Poesia-Pintura

CONFISSÃO

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Fascínio”
JAS 2023
(68x88, em papel de algodão, 310gr, 
e verniz Hahnemühle, Artglass AR70, 
em mold. de madeira)
Original de minha autoria
Maio de 2026

“Fascínio” – JAS2023

POEMA – “CONFISSÃO”

QUE ME DIZES,
Tão frontal,
Olhar fixo,
Penetrante?
É chamamento,
Sinal,
Com brilho
De diamante,
Fascinante
E fatal?

SÃO TÃO BELOS
Esses olhos,
Sabem-me sempre
A mar,
São ondas
Do teu encanto
Como cristais
A brilhar.

NÃO É AZUL
Sua cor
Mas de sol
Que ilumina,
Olhas pra mim
Com ternura
Quando navego
À bolina.

ÉS SEREIA,
Vou-te ouvindo
Em sinfonia
De cor,
Melodia
Que me aquece
Como fonte
De calor.

SOPRA ARAGEM
Sobre ti,
Um suave
Respirar,
E eu tão
Longe daí,
Tão longe
Desse teu mar.

QUE PROCURAM
Os teus olhos?
Teus lábios
Balbuciam
Palavras
Que me resistem
Quando nelas
Eu pressinto
O que nunca
Me diriam,
Mas são sinais
Que persistem
E que outros
Não veriam.

SE DISSERES
Que não me
Sentes
Ou que do poema
A sua musa 
Não és,
De saudades
Esmoreço
Se não te vejo
Quando chegam
As marés.

OLHOS
Húmidos
Que fascinam,
Essa boca
Que seduz,
Teus cabelos
Iluminam
E eu,
Poeta d’outono,
Na mais pura
Contraluz.

OLHAS-ME, POIS,
Inquieta,
Sem estar
À tua frente,
Numa dorida
Distância
Que no silêncio
Se sente,
Mas por isso
Eu te digo
Que o teu olhar
Não me mente...

Artigo

A CÚPULA DO DESEJO 
Reflexões sobre o Poema

CATEDRAL

 de João de Almeida Santos

Por André Moshe Veríssimo, PhD

Detalhe de “Vitral da Cúpula” – By JAS

O POEMA “CATEDRAL” (João de Almeida Santos, 2026) constitui uma verdadeira cúpula do desejo — não apenas arquitectónica, mas ontológica e poética. Nele, a memória, o sagrado, o erótico e o sideral convergem num gesto metapoético de ressurreição do não-acontecido. A análise que se segue reforça, aprofunda e formaliza teoricamente cada eixo da leitura anterior, ancorando-o rigorosamente nas fontes que o permeiam de forma imperativa: o surrealismo(Breton), a lírica elegíaca e sensual de David Mourão-Ferreira, a metafísica do ortónimo de Fernando Pessoa e, com especial densidade, a filosofia da transgressão de Georges Bataille. Todas estas correntes não são meras “influências”, mas estruturas genéticas que atravessam o texto, determinando a sua lógica paroxística, o seu criptograma espacial e a sua metapoética da Piazza Navona.

CORRENTES LATENTES E PATENTES
O Paradoxo dos Sentidos Paroxísticos
 Formalização Teórica e Prática
Patente

O poema é um lírico de memória e saudade com topografia romana precisa (Cúpula da Catedral + Piazza Navona), forma fragmentada e ritmo de “respiração entrecortada” — quase um pas de deux com o silêncio, como observámos.

Latente e paroxístico

O grego paroxýs (agudizar até ao espasmo) materializa-se na tensão máxima entre proibição sagrada e desejo profano. O verso central — “Corpos tensos, / Sem palavras, / Na fronteira / De um afecto / Que não seria / Fatal” — é a encarnação prática do conceito batailliano de limite e transgressão (Bataille, 1957). O corpo não se toca porque o toque seria “fatal” (morte simbólica ou pecado), mas é precisamente essa suspensão que produz o paroxismo: o luar “desnuda” o corpo para “a alma brilhar” — inversão mística-erótica que ecoa a comunicação interior de Bataille.

Formalização prática (exemplo textual)

A “orgia de abstinência” é visível na sequência sinestésica: tacto suspenso (“não te abracei”), visão intensificada (“noite de luar”), calor erótico (“o amor / É mais quente”) e olfacto/auditivo implícito no “murmúrio / Da fonte”. O não-acontecido torna-se “mais vivo ainda” — princípio surrealista de supremacia do imaginário sobre o real (Breton, 1924).

Teoria subjacente

Breton define o surrealismo como “automatismo psíquico puro” que expressa “o funcionamento real do pensamento” (Breton, 1924: 26). JAS não “recorda” — recria e voa. Mourão-Ferreira fornece o modelo de contenção formal e melancolia aristocrática do desejo não consumado (Mourão-Ferreira, 2019). O ortónimo de Pessoa fornece a angústia da multiplicidade temporal (“passado que ressurge” como futuro) e a busca de unidade através da arte (Pessoa, 2005/2010).

PESO ESPECÍFICO DAS FONTES
QUE ATRAVESSAM O POEMA
Formalização Teórica
Surrealismo
(peso estrutural — quase a metade
 da lógica do poema)

O voo sideral, o pouso imaginário na cúpula e a diluição tempo-espaço-corpo são aplicação direta do Manifeste du surréalisme. Breton afirma que o surrealismo tende a “ruir de uma vez por todas todos os outros mecanismos psíquicos” e a substituir-se a eles (Breton, 1924: 38). No poema, a memória não é arquivo — é “fita da memória” que se rebobina em acto criativo. O autor confirma afinidades em A Dor e o Sublime (Almeida Santos, 2023), onde defende a fusão realidade/fantasia.

David Mourão-Ferreira
(peso estilístico e ético —
 elegância erótica contida)

A contenção formal (versos curtos, repetições rituais, musicalidade depurada) e a capacidade de transformar o efémero em eternidade dialogam directamente com a lírica de Mourão-Ferreira, especialmente nos poemas de amor e memória de cenários mediterrânicos/romanos. A “melancolia aristocrática do desejo não consumado” é herança explícita (Mourão-Ferreira, 2019: 312-347; secção “Órfico Ofício”).

Ortónimo de Fernando Pessoa
(peso metafísico — busca de
 unidade na multiplicidade)

O “eu” singular que se fragmenta em múltiplos tempos e se unifica no acto poético ecoa o ortónimo pessoano: angústia da heterogeneidade interna e vontade de transcendência através da palavra (Pessoa, 2005). O “pousar de novo” é o equivalente moderno da “viagem” ortónima — não há heterónimos explícitos, mas há multiplicação temporal que o poema resolve na cúpula do desejo.

Georges Bataille
(peso mais subterrâneo e potente
 — transgressão sagrado/profano)

É a fonte mais imperativa. A cúpula da catedral é o espaço do sagrado onde o abraço seria “fatal”. Bataille (1957) afirma que “o erotismo é a aprovação da vida até na morte” e que a transgressão é o momento em que o sagrado e o profano se tocam (p. 63). O não-dado do beijo preserva o sagrado e, simultaneamente, o intensifica na memória — “o que não aconteceu / Como se fosse / Um futuro / Que desse tempo / Passado / Afinal não se / Perdeu”. O poema inteiro é uma expérience intérieure batailliana: dissolução do eu isolado no excesso da abstinência.

O CRIPTOGRAMA DA CATEDRAL
E A FONTE DOS QUATRO RIOS
Leitura Teórica Aprofundada

“Fontana dei Quattro Fiumi” de Bernini – By JAS

A catedral é criptograma porque a sua cúpula cifra o paradoxo central: verticalidade divina vs. horizontalidade carnal. Decifrá-lo é compreender que o poema é a catedral — templo onde o impossível (abraço fatal) se transforma em eternidade pela palavra. A cúpula é o umbigo do desejo (omphalos erótico).

A Fonte dos Quatro Rios (Bernini, 1651) é o contraponto heraclitiano: os quatro rios (Nilo, Ganges, Danúbio, Rio da Prata) simbolizam os quatro continentes, os quatro elementos, os quatro fluxos do tempo. O “murmúrio” é o som da vida que corre enquanto o futuro “nunca chegaria”. Bernini faz a água “falar”; JAS faz a memória “falar”. Em última análise, a fonte é a origem quádrupla da criação poética — tempo, espaço, sentidos e continentes — que o poema canaliza para ressuscitar o instante perdido. Piazza Navona (espaço barroco público e teatral) contrasta com a intimidade sagrada da cúpula; essa tensão alimenta todo o texto.

METAPOÉTICA DA PIAZZA NAVONA
Formalização Final

A Piazza Navona não é cenário: é espelho do processo criativo. Bernini esculpe o fugidio (água) em forma eterna; o poeta esculpe a memória fugidia em poema eterno. O fecho — “Talvez faça / Um poema / Pra de novo / Te encontrar […] / Pousar de novo / Contigo / Na cúpula / Da catedral…” — é o acto metapoético supremo: o poema anuncia que ele próprio é o veículo do reencontro sideral. Toda a grande poesia, ensina JAS, é uma praça barroca onde o murmúrio da vida se transforma em monumento àquilo que nunca aconteceu — mas que, por isso mesmo, nunca morre.

SÍNTESE FINAL

“ CATEDRAL” é um nó górdio de correntes que o atravessam imperativamente: surrealista no voo onírico e na supremacia do imaginário; mourão-ferreiriano na elegância erótica contida e na musicalidade; pessoano na busca metafísica de unidade na multiplicidade temporal; batailliano na transgressão do limite sagrado/profano. O criptograma da catedral decifra-se no reconhecimento de que o sagrado só se cumpre quando o eros é negado e, por isso, eternizado na palavra. A fonte dos quatro rios é o rio quádruplo da criação. A metapoética da Piazza Navona ensina que a poesia é o único lugar onde se pode “pousar de novo” na cúpula do desejo.

Esta tematização teórica e prática demonstra que as fontes não “influenciam” o poema — constituem-no. O texto de JAS é o ponto de convergência onde Breton, Mourão-Ferreira, Pessoa ortónimo e Bataille se encontram para criar uma das mais densas e belas definições contemporâneas do que é a poesia: o lugar onde o impossível se torna eterno.

O poema não descreve um encontro: inventa-o para que ele exista para sempre na cúpula do desejo. É, talvez, a mais bela definição possível de poesia no século XXI.

REFERÊNCIAS

Almeida Santos, J. de (2023). A dor e o sublime – Ensaios sobre a arte. São João do Estoril: ACA Edições.

Almeida Santos, J. de (2026). Catedral [Poema]. https://joaodealmeidasantos.com/poesia/

Bataille, G. (1957). L’érotisme. Paris: Éditions de Minuit.

Breton, A. (1924). Manifeste du surréalisme. Paris: Éditions du Sagittaire.

Mourão-Ferreira, D. (2019). Obra poética (1948-1995) (L. M. Gaspar, Ed.). Porto: Assírio & Alvim.

Pessoa, F. (2005). Poemas de Fernando Pessoa — 1915-1920 (J. Dionísio, Ed.). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. (Edição crítica)

Pessoa, F. (2010). Poesias: Ortónimo. Porto: Porto Editora.

Wittkower, R. (1955). Gian Lorenzo Bernini: The sculptor of the Roman Baroque. Phaidon Press (Para contexto artístico da Fontana dei Quattro Fiumi). AMV@05-2026

O POEMA – “CATEDRAL”
VIAJÁMOS NO TEMPO
Até à cidade
Eterna,
Onde eu te conheci,
Nada mudara
Nesse rosto
Tão sereno
E inocente
De quem
Sempre
Me sorri.

DEPOIS FOMOS
À rua
Da minha vida,
À cúpula
Da catedral,
Mas não te abracei
Nessa noite,
Era sagrado
O lugar,
Seria abraço
Fatal.

MAS FICOU-ME
Impresso
O prazer
De te ter ali
 A meu lado,
A sonhar,
Nesse meu leito,
O beijo
Que não trocámos
Numa noite
De luar
Quando o amor
É mais quente
E o corpo
Se desnuda
Por tanto a alma
Brilhar.

FOMOS À PRAÇA
Navona
Logo pela manhã,
Fruímos
O murmúrio
Da fonte
Dos quatro rios,
A inspiração
Do Bernini,
Íntimos,
Em sintonia,
Antevendo um futuro
Que já nunca
Chegaria…

ATÉ QUE ME
Procuraste
Nessa fita
Da memória,
A noite vivida
Na cúpula
Da catedral,
Corpos tensos,
Sem palavras,
Na fronteira
De um afecto
Que não seria
Fatal.

TORNOU-SE
Mais vivo ainda
O que não aconteceu
Como se fosse
Um futuro
Que desse tempo
Passado
Afinal não se
Perdeu.

E CÁ ESTOU EU
De novo
À procura
Dessa noite,
Do beijo
Que não te dei,
Quando o passado
Ressurge
E do tempo
Da catedral
Já nem sei
O que farei.

TALVEZ FAÇA
Um poema
Pra de novo
Te encontrar,
Cantar esse
Sorriso belo
De que sempre
Eu gostei,
Voar no tempo
Em espaço sideral
E em noite de luar
Pousar de novo
Contigo
Na cúpula
Da catedral...
NOTA

Se o domingo é dia de Poesia, o sábado, hoje, também é, apresentando uma leitura erudita do meu Poema “CATEDRAL” pelo Prof. André Moshe Veríssimo.

NOTA BIOGRÁFICA DO AUTOR

Ensaísta, escritor e investigador universitário. Investigador externo da USC, investigador estrangeiro da UEMG, Investigador e Director da Revista de Ciência Política da USAK University, Turquia, Consultor Senior da Universidade de FUDAN (Xangai).

 

Artigo

A AGENDA, O ESPELHO E A TOLERÂNCIA

Síntese Crítica e Argumentário 
em Diálogo com «A Normalização 
da Direita Radical»,
de João de Almeida Santos

André Moshe Veríssimo, PhD

 

"S/Título" - JAS 2025
RESUMO

O presente texto sistematiza, em registo dialógico e crítico, a tese central do artigo de João de Almeida Santos (2026), no qual o autor confronta o ensaio de Luca Manucci sobre a alegada normalização mediática da direita radical em Portugal e em Espanha. Recolocado o quadro teórico clássico dos estudos sobre os efeitos da comunicação social (Lippmann, 1922; Cohen, 1963; McCombs & Shaw, 1972; McCombs, 2004; Entman, 1993), discute-se a distinção fundamental entre moldar a percepção e polarizar a atenção e refuta-se a leitura que atribui à imprensa escrita um papel determinante na fixação de uma «nostalgia autoritária» como recurso eleitoral. Em diálogo com Popper (1945/2013), Bobbio (1984, 1988, 1994), Schmitt (1932/1996), Habermas (1962/1989), Sartori (1997/2000) e a literatura comparativa sobre o populismo radical (Mudde, 2007; Norris & Inglehart, 2019), reafirma-se o princípio demoliberal da sociedade aberta: a resposta às forças disruptivas não é o cancelamento informativo, mas a competição argumentativa em pé de igualdade no espaço público democrático. O contra-exemplo italiano dos Fratelli d’Italia, sustentadamente analisado em Santos (2024), reforça empiricamente a tese segundo a qual o passado autoritário, longe de ser o motor central da direita radical europeia contemporânea, é cada vez mais um recurso secundário, suplantado pela retórica anti-imigração, pelo decisionismo e pela crítica anti-sistémica.

Palavras-chave: agenda-setting; framing; direita radical; nostalgia autoritária; sociedade aberta; democracia liberal; CHEGA; ética jornalística.

I. INTRODUÇÃO
A CONTROVÉRSIA EM CAUSA

 João de Almeida Santos, no artigo «A Normalização da Direita Radical», publicado em 5 de Maio de 2026 (Santos, 2026), recensiona criticamente o ensaio de Luca Manucci, «O passado como promessa: quando os media normalizam a direita radical», saído no Expresso de 24 de Abril (Manucci, 2026). Manucci, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, analisa seis jornais — três portugueses (Público, Diário de Notícias e Correio da Manhã) e três espanhóis (El País, El Mundo e ABC) —, e conclui que a influência mediática se exerce não tanto sobre as preferências eleitorais directas quanto sobre a percepção do passado, contribuindo para uma «nostalgia autoritária» que operaria como recurso político ao serviço da direita radical (CHEGA em Portugal; VOX em Espanha).

Santos (2026) contesta esta leitura em três planos articulados. No plano teórico, denuncia a omissão da grande tradição de estudos sobre os efeitos da comunicação social, recordando que tal omissão fragiliza qualquer pretensão analítica robusta sobre processos comunicativos contemporâneos. No plano empírico, sublinha a irrelevância sociológica de alguns dos jornais analisados — caso particularmente flagrante o do Diário de Notícias, cuja circulação paga média impressa em 2025 rondou os 913 exemplares e a circulação digital os 761 (Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens [APCT], 2025) —, dado que torna sociologicamente improvável que ele opere como agente determinante na formação da percepção colectiva do passado. No plano normativo, finalmente, identifica nas entrelinhas do ensaio uma deriva censória implícita que entraria em colisão directa com os princípios fundamentais da ética jornalística codificada na Resolução 1003 do Conselho da Europa (Conselho da Europa, 1993).

A controvérsia, contudo, ultrapassa em muito o seu objecto imediato. O que está em causa é, no fundo, o estatuto do espaço público democrático perante forças que o questionam, e o lugar que nele cabem ao jornalismo, à imprensa de referência e — sobretudo, no ecossistema mediático contemporâneo — à televisão e às redes sociais. Está em causa, ainda, a própria gramática da democracia liberal: pode esta defender-se das suas margens disruptivas sem trair os seus princípios constitutivos? Pode fazê-lo através da contracção informativa? Ou, pelo contrário, é precisamente na exposição plural ao confronto agonístico — aquele que Popper (1945/2013) chamaria a vida da sociedade aberta — que reside a melhor garantia da sua vitalidade?

O presente argumentário propõe-se sistematizar, em registo dialógico, a posição de Santos (2026), recolocando-a no quadro teórico que a sustenta, mobilizando a tradição maior do pensamento demoliberal de Popper a Bobbio e indicando, num gesto de honestidade hermenêutica, os pontos em que a tese de Manucci capta intuições válidas que merecem reconhecimento. O propósito não é o adversarial, mas o esclarecedor: pôr em diálogo, no espaço público académico, duas leituras de um mesmo objecto, e procurar — pela disciplina do argumento, não pela voz mais alta — aquilo que cada uma contém de verdade e de limitação.

II. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS REPOSTOS
 DA MOLDAGEM À TEMATIZAÇÃO

A primeira objecção de Santos (2026) ao ensaio de Manucci é de ordem epistemológica. O conceito operatório de «moldar a percepção do passado» carece de filiação visível nos estudos clássicos sobre os efeitos da comunicação social — domínio em que a tradição empírica e teórica é especialmente densa, e em que a literatura, há mais de um século, vem afinando os instrumentos conceptuais com que tais processos podem ser pensados.

LIPPMANN E A ECONOMIA DO ESTEREÓTIPO

 Walter Lippmann (1922), na sua obra fundadora Public Opinion, formulou a tese de que o cidadão moderno não se relaciona directamente com o ambiente político e social, mas sim com um pseudo-ambiente reconstruído por imagens, estereótipos e narrativas mediadas. Na metáfora célebre das imagens nas nossas cabeças, está já contida a intuição de que a percepção pública é uma construção mediada; mas Lippmann não conclui daí que os jornais «moldem» linearmente as opiniões. A sua análise é mais cautelosa, sublinhando o papel dos atalhos cognitivos, da economia da atenção e da inevitável simplificação que toda a representação implica. O estereótipo é necessidade antropológica, não falha jornalística — e, por isso, não pode ser pensado fora do horizonte da racionalidade limitada do sujeito democrático.

TARDE, LAZARSFELD E KATZ 
A CIRCULAÇÃO SOCIAL DAS IDEIAS

A tradição sociológica francesa, com Gabriel Tarde (1890/2001; 1901/1989), antecipara já a ideia de que a opinião pública resulta menos de uma imposição vertical do que de mecanismos de imitação e contágio social. Foi sobre este chão, e contra a tese da «agulha hipodérmica» então corrente, que Lazarsfeld, Berelson e Gaudet (1944) e, mais tarde, Katz e Lazarsfeld (1955) formularam a teoria do two-step flow of communication: os media não atingem directamente o cidadão; os seus conteúdos são filtrados, reinterpretados e mediados por «líderes de opinião» inseridos nas redes sociais primárias. Esta tradição, evocada explicitamente por Santos (2012, 2026), constitui um pano de fundo essencial: a moldagem mediática nunca é imediata, é sempre socialmente mediada. Negar este princípio é regressar, sem o saber, ao behaviorismo comunicacional dos anos 1930, há muito ultrapassado pela investigação empírica subsequente.

COHEN, McCOMBS e SHAW 
A TEORIA DO AGENDAMENTO

A formulação canónica do efeito mediático contemporâneo é, contudo, a do agenda-setting. Bernard Cohen (1963) avançara a intuição inaugural de que a imprensa, embora frequentemente incapaz de ditar o que os cidadãos pensam, é notavelmente eficaz em sugerir-lhes os temas sobre que vale a pena pensar. McCombs e Shaw (1972), no seu estudo seminal sobre as eleições presidenciais norte-americanas em Chapel Hill, confirmaram empiricamente esta hipótese: a hierarquia de saliência dos temas no espaço mediático correlaciona-se de modo robusto com a hierarquia de saliência percepcionada pelos cidadãos. McCombs (2004), em obra posterior de síntese, refinou o modelo, introduzindo níveis sucessivos de agenda-setting — designadamente o segundo nível, que incorpora atributos e valências, aproximando-se já das teses do enquadramento.

A tese de Santos (2026) explora exactamente esta nuance: o efeito mediático mais robusto não é o da moldagem cognitiva profunda, mas o da polarização da atenção. Os media põem na agenda determinados actores e determinados temas; ao fazê-lo, conferem-lhes proeminência social, e essa proeminência tem consequências eleitorais — não porque convençam ninguém de uma tese substantiva, mas porque fixam o tema como inevitável. Eis o ponto crucial, frequentemente perdido nos estudos contemporâneos: agendar não é moldar. O agendamento opera sobre a saliência; a moldagem operaria sobre o conteúdo. São níveis distintos do efeito, e confundi-los é um erro categorial com consequências analíticas graves.

ENTMAN E O ENQUADRAMENTO 
UM CAVEAT DIALÓGICO

 Importa, contudo, abrir uma nota crítica em diálogo com a posição de Santos (2026). Robert Entman (1993), no seu paradigma fundador do framing, definiu o enquadramento como o processo de seleccionar aspectos de uma realidade percebida e torná-los salientes num texto comunicativo, promovendo uma definição particular do problema, uma interpretação causal, uma avaliação moral e/ou uma recomendação de tratamento (Entman, 1993, pp. 52–53). O framing é, pois, uma operação distinta do mero agendamento: não diz apenas «pense neste tema»; diz também «pense neste tema deste modo».

A distinção tem peso. Concedido que os jornais portugueses analisados por Manucci possuem uma circulação modesta — o argumento empírico de Santos (2026) é, neste plano, decisivo —, a tese de que existem efeitos de enquadramento sobre a representação social do passado não pode ser totalmente afastada por princípio. O que pode ser afastado é a magnitude que o ensaio de Manucci parece atribuir-lhes, sobretudo num ecossistema dominado pelo audiovisual e pelas redes sociais, e o vector que esses efeitos seguiriam — predominantemente os jornais escritos. Estudos posteriores na linha do framing (Scheufele, 1999; de Vreese, 2005) confirmaram a robustez do efeito em condições controladas, mas também o circunscreveram em magnitude e em duração, evidenciando que ele é mais frágil do que a literatura inicial pressupunha. A objecção de Santos é, portanto, mais empírica e proporcional do que conceptual: não que o framing não opere — opera —, mas que a sua eficácia é menor do que a postulada e o seu canal dominante não passa pelos jornais escritos analisados.

LUHMANN - A TEMATIZAÇÃO SISTÉMICA

Niklas Luhmann (1971/1990), na sua teoria da tematização da opinião pública, ofereceu uma formulação convergente com o agenda-setting mas mais radical na sua sistematicidade. Para Luhmann, o sistema mediático constitui-se pela operação contínua de tematização: a sociedade não conhece directamente os seus problemas; conhece-os através da forma como os media os tematizam. O pensamento luhmanniano, como Santos (2012) recordara já no seu livro de referência, complementa a tradição americana do agenda-setting com uma sofisticação sistémica que a torna ainda mais útil para pensar os processos contemporâneos de visibilização política. A omissão deste corpus, no ensaio de Manucci, é por isso particularmente sentida: trata-se da matriz teórica mesma sem a qual a tese da influência mediática sobre a representação do passado teria de ser radicalmente reformulada.

III. A INVERSÃO CAUSAL
QUEM POLARIZA QUEM?

Recolocados os pressupostos teóricos, a segunda linha argumentativa de Santos (2026) inverte a direcção da seta causal sugerida no ensaio de Manucci. A pergunta não é apenas «como é que os media moldam o eleitor a votar CHEGA?», mas, mais radicalmente, «que dinâmica social produz a centralidade mediática de André Ventura?». E a resposta, articulada no artigo, é tripla.

A OBSESSÃO DA ESQUERDA 
COMO COMBUSTÍVEL

 A esquerda portuguesa — e, em parte, o centro-direita, com o célebre «não é não» de Luís Montenegro — converteu o CHEGA em objecto de combate frontal e permanente. Esta militância anti-CHEGA, longe de marginalizar Ventura, instituiu-o como adversário central do sistema. Em termos rigorosamente schmittianos (Schmitt, 1932/1996), a lógica amigo-inimigo opera aqui contra os seus próprios proponentes: ao designar Ventura como inimigo existencial da democracia, parte da esquerda confere-lhe o estatuto de protagonista decisivo, transformando-o no termo polar em torno do qual a discussão se organiza. Toda a oposição, mesmo a oposição radical, é forma de presença — e na economia mediática contemporânea, presença é capital. Bobbio (1984), num registo diametralmente oposto a Schmitt, recordava que a democracia se distingue por substituir o inimigo (a destruir) pelo adversário (a derrotar nas urnas). Quando esta domesticação falha, a democracia regride para a guerra civil latente.

O DISCURSO DISRUPTIVO DE VENTURA

 Ventura, por seu lado, conhece com precisão intuitiva esta mecânica e explora-a sistematicamente. Como Santos (2024) tem analisado em múltiplos textos, o seu discurso é estruturalmente disruptivo: organiza-se em torno de transgressões controladas que captam a atenção mediática, oferecem matéria-prima para indignação adversária e, por essa via, garantem a saturação noticiosa. Não é o conteúdo nostálgico do passado autoritário que protagoniza esse discurso — é a performatividade da ruptura. Mudde (2007), na sua tipologia clássica do populismo radical de direita europeu, identifica precisamente esta operação como característica do estilo populista contemporâneo: o líder não vende uma utopia restauradora; vende a denúncia simultânea da elite corrupta e do povo traído, alimentando-se da própria oposição que provoca.

O TABLOIDISMO TELEVISIVO

 A terceira engrenagem é a do tabloidismo, que Santos (2012, 2026) tem denunciado consistentemente como a deriva mais grave do jornalismo democrático contemporâneo. O sistema mediático actual — sobretudo o televisivo — opera segundo uma lógica de captação de audiência que privilegia o negativo, o conflitual e a frase impactante. Sartori (1997/2000), em Homo videns, formulou esta diagnose com particular acuidade: a hegemonia do audiovisual produz um cidadão «vídeo-formado», cuja capacidade de operar com as categorias abstractas que a deliberação democrática exige é progressivamente erodida pela primazia da imagem sobre o conceito. Neste contexto, Ventura é, para a televisão, combustível ideal pela sua densidade calórica discursiva: oferece ruptura, conflito, espectáculo, frase de efeito. A indústria da audiência absorve-o avidamente, não por simpatia ideológica, mas por puro cálculo económico-mediático.

A inversão proposta por Santos (2026) é, pois, a seguinte: não são os jornais que moldam o eleitor a votar CHEGA via uma narrativa do passado; é a conjugação entre o discurso disruptivo de Ventura, a militância adversarial da esquerda e a lógica tabloide televisiva que produz a sobre-exposição mediática que, esta sim, opera como factor real de consolidação eleitoral. O passado autoritário, quando aparece, aparece como efeito secundário, não como causa primária. E a evidência empírica disponível — o caso italiano, que se examinará adiante — confirma esta inversão.

IV. A CATEGORIA FRÁGIL
DA “NOSTALGIA AUTORITÁRIA”

A terceira frente argumentativa de Santos (2026) interroga a própria operatividade do conceito de «nostalgia autoritária», categoria que o ensaio de Manucci mobiliza como variável explicativa central, mas cuja consistência fenomenológica e empírica é bem mais frágil do que a sua utilização presume.

FENOMENOLOGIA DA NOSTALGIA

 A nostalgia, no rigor do termo, é um sentimento ancorado em experiência vivida — etimologicamente, dor (álgos) do regresso (nóstos). É, originariamente, o sofrimento causado pela impossibilidade de regressar a um lar perdido — diagnóstico médico cunhado por Johannes Hofer no século XVII para descrever um sofrimento de soldados suíços longe de casa. Pode ser metaforicamente alargada à dor de um tempo perdido, mas mantém-se a exigência fenomenológica fundamental: para que haja nostalgia em sentido estrito, é necessária memória, e memória de algo concretamente experimentado. A nostalgia é, neste sentido rigoroso, intransmissível por mediação puramente discursiva — pode ser simulada, evocada, performada, mas dificilmente induzida ex nihilo num sujeito que não viveu o objecto evocado. O que se chama, em registo metafórico, «nostalgia» de um tempo que não se viveu é, a rigor, outra coisa: fantasia compensatória, idealização retrospectiva, mito de origem.

O JOVEM ELEITOR SEM MEMÓRIA DO REGIME

Santos (2026) levanta a este propósito uma objecção empírica de difícil resposta: muitos eleitores do CHEGA são jovens que não viveram o Estado Novo. Não podem, em rigor fenomenológico, ter nostalgia do que não experienciaram — a Revolução de Abril ocorreu em 1974, e o eleitor de 25 anos em 2026 nasceu cerca de meio século depois do auge do regime. O que neles funciona não é a memória dolorosa de um passado perdido, mas, quando muito, uma fantasia compensatória de um passado imaginado, projectada sobre uma insatisfação presente. Essa fantasia pode, decerto, ser construída em torno de qualquer figura — ordem, autoridade, identidade nacional, segurança —, mas o regime histórico concreto raramente é o seu referente substantivo. Para que o passado autoritário se torne objecto efectivo de nostalgia mobilizadora, seria preciso, como ironiza Santos (2026), um discurso poético com poder performativo de o tornar experiência presente — uma figura do tipo Gabriele D’Annunzio ou Filippo Tommaso Marinetti, que a direita radical portuguesa, felizmente ou não, ainda não produziu, e que, mesmo produzido, dificilmente bastaria.

OS VERDADEIROS RECURSOS POLÍTICOS 
DA DIREITA RADICAL

Onde reside, então, a força política real da direita radical contemporânea? A literatura comparativa converge para um diagnóstico bem mais empiricamente robusto. Mudde (2007) identifica três famílias de recursos articulados: o nativismo (combinação de nacionalismo e xenofobia, que estabelece uma equação simbólica entre a nação e o «povo nativo»); o autoritarismo (preferência por ordem rígida, lei e ordem, punição severa); e o populismo (oposição maniqueia entre povo virtuoso e elite corrupta). Norris e Inglehart (2019) acrescentam a este quadro a hipótese do cultural backlash: a ascensão da direita radical europeia constitui, segundo a sua análise empírica baseada em décadas de inquéritos do European Values Study e do World Values Survey, resposta de coortes culturalmente conservadoras à expansão de valores pós-materialistas (igualdade de género, direitos LGBTQ+, multiculturalismo, secularização). Levitsky e Ziblatt (2018), em registo institucional mais directo, sublinham o papel falhado dos «guardiões partidários» tradicionais que deviam ter contido as candidaturas radicais e não o fizeram, abrindo a porta a fenómenos como Donald Trump nos EUA ou aos seus análogos europeus.

Em nenhuma destas leituras comparativas a «nostalgia autoritária» aparece como variável central. Aparece, quando muito, como elemento residual ou secundário — sintoma, não causa. O que move o eleitor da direita radical não é o desejo de regressar ao passado autoritário; é a insatisfação com o presente liberal-democrático, formulada em chaves nativistas, autoritárias e populistas. Confundir o sintoma com a causa é, em diagnóstico político, quase tão grave como confundir a febre com a infecção.

V. O CONTRA-EXEMPLO ITALIANO
 “FRATELLI D’ITALIA” E A DISTANCIAÇÃO DO PASSADO

A trajectória dos Fratelli d’Italia — partido com origens neofascistas, que sob a liderança de Giorgia Meloni alcançou em 2022 a presidência do Conselho de Ministros italiano — constitui contra-exemplo decisivo da tese central do ensaio de Manucci. Como Santos (2024) demonstrou em análise sustentada, os Fratelli d’Italia operaram precisamente uma distanciação programática e discursiva do passado fascista: Meloni invocou repetidamente, em discurso público, a ideia de uma «direita democrática»; repudiou explicitamente as leis raciais de 1938; integrou-se nas instituições europeias com pragmatismo conservador; governa em coligação com forças do centro-direita e mantém alinhamento atlantista, em particular no apoio à Ucrânia.

Se a «nostalgia autoritária» fosse o recurso central da direita radical europeia contemporânea, seria de esperar que o partido com a mais directa filiação genealógica fascista a explorasse intensamente. Não o faz. Faz, na verdade, exactamente o contrário. Esta evidência empírica, longe de ser anedótica, fragiliza estruturalmente o argumento de que o passado autoritário funciona como recurso eleitoralmente decisivo. Mais persuasiva é a hipótese de Santos (2026): o que mobiliza eleitoralmente é a agenda anti-imigração — como demonstrara, em 2018-2019, o caso de Matteo Salvini enquanto ministro do Interior italiano, que duplicou os votos da Lega nas eleições europeias de 2019 ao centrar a sua acção pública neste tema —, o decisionismo autoritário e a crítica anti-sistémica. O passado fascista, quando aparece, aparece como obstáculo a gerir, não como recurso a explorar.

Recordemos, a este propósito, a célebre Historikerstreit que se desenvolveu na Alemanha em meados dos anos 1980 a propósito do nazismo, do «passado que não quer passar» na fórmula de Ernst Nolte. Mesmo na sua formulação mais polémica, a direita revisionista alemã — diga-se Nolte, Stürmer, Hillgruber — não propunha o nazismo como recurso político, propunha-se explicar a sua génese histórica por analogia com (ou efeito de) a revolução bolchevique. Eram debates historiográficos com implicações políticas, não programas eleitorais (cf. Habermas, 1987; Maier, 1988). Em Itália, como Santos (2024) examina, a operação dos Fratelli d’Italia foi ainda mais radical: o passado fascista deixou de ser sequer matéria de revisionismo activo para se tornar lastro biográfico a contornar. Não é, em rigor, mobilizador.

VI. DEMOCRACIA LIBERAL, SOCIEDADE ABERTA 
 E O PARADOXO DA TOLERÂNCIA 

O que está em causa, no fundo da controvérsia, é uma questão constitucional do espaço público democrático. Pode a democracia liberal proteger-se das suas margens disruptivas através de mecanismos de contracção informativa? E, mais especificamente, devem os media adoptar uma postura militante de «não-normalização» perante actores políticos considerados ameaçadores? A resposta a esta dupla pergunta exige a mobilização da grande tradição do pensamento demoliberal, de Popper a Bobbio.

POPPER E OS LIMITES LÓGICOS 
DA TOLERÂNCIA

Karl Popper (1945/2013), na nota 4 do capítulo 7 do primeiro volume de The Open Society and Its Enemies, formulou o célebre paradoxo da tolerância: uma sociedade ilimitadamente tolerante, incluindo em relação aos intolerantes, acabará destruída pela intolerância. A tolerância exige, para se preservar, uma forma de auto-defesa contra os seus inimigos. Este argumento tem sido, por vezes, mobilizado como justificação para restrições preventivas a actores políticos considerados ameaçadores.

A leitura cuidadosa de Popper, contudo, mostra que a sua formulação é bem mais cautelosa do que a sua mobilização contemporânea sugere. Popper sustenta que devemos reclamar o direito de suprimir os intolerantes apenas quando a sua argumentação se tornar incapaz de ser respondida em termos racionais e quando recorrerem à força ou ao apelo à força para impor as suas posições. Enquanto a competição se mantiver no plano discursivo — e enquanto os actores aceitarem as regras procedimentais da democracia constitucional —, a resposta deve ser também discursiva: o argumento contra o argumento, a ideia contra a ideia, a política melhor contra a política pior. Popper não propõe um direito de veto preventivo contra ideias detestáveis; propõe um direito de defesa quando a violência substitui o argumento. O ponto é fundamental e frequentemente esquecido: o paradoxo da tolerância é, em Popper, uma teoria do limite, não uma autorização do cancelamento.

BOBBIO - LIBERALISMO, DEMOCRACIA 
E A REGRA DO JOGO

Norberto Bobbio elaborou, em sucessivos volumes, uma das mais lúcidas teorias contemporâneas da democracia liberal. Em Il futuro della democrazia (Bobbio, 1984), define a democracia como o conjunto mínimo de regras que permitem a tomada de decisões colectivas com a máxima participação possível dos interessados — regras procedimentais que se aplicam universalmente, sem exclusões prévias por critério de aceitabilidade ideológica do conteúdo. Em Liberalismo e democrazia (Bobbio, 1988), distingue, com a clareza analítica que lhe é própria, as duas tradições que compõem o regime contemporâneo: o liberalismo, que limita o poder; a democracia, que o distribui. A democracia liberal vive da composição dialéctica de ambas, e degenera quando uma se ergue contra a outra.

Em Destra e sinistra (Bobbio, 1994), Bobbio sustenta que a distinção fundamental entre direita e esquerda se ancora na atitude perante a igualdade — a esquerda valoriza-a, a direita matiza-a com o mérito ou a tradição. Mas esta distinção, para Bobbio, opera dentro do quadro da democracia constitucional; é um critério ideológico-substantivo que não pode ser confundido com o critério procedimental-formal da legitimidade democrática. Uma direita que aceita as regras é democrática, ainda que a esquerda discorde do seu programa; uma esquerda que viola as regras não se torna democrática só pela bondade declarada do seu programa.

A consequência é cristalina: o critério de pertença ao espaço democrático é o respeito pelas regras do jogo, não a coincidência substantiva com o programa do adversário. Esta é precisamente a posição que Santos (2026) defende contra a deriva implícita no ensaio de Manucci. E é, ainda, a posição que coincide com o pensamento maior de Robert Dahl (1971/2005) sobre a poliarquia: a democracia define-se pela inclusão e pela contestação, sendo a inclusão dos contestadores — e não a sua exclusão — o critério mais robusto da sua saúde.

SCHMITT COMO ADVERTÊNCIA 
O ADVERSÁRIO TRANSFORMADO EM INIMIGO

Carl Schmitt (1932/1996), em Der Begriff des Politischen, formulou a tese de que o critério do político é a distinção amigo-inimigo. Esta é uma tese descritiva — não normativa — sobre a natureza última da política, mas a sua formulação tem ressonâncias normativas inquietantes que a tradição democrática contemporânea, de Bobbio a Habermas, tem insistido em domesticar. O sucesso da democracia consiste precisamente em substituir o inimigo (a ser destruído) pelo adversário (a ser derrotado nas urnas). Quando esta domesticação falha — quando o adversário é redescrito como inimigo —, a democracia regride para a guerra civil latente, e a sua forma constitucional torna-se um campo de batalha em vez de um espaço de competição.

Santos (2026) recorre explicitamente a esta memória schmittiana para denunciar a deriva de parte da esquerda portuguesa: ao tratar o CHEGA como inimigo existencial e não como adversário político, alimenta-se exactamente a polarização que se diz combater, fornecendo-lhe a centralidade de que precisa para crescer.

É, afinal, uma das ironias mais cruéis da política contemporânea — e Mounk (2018) tem-no documentado em vários sistemas: o anti-populismo torna-se, frequentemente, o mais eficaz recurso retórico do populismo. A figura do «antagonista total» é uma necessidade discursiva do líder populista, e quem a fornece presta-lhe um serviço involuntário mas decisivo.

HABERMAS E A DELIBERAÇÃO RACIONAL

Jürgen Habermas (1962/1989), em A Mudança Estrutural da Esfera Pública, e em obras posteriores sobre a teoria da acção comunicativa (Habermas, 1981/1984), defendeu o ideal regulador de uma esfera pública racional — espaço de deliberação livre de coerção em que apenas vale a força do melhor argumento. A degradação contemporânea da esfera pública pelo audiovisual, pelo tabloidismo e pelas redes sociais é, para Habermas, motivo de séria preocupação que o autor retomou em obras tardias sobre a sociedade pós-secular e sobre a fragmentação algorítmica da opinião pública (Habermas, 2022). Mas a resposta habermasiana não é a censura: é o reforço institucional dos mecanismos de deliberação racional. O programa é exigente — talvez excessivamente exigente —, mas a sua direcção é inequívoca: mais argumentação, não menos exposição; mais diversidade controlada, não menos pluralismo.

VII. PLURALISMO INFORMATIVO 
E ÉTICA JORNALÍSTICA

A consequência prática destes pressupostos teóricos é a defesa de um regime de pluralismo informativo robusto, ético e plural — exactamente aquilo que a Resolução 1003 do Conselho da Europa (Conselho da Europa, 1993) consagrou como standard normativo continental e que Santos (2026) invoca explicitamente como bússola.

A RESOLUÇÃO 1003 
DO CONSELHO DA EUROPA

A Resolução 1003, aprovada por unanimidade pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa em 1993, fixa princípios fundamentais da ética jornalística que importa recordar com precisão. Distinguem-se em particular: a separação clara entre informação e opinião; o respeito pela presunção de inocência e pela vida privada; a obrigação de rectificação dos erros; a recusa de subordinação a interesses comerciais ou ideológicos; e — crucial neste contexto — a recusa expressa de uma deriva militante que transforme o jornalista em activista (Conselho da Europa, 1993, §§ 16, 18, 19, 20). O jornalismo é, na economia democrática constitucional, um quarto poder funcionalmente subordinado ao bem público da informação, não um contra-poder substantivamente comprometido com uma das partes em confronto.

O PERIGO DO «ADVOCACY JOURNALISM»

Santos (2026) identifica com precisão o que está em causa: a deriva implícita no ensaio de Manucci aponta na direcção de um advocacy journalism que se atribui o dever moral de não normalizar determinadas forças políticas — ou seja, de não as tratar com o mesmo enquadramento informativo que reserva às demais. Esta posição, plausível à primeira vista, é problemática a três níveis articulados.

No plano epistemológico, pressupõe que o jornalista detém um critério estável e consensual para decidir quais forças «merecem» tratamento normalizado e quais não. Mas tal critério não existe; resulta sempre de uma decisão prévia de natureza política, contestável e contestada. Adoptá-lo significa fazer da redacção noticiosa um pequeno tribunal ideológico, com a particularidade de que esse tribunal não tem nem a legitimidade democrática nem a transparência procedimental dos verdadeiros tribunais.

No plano político, confere ao actor jornalístico um poder de exclusão prévia que a Constituição democrática reserva, em última instância, ao eleitor. É o eleitor — não o repórter — quem decide a relevância política de uma força. Substituir um pelo outro é trair a regra democrática mais fundamental, aquela mesma sobre que Bobbio (1984) insistiu como regra procedimental nuclear.

No plano pragmático, finalmente, como Santos (2026) demonstra com argumentos empíricos sólidos, a estratégia de cancelamento informativo tende a produzir o efeito contrário ao desejado. O actor cancelado torna-se mártir; o seu discurso, submetido a tratamento punitivo, ganha o fascínio do interdito; o seu eleitorado, ofendido pela exclusão, consolida-se em torno do líder. A história europeia recente é rica em exemplos desta dinâmica perversa, da França à Itália, da Áustria à Hungria.

A resposta democrática às forças disruptivas não é, portanto, o cancelamento — é a competição argumentativa em pé de igualdade. Como Santos (2026) sintetiza com eloquência: a melhor defesa é o ataque com boas políticas e melhores valores. É a velha lição de Stuart Mill (1859/2006), em On Liberty: mesmo a ideia mais detestável merece ser ouvida, não por respeito à ideia, mas por respeito à comunidade racional dos cidadãos que dela carecem para se autocompreender. Silenciá-la é privar a comunidade do exercício da sua própria razão.

VIII. NOTAS DE TENSÃO DIALÓGICA

A síntese crítica da tese de Santos (2026) não dispensa, contudo, o reconhecimento dialógico de pontos onde o ensaio de Manucci capta intuições válidas, ainda que em formulação imprópria ou desproporcionada.

ONDE MANUCCI TEM ALGUMA RAZÃO 
O EFEITO DE ENQUADRAMENTO EXISTE

Não é teoricamente sustentável afirmar, em absoluto, que os media não exercem qualquer efeito de enquadramento sobre a representação social do passado. Entman (1993) demonstrou, no seu paradigma fundador do framing, que existem efeitos cognitivos e avaliativos do modo como um tema é enquadrado, e estudos posteriores (Scheufele, 1999; de Vreese, 2005) confirmaram a robustez do efeito em condições controladas. Há, portanto, no ensaio de Manucci, uma intuição teoricamente defensável: a de que os media não são meros espelhos passivos da realidade política.

ONDE SANTOS RESISTE COM SOLIDEZ 
O EFEITO É MENOR DO QUE SE POSTULA

A objecção empírica de Santos (2026) é, neste sentido, decisiva. Um jornal com circulação paga média de cerca de 913 exemplares impressos diários e 761 exemplares digitais — como o Diário de Notícias em 2025, segundo dados da APCT — não pode, em rigor sociológico, ser o operador determinante da formação da percepção pública do passado autoritário. Os números não autorizam essa pretensão. E o que vale para o DN vale, com matizes, para os demais jornais escritos. O ecossistema mediático português é hoje dominado pela televisão (sobretudo CMTV, TVI24, SIC Notícias e RTP3) e pelas redes sociais (Facebook, WhatsApp, TikTok, Instagram). É aí que se forma — se é que se forma em algum lugar — a representação social do passado.

 O VERDADEIRO FOCO PERDIDO 
TELEVISÃO E REDES SOCIAIS

Esta observação, que Santos (2026) formula como remate, merece sublinhado: o ensaio de Manucci, ao centrar-se nos jornais escritos, ausculta um paciente periférico ao mesmo tempo que negligencia o sistema circulatório principal.

O lugar onde a «agenda» se forma e se consolida — a televisão e as redes sociais — fica fora do estudo, e com ele fica fora a hipótese realmente robusta de explicar a centralidade mediática de Ventura. Sartori (1997/2000) e, em literatura mais recente, Sunstein (2017) e Zuboff (2019), oferecem ferramentas teóricas para essa investigação que está por fazer. Sunstein, em particular, mostra como as bolhas algorítmicas das redes sociais produzem fragmentação e radicalização da opinião pública por mecanismos que escapam por completo à lógica clássica do agenda-setting jornalístico. E Zuboff documenta a dimensão económico-extractiva desta nova ecologia comunicacional. Sem este enquadramento — sem televisão e sem redes —, a influência da imprensa escrita em 2026 mede-se em ondas residuais.

IX. CONCLUSÃO
SETE PROPOSIÇÕES PARA UM ARGUMENTÁRIO

A síntese argumentativa que se pode extrair do diálogo entre o ensaio de Manucci e a réplica de Santos (2026) pode ser articulada em sete proposições centrais.

Primeira. Os media exercem efeitos eleitorais reais, mas estes efeitos são predominantemente de agenda-setting e não de moldagem cognitiva profunda do passado. Os media polarizam atenção; raramente moldam opinião nuclear. A tradição que vai de Cohen (1963) a McCombs (2004) é robusta neste ponto.

Segunda. A sobre-exposição mediática de André Ventura resulta menos de uma militância pró-CHEGA dos media do que da conjugação entre o seu próprio discurso disruptivo, a obsessão adversarial de parte da esquerda e a lógica tabloide do audiovisual. Os media são, neste processo, instrumento — não causa primeira.

Terceira. A categoria de «nostalgia autoritária» é fenomenologicamente frágil quando aplicada a coortes que não viveram o regime histórico evocado. Funciona, no melhor dos casos, como fantasia compensatória — não como memória mobilizadora.

Quarta. O caso italiano dos Fratelli d’Italia, ao distanciar-se programaticamente do passado fascista (Santos, 2024), constitui contra-exemplo empírico decisivo da tese do «passado como recurso central» da direita radical europeia.

Quinta. Os recursos políticos efectivamente mobilizadores da direita radical europeia contemporânea são, segundo a literatura comparativa robusta (Mudde, 2007; Norris & Inglehart, 2019), o nativismo anti-imigração, o autoritarismo decisionista e a crítica populista anti-sistémica — não a nostalgia restauradora.

Sexta. A defesa da democracia liberal contra forças disruptivas não pode passar pelo cancelamento informativo, sob pena de regressão à lógica schmittiana amigo-inimigo. A tradição que vai de Popper (1945/2013) a Bobbio (1984, 1988, 1994), passando por Mill (1859/2006), Habermas (1962/1989) e Dahl (1971/2005), sustenta, pelo contrário, a exigência de competição argumentativa em condições de igualdade procedimental.

Sétima. A ética jornalística vinculante, codificada na Resolução 1003 do Conselho da Europa (1993), exige o pluralismo informativo, não a militância selectiva. A deriva do advocacy journalism é, paradoxalmente, uma das ameaças contemporâneas mais sérias à própria sociedade aberta que pretende defender.

Resta, em última instância, uma pergunta de ordem civilizacional: que democracia queremos? Aquela que se defende pela contracção do espaço de visibilidade dos seus dissidentes, ou aquela que se defende pela qualidade dos seus argumentos, pela coerência dos seus valores e pela capacidade de produzir bens públicos que dispensem o eleitor da tentação da fuga? A resposta, para quem se reclama da tradição demoliberal de Popper, Bobbio, Habermas, Dahl e Sartori, não pode ser ambígua. Como Santos (2026) finaliza, e bem: a melhor defesa é o ataque — entendido aqui como produção activa de boas políticas e melhores valores. O resto é inquietação travestida de virtude.

REFERÊNCIAS

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SOBRE O AUTOR
- PROFESSOR UNIVERSITÁRIO, ENSAÍSTA,
INVESTIGADOR UEMG/ BOARD DIRECTOR’S REVIEW USAK/
INVESTIGADOR EXTERNO USC

 

Poesia-Pintura

PALAVRAS

Poema de João de Almeida Santos
Ilustração: “Perfil de um Poeta”
JAS 2026
Original de minha autoria
Maio de 2026

"Perfil de um Poeta" - JAS 2026

POEMA – “PALAVRAS”

QUERIA FAZER-TE
Um poema
(Diz o poeta
À musa),
Sentir-te nele
E dizer-te
A verdade,
Mas as palavras
Fugiram,
Numa revolta
Sofrida,
Com sabor
A crueldade.

EU ESTAVA
A mentir
Sem cuidar
Da veleidade
De as usar
Como queria
Só porque
Tinha saudade.

ESGUEIRARAM
Rua fora,
Cada uma
Por seu lado,
Fugas
Para bem longe
Do meu poema
Tentado.

ALGUMAS 
Eu bem as via
Esvoaçar
Ao fundo
Daquela rua
Num ponto
Do infinito
Nesta minha
Alma nua.

OUTRAS JÁ VOAVAM
No fio
Do horizonte
Ou ficavam
Aninhadas
No passeio...
.............
E eu a tentar
O versejo
Capturado
No enleio
Dessa pulsão
Do desejo.

PALAVRAS
Em fuga
Sem critério
E sem norma,
Letras
Perdendo forma
Como fios
De um novelo
Já desfeito
De sentido
Como a água
Do gelo.

ERAM FIOS
Emaranhados,
Eram letras
Deslaçadas
Procurando
Outras formas
Para além da minha
Rima,
Eram riscos
Em outra tela
A subir
Por ela acima.

QUERIA FAZER-TE
Um poema
Com palavras
Desenhadas,
Mas elas fugiam
Pra longe,
A correr
E assustadas,
Não fosse mesmo
Ser verdade
Que as queria
Alinhadas
Nesse íntimo
Recanto
Onde resistia
À saudade.

ELAS GOSTAM
De cantar
A minha tristeza,
A dor,
E gostam muito
De falar
Da minha forte
Emoção,
Mas se me vêem
Feliz
Fogem pra longe
De mim,
Dizem-me
Logo que não.

O POEMA
Passarinho
Procura-me
Para cantar
Mas se eu
Não sentir dor
É ele que foge
A voar...

E HOJE
Foi mesmo assim,
Fugiram-me
As minhas palavras,
Já não se cumpre
O destino,
Eu não consigo
Compô-las
Num poema
Genuíno.

NÃO SABEM
Da minha dor
E por isso
Foram embora
Estou sem palavras,
Amor,
Estou muito triste,
Agora.

MAS NEM ASSIM
Elas voltam
Pra me porem
A cantar,
Sem elas
Vou sucumbir
Às saudades
Do teu mar.

Artigo

 

A NORMALIZAÇÃO DA DIREITA RADICAL

A propósito de um Ensaio 
de Luca Manucci

João de Almeida Santos

“S/Título” – JAS 2026

A PROPÓSITO DA DIREITA RADICAL em Portugal e em Espanha, li com muita atenção e interesse (o tema merece), no Expresso “Ideias”, de 24.04.2026, um ensaio de Luca Manucci, investigador do ICS, sobre “O passado como promessa: quando os media normalizam a direita radical”. O estudo analisa seis jornais (Público, Diário de Notícias Correio da Manhã e El País, El Mundo e ABC). E conclui dizendo que “parte do efeito dos media não se exerce de forma directa sobre as preferências eleitorais, mas através da forma como contribuem para moldar a percepção do passado – e, com ela, a disposição para apoiar estes partidos” (itálico meu) da direita radical (em Portugal, o CHEGA e, em Espanha, o VOX). Registo: “moldar a percepção do passado”. E ainda: “a nostalgia autoritária está fortemente associada ao apoio à direita radical”, funcionando como um “recurso político eficaz, reforçando o seu apoio eleitoral e ampliando a sua base social”.

1.

Poderia começar esta minha reflexão perguntando se foram os media que, moldando “a percepção do passado” e dando expressão à chamada “nostalgia autoritária”, contribuíram para reforçar o apoio eleitoral e para normalizar a direita radical ou se foram os eleitores, cansados de promessas não cumpridas, seduzidos pelo discurso de André Ventura e desejosos de dar um abanão ao sistema, quem a projectou eleitoralmente, através do voto. Mas também é legítima a pergunta: o que vem primeiro, a galinha ou o ovo? A galinha põe o ovo, mas ela nasce de um ovo. Neste caso, há uma relação deste tipo? Não, porque o fenómeno é mais complexo. Por isso não respondo já, mas tomo nota da ideia de que os media (os analisados foram três jornais, em cada país) moldam a percepção do passado e reforçam com isso o apoio eleitoral aos partidos da direita radical. Sendo certo que os media, mas sobretudo a televisão, produzem fortes efeitos eleitorais (disso não tenho dúvidas), a questão é, todavia, complexa, pelo menos a de saber como está configurada e se processa essa influência. O debate sobre isto é muito antigo e eu próprio me debrucei detalhada e longamente sobre ele no meu livro Media e Poder – O poder mediático e a erosão da democracia representativa (Lisboa, Vega, 2012), ficando logo clara no título a conclusão a que chego.

2.

Tratando-se de matéria já muito estudada, achei um pouco estranho que neste ensaio não houvesse qualquer referência precisamente às teorias sobre os efeitos dos media, que existem pelo menos desde os anos ’40 do século passado, com Lazarsfeld e Elihu Katz e a teoria do two-step flow of communication ou até mesmo desde a obra seminal de Gabriel Tarde, nos finais do século XIX, com “As Leis da Imitação” e, um pouco mais tarde, com “L’Opinion et la Foule” (1901); aos estereótipos de que falava Walter Lippmann nos anos vinte do século passado;  ou à teoria da tematização, de Niklas Luhmann, convergente com a teoria do agenda-setting. E por aí em diante (veja Santos, 2012: 241-256). Também estranhei que não tenha sido tomada em consideração (é feita uma referência ocasional) a influência que verdadeiramente conta, ou seja, a da televisão e a das redes sociais, mesmo que o alinhamento das televisões retome, em parte, o agendamento da imprensa escrita (e daqui resulte alguma infuência). Mas, sobretudo, o que me parece de difícil compreensão é que não tenha sido considerado aquele que eu considero ser o factor verdadeiramente relevante: o efeito (perverso) de propulsão da  polarização da atenção sobre os partidos da direita radical – em Portugal, o CHEGA – provocado pela obsessão da esquerda de pôr, negativa e permanentemente, na agenda pública este partido como se se tratasse de uma ameaça fatal à democracia; partido este, sim, promotor de uma revisitação positiva do passado e noticiada, depois, pelos media, tendo sido até objecto de debate televisivo entre Pacheco Pereira e André Ventura, que, ele sim, conhece muito bem a vantagem que, em qualquer caso, resulta da sua exposição televisiva. O trajecto percorrido por Ventura, que começou com o seu discurso sobre os ciganos, e centrado num discurso permanentemente disruptivo tem resultado como aglutinador quer do discurso crítico de toda a esquerda (mas em parte também do centro-direita – o célebre “não, é não” de Montenegro), colocando-o no centro da atenção social, quer do tabloidismo exacerbado dos media (em particular da televisão), sempre atraídos pelo negativo e pelos comportamentos disruptivos (veja o artigo sobre “Por que razão André Ventura é tão disruptivo” – https://joaodealmeidasantos.com/2023/05/02/artigo-100/; e o meu “El Discurso Populista” – https://revistas.ucm.es/index.php/HICS/article/view/92237).  Só mais tarde, e com o CHEGA já com uma consistente dimensão parlamentar, o antigo regime viria a ser mais directamente objecto de particular atenção, mas, na minha opinião, sim, como recurso discursivo disruptivo polarizador de atenção por parte de André Ventura e não como idiossincrasia mediática moldadora de uma determinada visão do passado autoritário. Não me parece que seja possível imputar ao jornalismo português uma qualquer simpatia militante pelo antigo regime. Bem pelo contrário. Direi mesmo que ele não “molda”, mas que, isso sim, agenda em virtude dessa atração fatal pelo negativo e pelos discursos disruptivos. Sobretudo a televisão e, no plano da imprensa, o “Correio da Manhã” (que, todavia, nunca vi particularmente activo nesta matéria). Não cabe aqui entrar no mundo das redes sociais, que existe e cada vez mais com uma forte influência.

3.

Lembro o que diz a teoria dos efeitos “agenda-setting” (de McCombs e Shaw): o que importa não é o tanto conteúdo, mas a polarização da atenção social sobre o tema e o seu efeito de arrastamento para o topo da agenda pública. Vejamos o que disse, em 1963, o precursor desta teoria, Bernard Cohen: a imprensa “pode na maior parte dos casos não ser capaz de sugerir às pessoas o que pensar, mas ela tem um poder surpreendente de sugerir aos leitores sobre o que pensar”. “Sobre o que pensar”: ou seja, o poder de agendar, de pôr na agenda um tema, concentrando a atenção nele (Santos, 2012: 246-248). Mesmo assim, parece-me legítimo perguntar: quem lê hoje o “Diário de Notícias”, um dos três jornais estudados para Portugal? Segundo a APCT, a circulação média paga e impressa deste jornal, em 2025, foi de cerca de 913 jornais e a circulação digital foi, no mesmo ano, de cerca de 761. Que conclusões se pode tirar de uma irrelevância como esta? Não creio, por isso, que a causa causans que se procurava tenha sido claramente detectada neste estudo. Na minha opinião não foi mesmo. E não só pela relativa irrelevância sociológica do objecto de estudo – os três jornais (mas refiro-me sobretudo a Portugal). Mas vejamos melhor o assunto.

4.

Diz-se que os media não foram apenas o espaço onde a direita radical ganhou visibilidade, mas que foram também um dos mecanismos através dos quais essa visibilidade se traduziu em normalização política, moldando a percepção do passado. Claro, não é inócua a narrativa mediática, mas ela própria tem uma génese, uma causa, uma motivação. O que leva os media a agendar um determinado assunto? O que os leva a publicar isto e não aquilo? Nem vale a pena invocar o código ético para explicar a mecânica informativa porque eles não o cumprem (demonstrei isto no meu livro Media e Poder, Lisboa, Vega, 2012).

Também se diz que a chamada “nostalgia autoritária” está fortemente associada ao apoio à direita radical, sendo significativamente mais elevada entre eleitores do VOX e do CHEGA do que entre quaisquer outros grupos políticos do arco parlamentar. Claro, compreende-se e é natural. Mais ainda: longe de penalizar eleitoralmente estes partidos — como durante muito tempo foi assumido —, a ligação ao passado autoritário pode, pelo contrário, funcionar como um recurso político eficaz, reforçando o seu apoio eleitoral e ampliando a sua base social. Mas o que me parece é que a dimensão eleitoral deste recurso fica por provar em três planos: a) que os media (escritos) moldem a percepção; b) que esta percepção se traduza em voto; c) e que esta tradução tenha um valor eleitoral significativo. Pode-se perguntar, mas eu não tenho dúvidas sobre isso, se os cerca de 33% de votos em André Ventura nas presidenciais se deve mais à sua figura e à sua performance discursiva ou à “nostalgia autoritária” de que ele seja o representante. Depois, é minha convicção de que os media portugueses não alinham generalizadamente nesta valorização ou normalização do passado. Este passado não será, bem pelo contrário, valorizado por associação a um discurso sedutor, eficaz e performativo de André Ventura ou a direita radical vale sobretudo porque ela é intérprete da “nostalgia autoritária”? Entre uma coisa e a outra não haverá outros e poderosos factores? A figura carismática do líder e o seu discurso mobilizador (que não se centra na “nostalgia autoritária”), a saturação relativa ao sistema, a crise do custo de vida? Os media, afinal, favorecem a “nostalgia autoritária”? Tendencialmente e do ponto de vista do conteúdo é uma certeza que não. A favorecerem será por a colocarem na agenda, mais ou menos frequentemente, pelas mais variadas razões, mas sobretudo pela atracção fatal do negativo tablóide e pelo dever de pôr na agenda o combate frontal e radical da esquerda contra esta ameaça fatal à democracia. Também porque ela sabe a sangue quente.

A  integração de um líder carismático como André Ventura no ecossistema mediático ilustra bem esta normalização. A sua presença em programas de grande audiência, debates políticos e espaços de comentário tornou-se, bem cedo, regular, quase previsível. Mas mais importante do que a presença em si é o enquadramento dessa presença? Não, não é. A lógica mediática contemporânea privilegia frequentemente a espetacularização, a polarização e a frase impactante, o seu poder de polarização da atenção – é o seu discurso disruptivo que interessa. Neste contexto, discursos que antes seriam marginalizados, agora, precisamente por serem controversos e por serem de sujeitos com dimensão significativa política, geram interação. Eles são agendados porque atraem audiência, na lógica do negativismo tablóide, mas também porque atingiram uma representatividade de relevo, com todas as consequências que isso tem para efeitos de comunicação.

E diz-se ainda que os media, não sendo os únicos agentes deste processo, eles são dos mais influentes, precisamente porque operam ao nível da construção de significado. Que a ideia de que os media são apenas espelhos da realidade política é intuitiva, mas incompleta. Que os media não se limitam a reflectir — também moldam. Selecionam temas, definem enquadramentos, estabelecem prioridades. E que o que está em causa não é apenas o sucesso eleitoral de determinados partidos – é a transformação do espaço democrático. E acrescenta-se ainda que quando o passado autoritário deixa de funcionar como limite, passa a estar disponível como argumento. E que quando isso acontece, o campo do possível expande-se: num contexto em que o passado é cada vez mais mobilizado como instrumento político, a forma como esse passado é representado torna-se decisiva porque quando o passado deixa de ser um limite, passa a ser um argumento — e isso transforma profundamente o que uma democracia está disposta a aceitar.

Diz-se tudo isto. Mas não creio que seja exactamente assim – a mobilização do passado como recurso político não é o essencial na acção da direita radical. Por exemplo, central é, sim, e em toda a Europa, a agenda anti-imigração, como recurso político. É só ver o que aconteceu em Itália quando Salvini foi ministro do interior – esra era o discurso que o mobilizava e nas europeias de 2019 duplicou os votos atingindo cerca de 34%. Os media condicionam certamente a agenda pública, isto é, põem no espaço público democrático determinados temas, incluído o tema do passado autoritário, mas quando esse temas são suscitados por algum factor relevante. Mas duvido mesmo que ele seja assumido como “recurso político” e argumento pela direita radical. Não creio mesmo. Lembro os termos em que ocorreu a famosa “Historikerstreit” que aconteceu na Alemanha a propósito do nazismo, do “passado que não quer passar” (a direita procurava explicar, por analogia ou mesmo por causa-efeito relativamente `revolução russa, mas não a propunha como recurso político), mas lembro sobretudo que em Itália o passado fascista já nem sequer é utilizado como argumento ou “recurso político” pelos Fratelli d’Italia, de origem neofascista. Bem pelo contrário, como muito bem saberá Luca Manucci (sobre isto veja o meu “Política e Ideologia na Era do Algoritmo”, onde analiso a evolução dos FdI e a sua distanciação em relação a esse passado – Santos 2024: pp. 101-118).

5.

Os media noticiam, de facto, o que acontece, e, claro, dão visibilidade, seleccionam e comentam. Mas não é a sua narrativa propriamente dita que conta, e sim o poder de agendamento e de polarização da atenção sobre determinados temas e determinados personagens. Que a presença dos actores aumente no espaço mediático à medida que ganham representação política é natural. Mas a sua presença aumenta também quando o seu discurso é altamente disruptivo, crítico do status (e não precisa de ser em nome do passado) e dominado pelo negativo. E um negativo que, neste caso, é, quando estão na oposição, sobre a chamada “podridão” do regime ou do sistema, tal como está configurado. É aí que os media os levam à agenda vista a tendência dominante para a adopção do negativo, o tabloidismo, como orientação que capta audiências. Mas também quando o discurso da direita radical é considerado uma ameaça para a democracia levando as forças de esquerda a tocar a rebate em defesa do território democrático ameaçado. Então, a visibilidade aumenta e, naturalmente, os media dão-lhe um grande espaço noticioso e de comentário. Agora já não é só o discurso disruptivo, é também a polarização provocada por ter sido transformada em inimiga mortal do regime, quase como se fosse força invasora do território democrático nacional. Uma lógica de guerra, de amigo-inimigo, de schmittiana memória. Por outro lado, e como disse, a teoria do “agenda-setting” não valoriza tanto, como o autor parece fazer, os efeitos dos conteúdos cognitivos sobre a cidadania, porque o que mais conta é a polarização da atenção social sobre um determinado tema, ou pessoa, e a sua regular presença no topo da agenda.  Veja-se o caso de André Ventura, não do “CHEGA”, mas sobretudo dele, enquanto líder carismático sobre o qual se centram todas as atenções.

6.

“Nostalgia autoritária”? O que é isso? É um recurso político? Que categoria política é esta?Saudades da ditadura? Os muito jovens que votam CHEGA (e são muitos, apesar da última sondagem da Aximage) têm “nostalgia autoritária” da velha ordem, por indução, visto que não a experienciaram directamente? Basta seguir o percurso de André Ventura para compreender como acontece a normalização. Mas nem ele a terá porque não a viveu. A nostalgia é um sentimento e esta resulta da experiência vivida. Talvez um discurso poético tenha poder perfomativo para a tornar activa como experiência. Mas até agora ainda não surgiram, que eu saiba, Gabriele d’Annunzio ou Marinetti portugueses disponíveis para esta nossa direita radical.

7.

Depois de ter ido o ensaio fiquei com uma legítima dúvida: os media, para não induzirem “nostalgia autoritária”, fazendo dele um recurso eficaz, não deviam noticiar, ouvir, entrevistar, falar do antigo regime ou sequer da direita radical? O que o ensaio parece indiciar é um dever de comportamento censório dos media em relação ao passado autoritário e às forças que o representam, de modo a não as normalizar. O que estas forças representam nada significa, a não ser ameaça? Um milhão e setecentos mil votos não devem ser tomados em consideração e noticiados pelo que eles representam e significam? Os media devem ser militantes, fazer “jornalismo advocacy”? Onde fica o seu “código ético”? Devem comportar-se como “contrapoderes”, contrariando a lúcida Recomendação 1003, aprovada por unanimidade, do Conselho da Europa sobre Ética do Jornalismo (de 1993)? O que a democracia deve conter é somente o discurso do centro-esquerda e do centro-direita, cancelando informativamente os extremos, seja à esquerda seja à direita, para que não haja normalização e a democracia não passe a estar mortalmente ameaçada? Na verdade, (e a usarmos este conceito) não há somente “nostalgia autoritária” à direita (radical), também há à esquerda, onde houve e há regimes fortemente autoritários. Mas, a ser assim, estaríamos ainda em democracia representativa? Ou a política acabaria por ficar confinada simplesmente a uma lógica de resistência, onde o adversário se tornaria inimigo? A resposta democrática nunca se poderá traduzir em cancelamento, mas em promoção de boas políticas e de bons argumentos que levem a cidadania a escolher com a razão e não com a emoção, o consenso e não a força, o compromisso e não o conflito, a liberdade e não o cancelamento do adversário. A melhor defesa é o ataque com boas políticas e melhores valores. Isto, sim, ainda que não me pareça que os media escritos, na era do triunfo do audiovisual, da televisão e das redes sociais, tenham o poder de moldar consciências em relação a um passado que tinha mais afinidades com a Idade Média (e veja-se a influência da Action Française e de Maurras sobre Salazar) do que com a modernidade que foi inaugurada com o liberalismo e com o iluminismo. E não creio que a direita radical mobilize, no essencial, a “nostalgia autoritária” na sua acção política. Mobiliza, sim, outros recursos, como por exemplo, a imigração ou o decisionismo e, quando em oposição, a crítica radical ao sistema, considerado corrupto. A evolução do Fratelli d’Italia é, a este respeito, muito elucidativa.

NOTA.

Será que ao fazer e publicar, como ilustração, o Perfil de André Ventura também eu estou a normalizar a direita radical? Ou até que o próprio ensaio de Luca Manucci, ao pô-la na agenda mediática, num importante semanário português, se transforme, inadvertidamente, em normalizador desta direita? JAS@05-2026

 

 

 

 

 

Poesia-Pintura

“DANÇA DA SOLIDÃO” – ENTRE O OCASO E O ECO

Decadentismo, Impressionismo Literário
e Ressonâncias Filosóficas
no Poema “Dança da Solidão”,
de João de Almeida Santos

André Moshe Veríssimo

“O ECO” – JAS 2026

ABSTRACT

O PRESENTE ENSAIO propõe uma leitura erudita e ensaística do poema “Dança da Solidão”, de João de Almeida Santos, situando-o nas correntes estéticas do Fim-de- Século – Decadentismo e Impressionismo Literário como eixos dominantes – e rastreando, em plano subtextual, a inflexão filosófica schopenhaueriana e nietzschiana que perpassa a figuração do artista, da musa e do engano poético. A análise mobiliza, ainda, a título de ressonâncias estilísticas marginais, referências ao Dadaísmo, ao Neoconcretismo e a certas tonalidades psicadélicas, concluindo que estas não constituem filiações formais reconhecíveis, mas antes afinidades de superfície. O método adoptado é o da close reading de tradição anglo-saxónica, articulada com a hermenêutica literária continental, privilegiando a imanência do texto como horizonte primário de inteligibilidade.

Palavras-chave – Decadentismo, Impressionismo Literário, Schopenhauer, Nietzsche, Poesia Portuguesa Contemporânea, Estética do Inútil, Solidão Criadora.

“DANÇA DA SOLIDÃO”- ENTRE O OCASO E O ECO

  1. INTRODUÇÃO - A POESIA 
    COMO PROBLEMA E COMO CONFISSÃO

O poema “Dança da Solidão”, de João de Almeida Santos, abre com uma interrogação que é, ao mesmo tempo, retórica, existencial e metapoética: “Para que serve / A poesia / Se não a sentes / Por dentro?”. Este questionamento inaugural não é inocente. Inscrevendo-se numa longa tradição que vai de Verlaine ao Pessoa de Mensagem, passando pelo Sá-Carneiro de Dispersão, o poema institui imediatamente o sujeito lírico como um artista em crise — não a crise da inspiração, mas a crise da adequação entre sensibilidade e forma, entre a musa interior e a sua manifestação pública.

A figura do poeta-pintor do ocaso — expressão que funde artes, temporalidade e melancolia — convoca, desde logo, o universo semântico do Fim-de-Século, com a sua estetização da decadência, a sua celebração do inútil e a sua dilaceração entre idealismo e niilismo. Mas o poema não se esgota nessa filiação epocal. Há nele uma fenomenologia do estado de alma que remete para o Impressionismo Literário e para a tradição filosófica que elege a arte como o único espaço de suspensão da vontade — de Schopenhauer — ou de afirmação criadora da ilusão — de Nietzsche. É este triplo horizonte — estético, formal e filosófico — que o presente ensaio se propõe explorar.

  1. O CLIMA FIN-DE-SIÈCLE:
    ESTÉTICA DO DESPERDÍCIO E
    CELEBRAÇÃO DO INÚTIL

O decadentismo finissecular constitui uma das correntes mais identificáveis no texto de Santos. O conceito de decadência, tal como foi elaborado por Max Nordau (1892; 2004) e depois ressemantizado pelos próprios artistas que o reivindicavam — de Huysmans a Wilde —, implica uma espécie de inversão axiológica deliberada: aquilo que a moral burguesa condena como desperdício, esterilidade ou futilidade torna-se, no imaginário decadentista, o valor supremo. A beleza inútil é a única beleza autêntica; a arte que não serve é a única arte que verdadeiramente é.

Esta lógica opera com plena evidência na estrutura anafórica do poema. A secção intitulada “Para Nada” constitui o pivô semântico do texto: “Para nada / a não ser / para celebrar / o futuro / de um passado / que não aconteceu”. A formulação é, ela própria, decadentista no seu preciosismo paradoxal: celebrar um futuro de um passado que não existiu é uma operação temporal absolutamente antiutilitária, um investimento afectivo e estético num objecto inexistente. Huysmans, no seu À Rebours (1884; 2011), havia já descrito protagonistas que alimentavam as suas paixões com objectos imaginários, flores artificiais mais perfeitas do que as naturais e prazeres construídos na ausência de qualquer referência empírica. O sujeito de “Dança da Solidão” opera na mesma lógica: “enganar-me / docemente / em encontros / inventados”.

A linguagem do tédio — o spleen baudelairiano transposto para o presente poético — está igualmente presente na imagem do sujeito que vai “por aí / sem saber / pra onde vou, desaparecendo / na montra” dos seus “inúteis passeios pela arte”. A deambulação sem destino é, desde Baudelaire (1857/2006), uma das figuras canonicamente associadas ao artista moderno que não encontra lugar na cidade utilitária: o flâneur aqui interiorizou-se, passando a deambular pelos espaços da própria arte e da própria memória, não pelas ruas. Este processo de interiorização é precisamente o que distingue o decadentismo do romantismo — a demanda não é exterior, mas endoscópica.

O motivo da despedida — “ritual inútil / de uma eterna / despedida / em poético / engano” — sela o poema com a tonalidade característica do world-weariness finissecular. Segundo Calinescu (1987), o decadentismo partilha com o romantismo tardio a consciência da exaustão histórica, mas radicaliza-a: enquanto o romântico ainda espera uma redenção ou uma reconciliação, o decadente sabe que a despedida é eterna e que o engano é o único horizonte disponível. Santos captura esta consciência com notável precisão.

  1. IMPRESSIONISMO LITERÁRIO:
    O ESTADO DE ALMA COMO FORMA

Se o Decadentismo fornece o clima axiológico do poema, o Impressionismo Literário determina a sua estratégia formal e perceptiva. O Impressionismo, no domínio da literatura, designa uma orientação estética que privilegia a impressão subjectiva sobre a representação objectiva, o estado de alma sobre o evento externo, a fragmentação sensorial sobre a narrativa causal. Esta orientação, que em Portugal encontrou expressão paradigmática em Cesário Verde e, de forma mais radicalizada, em Mário de Sá-Carneiro, está profundamente inscrita na textura do poema de Santos.

O verso mais exemplar desta orientação é, sem dúvida, “perdendo-me / na acústica / dos ecos / silenciosos / da alma”. A formulação é paradoxal na sua lógica sensorial — ecos silenciosos são, por definição, uma contradição em termos —, mas é precisamente este oxímoro que define a percepção impressionista: a experiência interior tem uma acústica própria, audível apenas pelo sujeito que a vive, e essa acústica não é nunca redutível à linguagem denotativa. Bergson (1896; 2006), cuja filosofia da duração (durée) constitui o substrato teórico mais pertinente para compreender a temporalidade impressionista, argumentaria que a consciência é um fluxo contínuo e heterogéneo que o discurso intelectualizado inevitavelmente distorce. O poeta impressionista tenta capturar esse fluxo antes da distorção conceptual.

Esta preferência pelo estado de alma sobre a acção situa o poema de Santos na linhagem do que Levin Schücking (1944) designou como “lirismo introspectivo ” e que a teoria do Impressionismo literário — tal como sistematizada por Stowell (1980) — identifica como a subordinação do mundo exterior às modulações da consciência percipiente. O sujeito do poema não relata acontecimentos; regista antes as ondulações de uma subjectividade que se sente sem se ver, que intui a musa “cá dentro” mesmo quando já não a vê “lá fora”. A distinção topológica entre interior e exterior é, ela própria, uma das marcas formais mais reconhecíveis do Impressionismo literário.

A imagem do poeta “que levita / sobre os escombros / de uma casa / que nunca / construiu / sobre os alicerces / da dor” é um exemplo magistral desta fenomenologia da percepção interior. A levitação não é um fenómeno físico, mas um estado de suspensão perceptiva: o sujeito encontra-se entre o que existiu (os escombros) e o que não chegou a existir (a casa), numa posição de indeterminação que é, afinal, a posição constitutiva do artista impressionista — sempre entre a impressão fugaz e a forma que a cristaliza e inevitavelmente a trai.

  1. A INFLEXÃO FILOSÓFICA:
    SCHOPENHAUER, NIETZSCHE
    E O ENGANO POÉTICO

Subjacente ao poema de Santos opera uma tensão filosófica de natureza schopenhaueriana e nietzschiana que não se manifesta em citação directa, mas em estrutura temática profunda. Schopenhauer (1819; 2005) sustentou que o sofrimento é a condição ontológica fundamental da existência consciente, dado que a Vontade — princípio cego e irracional que anima o mundo — se manifesta nos seres individuais como desejo perpétuo e insaciável. A arte, e em particular a música, constituiria o único domínio em que a Vontade se suspende momentaneamente, proporcionando ao sujeito uma libertação transitória do sofrimento.

No poema de Santos, esta lógica schopenhaueriana está presente, mas com uma inflexão irónica significativa. A dança — “pas de deux / com meus poemas / desenhados / a preto e branco” — é apresentada como o único “ao menos” disponível: não uma redenção, mas uma gestão do irredimível. O sujeito não acede à suspensão da Vontade pela via da arte; acede, tão-só, a uma dança que acompanha a sua própria exaustão. A arte não liberta — emaranha: “enredado / nos mil fios / da fértil / imaginação”. O vocabulário da teia e do enredamento é precisamente o inverso da libertação schopenhaueriana.

É aqui que a inflexão nietzschiana se torna relevante. Em O Nascimento da Tragédia (1872; 1997), Nietzsche propôs que a arte não fosse suspensão da Vontade, mas afirmação dionisíaca através da ilusão. O artista não se liberta do sofrimento pela contemplação; antes o transforma em criação, assumindo o engano como fundamento produtivo. O poético Engano com que fecha o poema de Santos é, nesta leitura, uma formulação nietzschiana: a consciência do engano não invalida a dança; a dança é exactamente o engano consciente e aceite, o Schein (aparência, brilho, ilusão) que a estética nietzschiana reabilita como condição de toda a criação.

O sintagma poeta-pintor do ocaso é, neste contexto, extraordinariamente denso. O ocaso é, em Nietzsche, não apenas o crepúsculo, mas o lugar do Untergang — a descida que é também a condição do reerguimento, como Zaratustra desce da montanha não para regressar ao que era, mas para se ultrapassar. O poeta de Santos não desce em direcção ao super-homem — é mais pessimista do que isso —, mas o seu ocaso é vivido esteticamente, como paisagem e como performance, o que o aproxima do gesto nietzschiano de estetização da decadência em vez da sua pura negação.

  1. RESSONÂNCIAS MARGINAIS:
    DADAÍSMO, NEOCONCRETISMO
    E PSICADELISMO

Uma leitura rigorosa do poema deve igualmente cartografar aquilo que nele não está — ou está apenas como eco distante. O Dadaísmo, tal como Bürger (1974; 2012) o teorizou no quadro mais amplo da teoria da vanguarda, define-se pelo gesto performativo de negação da instituição-arte: o nonsense, a colagem, a descontinuidade radical, a recusa da organicidade da obra. Nada disto está presente em “Dança da Solidão”. O poema é formalmente coerente, sintaticamente controlado e semanticamente orgânico. A sua ironia é reflexiva, não performativa; a sua auto-ironia é melancólica, não destrutiva. O sujeito não nega a arte — lamenta a sua impossibilidade, mantendo intacto o desejo de a fazer. Esta posição é, nos seus fundamentos, anti-dadaísta.

Quanto ao Neoconcretismo, a referência a poemas desenhados a preto e branco e a fios poderia sugerir, superficialmente, uma aproximação ao universo das artes visuais experimentais e à tradição neoconcreto-construtivista do poema-objecto. Contudo, estas imagens funcionam no poema como metáforas da existência interior do artista — da sua auto-inscrição no mundo — e não como propostas de interacção participativa ou de dissolução da fronteira obra/espectador, que são as marcas centrais do movimento neoconcreto brasileiro tal como definido no Manifesto Neoconcreto de 1959 (Gullar et al., 1959).

O Psicadelismo, finalmente, apresenta-se como uma leitura contemporânea plausível à luz de certas imagens — levita sobre os escombros, a teia em que a vida vai sendo enredada, a dissolução do eu na montra dos passeios inúteis. Estas imagens têm, com efeito, uma qualidade onírica e associativa que ecoa certas estéticas psicadélicas. Mas a afinidade é apenas tonal: o poema não contém nenhuma referência histórica à contracultura dos anos sessenta, nenhuma alusão à experiência psicotrópica, e o seu modo de dissolução do eu é essencialmente schopenhaueriano (a superação da individuação pela dor e pela arte) e não expandido por alteração artificial de consciência. Como alertou Roszak (1969/2004), a contracultura psicadélica partilhou com o misticismo oriental uma recusa da razão instrumental que não encontra paralelo na racionalidade melancólica do sujeito de Santos.

  1. CONCLUSÃO: A POÉTICA DO OCASO
    COMO FORMA DE PERMANÊNCIA

“Dança da Solidão” é um poema de rara densidade intertextual e filosófica, que articula, com mestria formal notável, os principais vectores do Fin-de-Siècle decadentista e do Impressionismo Literário, enquanto incorpora, em plano subtextual, a tensão filosófica entre a estética da suspensão schopenhaueriana e a poética do engano nietzschiana. A sua força reside precisamente na consciência de que a dança não salva — mas dança-se ainda assim, e é nessa persistência que o sujeito lírico acede, paradoxalmente, a uma forma de permanência.

A expressão “ritual inútil / de uma eterna / despedida” é, afinal, a formulação mais precisa desta poética: a despedida que se repete eternamente não é uma despedida — é uma presença sob a forma da ausência, um estar que se diz como partir. Esta contradição constitutiva é aquilo que Blanchot (1955/2011) designou como o espaço literário por excelência: o lugar onde a linguagem atinge o seu limite e, nesse limite, se mantém.

Dança-se com ecos silenciosos, levita-se sobre escombros de casas não construídas e celebra-se o futuro de um passado que não aconteceu. Mas dança-se. E essa dança — esta poesia — é a única casa que o poeta de facto construiu: a de linguagem que nomeia a sua própria impossibilidade e, ao nomeá-la, a supera. A solidão torna-se, assim, não a ausência de companhia, mas a condição de uma companhia mais essencial: a do próprio poema que se faz ao dançar.

REFERÊNCIAS

BAUDELAIRE, C. (2006). As flores do mal (P. Tamen, Trad.). Assírio & Alvim. (Obra original publicada em 1857).

BERGSON, H. (2006). Matéria e memória: Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito (P. Neves, Trad.). Martins Fontes. (Obra original publicada em 1896).

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NOTAS

NOTA 1.
SOBRE O AUTOR

André Moshe P. Veríssimo (AMV), PhD, professor universitário, investigador, ensaísta e compositor, é Presidente do Conselho Fiscal do IRMEX. A sua obra, cerca de 30 livros e centenas de artigos, situa-se na intersecção rigorosa entre a fenomenologia continental (Levinas, Ricoeur, Merleau-Ponty), a tradição literária portuguesa (Camões, Pessoa, Guerra Junqueiro, Cesário Verde) e o pensamento judaico (Rosenzweig, Buber, fontes talmúdicas e cabalísticas), configurando aquilo que se pode designar como uma hermenêutica da hospitalidade: uma leitura do mundo em que o texto filosófico, o poema e a partitura musical são três modalidades de um mesmo gesto — o acolhimento do Outro na sua irredutibilidade. A análise deste poema demonstra, mais uma vez, que AMV lê a poesia como quem lê uma partitura: atento não apenas ao que se diz, mas ao que se cala entre os versos, ao silêncio que pesa tanto como a palavra, à respiração entrecortada dos versos curtos que é, em si mesma, o corpo-próprio do poema.

NOTA 2.
SOBRE A PUBLICAÇÃO

Hoje volto a publicar outro ensaio de André Moshe Veríssimo sobre a minha poesia, a partir do poema “DANÇA DA SOLIDÃO”, numa análise comparativa com as grandes correntes estéticas. Podendo-se ler este este artigo como se fosse o eco reflexivo, em diferido, do poema de domingo passado, justifica-se assim esta inovação editorial num processo que já tem cerca de dez anos, mas sem deixar de se repropor, no fim do artigo, o próprio poema em análise. O texto foi-me enviado no próprio domingo em que publiquei o poema (26.04.2026) e tomei a decisão de voltar a propor ao autor a sua publicação hoje, aqui. O que voltou a ser aceite. Muito obrigado, André. JAS@05-2026

NOTA 3.
O POEMA

“DANÇA DA SOLIDÃO”

PARA QUE SERVE
A poesia
Se não a sentes
Por dentro?
Para que serve
A pintura
Se não a contemplas
Com a alma?
Mas para que sirvo eu,
Poeta-pintor
Do ocaso,
Se já não vejo
A musa
(Lá fora),
Mesmo que a sinta
Cá dentro
(Como agora)?

PARA NADA,
A não ser
Para celebrar
O futuro
De um passado
Que não aconteceu,
Perdendo-me
Na acústica
Dos ecos
Silenciosos
Da alma,
Enganar-me
Docemente
Em encontros
Inventados,
Ir por aí
Sem saber
Pra onde vou,
Desaparecendo
Na montra
Dos meus inúteis
Passeios
Pela arte
Onde procuro
Teimosamente
Tudo aquilo
Que já não sou.

AO MENOS DANÇO
Em “pas de deux”
Com meus poemas
Desenhados
A preto e branco,
Enredado
Nos mil fios
Da fértil
Imaginação
Do poeta-pintor
Que levita
Sobre os escombros
De uma casa
Que nunca
Construiu
Sobre os alicerces
Da dor.

É A DANÇA
Da solidão,
Com a musa
Suspensa
Nos fios
Da teia
Em que vou
Enredando
Poeticamente
A minha vida,
Até tombar exausto,
Ao cair do pano,
Ritual inútil
De uma eterna
Despedida
Em poético
Engano.