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Sobre joaodealmeidasantos1

Professor universitário, escritor, poeta, pintor. Publicou várias dezenas de livros, seus e em co-autoria, de filosofia, política, comunicação, romance, poesia, estética. Foi professor nas universidades de Coimbra, Roma "La Sapienza", Complutense de Madrid e Lusófona (Lisboa e Porto). Publica semanalmente, neste site, ensaios, artigos, poesia e pintura.

Artigo

MUSSOLINI E O FASCISMO

O Livro de Antonio SCURATI

Por João de Almeida Santos

Mussolini

Mussolini – O Filho do Século, o Homem da Providência. Jas. 10-2021

M – Il Figlio del Secolo 
(Milano, Bompiani, 2018, 848 pág.s)
M - L’Uomo della Provvidenza 
(Milano, Bompiani, 2020, 647 pág.s)
- Por Antonio Scurati

I.

ACABEI DE LER este livro, um romance fundado em factos reais, em dois volumes, sobre Mussolini e o fascismo, “M – O Filho do Século” e “M – O Homem da Providência”. Cerca de 1500 páginas (já traduzido em português).

O primeiro volume é uma longa, minuciosa e atraente narrativa sobre o nascimento e a escalada do fascismo italiano, de 1919 até 1924, fundados na violência física sistemática e difusa dos “squadristi”, e sobre a forma como Benito Mussolini, por entre altos e baixos, a foi gerindo até à subida ao Quirinale e à sua indigitação, pelo Rei Vittorio Emanuele III, como Presidente do Conselho de Ministros. O livro apresenta a esquerda socialista, no biénio “vermelho” (1919-1920), período pós-revolução russa, como inconsequente e indecisa relativamente à tomada do poder e fraccionada, sobretudo entre reformistas e maximalistas, o que levaria a cisões: por um lado, à formação do Partido Comunista (em 1921) e, por outro, à criação do Partido Socialista Unitario, de Giacomo Matteotti.

Os “squadristi” no início eram sobretudo ex-combatentes da I Guerra e tinham por lema a violência e a Lei de Talião, elevada à máxima potência e com grande e cruel profissionalismo derivado da experiência de guerra. Morre um dos nossos, mato cinco dos deles – era esta a filosofia. Mas a escalada progressiva dos “squadristi” só foi possível pela complacência do poder liberal instalado e pelo apoio dos grandes agrários, estando generalizado o medo do assalto dos socialistas ao poder, até pela sua grande força parlamentar. Fortes no Parlamento e ousados nas ruas e nas greves, mas incapazes de se decidirem pelo assalto ao poder, como, de pelo contrário, acontecera na Hungria de Bela Kun, os socialistas eram vistos como os principais inimigos da monarquia constitucional liberal italiana.

Scurati traça as grandes linhas da doutrina fascista ancorada na violência dos “squadristi” e no carisma do Duce, fino jogador da alternância táctica entre“a cenoura e o bastão”, num jogo duplo com que sabia desarmar os adversários, para os aniquilar. Pelo meio, governos liberais incapazes de lidar com o fenómeno ou mesmo tolerando-o demasiadamente, qual indigesto remédio para salvar o poder das garras dos socialistas. Incluídos os do velho Giovanni Giolitti, sobrevivente até ao fim do Parlamento. Pelo meio, o Poeta Gabriele d’Annunzio e as suas bravatas guerreiras e poéticas, os seus vícios sexuais e a retórica gongórica, o seu ritualismo desbragado, a sua loucura e o seu activismo voluntarista, incluída a conquista e o governo de Fiume.

A cena é dominada, da primeira à última página, pelo triunfo da violência, que culminará no assassinato de Giacomo Matteotti, em 1924, que momentaneamente abalará o regime fascista.

II.

A EXALTAÇÃO DA GUERRA E DA VIOLÊNCIA conhecerá logo uma sua expressão cultural no futurismo de Marinetti (o Manifesto Futurista é de 1909 e o seu fundador alistou-se no movimento fascista pretendendo fazer dele a continuação do futurismo), até certo ponto subalternizado pela intervenção da sofisticada e influente amante de Mussolini, Margherita Sarfatti, pretensa “ditadora das artes” por delegação do Duce e centro de ódios culturais não muito disfarçados, mas contidos pela sua proximidade de Mussolini. O personagem Mussolini surge muito bem delineado ao longo do livro, desde as suas irreprimíveis pulsões sexuais, as suas inúmeras amantes, dentre as quais se distingue precisamente Margherita Sarfatti, a sua sofisticada “educadora”, até à imolação dramática pela Nação, desde um abundante uso instrumental da violência pelos seus implacáveis e imparáveis “squadristi” até à sua pública condenação para puro uso político, para consumo da opinião pública. Mas a violência, que foi a sua arma fundamental para a conquista do poder, no seu discurso oficial era tão-só um recurso de última ratio, uma mera resposta, ainda que dura, às agressões dos socialistas e dos anarco-sindicalistas. Mas não, na verdade essa era a sua verdadeira filosofia, a que decorria da assunção privilegiada da relação amigo-inimigo no centro da acção política, como se iria ver no futuro. “Quem não está connosco, é contra nós”, contra o fascismo, e deve ser esmagado. Grandes intelectuais italianos como Benedetto Croce, Vilfredo Pareto, Luigi Pirandello ou Toscanini estiveram com ele e ao lado do seu Ministro da Educação, o filósofo hegeliano do regime, Giovanni Gentile. A posição do rei Vittorio Emanuele III também é clara – recusa-se a proclamar, recusando a posição (unânime) do Conselho de Ministros, o estado de sítio quando já eram claras as movimentações no terreno para a “Marcha sobre Roma”. O livro conta ainda o primeiro ano de governo fascista e as contradições internas do aparelho fascista, designadamente as tensões internas entre o próprio Mussolini e a máquina “squadrista” e seus chefes.

III.

O SEGUNDO VOLUME, “M – O Homem da Providência”, que vai de 1925 a 1932, conta, em 625 páginas, a consolidação do regime, a evolução para a ditadura (com pretensões totalitárias: construir o italiano fascista) e sobretudo o poder unipessoal de Mussolini, com a subordinação total do partido fascista ao Estado fascista e ao Duce. O livro relata não só a anulação da oposição, com a prisão dos seus dirigentes e a redução do Parlamento a uma instituição exclusivamente fascista, mas também as lutas internas no poder fascista, designadamente no Partido Nacional Fascista, a ascensão e queda dos principais dirigentes e a progressiva solidão de Benito Mussolini. Muitas páginas são também dedicadas à presença de Itália no Norte de África, às campanhas na Líbia.

IV.

Este livro é um romance baseado em factos, personagens e documentos reais. Dá a sensação que o autor lhe chamou romance para poder descrever minuciosamente com maior liberdade o real ambiente em que nasceu, cresceu e se consolidou o regime fascista, de 1919 a 1932, sem ter de se preocupar com as regras rígidas da historiografia. Pôde, deste modo, traçar, de forma literariamente muito sofisticada e até exuberante, o ambiente que se viveu naqueles tempos do primeiro pós-guerra, tempo do pós-revolução russa. Mas é no primeiro volume que melhor podemos“visualizar” o ambiente de violência exasperada que foi sendo criado pela tensão entre o extremismo de esquerda e o extremismo “squadrista” perante a passividade e até a cumplicidade objectiva dos governos liberais e do próprio rei. Este segundo volume é dedicado à progressiva fascistização do país, à lenta supressão das liberdades, a uma violência física, real, mas já não tão fisicamente intensa, até para que o regime se pudesse credibilizar, à produção de legislação que foi introduzindo a lenta sobreposição de uma lógica de polícia às movimentações aleatórias e difusas do “squadrismo”, à sua absorção nas estruturas do Estado, à divinização do todo-poderoso Duce, à criação de um tribunal especial para julgar os crimes de natureza política e de desvio ideológico.

Assistimos também às guerras fraticidas entre os dirigentes dos “camicie nere” que acabam por liquidar grande parte deles, à vistosa excepção de Roberto Farinacci, “squadrista” temido por Mussolini e líder dos intransigentes e duríssimos do fascismo, que consegue resistir a todas as investidas para o liquidar. Neste volume, o Duce acaba numa grande solidão, sobretudo após a morte do irmão e confidente Arnaldo Mussolini e a desgraça de inúmeros e fiéis seus colaboradores, vítimas directas das guerras internas e dos interesses instalados e resultantes da governação fascista. Até a relação com a sua sofisticada amante e inspiradora Margherita Sarfatti acaba, sendo muito expressiva a cena em que a senhora aguarda na antecâmara de Palazzo Venezia, em Roma, duas horas para ser recebida por Mussolini, que está só no seu imenso gabinete e que se recusa a recebê-la, sem, todavia, sequer lho dizer pessoalmente ou, pelo menos, por intermédio do seu fiel secretário Quinto Navarra.

V.

A LÓGICA DO PROCESSO DE ASCENSÃO E QUEDA dos protagonistas do regime e a posição do Duce neste processo é de manual: Mussolini distancia-se, deixa friamente que a relação de forças se consume e saia vencedor o que maior capacidade de luta revelar, independentemente das lealdades pessoais. De resto, o poder está cada vez mais no Estado e nele próprio e cada vez menos no Partido Nacional Fascista e no seu “Gran Consiglio del Fascismo”.

Dois volumes muito bem escritos, por um autor da área da literatura, já com inúmeros prémios conquistados por outras obras.

Tendo eu estudado, por motivos profissionais, designadamente quando estava a investigar, no Instituto Gramsci, a obra de Antonio Gramsci, líder do PCI e sua vítima, este período da história italiana, esta obra veio confirmar ao detalhe aquilo que eu julgava já saber – a violência difusa e progressiva como centro da acção política e assumida como princípio purificador, tal como a guerra (de resto, cantada pelos futuristas), onde a relação amigo-inimigo substitui a relação  entre adversários. A Itália dos “squadristi” foi isso mesmo e resultaria em efectiva conquista do poder. O que se passou em Itália não passaria despercebido a Hitler, que recolheu a experiência de Itália para avançar num processo que todos bem conhecemos. O segundo volume termina precisamente em 1932, o ano em que Hitler obtém a maioria dos sufrágios em eleições legislativas e se prepara para dar o assalto decisivo ao poder. Também aqui o culto da violência, o carisma e o organicismo do regime são os elementos centrais que determinam a acção política. #Jas@10-2021

Mussolini-REC

Poesia-Pintura

VOU CONTIGO PRA PASÁRGADA

A Manuel Bandeira

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Pasárgada”.
Original de minha autoria.
Outubro de 2021.
(Primeiras versões
do poema e da pintura:
Novembro de 2018).
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“Pasárgada”. Jas. 10-2021

POEMA – “VOU CONTIGO PRA PASÁRGADA”

VOU CONTIGO
Pra Pasárgada,
É outro mundo,
Irmão,
Eu não fico
Por aqui,
Falha-me
Inspiração
Porque a brisa
Do Nordeste
Ficou lá,
No Maranhão.

TENHO SAUDADES,
Manel,
Nostalgia do futuro,
Não quero
De volta
O passado,
Foi um tempo
Muito duro,
Foi um tempo
Confiscado.

VOU CONTIGO
Pra Pasárgada, 
Há tempestade
No ar,
Não quero
Ficar aqui
Porque a brisa
Do teu berço
Não passou
Do Piauí.

PRA PASÁRGADA
Quero ir,
Lá todos
Falam verdade,
Por aqui
Não ficarei,
Já me falta
Liberdade,
Lá sou amigo
Do rei
E é muito bela
A cidade.

GOSTO DE TI
Ó poeta
Do reino
Da utopia
Que busca
A liberdade
No país da
Poesia
Onde se canta
E se dança
Porque o ar
É do mais puro
E cheira
A maresia,
Perfume
De divindade. 

VOU CONTIGO
Pra Pasárgada, 
Não gosto 
D’estar aqui,
Há ruído
Que é demais,
Esta terra
Não me serve,
Eu espero-te
No cais...

NAVEGAMOS
No teu barco
À procura
De mar calmo,
Céu sereno
E tudo o mais,
Viajando
No azul,
Peixes voando
No mar,
No horizonte
Uma ilha,
Mulheres lindas
A acenar...

EM PASÁRGADA 
Sou feliz,
Canto e
Danço
Na madrugada
Até que o corpo
Se canse
Com alma
Apaixonada
E adormeça
No regaço
Da mulher
Que for
Amada.

POR AQUI OUÇO
Ruído,
Há armas 
A crepitar,
Matam poemas
Com gritos,
Já não podemos
Cantar...

VOU CONTIGO
P’ra Pasárgada, 
Meu mestre
De poesia,
Cantarei os teus
Poemas
Seja noite
Ou seja dia,
Alegram-se
As nossas almas
No reino da utopia.

Jas_pasargada2021_4Rec

Novo Livro

NOVO LIVRO de JOÃO de ALMEIDA SANTOS

João De ALMEIDA SANTOS, POESIA, 
Lisboa, Buy The Book, 2021, Páginas: 424.

PoesiaL2

João de Almeida Santos, POESIA, Lisboa, Buy The Book, 2021, 424 pág.s.

MUITO EM BREVE este LIVRO 
poderá ser adquirido 
por encomenda directa ao Autor,
através de e-mail 
(joaodealmeidasantos@gmail.com), 
Messenger ou Whatsapp. 
A obra não estará 
à venda nas livrarias.

PAGAMENTO através de MB. Envio 
por correio registado (uma semana) 
para a morada indicada.

CONTEÚDO:
1. Nota Introdutória. 
2. Ensaio sobre Estética; 
3. 66 poemas; 
4. Diálogo com os leitores digitais; 
5. 14 Quadros do autor.
6. Bibliografia.

CARACTERÍSTICAS: 
Capa rija, cosido, sobrecapa, papel gramagem 100.
UMA BELA OFERTA DE NATAL.
Edição limitada. 
FAÇA JÁ A SUA RESERVA DO LIVRO.

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Poesia-Pintura

O POETA-PINTOR

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Musa”.
Original de minha autoria.
Outubro de 2021.
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“Musa”. Jas. 10-2021

POEMA – “O POETA-PINTOR”

O POETA BRINCAVA
Com suas palavras,
Cantava-te sempre
Quando não estavas.

ERA UM POETA,
Era fingidor,
Não te desenhava,
Cantava-te
A cor.

SUAS CORES
Eram as palavras,
Fazia pincel
Da sua caneta,
O pintor riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel...
................
Pintava, pintava,
Era a granel,
E a sua tela
Deixou de ser
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou.
Azul, vermelho
E tanto amarelo...
...............
Tudo ele pintou,
Procurando sempre
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos
Teus olhos.
Era luz da pura
Que iluminava
O novo papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.

DEU CORPO À COR
Com que te dizia,
As suas palavras
Tornaram-se riscos,
Mais que poesia.

PINTAVA-TE ASSIM,
Os poemas
Já não lhe chegavam,
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
..................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”
(Dissera-lhe um dia)
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só
Entregue à palavra
E eu,
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor.”

“MAS EU FAÇO DELA
O meu arco-íris
Pra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor,
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com este pincel
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O POETA BRINCAVA
Mas era séria
Essa brincadeira,
Perdido em palavras
Encontrou a cor
E nos seus poemas
Dela fez bandeira...
................
Tornou-se pintor.

Musa16_1Rec

Poesia-Pintura

TARDO A ENCONTRAR-TE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Mulher, 
a Janela e o Espelho”.
Original de minha autoria.
Outubro de 2021.

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“A Mulher, a Janela e o Espelho”. JAS. 10-2021.

POEMA – “TARDO A ENCONTRAR-TE”

TARDO A ENCONTRAR-TE
Porque não sei
Como procurar-te
Levado
Por um poema
Com as asas
Do desejo...

NÃO É A VONTADE, NÃO,
Mas o destino a marcar
Os passos que
Eu darei
Ou que nunca
Ousarei
Nesta estreita
Vereda
Da minha vida.

E TU SABES
Que não sei,
Mas sabes por onde
Andei
E me perdi,
À procura do que
Não podia ter
Pra preservar
O que apenas
Me sobrava...
...............
Dentro de mim.

ÀS VEZES
Encontrava-te...
Encontros fugazes
Onde o teu brilho
Cegava
Por fora
E me iluminava
Por dentro...
...............
E cantava-te
E pintava-te a alma
Com palavras roubadas
Ao arco-íris.

MAS NÃO SEI
Se te hei-de querer
Para nunca
Te ter,
Sentir saudades,
Logo ao amanhecer,
Do perfume 
Da aurora,
Quando te reencontrava
Na memória fresca
E matinal
Dos afectos 
Indefinidos
De outrora,
Os mais perfeitos
E contidos.

SIM, DEIXO-ME IR
Nas mãos do destino,
Bem sabes,
Mas há sempre
Um súbito
Sobressalto
Quando o real
Me atropela
Por dentro
E tudo se torna
Inóspito...

MAS SE NÃO 
Me deixo ir
Por aí,
Viajo para outros
Lugares,
Tenho sempre
De viajar
À procura de mim,
De um espelho onde
Me veja por dentro
A olhar-te
Por fora,
À espera do próximo
Sobressalto...
................
Que nunca demora.

AH, COMO ME FALTA
Esse véu que te cobre
Quando te quero
Pintar com palavras
E te vejo
Nua,
Com a alma a tiritar,
À mercê dos sobressaltos
Que te marcam
Como sulcos,
Cicatrizes ásperas
Da vida.

MAS EU PROCURO-TE
Com disfarçado
E tímido
Olhar,
Perscrutando
A alma
Que se aninha
Em ti
Para te proteger
Do risco da beleza
Exposta
Como fractura,
Aquela que os poetas
Sofrem, sim,
 Mas cantam
Quando sentem a
Liberdade
Ali por perto.

TALVEZ A NOITE
Te sirva de véu
E te cubra 
As cicatrizes
Da vida,
Luz coada pela
Penumbra
Que te amacia
A pele
Encrespada
E te devolva como
Sonho
Acetinado
Onde reinventar-te
Como mulher
Desejada,
Para além do bem
E do mal,
Para além do pecado.

MAS EU NÃO SEI,
Tenho medo
Dos sobressaltos,
De ser atropelado
Na esquina de um
Inocente
Jogo sedutor
Que te cative a
Alma
Já em fuga
Para o infinito
Que, ao longe, 
Se cruza
Nos nossos olhares...
..............
Intermitentes.

TARDO A ENCONTRAR-TE
No bulício dos nossos
Dias,
Até que no amanhecer
De um poema
Te volte a visitar
E te diga,
Com olhar
Submisso:
"Ah, que saudades
Eu tinha de ti..."
Mas talvez já seja
Tarde demais.

JAS_MulherNaJanPub2021_4Reco

Poesia-Pintura

CATEDRAL

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "A Fonte".
Original de minha autoria.
Outubro de 2021. 
Obelisco19_02_1 - cópia copiar

“A Fonte”, Jas. 10-2021.

POEMA – “CATEDRAL”

VIAJEI NO TEMPO
Até à cidade,
Encontrei-te
Por ali,
Rosto sereno,
Inocente,
Como quem
Sempre sorri.

FOMOS AO TEMPLO
Da rua
Da minha vida,
À cúpula
Da catedral...
..............
Não te abracei
Nessa noite,
Era sagrado
O lugar,
Seria abraço
Fatal.

MAS FICOU-ME
O prazer
De te ter ali
A meu lado,
A sonhar-te
Nos meus braços,
Nos beijos
Que não trocámos
Numa noite
De luar,
Quando o amor
É mais intenso
E o corpo
Se desnuda
De tanto a lua
Brilhar.

FOMOS À PRAÇA
NAVONA,
Escutámos
As águas
Da "Fonte
Dos Quatro Rios"
(Essa dádiva
Do Bernini),
Íntimos,
Em sintonia,
Antevendo um futuro
Que nunca mais
Chegaria...

ATÉ QUE ME PROCURASTE
Nessa fita
Da memória,
A noite perdida
De afectos
No alto da catedral,
Corpos tensos,
Sem palavras,
Na fronteira
Do amor...

TORNOU-SE MAIS VIVO
Que nunca
O que não aconteceu
Como se fosse
Futuro
Que, afinal,
No teu passado
Ainda não se
Perdeu.

E CÁ ESTAMOS DE NOVO
À procura
Dessa noite,
Dos beijos
Que não te dei,
O passado já é
Futuro
E desse tempo
No limiar
Do sagrado
Já não sei
O que farei.

TALVEZ FAÇA UM POEMA
Para te reencontrar,
Cantar esse
Sorriso terno
De que sempre
Eu gostei,
Voar no tempo,
No espaço sideral,
Pousar de novo
Contigo,
Numa noite de luar,
Na cúpula
Da catedral...
Obelisco19_02_1 Rec

“A Fonte”. Detalhe.

Poesia-Pintura

TEMPO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Oráculo".
Original de minha autoria.
Setembro de 2021.

OráculoVersãoPub2

“Oráculo”. Jas. 09-2021.

POEMA – “TEMPO”

É TEMPO DE RECOMEÇO?
Talvez seja,
Talvez não.
O que ontem
Eu já era
É o que hoje
Eu sou,
Não é tempo
De mudança
Nem tempo
De negação
Porque gosto
De cantar
Neste lugar
Onde estou.

O DESEJO
(Sempre instável)
Pediu tempo,
Rituais,
Celebração,
Mas o tempo
(Insondável)
Resistiu
Ao que a vontade
Tentou...
..............
É tempo
De recomeço
Quando o tempo
Não passou?

EM CADA MOMENTO
Da vida
Procuro
O tempo
Que antes
Eu não vivi,
Procuro
Reinventar
Tudo aquilo
Que perdi,
Num poema
Ou em pintura
Para repor
O que sou
Antes que volte
A perder-me
Nos lugares
Pra onde vou.

OráculoVersãoPub2Rec

“Oráculo”. Detalhe.

Artigo

UMA CURTA REFLEXÃO

SOBRE O 11/09

Por João de Almeida Santos

11092021

I.

11/09 – Um ataque bárbaro ao coração do Império. Milhares de mortos. “Sois mais fortes do que nós, mas nós podemos atingir-vos onde mais vos dói”.

II.

OCUPAÇÃO do Afeganistão com apoio da comunidade internacional. Depois, o Iraque, depois, a Síria, depois… o caos no Médio Oriente.

III.

RECRUDESCIMENTO dos ataques terroristas na Europa.

IV.

RESPOSTA literal dos USA: Bin Laden é abatido por tropas especiais americanas na sua própria casa.

V.

INÍCIO de um novo combate generalizado ao terrorismo: drones e assassinatos-alvo com a correspondente crise do direito internacional.

VI.

TALIBÃS RECUPERAM o Afeganistão em vinte anos. Iraque no caos. Síria no caos.

VII.

PELO MEIO, milhões de mortos e refugiados e biliões de dólares perdidos.

VIII.

VOLTA-SE AO PONTO DE PARTIDA com, pelo meio, imensos e generalizados estragos.

IX.

A UNIÃO EUROPEIA, sem uma liderança forte, politicamente legitimada e com poder decisional, não consegue elevar-se a protagonista político internacional. A Rússia e a China jogam na defensiva. Os USA regressam a casa.

X.

O CAOS está instalado na política internacional.

XI.

DE CERTO MODO, os efeitos negativos de longo prazo do 11/09 são muito, mas mesmo muito, maiores do que a sua causa e o seu poder destrutivo imediato e até simbólico.

XII.

A CURA para o mal acabou por provocar mais danos do que o próprio mal.

XIII.

VIVEMOS tempos sombrios.

Recorte1109

Artigo

O caso do livro de Ricardo Marchi

"A NOVA DIREITA ANTI-SISTEMA
O caso do Chega"

(Lisboa, Edições 70, 2020, 206 pág.s)

Por João de Almeida Santos

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SIM, SÓ AGORA tive oportunidade de ler o livro em referência, mas acompanhei as  polémicas levantadas acerca dele, incluindo um abaixo-assinado de colegas de Riccardo Marchi (RM) e até uma insultuosa recensão de outra sua colega universitária. Como se escrever um livro sobre a direita radical fosse crime de lesa-intelectualidade universitária. Muito de esquerda e muito científica. A obra foi solicitada ao autor pela Almedina, na sua qualidade de investigador universitário e de especialista em movimentos de direita radical, tendo a editora pedido ao autor que evitasse um tom apologético, fosse ele a favor ou contra. Isto lê-se na Introdução. Algo que, na minha modesta e desinteressada opinião (não conheço o RM e a minha posição política é conhecida), me parece que o autor conseguiu, prestando um bom contributo para o conhecimento do novo partido.

E, NO ENTANTO, RM viu-se publicamente execrado pelos colegas por ter aceite o desafio de uma conceituada editora de escrever um quase “instant book” sobre uma matéria bem viva e bem polémica nas agendas política e pública portuguesas.

POR NATURAL INTERESSE político e académico, mas também para avaliar da justiça ou da injustiça do tratamento que os seus ilustres pares lhe haviam reservado, fui ler as 206 páginas do livro. E que constatei, terminada a leitura? Que o autor fez um trabalho sério, muito analítico, indo directamente ao assunto, ou seja, analisando por dentro o partido para melhor entender a sua dinâmica interna e a evolução no seu curto tempo de vida.

E CONFESSO, sem sombra de dúvida, que não encontrei algo que possa justificar a qualificação do livro como “um exercício panegírico ao Chega”, não resistente ao famoso e tão científico “teste do pato”, pela Prof.ra Marina Costa Lobo, e a acusação de não cumprir “critérios de distanciamento do objecto de estudo, nem da ciência política nem da história”. Bom, talvez devesse ter feito como a senhora Professora, indo doutorar-se em Oxford, não sobre os poderes do inquilino do n. 10 de Downing Street, mas sim sobre os poderes do inquilino do n. 4 da Rua da Imprensa à Estrela. Isso, sim, é que é distanciamento científico. Talvez observando o CHEGA a partir de Oxford conseguisse mais e melhor distanciamento científico. Só que, na verdade, o que foi pedido pela Editora ao autor foi um retrato analítico do CHEGA, um partido ainda em fase de construção e de afirmação. O que ele fez com grande profissionalismo, saber e rigor. Não uma tese de doutoramento (essa já a tinha feito), mas um bom livro, mesmo sem “teste de pato” a validá-lo. A teoria política precisa de trabalhos como este, trabalhos de campo que procurem o que está a emergir, e não de invenções de água quente ainda que com chancela anglo-saxónica e muitos referees de serviço a atestarem a sua cientificidade. E até acrescentaria que, perante a evidente qualidade do trabalho, me parece credível a hipótese de a implacável analista não ter lido mais do que a introdução, a conclusão e uma ou outra página do livro. Não sei, mas que me fica a dúvida, lá isso fica. Não sei também se o pato grasna (não é essa, nem nunca foi, a minha especialidade científica) ou não, mas sei que está a nadar com algum vigor vistos os números alcançados nas sondagens.

A VERDADE é que, com este livro, fiquei a conhecer razoavelmente o que se passa no CHEGA, de resto, também ele carreando para o seu interior tendências de fundo que se compreendem melhor se olharmos com mais atenção para as novas fracturas que estão a emergir nas sociedades contemporâneas do que para os modelos clássicos da velha extrema-direita. No livro fala-se destas tendências, mas não creio que a Prof.ra Costa Lobo tenha reparado nisso. #Jas@09-2021.

Chega_IlustRec

Artigo

A DESFORRA DE “LELÉ DA CUCA”

Por João de Almeida Santos

ALinhadoHorizonteFinalExp

HOJE É DIA DE FESTA, Dia de S. Balsemão. A democracia parece que deseja rever-se no rosto de um PM que, afinal, foi o sétimo constitucional, mas não eleito. Estranho, não é? E ainda por cima não se sabe ao certo se a celebração é por ter sido PM há 40 anos, substituindo Sá Carneiro, depois do trágico acidente, se é por lançar a sua Autobiografia ou se é por ser dono do maior grupo de comunicação português, a Impresa

OH, NÃO SEI MESMO! O que sei é que há imensas coincidências em tudo isto. Umas mais evidentes, outras nem tanto. A festa – será por mero acaso? – acontece em tempo de pré-campanha, quase de campanha eleitoral. Depois, celebra-se, em democracia e em registo republicano, um homem a quem o também republicano Henrique Monteiro, diligente funcionário do Grupo Impresa, chamou, num artigo de 4 páginas e uma coluna, 9 vezes “Príncipe”, equiparando-o também a membro da família real britânica e identificando a esposa do “Príncipe” como “Queen Mother”. E, mais, ouço dizer por aí que também o I Governo Constitucional, de Mário Soares, foi homenageado por ocasião dos seus 40 anos. Não me lembro, mas, se foi, aplaudo, por Soares e por ser o primeiro.  De facto, o seu foi o primeiro governo constitucional e Mário Soares o primeiro PM que resultou directamente de eleições legislativas. O que não aconteceu com o VII. Por isso, se quisermos ser justos, nem o VII governo constitucional pode ser comparado ao primeiro, nem Balsemão pode ser comparado a Soares. Ou estou enganado?

NADA TENHO contra celebrações, mesmo que elas sejam autoglorificações das elites. Se celebram alguma razão haverá para isso. Que se celebrem, pois, e se federem à vontade nos actos celebrativos. Amen. Mas… há sempre um mas… Este caso, estas coincidências de datas, esta justificação para a homenagem, este unanimismo institucional em torno daquele que, um dia, o actual PR baptizou de “Lélé da Cuca”, suscitam-me uma profunda estranheza: o “Príncipe” Balsemão a surgir como principal protagonista e o republicano PM, António Costa, como Oficiante formal num ritual institucional para o qual foram convocados todos os protagonistas institucionais.

NÃO PARECERÁ tudo isto uma entronização oficial da “Impresa”,  no mesmo momento em que Balsemão lança a sua Autobiografia de mil páginas, em tempo de pré-campanha eleitoral autárquica, a escassos 24 dias das eleições, e num momento em que o líder da oposição se encontra num calamitoso estado de prostração, mais parecendo um golpe de misericórdia, com o condenado a caminhar pelo próprio pé para o cadafalso?

O QUE NÃO ME PARECE despropositado é a suspeita de que, com António Costa, passámos a ter um grupo de comunicação social do regime, a “Impresa”. Já lá estava o irmão, o inefável áugure do regime, agora também ele lá fica como Oficiante.

NADA DISTO me parece muito edificante. Tudo sabe a montagem, a aliança tácita de poder, a manobrismo encapotado nas barbas da cidadania. Só falta mesmo incorporar o PSD no PS e criar uma União Nacional, com imprensa do regime, a que se pagará para vigiar e perseguir a pós-verdade, as fake news, a desinformação, através de uma norma regulamentar. Para controlar a incontrolável rede, já que para os outros grupos de comunicação sempre haverá, como houve, alguns milhões de financiamento. 

DIR-ME-ÃO: que mal tem isto? É só uma homenagem, como tantas outras. Até poderá ser, mas não parece e nem sequer parece poder estar inscrita num qualquer genuíno código protocolar da democracia. São excessivas as coincidências, é excessiva a aproximação de dois poderes que se deveriam manter respeitosamente distantes, são falaciosas as justificações para o facto, o tempo do acontecimento é errado, e mesmo inaceitável, as cumplicidades começam a ser por demais evidentes e o que parece ser mais preocupante é a redução da política a mero exercício de poder, tudo sendo legítimo para este fim. Esta, de facto, parece-me ser uma pura operação de poder, um puro ritual de oráculo, uma manobra de bastidores coberta pelo manto diáfano da celebração oficial, a caminho de uma anémica democracia. Não, não me parece que esta celebração tenha sido uma boa ideia e que augure um futuro radioso para a nossa democracia. #Jas@09-2021

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