Ensaio

UM RASTO DE INQUIETAÇÃO…

Ensaio Breve Sobre a Poesia
 João de Almeida Santos
Ilustração: “O poeta que gosta do amarelo”. Original de
João de Almeida Santos. Abril de 2018.

FP_2204.FinalParc18_1

 “Saber interpor-se constantemente entre si próprio e as coisas é o 
mais alto grau de sabedoria e prudência”Bernardo Soares

 

A POESIA É DESASSOSSEGO…

Ou nasce dele. Dá forma à dor, (re)vivendo-a ou transmudando-a em palavras como se fosse a sua notação musical e a sua melodia. Dor? Porquê sempre dor? Porque a poesia, sendo sensitiva, também é privação sensorial, porque vive num intervalo. Ou resulta dela, apesar de ser uma linguagem que é quase um sentir puro… mas em “carne viva”. Quase um comportamento, esteticamente desenhado e cantado… em surdina! “Comporta-te poeticamente!”, poderia ter dito o Hans-Georg Gadamer de “Verdade e Método”! Ou o velho Schiller! Vive a vida assim, sem te deixares ir nessa volúpia devoradora dos sentidos que te pode sugar e engolir a alma e a distância contemplativa. Cria distância, intervalos por onde possas ressuscitar do torpor quotidiano! Não corras demais! A velocidade cega, ouviste? Corre só o suficiente para agarrares a vida pelo seu lado mais denso. Aquele que só podes encontrar em ti. E que entenderás e sentirás plenamente quando te aproximares das fronteiras da existência, desses abismos que ameaçam sugar-te irremediavelmente! Se for preciso pára, não vás logo, impaciente, até ao fim. Se fores, que farás depois? Sentas-te à espera que chegue inspiração para novas metas? Não, porque será sempre ilusório chegar rapidamente ao fim desejado. Se o atingiste, esse fim era falso, era uma miragem! Cria, pois, um intervalo entre ti e a vida para melhor a observares sem deixar de a viver. E deixa-te ficar nele, sem tentações perigosas. Era mais ou menos isto o que dizia o famoso Bernardo. Nesse intervalo podes tocar com as mãos o real e fazer a sua notação poética, convertê-lo numa forma que quase o não é, porque pode dizer tudo com quase nada (de forma). Até mais do que a própria imagem. E se alguém disser que uma imagem vale mil palavras, eu digo que um verso pode valer mil imagens, porque nele a palavra soa a melodia do silêncio… que só pode ser ouvida a partir desse intervalo!

PRIVAÇÃO

Na poesia há privação! Há, sim! É um intervalo denso e intenso entre o que não temos e aquilo a que renunciamos: é vida transfigurada em palavras sincopadas ao ritmo de uma difusa e incontrolável dor interior. Uma moinha que só não te devora porque a vais dizendo melodicamente ao ritmo que te impõe. Com uma paradoxal alegria melancólica! É assim que eu a sinto! Foi assim que a senti desde o princípio. E por isso me deixei ir…

“A arte”, diz Bernardo Soares, “é a expressão intelectual da emoção”. E diz mais: “o que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte”. Sim, o sonho, onde vivo o impossível, onde nunca atinjo a meta, nunca chego ao fim… pois quando estou a atingi-lo, acordo! Irremediavelmente. Lembra-me o Calderón de la Barca e o seu “La vida es sueño”! A arte está lá nesse intervalo por onde irrompe o sonho, sob a forma de palavra, risco, cor, som. Quando nos sentimos orquestra. Que bom sentir-se orquestra, com os sentidos a executarem uma sinfonia! E o compositor mais próximo talvez seja Mahler! Tenho a certeza!

Sonho de olhos abertos, sonho sensitivo, mas com alma sofrida por renúncia ou impossibilidade. Neste intervalo também se constrói a liberdade, sob forma de arte: não me pode ser tirado o que eu reconstruí neste intervalo sofrido, como arte, diria, de certeza, Bernardo Soares. Sim, porque o reconstruí em ausência. E neste estado de privação “nada me pode ser tirado nem diminuído”. Bem pelo contrário, sou eu que lanço ao mundo essa vida revisitada e reconstruída, a partir desse sentimento (doloroso) de privação. Dou música ao mundo. Como dizia o Italo Calvino, nas famosas “Lições Americanas”: “creio que seja uma constante antropológica este nexo entre levitação desejada e privação sofrida. É este dispositivo antropológico que a literatura perpetua”. Diria mais, com ele: a poesia é uma “função existencial” que procura a leveza como reacção ao peso do viver. A leveza dos sonhos a olhos abertos, cantados em palavras e lançados ao vento que há-de mover, como chamamento, as copas das árvores… ou dos arbustos! Ou talvez não!

FP_2104.FinalParc2_jpg--Corte 2

RENÚNCIA

Comprei, pois, uma nova edição do “Livro do Desassossego” do Fernando Pessoa ou, se quiserem, do Bernardo Soares. Gosto deste livro. Deste Fernando Pessoa. Filósofo, sim, filósofo. Revisito-o com regularidade. Por necessidade interior. Irmanado nessa renúncia que é privação sofrida… à procura de leveza. Que vou encontrando à medida que caminho entre o silêncio e o sonho, movido por palavras, riscos e cores intensas que me vão desenhando e iluminando esta vereda tão estreita da minha vida. E porque compreendi que Pessoa chegou perto dos nexos fundamentais da existência, naquilo que ela tem de mais sublime, de mais elevado. E neste livro anda por lá essa ideia que tanto me fascina, do ponto de vista estético: a ideia de renúncia. Sim, essa ideia de renúncia (ou mesmo de impossibilidade) que, um dia, me pôs em intervalo criativo. Não a do eremita, daquele que foge da vida para se aproximar de deus, da natureza ou da eternidade. Não, essa não, mas a daquele que foge da vida para entrar nela com mais profundidade, compreendê-la e vivê-la numa dimensão que está para além do imprevisível tempo do acaso, do presente efémero e circular, da volúpia orgástica ou império dos sentidos. Claro que não sou tão radical como ele. Nem tão pesado nos juízos. Mas sei bem que só radicalizando poderemos compreender o essencial. Mas não como mero exercício intelectual. Nestas condições, a arte permite isso. Porque não é do domínio do pragmático e do útil. Porque não serve, aparentemente, para coisa alguma, a não ser como adereço. Mas não! Ela serve noutra dimensão. Encontra-se num dispositivo que, sendo universal, procede em registos únicos, com aura. “Subjectividade universal”, diria o Kant dessa extraordinária “Crítica do Juízo”. Assunto tão relevante que, um dia, Schiller, nas “Cartas sobre a Educação Estética do Homem” (1795), haveria de propor um “Estado Estético” que fundasse a harmonia social na educação estética, ou seja, na celebração quotidiana do belo!

SILÊNCIO

É uma grande obra, esta, a do Desassossego. Desta vez li uns textos sobre a relação entre a poesia e a prosa. O Bernardo Soares preferia a prosa ao verso, pela simples razão de ser “incapaz de escrever em verso”. Que era o que eu próprio sentia até há cerca de três anos. Até que se deu o clique. Ao olhar para um arbusto. Uma espécie de “fissão poética”, com libertação de energia criativa e até com potência destrutiva! Ah, sim. Sei bem do poder de um poema! E sei quase tudo sobre quem o não sabe ler como resultado do tal intervalo e fica ao pé da letra! Como se de prosa se tratasse, nem sequer ficcional!

Percebi que o que não é possível dizer em prosa pode ser dito em poesia, sendo também claro que a prosa não tem o mesmo poder performativo. Aumenta o espaço de liberdade e até pode adquirir um carácter substitutivo. E não só porque o poeta é um fingidor que sente pelo menos metade do que diz, fingindo que mente só porque o diz num poema. Ou seja, não só porque a poesia nos torna mais livres. Porque dizemos o que sentimos de forma livremente auto-referencial, embora nesse registo universal com que traduzimos, em arte, o nosso próprio registo sensorial ou a nossa experiência vivida. E, deste modo, porque o que sob esta forma se diz tem a pretensão de ser mais do que o que simplesmente se comunica sob qualquer outra forma: ser simplesmente belo. Indo para além do registo sensorial, denotativo, conotativo ou conceptual. Mas não só por isso. Sobretudo porque é uma linguagem plena que pode dizer quase tanto como o que diz o silêncio. A poesia é a linguagem mais próxima do silêncio. Quase como se fosse só silêncio murmurado, balbuciado, mas composto, musicado, conservando ao mesmo tempo uma dimensão polissémica, sem pretensões denotativas, tal como a música. Mesmo que haja referentes (e há sempre) que nela se possam vir a reconhecer. Mas ela é mais do que isso: aspira a um reconhecimento subjectivo universal, filtrado, claro, pelo dispositivo sensorial de todos e de cada um. A arte, sendo universal, interpela singularmente cada um de nós, através da sensibilidade!

MÚSICA

O Bernardo Soares diz que o verso é uma passagem da música para a prosa. Genial intuição. Ou seja, a poesia não só está entre a música e a prosa como permite a passagem de uma para a outra, sem se transformar em simples meio ou instrumento. Tem elementos de ambas. E vive nesse intervalo com corporeidade própria. Mas julgo ser possível dizer também que entre o silêncio e a poesia talvez esteja a música. A música é a voz do silêncio, porque ainda não diz, mas deixa espaço à poesia para dizer, como melodia cantada, o que é (quase) indizível. E é nesta quase indizibilidade melódica que reside o poder da poesia. É por isso que o silêncio e a música se podem exprimir de forma larvar na poesia, sendo cada poema a borboleta que esvoaça sobre as nossas vidas e a nossa imaginação para interpelar a fundo o nosso pólen, a nossa sensibilidade individual. Sim, cada poema é uma borboleta à procura de pólen…

FP_2104.FinalParc2_jpg Amarelo

EM SUMA, UM RASTO DE INQUIETAÇÃO…

É nestes intervalos que o poeta se coloca ao cantar a música da vida. Um canto sofrido, porque fruto do desassossego, da privação, da dor, mas por isso mesmo obra de jograis vadios, nómadas, sempre em movimento, atravessando fronteiras à procura do que nunca encontram e não querem encontrar. E a poesia é o seu modo de comunicar a partir desse intervalo perpétuo em que vivem: em permanente privação. Sem tempo nem lugar. O seus poemas são cantos com que querem encantar para logo partir, deixando um rasto de inquietação, que é ao que de mais belo a poesia pode aspirar. ###

 

Poesia

O PINTOR

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração: “Celebração da Cor” -
Original de João de Almeida Santos.
Abril de 2018.

JAS_Uccello_Prova110418

"Le Poète se fait voyant par un long, immense et raisonné dérèglement 
de tous les sens". 
Rimbaud.

 

O PINTOR BRINCAVA
Com suas palavras.
Dizia-te sempre
Quando não estavas...

ERA UM POETA,
Era fingidor.
Não te desenhava.
Cantava-te
A cor.

SUAS CORES
Eram as palavras.
Fazia pincel 
Da sua caneta.
O pintor riscava,
Mas a sua tinta
Já não era preta.

POR ISSO COMPROU
Um belo pincel.
Pintava, pintava...
Era a granel,
Como se a tela
Deixasse de ser
O velho papel.

DESCOBRIU A COR,
Que o fascinou!
Azul, vermelho
E tanto amarelo.
Tudo ele pintou,
Procurando sempre 
O que era belo.

ATÉ QUE O ENCONTROU
Na cor dos 
Teus olhos.
Era luz da pura
Que iluminava
O branco papel
Onde desenhou
O teu fino rosto
Com o seu pincel.

DEU CORPO À COR
Com que te dizia.
As suas palavras
Tornaram-se riscos...
Mais que poesia.

PINTAVA-TE ASSIM.
Os poemas 
Já não lhe chegavam.
Pintor de palavras
De cor as compunha
E versos voavam
No azul do céu...
..................
“E o que tu fazias
Faço agora eu”
- Dissera-lhe um dia -
“Porque sou poeta
Mas também pintor.
Deixaste-me só,
Entregue à palavra...
E eu, 
Tão pobre de ti,
Pintei-me de dor.

MAS EU FAÇO DELA 
O meu arco-íris
P’ra subir ao céu
A ver se t’encontro
Atrás duma cor
Pintando o teu rosto
Para um poema
Que vou escrever
Com todas as cores
Que trago comigo
Enquanto viver”.

O PINTOR BRINCAVA
Mas era séria
Essa brincadeira.
Perdido em palavras
Encontrou a cor
Que dos seus poemas
Dela fez bandeira...

Artigo

REFLEXÕES SOBRE A EUTANÁSIA

PORQUE SOU A FAVOR DA DESPENALIZAÇÃO
JOAO DE ALMEIDA SANTOS

 

EutanásiaFoto11_04_2018

 

OUSO DIZER QUE NINGUÉM DEFENDE A EUTANÁSIA. Porque, por princípio, ninguém deseja a morte. Boa ou má que seja. O eros (a pulsão da vida) em condições normais sobreleva o thanatos (a pulsão da morte). De outro modo, estaria em risco a sobrevivência do género humano ou da espécie. Se à ideia de morte está associada a ideia de dor e de fim, às ideias de vida e de reprodução da espécie estão associadas as ideias de prazer e de amor… e uma dialéctica dos afectos. É o princípio da vida aquele exibe argumentos mais fortes. Sem mais. A tal ponto que nas religiões esta ideia de vida é projectada para uma dimensão extraterrena, iludindo assim a própria ideia de fim, a própria ideia de morte. É por isso que quem defende o direito à eutanásia não poderá, sob pena de má-fé de quem o faz, ser acusado de ser apologista da morte. Porque em condições normais ninguém o é. Na verdade, trata-se, aqui, de um caso excepcional, assumido em circunstâncias excepcionais. E como tal deve ser entendido. Com todos os seus ingredientes e não com a linearidade de um pensamento maniqueísta ou de uma qualquer ortodoxia acusatória. Mas vejamos.

DUAS POSIÇÕES

Usando a dicotomia como método de raciocínio, podemos dizer que sobre esta questão há duas posições extremas. A religiosa, que considera a vida um dom divino que transcende a esfera da vontade humana e que, por isso, não concede ao crente liberdade de dispor da sua própria vida e de agir radicalmente sobre essa dádiva transcendente; a construtivista, que considera que a vontade humana é soberana e pode, por isso, sobrepor-se às variáveis ditadas pela sociedade, pela história e pela natureza. É lógica e coerente a primeira posição e, por isso, respeito-a, embora não me identifique com ela. Já quanto à segunda, embora reconheça que muitas conquistas civilizacionais se devem a ela, em muitos casos acaba numa problemática e incerta engenharia social. O tema muito mais difícil e complexo da clonagem – proibida, por exemplo, na Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia – poderia inscrever-se problematicamente num discurso com estas características. Tal como o da eugenia.

O PAPEL DO ESTADO

Mencionei estas posições apenas porque elas nos permitem ver a questão com mais clareza. Não entro em questões estritamente jurídicas, porque num assunto destes o que interessa é a posição de fundo que se assume. E que terá, naturalmente, consequências jurídicas. Mas interrogo-me se ao Estado cabe produzir uma norma que proíba um cidadão de, em determinadas condições e circunstâncias, decidir livremente pôr termo à sua vida. Interrogo-me se o Estado pode e deve criminalizar, por exemplo, e seguindo a inspiração da Igreja católica, o suicídio. Quem se suicida contraria o carácter inviolável da vida e por isso deverá ser condenado? No além, sim, certamente! Mas, no aquém? Depois de morto? E quem não consegue suicidar-se com eficácia deverá ser condenado por ter atentado contra a sua própria vida? Pondo-o na prisão? Parecem raciocínios humorísticos, mas não são, porque vão ao fundo do problema.

A questão põe-se, todavia, quando alguém é chamado a cooperar, por competência técnica e formal (um médico), na livre decisão, devidamente enquadrada (aqui, sim, pelo Estado, enquanto regulador), de um cidadão pôr termo à própria vida. Se aceitar, esse médico deverá ser acusado por ter cometido assassínio? E se outro se opuser deverá ser acusado por se ter recusado a pôr fim ao sofrimento atroz de um ser humano, a pedido, consciente e fundamentado, dele? No meu entendimento, nem num caso nem no outro deverá haver acusação.

Do que se trata, no caso da Eutanásia, é de clarificar a situação, definindo a posição do Estado relativamente a esta matéria. Não devem os católicos, por exemplo, pedir ao Estado que produza norma, activamente ou por omissão (ficando a eutanásia tipificada como assassínio, subsumida à lei geral), já que os verdadeiros católicos nunca praticarão a eutanásia, por óbvias razões de doutrina e de visão do mundo, não sendo, pois, a comunidade de fiéis afectada pela posição reguladora (que referirei) que um Estado venha a assumir. Mas será aceitável que queiram impor, através do Estado, a toda a sociedade a sua própria visão do mundo e da vida? Não deve o Estado democrático, pelo contrário, ser o garante da livre afirmação de identidades, em todos os planos, político, cultural ou religioso, desde que enquadradas pelo que Habermas designa como “patriotismo constitucional”, ou seja, adesão aos grandes princípios civilizacionais adoptados pelo Estado como sua lei fundamental? Do que aqui se trata é da laicidade da abstenção do Estado para uma livre dialéctica das identidades! Até mesmo neste caso, já que a decisão é remetida para a esfera da liberdade individual. De resto, nem o Estado, numa civilização de matriz liberal, deve intervir numa matéria tão íntima e pessoal como esta, a não ser para proteger precisamente a liberdade de cada um tutelar a própria integridade como entender. Ou seja, o Estado tem o dever de intervir, sim, mas para proteger a liberdade individual da interferência de factores externos à sua livre, racional e ponderada decisão relativamente à própria vida.

O ESTADO E OS DIREITOS INDIVIDUAIS

Considero, deste modo, que a intervenção do Estado em relação a esta matéria deve somente ser reguladora, garantir o direito de cada um tutelar a sua vida ou a sua morte. Alguns Estados, como é sabido, e em alguns países democráticos e civilizacionalmente avançados, usam a pena de morte como punição máxima ou como salvaguarda de um bem superior. Mas lembro o art. 2.º dessa fabulosa “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, de 1789: “O fim de qualquer associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Estes direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão”. Este artigo, conjugado com art. 5.º (“a lei não tem o direito de proibir a não ser as acções prejudiciais para a sociedade; tudo o que não é proibido pela lei não pode ser impedido, e ninguém pode ser obrigado a fazer o que a lei não ordena”), leva-me a concluir que, nesta matéria, o Estado somente deverá remover o que possa prejudicar, por um lado, a sociedade e, por outro, a livre tutela do cidadão sobre si próprio, clarificando as condições em que a morte assistida possa ser praticada. Assim, no caso em que um cidadão esteja na posse plena das suas próprias faculdades, mas em condições de insuportabilidade física (mesmo com cuidados paliativos) e de destino irreversível, o Estado tem a obrigação, isso sim, de certificar institucionalmente estas condições, seja do ponto de vista psicológico seja do ponto de vista médico, perante o recurso a assistência médica. A verificar-se que não existem factores exógenos a determinar a decisão, o Estado não deve, nem que seja por omissão, permitir que quem intervenha no processo, a pedido do cidadão em causa, e exclusivamente porque é detentor formal de competência técnica, seja acusado de assassínio. Tal como não deve permitir que quem se recuse, por razões de ética da convicção ou religiosas, sendo detentor formal de competência técnica, a cooperar no acto de eutanásia, seja acusado.

A FUNÇÃO REGULADORA E DE CONTROLO DO ESTADO

Tratando-se de alguém que comprovadamente esteja numa situação de sofrimento atroz, mas incapaz intelectualmente de tutelar a sua própria vida, estando, assim, dependente de outra tutela (por exemplo, familiar), o Estado tem o dever, perante uma decisão desta natureza, de reforçar a tutela dos direitos do cidadão em causa, accionando idóneos meios institucionais de controlo para verificar que não há factores exógenos àquela que seria, supostamente, a sua vontade em condições de plena posse das suas faculdades. A clarificação em causa deverá, no meu modesto entendimento, confinar-se à certificação de que na decisão não intervêm quaisquer factores externos ou exógenos. E nada mais, sob pena de, em qualquer dos casos acima referidos, o Estado estar a entrar na zona protegida de um direito individual inalienável, o da livre tutela da própria vida. Ou seja, defendo sobre esta matéria uma intervenção minimalista, mas reguladora e de controlo do Estado, deixando aos cidadãos a liberdade de accionarem, ou não, os mecanismos para poderem usufruir de uma morte assistida. O que não é admissível é pedir ao Estado que, em nome de uma mundividência, seja ela religiosa ou filosófica, anule a liberdade individual naquela que é a mais profunda e íntima esfera da própria personalidade. A eutanásia não pode ser tipificada como assassínio, porque não o é, e muito menos numa sociedade de matriz liberal onde a tutela da liberdade é um dos mais importantes princípios. E nesta visão da liberdade entram de pleno direito os católicos e a sua legítima discordância relativamente a posições diferentes da sua.

FINALMENTE

Em suma, a minha posição sobre o assunto é, como se viu, ditada pela ideia que tenho acerca da legitimidade da intervenção da sociedade, através do Estado, sobre a esfera individual ou mesmo íntima. É minha convicção que numa sociedade com uma matriz liberal como a nossa esta é a posição mais sensata e conforme a esta matriz.

Poesia

A COR DA MEMÓRIA

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Composição de JAS
sobre foto/ilustração de “Sogno di Libertà”
de Milva/Theodorakis. Vídeo aqui republicado:
Milva-Theodorakis - Sogno di Libertà

JAS_MemóriaPoema_Final18_52

“Si tu quieres soñar / y te hace falta un tónico / vuelve la copa del
cielo / ¡y bébete el azul!”. 
Luís Vidales, 1900-1990 - “Paseo”, 1976.

 

NUM DIA DE CHUVA
Bateste levemente
À porta da minha
Memória.

ERA TRANSPARENTE
Essa porta.
Vi que eras tu.
Reconheci a tua boca,
O bâton púrpura
Dos teus lábios.

NÃO SEI SE
ME PRESSENTISTE,
Não sei,
Porque a porta
Era um espelho.
Através dela 
Só se via
Do lado de cá.

ENTRASTE
Cheia de cor
Que a chuva 
Humedecera,
Mas deixara
Intacta.
Apenas com mais 
Brilho.

TAMBÉM TU
ERAS TRANSPARENTE.
Olhei-te
E vi, através de ti,
Um céu 
Pintado
De azul plúmbeo.
 
NA TRANSPARÊNCIA, 
DESPONTOU O SOL
Coado em amarelo.
Havia umas nuvens 
Escuras 
A nascente,
Lá no Monte...

ÀS VEZES, O AMARELO
Ganhava tons de
Âmbar
E vestia-te o corpo 
Na minha intangível
Memória 
Fotográfica.
 
RECORDAVA,
Sereno,
Esse teu belo
Sorriso...
..................
Mas quando te quis
Tocar,
Ao de leve,
Um vidro desceu,
Vertical, 
Sobre nós.
Era frio
E húmido.
Separou-nos.
E eu chorei!
 
AS LÁGRIMAS
Escorreram
Pelo vidro.
Tentaste
Agarrá-las
Do lado de lá
E fixá-las com
Todas as cores
Que tinhas contigo.
Ficaram algumas
Gotas
No vidro,
Em amarelo,
Porque tu, 
De repente,
Te tornaste sol
E eu já não era
Mais do que um
Reflexo dos teus
Raios filtrados
Por algumas 
Nuvens... 
.......
Escuras!

DESPERTEI
Ao som
De dedos que batiam
Suavemente
À porta 
Do meu quarto.

CORRI A ABRI-LA...
.......
Ninguém!

REGRESSEI, RÁPIDO,
À minha memória,
Mas tu já não 
Estavas,
Nem sequer
Como reflexo...
..............
Deixara aberta 
A porta do tempo!

 

 

 

 

Poesia

COR, MAIS COR…

POEMA de João de Almeida Santos.
Ilustração - Inédito de JAS: 
Poseidôn. Abril, 2018.
Volto a propor uma bela canção de 
Milva/Theodorakis:
Milva-Theodorakis - Sogno di Libertà

JASPaperaEsasperata2018_3.jpg

"Donde termina el arco iris, en tu alma o en el horizonte?"
Pablo Neruda
COR, DÁ-ME COR!
Fico mais perto 
De ti
Se vieres
Com o vento.
Cor, mais cor,
Que as palavras coloridas
Já me sabem 
A cinzento...

OU TALVEZ NÃO!
Palavras
Já não me faltam
Nem vivo
Na escuridão.
Ainda consigo
Dizer-te,
Com palavras
Dar-te a mão.

TENHO-AS
QUE ME CHEGUEM
Para gritar
Em vermelho 
O concreto
Do teu nome.
Ver-te, assim,
Tão colorida
No vidro do meu
Espelho
Sem que a tristeza
Assome!

AH! MAS A COR
SE FOR INTENSA
E crescer 
Em explosão, 
Se tiver
Em contraponto
Palavras
De evasão
Que dão ritmo
Ao azul
Dos teus sonhos
De papel...
..........
É tudo 
O que eu preciso
P’ra t’esculpir
A cinzel.

DÁ-ME COR
Que eu sou
Sensível 
À luz intensa
Do teu olhar!
Aprendo nas
Flores que
Colho,
Quando vestes
O vermelho,
Com azul
Como espelho,
Ou te cobres 
Com as cores
Do arco-íris
Que és.

AH!, VÊS
COMO TE CONHEÇO?
Tu és cor,
Gota d’água
Suspensa 
No fio 
Do horizonte
Banhado por 
Raios de sol
Que despontam
Lá no Monte.
 
DANÇAS COM ELA,
A cor, 
E com ela adormeces.
Por amor.
É sopro 
Da tua alma
Quando a vida 
Já é sonho...
...........
E te acalma!
 
MAS EU GOSTO
DE TE PINTAR
Com palavras.
Em maiúscula.
Onde o azul é 
Mais íntimo
E o verde 
Te cobre 
Como manto.
Onde o vermelho
É pranto
Sem lágrimas
De enxugar...
..........
Nem sequer
Em amarelo
P'ra melhor
Te recordar!

NA COR DAS MINHAS
PALAVRAS
Te revejo
As vezes 
Que eu quiser
Pois és mais
Do que desejo
Nos cânticos
Que compuser!

MAS EU GOSTO
Cada vez mais 
De cor...
............
Confundir-me 
Com ela,
Dançá-la 
Como vida 
Em explosão,
Fogo de artifício
Que embriaga
Os sentidos
Como se fosse 
Vulcão...

LEMBRO-ME 
DO POETA QUE PEDIA
“Mais luz!”,
Já em seu leito 
Fatal.
Tinha luz 
Dentro de si 
Mas não entrava 
Cor
Pelo portal.
Era cinzenta
A cor que lhe restava
Até escurecer
Quando a janela
Lentamente 
Se fechava...

LUZ É COR,
Desperta da 
Letargia,
Ressuscita
Do torpor.
Celebra a vida.
É cântico.
Chilreio de 
Passarinho
Lá no alto
Que anuncia 
O meu voo
Aos azuis
Que tu pintas
Em cobalto.
 
MAS A PALAVRA
FASCINA-ME.
É com ela 
Que eu te canto!
Com a cor danço
E voo!
Com ela, leio-te
A alma.
Na cor, a tua
Roupagem.
Com a palavra
Suspendo 
Os sentidos
Para melhor
Te sonhar
De todos os dias
Perdidos...
........
À deriva
No teu mar!

AH!, SIM,
Eu gosto 
É das palavras! 
E sabes porquê?
Porque tu cabes
Em quatro letras
Mesmo que o teu
Nome 
Tenha cinco
E me saiba a verde
De Primavera...

 

 

Poesia

ROSTO DE PEDRA…

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração – Jovem mulher com bâton.
“Estudo de uma jovem mulher” (1885), de
Gustav Klimt, (atrevidamente) retocado
por João de Almeida Santos

 

JASKlimtFinal250318

ENCONTREI-TE

POR ACASO
E caíste
Sobre mim
Naquelas escadas
Sem fim
Por onde descias,
Altiva,
Como senhora
Do silêncio
Austero
Que me devora.

É SEMPRE ASSIM
Quando te vejo.
Crispada,
Sobrolho
Franzido
E pesado,
Sofrido,
Em eterna
Revolta,
Anunciando 
Penitência
Neste incerto
Destino
Já sem regresso.

DOEU?

Muito.
Mas que importa?
É sempre sal
Sobre ferida
Que não cura,
Mal que dura
E que perdura
Uma vida…

A TEIA
QUE NOS TECE
E cobre
Este espaço
Que entretece
E nos domina
É como o tempo
Que marca,
Implacável,
O acaso
Que tudo determina.
 
VI-TE, SIM,
Nesse dia,
Recolhida
Sobre ti,
Estranha na cidade
Invisível
Onde te conheci.

E ASSIM ME NEGAS. 
E foges
Para lugar
Nenhum.
Corres, corres
Para onde
Nunca irás.
Escondes-te
Atrás do que
Desconheces
E de ti própria
Onde blasfemas
Contra o mundo
Onde não te
Reconheces!

A REVOLTA

Não sai
De ti
E petrifica
A tua alma.
 
É ÁSPERO, SIM,
ESSE TEU ROSTO.
Julgava-te
Já perdida
No silêncio
Da raiva
Surda
Contra mim,
Sem redenção,
Condenado
A grilhões
Que pesam
Como cativeiro.
 
CHAVES?
Ah!, sim,
Tantas são
As chaves que tens
E que não usas
Para me libertar!
 
TALVEZ NEM QUEIRAS
Porque também tu
Já és prisioneira
Da síndroma
Que te aprisiona
E te queima
Como fogueira.

CAÍSTE SOBRE MIM.
De repente,
Levantaste-te
Dessa sombra
Onde te encerras,
Te encobres
E vigias.
E atropelaste-me…
 
MAS NÃO ERA PRECISO,
Meu amor!
Todos os dias
O fazes.
Mesmo ausente…

Poesia

EU VI UM ANJO…

No Dia Mundial da Poesia,
hoje, 21 de Março,
ofereço este Poema
de João de Almeida Santos.
Ilustração: Vénus, de
Botticelli, re-reimagined 
por João de Almeida Santos 
a partir de Yin Xin
(2008) e de Botticelli (1490).

JAS_VenereYXin2103_Final

EU VI UM ANJO
CAIR
Docemente
Sobre mim
Com seu rosto 
Imaculado
Em momento
Inesperado
Que parecia 
Não ter fim...

VINHA ELE
Lá de bem alto
Onde eu
O pressentia
Mas tive 
Um sobressalto
Porque em mim
Esse anjo 
Imaculado
Não cabia.

SUA LUZ
ERA INTENSA
Ofuscava-me
O olhar.
O seu brilho 
Deslumbrava
E eu senti-me
Cegar...

MAS NÃO SEI
SE ERA ANJO.
Talvez fosse
Uma mulher.
E se não fosse
De arcanjo, 
Ah!, 
Não era um 
Rosto qualquer...

POR ISSO
ME FASCINOU,
Porque ao vê-lo
Descer
Do trono
Onde reinava,
Quase, quase
Me cegou
Com a luz
Que o transportava. 
E levou-me 
Ao Olimpo
Onde a arte
Lhe sobrava.

FIXEI-O, ENTÃO,
Num quadro 
De memória.
Traços leves,
Cores intensas 
Que cativam
O olhar.

PINTEI-LHE DE
NEGRO
O cabelo
Para mais belo
Ficar
E seu rosto
Feminil
Deste modo
Desvelar
Como mulher
Sensual
Que me veio
Capturar.

DESENHEI-A 
COMO BELO
Avatar
Que tomou
Conta de mim
Para sempre
Me lembrar
Que era 
Uma mulher
E não era
Querubim.

MAS VI 
UM ANJO,
Ah!, eu vi,
Entrar bem 
Dentro de mim
Sob forma
De mulher,
Porque anjo
Imaculado
Não cabia,
Infinito,
No meu pequeno
Jardim.

FOI MISTÉRIO
Que subiu
Ao oráculo
Da vida
Onde eu a
Posso ler 
Em texto 
Que só termina
No dia 
Da despedida,
Na hora em que 
Morrer.

EU VI UM ANJO
DESCER
Neste vale
Da minha vida
E ele fez-me
Crescer,
Recomeçar 
A partida...

E COM POEMAS
Parti
Em viagem
Ao Olimpo
Para com ele
Voar
Em cada palavra
Que digo,
Em cada verso
Que sinto!

Poesia

CANTA, POETA, CANTA!

Poema de João de Almeida Santos.
Ilustração: Auto-Retrato. Original de
João de Almeida Santos. Março de 2018.
Volto a repropor:
Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo
Para a letra e a tradução do napolitano, ver: Março.
* Comentários ao Poema infra: 6 THOUGHTS ON “POESIA”
JAS18032018
“Ora al nuovo sole si affidano i nuovi germogli”
Virgílio.
CANTA, POETA, CANTA
Até que Ela 
Te ouça,
Nem que a palavra
Te doa,
Nem que a alma 
T’estremeça!

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu poema 
Tem dor
Que te baste,
No amor, 
E tem cor
Que alumia
E tem sabor
A cerejas,
Que as dá
A Primavera.

SE NO CANTAR
Tu quiseres
Atingir o infinito,
Salta p’ra cima 
Dum risco,
Agarra asas 
De azul
E voa
Nesse teu céu
Até que Ela 
Te veja, 
Te pinte
Numa cereja
E murmure
O teu nome
Em silêncio
De igreja...

CANTA, POETA, CANTA
Que o teu cantar 
É um choro.
E é água 
Cristalina
Que corre
Lesta 
Em teu rio
Seminal,
Dentro de ti,
Turbilhão
Arterial
À procura de beleza
No infinito
Fatal 
De um adeus
Beijado
Pela tristeza!

CANTA, POETA, CANTA
Que contigo 
Cantarei 
A alvorada do dia.
Chora, que eu
Chorarei
Se não houver 
Alegria.
Ri, que 
Eu cantarei
Animado por teu
Riso.
E para ti 
Dançarei
Uma valsa 
De Strauss
Às portas
Do Paraíso!

CANTA, POETA, CANTA
Até que Ela 
Te ouça.
Não pares
De chorar alto,
Lá em cima, 
Planalto
Ou montanha,
Poema 
Ou um desenho,
Uma cor
Em aguarela,
Afagado
Pela dor
Mesmo que olhes
P'ra ela
Com um intenso
Ardor 
Lá de cima
Da janela...

CANTA, POETA, CANTA,
Para ti 
E para o mundo
Que o teu cantar
Enobrece
Quem ouvir 
A tua prece,
Quem sentir
O teu lamento,
Que de ser
Já tão profundo
Não o leva
Nem o vento
Pois em ti
Ele entardece.

E SE O VENTO 
O LEVAR
Vai procurá-la
A Ela,
Dobra lento 
A esquina
P’ra que o veja
Da janela. 

MAS O DIA É DE
FESTA!
Há cortinas
No poema
E o lamento 
Lá regressa
Ao poeta 
Que o cantou.
O dia já 
Não é dele
Mas de quem 
O castigou.

CANTA, POETA, CANTA,
Que um dia vai-te 
Ouvir.
Deixa, pois, que o 
Tempo passe
E a razão se esclareça.
E confia no porvir.

CHORA, POETA, CHORA 
Neste teu 
Entardecer
Aqui tão perto
Da arte
Com saudades 
De morrer...

CHORA, POETA, CHORA... 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

.

 

 

 

Poesia

PRIMAVERA, QUASE

João de Almeida Santos
POEMA.
Ilustração: Primavera, Quase.
Original de João de Almeida Santos.
Março de 2018. 
Ilustração sonora de Milva,
em napolitano, sobre uma 
Arietta de Salvatore di Giacomo:
Marzo. Reproposição. 
Para a tradução, veja, aqui, Março.
Para ouvir Milva: 
Marzo - Milva. Arietta di Salvatore di Giacomo
                          Primavera, Quase

Pavão4
"Até nos nossos sonhos neva, mas uma única vez na vida". 
Orhan Pamuk, escritor turco. Prémio Nobel da Literatura.
PRIMAVERA, QUASE
SE ME PERGUNTASSES
PELA NEVE,
O que sempre te diria?
“- Tenho-a na minha
Alma,
Sinto-a, pura,
Em cada dia.”

DELA CONSERVO
O FRIO
E a brancura
Do seu manto,
Mas sinto-a quente
Por dentro,
Mesmo que sofra,
Em pranto.

ENTRA NEVE
NA PRIMAVERA
E dá húmus
Ao jardim,
Rega fundo 
A tua alma 
E ao sofrimento
Põe fim.

E QUANDO
O INVERNO
Termina
Saem cores 
Da tua mão,
Voam riscos,
Nascem amores,
Tudo brota
Do teu chão...

EU PERMANEÇO
NA NEVE,
Corpo frio, 
Alma quente.
Se te banhar
Como rio 
Germinas
Como semente,
Explodem os teus riscos
Em girândolas 
De cor.
É festa
Na tua terra,
Já não é tempo
De dor!

MAS SÓ DESÇO 
DA MONTANHA
Como neve
Que t'inspira
Pois da arte 
É alimento,
Frio branco
Que conserva
E à alma 
Dá alento.

SÓ ASSIM 
EU TE VISITO,
Perdoa
A minha falta.
No alto voam 
Foguetes,
Mas dentro de mim
É ribalta,
A que quero
Para ti
Pois eu não quero 
Mais nada.
Que Atena 
Te inspire
Com sua varinha
De Fada!

É FESTA NA TUA
TERRA,
Crepitam foguetes
No ar,
Fosse eu
O teu mordomo
Não iriam
As girândolas
Na tua festa
Parar!

BRANCA NEVE,
FRIA E HÚMIDA,
Não vê 
Foguetes no ar,
Mas banha 
A tua alma,
Lentamente,
Sem parar.

E SE PERGUNTAS
P'LA NEVE
Eu ouço-te 
Cá em cima,
Inspiro-me na 
Montanha
E respondo-te
Em rima,
Devolvo-te
Inspiração
Que da arte
É a vida,
Num poema 
Em oração
Que não é 
De despedida,
Mas canto, 
Em comoção,
Da palavra 
Proibida.

 

 

 

 

Artigo

O “GRILLO” CANTA SEMPRE AO CREPÚSCULO…

João de Almeida Santos

palazzo-del-quirinale_498086440_veduta-palazzo-quirinale-x-_41823

Palazzo del Quirinale, Roma, residência do Presidente da República. 
Aqui se decidirá o futuro político de Itália, após eleições 
legislativas que deixaram o país político mais uma vez fragmentado
e sem uma clara solução de governo. A palavra ao Presidente Sergio 
Mattarella.

 

RECUPERO O TÍTULO de um livro de Beppe Grillo, Gianroberto Casaleggio
e Dario Fo ("Il Grillo Canta Sempre al Tramonto", Milano, 
Chiarelettere, 2013) em forma de diálogo inspirado num livro de 
Luciano de Samósata, “A nau, ou seja, os desejos”, escrito no 
II Século d. C., uma viagem, em forma de diálogo, ao futuro como 
solução dos males do presente.

Os dados relevantes

Grillo e Casaleggio, naquele momento, já estavam a caminho do futuro. 
Em 2013. E em marcha acelerada. Nas eleições desse ano foram a 
primeira força política, com 25.5% e 8 milhões e 689 mil votos, 
para a Câmara dos Deputados. E, agora, em 2018, são de novo a maior 
força política, mas desta vez com 10 milhões e 617 mil votos, a cerca
de 14 pontos de diferença do Partido Democrático. Um triunfo 
esmagador, a outra face da esmagadora derrota do Partido Democrático
(PD).
Vale a pena ver alguns números comparativos (relativamente às 
eleições de 2013): o Movimento5Stelle (M5S) aumentou em cerca de 
2 milhões de votos o score eleitoral, tal como a direita, que obteve 
mais 2 milhões e duzentos mil votos. O Partido democrático perdeu 
cerca de 2 milhões e meio de votos. E se, com toda a probabilidade, 
um milhão foi para Liberi e Uguali - os que, inspirados por Massimo 
D’Alema, saindo do PD, acabaram por acentuar a espiral negativa que 
começou com a desastrada iniciativa do referendo constitucional de 
Renzi -, para onde foi um milhão e meio de votos? A resposta parece 
não ser difícil.

A novidade

Mas a grande novidade para que há que olhar é, de facto, a 
consistência eleitoral do M5S e o seu triunfo esmagador sobre o seu 
directo concorrente, o PD. As sondagens, ao longo de anos, davam o PD
à frente, embora com uma pequena percentual de avanço. A coligação 
de direita não é uma novidade porque os governos Berlusconi sempre 
resultaram desta mesma fórmula (FI, Lega Nord e Alleanza Nazionale). 
Nem os seus resultados foram muito significativos, apesar da forte 
subida em relação a 2013. A ala mais de direita, diria mesmo, 
de extrema direita (Lega + Fratelli d’Italia, os legítimos herdeiros 
de Alleanza Nazionale), essa sim, é que garantiu uma boa performance
ao conseguir quase 22% do eleitorado. Ao mesmo tempo, o PD entraria 
numa espiral negativa que não se sabe como acabará, vista, 
por um lado, a sua tendência reiteradamente suicida e, por outro, 
a progressiva perda de identidade político-ideal que tem, como tantos
outros partidos partidos socialistas e sociais-democratas, vindo a 
sofrer.

O MoVimento5Stelle

Uma coisa é certa. Os grandes vencedores foram os partidos
anti-sistema e as várias frentes temáticas que fazem deles partidos 
vencedores: contra o establishment, político e mediático; contra a 
imigração; contra a União Europeia; devolução do poder ao povo, 
contra a “casta” que tem vindo a governar Itália. Destes partidos, 
aquele que representa a maior novidade é o M5S, um partido digital 
que quer uma república digital, uma cidadania digital e uma 
democracia digital directa, que tem como sua base de apoio o povo 
da rede, que pensa o poder numa lógica “bottom-up”, o contrário da 
lógica vertical e unidirecional com que o establishment tem exercido 
a política. O exercício de uma democracia directa de matriz digital 
é permanente através do portal do M5S e do Blog de Beppe Grilo, 
transformando, curiosamente, o sistema representativo em simples 
instrumento do verdadeiro meio digital onde se processa a decisão 
política, a Rede. Numa palavra, a alternativa aos partidos 
tradicionais não só já está formulada como já está criada, sendo já 
politicamente maioritária e vencedora em Itália. Coisa que, de resto,
já se previa. Ao mesmo tempo, assistimos à débâcle do Partido 
Democrático. E não só pelas proverbiais tendências suicidas da 
esquerda italiana, mas sobretudo pela evolução estrutural da 
sociedade italiana e da cidadania. (Sobre o M5S veja o meu ensaio: 
A Política e a Rede: os casos italiano e chinês)

O que está a mudar

Gostaria, pois, de dizer algumas palavras sobre esta questão. 
Tradicionalmente, os partidos de esquerda viam a participação 
política ancorada sobretudo no “sentimento de pertença” e na “ética 
da convicção”. A decisão política era motivada sobretudo por este 
sentimento. A partir dos anos cinquenta do século passado, mas 
sobretudo dos anos noventa, com a expansão dos media, começou a 
impor-se a tendência para a emergência de um indivíduo informado 
e portador de múltiplas pertenças, que não só da partidária. 
Com a rede, esta tendência não só evoluiu como tornou este indivíduo 
ainda mais autónomo. Viria a ser designado como “prosumer”, como 
consumidor e produtor de informação e de política, capaz de se 
auto-organizar e de se automobilizar, rapidamente, de modo flexível 
e de forma temática. Este indivíduo ainda não foi devidamente 
reconhecido pelo tradicional sistema de partidos, que se continuou 
a reproduzir de forma orgânica e endogâmica, perdendo cada vez mais 
o contacto com uma cidadania que, entretanto, se transformou 
radicalmente. As novas plataformas de auto-organização e de 
automobilização já estão no terreno e chamam-se, por exemplo, 
MoveOn.org ou Meetup e já conhecem um poderoso desenvolvimento 
nos Estados Unidos. Ora o M5S – que utilizou a plataforma Meetup - 
trabalha sobretudo neste registo e faz-se intérprete da literacia 
digital, em particular daqueles que serão os futuros dirigentes, 
os jovens de hoje e, em parte, já os de ontem.
Esta mudança já está em curso em todo o mundo, sobretudo se tomarmos 
em consideração dois dados muito simples: mais de metade da população
mundial é user na Rede e cerca de dois biliões de pessoas têm 
Facebook.
A Itália representa, assim, uma fase avançada desta tendência 
estrutural, estando já a operacionalizá-la politicamente, atendendo 
à expressividade da votação conseguida pelo M5S. E esta é, sim, a 
grande novidade do caso italiano.

E agora, Presidente Mattarella?

Acontece que o sistema eleitoral italiano, uma combinação de
maioritário simples para 37% dos mandatos com 61% de proporcional 
levou, como era de esperar, à fragmentação partidária, impedindo 
o vencedor de governar por falta de mandatos que garantam a aprovação
do programa de governo e a estabilidade governativa. Mesmo assim, é 
dever do Presidente da República, Sergio Mattarella, indigitar ou um 
expoente da coligação de direita vencedora (mas somente com 35,8%) 
ou Luigi di Maio, do M5S (com 32,7%). De qualquer modo, nenhum terá 
condições para formar governo se não conseguir uma coligação que 
sustente estavelmente o governo. E não creio que possa haver uma 
coligação entre a coligação vencedora e o M5S. Assim, a única 
coligação que poderia garantir numericamente uma maioria absoluta 
seria a do M5S com o PD, estando esta possibilidade já em cima da 
mesa e começando a provocar fortes fricções no interior do PD, 
onde uns querem ir para a oposição e outros experimentar a aliança, 
embora a esmagadora maioria dos dirigentes pareça preferir ir para 
a oposição. O que se compreende, perante o risco de o PD poder vir 
a ser fagocitado pelo M5S e reduzido a partido insignificante. 
De resto esta solução até poderia vir a provocar outras cisões, 
a acrescentar à que já se verificou, com os resultados que conhecemos.
A Itália, por outro lado, tem uma longa tradição de governos 
institucionais e uma pequena tradição de governos minoritários, 
por isso, a solução parece inclinar-se mais para um governo de tipo 
institucional do que para uma solução estritamente política, de 
difícil concretização.

Conclusão

De qualquer modo, estamos perante três factos que devem fazer pensar
as forças políticas que têm vindo a assegurar a governação na maior 
parte dos países da União Europeia, sendo também certo que, aqui, 
algumas forças de governo actuais já manifestam claras tendências 
anti-sistémicas: (a) reforço claro da extrema direita, com um score 
eleitoral de cerca de 22%; (b) forte afirmação de uma força política 
de novo tipo claramente alternativa aos partidos tradicionais; (c) 
queda dos partidos tradicionais. Acresce ainda o reforço 
significativo da tendência anti-imigração e a ruptura da tradicional 
posição pró-União da Itália.
A Itália sempre foi politicamente muito complexa e, algumas vezes, 
pioneira. É um caso a seguir com muito interesse, precisamente pela 
consistência que o neopopulismo digital italiano tem vindo a 
demonstrar e que nestas eleições (já dera sinais evidentes nas 
anteriores eleições locais, ao conquistar Roma e Turim) reforçou 
ao ponto de se tornar inequivocamente o primeiro partido político 
italiano, seja na Câmara dos Deputados seja no Senado. E, 
naturalmente, no País.