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Sobre joaodealmeidasantos1

Professor universitário, escritor, poeta, pintor. Publicou várias dezenas de livros, seus e em co-autoria, de filosofia, política, comunicação, romance, poesia, estética. Foi professor nas universidades de Coimbra, Roma "La Sapienza", Complutense de Madrid e Lusófona (Lisboa e Porto). Publica semanalmente, neste site, ensaios, artigos, poesia e pintura.

Poesia-Pintura

QUASE

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “O Desejo”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020.
JAS1_O Desejo052020

“O Desejo”. Jas. 05-2010 .

POEMA – “QUASE”

DISSE-TE UMA VEZ
Que o desejo
É quase tudo
E o que sobra
Quase nada.

RESPONDESTE
Que, assim,
Eu nunca 
Sairia de mim
Pra conhecer
O sabor
Do quase
Que sempre
Sobra
Do desejo
Consumado.

SORRI
E com ternura
Te disse
Que é na posse
Que se mata
O desejo
Encantado...

ENCOLHESTE
Os ombros,
Olhaste-me
De revés
E foste embora
Dali.

FIQUEI SÓ,
Com o desejo
Nos braços,
Nostálgico
E pensativo,
Quando dobraste
A esquina
Deste nosso
Desencontro,
Tão curto,
Mas impressivo... 

RECORRI
À memória
Daquele instante
Fugaz,
Revi-te a beleza
Do rosto,
Expressivo
E tão vivaz,
Alma
Estampada
No corpo,
Essa boca
Sensual...
............
E o desejo
Transbordou
Das margens
Deste meu
Mundo
Tecido
De fantasia
Numa bola
De cristal.

FIXEI-ME
Na tua beleza
E dei asas
Ao desejo,
Desenhei-te
Numa tela
E cantei-te
Num poema
(As armas
Do meu poder),
Cobri-te
Toda de cores
Para nunca
Te perder.

E FIQUEI-ME
Por ali,
A sonhar-te...
..............
A matutar
No destino
Que cedo
Me cativou
Por achar que
O desejo
É quase tudo,
Mesmo quando
O mundo
Te abraça
E devolve
Tudo o que dele
Te sobrou.
JAS1_O Desejo052020Rec

“O Desejo”. Detalhe.

Poesia-Pintura

CONFISSÕES DE UM CONFINADO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “S/Título”.
Original de minha autoria 
para este poema. Maio de 2020.
JAS2020_1705_15

“S/Título”. Jas. 05-2020.

POEMA – “CONFISSÕES DE UM CONFINADO”

ANDO PERDIDO,
Por aí,
Nas tardes
De Primavera,
À procura de mim,
Neste estranho
Tempo
Que aviva
O que perdemos
Nas esquinas
Da nossa vida.

NÃO ME VENDO
No espelho
Dos outros,
Já não sei
Quem sou e
Onde estou.
Apenas suspeito.
Uma vaga ideia.

FALTA-ME O MUNDO
Para dar conta
De mim,
Mas, coisa estranha,
Ele entra-me 
Casa adentro
E devolve-me
O que perdi,
Mais selectivo
E profundo,
Apenas o que é
Remoto
Da cidade
Onde vivi.

ESTRANHO MUNDO,
Este,
Que escolhe
Por mim
O que me sobrou
Da voragem
Do tempo...

É POR ISSO
Que me procuro
Para saber
Se o que me
Bate
À porta
É meu
Ou se a falta
De mundo
Me provoca
Alucinações,
Sonhos ou
Sombras
Do que nunca
Aconteceu...

ENTÃO PROCURO-ME
No espelho
Que trago comigo,
Dádiva
De Athena,
Olho,
Volto a olhar
E descubro que
Afinal sou eu,
O esquecido
Sem abrigo,
Aquele que andou
Por aí
No bulício
Da vida,
Ao sabor do vento...
.............
Mas contigo.

E TAMBÉM SEI
Que, por isso,
Nesta errância,
Eu não petrifiquei.

AH, COMO É BOM
Saber
Que, afinal,
 O vento
Me levou
Para destinos
Encantados
Onde contigo
Renasci,
Quando o tempo
Trazido pelo vento
Que passou
Na rua da
Minha vida
Me bateu 
À porta...
............
E eu abri.
JAS2020_1705_15R

“S/Título”. Detalhe.

Artigo

UMA POLÉMICA POLÍTICA NA GUARDA

A MINHA POSIÇÃO

Por João de Almeida Santos

G da Guarda

A GUARDA É A MINHA TERRA. Mais concretamente, Famalicão da Serra. Fui Presidente da Assembleia Municipal da Guarda oito anos, dois mandatos, e Presidente da Assembleia da COMURBEIRAS, Comunidade Intermunicipal, entre 2006 e 2013. Recentemente, nas eleições europeias de 2019, fui mandatário distrital da candidatura do PS. Mesmo assim, não comento habitualmente a política na minha terra, por opção.

I.

DESTA VEZ, todavia, pronunciar-me-ei sobre a polémica entre a Assembleia Municipal da Guarda, através da sua Presidente, Cidália Valbom, e o Presidente da Câmara, Carlos Chaves Monteiro, a propósito da realização de uma Assembleia Municipal presencial, não nas suas próprias instalações na sede do Município, na Sala António de Almeida Santos, mas nas instalações do Teatro Municipal da Guarda (TMG), precisamente para que pudessem ser cumpridas as normas de salvaguarda do perigo de contágio pelo COVID-19, vistas as boas dimensões da sala de espectáculos. A reunião, ao que se sabe, foi convocada para envolver todos os representantes políticos no combate à pandemia, em todas as suas frentes, da sanitária à económica, e tendo em consideração que os presidentes das 43 Juntas de Freguesia são membros da Assembleia, tendo, muitos deles, dificuldades de participação numa assembleia através de plataforma digital.

Feitas todas as diligências, o Senhor Presidente da Câmara, que tutela o espaço, proibiu a realização da Assembleia, invocando infracção das normas sanitárias em vigor.

II.

Não considero relevante, para o efeito, discutir se a Senhora Presidente Cidália Valbom, ao convocar a Assembleia, garantiu (em termos sanitários) a plena legalidade para a realização do acto ou se o Senhor Presidente Carlos Chaves Monteiro entendeu que havia infracção. Aceito que haja boas razões de parte a parte e que a preocupação sanitária seja de ambos. Mas, no essencial, não é disso que se trata, até porque a haver infracção, certamente inadvertida, a própria Assembleia seria a única responsável pelo acto, ficando sujeita às sanções previstas pela lei.

III.

O que aqui me traz, pois, é, no essencial, a questão da relação entre poderes municipais independentes, como refere o art. 44 da Lei Autárquica (Lei 75/2013), e que possuem legitimidade própria e directa. Ou seja: é legítimo que o PC proíba a Assembleia Municipal de realizar uma sessão no seu próprio espaço, a sala António de Almeida Santos, ou em qualquer outro espaço do Município, como viria a acontecer, com base no poder administrativo de gestão dos espaços do Município, incluído o da própria sala da Assembleia Municipal? No meu entendimento, não, qualquer que seja a razão invocada. E porquê? Porque se trata de dois poderes separados e com igual legitimidade, sendo que é um deles, o Poder Deliberativo, a ter como principal competência o controlo dos actos do Executivo, como refere o artigo 25 (n. 2) da Lei Autárquica e inclusivamente o artigo que estipula que o PC deve “dar cumprimento às deliberações da assembleia municipal, sempre que para a sua execução seja necessária a intervenção da câmara municipal” (art. 35, alínea c). No caso em apreço, garantir (“afetar”) à Assembleia “instalações e equipamentos necessários ao seu funcionamento” – art. 31.º, n.º 2 -, competindo à Presidente da Assembleia “assegurar o seu regular funcionamento” – art. 30, n.1, alínea a). Ora, o que, na verdade, aconteceu foi exactamente o contrário do que estipulam os artigos citados. E digo não, também porque, aberto um precedente, seguir-se-ia outro e outro, resultando daí, e por esta via, uma real inversão de papéis: o controlo presidencial da Assembleia por via administrativa. O poder executivo a controlar o poder deliberativo. Mais. Mesmo que um acto do poder deliberativo possa ser considerado ilegal ou ilegítimo não poderá ser o poder executivo a declará-lo como tal, sem ferir o princípio da separação de poderes. Pode alertar, não executar uma proibição, impedindo o normal funcionamento de um outro órgão, que é independente.

IV.

Por outro lado, e neste caso, uma Assembleia Municipal extraordinária, com o fim declarado, e em lugar previsto para que precisamente pudessem ser cumpridas as exigências sanitárias consignadas em norma legal, não poderá ser considerada, como foi, um normal evento solicitado por uma qualquer entidade da sociedade civil. Bem pelo contrário, em situação excepcional, este órgão, pelo facto de integrar institucionalmente todas as sensibilidades do Concelho, tem o dever não só de controlar a acção do executivo (politicamente mais restrito) em matéria tão sensível, como também de procurar envolver activamente todos os responsáveis, e em particular os presidentes das juntas de freguesia, para uma mais eficaz resposta à crise do COVID-19, não só no plano sanitário, mas também no plano económico e social, lá onde as juntas de freguesia desempenham e desempenharão sempre um papel nuclear. Não creio, pois, que se tratasse de uma irrelevante conferência ou debate, como referiu o Senhor Presidente da Câmara.

V.

O ponto fundamental é este, no meu modesto entendimento: o Presidente da Câmara não tem legitimidade para proibir uma sessão da Assembleia Municipal, em qualquer caso; não pode chamar a si o poder de julgar e de decidir acerca das suas decisões; e, finalmente, não pode impedi-la de funcionar, enquanto órgão independente. Esta é uma questão de fundo, porque ela pode configurar uma inversão nas competências dos órgãos autárquicos, resvalando até para uma espécie de cesarismo autárquico legitimado pelo estado de excepção. Lá mais para oriente, por exemplo, na Hungria, é o que já está a acontecer, tendo motivado uma forte reacção da União Europeia contra o Senhor Orbán, chefe do Executivo húngaro. Bem sei que o Senhor Presidente Carlos Chaves Monteiro não se filia neste tipo de orientação política, mas este gesto sim. Para finalizar: se a Assembleia Municipal com a convocação de uma Assembleia Municipal extraordinária para o fim declarado, cometesse, por qualquer motivo, apesar da generosidade e do alcance estratégico da iniciativa, uma infracção legal só ela seria por isso responsável, ficando sujeita às sanções previstas na lei, mas nunca ao arbítrio administrativo da vontade do Presidente da Câmara, num processo que tornaria ainda mais irrelevante os já irrelevantes poderes das Assembleias Municipais. A questão é política, mas, mesmo assim, sempre há um Tribunal Administrativo competente para, nos termos do art. 4., al. j) do Estatuto dos Tribunais Administrativos e Fiscais, dirimir diferendos sobre “relações jurídicas entre pessoas colectivas de direito público ou entre órgãos públicos, no âmbito dos interesses que lhes cumpre prosseguir”.

VI.

E eu, como antigo Presidente da Assembleia Municipal da Guarda, durante oito anos, não poderia, una tantum, ficar mudo perante o que considero um uso excessivo do poder administrativo perante um órgão deliberativo, nestas circunstâncias. Conheço bem a realidade das juntas de freguesia do Concelho para entender o valor da iniciativa de reunir os seus Presidentes em Assembleia para unir forças para um combate que só agora começou. #

Artigo

A PROPÓSITO DO MANIFESTO DOS 200 MAGNÍFICOS

 

JOÃO DE ALMEIDA DA SANTOS

 

Noite0905

 

AO INIMIGO CONVENCIONAL, representado por quem ameaçava com as armas a integridade de outrem, junta-se agora um novo inimigo invisível que urge combater com as armas da ciência, da solidariedade, da lucidez e da ética da responsabilidade, individual e colectiva. Este encontro entre a ética da responsabilidade individual e a ética da responsabilidade colectiva tem o nome de ética pública porque a esfera pública é, de facto, o lugar de encontro com o outro e com os outros, o lugar de encontro entre convicção e responsabilidade. Falo da ameaça do vírus, claro, e de tantas outras que com ele se hão-de revelar, para além do muito que já revelou. A ameaça do vírus vem juntar-se à ameaça de ruptura do ecossistema. Um problema sistémico, como afirmam os autores do Manifesto. São, pois, muito sérias as ameaças e, por isso, urge tomá-las convenientemente em consideração. Mas como? Apelando mais uma vez aos máximos dirigentes políticos mundiais? Mas se o poder instalado não se reforma, porque é transformista! Lembram-se de “Il Gattopardo”, do Tomasi di Lampedusa (livro) e do Luchino Visconti (filme)? Então, que fazer? Uma “rebelião das massas”, não daquelas de que, em 1930, falava Ortega y Gassett, mas do neopovo da rede?

REGRESSAR À NORMALIDADE?

TALVEZ o único caminho para lá chegar seja uma profunda mudança no modo de conceber e de exercer a política, aquela que depende dos cidadãos, eles, que agora têm nas mãos instrumentos que podem induzir profundas mudanças. O final do Manifesto “Não a um Regresso à Normalidade”, assinado por cerca de 200 personalidades do mundo da arte e da ciência, talvez possa sugerir algo interessante: “A transformação radical que se impõe – a todos os níveis – exige audácia e coragem. Ela não acontecerá sem um empenho massivo e determinado. Para quando as acções? É uma questão de sobrevivência, tal como é uma questão de dignidade e de coerência”. Empenho massivo em acções tendentes a provocar uma mudança de rumo, a resolver um problema que não é circunstancial, mas sistémico – este o tema do Manifesto.

A pandemia servirá de escola. O vírus percorreu rapidamente o mundo e o mundo teve de reagir até à escala individual, micro, com uma mobilização individual e comportamental que não tem precedentes. E isso significa que a mobilização de massa individualmente centrada é possível. Mass self-mobilization, diria, glosando o conceito do (agora) Ministro Castells. Para nos obrigarmos a nós próprios a mudar de vida e, naturalmente, para exigirmos aos máximos responsáveis pela condução dos nossos destinos uma mudança de rumo. É isto possível? Eu creio que sim, desde que a palavra seja obrigar, impedindo o transformismo. Mas para mudar é preciso encontrar uma mundividência estruturada e mobilizadora bem diferente da que os populistas e neopopulistas oferecem como resposta à visível crise do sistema.

A mobilização é possível, sim, há instrumentos para isso, através da rede, das TIC, das redes sociais, das grandes plataformas digitais. Sem dúvida. Mas em torno de que ideias para a política? E quem serão os protagonistas da mudança, nas ideias e na prática?

POLÍTICA

REGRESSANDO a um discurso mais próximo de uma perspectiva reformista, é possível dizer que a crise já nos disse muito sobre o papel social do Estado, agora muito revisitado, a responsabilidade social das empresas e a sua consistência estratégica, a ética da responsabilidade e a sua dimensão comportamental, a ética profissional e a sua dominância sobre o risco iminente, a pregnância de uma verdadeira ética pública.

Eu diria que este tempo de incerteza é o momento certo para revisitar a política e as categorias com que se rege em profundidade. Para a revisitar nas dimensões acima referidas. Personagens que interpretaram com sucesso o seu próprio tempo de vida e que são mundialmente conhecidos e admirados dizem agora que sim, que é tempo de mudar de vida, que não se pode regressar à velha normalidade e às suas categorias. E eu, que não tive o sucesso deles, concordo. E não só porque o vírus nos bateu à porta, mas sobretudo porque os tempos estão maduros para a mudança… ou para a regressão a tempos escuros e de má memória. Mas a mudança para ser mudança tem de bater às portas da política.

Na verdade, a mudança há muito que se anuncia, muito antes de sermos confrontados com este malicioso e veloz vírus. E, todavia, quem decide não só parece que não a quer ver como nem sequer tenta uma manobra transformista. TINA (There Is No Alternative), sim, para eles não há alternativa à política que temos.  Talvez porque são incapazes de a ver, de sair do paradigma em que sempre se moveram e que constitui o seu horizonte possível. Mas também é verdade que há cada vez mais novos aprendizes de feiticeiro, para não dizer inacreditáveis personagens de opereta, que tornam a mudança difícil. Por outro lado, a política tem vindo a ficar cada vez mais reduzida a puro management, à gestão remota dos grandes números da economia, a um discurso “algebrótico” e burocrático sem alma.

ÉTICA PÚBLICA

NA RAIZ do problema está, pois, a política, tout court: a ideia de autogoverno das sociedades e a respectiva ética pública. E, portanto, sobe ao topo da agenda a exigência de cruzar a independência e autonomia individual da classe política com o conhecimento, o saber e a cultura para a boa concepção e gestão política das sociedades, com a necessária síntese entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade e, consequentemente, entre ética profissional e ética pública. Mas há também um velho e grave problema que parece que ninguém que ver: os métodos de pré-selecção da classe política dirigente, onde vale mais a endogamia do que a competência e o saber.

São estes os ingredientes que deverão integrar o exercício da política porque só com eles é possível responder com eficácia aos complexos e enormes desafios que se põem às sociedades, hoje. São estes, mais do que as bases programáticas, que fazem o bom ou o mau tempo na política democrática. Só haverá bons programas se eles assentarem em bons princípios, bons métodos e bons executores. Vão longe os tempos do estruturalismo, onde as pessoas eram simplesmente identificadas com as funções que desempenhavam. E onde a função fazia o órgão. A responsabilidade individual diluía-se na responsabilidade da estrutura. Boas estruturas convertiam maus profissionais em bons dirigentes, ou não? Ou eram elas que, com eles, ruíam? Bem se tem visto, por exemplo, com os banqueiros! O capital humano é, sim, absolutamente decisivo. Afinal, são os seres humanos que constroem as estruturas e, por isso, o que lhes diga directamente respeito é sempre fundamental.

GREED IS NOT GOOD

É VERDADE, mas isso não quer dizer que os indivíduos singulares não se encontrem socialmente inscritos em esferas de maior dimensão e que, por isso, as suas competências e as suas convicções não devam ser também referidas a essas esferas.  Falo do interesse geral e da ética pública por contraposição aos jogos de interesse privado que têm vindo a confiscar cada vez mais a política, através precisamente dos aprendizes de feiticeiro e dos fantoches de serviço. Não é coisa nova e por isso estamos onde estamos. E é mais que certo que o tempo que estamos a viver acabará por revelar ainda com maior nitidez onde estão e o que fazem estes personagens. Muitos, demasiados até, são sobejamente conhecidos porque não escondem a ganância, para não dizer que até a exibem. E não, “greed is (not) good”, caro Fareed Zakaria. Gestores gananciosos que perdem milhões e que, depois, se atribuem milhões como prémio de gestão não é ganância boa, é roubo. E nem sequer já é possível dizer que privado é bom simplesmente porque é privado (embora também seja), visto que nas tempestades o socorro acaba sempre por vir do lado público, do Estado, dos bolsos de contribuintes a quem, em tempos de bonança, é dito para se arredarem do management, isto é, da política pura e dura.

É por tudo isto que, mais uma vez, a política deve intervir a partir da ética pública para defesa do interesse geral. Os que defendem que a política se deve reduzir ao management são, afinal, os mesmos que se servem instrumentalmente do Estado para enriquecer, expulsando a ética pública e o interesse geral da gestão política. Por isso, creio que chegou o tempo de dar uma volta a tudo isto, repensando radicalmente a política com novas categorias e cartografias e recentrando aquilo que sempre foi a sua matriz originária. É neste sentido que me associo ao apelo de tantas personalidades que, em abaixo-assinado, apelam a que mudemos de vida. E, para isso, antes dos programas, é preciso recomeçar a partir de nós mesmos e, em particular, dos que têm responsabilidade políticas.

CONCLUSÃO

TERMINO como comecei. Sim, mas para mudar, que fazer? Como? Fazer um apelo aos líderes mundiais, a todos? É como não o fazer a nenhum. Bem pelo contrário, seria preciso ir para essas grandes plataformas digitais interpelar os concorrentes a concretas eleições, tomando posição em cada caso concreto. Mas ir com ideias precisas sobre o que é preciso mudar, dizendo-lhes claramente que essa será a medida do voto de milhões de eleitores. Hoje isto é possível e desejável, graças à rede, até porque o velho establishment mediático continua a ser, não contrapoder, como erradamente reivindica, mas a outra face da moeda do poder. Na experiência das campanhas de Barack Obama a plataforma Moveon.org desempenhou um papel crucial. E de lá para cá o poder da rede aumentou consideravelmente, a ponto de, em Portugal, durante este período que vivemos, o ensino ter ficado literalmente a decorrer nas plataformas digitais e em rede. Sim, também acho que não devemos regressar à velha normalidade, como antes, afinal, já não achava, ou seja, quando a normalidade se transformou em realidade sem alternativa. Já vimos bem como acabaram os arautos do TINA. #

Poesia-Pintura

É ASSIM QUE EU TE VEJO

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Uma Mulher”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020
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“Uma Mulher”. Jas. 05-2020

POEMA – “É ASSIM QUE EU TE VEJO”

DESDE SEMPRE
Que te guardo
No meu peito.
Fixei-te melhor
Naquele dia
E guardei-te
Na memória
Profunda
Quando te vi
Perdida,
Por encanto,
A ouvir
Essa nossa
Melodia.

UM BRILHO QUIETO
Em teus olhos,
Suspensa
Nas nuvens,
A suave paixão
Maternal,
Inefável,
Quando as palavras
Já não chegam
Para te nomear
Com a alma,
De tão cheia
De ti,
A transbordar...

A MINHA AUSÊNCIA
Constante
E tão cortante,
O preço
Para ser
O que mais querias
Que fosse,
Fazia crescer
Em ti
O encantamento
Que tinhas
Contigo
Desde aquele dia,
Quando te nasci
E tu renasceste
Comigo.

AQUI SEMPRE
A meu lado,
Este rosto
Sedutor
Nunca me 
Despertara
O desejo
De o cantar
Para além da 
Memória
Remota 
Do afecto...

PALAVRAS
E melodia,
O olhar
Penetrante
Da alma,
Um canto
Devotado
Que tocasse
Em cada dia
As fronteiras
Intangíveis
Do sagrado.

FOI PRECISO
Aprender 
Os ofícios
Da arte
Pra te poder 
Celebrar
E dizer 
De todas as formas
Que sei
O que não quero
Calar.

E AQUI ESTOU.
Esse dia
Haveria de
Chegar.
E chegou.
JasFioriperte-cópia

“Flores do Meu Jardim Encantado”.

Poesia-Pintura

MARMELADA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “A Dança da Combustão”.
Original de minha autoria
para este poema. Maio de 2020.
Combustão030520_Fim

“A Dança da Combustão”. Jas. 05-2020.

POEMA – “MARMELADA”

COMO GOSTO
Da tua marmelada,
Meu amor...
...........
E gosto de
Chocolates,
Dos que me
Sabem a ti,
A esse tão doce
Sabor.

GOSTO DA METAFÍSICA
De confeitaria
Porque me adoça
A alma,
É nela que eu te
Encontro,
Nesta minha 
Fantasia,
Quando a noite
Se faz calma.

SOU GULOSO,
Como sabes,
E como é doce
E macia
Esta tua marmelada,
Sinto-a
Como alquimia,
Como arte
De uma fada.

COMO, COMO,
Sem parar,
Sabe-me
Sempre a ti,
Ao brilho
Do teu olhar,
Ao perfume 
Do teu corpo,
Onde hei-de
Naufragar.

NESTA TUA
MARMELADA,
Eu vejo-te
Artesanal,
Com os marmelos
Nas mãos,
Sabores
Em harmonia,
Uma receita fatal,
Polpa moldada
Por ti
Na dança
Da combustão,
Cor intensa
E profunda,
Iguaria
De convento
Com teus frutos
Em fusão.

TALVEZ A TENHAS
Criado
Em tempo
De quietude
Ou mesmo de
Solidão,
Quando esvaece
Esse lado
Tão agreste
E tão crispado
Que te esconde
A beleza
Dos momentos
De paixão...

AH, A MARMELADA,
A metafísica,
Chocolates,
Confeitaria...
..............
A doçura
Do teu jeito
Vai ficar-me
Sempre viva
Como suave
Suspiro
Que se solta
Do meu peito...
...............
Por essa tua
Magia...
Combustão030520_FimRec

“A Dança da Combustão”. Detalhe.

Poesia-Pintura

TRÊS

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: "Geometria”.
Original de minha autoria.
Abril de 2020.
GeometriaFinal26

“Geometria”. Jas. 04-2020

POEMA – “TRÊS”

SINTO TRÊS VEZES
A tua falta
Na sofrida
Solidão
Onde encerro
O que não tenho
No Monte,
Oráculo
Desta minha
Invocação.

TRÊS VEZES
Eu sinto
O teu silêncio,
Na ausência
Do teu rosto
E do som
Da tua voz,
Do aroma
Do teu corpo...
................
Minha foz.

ATÉ A ALMA
Escasseia...
...............
Não lhe sinto
Pulsação,
Desmaiada
Sobre mim,
Inerte
Nestes meus braços,
Uma carícia
Sem fim...

TEU SILÊNCIO
Cai pesado
Sobre a minha
Solidão,
Meteorito
Na alma,
Inaudível
Colisão.

SOBRA-ME,
De ti,
O nome,
Rasto da tua
Passagem
Na rua
Que já foi minha,
É nela que eu
Te sonho
E te pressinto
Como deusa
Nas noites
Do meu luar
E te canto
Em poemas
Onde os nomes
São metáforas
E sem limite
O poder
De nomear.

EU SINTO
A tua falta
Três vezes
De cada vez.
É falta a mais,
Eu bem sei,
Mas o número
Perfeito
É o três.

ABRAÇO
O número
Da perfeição,
Desenho
Triângulos
Em liberdade
Até que os sinta
Vibrar,
Instrumentos
Musicais
Que dão voz
À minha dor
Na exacta
Geometria
De teus breves
 Rituais.

 NELES OUÇO
A tua melodia
Como eco
Desse nome
Que no sonho
Invoquei,
Dou início
Ao poema
Pra te sussurrar
Baixinho
A história
Que sonhei.
Geometria29R

“Geometria”. Detalhe.

Poesia-Pintura

ALMA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – “S/Título”.
Original de minha
autoria para este poema.  
Abril de 2020.
S:TituloFinal2_19

“S/Título”. Jas. 04-2020

POEMA – “ALMA”

SE QUISESSE
A tua alma
Como anjo
Do pecado,
Que farias
Do teu corpo
Que eu sonho
Imaculado?

SE O TEU CORPO
Pedisse
O poeta
Apaixonado
Não lhe darias
A alma,
Tributo do teu
Secreto
Pecado?

MAS EU QUERO
A tua alma
Mais do que quero
O teu corpo,
Do que de ti
Eu mais gosto,
Porque é ela
Que me fala
No brilho
Desses teus
Olhos,
No veludo
Do teu rosto.

ÀS VEZES
(Eu pressinto)
Abandonas-te
Ao ritmo
Encantatório
Das palavras
Que te lanço,
Da melodia que
Embala,
Da beleza
Do meu pranto
No poema
Que te fala.

É DIFERENTE
O meu encontro
Com teu rosto
Tão macio,
O brilho do teu
Olhar...
.................
Ou com sulcos
Tão crispados,
Espelho
Da tua alma,
Quando roubam
O encanto
Desse sorriso
Esboçado
De quem constrói
O futuro
Nas ruínas
Do passado.

O QUE EU
Procuro em ti,
É o lado
Desta minha
Perdição,
A beleza
Dos teus olhos
Onde te fala
A alma,
Onde cresce
Cada dia
Uma incontida
Paixão.

TALVEZ O TEU
SILÊNCIO,
Linguagem
Em forma pura,
Me seduza
E me cative
Na fronteira
De uma dor...
...............
Que com poesia
Se cura.
Jas_S:TituloFim1904R

“S/Título”. Detalhe.

Artigo

 

Narrativas da Crise – 2

Diagnóstico do Nosso Tempo

João de Almeida Santos

Chakra0601CorDiagnosis

Chakra. Jas. 01-2029

Tomo de empréstimo este título de 
um escrito de Karl Mannheim para propor 
algumas reflexões sobre o tempo 
que estamos a viver. E começo por dizer 
que ao reler a versão italiana 
de um livro de Zygmunt Bauman, de 1999, 
curiosamente intitulado, nesta versão, 
"La solitudine del cittadino globale” 
(mas na versão em inglês é 
“In search of politics”), 
parei logo nas primeiras páginas, 
pela exuberância 
e actualidade de dois conceitos por 
ele utilizados. Bauman referia-se a 
Pierre Bourdieu e à sua distinção 
entre um “uso cínico” e um “uso clínico” 
da razão e do conhecimento  (do modo 
como funcionam os mecanismos 
sociais complexos). 

“Uso Cínico” e “Uso Clínico” da Razão

  1. O uso cínico é aquele que se serve do conhecimento para fins de utilidade exclusivamente pessoal, não importa como seja a sociedade, justa ou injusta, solidária ou não. O uso clínico é aquele que se serve do conhecimento para, em comunidade, combater o que é errado, nocivo ou lesivo do nosso sentido moral. Um visa a pura utilidade pessoal; o outro visa a terapia do que vai mal na sociedade. Um é de natureza subjectiva e auto-referencial; o outro é de natureza comunitária ou societária.

Que estranha antecipação destes tempos o uso destes conceitos, a sua semiótica. Cínico versus clínico, em tempos de pandemia. Vem mesmo a propósito. Do ponto de vista da União, e a propósito da pandemia, houve países que tentaram até ao fim das reuniões do Eurogrupo fazer um uso cínico do conhecimento e do poder (em particular os Países Baixos, para onde têm fiscalmente migrado importantes grupos económicos) e outros que fizeram e propuseram um seu uso clínico (os do Sul do continente), acabando por obter uma vitória relativa. Mas até foi necessário ameaçar com o fim da União para se chegar a um fundo de 540 mil milhões comunitários para combater a crise. Ufa, que alívio! Parabéns ao Ministro Centeno. Não são propriamente eurobonds ou dívida mutualizada, mas anda lá perto. Também não são uma mão cheia de nada, como afirmam alguns. Tinha de ser ou seria o fim da EU. Ficamos agora a aguardar as medidas para a crise económica que aí virá.

  1. Fui, como sempre faço, ver a etimologia grega de ambos os conceitos. A do primeiro (“cínico”) remete para as palavras gregas kyôn (kynós) e kynikós – cão e canino. E remete também para a chamada filosofia cínica, de que foi fundador Antístenes. Em poucas palavras, o ideal desta filosofia era a autárkeia, a auto-referência e a recusa do nomos societal, numa certa oposição entre natureza e sociedade, entre privado e público, com apologia do primeiro termo. A do segundo (“clínico”) remete para klinikós – doente, o médico que visita o doente na cama, clínico. E é claro que esta etimologia remete para uma relação social, a que se estabelece entre o médico e o doente.

Não deixa de ser curioso – e por isso me detive neste livro de Zygmunt Bauman – que esta contraposição entre os amigos do “cada um por si”, os “cínicos”, e os que reivindicam a primazia da comunidade, os “clínicos”, assuma, já antes da pandemia, com Bourdieu e, depois, com Bauman, esta curiosa e estranha dimensão semiótica. A posição de Bauman é clara sobre esta dicotomia. Está do lado do “uso clínico”: a liberdade individual só pode ser o produto de um empenho colectivo se não quiser conhecer gravíssimos efeitos iatrogénicos: pobreza de massa, desemprego e medo generalizado. As palavras não são neutras e daí o uso da expressão “uso clínico” e “iatrogenia”, em tempos de pandemia e de busca de terapias para os problemas, que, numa primeira fase, serão de natureza médica, numa segunda fase, de natureza económica e, sempre, de natureza social, e para os quais será preciso encontrar também terapias correctas, através de um “uso clínico” da razão e do conhecimento acerca do funcionamento da sociedade.

  1. E o que nesta crise é curioso é que a auto-referência, a autárkeia seja condição para impedir a contaminação colectiva. O que até parece ser um triunfo dos cínicos, dos utilitaristas sobre os clínicos: preserva-te a ti porque assim preservarás toda a sociedade. Simples, não é, caro Watson? Mas não, não é assim tão simples. E sabem porquê? Porque a garantia de salvaguarda de todos e de cada um está centrada na comunidade. Num exército de operadores de saúde que constituem a garantia última da tua sobrevivência. Um exército comandado pelo poder político, ou seja, pela sociedade. A garantia está, portanto, no “uso clínico” do conhecimento, da razão e do poder. E, de facto, se é a comunidade dos operadores de saúde que está na linha da frente, quem comanda todo o dispositivo de guerra é o governo, não só do ponto de vista operacional, mas também do ponto de vista dos recursos. E sendo também certo que, num plano macro, a maior garantia dada pela União foi para o colectivo, que é a Nação (240 mil milhões), a segunda foi para outro colectivo que é a empresa (200 mil milhões) e que só a última foi para ao singulares (100 mil milhões). Mas, sim, também para estes vai uma garantia da Comunidade.

Afinal, há sociedade ou não?

  1. Esta pandemia é, pois, muito esclarecedora para a política. Tão esclarecedora que até levou um discípulo de Hayek e da Thatcher a dizer que, afinal, sempre há uma coisa a que podemos chamar sociedade. Se um não sabia o que é a justiça social (Hayek) e a outra dizia que não havia sociedade (Thatcher), mas só indivíduos, agora, indo em sentido oposto ao que seguiu o “cínico” discípulo de Sócrates, Antístenes, e o seu sucessor Diógenes de Sinope, Boris Johnson (que a comunidade médica o salve, é o meu desejo), aprendendo depressa (com os gregos?), recuperou a ideia de sociedade e a imprescindibilidade do “uso clínico” da razão e do conhecimento. Para um classicista como Boris Johnson talvez a filosofia cínica já não ocupe hoje um lugar tão central no seu pensamento. E nem sei se, hoje, com o que a vida já lhe ensinou, lá no fundo não pensará, se tal lhe fosse possível, que a ideia de uma sociedade maior, a União Europeia, seria, de facto, a melhor defesa para o combate a este insidioso inimigo. Não sei, não!
  2. A questão é profunda e tem a ver não só com o sentido da vida, mas também com o contexto em que ela é vivida: do íntimo ao social. É certo que todos estamos a experimentar, em medida relativa, um certo eremitismo com o recolhimento a que fomos forçados pelo poder invisível de um vírus ameaçador pelo seu poder intrusivo. Fomos obrigados à defensiva para podermos sair vitoriosos perante a ofensiva do inimigo. O Clausewitz de “Vom Kriege” ensina: a defensiva é superior à ofensiva. É nesta trincheira defensiva que estamos a viver, só nos sendo permitido saídas furtivas para não sermos alvejados pelo inimigo, que avançou de forma avalassadora no terreno, aumentando o número de vítimas e criando mais dificuldades logísticas aos que estão na frente de combate, apesar de numa lógica defensiva. Numa “guerra de movimento” que certamente se irá transformar numa “guerra de posição”, para usar os conceitos de Gramsci.

“L’enfer c’est les autres”?

  1. Este confinamento leva-nos a pensar em nós próprios e muito nos outros. Os que nos podem devolver o contágio. “L’enfer c’est les autres”, como dizia o Jean-Paul Sartre, no Huis Clos, de 1943-44, em plena guerra? Não creio. Os outros também somos nós, porque a imagem nos é devolvida precisamente pela sociedade (pelo outro), para onde se escoam rapidamente os nossos próprios actos.  E que nos chegam, depois, devolvidos como consequência. Observo e julgo – sou observado e sou julgado. Portanto, se “l’enfer c’est les autres”, então o inferno também somos nós próprios (para os outros). A sociedade como um jogo de espelhos.

Mas não terá tudo isto efeitos sobre o que seremos num futuro próximo? Bem sei que, enquanto humana natureza, o nosso ritmo evolutivo é lento e que, por isso, não haverá uma revolução na nossa relação com nós próprios, com os outros e com a natureza. Mas também creio que uma correcta interpretação do que está a acontecer poderá constituir-se como a nova narrativa de forças políticas que queiram afirmar-se como alternativa aos que sempre disseram e dizem “TINA!”, “There Is No Alternative”. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, porque o que eu sei é que a mudança só poderá ser por via de uma política culta, sim, culta e civilizacionalmente preparada. E é aqui que reside o problema e talvez a solução.

Espanto

  1. Por isso mesmo, confesso-me literalmente chocado com o que aconteceu. E não é pela gravidade do facto. Confesso-me chocado sobretudo pela impreparação dos centros de poder mundial, da política, dos serviços de informação, dos laboratórios altamente sofisticados, das Universidades no topo dos rankings mundiais… terem ali à frente dos olhos a tragédia de Wuhan durante tanto tempo e não terem sequer reagido à gravidade do fenómeno. Bem pelo contrário, fazendo jus ao politicamente correcto, terem-se exclusivamente preocupado em trazer os seus cidadãos da cidade sem saberem realmente do que se tratava. Vamos à Lua ou a Marte, mas não sabemos o que se passa aqui ao lado, em Wuhan. Tudo estes poderes vêem, com drones ou sem drones, com satélites ou sem satélites, com serviços de inteligência ou sem serviços de inteligência… e não se aperceberam do que se passava em Wuhan, apesar das mensagens dos corajosos Fang Bin ou dos Chen Qiuschi. Dá a sensação de que somos governados, em todas estas frentes, por imbecis burocratas (passe a redundância) e de a competência residir mais no preenchimento de formulários e na elaboração de receitas fiscais do que na leitura pública do real para uma acção prospectiva.

Não será preciso mais Europa e melhor Política?

  1. Chega-nos agora a notícia de que os USA injectam 3.9 biliões de euros na economia (Governo + Reserva Federal). Têm uma população de cerca de 330 milhões de habitantes. A EU tem 450 milhões e, depois de reuniões esfarrapadas, vai injectar 540 mil milhões de euros, a que se somam 750 mil milhões do BCE, num total de 1, 29 biliões de euros, como fundo financeiro para apoio a nações, empresas e indivíduos. Isto diz tudo acerca do estado da União em período de grave crise sanitária e económica: os USA com menos habitantes injectam na economia o triplo dos recursos financeiros. E muito mais diz quando países que sempre foram profundamente europeístas admitiram, pela primeira vez, pôr a União em causa  se não fosse encontrada uma solução solidária.
  2. Os nacionalistas e os populistas, sobretudo os identitários, esses sim, que sempre rejeitaram a União, voltam a achar que tudo é pouco. Que a União não presta porque dá pouco. Nunca a quiseram, mas acham que devia dar mais. Chegam, impantes, ao espaço público (de onde não saem) e dizem que a União não presta porque dá pouco: uma mão vazia e outra cheia de nada. Eu também acho que é pouco, mas a pergunta simples é esta: e se não houvesse União?
  3. A crise é grave, terá efeitos económicos devastadores, mas não creio que muito mude, porque serão sempre os mesmos a gerir os recursos de combate à crise. Especialistas em explorar as situações de crise, onde circula muito dinheiro com controlo menos apertado e abundam as razões solidárias para reivindicar. A política também não mudará porque estão lá os mesmos de sempre. Onde há burgessos a mais. E interesses privados a cavalgarem o interesse público. Falta de visão estratégica. Os mesmos mecanismos de selecção orgânica das classes dirigentes. A endogamia de sempre. Os entraves burocráticos que tudo atrofiam.

Em suma

E, todavia, há ingredientes suficientes para que as forças do progresso possam retirar lições e promover uma mudança profunda, sabendo-se que ela, afinal, há muito estava inscrita na natureza das coisas. Será? Importa evitar que reste apenas um rasto de destruição com os mesmos de sempre a enriqueceram brutalmente com a crise, com os recursos usados para a debelar. Não estou muito optimista, mas acredito que poderá haver um sobressalto na cidadania que obrigue a política a regenerar-se e a dotar-se de meios que a ponham ao nível mais dos desafios de hoje do que dos interesses de ontem. Há muito por onde começar. Ou a União Europeia não começou precisamente quando recomeçou a reconstrução estratégica da Europa, no pós-guerra, logo a seguir ao Plano Marshall?

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Chakra. Detalhe.

Poesia-Pintura

VOAR

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Pássaro de Fogo”.
Original de minha autoria
sobre desenho de Vera Sousa.
Abril de 2020.
Uccello12

“Pássaro de Fogo”. Jas. 04-2020.

POEMA – “VOAR”

APETECE-ME VOAR
Sobre o teu silêncio,
Confinado que estou
Entre paredes
De um subtil
E incerto afecto
Que me vai capturando
Pela sedução
De uma ausência
Insinuada...

AH, MAS EU SEI
Que estas paredes
São do tamanho
Da minha fantasia
E que o voo,
Livre como é,
Não terminará
Até que te sinta
Pulsar finalmente
Dentro de mim...

E SEI TAMBÉM
Que as minhas asas
Terão sempre
As cores
Do arco-íris
Para com elas
Voar
Sobre o vale da
Tua vida,
Montado num
Pássaro de Fogo.

VER-TE-EI 
Lá de cima
Caminhar distraída,
Perdida
Nas encruzilhadas
Que vais criando
No sendeiro inóspito
Da tua vida
E lançar-te-ei
Âncoras coloridas
Que dêem mais luz
À incerteza
Que te vai na alma.

E AGORA,
Que o pintei,
Já tenho um
Mensageiro
Que te levará,
Com o vento
(Ou num
Inesperado
E feliz reencontro
De palavras),
As cores
Com que, docemente,
Te vou pintando
E as deixará
No parapeito
Da tua janela.

MAS NÃO PRECISARÁS
De abri-la
De par em par
Porque ele não
Entrará...
.............
Poderia
Incendiar-te
A fantasia e
Engravidar-te
A alma
Com o fogo
Que levará
Consigo...
Uccello12Rec

“Pássaro de Fogo”. Detalhe.