qualidades emergentes, não é compatível com uma relação de pura exterioridade linear com o objecto estético, na medida em que o processo criativo e o dispositivo sensorial convocam sempre a subjectividade, o sentido interno do autor: através da construção coerente das formas, da escolha das cores, das figuras, dos sons ou das palavras, da combinação dos elementos da obra de arte em função de um subtil fio condutor, mas também da escolha dos elementos referenciais e intertextuais com que tece a obra. Sim, tecer a obra como desenho de um murmúrio ou suspiro silencioso da alma, sempre tão difícil de traduzir! Ambos os elementos, referenciais e intertextuais, têm a função, por um lado, de referir a obra ao real e, por outro, de a referir à linguagem inscrita na sua própria história interna. Entre ambos os elementos desenvolve-se um processo formal autónomo de reconstrução exclusivamente estético.

Na obra que acompanha este ensaio há elementos referenciais, claramente identificáveis, ao lado de elementos criados pela fantasia, em sintonia com aqueles e ao serviço de uma estratégia do gosto e do sentido. Mas há também elementos intertextuais que aludem à história da pintura, neste caso, a Gustav Klimt e, mais vagamente, a Mondrian. Acresce que alguns elementos referenciais, a casa ou o muro em primeiro plano (que no original é uma casa), por exemplo, estão propositadamente artificializados com linguagem pictórica intertextual, constituindo uma desrealização ao serviço da lógica interna da pintura, de um processo autopoiético, e do sentido que se pretende comunicar. De resto, a comunicação faz parte da matriz originária da obra de arte: “a arte é a comunicação aos outros da nossa identidade íntima com eles” (Pessoa, 2015: 231). Kant, na “Crítica do Juízo” (1790), chega a falar de uma “universalidade subjectiva” do juízo estético.

REFERENCIALIDADE E INTERTEXTUALIDADE

Assim, ao gosto, às formas, cores, figuras, palavras ou sons acrescem os elementos referenciais, alusivos, preferencialmente de forma indeterminada, ao real, mas também os elementos intertextuais que evocam e invocam fragmentariamente a própria história da arte em que a obra está inscrita, seja ela pintura, música, dança ou poesia. E é aqui que se torna decisivo o sentido interno, a capacidade de conjugar em proporção e harmonia todos estes elementos gerando uma totalidade autónoma, esteticamente pregnante, expressiva e semanticamente densa (as camadas, de que falava, por exemplo, Júlio Pomar, ao distinguir a fotografia da pintura), resultado de um livre jogo entre a fantasia e o intelecto, a memória sensitiva e a memória analítica. A obra de arte deve poder falar por si, como que reconstruindo e repropondo significados e impressões a partir de uma rede de reinterpretação estética do real. Quando o poeta canta o amor, porque o sente como impulso, pulsão ou necessidade interior, eleva-se a um patamar de desrealização para melhor o dizer e comunicar universalmente como beleza e como linguagem performativa que quase substitui o próprio sentimento, dando-lhe vida na linguagem poética. E é daqui que resulta a forte performatividade da poesia.

Este livre jogo, de que já falava Kant, entre a fantasia e o intelecto por cima do real só pode remeter para a esfera da subjectividade, do sentido interno quando nela ambos convergem na produção de beleza, onde o dispositivo estético é “animado” também pela referencialidade e pela intertextualidade ao serviço de uma bem delineada estratégia do gosto. A universalidade subjectiva para mim resulta da composição harmoniosa de todos estes elementos.

EM SUMA

Numa palavra: ideia-tema (ou sentido), como fio condutor, desrealização, espaço imaginário, técnica compositiva formal acurada, projecção subjectiva animada por elementos referenciais, mas também intertextuais, recomposição do todo e textura unificadora que sobredetermina a obra – são os elementos que podem convergir para a construção de uma obra de arte. O exercício que aqui apresento resulta destas reflexões e pretende ser – tendo escolhido propositadamente uma paisagem – uma demonstração do que digo, ao combinar todos os elementos referidos numa obra coerente que interpela o observador, convocando-o a uma leitura não literal do seu sentido e, ao mesmo tempo, a uma apreciação com as categorias da estética e com o dispositivo sensorial que comanda o gosto. O Quadro, se o título fosse decidido em chave de descodificação semântica, até se poderia chamar: “Caminhos paralelos em convergência para o infinito” ou para um ponto central para onde tudo converge. Poder-se-ia acrescentar, para melhor o compreender, uma descodificação das cores. Por exemplo, as cores dos dois caminhos paralelos, onde o vermelho ocupa um lugar de destaque, em posição superior, em relação ao caminho normal, em posição inferior e menos intensa. O vermelho, de resto, desempenha, neste Quadro, uma função muito relevante (um dos caminhos e a casa) pelo seu significado conotativo.

Na verdade, no meu entendimento, a arte é algo bem mais complexo do que parece, a começar logo pela relação entre execução técnica e sentido originário da obra de arte, entre génese e configuração formal da obra, entre gosto e significado. São estas as linhas e os caminhos em que me vou movendo nos meus descomprometidos exercícios estéticos em torno da poesia e da pintura.

Os mais entendidos no assunto – e sobretudo na pintura – que me perdoem o arrojo. O mais que posso fazer, para me redimir, é prometer, para Domingo próximo, como habitualmente, um poema construído sobre este quadro. Ficará, assim, completa a narrativa, em forma de trilogia… ou de tríptico! ##

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Poesia

O SILÊNCIO DO POETA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Vermelho”. Quadro de
minha autoria. Julho de 2018.
Vermelho1
Vermelho. JAS. Julho de 2018

O SILÊNCIO DO POETA – POEMA

O SILÊNCIO DO POETA
É dito em poesia
Como canto
Em surdina
Do que não
Pode calar,
Do que sente
Mas não diz
Se conjuga
O verbo amar.

 SUA DOR VEM
Do silêncio
E chega à poesia.
Nela o poeta
Diz mais
Do que pode
E não devia
Porque sofrendo
Em excesso
Em sua dor
Não cabia.

 E FALA COM O
Silêncio,
A fala da poesia.
Diz tudo
O que nela cabe
Em suave melodia,
O que só
A alma ouve
Dessa triste
Sinfonia...

 SEU SILÊNCIO
É poesia...
...........
No cantar
É que ele sente
O que dizer
Não podia.

 DIZ, POIS,
SEM O DIZER.
É outra coisa
Que diz.
Sofre em silêncio
O poeta
A dor 
Que lhe vem
Lá da raiz
E que só o verso
Cura
Sem que o faça
Feliz.

 OUTRO SILÊNCIO
É o dela
Que nem lhe manda
Sinais...
.................
“ - Não importa”,
Diz-lhe ele,
“Dentro de mim
Vives mais”.

 O CANTO 
DESTE POETA
Do silêncio
 É o selo,
Sua vida é 
Em verso,
Não é fria 
Como gelo.
Seu canto 
É em surdina,
Só o ouve 
Quem o lê
Mas com luz 
Que ilumine
Aquilo que 
Não se vê.

 ASSIM O VATE
Persiste
Nesse sol 
Que irradia
E se o silêncio 
É gelo
Derrete-o 
Com fantasia,
Pois se a vida 
É de dor
Conjuga-se 
Em poesia...

Vermelho1Recorte

Poesia

A MAGNÓLIA ENCANTADA

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração – “A Magnólia Encantada”.
Original de minha autoria. Desenho e Poema sobre
Magnólia. Julho de 2018

MagnoliaEncantadaA Magnólia Encantada. JAS. Julho de 2018

"Una magnolia / pura, / redonda como un círculo / de nieve / 
subió hasta mi ventana  / y me reconcilió con la hermosura...
...Como / cantarte sin / tocar / tu / piel puríssima, / 
amarte / sólo / al pie / de tu hermosura,/ e llevarte / dormida /
en el árbol de mi alma, / resplandeciente, abierta, / 
deslumbrante, / sobre la selva oscura / de los sueños”

Ode à Magnólia – Pablo Neruda 

MagnoliaEncantadaR1

A MAGNÓLIA ENCANTADA – POEMA

ERA UMA VEZ
Uma magnólia
Encantada,
Como num sonho,
Uma fada
Em busca
Do que perdera
No jardim
Onde morava...

 FLOR EM FORMA
DE PEIXE
No profundo
Oceano da vida
À procura das raízes
De uma estranha
Despedida...

 TRAZIA CONSIGO
Um inocente
Espanto
De ter ficado
Tão só,
De repente...
................
Por encanto!

 PARTIU, 
LEVOU COR
E muita luz
Que seu corpo
Alumiava
Nesse caminho
Estreito
Que a dor
Incendiava...

 DEIXOU O JARDIM,
Mar adentro,
Água seminal,
Em forma de peixe,
À procura
Do que perdera
Em recife de coral...

 MAS ENCONTROU-TE
À TONA,
Vagueando
Nesse mar
Da tua vida,
Cores e
Riscos
Como remos,
Em busca da
Praia perdida...

 REGRESSOU...
Vinha triste
De não te poder
Resgatar
Nesse dia,
No alto mar!

 VOLTOU,
Mas era tarde 
Demais.
Já não te via
Remar...
.................
E então deu-se
De novo
Ao mar
A ver 
Se te encontrava
Nalguma praia
Deserta
P'ra te redimir
Com essa arte 
Divina
Em que já te via
Incerta...

 FOI À PROCURA 
DE CORES,
Eram muitas 
E vibrantes,
Encontrou-as
No jardim,
Essas luzinhas
Brilhantes...

 E LÁ FOI
E anda ela,
Umas vezes 
Como peixe
Outras 
Como aguarela,
Sempre 
À procura de ti,
Levada
Pela corrente,
Por aí,
Com ar tímido, 
D’espanto,
Até que um dia
Te encontre,
Talvez triste,
Na praia 
Do teu recanto!

 ENTÃO DEIXA-TE 
AS CORES
E regressa 
À sua melancolia.
É flor em mutação,
Cada dia,
No tempo 
Em que germina, 
Renovada, 
A raiz da nostalgia...

 MAGNÓLIA ENCANTADA
Num poema
E na pintura...
................
Assim te vou 
Construindo como 
Fada
Que me cura!

MagnoliaEncantadaR2

 

 

Poesia

O BEIJO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração original do autor – “O Beijo”. 
Dia Internacional do Beijo: 6 de Julho, 
o dia que celebro, com um poema, cada ano.
Inspirado no Thomas Mann de “Lotte in Weimar” 
(1939), a obra que continuou "Werther” (1774),
de Goethe (1749-1832).

O_Beijo03_0607_1

“O Beijo”. JAS. 6 de Julho de 2018.

1.
Thomas Mann:
“Ist die Liebe das Beste im Leben,
so in der Lieb das Beste der Kuss
– Poesie der Liebe...”. “Kuss ist Glueck,
Zeugung Wollust”.

“O amor é o melhor na vida,
assim, no amor, o melhor é o beijo
– Poesia do amor...”.
“Beijo é alegria, procriação é luxúria”.

2.
Inspirado também em Kafka, Shakespeare e Bernhardt:

“Geschriebene Küsse kommen nicht an ihren Ort,
sondern werden von den Gespenstern
auf dem Wege ausgetrunken”
 
- Os beijos escritos não chegam ao destino, 
mas são bebidos pelos fantasmas 
ao longo do trajecto - Kafka

“If I were to kiss you then go to hell, I would.
So then I can brag with the devils that I saw
heaven without even entering it”
 
- Se para te beijar devesse, depois, 
ir para o inferno, fá-lo-ia.
Assim, poderia vangloriar-me, com os diabos,
de ter visto o paraíso 
sem nunca lá ter entrado - Shakespeare.

- O primeiro beijo não é dado com a boca,
mas com os olhos – O. K. Bernhardt.

O_Beijo03_0607_1Rep

O BEIJO

FOI O QUE NUNCA TE DEI
 A não ser com o olhar!
 O primeiro, esse beijo,
 Dei-to, pois, sem te tocar!

E DEI-TE MAIS, COM PALAVRAS,
 Quando olhar já não podia...
 Foste embora, não estavas
 E eu, triste, não te via!

 FORAM BEIJOS QUE SONHEI
 Na rotina dos meus dias
 E desejos que enfrentei
 Quando tu mais me fugias...
Mas dou-te beijos escritos
 Que se perdem no caminho...
............................
 E se o poema me falta
 Fico ainda mais sozinho!

 É ALEGRIA D'AMOR
 É suave respirar,
 É encontrar-te no céu,
 É vontade de te amar,
É desejo, é procura,
 É sinal e é mensagem
 É razão suficiente
 P’ra te ter...
................
Como paisagem!

O BEIJO É EMOÇÃO,
 É razão descontrolada,
 Se não for dado a tempo
 Pouco mais será que nada!

SEM BEIJO NÃO HÁ AMOR,
 Sem Amor perde-se o Beijo.
 Nada tem qualquer sentido
 Se me faltar o desejo
Por te ter, assim, perdido!

AQUI O LANÇO AO VENTO
 P’ra que atinja como brisa
 E suave melodia
 Esse rosto que precisa
 De afecto em poesia!

ESTE BEIJO QUE ME FALTA
 De que nunca fui capaz
 Voa p’ra ti em palavras
 Põe-me sereno, em paz,
E desejo que, no trajecto,
 Voe, voe em grande altura...
.............................
 Que fantasmas não o bebam
 E minha dor tenha cura!
Mas sei dos escolhos da via,
 Dos perigos que ele corre...
.............................
 Capturado por fantasmas
 É mensagem que me morre!

 NO DIA DO BEIJO É HORA
 De te cantar em voz alta
 A poética do amor
 P’ra redimir essa falta
 E pôr fim à minha dor!

E PORQUE O DIA É TEU
 Ganha força, intensidade,
 E mesmo que fantasmas
O bebam
 É um Beijo de verdade!

ESSE BEIJO QUE NÃO DEI
 Foi pecado original,
 Hei-de sofrê-lo p’ra sempre
 Como chaga corporal!
Não há palavras que bastem
 P’ra repor o que não dei
 Elas voam, mas não chegam
 E mesmo assim eu tentei! 

É CERTO QUE SEMPRE O QUIS,
 Só que nunca to roubei,
 A culpa foi desse tempo,
 Dos dias em que te amei,
 Um tempo em diferido
 Sem presente nem futuro,
 Talvez beijo sem sentido
 Porque queria do mais puro,
 Tangendo eternidade
 Às portas do Paraíso,
 Um beijo de divindade...
.........................
 Mas simples... 
Como um sorriso!

ESSE BEIJO IMPOSSÍVEL
 Que não é do foro humano
 Vou tentando construí-lo
 Cada dia, cada ano,
 Perdendo-me pelo caminho
 Como sagrado em profano!

O_Beijo03_0607_1Fim

Poesia

BIANCO&NERO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “Bianco&Nero”. Original
do Autor para este poema. Julho de 2018.

Desenho_BranconoNegroRecorte

Bianco&Nero. JAS, 2018.

 

ENTRE O BRANCO
E O NEGRO
Quis desenhar
A tua alma
Na flor que,
Num acaso,
Encontrei, perdida,
No jardim
Da minha vida...

 ATRÁS DE TI,
Ou em fuga,
Já nem sei,
Gastara
Todas as cores do
Arco-íris
Que tinha
Dentro de mim.

 SOBRARA-ME
Uma marmórea
Nébula negra
De travertino
Onde me revia
Como espelho
Oracular,
Curvado sobre mim, 
Escuro na alma,
Por falta
Das cores exuberantes
Que me protegiam
Do frio glacial
Do teu silêncio.

 SOPREI FORTE
Com a alma
Desnuda
E a flor branca
Foi pousar suavemente
Nesse mármore
Liso e brilhante
Da catedral
Onde te celebrava.

 E FICASTE ASSIM,
A branco e negro,
Em tinta-da-china
Esparsa,
Derramada
Sob a alvura
Do sol brilhante
Em que te via...
.................
Como uma flor!

 ESCULPI-TE
Como filigrana
De ouro preto
Sobre branco-pérola,
Aurífice da tua
Alma sedutora
No coração
Alvoraçado
Dessa flor
Que guardei
Com o teu nome
Gravado
Em letras invisíveis...

 CRIEI PARA TI 
Alvas incrustações
Sobre filigrana
Negra
Como marcas
Indeléveis
Da arte
Que um dia
Me visitou
Na celebração
Da tua beleza.

 E AGORA,
A olhar para
O branco e o negro
Deste cântico
Desenhado,
Ofereço-te
Este poema
Sobre pintura
Imaculada
Onde te celebro
Com beleza
Minimal,
Na cor
E na forma,
Sem fronteiras,
E onde
Te reinvento,
Em fuga,
Como esse subtil
Fio branco
Que esvoaça,
Livre,
No marmóreo céu
Do teu altar...

 A ÂNCORA, ESSA,
A sul,
Desliza
Suavemente
Sobre ti 
E dilui-se na 
Negra vastidão...
 
EVOCO-TE, ASSIM,
A branco e negro
E canto-te
Como alma em
Filigrana
De ouro preto
Em repouso sobre
O branco-pérola
Dessa flor
Que, um dia, 
Encontrei
No jardim
Da minha vida...

Desenho_Bianco&Nero_Recorte

 

Poesia

NOSTALGIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Nostalgia”. Original
do Autor. Junho de 2018.

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"Nostalgia". Jas. 2018
RÁPIDA COMO O VENTO
Passou por mim
Essa palavra saudade
Numa rua do meu bairro
Sob o céu desta cidade.

 GRAVEI-A NA
Minha mente,
Evoquei-a
Ao crepúsculo,
Com incerta
Nostalgia...
..................
Não queima tanto,
A palavra,
Porque a sinto
Mais fria!

 COM CESÁRIO,
Dei-lhe cor
E canto-a
Como pintura,
Dei-lhe vida
Num romance,
Tento tudo
O que não posso
Porque esta dor
Me perdura...

DA SUA COR
Vejo o mundo,
Com palavras
A recrio,
Procuro sempre
O teu rosto...
..................
E por mais longe
Qu’estejas
Eu não me sinto
Vazio.

 A DOR DESTA
SAUDADE
Alimenta-me
A alma
E aquece a minha
Vida...
E assim eu vou
Vivendo
Em eterna
Despedida,
Neste cais
Que não tem fim,
Em partida
Que não há,
Um adeus que não
Me dizes,
Porque tu
Nunca saíste
Deste meu
Lado de cá.

 MAS HÁ SEMPRE
Esta saudade
A que chamo
Nostalgia!
Vivo em tristeza
Feliz
Porque te sinto
Em cada dia.

 NÃO TE TENHO,
Mas não te perco,
Estás longe,
Perto daqui,
Não te encontro
Nem te vejo,
Mas sei que não
Te perdi...

INSPIRA-ME, A
NOSTALGIA...
Recrio-te em cada
Instante!
Sou poeta,
Sou pintor
E também sou
Arlequim...
...............
Por isso vejo
O teu mundo
A partir de um
Camarim!

 ESCULPO
TEU ROSTO
Com palavras
Do meu peito,
Pinto-me a alma
D’azul,
Voo contigo
Em sonho
E o destino
É sempre o sul...

 LEVO COMIGO
PINCÉIS
E as asas
Do poeta.
Danço.
Sou arlequim.
Pinto-me nesta
Ribalta
Com as cores
Que vês
Em mim!

 SEM TI
NESTA RUA
Da saudade
Sou palhaço
Em camarim
Que maquilha
O seu rosto
Para um palco
Sem fim...

 REPRESENTA
PARA TI
Sem saber
Se lá estás...
...........
A verdade
Já não lh'importa,
É feliz com
O que faz!

 ASSIM VIVE
O ARLEQUIM.
No palco,
É só arte
O seu fazer,
É dádiva que ele
Te entrega
Como modo
De viver!

JAS_Nostalgia24Rrecorte

 

Poesia

O  J A S M I M

Poema de João de Almeida Santos. 
Ilustração original do autor: “Rapsódia”. 
Junho, 2018.

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 FLORESCEU O JASMIM!
Dele jorra Poesia,
Embriaga-me 
O aroma...
Renovo-me 
Em fantasia!

 DAS PALAVRAS
Vou à cor,
O seu perfume 
Ilumina,
Bate o sol 
Em suas pétalas,
É luz intensa 
Que brilha
No poema que 
Germina!

 JÁ NÃO É SÓ
O Loureiro!
Agora canto 
O Jasmim!
É tão intenso 
O aroma
Que se renova 
Em mim!

 INUNDO-ME
De palavras,
Canto 
Esse mundo
Da cor,
Subo ao céu 
Com tuas asas,
Vai comigo
Esta dor...

 SOU ÍCARO
Lá no alto...
..............
E se o sol 
Me bate forte
Caio em mim 
Do meu poema
E no chão 
Fico sem norte...

 PEÇO AJUDA
À montanha...
Volto a subir, 
Que alegria!
Foi nela 
Que eu nasci
E sou feliz
Lá no alto, 
Nem que seja 
Por um dia!

E LÁ TENHO
O Jasmim
Mesmo ao lado do
Loureiro...
.................
Respiro fundo 
Até à alma
E torno-me
Jardineiro!

E ASSIM EU VOU
Vivendo 
No jardim da
Minha vida
Em poemas
E pintura...
............
E se a dor
Não tem remédio
Que seja esta 
A cura!   

JAS_Rapsódia.Final170618jpgCorte